MapleStory Online
15 Surpresas
Vampiritico estava imóvel. Estava tudo escuro, e ele não conseguia mover seus braços nem suas pernas. O caixão de madeira que o prendia havia sido preenchido com cimento fresco que secava, esmagando seu corpo e asfixiando-o.
Por algum motivo, ele continuava a respirar. Com dificuldade e o peito doendo sempre que tentava puxar o ar, mas o suficiente para deixá-lo vivo. E sofrendo. Ele tentou gritar, mas sua boca estava cheia com cimento — que a deixava aberta enquanto o concreto endurecia dentro dela o gosto da pedra se misturando com o do próprio sangue naquele sofrimento que parecia interminável...
Como que numa bênção, seus olhos se abriram e o pesadelo terminou, e ele se viu encarando um rosto coberto por uma máscara encimada por um par de olhos amarelos e inteligentes. Ele tentou se mover, mas as amarras em suas mãos e pés o impediam.
–Calma — disse a mulher, aquela voz sarcástica, seca e perigosa, quase sedutora, de uma assassina bem treinada — Vou cortar suas cordas. Se você ficar calado. Se gritar...
Ela mostrou uma lâmina curva que tinha um brilho levemente avermelhado, como se estivesse sempre cheia de sangue. Isso foi o bastante para parar o grito surpreso do garoto. Satisfeita, a mulher cortou suas cordas e sentou-se no galho da árvore com habilidade, antes que ele se desse conta.
Vampiritico olhou ao redor discretamente e se deu conta de que ainda estava no mesmo lugar onde caíra. Talvez tivessem passado algumas horas, ele adivinhou. Nenhum de seus amigos parecia ter notado o que acontecia. Tranquilo, ele olhou para a mulher.
Se a pequena garota parecia ser uma Gatuna, esta não deixava dúvidas. Seu corpo baixo e atarracado era coberto por roupas pretas, apesar de não ser como a armadura Nightingale. A dela era um conjunto de botas, luvas, calça e casaco pretos com botões que pareciam rebites nas botas e nas luvas, com alguns detalhes vermelhos principalmente no peito que era mais detalhado, obviamente a roupa de alguém acostumado a se esconder e a agir despercebidamente.
Apesar de que esses fatos não eram o principal foco do garoto. Em sua cintura estava o cabo ricamente trabalhado da adaga que usara para cordas as cordas. As pernas eram grossas e ela tinha mãos e pés pequenos, convenientes a uma ladra. Ele achou que aquela posição, sentada acima dele e com uma perna estendida à frente, o fazia notar como aquelas roupas eram justas.
–Parece que você não estava fazendo um bom trabalho de vigília — ela disse no mesmo tom de voz de antes, virando a cabeça para um lado com leveza. A boca era coberta por uma máscara vermelha e ela usava um capuz preto que não fazia parte do casaco.
–Nunca precisei vigiar antes. Não sou bem treinado nisso, entende.
–Uma pena — a mulher respondeu, desviando o olhar por um instante — Por que você me pareceu... Interessante.
–Você também é, acredite em mim — ele disse, sem tirar os olhos de onde mirava. A mulher riu baixinho.
–É mesmo? Muito bem. Agora, eu estava à procura de... Novos membros. Você certamente já ouviu falar da Mist Brotherband, imagino?
–Uma mulher muito tentadora me disse isso uma vez depois de me derrubar de uma árvore. Mas ela nunca chegou a me dar todos os detalhes.
Os olhos dela exibiram um brilho divertido.
–Não há o que "detalhar" sobre nós, pelo menos... Não para pessoas comuns. Nosso trabalho é eliminar as pessoas indesejáveis àqueles que têm o mais alto de todos os poderes, pelo mundo.
–E o que é?
–Você não imagina? Dinheiro. Mesos são... Difíceis de se resistir. E é difícil negar quando milhares deles dizem que certa pessoa ficaria melhor fora desse mundo. Você não acha?
–Pra falar a verdade, não acho, não. Eu chamo isso de "mercenaria".
Ele não sabia se o termo existia, mas ficou satisfeito com o resultado. A mulher olhou mais fixamente para ele. Sua perna balançava de um lado a outro distraidamente como num relógio. A visão tentava o rapaz. A quê, ele não sabia se sabia dizer.
–Nós preferimos chamar de julgamento. Nossa deusa abençoa com dinheiro aqueles que têm bom julgamento, você entende? E cabe a nós, simples servos, dar conta das pessoas que eles julgam não ser desejáveis. Em troca, recebemos uma fração da riqueza que lhes foi concedida.
Ocorreu a Vampiritico que aquela era a assassina que havia matado a garota que vira. Ele tinha certeza que era isso. O pensamento o enojou um pouco. Estava achando aquela mulher atraente... Para dizer o mínimo.
–Mas, recentemente — ela continuou — As pessoas indesejáveis estão aumentando, e nossa deusa não gosta quando os trabalhos não são cumpridos. Temos os melhores assassinos entre nós... Mas não temos o suficiente. Há sempre mais pessoas que devem ser eliminadas. E se quisermos continuar a servir nossa deusa, precisaremos procurar... E encontrar pessoas aptas a se juntar a nós.
–Pare com essa conversa mole. Eu sei que você está aqui pra me chamar. Você é uma NPC, não é?
–Se estiver interessado — ela disse, ignorando a última frase — Olhe para mim. Talvez eu esteja enganada, mas... Não pareço o tipo de pessoa que sofre dificuldades. Nossa deusa é generosa com seus servos. E são poucos os que têm essa honra. Muito poucos. Juntar-se a nós significa ser um de nós. E ser como nós, também.
–Isso quer dizer que vou ficar gostosão?
–Quer dizer que você vai ser um de nós — a mulher repetiu, como se essa fosse a maior honra que alguém poderia receber apesar de que, de fato, honra não tivesse nada a ver com o grupo dela — Mas para isso você precisa passar por um pequeno teste.
Vampiritico olhou bem para ela. Gostara daquela mulher, não pelas roupas, mas porque ela agia de uma certa maneira... A maneira que ele gostava. Sempre era o assassino em jogos, sempre. E gostava de Quests assim. Ele se imaginou com uma roupa parecida como aquela saindo para matar NPCs fortes, que eles queriam ver mortos. Sentiu-se animado.
–Que teste seria esse? — perguntou, com cautela. Os olhos da mulher brilharam.
–Bem, entenda que, para ser um cozinheiro, você deve cozinhar. Para ser um de nós, você deve... — ela deixou a frase no ar com um gesto.
–Umdenosar — adivinhou.
–Acho que você sabe o que é.
Ele sabia bem demais.
–Bom, então, quem...
–Ah, nada tão difícil — ela começou, e ele podia sentir que ela sorria por trás da máscara — Não o primeiro caso. Para se juntar à Mist Brotherband, você deve se desprender do que o liga à sua vida antes de nós. No seu caso, você poderá escolher.
Ele ergueu as sobrancelhas confuso. A mulher apontou a perna para a Torre de Eos.
Ou, mais especificamente, para o acampamento onde os amigos estavam dormindo.
–Ah não, nada disso! — ele estreitou os olhos quando compreendeu — Esqueça, não quero participar desse seu grupo sujo. Você desperdiçou seu tempo.
–Você acha? — interpelou a mulher calmamente — De qualquer forma, é uma pena. Você seria um bom assassino... Tássio.
Dizendo isso, ela assentiu para um ponto atrás dele, e o garoto foi tomado pelo medo. Virou-se rapidamente, esperando ver alguém, mas não havia nada além da estrada. Quando olhou de volta para a árvore, não viu mais nada.
–Nós vamos nos ver novamente, eu lhe prometo.
A voz, um sussurro baixo em sua orelha, foi dita no tom que um amante diria a uma mulher. Ou o contrário. Não era uma ameaça, era mais um... Aviso. De que ele deveria se preparar.
Ele pensou em ir dormir, mas sabia que, se deitasse, faria outra coisa. Dando de ombros, subiu na árvore, sentando-se no mesmo galho que a mulher havia acabado de deixar.
O tronco ainda estava aquecido pela presença do corpo da mulher, e ele se recostou nele, pensativo. Estava abalado. A idéia de matar seus amigos, ele mesmo, era algo tão estranho que, quando dito por aquela mulher, foi como um choque. Ele havia ganho a chance de escolher entre matá-los ou não.
Apesar de ter negado na mesma hora, ele ainda se culpava porque estava interessado em juntar-se àquela mulher. Já tinha se juntado aos assassinos em outros jogos. Sombriamente, ele se lembrou que, em alguns casos, precisava matar companheiros em jogos. No MapleStory, os personagens companheiros... Eram seus próprios amigos. E ele não poderia matá-los.
Seus pensamentos foram interrompidos vários minutos depois quando sentiu alguma coisa se movendo ao lado dele. Alerta, achou que a mulher tivesse voltado, mas relaxou ao ver Thugles sentado com os cobertores no colo, o olhar fixo em algum ponto à distância. Com um leve sorriso, ele desceu da árvore, e o amigo virou a cabeça para ele, os olhos levemente arregalados.
–Acabo de acordar de um pesadelo — contou — Sonhei que o Sheddeer tinha descoberto que o MapleStory era administrado pela LevelUp! Games. E que nós dependíamos da administração pra sair daqui.
Vampiritico não se controlou: riu, um acesso de risada alto e soluçante que acordou os demais, surpresos. Ele não se importou. De qualquer forma, Thugles havia passado por uma experiência tão desagradável quanto a dele. Era uma sensação maravilhosa, a risada era como um tônico que expulsava o peso que seu coração sentira com o que havia acabado de acontecer.
–Qual é a piada? — Davien quis saber, um olho ainda fechado.
–Thug sonhou que o Maple era chefiado pela LUG!
Rockfield foi o primeiro a se recuperar.
–Acho... (AUHROURHUORAHAURHRAURH MASQUEOTÁRIO) que podemos ir embora agora. Alguém ainda com sono?
–Nah, uma piada é boa que acordar um guerreiro cansado. Estou pronto, vamos nessa.
Falando por todos, Davien arrumou seus equipamentos, enquanto os outros cuidavam de desmontar a baraca antes de iniciarem a viagem para El Nath.
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–Tem certeza disso? — o rapaz mais alto perguntou enquanto se apoiava na mesa com os braços. O garoto, cujas roupas pretas se confundiam com a penumbra da sala, assentiu.
–Sim, eu estava com eles em Ludibrium. Não os encontraram na Torre do Relógio, e estão indo procurá-los em El Nath. Eu ouvi quando eles mencionaram. Estão procurando por aquela garota e seus amigos.
–É mais por "aquele mago e seus amigos", Bloody — corrigiu o outro. O rapaz deu de ombros.
–Encare eles como preferir. Esse problema é seu agora, Dark Corpse.
E dizendo isso, ele se retirou dando uma ajeitada no curativo que protegia seu olho esquerdo. Quando ele fechou a porta, o alto rapaz encarou os dois companheiros do outro lado da mesa.
–O que acha, Vile Slayer?
O menino deu de ombros.
–Além do fato de que o novo nome dele é bem melhor que "Rabisco"? Bem, se estão em El Nath, podemos emboscá-los. O grupo da Mad Shadow já deve ter se livrado do Donnie e os amigos dele. Se a gente mandasse reforços...
Dark Corpse bateu na mesa com os dois punhos.
–Reforços? — ele repetiu, furioso — Você leu o relatório sobre o Donnie e aqueles idiotinhas que andam com ele? Não são o tipo de pessoa que você está acostumado a enfrentar, Vile, eles são bons. Mas eu confio na Mad Shadow. E se ela perdesse a luta, teria fugido e voltado pra cá. Ela não ia se arriscar a lutar até a morte. Você sabe disso.
Vile Slayer assentiu brevemente. A esguia companheira era extremamente hábil do que se referia a entradas furtivas, principalmente depois da rotina de treinamento que insistira em cumprir com determinação quando não conseguiu detectar o rapaz que se aproximava sorrateiramente e lhe dera o golpe nas costas que a incapacitara por segundos cruciais, dias atrás. Mas não era segredo que ela colocava a própria vida muito acima dos outros. Se a idéia inicial de atacar de surpresa falhasse, ela não perderia tempo tentando enfrentá-los, pois sabia o quanto aqueles oponentes eram poderosos.
Ela estava fora realizando uma missão para a gangue, a de encontrar e matar o rapaz chamado Donnie e quem quer que estivesse viajando com ele. Por mais que andassem em segredo, não conseguiram esconder sua reputação dos ouvidos atentos do grupo de Dark Corpse. Por onde passava, o grupo de Donnie ajudava pessoas, auxiliava novatos a passarem de nível mais depressa e lhes ensinava rotas seguras e os preços das coisas, bem como proceder diante de assaltos usando um Pergaminho de Retorno e algumas habilidades(não é só "usar o pergaminho e pronto", é preciso lê-lo e esperar que ele envolva a pessoa com uma luz, o que leva cerca de três segundos).
E pessoas assim eram um obstáculo para os negócios de organzações como aquela. Havia diversos grupos de bandidos espalhados pelo mundo, e eles geralmente usavam da intimidação e da inexperiência dos jogadores em suas atividades. Grupos de pessoas que ajudavam a manter a paz e manter as pessoas espertas era algo ruim. Muito ruim. Finalmente, aquele grupo achou que era hora de acabar com as atividades de Donnie e seus amigos.
Com Mad Shadow e um pequeno grupo de assassinos, eles foram à caça deles. O plano era simples: atacá-los de surpresa quando estivessem descansando, e então voltar com seus bens(parte do dinheiro da pessoa caía quando ela morria, embora isso ainda fosse um detalhe cheio de falhas e bugs, como vez que um garoto que não tinha praticamente nada dropara um milhão e meio de mesos, que desapareceram assim que tentaram gastar) depois de comprar uma série de ingredientes e equipamentos que eles precisavam, ao mesmo tempo que iam até Orbis enviar uma mensagem, já que o carteiro de El Nath estava bugado. Se o ataque falhasse, se os alvos resistissem ao dano inicial e mostrassem qualquer sinal de que iriam revidar, eles deveriam fugir e voltar para o esconderijo rapidamente, o que não deveria ser problema. Não havia nenhum Gatuno no grupo de Donnie, e Gatunos eram os mais rápidos. Portanto, se não tinham notícias de Mad Shadow, o mais lógico era que havia obtido sucesso na missão.
–Ou então o Donnie explodiu e matou ela — brincou. Dark Corpse o ignorou.
–Se eles, os fodões, foram pegos, é claro que não vamos ter problemas em pegar o grupo do viado da foice. Você sabe que a gente quase matou eles, se não fosse por aquele outro viado.
–Ah, falando nele, o Lord me mandou uma carta hoje cedo. Disse que tinha conseguido jogar uma shuriken envenenada no viado, veneno de verdade. Vai ficar um bom tempo sem nos incomodar.
–A menos que arrume um Clérigo — ajuntou o espadachim loiro, que não tinha falado até agora. Vile Slayer riu.
–É, a menos que ele arrume um Clérigo — ele repetiu, as risadas de ambos enchendo a pequena casa. Dark Corpse, por fim, deu um leve sorriso.
–Estou mesmo começando a detestar Clérigos. Eu adoraria ter um com a gente, mas quando eles não estão do seu lado, são um verdadeiro aborrecimento.
Ele havia atacado dezenas de jogadores pelas estradas, e matado vários deles pelo caminho. Nas únicas vezes que teve que enfrentar Clérigos, o resultado havia sido desastroso. Principalmente a última... E o que mais o enraivecia era que aquele guerreiro não havia precisado de uma magia curativa sequer...
–É, eles sempre são superprotetores e se preocupam demais com seus amigos.
Dark Corpse sacudiu a cabeça.
–Sim, mas no caso daquele Clérigo, é diferente. Ele, aquele menino com a foice e o resto são todos da mesma escola. Da mesma sala, eu acho — acrescentou, pensativo — Malditos sejam. Além de nos atrapalharem, me fazem relutar um pouco em matá-los. Não gosto muito de enfrentar quando são amigos tão próximos.
Apesar de tudo, Dark Corpse era um ser humano — por mais que dissesse o contrário. Vile Slayer, que passava a maior parte do tempo com o rosto dentro de uma máscara de cavalo, estalou a língua num gesto de desprezo.
–Pois que se danem que eles sejam da mesma sala! Eu acabaria com eles num minuto se tivesse a chance! Mais ainda, acabaria com o diretor dessa escola deles, tiraria todos os professores e transformaria a escola desses idiotas. E então eles iriam pagar por todo o mal que fizeram a nós!
O espadachim loiro ficou um pouco tenso ao ouvir essas palavras. Talvez ele não se sentisse mal em atacar jogadores para roubá-los, mas tinha vindo da mesma escola que as pessoas a quem o colega se referia. E por mais que ele sofresse por lá com sua timidez, estudara nela desde que se lembrava, e apesar de tudo, gostava da escola. Não, ele a adorava. Lembrou-se do diretor Nuck, e imaginou aquele rapaz com a cara de cavalo tomando o lugar dele e no comando do MinarForest. Pelo pouco que sabia dele, tinha certeza de que não gostaria do resultado. Enquanto sua mente vagava, lembrou-se de um professor que havia sido expulso anos atrás. "Ele certamente teria o emprego de volta", pensou. Coisas ruins sempre se atraíam, e ele apostava que o professor teria lugar ao lado dele na diretoria.
Então ele sacudiu a cabeça com violência. Como não tinha amigos na escola, costumava divagar sobre várias coisas em sua mente, e estava acontecendo novamente. Mas não era saudável pensar naquele assunto. Além disso, lembrar-se da vida real, de como era o MinarForest, ainda doía. Ele olhou nervoso para os dois, mas nenhum deles pareceu notar o breve momento.
–Sabe, por falar em você, você está indo muito bem — Dark Corpse disse, aproximando-se do rapaz — Me faz ver que foi uma boa escolha ter te dado meu sobrenome. Você é um bom lutador, Evil Corpse.
O menino deu de ombros modestamente, escondendo o rubor em seu rosto. Ali no jogo, vinha superando muito bem sua timidez, embora ainda se sentisse constrangido ao receber elogios como aquele — não que ele reclamasse disso.
–Obrigado.
–Dark Corpse e Evil Corpse — começou Vile — Um pistoleiro e um espadachim. Vocês dois são uma boa dupla, realmente.
–Nós todos somos um bom time, realmente — corrigiu uma voz com sotaque.
–Ah, você voltou — Vile se adiantou, estendendo a mão em um sorriso. O recém-chegado franziu a testa para ele.
–Não, Lucas, eu ainda estou em El Nath matando zumbis. O que você vê é uma ilusão que eu aprendi a criar e trouxe pra cá.
–Quê isso, cara, deixa de mau humor — Dark Corpse replicou, também se aproximando — Vamos ter tempo pras novidades, mas agora, nós temos as nossas. Dois novos membros se juntaram a nós, um deles acabou de sair, e o outro é um guerreiro está aqui escondido com medo de você.
–Hm — fez o homem. Não era muito mais velho do que eles, era o segundo mais novo da sala, para falar a verdade — E quem seria esse tal guerreiro?
–Eu, senhor — Evil Corpse apresentou-se, hesitante, saindo das sombras da poltrona que ocupava, mas se arrependeu certo de que fizera algo errado, quando recebeu um olhar não muito aprovador.
–Você se apresenta pra um estranho armado, superando o medo inicial que tem da pessoa, que no caso, sou eu. É um bom gesto, mas aí você estragou me chamando de "senhor". Não usamos termos formais aqui, entenda isso. Somos todos um time, não há rankings de posição ou necessidade de se mostrar mais respeito do que o companheirismo entre colegas exige.
–Exceto o fato de que todos devem louvar ao deus Poke! — Dark Corpse exclamou enchendo o peito, mascarando a desculpa embaralhada do garoto loiro — Faça isso, e você terá uma vida feliz, proteção de 80% contra backstabs e tudo o que nosso grupo pode oferecer.
–E agora, nós oferecemos uma... pequena... missão de assalto em El Nath — Vile Slayer disse com animação, vestindo sua cabeça de cavalo. O rosto de Dark Corpse se abriu em animação, já o recém-chegado, no entanto, não parecia tão animado com a idéia.
–Eu não, acabei de voltar de lá... Podia ter me avisado que tu pretendia ir pra lá, né cara?
–Eu avisaria, se eu tivesse meu celular — ele resmungou com saudades — Sinto falta de um bom sistema de chat pra conversar.
Dark Corpse sorriu fingindo arrogância, e pôs os braços sobre os ombros dos dois companheiros.
–Quem precisa de chat? Podemos conversar e jogar entre nós mesmos. Não precisamos desse pessoalzinho tosco daí.
O rapaz com a voz tranquila fez um gesto de indiferença, e Vile Slayer soltou seu costumeiro "hue". Então o olhar de Dark Corpse encontrou o do espadachim, que sorriu. Ao ver aquela cena, do pistoleiro abraçando os dois colegas como se fossem velhos amigos, apesar de terem se conhecido havia poucas semanas, apenas confirmava o que ele já sabia.
O que ele procurava durante tantos anos no MinarForest, e acreditou que jamais conseguiria. Finalmente, ali naquela pequena casinha escondida, ele havia encontrado.
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O grupo parou para descansar apenas quando chegaram no continente de Ossyria.
A passagem por Ludibrium não havia sido tão demorada, já que, depois de completar as Quests dos Gorduchos — uma dezena de operários gorduchos que trabalhavam espalhados pela torre — eles haviam ganho Pergaminhos da Torre de Eos, que os levavam alguns andares para cima ou para baixo, dependendo do que escolhessem. Ao chegar no 80º andar, resolveram seguir a viagem a pé. Cada um já tinha usado três pergaminhos, e também não queriam usar Pergaminhos de Retorno. Eram caros e era melhor guardar para outras situações.
–Dizem que elas dropam Ilbis, uma das melhores shurikens do jogo — Rockfield comentou desejoso, ao passarem por um andar cheio de aranhas maiores que cabeças humanas.
Agora que começavam o trajeto por uma das bordas de Ludibrium, eles perceberam o quando a cidade era grande. Havia brinquedos, lojas, cavalos de brinquedo e tudo o que se pudesse imaginar. Eles não conseguiam distinguir bem quais seriam as casas, já que tudo era formado por blocos de brinquedo e cada uma tinha a sua própria forma.
Quando chegaram perto do centro, notaram uma comoção ali. Uma multidão, cerca de cem pessoas, estava em volta de um bloco de brinquedo mais alto que os demais, que servia de palco. Ao lado dele, pendia um poste de luz onde um homem se apoiava, falando à multidão.
–Sim, ele merece! — dizia a voz trovejante — Vem infernizando este jogo há semanas, com suas mentiras e seu orgulho idiota. E agora é hora de pôr um fim nisso! Vocês não concordam?
A multidão parecia dividida. A maioria concordava, gritava e bradava "Morte a Lohan! Morte a Lohan!" mas ainda havia alguns poucos que permaneciam quietos, olhando a cena com uma raiva contida. Esses, os companheiros notavam, geralmente usavam roupas de cores berrantes e chamativas. Um deles tinha asas de fada saindo das costas e outro, um balão arco-íris flutuando acima dele.
Talvez eles fossem agir pela libertação do homem, uma figura colorida de óculos com a cabeça curvada pelo medo. Mas havia pelo menos oitenta pessoas que aprovavam o que acontecia. E os três homens parados no bloco pareciam fortes demais para que fossem enfrentados.
–O que é isso tudo? — Nick perguntou. Rockfield respirou fundo para responder.
–É uma coisa que às vezes acontece por aqui — ele disse sem tirar os olhos da figura colorida, que agora implorava por clemência — Eu conheço esse cara. É um Clérigo membro de um clã popular, e muitos gostam dele. Mas o jeito dele, e as briguinhas dele com outras pessoas conhecidas... — ele fez uma careta de nojo — Bem, apenas agradeçam por não terem que aturar as coisas que ele faz.
–Como assim? Eles vão...
Mas Thugles se calou e assumiu uma expressão de horror ao ver um dos homens empurrá-lo do palco, que era apenas um metro mais alto que o chão. O Clérigo, contudo, não caiu, pois estava preso a uma corda. No pescoço.
Ele se sacudiu por alguns momentos e então parou de se mover, o corpo esticado balançando molemente na corda grossa.
O pequeno grupo que parecia apoiá-lo se curvou de tristeza, alguns choraram, mas não foi o que o resto da multidão fez. Grandes vivas foram dados e as pessoas pulavam e gritavam, um deles se aproximando para pagar uma bebida em um bar da cidade.
Rockfield encarou o corpo por alguns segundos.
–Vamos embora — disse, e estava satisfeito por estar usando a máscara. Não queria que eles vissem o leve sorriso que aparecia em seus lábios.
Por sorte, o navio para Orbis já estava lá quando chegaram ao porto. Havia apenas um navio que fazia a viagem entre as duas cidades, e quando ele partia, precisavam esperar até que ele voltasse.
–Aí está, e vocês reclamaram que foi perda de tempo tentar ir pela Cidade Folclórica — ele disse um um sorriso de triunfo.
A Cidade Folclórica era o vilarejo que ficava na base de Helios, a outra torre que sustentava Ludibrium. Era mais rápido, segundo Rockfield, havia um golfinho que os levaria para Aquarium, por onde subiriam parte subterrânea da Torre de Orbis sem ter que esperar o navio. Mas assim que entraram na torre, notaram a maior das novidades: a única forma de descer a torre, um elevador com entalhes de um livro e uma coruja, estava bugado.
–Às vezes eu me pergunto se o Thugles estava mesmo sonhando — Davien resmungou baixinho.
Pelo menos, a travessia durou tempo suficiente para que, assim que entrassem no porto, o navio estivesse prestes a partir. Compraram as passagens — que não eram baratas — e entraram no navio que era mais um pequeno barco, aparentemente movido a corda. Não era nem de longe grande e majestoso quanto o navio que ligava Orbis a Ellinia, mas a viagem também era mais curta.
–Nada de pergaminhos — sentenciou Rockfield, erguendo a mão para impedir Nick, que já puxava o papel com a tira de couro verde que permitiria que usassem a pedra, que os teletransportaria direto para o primeiro andar — É mais fácil subir a torre do que descer, então vamos guardar pra quando estivermos subindo. É bom que a gente faz a Quest de novo — acrescentou, pensativo.
–Quests, Quests e mais Quests! — Davien bradou, erguendo as mãos num gesto de desespero — Mas tudo bem, é caminho e não são muitos Sentinelas a matar. Pode ser.
–Por mim também — Nick concordou, guardando seu pergaminho para outro momento.
–Que estranho, Thug não disse nada — Vampiritico disse com uma risada — Não é você que adora Que...
Ele franziu a testa. O amigo respirava ruidosamente, encarando o menu com os olhos arregalados. A mão que mantinha o painel ligado tremia. Seria uma cena engraçada, se não fosse a expressão pavorosa no rosto do rapaz.
–Cara, você tá legal? — Davien perguntou, um tanto preocupado. Thugles podia brincar, mas nunca fingia estar seriamente doente nem pareceria assustado para enganá-los. O rapaz olhou para ele, e com isso veio a certeza de que era algo muito sério.
–Amigos — ele conseguiu dizer, antes que o choque voltasse a dominá-lo — A...Amigos...
Vampiritico curvou a cabeça como uma coruja, sem entender o que ele queria dizer. Nick teve uma idéia e abriu o menu de amigos. Ele soltou uma exclamação de horror. Davien e Vampiritico se aproximaram para olhar por cima do ombro dele e foi como se uma mão gelada tivesse espremido os corações de ambos.
O diamante verde ao lado do nome de Sheddeer havia desaparecido.
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