Mar Gelado
1 Mar Gelado
Notas iniciais
Primeiro eu vi os cavalos marinhos.
Segundo eu vi o fogo queimar na água.
Terceiro eu vi você perder a cabeça. Literalmente.
Todas essas coisas,em sequência. O céu era tão verde quanto o mar,ou seria o sal em meus olhos o que me fez ver o céu desta cor? O cavalo marinho era tão pequeno que caberia em um pote de vidro se eu estivesse disposto a leva-lo para enfeitar minha sala de estar. Como eu fui pensar nisso numa hora dessas ? Aliás,como eu fui pensar?
Já pensei em tantas coisas enquanto corria risco de vida. Já pensei em morrer enquanto risco nenhum eu corria. Já pensei em morrer,apenas. Todavia nunca pensei em morrer afogado, ou congelado por causa do frio que corta sua alma. A minha frente algo vermelho brilha sobre a água.
Eu era um garotinho pequeno quando papai me deu meu barquinho azul. Era natal.
–Pra mim? — dei pulinhos de alegria. Meu pai era o cara mais natalino que já existiu. Eramos pobres,mas o natal nunca passava em branco. Nem que ele me desse apenas uma corrente feita de conchas.
–Pra você — disse , mostrando seus dentes manchados de café. Seus dentes eram algo belo,se quer saber. Ninguém tinha dentes com manchas avermelhadas,como se fossem feitos de um tipo raro de pedra. Era quebradiço,fragil,as vezes parecia que o vento poderia levar seu sorriso.
–Mesmo?-perguntei ao pegar o barco de plástico.
–Pra você se lembrar de que o mar é pequeno se comparado com o amor que eu sinto.
–Mas o mar,não é pequeno,papai — concluí.
–Não,o mar não é — riu-se,enquanto o vento afastava seus dentes de mim,levando tudo.
Sempre quis que meu pai me ensinasse a velejar. Quem sabe pescar,ou apenas a diferença entre um navio e um barco.
Fogo na água. Isso nunca foi possível,acho. Até esse momento. Uma chama laranja dança a alguns metros para fora do oceano. O vento faz a chama ganhar vida,porém ela não se alastra. Em vez disso, algo se soltar da labareda. Um laço azul. Nesse momento é que eu percebo: cabelos ruivos. É ela, consigo reconhecer bem seus cabelo,mesmo eu estando assim tão grogue.
Nunca vi cabelos tão lindos,mesmo seu rosto estando em baixo da água,ainda é a coisa mais bonita que eu já vi em toda minha vida. O frio da água me faz acordar. Preciso ir até ela -rapido, Artur,a garota que você ama vai morrer! Mas como me mover aqui onde a água parece denssa como barro? Cada braçada é um minuto eterno que se passa. Cada pé batido sobre a água é um pedaço dela que morria. Posso sentir no peito sal e frio,além do garra de um urso arrando-o e dizendo que encontrarei um corpo vazio.
Ela não devia estar ali: achei que eu morreria sozinho. Eu e o cavalo que pensei em levar comigo. Mas o mar não é pequeno.
Eu disse:
Fica no barco,
Pedirei ajuda.
O Mar é grande,mas minha fé também é enorme.
Não saia do barco. De jeito algum. Eu vou nadar,
Cruzar o mar se precisar.
Ela disse enquanto limpava o choro com os cabelos ruivos:
Não me deixa,Artur.
Eu vou morrer, não quero morrer sozinha.
Não vamos morrer.
Não me deixa... — repetiu.
Eu dei um beijo em sua testa e me joguei no mar. Disse que já voltaria com alguém que nos ajudaria com o motor. Ela falou que me amava,e que não queria morrer,não sozinha. Continuei a nadar enquanto a voz dela começou a sumir. Nadei até meus pulmões explodirem por causa do sal. Então eu só via ondas verdes por todos os lados. Nenhum pedaço de terra,nenhum barco,nenhum cais.
Quando aluguei a enbarcação,me disseram para não ir muito longe,permanecer o mais perto da costa que eu conseguisse. Era para ser a lua de mel perfeita. Eu e ela, juntos. Finalmente. As vezes o destino é tão impiedoso quanto a tempestade que arrastou o nosso barco para longe da costa. Eu não tive escolha, não me ensinaram que numa tempestade se deve abaixar a ancora e não entrar para dentro do convés. Foi bonito ver a chuva cair lá fora, estavos embalados pelas ondas,como se fossemos ambos recém-nascidos em um berço.
Eu não tive escolha. As águas nos levaram até a tempestade passar — a noite foi embora sem que percebessemos. A beleza dos lençois ondulando,o brilho laranja do cabelo de Alexandra, um beijo após outro, a chuva que ia parando aos pouquinhos — tudo isso fez com que esquecessemos que estavamos indo embora,afastando cada vez mais da terra firme.
Um dia haverá na sua vida uma chuva forte,tão intensa que vai te levar para longe de tudo o que antes era importante. Fará o barco balançar,ou até afundar. Talvez o motor que move todas as emoções pare de funcionar. Quem sabe esse dia faça de você uma pessoa anestesiada,apática.
Como em um sonho, a água parece pesada feito ferro liquido. Cada vez mais longe de Alexandra eu pareço estar, as ondas devem estar me puxando para o lado oposto.
Ela está sem ar. Sufocada feito no dia em que precisou dizer sim para uma aliança numa caixinha de veludo. Não saia palavra de seus labios. Ela procurava ar,mas não vinha. Então as lagrimas desceram, pensei ter feito algo errado. Agora ela não procurava ar. Ela era só vermelho.
Quando chego perto o suficiênte de Alexandra, puxo seus fios,fazendo seu rosto emergir.
Primeiro vem o nariz cheio de sangue, depois a boca pálida. Ela está com uma expressão de medo no rosto — o máxilar formando um ovo,os olhos abertos.
Puxo seus cabelos mais para cima,acabando uma duvida que surgiu. Ela estava leve demais. Como se fosse do peso de um melão. Nós vamos morrer,lembrei do que ela tinha dito. Eu vou morrer. Ela não. Não outra vez...
Enquanto levanto sua cabeça até ficar fora das ondas vejo que o pescoço está arrancado fora do resto do corpo. O grito de pavor sai de dentro do meu peito, giro em a procura do corpo. O que acho é uma criaturinha cinza se aproximar. Ao seu lado, outro. Um casal de tubarões. Deixo Alexandra cair no mar. Seus cabelos ruivos ondulam uma última vez antes de quicar no mar.
(Todos os gemidos que guardei por uma vida inteira sairiam se eu não tivesse assim tão seco,sem voz,sem ar. — Bocas afiada,sintam meu sabor ,se é que agora existe em mim algum — peço bem baixinho. É o suficiente. )
Fecho meus olhos .
É engraçado saber que vai morrer,a sensação é diferente do que imaginava que seria. Não há resistência,não depois de ter perdido a mulher que eu amava. Agora eu quero — não, essa palavra é frágil pra essa nova sensação,preciso — morrer.
Uma sinfonia de dentes abrindo e sendo fechados toma conta do som de todas as outras coisas. Que belo seria se ela ainda
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