Mar De Fogo
7 Percepção
Uma luz chata atingiu meus olhos, machucando minhas retinas, e por um momento eu quase acreditei que estava na minha mansão e meu mordomo havia escancarado as cortinas como costumava fazer para me arrancar da cama. Eu tinha a péssima – segundo meu pai – mania de trocar o dia pela noite. Só que logo a realidade me atingiu e eu percebi que estava dormindo em um quarto simplório, de paredes de pedra, e que toda aquela história sobre ser raptado não havia sido um mero pesadelo.
Afastei o lençol que me cobria e arregalei os olhos ao notar que estava nu.
“Mas o quê...?” Balbuciei nervoso, antes de minha mente nublada recordar os acontecimentos mais recentes. Suspirei, lembrando que havia me enrolado em um lençol e me refugiado no pequeno quarto do segundo andar daquela casa. Eu vi a cama e acabei caindo praticamente morto nela, cansado e dolorido de todo o trabalho que tive para limpar aquele navio fedorento.
Com um suspiro, me levantei e fui até o armário de gavetas velho e meio empoeirado que havia no quarto, e fiquei aliviado em encontrar algumas roupas que não pareciam tão grandes. Peguei uma calça de tecido marrom e uma camisa de botões com mangas largas, e calcei umas botas velhas pretas, que ficavam um pouco largas em mim, mas era melhor do que ficar descalço.
Por sorte meus cabelos sempre foram extremamente lisos, então foi fácil desembaraçá-los e prendê-los com um elástico que encontrei nas gavetas. Olhei ao redor, e um quadro estranho, com o rosto deformado de um homem negro, chamou-me atenção. Fui até ele e o observei, sentindo o dedo em que eu colocara o anel latejar.
Toquei o quadro, roçando a ponta de meus dedos pela superfície antiga, e tomei um susto quando, talvez por alucinação de minha parte, os olhos de rubi de meu anel piscaram, e o quadro caiu no chão, relevando uma espécie de cofre. No entanto, a abertura estava estragada e eu o abri com facilidade. Para minha decepção, havia apenas uma adaga antiga ali, de cabo e, estranhamente, lâmina negra opaca. Sem pensar muito, eu a guardei cuidadosamente para o caso de Santiago resolver se aproximar mais de mim outra vez, fechei o cofre e recolei o quadro no lugar, sentindo-me estranho, algo opressivo me arrepiando a nuca.
Desci as escadas me sentindo como um fora da lei, me esgueirando silenciosamente e espiando para ver se havia alguém por perto. Felizmente não havia ninguém e eu cheguei a sair pela porta da frente, decidido a encontrar uma maneira de fugir, mas um ‘guarda’ surgiu absolutamente do além e me impediu.
“Você deve ficar na casa, ordens do capitão Santiago.”
Torci os lábios deixando claro o meu desdém e voltei para dentro. Alguns diriam que eu deveria ter usado meu canivete e lutado pela minha liberdade, mas o cara era ainda maior do que o Santiago e tinha uma arma no coldre preso à cintura. De jeito maneira eu me arriscaria a levar um tiro no meio da testa.
Resolvi tentar escapar pelos fundos da casa, pela varanda que se abria para a água presa nas pedras. Olhei com repugnância para o local, lembrando de como Santiago havia me molestado ali dentro, e pulei da varanda para uma pedra e então para a areia da praia, que estava quente pelo sol da manhã.
Dei alguns passos seguindo o rochedo que atingia uma altura enorme, pensando que a reação do meu corpo no dia anterior era absolutamente explicável pelo tempo que eu estava sem transar. Não saberia precisar os dias, mas fazia um bom tempo desde que eu havia deixado a Inglaterra com meu pai. Não havia ido para cama com nenhuma prostituta de Hispaniola, porque só Deus sabe quantas doenças elas deveriam ter, já que se envolviam com qualquer tipo de gente. Era isso. Meu corpo sentia falta de sexo. Santiago me tocou em lugares estratégicos, e meu corpo respondeu.
Nada de mais até aí. Nada fora do comum. Eu não sentia atração de verdade por ele.
Aliviado por entender isso, tomei um susto ao ouvir a voz de alguém vindo do rochedo.
“Aonde você pensa que está indo?”
Olhei para o lado com o coração aos pulos, mas revirei os olhos ao reconhecer Terrence, sentado num vão na rocha enquanto quebrava algumas amêndoas numa mão. Havia um montinho de cascas aos pés dele e um saquinho de amêndoas ao seu lado. Ele me olhou com seus miúdos orbes negros.
“É bom que não esteja pensando em fugir, ou senão eu levaria a culpa.” Levou mais algumas amêndoas à boca. “Está servido?”
Terrence percebeu meu olhar de dúvida entre aceitar a oferta – eu não comia direito há dias e minha cabeça latejava de fome a cada novo ronco do meu estômago –, ou correr o mais rápido que podia em direção a lugar nenhum.
“Se você correr, eu vou ter de correr atrás de você e, é sério, eu odeio correr. Desde que levei um tiro no joelho, dói para caramba.” Terrence reclamou. “Então seja um bom menino e pegue umas amêndoas. Estão ótimas.” Ele jogou algumas para mim.
Resignado, eu fui sentar ao lado dele.
“Então te colocaram de guarda?” Perguntei apenas para puxar assunto, já que a resposta era lógica.
“Eles devem estar preocupados mesmo a com possibilidade de você fugir. Sinceramente, não entendo por que eles se importam tanto, já que agora você é um prisioneiro completamente inútil.” Terrence resmungou. Eu tentei não me ofender com a parte sobre eu ser inútil.
“Você mesmo falou que o Santiago me queria para amante.” Retruquei amargo. Os acontecimentos recentes apenas reforçavam esse fato. Estremeci ligeiramente.
“É, mas com você tão determinado a fugir, não teria por que eles te prenderem, mesmo que o Santiago esteja interessado nesse teu rabo inglês.” Explicou com a boca cheia de nozes.
“A Nena! Ela disse que eu vou ser importante. Ela... Nós íamos desembarcar, mas então ela gritou e os olhos ficaram brancos, mas eu fui puxado para longe dela antes que pudesse entender o que estava acontecendo. Depois o Santiago falou algo sobre ela ter delírios. O que isso quer dizer?” Praticamente atropelei todas as palavras, incapaz de conter o fluxo de ideias na minha mente.
Terrence soltou um grunhido, como se sentisse dor, e depois respirou profundamente.
“Esse é um assunto que os piratas não discutem.”
“Por quê?!” Fiquei morto de raiva ao vê-lo quebrar mais algumas amêndoas e comê-las, ignorando-me completamente no lugar de responder. Um caranguejo enorme apareceu, trotando desengonçado pela areia próximo ao rochedo, e eu puxei meus pés, com medo de ter algum dedo arrancado. Terrence nem deu bola. “Diga o que você sabe!”
Ele soltou uma risadinha nasalada.
“Ou você o quê?” Provocou.
“Ou eu... Vou dizer ao Santiago que você tentou me molestar.” Sorri amarelo.
Ridículo! Eu sei, um completo absurdo! Eu jamais faria isso, para começar que assim parecia que eu era realmente o amante intocável do Santiago, mas eu não tinha escolha. O Santiago havia dito para todos no navio que ninguém deveria me tocar; Terrence provavelmente se lembrava bem disso.
Dito e feito, a cor desapareceu do rosto do meu ‘amigo’.
“Você é mais esperto do que eu imaginava...” Terrence cuspiu na areia. “Por que você acha que todos respeitam tanto uma menina feito a Nena? Ninguém discorda que ela luta feito uma fera e que tem uma pontaria de dar inveja, mas às vezes nem isso é o suficiente para despertar tanto respeito, e até medo...”
Eu o olhava fixamente, com a testa franzida. Nena despertava medo na tripulação?
“Alguns dizem que ela é uma feiticeira que resolveu virar pirata, por causa da irmã – ela costuma falar sobre essa tal irmã quando fica bêbada –, e que ajuda o Santiago com as mandracas dela. Ninguém se mete com a Nena por medo de levar uma maldição nas fuças. Não é à toa que o Santiago a colocou como Imediata. Desde então, nunca mais ninguém brigou na hora de dividir o saque.” Terrence parecia genuinamente tenso ao falar sobre o assunto, os olhos tremulando daquela maneira furtiva que me dava nos nervos.
“Ela comentou algo sobre uma irmã para mim também...” Murmurei, pensativo, lembrando que ela rapidamente fugira do assunto quando o fez. Seria essa loucura verdade? Mas, não, não poderia ser. Feitiçaria é pura bobagem. Ou não? Era melhor pesquisar a fundo essa história. “Você acha que ela pode ter algum tipo de visão?”
“Vai saber!” Terrence deu de ombros, nitidamente desconfortável. “Uma bruxa pode ter muitos poderes. Agora cale a boca, não quero mais falar sobre isso.”
Ficamos em silêncio por algum tempo. Distraído, me vi tocando o anel em meu dedo. Era tosco e estranho, uma caveira torta com olhos de rubi, mas por algum motivo, me passou certa calma. Só então Terrence percebeu o anel.
“Negocinho sinistro.”
E eu nem podia discordar.
XxX
Tive de voltar para a casa, quando Terrence me enxotou para dentro, e fiquei algum tempo andando de um lado para o outro, tentando pensar no que fazer. Se a Nena fosse mesmo uma feiticeira – e eu achava essa ideia grotesca –, como diabos eu conseguiria fugir? Vai ver até por isso o Santiago descobriu tão rápido que eu estava com o governador. Nena poderia ter usado seus poderes loucos para me rastrear*.
Acho que eu teria aberto um buraco no chão, de tanto andar de um lado para o outro, se justamente a Nena não entrasse na casa e me desse um susto ao se aproximar pelas minhas costas e tocar meu ombro.
“A la putcha! O que você estava tramando aí nessa tua cabeçinha ruiva para ter pulado quase até o outro lado da isla?” Nena perguntou com as mãos na cintura, erguendo as sobrancelhas para mim. Mordi o lábio, analisando-a atentamente em busca de algum sinal que indicasse que ela era alguma feiticeira maluca, mas era difícil olhar para Nena e imaginá-la lançando maldições nas fuças de quem a desagradasse.
O máximo de suspeito que havia nela – tirando toda a parafernália pirata que usava, como a bandana vermelha na cabeça para segurar os cabelos, os cintos atravessados na cintura sobre o colete marrom, ou as armas no coldre junto com a espada –, era um colar cujo pingente era um camafeu com o desenho do perfil de um esqueleto feminino. Tremi ao olhar para aquilo mais atentamente. Ao reparar no que eu tanto olhava, Nena rapidamente o escondeu por trás das roupas, encarando-me com os olhos apertados.
“Vamos. Vou te tirar um pouco dessa casa.” Ela demandou, se aproximando de mim e dando-me um tapa inesperado na cabeça.
“Hei! O que foi que eu fiz?” Perguntei atarantado, massageando o local atingido por aquela mão pesada.
“Isso é por ter ido se esfregar com o governador!” Apontou um dedo para minha cara. “Arrê! Custava se comportar por mais de um dia?”
Nena me segurou pelo braço e começou a me arrastar com ela até as ruas agitadas de Tortuga.
Passamos por uma ponte para chegar até o lado da ilha repleto de bares, tavernas e casas de prostituição, onde os piratas trotavam de um lado para o outro, cuspindo, brigando ou mostrando os dentes tortos em gargalhadas espalhafatosas. Olhei para as crianças sujas e pobres que corriam pelas alamedas como baratas apressadas, talvez tentando encontrar algum pirata que as quisesse levar para trabalhar em seus navios, e me lembrei das ruas de Londres, em que crianças mal-vestidas corriam para levar recados de um ponto a outro e furtavam feiras ao ar livre com suas mãozinhas ágeis.
Fomos parar no mesmo lugar em que encontrei o governador, mas dessa vez não havia sinal dele por ali. Nena me levou até uma mesa em que estavam alguns dos piratas do navio do Santiago, todos almoçando pratos repletos de carne, batata-doce, palmito e abacaxi, entre outras coisas que definitivamente tinham um aspecto muito melhor do que a comida servida em alto-mar.
“Onde está o Santiago?” Perguntei cauteloso ao não vê-lo ali.
“Está em negociações. Precisamos de no mínimo mais três navios para ir conosco até...” Nena se interrompeu. Ela sempre fazia isso. Começava a falar demais, mas percebia antes de ir até o fim. “Sente-se e coma. É bom aproveitar enquanto estamos em terra firme, vai gostar de carne assada de pombo.”
Nena sentou ao meu lado, e eu me distraí comendo, sem me importar em não fazer parte da conversa idiota que aquele bando de piratas estivadores estava tendo. Noel estava ali, e só perdia no quesito ‘comer feito um porco selvagem’ para Pantoja, o cozinheiro. Arrotos e conversas barulhentas pareciam povoar todo o lugar, mas a nossa mesa certamente se destacava entre as mais ruidosas.
“Nena...” Chamei em certo momento, cansado de divagar comigo mesmo. Ela me encarou pelo canto no olho enquanto desfiava uma coxinha de carne entre os caninos afiados.
“O que é?” Perguntou de boca cheia.
“O que há no Forte de Chagres?”
Os olhos dela cresceram um pouco e ela se engasgou com a comida, precisando beber longos goles de rum para se recuperar da tosse seca. Esperei pacientemente que se acalmasse, limpasse a boca pequena com as costas da mão e me encarasse seriamente com seus brilhantes olhos castanho-claros.
“Anda escutando atrás da porta, boneca?” Recriminou.
“Não é minha culpa se você fala muito alto sobre coisas que não deveria...” Funguei, encolhendo os ombros.
Nena suspirou, olhando-me como se buscasse um motivo para que pudesse confiar em mim. Mantive minha expressão a mais neutra possível, mas de novo estava tocando com a ponta do polegar o anel em meu dedo. E a atenção de Nena se desviou para os olhos rubros da caveira. Tive a forte impressão de que seu rosto bronzeado tornou-se lentamente mais branco conforme encarava o anel.
“O quê-?” Perguntei quando ela levantou rápido, arrastando-me com ela até um lugar mais calmo do ‘Pétalas de Fogo’. E, assim que estávamos longe de olhares curiosos, Nena puxou minha mão e analisou de queixo caído o anel.
“Onde você conseguiu isso?!” Perguntou com a voz estrangulada e aguda. Parecia ter visto um fantasma; olhava hipnotizada para as pedras vermelhas, como se guardasse cada detalhe do anel.
“Eu comprei em Hispaniola, de um velho qualquer.” Puxei minha mão, sem entender aquele surto. “O que está acontecendo com você?!”
“Em Hispaniola? Você comprou?” Ela olhou desconfiada para o anel, talvez repensando a importância dele, mas então gargalhou de repente, sacudindo os ombros.
Nena se jogou nos meus braços e me deu um abraço sufocante – o qual só comprovava o quanto aquele corpo magro escondia sua força verdadeira; minhas costelas só faltaram estalar em protesto.
“Eu sabia! Sabia que não estava errada!”
“Mas de que porra você está falando?” Perguntei completamente aturdido. Eu já estava achando que ela era ou maluca, ou uma feiticeira maluca. Nena me soltou ainda segurando meus ombros. Ergueu os olhos e agora seu rosto estava tomado por um sorriso enorme; seu olhar era de alguém que havia encontrado todas as respostas de que precisava.
“Ainda não posso falar nada. Você não provou ser digno de confiança, boneca.” Seu sorriso amargou. “Por que você foi tentar fugir, hein? Será que não entende que não vamos matá-lo, e que ninguém em Tortuga vai te ajudar, nem mesmo por uma boa trepada?”
Ruborizei. Não era nada confortável descobrir que ela sabia sobre o que havia acontecido – ou quase acontecido – entre eu e o governador. Pelo que todos diziam, eu havia sido bastante ingênuo em acreditar no homem, mas que outra escolha eu tinha?
“Prove que quer ficar com a gente, do nosso lado, e aí quem sabe eu possa te contar...” Nena sussurrou conspiratória e inclinou a cabeça para perto de mim. “Santiago não confia em você.”
Torci o nariz. Como se eu me importasse. E como se em algum momento eu fosse querer ficar do lado de um bando de piratas fora da lei que haviam me raptado, roubado e, ainda, destruído a reputação do meu pai.
“E você confia?” Perguntei com um sorriso irônico. Nena me encarou com um olhar enigmático, brindado com um sorriso de quem sabe muito do mais do que aparenta, e soltou meus ombros.
“Confio.” Disse tranquila. “Venha, você ainda não terminou de comer.”
Eu estava pasmo enquanto ela me puxava de volta. Ela havia dito aquilo com tanta certeza, que cheguei a me sentir mal por não concordar; por não me sentir digno daquela confiança. Sentei e terminei de comer em silêncio, aproveitando o pouco de paz que eu ainda tinha ao ser deixado quieto no meu canto da mesa.
Principalmente porque... Minha paz iria acabar assim que eu visse Santiago.
XxX
Santiago chegou ao ‘Pétalas de Fogo’ mais sério do que nunca, com as sobrancelhas franzidas em concentração. Ele apenas me lançou um olhar rápido – que eu prontamente ignorei – e chamou Nena para um canto. Espiei cuidadosamente enquanto Nena, Fradique, Noel e Santiago conversavam. Eles pareciam mais estar brigando, para falar a verdade, apesar de cuidarem para não elevar demais o tom.
Santiago parecia frustrado. E não, eu não estava reparando. Ao menos não tanto.
“Eles são sempre assim?” Perguntei baixo para o cirurgião ao meu lado. Reno tossiu, encontrando a voz com alguma dificuldade. Era um senhor de idade avançada, me surpreendia que ainda aguentasse uma vida em alto mar.
“Eles resolvem tudo, o resto da tripulação segue as ordens.” Reno sorriu, olhando carinhosamente para todos eles. “São bons garotos. E Nena é uma espécie de irmãzinha para os três.” Ele tossiu um pouco mais, até precisar beber um longo gole de água para se acalmar. “Eles formam o grupo perfeito: Noel é a força bruta. Fradique, a estratégia. Nena, o bom-senso, a guia. Já Santiago...”
“Santiago?” Incentivei, erguendo uma sobrancelha. Reno ficou pensativo, afagando a barba rala do queixo enquanto sua careca parecia reluzir mais do que o normal.
“Santiago é um líder nato, e um líder precisa ser determinado, confiante e corajoso.” Reno balançou a cabeça. “Essas crianças. Lembro como se fosse ontem...”
“Você os conhece desde que eram crianças?” Perguntei surpreso, com minha curiosidade já inflamada. Reno assentiu, mas como todos daquela maldita tripulação, negou-se a falar mais sobre o assunto.
“A propósito, desculpe por denunciá-lo para o Santiago.” O olhei sem entender. “Você sabe... Vi quando o governador o abordou ontem.”
“Tudo bem...” Falei sem emoção.
Pelo menos não havia sido a Nena usando poderes estranhos para descobrir onde eu estava.
Ainda tentei arrancar mais informações de Reno mas, ao que parecia, eu ficaria no escuro até me provar digno de confiança. Para falar a verdade, era até surpreendente que eu estivesse ali solto, em vez de amarrado em algum porão. Talvez isso mostrasse que eles também queriam conquistar a minha confiança? Ou talvez fosse apenas a maneira deles de dizer que eu era tão insignificante quanto um inseto, e por isso não merecia a preocupação de ser mantido preso – o que faz muito mais sentido.
Suspirei, apoiando os cotovelos sobre o balcão do bar, enquanto pensava que o atendente da vez era extremamente similar ao grandalhão do bordel de Hispaniola que havia insistido que Santiago conseguiria fugir. Pareciam gêmeos, apesar de esse ser mais feio, com parte do nariz arrancado. O homem reparou na minha observação.
“O que está olhando, frangote? Se está querendo dar a bunda, devia colocar no rosto algo melhor do que essa expressão de puta ofendida.” Ele falou irritado, encarando-me com desprezo. Senti meu rosto esquentar de raiva e cheguei a me erguer do banco, pronto para dar-lhe uma resposta à altura, mas perdi a linha de raciocínio ao sentir alguém parar atrás de mim, inclinando-se sobre meu corpo enquanto apoiava os antebraços no balcão.
“Já está arrumando encrenca, bonequinha?” A voz sussurrada do Santiago atingiu o meu ouvido e meu corpo inteiro se arrepiou. Imediatamente tentei me afastar, mas ele me abraçou cruzando meus braços sobre o meu peito. “Esse aqui está sempre com uma careta de nojo estampada no rosto, Bartolomeu, mas não duvido que dessa vez a culpa tenha sido desse teu nariz aleijado.”
O tal Bartolomeu resmungou, xingando Santiago, mas não pareceu se importar realmente. O tom do Santiago era algo entre zombeteiro e brincalhão. Nem parecia que estava discutindo com os irmãos e com a Nena segundos antes.
Me remexi tentando me soltar enquanto Santiago pedia uma bebida, mas os braços dele pareciam dois tentáculos de pedra ao redor do meu corpo. E o pior é que eu nem conseguia mandá-lo me largar – os acontecimentos da noite anterior ainda me assombravam e eu estava constrangido demais por ter ficado excitado na frente dele. Por culpa dele. Eu ainda quero morrer por isso.
Santiago notou meu silêncio e voltou a colar os lábios contra minha orelha.
“Não vai me xingar, ou exigir que eu te solte?” Perguntou debochado. “Eu sabia que uma hora você ia se render, só não imaginei que seria assim tão rápido.”
“Cale a boca.” Rosnei reencontrando a voz. “Você é o pior. Gabando-se por nada. Sabe muito bem que não consigo me soltar, e que mesmo se eu pedisse, você não me soltaria. Só estou poupando saliva.” Falei, virando o rosto para o lado contrário ao dele. Mas Santiago escolheu me virar de frente para ele, já aproveitando para alcançar o copo de bebida sobre o balcão.
“Por nada? O que aconteceu ontem diz o contrário. Eu teria lhe mostrado como é sexo com outro homem – isso se você já não provou disso antes –, já que estava tão ansioso para ter essa experiência com o governador.” Ele desleixadamente tomou um gole da bebida forte antes de continuar. “Mas resolvi esperar até que você procure a minha cama por vontade própria.”
Eu estava engasgado com todas as asneiras que ele conseguia juntar em uma única frase. Eu pensava que não era possível, mas ele realmente conseguia fazer com que eu o odiasse cada vez mais e quisesse arrancar fora sua cabeça a machadadas. Bastava ele abrir aquela maldita boca.
“Eu nunca fiz nada com outro homem. Mas estava disposto a me sacrificar para me ver livre de você! E acho ótimo que tenha resolvido esperar. Vai criar teias de aranha ao seu redor e morrer de velhice enquanto espera que eu vá até você por vontade própria.” Me controlei para não xingá-lo de todos os palavrões mais escabrosos do mundo. Ele ainda parecia com um humor razoável e eu não queria irritá-lo a ponto de acabar mesmo amarrado em um porão. “E sobre ontem...” Puxei o ar, em busca de fôlego, já que minha respiração estava alterada. A mão boba dele em minha cintura e a maneira como mantinha suas esferas escuras fixas em meu rosto não me ajudavam a pensar direito. “Eu estou... há muito tempo sem sexo... só por isso é que eu... que meu corpo reagiu...” Desviei o olhar, irritado, sentindo meu rosto queimar de despeito.
Santiago gargalhou e eu trinquei o maxilar, tentando parecer inabalável e indiferente a tudo. Ele se inclinou para perto de mim, o hálito forte pela bebida recém tomada enchendo as minhas narinas.
“Então você acha que só ficou duro, porque não se deita com ninguém há muito tempo?” O tom dele deixava claro o quanto achava a minha teoria ridícula, passível de risos.
“É óbvio que foi por isso!”
Ele me encarou com aquele sorriso malicioso, convencido e debochado que me dava vontade de socá-lo para quebrar seus dentes. Eu achei que ele iria debochar um pouco mais, porém, no lugar disso, Santiago chamou uma das garotas, de seios apertados em um decote alto, com os cabelos loiros compridos cacheados caindo até os ombros desnudos, que circulava pelo lugar.
“Elisa, suba com esse daqui e dê a ele o melhor tratamento que tenha a oferecer. Eu e ele precisamos acabar com uma dúvida.” Santiago me empurrou para a garota, mas antes segurou meu braço e sussurrou em meu ouvido. “Não veja isso como uma oportunidade de fugir. Você sabe que não tem para onde ir.”
Eu o olhei pasmo, por cima do ombro, perguntando-me se havia enlouquecido, e permaneci estático enquanto a tal Elisa se enroscava em meu braço, apertando os seios fartos contra meu corpo. Santiago ergueu as sobrancelhas.
“O que está esperando? Pensei que gostasse de mulheres.” Sorriu torto.
Ele estava colocando minha masculinidade em dúvida. Apenas o olhei com repulsa e subi com a prostituta. Assim que entramos no quarto, a puxei e comecei a beijá-la, arrancando o vestido prendado o mais rápido possível. Queria provar logo de uma vez que minha teoria estava absolutamente certa, e que eu gostava sim, de mulheres. Sempre gostei. Sempre as enlouqueci na cama.
E com a Elisa não foi diferente. Nós transamos. Coloquei toda minha frustração em cada toque e fiquei aliviado por gozar dentro de uma mulher de novo. Elisa ficou estirada em êxtase sobre a cama, com um sorriso débil no rosto. Eu acabei pensando nos piratas com quem ela se deitava e me levantei, apressado por sair dali.
Elisa fez um beicinho.
“Mas só uma vez? Por que você não aproveita que o Santiago está pagando...?” Ela acariciou meu braço enquanto eu colocava minhas calças. “Você é tão bom com essa boca...”
“Só com a boca?” Puxei seu queixo e o segurei. Senti-me estúpido. Eu estava atrás de uma confirmação – de uma prostituta – de que eu era bom de cama e sabia satisfazer plenamente uma mulher.
E um homem que não gostasse de mulheres, mas de homens, jamais seria capaz disso. Certo?
“Você foi ótimo! Muito melhor do que aqueles brutos que só metem para agradar o próprio pau! Eu poderia fazer de graça sempre que você quisesse... enquanto estiver em Tortuga...” Elisa falou sedutora, descendo uma mão pelo meu abdômen até chegar ao volume sob minha calça.
Caí sentado ao lado dela na cama, respirando fundo. A frase me incomodou, mas depois cheguei à conclusão de que eu não ser bruto, não fazia de mim menos homem, apenas significava que eu sabia como tratar e dar prazer a uma mulher na cama. Deixei meu corpo cair de costas contra o colchão, e Elisa aproveitou para subir em cima de mim. Acabamos fazendo de novo e, ao final da segunda vez, eu me sentia esgotado.
“Seus cabelos são tão lindos...” Ela murmurou, acariciando meus fios vermelhos. “Eu nunca tinha visto um homem com essa cor de cabelo antes.”
“É comum de onde eu venho.” Menti. Não era assim tão comum, mas ao menos eu não era o único por lá.
Saí do quarto um pouco depois e avancei sozinho pelo corredor, já que a Elisa resolvera enrolar-se nos lençóis e cair no sono. Eu me sentia outra pessoa. Tinha certeza de que, se Santiago tentasse me provocar agora, meu corpo o rejeitaria tanto quanto a minha mente.
Porém, ao ouvir gemidos vindos de um quarto cuja porta estava levemente entreaberta, percebi que deveria ter aproveitado para dormir nos braços de Elisa, porque, em vez de ignorar o barulho e seguir reto, eu me aproximei com o coração aos pulos. Aqueles gemidos sem dúvidas não eram femininos, mas eram estridentes, como se a pessoa que os emitisse estivesse sentindo o prazer mais arrebatador de sua vida.
Prendi a respiração ao olhar para dentro do quarto.
O rapaz que gemia como se o mundo estivesse prestes a acabar estava nu, de quatro na cama. Uma das mãos de Santiago o segurava firme pelo ombro, ditando o ritmo com que ele se movia em sincronia com as estocadas fortes e carnais dele próprio. Com a outra mão, Santiago o masturbava. Meu olhar acabou passeando pelos músculos definidos, rígidos e contraídos do Santiago; suor escorrendo pela pele bronzeada.
Levei uma das mãos aos lábios ao perceber que meu baixo ventre começava a formigar com aquela visão lasciva e, sentindo-me tonto, corri dali o mais rápido possível, porém ainda a tempo de escutar o grito agudo que o rapaz soltou ao atingir o orgasmo. Desci as escadas tropeçando, com o meu peito doendo pelas batidas frenéticas do meu coração. Parei ofegante, apoiando-me no balcão do bar.
“Por quê...?” Perguntei baixo, para mim mesmo, incrédulo.
Minha mente entrou em colapso e meus olhos ficaram vidrados. Nena chegou a vir falar comigo, mas desistiu quando não dei sinal de estar prestando atenção em nada do que dizia.
Não mais que alguns minutos depois, eu senti aquele mesmo calor de antes colar-se às minhas costas e estremeci com a voz rouca pelo prazer recente próxima ao meu ouvido.
“Espero que tenha aproveitado, pois foi a última vez que eu deixo alguém tocar em você além de mim.” Santiago disse, enquanto suas mãos deslizavam por minhas coxas e as apertavam com força. Prendi a respiração, evitando assim seu cheiro forte de suor e sexo. “Pronto para testar a sua teoria?”
Não, eu não estava.
Principalmente quando já sabia que ela estava errada.
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