Notas iniciais
Track 1: Sorrow [Pink Floyd, A Momentary Lapse of Reason, 1987] Eu deveria estar escrevendo um artigo científico, mas estou ouvindo Pink Floyd e escrevendo uma fanfic excessivamente ambiciosa de hualian enquanto choro de saudade da minha namorada. Pink Floyd? Sério? É, pois é. Se eu conseguir transmitir bem como essas letras se encaixam nas emoções deles, já vou me sentir satisfeita. Mas tia Sophie, você não deveria estar escrevendo sua epopeia de Pokémon? Me perdoem, é que eu amo muito esses dois.

Mapple’s leaf, everlasting grief

“He no longer believed anyone, and he no longer believed in himself either”— TGCF, capítulo 181.

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Track 1: Sorrow

The sweet smell of a great sorrow lies over the land
Plumes of smoke rise and merge into the leaden sky
A man lies and dreams of green fields and rivers
But awakes to a morning with no reason for waking

He's haunted by the memory of a lost paradise
In his youth or a dream, he can't be precise
He's chained forever to a world that's departed
It's not enough, it's not enough

Xie Lian colocou a última pilha de caixas de papelão no chão junto à caçamba na rua, deixando escapar um grunhido de exaustão. Com a manga de seu suéter branco, enxugou as gotas de suor que escorriam pela sua testa, se sentindo derrotado. Ele não havia trazido muitos pertences na mudança, mas ainda assim foi trabalhoso colocar o novo quarto em ordem. A exaustão, no entanto, era mais mental do que física.

A tarde se aproximava do horário do pôr-do-sol, e uma brisa agradável de outono o refrescou do calor gerado pelo esforço. O bairro residencial estava silencioso. Provavelmente, nesse horário, as pessoas ainda estavam fora de casa trabalhando.

Ele olhou de um lado para o outro na rua, enfim se sentindo disposto a prestar atenção nos arredores. O bairro não era em nada parecido com os lugares onde ele havia morado antes. As casas eram pequenas, modestas, e não parecia haver muita manutenção dos jardins, muitos deles cobertos por ervas daninhas crescendo livremente, pelos pequenos gramados e entre as cercas de madeira desbotada.

Ainda assim, não era um lugar ruim. Silencioso e isolado. Xie Lian aprovava o silêncio daquela pequena cidade.

Do outro lado da rua, em frente a sua nova residência, não havia casas mas sim um parque que ocupava várias quadras. Era um parque decadente, há muito tempo abandonado pela administração pública. Seu calçamento estava em ruínas, coberto de trincas e buracos, sem dúvidas muito propício para alguém tropeçar e se arrebentar no chão. As árvores espalhadas por sua área eram antigas e algumas mostravam sinais de que talvez pudessem desabar se algum vento as atingisse no ângulo certo. Seus postes de luz eram tão velhos que Xie Lian se perguntou se eles ainda funcionavam. Era possível ver garrafas, latas e outros tipos de lixo atirados aqui e ali por entre a relva e as folhas secas que cobriam o chão.

A decadência do parque o atraía. Talvez fosse porque ele sentia que o aspecto do lugar em ruínas era similar ao seu próprio estado mental. Talvez porque lhe passou pela cabeça que aquele parque deveria ter sido bonito quando ainda era bem cuidado, antes de ser abandonado para sobreviver sozinho às intempéries da vida. Talvez porque o parque parecia deserto, e ele queria desesperadamente ficar sozinho. Talvez porque a ideia de retornar para a casa nova lhe parecia extremamente opressiva.

Seus pés o levaram instintivamente para o caminho de pedra que serpenteava adentrando no parque, e ele foi cercado pelas árvores que o ocultavam da vista do resto do mundo. Os galhos e folhas balançavam na brisa, emitindo um som tranquilo. Era possível escutar também o ruído dos corvos que se deslocavam pelas copas, se preparando para descansar. A paisagem aos poucos era tingida por um tom alaranjado do final da tarde, que destacava ainda mais as cores de outono das árvores de bordo que cercavam o caminho.

Xie Lian andou por algum tempo sem prestar atenção na rota. Talvez ele se perdesse. Mas isso não seria um problema. Talvez ele quisesse se perder. Sua mente divagava sem pensar em nada, se distanciando do som de seus próprios passos e da leve sensação de frio que penetrava na penumbra da vegetação, até não sobrar nada em sua percepção além das cores de outono e de um eco residual distante. Seus passos pareciam estar flutuando, apenas alguns centímetros acima do chão, mas sem nunca tocar a superfície.

Depois de perder a noção do tempo que havia caminhado, a vista se abriu para uma pequena clareira e Xie Lian viu um parque infantil completamente depredado. Brinquedos enferrujados, diversos quebrados, o antigo canteiro de areia agora tomado de ervas-daninhas.

Havia alguém sentado em um balanço.

Xie Lian sentiu sua respiração congelar quando a outra pessoa entrou em seu campo de visão. Ele não esperava encontrar alguém no parque deserto, mas não foi isso que arrancou momentaneamente o ar de seus pulmões.

Foi porque a pessoa ali sentada tinha uma aparência extraordinária.

O jovem no balanço deveria ter mais ou menos a sua idade. Ele não deu sinais de ter percebido a chegada de Xie Lian. Parecia distraído, perdido em algum pensamento, enquanto mirava com um olhar vago para os seus próprios dedos cruzados sobre suas pernas.

Seu rosto pendia levemente para baixo, fazendo parte de sua franja assimétrica esconder suas feições. Seu cabelo longo era tão escuro quanto as asas dos corvos que Xie Lian havia visto no caminho, e descia em um recorte de aparência rebelde por suas costas e seus ombros, contrastando com sua camiseta vermelho sangue e sua pele muito branca. O contorno de seu corpo era destacado por suas roupas justas ­— ombros largos, braços elegantes, pernas longas —, e uma corrente prateada pendia do lado esquerdo de sua calça jeans preta. O pôr-do-sol o iluminava, cobrindo-o de suaves reflexos alaranjados.

Xie Lian sentiu como se estivesse olhando para alguma pintura sublime, intangível, produzida pelas mãos de algum ser sobre-humano. Seu corpo pareceu esquecer de respirar por um longo tempo, enquanto ele deixava a imagem em sua frente queimar seus olhos. Havia algo de hipnotizante, o impedindo de se mover ou desviar o olhar, mas quanto mais ele observava, mais sua fascinação era acompanhada de uma sensação melancólica penetrando e escorregando por baixo de sua pele.

A expressão nos olhos do garoto à sua frente era de imensa solidão.

Xie Lian conhecia aquela expressão da mesma forma como conhecia seu próprio rosto, pois, já há algum tempo, ela o encarava com frieza todas as vezes que ele se colocava diante um espelho.

His blood has frozen and curdled with fright
His knees have trembled and given way in the night
His hand has weakened at the moment of truth
His step has faltered

A familiaridade que ele sentiu ao observar a expressão daquele jovem fez sua nuca arrepiar. Instintivamente, ele sabia que a solidão estampada naquele rosto estava enraizada por dentro de seus ossos, devorando suas entranhas, corroendo sua vitalidade, estrangulando seus pulmões e congelando seus batimentos cardíacos; que ela estava ocupando cada segundo de sua vida e de suas interações, e não importaria quantos o cercassem ou quantos lhe dissessem palavrar de amor e encorajamento, pois todas elas, se existissem, soariam falsas; que ela ocupava sua consciência como um luto interminável que não mais doí, como uma companheira constante costurada com fios de aço em sua própria personalidade, em sua única realidade, em sua intocável perspectiva.

Ou talvez fosse apenas projeção.

O garoto se mexeu, o que pareceu tirar Xie Lian de seu estado de estupor. Ele deu um passo para trás e pisou em um galho, que se rompeu com um alto estalo. Imediatamente, o garoto no balanço levantou o rosto em direção ao som, sua expressão facial contemplativa sendo substituída por um olhar afiado e hostil, como um animal selvagem percebendo que foi acuado.

Seus olhos faiscaram ao encontrar os de Xie Lian, e ele o encarou com intensidade.

Xie Lian se viu mais uma vez congelado, dessa vez pela força magnética intimidadora o escrutinava. A distância entre eles era de apenas alguns passos, e ele pôde ver com clareza as feições daquele rosto que antes estavam parcialmente ocultas. Sua mandíbula era forte, seu rosto era alongado e masculino, seu nariz reto e afiado, seus olhos encaixados de forma simétrica acima das maçãs do rosto, agressivos e ferais.

Um preto, outro vermelho.

Xie Lian sentiu, com um calafrio, a força para se manter em pé escapar de suas canelas, mas não conseguiu procurar apoio em nada à sua volta.

A ferocidade, no entanto, não durou mais do que alguns eternos segundos. Ela então se abrandou, substituída brevemente por algum sinal de surpresa ou curiosidade, e em seguida os lábios do jovem se retorceram em um sorriso vulpino.

A mudança fez Xie Lian se tornar consciente do quão incrivelmente atraente aquele jovem era, e, constrangido, precisou desviar o olhar. Ele levou uma das mãos à nuca, procurando tocar seu cabelo em uma tentativa de se tranquilizar, apenas para se lembrar que seus outrora longos fios castanhos haviam sido cortados na altura do pescoço. Xie Lian se perguntou, preocupado, se o novo corte o ajudaria a não ser reconhecido, enquanto dava mais um passo para trás.

“Uh, me desculpe, eu não queria incomodá-lo.”, ele conseguiu gaguejar para o desconhecido, não mais capaz de olha-lo diretamente.

“Gege não está me incomodando.”

A voz que o respondeu era grave e um pouco rouca, e o seu tom de intimidade fez com que Xie Lian sentisse seu rosto esquentar.

“É mesmo?”, ele perguntou, se sentindo extremamente desarticulado. O que mais deveria dizer?

“É claro.”, disse o outro de forma decidida, e, como se quisesse reforçar que não havia incômodo, acrescentou: “Quer se sentar?”

Xie Lian levantou os olhos e viu que o jovem indicava com uma das mãos o balanço ao seu lado. Ele hesitou por um momento, seu olhar de novo fugindo do sorriso que ainda estava estampado nos lábios daquela pessoa magnética. Seu corpo decidiu se mover quase sozinho em direção ao balanço.

Ele se sentou na superfície de madeira gasta e áspera, e as correntes enferrujadas do balanço rangeram perigosamente.

“O que o traz aqui?”, perguntou o jovem vestido de vermelho, ainda olhando-o com intensidade. Xie Lian se perguntou se era visível o quanto seu rosto estava em chamas e o quanto ele se sentia envergonhado.

“Oh. Nada, na verdade.”, ele tentou responder mantendo um tom casual, as palavras se arrastando para fora com enorme dificuldade. “Estava apenas passeando.”

“Gege não deveria passear nesse parque perto do anoitecer. Você pode acabar cruzando com algum delinquente.”

Xie Lian não pôde deixar de pensar que aquele que o aconselhava com um sorriso malicioso parecia ele mesmo um delinquente. No entanto, o tom jocoso de seu interlocutor fez com que a tensão em seu peito diminuísse e uma resposta lhe escapasse dos lábios com mais facilidade.

“Nesse caso, fico feliz de ter encontrado um bom cidadão para me alertar.”

O jovem riu.

“Bom cidadão? De forma alguma.”, respondeu ele. “Mas fico feliz em poder ajudar.”

Seu tom era amigável, o que fez Xie Lian se sentir um pouco mais relaxado, seus lábios se espalhando em um sorriso modesto. A despeito da primeira impressão, parecia que não era tão difícil conversar com ele. Bem, desde que Xie Lian não o olhasse diretamente.

Ele se sentiu mais inclinado a continuar.

“E você, o que faz aqui?”

“Oh. Nada, na verdade”. Ele imitava o tom de voz levemente nervoso e as palavras que Xie Lian a pouco havia dito. Que travessura. Xie Lian percebeu que estava sendo zombado, mas não pôde deixar de achar graça, e até mesmo um pouco de charme na brincadeira.

O jovem cruzou uma das pernas e apoiou seu cotovelo no joelho, pendendo o tronco em direção ao balanço do seu lado e encaixando o queixo em sua mão, como se buscasse observar Xie Lian de um ângulo melhor.

Cauteloso, Xie Lian deixou seu olhar subir um pouco, e ele reparou que havia uma tatuagem em seu antebraço e que suas as unhas estavam pintadas de preto.

“Eu moro aqui perto.”, ele pareceu gesticular na direção contrária de onde Xie Lian havia vindo. “Venho aqui quando não estou a fim de voltar pra casa.”

A resposta poderia ser só indicação de que ele era um garoto entediado, ou talvez houvesse algo a mais que sua postura casual não entregasse. Será que a intuição anterior de Xie Lian estava correta? Sem querer que a conversa terminasse, ele procurou palavras para continuar a interação.

“Eu me mudei para cá ontem. Aqui perto.”, Xie Lian gesticulou na outra direção. “Você poderia me apresentar a região?”

O sorriso no rosto do jovem se alargou mais, como se a pergunta lhe tivesse agradado imensamente.

“Ah, Gege veio parar em um péssimo lugar. Não há muito o que fazer.”, ele descruzou as pernas, segurou as correntes do balanço e jogou a cabeça para trás de forma teatral, como se quisesse transparecer de forma exagerada a sensação de tédio. Xie Lian riu. “Não há cinemas nem museus nem clubes, os parques são velhos, os restaurantes são uma porcaria, as pessoas desagradáveis. Por que Gege veio para um lugar desses?”

“Você não é desagradável.”, Xie Lian disse sem pensar.

“É mesmo?”, o jovem respondeu, imitando seu tom de voz novamente e levantando as sobrancelhas.

Xie Lian arriscou olha-lo diretamente e se sentiu um pouco atordoado.

“Não zombe.”, ele disse enquanto desviava o rosto de novo, controlando o impulso de se esconder atrás de suas mãos. Contentou-se com um meio termo, esfregando a região entre suas sobrancelhas com o dedo indicador.

“Me perdoe.” Sua voz não indicava nenhum remorso. “Gege faz expressões interessantes, não pude me conter.”

Xie Lian se perguntou como era possível alguém ser tão descarado com uma pessoa que acabara de conhecer. Ele não fazia ideia de como responder.

Percebendo seu silêncio, o jovem tomou a iniciativa de continuar a conversa.

“De que forma Gege me acha agradável, então?”

Xie Lian levantou os olhos e o encarou, os lábios levemente abertos, sem conseguir mais conter o choque de sua expressão. Era aquilo um flerte, ou ele estava sendo caçoado impiedosamente?

Seus olhos se encontraram, e Xie Lian se sentiu fascinado pela íris vermelha do olho direito de seu interlocutor. A cor parecia irreal. Seria uma lente? Por que alguém usaria uma lente vermelha em apenas um dos olhos? O contraste entre o olho vermelho e o olho preto criavam uma beleza etérea naquele rosto enérgico.

Xie Lian provavelmente estava com uma expressão bastante idiota, porque o jovem riu de novo. Dessa vez Xie Lian viu diretamente sua expressão facial enquanto o jovem ria ­— os lábios se curvando para cima ressaltando sua aparência excepcional ­—, e decidiu que não queria mais desviar o olhar, ainda que o outro continuasse a perfurá-lo com dois olhos astutos.

“Eu, ahn...” Ele pensou se deveria responder honestamente à pergunta, consciente de que estava sendo provocado. Talvez fosse melhor devolver a provocação. “Você está tentando ganhar elogios?”

“Não, de forma alguma.” O jovem tornou a cruzar as pernas em uma postura relaxada. “Só é raro encontrar alguém que aprecie minha companhia.”

“Não vejo como isso seria possível.”

“Gege se surpreenderia.”

Xie Lian se sentiu mais ousado, como se aquilo fosse um desafio.

“Eu gosto de surpresas. Adoraria se você me mostrasse os parques velhos e os restaurantes porcarias.”

“Eu posso fazer isso.” O garoto respondeu, seu sorriso se alargando.

Xie Lian retribuiu o sorriso.

“Poderia me dizer seu nome? Eu sou...” Ele fez uma breve pausa, como se escolhesse as palavras. “Xie Lian.”

Ele não queria ser reconhecido, mas também não queria dar um nome falso àquela pessoa. E, de qualquer forma, ele teria que usar seu nome real na escola nova. No entanto, com seu nome, qualquer um poderia garimpar informações na internet e rapidamente encontrar notícias sobre o passado que ele queria tanto ocultar. Sua esperança era que os habitantes de uma cidade pequena tão remota não dessem muita atenção aos escândalos da capital.

“Gege pode me chamar de San Lang.”

Xie Lian pensou que aquele nome parecia falso. Ah, que ironia. Não era ele quem deveria esconder sua identidade? Mas por algum motivo, aquilo não o incomodou. Muito estranho.

“San Lang mora aqui há muito tempo?”

“Desde sempre.” San Lan respondeu com um suspiro. “Por que Gege veio para cá?”

“Meu tutor cresceu nessa cidade. Nós nos mudamos de volta para a casa antiga dele.”

“A trabalho?”, San Lang perguntou, levantando uma sobrancelha.

“É, algo assim.”

Isso era uma mentira, claro.

“O que San Lang pode me dizer sobre essa cidade?”

“Hm.” San Lang assumiu uma postura um pouco menos desleixada. “Essa sempre foi uma região rural. A cidade não passava de uma pequena vila, com as mesmas famílias vivendo aqui por várias gerações. Uns vinte anos atrás, várias fábricas vieram para a região, o que fez a cidade aumentar de tamanho. Hoje em dia boa parte da economia daqui depende dessas indústrias, mas ainda há pequenos produtores rurais.”

“San Lang parece saber muito sobre o assunto.”, Xie Lian o elogiou com sinceridade.

“Nah.” San Lang abriu a boca para continuar, mas parou quando uma folha de bordo que rodopiava no ar pousou em seu ombro. Com um gesto delicado, ele segurou a folha pelo cabo, e a girou entre os dedos por alguns instantes, antes de oferece-la para Xie Lian com seu sorriso galanteador.

Xie Lian sentiu seu rosto corar novamente quando esticou sua mão para receber a folha, como se aquele jovem estivesse lhe oferecendo um valioso presente, e fez um enorme esforço para não desviar o olhar de novo. San Lang certamente zombaria dele.

“Qualquer um que morou aqui por tempo suficiente saberia disso. As famílias antigas não gostaram muito da presença dos novos habitantes que vieram trabalhar como operários. Até hoje há várias rixas entre os “antigos” e os “novos”, então todo mundo sabe da história por trás das brigas.”

Xie Lian girou a folha distraidamente entre os dedos, imitando o gesto de San Lang.

“Hm, entendo. De qual lado da disputa veio a família de San Lang?”

San Lang ergueu as sobrancelhas e seu sorriso se retorceu em uma expressão debochada.

“Eu pareço ser o filho de uma tradicional família de agricultores?”

Xie Lian riu, e balançou a cabeça negativamente.

San Lang continuou, apontando para uma certa direção: “Do seu lado do parque, moram as famílias antigas. Do meu, as famílias novas. Nenhum dos dois lados tem muito dinheiro, mas certamente o meu é pior. Se quiser encontrar o bairro dos ricos, você precisa passar pelo centro da cidade e ir em direção às partes mais altas.”

“Quem são os ricos?”

“Os antigos donos das fazendas que venderam as propriedades para a indústria, e os administradores das fábricas.”

Os dois continuaram conversando por um longo tempo, Xie Lian fazendo perguntas sobre a região e San Lang respondendo a todas com precisão. Xie Lian se sentiu mais e mais confortável ao longo da conversa, esquecendo momentaneamente seu estado de melancolia anterior. Um sorriso suave estampava seu rosto enquanto ele ouvia com interesse San Lang narrando as disputas que ocorriam na cidade.

Ele só tomou consciência de quanto tempo havia passado quando percebeu que o parque havia se tornado escuro. Anoitecera. Como esperado, os postes de luz não estavam funcionando direito, vários deles apagados, e um piscando de forma incômoda, prejudicando a visão. Xie Lian tateou o bolso a procura de seu celular para consultar as horas, apenas para perceber que o havia deixado em casa. Preocupado, ele olhou em direção ao caminho por onde tinha vindo, cujo percurso ele sequer se lembrava, e encontrou uma trilha completamente escura.

Oh não.

San Lang pareceu perceber a preocupação em seu rosto, e seu tom de voz brincalhão se alterou para um timbre um pouco mais grave e tranquilizador.

“Gege, algum problema?”

“Eu esqueci meu celular, e não sei como voltar para casa.” Xie Lian admitiu, soltando um suspiro.

San Lang franziu o cenho.

“Gege realmente não deveria andar por aqui a noite, não é seguro. Deixe-me te guiar de volta.”

“Ah, San Lang, eu não quero incomodá-lo.”

“Não é incômodo. Gege me fez companhia, é o mínimo que eu posso fazer.”

Xie Lian se sentiu um pouco constrangido, mas ele não estava em uma situação que permitisse recusar ajuda. Ele assentiu lentamente, e disse a San Lang o endereço de sua casa.

San Lang se levantou, espreguiçou-se sem pressa, sua postura relaxada, ainda com os olhos atentos grudados em Xie Lian. Xie Lian também se levantou, percebendo imediatamente que San Lang era uns bons centímetros mais alto que ele. Sua cabeça passava um pouco da altura dos ombros do outro, e ele precisou levantar o rosto para que os olhos de San Lang entrassem em seu campo de visão. No escuro, era mais difícil de ver com clareza os contornos de San Lang, mas ele ainda estava sorrindo.

Os dois se olharam em silêncio por alguns segundos.

“Vamos então?”, perguntou San Lang, e Xie Lian assentiu. Ele tirou um celular do bolso e acendeu a lanterna, uma fraca luz esbranquiçada. “Gege, cuidado para não tropeçar, tem muitos buracos no caminho.”

San Lang o guiou com extremo cuidado pelo caminho, andando um pouco a frente e indicando com a lanterna quais lugares eram perigosos de pisar. Xie Lian sentiu-se simultaneamente grato e espantado com tamanho zelo, que parecia contrastar com a aparência vigorosa e rebelde de San Lang. Por conta de sua atenção, o caminho transcorreu sem incidentes enquanto os dois continuavam conversando, agora num ritmo um pouco mais vagaroso, interrompido aqui e ali pelos avisos do guia solícito.

Conforme o caminho progrediu, a conversa dos dois eventualmente desvaneceu em um silêncio confortável, embalado pela brisa noturna.

Xie Lian sentiu como se estivesse mergulhando lentamente em um corpo de águas calmas e mornas, seu corpo rodeado de uma agradável suspensão, flutuando em um espaço sem sons. Seus pés não tocavam mais o chão, suas mãos não sentiam mais o frio, seu rosto não mais tensionava em expressões exaustivas. Ele respirou lentamente, apreciando a sensação de seus sentidos deslizarem pelas pontas de seus dedos para algum lugar cada vez mais distante, escorregando, escapando, evaporando, esvaziando.

Não havia conforto maior do que aquele.

Ele foi arrancado de seu estado de transe quando ouviu a voz de San Lang, e percebeu que os dois estavam parados na saída do parque em frente à sua casa. Sua visão ainda parecia nebulosa e a voz de San Lang distante, e ele precisou piscar algumas vezes antes de sentir que estava recuperando sua consciência.

“Gege, é aqui?”, San Lang o questionava.

“Hm.” Xie Lian assentiu com a voz pesada, retornando devagar à sensação de pisar em um chão sólido. “Sim.”

San Lang pareceu perceber que ele estava distante.

“Você está bem?”

“Sim.”

“Bem... Então eu vou retornar.” Havia algum receio na voz dele, ou talvez preocupação. “Obrigado pela companhia hoje, eu apreciei muito.”

O tom preocupado de San Lang fez Xie Lian finalmente retornar à consciência de seus entornos.

“Ah, San Lang!” Ele respondeu, recuperando a vivacidade em sua voz. “Eu que devo agradecê-lo! Não sei como teria voltado sem sua ajuda.”

“Não foi nada, este San Lang fica feliz em poder ajudar.”

Xie Lian sentiu seu peito aquecer. Fazia tempo que ninguém o tratava com tanta gentileza, e ele não sabia como reagir. Ele percebeu que não queria se despedir.

“San Lang não quer entrar beber alguma coisa?”

San Lang não o respondeu imediatamente. Desde que os dois começaram a conversar, essa era a primeira vez que Xie Lian pôde perceber alguma hesitação em seu rosto iluminado pelas luzes amarelas da rua. Vendo aquela expressão, Xie Lian sentiu os músculos de seu rosto tensionarem.

“Eu...”, sua expressão era pensativa, seu sorriso desaparecendo. Por fim, ele balançou a cabeça negativamente. “Eu devo ir embora, Gege. Mas agradeço o convite. Talvez outro dia?”

“Oh. Está bem”. Xie Lian se sentiu um pouco decepcionado, mas logo a sensação foi substituída por preocupação. “San Lang vai voltar sozinho? Você não disse que era perigoso andar pelo parque a noite? Eu posso pedir para meu tutor te levar de carro para casa.”

O sorriso malandro de San Lang retornou sem dificuldade para seu rosto, deixando a mostra uma pequena linha de seus dentes.

“Não há necessidade. Ninguém ousaria mexer comigo.”

Xie Lian não teve dúvidas de que aquela confiança não era gratuita. Ele assentiu, e agradeceu novamente pela ajuda. San Lang sorriu, dessa vez de forma mais calorosa, e disse suas últimas palavras de despedida antes de se virar e caminhar para a trilha escura:

“Até a próxima, Gege.”

Xie Lian continuou observando a trilha por um longo tempo após San Lang desaparecer, pensando se e quando o veria de novo. Depois, destrancou a porta e entrou no corredor escuro da entrada. A casa estava toda apagada e em silêncio. Mei Nianqing ainda não havia retornado. Ele tirou os sapatos e caminhou pelo escuro, sentindo seu peito se retorcer em uma sensação de aflitiva, carregada de melancolia. Se antes ele sentia como se flutuasse, agora seu corpo parecia arrastar exaustivamente uma quantidade imensurável de peso.

Ele parou em frente ao seu novo quarto, desconforto e repulsa tomando conta de seus olhos. Aquele espaço modesto, que durante o dia ele havia organizado com todo cuidado com seus próprios pertences, agora lhe parecia infinitamente estrangeiro.

Surpreso, Xie Lian percebeu algo a mais misturado com suas inquietações habituais. Que estranho. A separação dele e San Lang deixara também um vestígio de pesar.

One world, one soul

Time pass, the river roll

And he talks to the river of lost love and dedication
And silent replies that swirl invitation
Flow dark and troubled to an oily sea
A grim intimation of what is to be

There's an unceasing wind that blows through this night
And there's dust in my eyes, that blinds my sight
And silence that speaks so much louder than words
Of promises broken

De alguma forma, o silêncio agora o incomodava.

Notas finais
Existem dois tipos de pessoas no mundo: as que veem alguém bonito e não conseguem desviar o olhar, e as que veem alguém bonito e não conseguem olhar de jeito nenhum. LianLian tendo gay panic a primeira vez que vê San Lang: check San Lang flertando descaradamente e sendo uma enciclopédia ambulante: check Se gostarem, deixem um comentário para animar uma autora solitária