Mar de esquecimento
1 Mar de esquecimento
Nos últimos tempos, andara se perguntando se suas mãos eram realmente tão grandes como pareciam ser, mas, no momento, elas nunca lhe pareceram tão pequenas.
Na verdade, seu corpo em um todo parecia absurdamente minúsculo. Até mesmo os ombros largos que sempre implicava tanto.
Desde que saiu de casa, estava pensando em como era apenas um pontinho no meio do planeta terra, algo sem relevância.
A pulseira infantil foi a primeira a mergulhar no mar de esquecimento. Era como uma tradição em sua família, todos ao nascer ganhavam uma joia com seu nome escrito.
A de Brenda estava escrito “Lucas”.
Nunca gostou daquela pulseira. Também não queria que alguém a tivesse em mãos quando partisse.
A grade em que se segurava parecia ser feita do mais frio metal encontrado no mundo. O vento gélido que estapeava de leve seu rosto também não ajudava muito para a cena em questão.
Fechou os olhos por um momento.
Respirou profundamente o ar.
Pela primeira vez em tempos, sentiu-se livre.
Realmente livre.
Mas era um tipo de liberdade dolorosa. Sabia que vinha com um preço.
Não levava mais nada nos bolsos, nem nas mãos. Seus pés estavam nus. Achou interessante percorrer o caminho todo até ali sentindo o chão em que tocava. Havia largado os tênis pouco depois de ter arrancado a bateria do celular que não parava de tocar e joga-lo na primeira lata de lixo que havia encontrado.
Encarou os pés.
Sujos.
E doloridos.
Nada bonito.
Não que realmente importasse.
Para a ocasião, decidira usar sua camisa mais velha do Nirvana e um jeans rasgado nos joelhos. Em parte porque sabia que isso irritaria sua mãe, mas não era como se tivesse passado muito tempo em frente ao guarda-roupas e se perguntando qual seria a roupa ideal para o momento.
Gostava de música, amava, na verdade. Amava ainda mais quando sentia que o compositor colocava um pedaço de sua alma nas canções. Aquela sensação de você estar sendo privilegiado de poder ler uma parte da mente de alguém apenas com algumas rimas e uma melodia de fundo era simplesmente maravilhoso. E Kurt Cobain era exemplo disso.
Então nada mais justo que usar um símbolo de sua banda favorita e que a fez chorar enquanto ouvia as músicas depressivas e pensava realmente em como apenas queria socar a cara de alguém, como se realmente fosse culpa de algum individuo em especial por o mundo ser tão injusto a ponto de obrigar uma pessoa a viver uma identidade que simplesmente não é dela.
Uma história em que não é o protagonista.
Porque todo mundo precisa ser protagonista de alguma história, do contrário, você sempre será coadjuvante, ou aquele personagem que só aparece quando alguém precisa de um ombro para chorar.
E acontece que Brenda sempre deixava que chorassem em seu ombro e mostrassem sua dor, mas quando era para acontecer o contrário, simplesmente disseram que estava ficando maluca.
Abominação
Eu criei um filho, não isso!
Você saiu do meu útero como homem e vai morrer assim, Lucas.
Tudo bem então.
Por um momento, a dúvida de quê sua família realmente cumpriria com seu último desejo veio em sua mente. Mas, de qualquer maneira, não era realmente necessário.
Encarou o mar de esquecimento uma última vez antes de virar-se. Agora, de costas, encarou o céu escuro da noite. Respirou mais uma vez. Apertou as mãos no metal da grade.
Pensou, então, que há tempos já estava em um mar de esquecimento.
Talvez tenha sido por isso que não precisou fazer muito esforço para soltar a grade.
Brenda morreu e Lucas nunca nasceu de verdade.
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Irmã,
Estou escrevendo isso porque acho que você é a única pessoa que merece uma explicação. É a única da família que realmente não apontou o dedo para mim e me declarou culpada de algum tipo de crime que sinto que não cometi. Mas há tantas pessoas dizendo coisas terríveis que não tenho mais certeza de minha inocência.
E, se está lendo isso é porque algo aconteceu comigo e você sabe.
Me desculpe.
O que quero dizer é: não sinta como se você pudesse evitar o que aconteceu.
Tenho certeza que fará isso, mas estou pedindo com a maior sinceridade que tenho em meu coração que não o faça. Não carregue peso algum em sua vida pelo que aconteceu comigo.
No momento, sei que estou apenas ganhando minha liberdade. Quero que pense assim também.
Eu sinto sua hesitação quando olha para mim. Não sabe como me tratar, mas sei que se esforça, e agradeço por isso. Significa demais para mim. Não consigo citar outra pessoa que tenha feito o mesmo.
E, antes que me esqueça, não culpe nosso pai, muito menos nossa mãe. Ela é como um papagaio que está sempre no pescoço dele, repetindo as mesmas coisas.
Esqueça disso.
Tenho algo importante para dizer. Não quero que minha morte seja em vão. Pelo menos não totalmente. Semana passada vendi todos os meus livros e coleções de DVD pela internet e consegui uma boa grana. Tudo o que preciso é que você os leve ao correio. Já empacotei tudo. Com o dinheiro que irá receber depois, quero que doe para alguma instituição que ajuda adolescentes transgêneros. Sei que não é muito, mas apenas quero ajudar pessoas que estão na mesma situação que eu já estive algum dia.
Minhas mãos estão tremendo, desculpe pela letra horrível. Você chegará da escola daqui há quarenta minutos e eu preciso ir embora antes que perceba que não estou em casa e vá procurar por mim.
Uma coisa curiosa que descobri hoje é que Brenda significa “espada”, “pequeno corvo”, “princesa” ou “chefe”. Pequeno corvo é irônico porque sempre quis fazer a tatuagem de um corvo nas costas. Disse isso quando tinha uns doze anos. E você disse que ficaria legal, enquanto nossa mãe disse apenas que nunca admitiria aquilo. Agora penso na analogia que podemos fazer com isso.
Nunca vou fazer minha tatuagem de corvo, mas vou carregar isso em meu nome.
Meu último pedido é que meu corpo seja cremado, por favor. E, se puder jogar minhas cinzas no mar, ficaria mais agradecida ainda. E desculpe pelo incomodo.
Diga aos nossos pais que sinto muito por não ter sido aquele filho cristão e “de bem” que imaginaram que eu seria quando tudo o que sabia fazer era babar em mim mesma. Eu sequer sabia caminhar por conta própria e já haviam decidido como eu deveria ser. Mas está tudo bem.
Nos últimos meses, quando finalmente “saí do armário” o que mais tenho pensado é como vivemos a vida baseada em opiniões alheias. Por favor, por favor, por favor, viva a vida para você, não para os outros, é só o que realmente peço. Se for preciso, desconsidere qualquer pedido vindo de mim, mas cumpra esse, de verdade, é o que eu gostaria de conseguir fazer. Me sinto estúpida em ter que admitir que, mesmo depois de ter ouvido tudo aquilo de nossos pais, só conseguiria viver uma vida feliz com a aceitação deles, no mínimo.
Viva, irmã.
Com amor,
Brenda
Notas finais
Se puder deixar seu comentário, eu ficaria bem feliz. Ah, me desculpem por qualquer erro. Eu revisei mas sempre fica alguma coisa.
Paz, amor e empatia ♥
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