Maré Alta
22 A turnaround
Notas iniciais
"Fui feliz com você nos meus dias, mas também me senti preso quando você esteve neles."
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Chamada em Andamento...
– Kevin, é sério, ele não tá bem – Contei toda história de ontem sobre a piscina e ouvi-o dando uma longa gargalhada fora da linha – Eu queria estar brincando, mas eu não sei a quem mais chamar, você é o melhor amigo dele. Por favor – Supliquei.
– É claro que eu vou Malu, não precisa nem perguntar duas vezes — Riu mais um pouco – To rindo porque ele é um otário, ficar bêbado e cair na piscina? Eu teria ido pro teu quarto – Revirei os olhos ouvindo a risada rouca dele na linha. Kevin sendo Kevin.
– Acontece que não era disso que ele tava precisando, ele tá mal por causa do pai, você não entende porque tem o seu e tudo que ele tinha se foi – Expliquei.
– Malu, não se estressa – Ele disse calmo, suave e controlado – Ele vai te pedir desculpas, aposto que tá com vergonha de falar com você. Não é a primeira vez que acontece – Enruguei a testa.
– Como assim não é a primeira vez? – Perguntei desconfiada.
– Olha você me acordou antes das 09h00min pra falar do João, quer que eu fique até meio dia? Quando eu for aí a gente conversa, tá legal? – Ele disse e em seguida eu o ouvi bocejar.
– Grosso. Você vem hoje ainda?
– Assim que eu acordar, agora vai ao quarto do João ver como ele tá, do jeito que eu conheço deve tá chorando as rosas – Ouvi um barulho alto do outro lado da linha e ri.
– Ok Kevin, dorme. Obrigada – Não esperei resposta e desliguei.
Chamada Encerrada...
A única pessoa em que pensei quando acordei foi o Kevin. Quem melhor pra ajudar se não o melhor amigo? A Angelina me ajudou com o número dele. Eu ainda estava brava pelo o que aconteceu na madrugada, mas estava disposta a descobrir o porquê da atitude repentina.
Quando cheguei perto da porta do quarto dele, ouvi risadas. Duas risadas. Pensei em bater, mas a raiva tomou conta de mim. Eu salvo a vida dele ontem e ele nem faz questão de ir até a mim pra agradecer? E já estava rindo com alguém? Sangue de barata é coisa que eu não tenho.
Abri a porta e vi o que eu menos esperava. O João sentado na cama com o cobertor no colo, sem camisa e cabelo bagunçado, rindo pra televisão. E a Melanie com um short desfiado, casaco moletom por cima deitada ao lado dele, rindo junto. Olhei para os dois e ela sentou sem parar de rir, mas quando me encarou se controlou. Ele fez o mesmo.
– Porque não bateu? – Disse o João.
– Ta falando sério? – Minha voz saiu rouca.
– To ué. É o meu quarto não é? – O encarei sem acreditar.
– João... – Perdi a palavra pela grosseria na voz dele – Poderia simplesmente agradecer – Disse baixo. A Melanie do lado observava tudo.
– Não te pedi pra me salvar, mas valeu – Pegou o controle e mudou o canal, eu queria que minhas forças tivessem vontade própria pra sair dali e que eu tivesse vergonha na cara, mas não consegui sair. – E o chocolate estava ótimo, obrigado.
– Oi Malu – A Mel começou – Foi mal não ter avisado que eu viria. O João me ligou pedindo pra conversar e me chamou, não deu tempo – Ela mordeu os lábios e eu tinha certeza que ela tinha reprimido um sorriso.
– Claro – Minha voz falhou e eu quase gritei por isso. Aquilo era demais pra mim.
Eu fiquei ao lado dele todo esse tempo, esqueci-me da minha vida social, dos meus amigos pra apoiá-lo em tudo e ele liga pra Mel porque quer conversar? Isso só pode ser brincadeira. Bufei de raiva, saí do quarto e passei voando no corredor, desci as escadas pisando fundo e gelei quando vi quem estava parado ao lado do sofá rindo com a Dorota.
– Matt? – Disse num sussurro, mas ele percebeu minha presença porque me olhou sorrindo. Não consegui retribuir. – Lembrou que eu existo, então. – Sorri amarga e a Dorota me olhou.
– O deixei entrar porque ele disse que estava com saudades. Ele disse que não tinha problema em te acordar, já fez isso tantas vezes – Ela deu um tapinha no ombro dele e riu – E eu gosto dele. Agora vou pra cozinha porque a lasanha tá no forno – Pegou o pano de prato na cintura e colocou no ombro partindo em direção a cozinha.
– E aí amigo qual vai ser a sua desculpa? “Poxa Malu, tive que mudar para longe e não deu tempo de avisar, mas agora eu voltei, E DE REPENTE LEMBREI QUE VOCÊ EXISTE, PRECISEI VIM TE VER E CARAMBA, TO AQUI AGORA, QUE TAL UM ABRAÇO, MELHOR AMIGA?” – Disse mais grossa do que queria aumentando a voz no fim da frase. Meus olhos marejavam de raiva.
– A Mel tá aqui? – Ele enfim disse. Olhei pra ele e soltei uma gargalhada nervosa e incrédula, já sentia minhas lágrimas fervilhando pelo meu rosto e não era tristeza, era raiva.
– Meses sem falar um oi e a primeira coisa que você pergunta é sobre a Melanie? Ta apaixonadinho por ela? POR QUE OLHA, MATT, EU TO BEM, TÁ LEGAL? EU TO MUITO BEM – Surtei cuspindo as palavras na cara dele em deboche e saí andando em direção à porta. Voltei rapidamente procurando pela chave em cima da mesa, quando achei a peguei e ouvi o Matt gritar meu nome, mas já estava dentro do carro esperando o portão do estacionamento abrir.
Dei partida com o carro e fui em direção à praia. Eu precisava daquela paz, daquelas ondas indo e voltando, daquele cheiro de água salgada. Precisava colocar meus pensamentos no lugar. Aqueles meses estavam me enlouquecendo. E pensar que eu teria que conviver com aquilo mais Dez meses. Respirei fundo limpando meu rosto enquanto estacionava.
Desci do carro e o tranquei, me dando conta do que vestia pelas janelas. Um vestido branco soltinho, bem confortável para usar em casa e um casaco azul claro por cima, nos pés eu calçava chinelo, o que rapidamente eu tirei para carregar na mão. Apesar de ser antes de meio dia, o céu estava nublado com algumas nuvens bem escuras para quem via o mar de longe.
Caminhei pela areia sentindo o vento calmo e suave bater no meu rosto e aquela foi a maior paz que eu senti em tempos. Desabei de joelhos em frente ao mar, deixando aquele surto que eu estava prendendo havia meses, dias, semanas. Eu só tenho 17 anos, faço 18 dali a dois meses, o que estava pensando quando me meti nessa furada? Eu tinha a vida inteira pela frente, há tanta coisa que eu não conheço... Arte, música, lugares, histórias. Não é o fim do mundo, tem razão. Mas parecia que os dias estavam sendo arrastados, e cada vez que eu respirava, era uma dor diferente. Nunca literalmente em paz. Perguntei-me se algum dia seria diferente. Se algum dia eu encontraria o amor da minha vida, e se ele me faria feliz. Tudo que eu tinha agora era uma vida resumida em um grande “E se...”.
É como se o mundo ao meu redor estivesse parado. Eu sentia falta da escola, dos amigos que fiz por lá, até das inimizades. Sorri me lembrando da Manoela. Nunca vi alguém me odiar tanto. Sempre achei chata essa coisa de popularidade, de você ter que fingir uma coisa que não é para conquistar a todos e blablabla. É uma total perda de tempo. Você não tem que ser aceitável o tempo todo, você nunca vai conseguir isso, ninguém consegue. Tem aqueles que ficam ao seu lado, gostam de você pelo o que você é, e os que se mantêm afastados pelo mesmo motivo. Aquela velha desculpa “Meu santo não bateu com o seu”. Tenho realmente pena dos Santos.
Sempre senti como se tivesse uma conexão com o mar. Às vezes nós somos tão iguais em alguns aspectos... A vida é uma grande Maré Alta, feita de altos e baixos. Por fora, a calmaria, por dentro, um turbilhão de sentimentos juntos de uma só vez. Penso que, quando a onda te puxa, ela quer saber quão forte você é para resisti-la, e aí ela te trás de volta, mas te leva com ela mais uma vez, e isso acontece em um ciclo sem fim. Porque não adianta quantas vezes você fuja dos problemas, eles sempre acharão você. E cabe somente a você enfrentá-los da maneira correta.
– Oi? – Ouvi uma voz baixa ao meu lado e corri para limpar o rosto, o que só me atrapalhou, pois minha mão estava com areia e sujou o mesmo. Era um homem. Branco, alto, cabelo bem aparado pelo que pareciam castanho, seus olhos me olhavam em confusão e um sorriso no canto dos lábios, sua mão veio de encontro ao meu rosto limpando a areia que tinha ali.
– Oi, hm, obrigada, eu acho – Senti minhas bochechas corarem por tal proximidade. Ele era lindo, tiraria o fôlego de qualquer uma. Eu estava com uma tremenda cara inchada de choro e olhos vermelhos.
– Eu estava passando ali quando te vi sozinha, você tá bem? Está meio encolhida – Ouvir sua voz com mais clareza acalmou meus ouvidos, não sei por quê. Senti uma coisa quente me envolver em volta e vi que era seu casaco, eu realmente não tinha percebido o quanta estava frio ali.
– Er, não precisava, mesmo – Me levantei para encará-lo e tive que levantar minha cabeça, ele era bem alto, eu batia em seu peito e ele me encarava.
– Precisava sim, o que faz aqui sozinha nessa área? Quase ninguém vem pra esse lado – Sua voz soou preocupada.
– Você está aqui. Quase ninguém não é absolutamente ninguém, e eu gosto desse lado.
– Por quê? – Sua pergunta me pegou desprevenida. Nunca ninguém perguntara antes.
– Aprendi a nadar aqui – Admiti, sendo sincera – É uma área calma, longe dos olhares alheios.
– Ei! Falando em olhares alheios, eu conheço você. Maria Luiza Garcia, não é? – Seus lábios formavam um sorriso incrédulo – Filha do Mauro Garcia, o empresário que cedeu aos desejos da filha única a se casar antes de entrar para a faculdade. A foto do seu casamento estava estampada na primeira página do jornal – Ele me olhava com os olhos brilhando, como se eu fosse um presente ali para ele.
– Eu gostaria de, hã, não entrar nesse assunto. Não quero falar disso – Balancei a cabeça de um lado para o outro começando a andar e deixá-lo para trás.
– Desculpe o inconveniente, é que eu sou jornalista e nunca engoli bem essa história – Ele dizia logo atrás de mim, enquanto me seguia. Eu já estava em frente ao carro quando virei para olhá-lo.
– E agora você quer que eu te convença dando uma entrevistinha, quem sabe? – Sorri dócil.
– Se você quiser – Deu de ombros – Eu não te parei pra isso, e nem pense que eu estou de segundas intenções. Eu quero realmente saber se você está bem, esquecendo quem você é e quem eu sou – Ele soou sincero largando os ombros, que antes estavam tensos.
– Porque eu acreditaria nisso? – Lancei-lhe um olhar desconfiado – Durante um bom tempo tudo que eu tenho tido é pessoas que se aproximam de mim querendo algo em troca. O que te torna diferente? – Mantive minha voz mais firme que nunca.
– Você é bonita, direta e interessante – Ele sorriu colocando as mãos no bolso – E eu estava apenas passando por aqui, andando para ver se esfriava a cabeça. Então... Eu acho que você realmente está com problemas. Que tal um sorvete? – O sorriso dele se estendeu até os olhos. Eu sorri, olhando para estrada.
– Eu to com fome – Fingi uma careta e ouvi sua risada – Que tal um almoço?
– Como você quiser senhorita – Ele fingiu uma cara de sério que não durou muito tempo. Estendeu os braços para que eu pudesse passar o meu, e foi o que eu fiz.
– Não sei seu nome – Lembrei-me, levantando a cabeça para encará-lo.
– Arthur. Arthur Butler.
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