MapleStory Online
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Invadiram o acampamento durante o turno da Giu.
South e Zeru já tinham partido, alegando que estavam muito atrasados em nível e que iriam passar a madrugada inteira jogando. Combinaram de se encontrar em Orbis, na pousada mais próxima do porto que encontrassem. Todos os outros dormiam, enrolados em cobertores ou colchões no chão. Era agora o último turno de vigia, já que faltavam cerca de duas horas para o nascer do sol. Como Rockfield, Anna e Vampiritico não estavam ali, Nick e Noctolia também tiveram suas horas em que ficaram acordados. Kash não tinha vigiado, mas alguém tinha mentido para parecer que sim, e a garota agora dormia enrolada sobre si mesma, debaixo de um cobertor grosso. Com isso, Giu era a única acordada.
Estava sentada na beirada, observando Kerning ao redor. Era uma cidade grande, a mais parecida com um lugar "normal" de todas que ela tinha visto. Enquanto as demais cidades eram esculpidas na pedra, flutuavam ou eram feitas de cogumelos, Kerning era uma confusão de casas, becos e ruelas, com prédios elevando-se aqui e ali. Um enorme guindaste amarelo em forma de T assomava ali perto, Giu pensava em escalá-lo quando sua Detecção Auditiva captou movimento.
Ela ficou paralisada, as pernas subitamente parando de se mover e a cabeça girando automaticamente na direção do som — a borda do prédio à direita. O barulho repetiu-se outra vez, tênue e suave, mas que ela ouvia com clareza. Rastejou em silêncio e atingiu a borda do prédio, inclinando-se para baixo.
Outro prédio estava colado àquele, seu topo a cerca de dez metros abaixo. Ligando os dois, uma escada de mão subia pela parede externa, e Giu estava logo no fim dela. Conseguia ver o topo coberto de pano de uma cabeça que subia lentamente, tentando fazer o mínimo de barulho possível. Atenta, Giu recuou um pouco o corpo, ficando deitada de barriga para baixo e rosto colado ao concreto.
[i]Tum. Tum. Tum. Tum.[/i] Silêncio. De repente, um rosto surgiu da borda do prédio: uma oval clara, coberta por capuz e emoldurado por cabelos castanhos. Espiou, viu os vultos adormecidos e congelou. Então Giu ergueu a cabeça e os pares de olhos se encontraram, a poucos centímetros um do outro.
—Oi.
Giu fizera de propósito, e o invasor inspirou ar rapidamente, assustando-se sem gritar. Empurrou a parede com ambas as mãos e atrapalhou-se com os pés na escada, mas sentiu uma mão magra agarrar-lhe o pulso. Levou alguns segundos se estabilizar. Giu segurava-lhe o braço.
—Salvei sua vida — ela disse — Agora você me diz qual o seu nome e o que faz aqui, então eu te deixo ir embora.
—Tabs — respondeu, a essa altura Giu já notara que era uma garota. Usava óculos, suas feições eram pequenas e alinhadas na pele morena. Parecia assustada, mas seu olhar não vacilava — Vim ver o que tem por aqui, se tinha algo secreto ou algum NPC que me desse prêmios. Ei, você é uma NPC?
—Não — Giu respondeu, rindo, puxando-a para a segurança. Se fosse Thugles ou Nick no lugar de Giu, talvez tivessem hesitado. Mas a garota nunca tinha encontrado alguém que quisesse prejudicá-la, e também não desconfiou da menina — Eu sou a Giu — acrescentou.
Sentaram-se na beirada e começaram a conversar. Tabs era uma maga e usava um vestido branco com marrom na barra, no colarinho e nas mangas. O capuz era vermelho e os cabelos acompanhavam-lhe os dois lados da cabeça, chegando até os ombros. Sua arma era um Cajado de Arco: um bastão dourado com a ponta curvada para baixo em azul-claro, e logo abaixo desta, uma esfera avermelhada. O nível dela era 63, o que a deixou um pouco amuada.
—Você upou bastante — falou Giu.
—É! — a outra respondeu — Eu comecei com as Quests básicas, depois fui pros Drakes em Perion. Fiz todas as missões de grupo, das que conheço, pelo menos. Aí eu comecei a upar nos coolies, mas subiram muito o nível deles. Depois fui pra El Nath, Mu Lung, Orbis... Encontrei um grupo de eremitas muito legal lá em Mu Lung e peguei uma Quest ótima que me deu habilidades de maga da terra. Terra é meu elemento favorito! Eu gosto daqui de Kerning, é legal e eu fico roubando bombons das lojas de poções...
—Você rouba bombons das lojas de poções? — Giu perguntou incrédula.
—É! É fácil, você entra na loja e se agacha na frente do balcão. Dá a volta e tenta comprar itens com o vendedor, mas você precisa estar atrás dele. Em vez de aparecer o menu de compra, vai aparecer o inventário dele, aí você pega o máximo que conseguir, acha um ponto cego onde não tem ninguém...
O sol nasceu e as duas continuavam entretidas na conversa. Nick foi o primeiro a acordar, e acordou os outros. Logo estavam todos despertos e amontoados ao redor da recém-chegada, curiosos. Tabs respondeu a eles com a mesma animação.
—Gente, vocês fizeram terceiro avanço! É, tipo, o que eu estou doida pra fazer, ganha muitas skills legais? Vocês dois são o quê?
—Sacerdote — contou Thugles — E o Nick é Mago, Gelo e Raio. Bom... Ganha várias habilidades novas sim, eu por exemplo posso transformar a Giu numa lesma. Você quer ver?
—Nossa, eu quero!
—Ha. Ha. Ha. Thugles — Giu o encarou com os olhos arregalados de fingimento, mas Tabs gritava:
—Ei, hoho, olha só o que eu consigo fazer! Vocês conseguem?
Ela equilibrava-se em pé na beirada do prédio, de costas para o abismo lá em baixo, com os calcanhares passando a borda e apenas as pontas dos pés tocando o chão. "O segredo é colocar bastante peso na frente do corpo", ela disse enquanto Noctolia tentava, balançando os braços, e Thugles hesitava, sem coragem. "Assim você equilibra o peso pra frente e não pra trás". Giu colocou as mãos nas costas e equilibrava-se perfeitamente, reta como uma estátua.
Depois disso, puseram-se a caminho. As quatro meninas conversavam enquanto caminhavam, e agora falavam sobre que livros estavam lendo quando ficaram presas no jogo. Kash não falou muito, na verdade, tentou se manter afastada, mas sua vontade de rir com alguns comentários a traía. Thugles e Nick iam à frente, na direção do táxi.
—Você acha que o Vampy vai saber pra onde vamos? — Thugles perguntou. Ele sabia que o amigo conseguiria encontrá-los onde quer que fosse por causa das habilidades de Gatuno, mas fizera a pergunta somente para puxar assunto. E também para lembrar-se dele. Nick deu de ombros.
—Eu sei lá. O Mestre Arruaceiro é ele... Deve achar sim. É melhor que ache, ou vamos ter que procurá-lo. Eu odiaria ter que sair atrás de um Gatuno por aí — disse numa risada seca.
Thugles mordeu o lábio, engolindo um soluço. Nick virou-se para ele.
—Qual é o problema?
—Estou engolindo um soluço — respondeu. Nick fez uma careta.
—Então engole calado, eu pensei que você tinha engasgado com alguma coisa. Seria muito ruim você morrer, quem iria nos curar?
Nick riu, e Thugles não demonstrou o quanto aquilo o tinha magoado.
Pegaram o táxi para Ellinia, e de lá foram para Orbis, de navio. Havia uma cesta no topo do mastro, onde Tabs e Thugles subiram e de lá pulavam, sempre que alguém encontrava-se desavisadamente abaixo deles. Ao chegarem em Orbis, procuraram uma estalagem.
—Pra onde vamos agora? — Noctolia fez a pergunta. Eram um grupo grande agora, e ocupavam a maior das mesas de madeira.
—Devemos esperar o Rock e o Vampy — Thugles disse. Nick virou-se para ele.
—Eles são Gatunos, encontram a gente fácil. A gente tem que upar!
Giu fez um aceno. Concordava com ele.
—Tem mesmo. Podemos ir nos Cellions, fica perto daqui. Eu soube que eles derrubam um chifre que dá pra fazer vários itens com ele.*
—Vamos fazer OPQ, eu adoro aquela Quest! — sugeriu Tabs.
—Todos precisam estar acima do nível 50 pra fazê-la — lembrou-lhe Thugles — Eu acho que a Giu está certa. Cellions são... Fortes, pro seu nível, mas somos um grupo. Eles com certeza vão nos dar maior Experiência.
—Sim, depois disso nós vamos pros Yetis — Nick completou entusiasmado — Quando vocês tiverem nível, vamos mostrar o que são monstros de verdade!
Giu ergueu as sobrancelhas.
—Se você está achando que eu sou fraca, é porque não me viu lutando ainda. Podemos muito bem ir nos Yetis.
—Você morreria fácil neles — Nick sacudiu a cabeça.
—Yetis não são aqueles monstros peludos de El Nath? — Noctolia perguntou — Eles são de gelo, se me lembro bem, e você é mago de gelo, Nick. Você tem desvantagem contra eles. Se você consegue, certamente nós também conseguimos!
Iniciou uma pequena discussão. Nick participava dela acaloradamente, mas ocorreu a Thugles que algumas das meninas pareciam não ter percebido a gravidade que eram os monstros. Giu, por exemplo, era Arruaceira, a classe de Vampiritico. E Vampiritico era alguém que dificilmente era pego, Thugles se lembrava disso. Quanto a Noctolia... Era era arqueira assim como Sheddeer, que tinha ultrapassado bastante os níveis deles. Ele tinha lutado ao lado de Donnie, Rockfield e Aphanyus, que enfrentavam os monstros mais fortes. Em suma, Gatunos eram cheios de truques, e Arqueiros sabiam se manter à distância para não serem atingidos. Tanto que Kash tinha sobrevivido. Talvez isso tivesse feito com que as duas ficassem confiantes demais, já que conseguiam atacar sem nunca serem pegas. Talvez achassem que pudessem enfrentar monstros como os Yetis, por mais fortes que fossem. Mas a realidadeb depois do nível 40, por exemplo, não era bem assim.
Thugles tentou explicar isso a elas, mas um Sacerdote não parecia ser a pessoa certa para falar sobre que monstros deviam atacar. Giu dizia que não faria diferença, ele ficaria separado do grupo curando, de qualquer forma. Por fim, num momento em que todos pararam para respirar e pensar na próxima resposta para inflamar mais a discussão, alguém respirou fundo.
—Nós poderíamos criar o clã — Kash sugeriu.
Isso fez com que todos se calassem. Não tinham percebido que tinham de fato chegado à cidade onde se criavam clãs.
—É mesmo — Thugles sorria, muito animado — Já somos seis aqui, e o dinheiro está comigo. Podemos ir lá agora mesmo e criar!
—Mas qual vai ser o nome? — Giu quis saber.
—É melhor esperar os outros — Kash baixou a cabeça, e tornou a erguê-la — Eu tinha me esquecido. Desculpem. Nesse caso, eu acho melhor não nos afastarmos tanto daqui indo pra El Nath matar Yetis. Não sei o que são Cellions, mas a Giu disse que é aqui perto... Podemos ganhar Experiência lá, assim vamos ficar mais perto daqui pra eles nos encontrarem.
Noctolia foi a primeira a concordar, e relutantemente, Giu também cedeu. Foram então para os parques ao redor de Orbis. A cidade inteira ficava no meio de nuvens, e algumas delas eram tão compactas que era possível andar nelas, e o Parque de Orbis era justamente formado de nuvens. Passagens e arcos de pedra enfentavam o branco aqui e ali, e numa região havia três altares de pedra em forma de círculo, onde flutuavam três enormes pedra em forma de losango, cada uma de uma cor: vermelho, amarelo fosco e azul-gelo. Escolheram a cor vermelha.
Ao pisarem no círculo e tocarem a pedra, foram teletransportados pra um lugar construído de nuvens e pedras. O chão às vezes era um, às vezes era outro, e por toda parte havia escadas e plataformas, mas não havia paredes ou teto. Por toda parte, as feras se moviam: grandes felinos de pêlo branco, com as pontas avermelhadas e uma cauda que parecia seda vermelho-brilhante, olhos inteligentes e maiores que leões. Um chifre cônico e marrom projetava-se da testa.
Havia três tipos deles, do fogo, do gelo e do raio, e aqueles eram os Cellions, as feras de fogo. Escolheram-nas porque Nick levava vantagem, e porque alguns ataques de Noctolia causavam dano com fogo. Ela estava em clara desvantagem, mas resolveu que um desafio seria bom.
—Vou precisar saber enfrentar inimigos que resistam ao fogo, e é bom praticar — disse ela.
Como Thugles e Nick estavam em um nível maior, a Experiência era bem diluída, mas Thugles apresentou a solução: usaria seu Símbolo Sagrado, que aumentava a Experiência ganha, e a Bênção, e sairia do grupo. Quando expirasse, ele as chamaria novamente e re-usaria as habilidades.
Habilidades de suporte tinham um bônus de eficiência quando usadas membros do Grupo. Seu Símbolo Sagrado já estava no nível 19 e conferia uma boa porcentagem extra de EXP.
—Nossa, essa skill é ótima! — comentou Tabs enquanto conjuranva pilares de terra das nuvens, o que não fazia muito sentido — Nunca ganhei tanta EXP assim matando um monstro. Parece até bom demais pra ser verdade!
Ela era a mais elevada das meninas em nível, e terminou ganhando uns 40%. Ficaram por lá até perto das cinco horas da tarde. Giu e Kash ganharam três níveis cada uma, e Noctolia chegou perto disso. Alternaram para os mapas onde havia Grupins e Lioners, as feras gelo e de raio.
—Mas já? — Giu disse certa hora, quando Tabs reclamou de estar cansada — Você não upou nem uma vez!
—Eu upei bastante antes de te conhecer, tá? — a garota retrucou — Mas tá, eu estou cansada agora. Vamos fazer uma pausa?
Giu recuou a lâmina. Acabara de matar um Grupin.
—Pensando bem, já não ganho tanta Experiência assim — decidiu ela — Qual é o próximo lugar pra upar?
—No nível 49? Eu diria que Mu Lung, com as Quests de lá... Ou El Nath — Thugles disse, pensativo — Talvez até mesmo os Yetis.
Mas acabaram voltando para Orbis antes de pensar em fazer qualquer coisa. Giu e Nick queriam El Nath, embora este tivesse desvantagem contra os monstros de gelo. Thugles não estava muito animado, queria descansar e não fazer nada. Por fim, Noctolia foi quem decidiu o que fazer.
—Vamos negociar — e quando todos olharam para ela, respondeu: — Já que vamos lutar contra clãs, devemos ir preparados, não? Vamos no mercado comprar equipamentos novos. Aquelas caudas que dropamos nas feras valem bastante pra se fazer roupas de bruxo. Não sei fazer, mas tem jogador que paga caro por elas.
—Não sei não — Thugles respondeu, a mão na boca formando uma arma com os dedos — Mercado me soa a Dark Corpse.
—Pois que encontremos com ele — Nick murmurou impaciente — Está mesmo na hora de ele aprender uma coisa.
Thugles o fitou.
—Você por acaso não esqueceu do que aconteceu da última vez que ele lutou com a gente, não é?
—Nós botamos ele pra correr, com o rabo entre as pernas daquele cavalo que ele monta — Nick respondeu desafiador. Thugles ergueu os braços.
—Um de nós quase morreu, tínhamos South e Zeru e o Vampy, que era terceiro avanço! Não quero ofender — ele se dirigiu às garotas — Mas de qualquer forma, não vamos discutir sobre enfrentar o Dark Corpse. Não é possível que ele tenha que nos causar problemas mesmo quando não está aqui.
Foram então ao mercado, mas lembraram-se bem a tempo de que deviam encontrar South e Zeru, e foram para a estalagem mais perto do porto que acharam. E lá estavam eles, esperando com impaciência havia algum tempo. Foram então todos para o Mercado Livre.
Era um lugar em que não se podia entrar o tempo todo, mas fazia tempo que nenhum deles ia até ali. Mercado Livre era como uma dimensão separada, onde todos podiam se encontrar e ao mesmo tempo não podiam. Era na verdade um mapa em fase beta, por isso havia limite de vezes que cada pessoa poderia acessá-lo em um determinado tempo, e marcar encontros ali não era compensável. O Mercado Livre era um único mapa, igual para todos: não importava se a pessoa entrasse nele por Orbis, Kerning, Ellinia, Magatia, Edelstein ou qualquer outra cidade, todos iriam para o mesmo lugar. Quando se saía do Mercado Livre, voltava-se para a cidade do qual entrara. Dizia-se que havia um bug onde era possível usar o Mercado Livre como ponte para ir de uma cidade a outra, entrando por Orbis e saindo em Perion, por exemplo, mas aparentemente até agora ninguém havia conseguido tal feito.
—Olha, túnicas de nível 70! — Thugles apontou para uma barraca, eram tantas que tudo parecia uma grande feira — Duzentos mil mesos. Acha que vale a pena?
—Ali tem uma outra, nível 68 por trezentos mil — Nick franziu a testa — Estranho...
—Vamos vender as caudas de Cellion, Grupin e Lioner primeiro. Assim ganhamos mais dinh... — Kash não terminou falou, porque um Gatuno alto, e muito atento, ouviu e se aproximou, assomando sobre ela.
—Espera — disse — Você disse que vende cauda de Cellion?
—Compro as de Cellion, cem mesos cada — um bruxo virou-se, correndo.
—Pago cento e cinquenta. E compro também as de Grupin! — falou outro.
—Eu compro tudo, cento e vinte mesos cada!
Meia dúzia de compradores veio, todos ofertando e rebatendo os preços de ofertantes anteriores, e com isso vieram outros venderores de cauda de felino, ansiosos por também ganhar algum dinheiro, e toda a agitação atraiu curiosos. Kash fechou a boca, espantada. Thugles a olhou e ambos sorriram. Seria um longo dia de trocas.
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Pela floresta, Vampiritico movia-se tão silenciosamente quanto uma sombra. Seus passos faziam um barulho mínimo, e se alguém o notasse, sentiria mais do que ouviria. O preto de suas roupas camuflava-se perfeitamente com a noite, no meio daquelas árvores onde o luar raramente iluminava o chão.
Ainda não amanhecera — estava escuro, mas ele estava acostumado à escuridão. Estava sozinho em um lugar que pouco conhecia — a floresta a leste de Edelstein — mas também estava acostumado a isso. Ele estava cumprindo seu turno de vigília em Kerning quando a carta chegou, o inconfundível papel amarelado da Mist Brotherbind. Eles tinham mais uma missão para ele, e o rapaz não iria hesitar. Dizendo a Thugles que os encontraria em Orbis, ele saiu em plena madrugada e foi até seu destino. A Mist Brotherbind lhe proporcionava portais que levavam a todas as cidades principais e podiam ser usados somente quando estivesse em missão para o grupo, mas curiosamente o rapaz não conseguiu acessá-los. Teve que pegar dois navios. A carta que recebera também era estranha: dizia para ir até a floresta de Edelstein, e lá ficar atento a um inimigo. Nada mais: não falava o objetivo, o motivo daquilo, nem o que poderia ser aquele inimigo.
E todo esse mistério o intrigava. Aquela carta misteriosa... Significaria que ele estava chegando a receber as missões mais difíceis? Excitado, lembrou-se de que no início ele recebia tarefas simples, como bater em devedores ou assustar ladrões que os prejudicavam, e depois começara a receber tarefas mais ambiciosas, que iam desde roubar NPCs até incriminá-los. Uma vez, recebera a tarefa de assassinar um perigoso mercenário disfarçado de mercador, e cumprira bem a tarefa. Desde então, não recebera mais nada além de um despacho geral sobre o Patch 1.05 que atualizaria as texturas das roupas dos NPCs da Mist Brotherbind. E agora recebia aquela carta.
Vampiritico mal cabia em si de excitação. Ele conhecera outro jogador daquele grupo, um outro Gatuno alguns níveis mais alto que ele. Rapaz baixo e de orelhas grandes, tinha ganho uma lâmina que absorvia parte do dano inflingido a um inimigo, conferindo HP a si próprio. Ele o tinha encorajado a continuar com as missões, porque logo chegaria uma particularmente difícil, onde a recompensa seria à altura. E Vampiritico estava muito animado quanto à isso.
Estava agora na floresta, de árvores espaçosas e relativamente altas. Mas, embora estivesse ansioso, também estava muito atento. Não se esquecia de que devia esperar um inimigo, e não era nenhum principiante. Andava olhando para os lados, fingindo estar receoso e assustado, quando na verdade seus olhos escaneavam cada galho, cada folha de grama em busca de um movimento que poderia indicar a presença de alguém. Ele não olhou para trás nenhuma vez, confiando na Detecção Auditiva e na visão periférica quando olhava para os lados. Pensou em fazer algum barulho para chamar a atenção, mas mudou de idéia — talvez fosse um teste para ver se ele era paciente, e furtivo...
O repentino farfalhar foi captado um segundo antes de um vulto alto descer das árvores, caindo em pé à frente dele na escuridão. Estava a alguns metros, e Vampiritico não era capaz de discerni-lo bem, mas viu que era magro e usava roupas leves — certamente, outro Gatuno. Sorriu de esguelha, mas não fez nenhum movimento para a adaga. Poderia pegá-la em questão de milésimos de segundos, e até agora não tinha havido necessidade.
Um segundo farfalhar, mais sutil, veio de trás dele. "[i]Uma emboscada[/i]", deduziu. Era óbvio que estava cercado. A figura à sua frente estava lá apenas para prender-lhe a atenção, mas Vampiritico concentrou-se com esforço para não ser surpreendido por quem quer que estivesse atrás dele. Então lembrou-se de que essa pessoa poderia ter shurikens, que eram muito silenciosas e ele talvez não captasse a tempo. Deu alguns passos para o lado, ficando de costas para uma árvore.
—Quem... Quem é você? — gaguejou para o vulto à diagonal, sem dar nenhum sinal de que tinha notado aproximação atrás de si. Sua voz soara numa imitação perfeita de insegurança, e ele engoliu em seco para intensificar o efeito. Ouviu uma risada vinda do vulto, e este se aproximou.
—Ora... Você já se esqueceu de mim, Vampy?
O coração de Vampiritico batia forte, e desta vez não era fingimento.
—...Dark Corpse? — indagou, mas não havia dúvidas quanto à voz zombeteira e o sorriso que ele era quase capaz de ver no rosto indistinto à sua frente.
—Você lembrou! Bom pra você. Não faça essa cara, não vou machucá-lo. Só vim falar com você.
—Legal — Vampiritico respondeu — Mas eu não quero falar com você. Será que eu posso ir embora?
—Não até você aprender a ser mais educado. Eu não vou te fazer mal — resmungou, impaciente, e Vampiritico surpreendeu-se acreditando nele — Venha, vou te mostrar. Pode ficar atrás de mim.
Um som abafado se fez ouvir no chão atrás de onde o garoto estava, seguido de mais. Contou três pessoas descendo da árvore atrás dele.
—Não olhe pra trás — avisou Mad Shadow, tocando-lhe delicadamente as costas. Sem alternativa, Vampiritico seguiu o pistoleiro.
Pensou em fugir, mas é claro que não iria arriscar. Havia três pessoas atrás dele, e quem sabe quantas mais poderia haver? Ele sabia muito bem que Dark Corpse já tinha passado muitos maus bocados com ele. Dificilmente iria querer se arriscar, e sensatamente, Vampiritico o seguiu sem resistir.
Andaram pela floresta, Dark Corpse seguindo um ritmo constante e ágil, Vampiritico gravando cada detalhe do caminho. Precisaria saber por onde voltar... Ainda que talvez fugisse por outro lado, na primeira oportunidade. Seus captores certamente esperariam que ele estivesse mesmo analisando o caminho e que fosse voltar por ele, então o mais sensato a fazer seria embrenhar-se nas árvores. Mas aí poderia cair em alguma armadilha, já que não conhecia o caminho... A cada pensamento positivo, um negativo o neutralizava, e isso não parou até Dark Corpse parar numa clareira.
Era um círculo perfeito rodeado por árvores, de grama baixa e de diâmetro relativamente grande. No centro havia ruínas de pedra do que parecia ser um altar há muito destruído com a tábua principal rachada em três partes, um dos lados que a seguravam tombado e o outro parcialmente destruído, de modo que parecia uma rampa de um milhão de anos cercada pelos restos do altar, em pedras grandes como uma criança. E de uma forma estranha, as ruínas pareciam brilhar uma luz que não vinha do altar propriamente dito, mas que iluminava a clareira toda com a mais tênue das iluminações, afastando a escuridão e permitindo que se enxergasse melhor. Mesmo assim, a pessoa encapuzada na frente do altar permanecia oculta em negro.
—Pronto — Dark Corpse voltou-se para Vampiritico — Aqui está.
—Estou vendo — tornou-lhe Vampiritico — Ele é algum necromante? Vai me sacrificar pro deus das lesmas ou coisa assim?
—Aí você confunde o altar do guardião do sol com o do deus das lesmas. Entendi — disse a voz grave do homem perto do altar — Poke, bom trabalho.
—Não foi nada — Dark Corpse acenou levemente. Com um tapinha no ombro de Vampiritico, voltou pelo caminho de onde vieram. Três pessoas subiram nas árvores atrás dele e fez-se silêncio. Ou a Detecção Auditiva tinha bugado ou eles tinham ido embora.
A figura perto do altar baixou o capuz e disse:
—Vem cá, aproxime-se. Você não acha que eu mandei meio clã atrás de ti pra você ficar parado aí, né?
Vampiritico fez o que era pedido, um novo temor formando-se em sua mente. Começava a ter uma idéia de quem poderia ser aquele rapaz, de calças jeans, camisa azul e lança. Um lanceiro da Sunrise of Astoria... Mas estranhamente, ele sentia pouco medo. Talvez porque seus sentidos de Gatuno indicassem que eles eram os únicos presentes ali, e a classe da qual os Gatunos eram mais capazes de fugir eram os Guerreiros. Aquele não usava armadura, mas a lança era claramente pesava e dificilmente aquele rapaz poderia impedir um Gatuno de fugir em plena escuridão. A desvantagem, no entanto, estava em se aproximar demais. Lanças eram especialmente poderosas, e se não um, talvez dois golpes daquela lança seriam suficientes para zerar todo o HP que vinha mantendo cheio com tanto esforço, há tanto tempo...
—Oi — desta vez, falando com uma pessoa sólida e visível, Vampiritico não fingiu mesmo. Na verdade usou até um tom entediado, que deixava claro que não queria estar ali. O rapaz assentiu e deu um passo à frente. Vampiritico analisou-lhe as feições: lisas, comuns, cabelo escuro como o de um adolescente comum. Assentiu devagar e respondeu:
—Oi. Então, como você já deve ter percebido, eu sou o líder da Sunrise of Astoria. Tudo bem contigo?
—Estou ótimo — Vampiritico deu de ombros — E sei bem quem você é. Será que dá pra falar logo?
—Bom, Vampy — Italo olhou fixamente para ele, e aproximou-se mais — Vai dizer que não se lembra de mim?
Vampiritico ergueu uma sobrancelha e deu de ombros. Italo suspirou.
—Então você esquece assim de quem te ajudou na primeira vez com o Artorias — ele parecia decepcionado — E então, ficou mais fresca a memória?
Vampiritico o olhou... E arregalou os olhos. Recuou um passo, entre assustado e surpreso. Sua boca boquiabriu-se.
—Italo... Italotsv? — o silêncio foi como uma confirmação, e Vampiritico esqueceu tudo o que havia entre ele e a Sunrise — Italo! Cara, eu me perguntava se você ia estar aqui, mas nem quando ouvi que o líder da Team Italo era o Italo eu atinei que fosse você. Eu não acredito!
—Então vocês chamam a gente por esse nome tosco? — Italo parecia ofendido, o que fez as memórias voltarem.
—Vocês já foram a Team Italo, uma vez Team Italo, sempre Team Italo — Vampiritico disse, mais cauteloso dessa vez — Seu clã vem atacando, eu e meus amigos há algum tempo. Eu acho que você não tem a ver com isso... Mas como você sabia que era eu?
—Bom, quando o Poke veio me contar sobre um tal de Vampiritico eu não fiz que nem você, né cara? Percebi na hora que só podia ser aquele Vampy do Dark Souls.
—E aí você me chamou pra me cobrar aquela Solaire Sword que eu te devo...
—Não — Italo respondeu-lhe com calma — Eu te chamei pra perguntar se você quer fazer parte do meu clã.
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—Tem certeza? — Gatts perguntou ao homem de preto. O rapaz sacudiu a cabeça veementemente.
—Absoluta. Eu não sei como ele pode ter conseguido, mas está ainda mais forte do que antes.
Gatts assentiu, sombrio. Ao seu lado, Kiara observava a tudo detrás dos grandes óculos, sentada em sua pedra oval azul-clara na grama. Os olhos verdes brilhavam como duas pedras e a expressão era de medo reprimido, como a de um animal assustado. De pé à frente dela, estava Rockfield e, ao lado deste, Gatts. O guerreiro certamente não era tão alto, mas a armadura o transformara num gigante, alto e largo, todo coberto de bronze escuro e ameaçador. A capa negra atrás dele era ainda maior e alguns centímetros das dobras deitavam-se no chão, mas sem atrapalhar-lhe os movimentos.
—O dano dele... É uma coisa monstruosa — continuou o rapaz de preto — Ataques tão rápidos que mesmo alguns Gatunos teriam dificuldade de desviar. Um tipo de magia diferente, das trevas, é o que ele usa agora.
—Mas você disse que ele voltou pro nível 30. Tem como alguém upar assim tão rápido? — Kiara se manifestou.
—Com um Sacerdote? Acho difícil. Sem um, impossível, eu diria, mas de alguma forma ele conseguiu. Nem o Dark Corpse conseguiu ganhar dele numa disputa, e Italo precisou de menos de cinco golpes. Não é coisa que nenhum nível 30, ou 40, ou mesmo 90 poderia ser capaz de fazer.
—Eu ganhei mais uma classificação no top 10 — observou Gatts — Agora sou o top 5. E descobri que o top 6 era 103, e que estou ganhando dele com uma boa margem de níveis. Se o Italo tivesse realmente ganho tantos níveis e subido de volta como você diz, eu deveria ter caído de classificação.
—Eu não sei... Realmente não sei — Rockfield disse — Toda vez que alguém ultrapassa o seu nível, você recebe uma notificação por isso?
Gatts não sabia responder. Tinha recebido o aviso de que fora elevado na classificação havia dois dias. Talvez a lista fosse atualizada periodicamente e, por acaso, ele havia subido de classificação — mas Gatts vinha recebendo algumas notificações sobre sua posição entre os dez jogadores com maior nível, e não conseguira distinguir um padrão com a frequência em que as notícias vinham. Parecia então que, sempre que se passava alguém, recebia-se um aviso. Mas, quando Gatts o recebeu, não foi ao ganhar um nível, e sim num momento aleatório enquanto descansava. Era estranho ultrapassar alguém de outra maneira que não seja ganhando níveis. Sendo assim, a única explicação lógica era que alguém acima dele tivesse perdido alguns níveis, como havia mesmo acontecido. Ou...
—Um dos outros tops pode ter morrido — Gatts sugeriu, mas Rockfield imediatamente discordou.
—Os únicos "tops" que eu conheço são você e o Italo. E o Donnie, que recentemente recebeu alerta de que ganhou o décimo lugar. E todos vocês têm alguma coisa especial: ou uma Quest Única, ou somente habilidades diferentes dos outros. Diga-me, Gatts, você consegue imaginar alguma pessoa mais forte que você morrendo nesses últimos dias?
A idéia realmente lhe parecia estranha, ele tinha que admitir. A maioria dos monstros que enfrentava não era capaz de lhe inflingir dano significativo, o que devia significar que pessoas mais fortes que ele também seriam, bem, fortes. Afinal, um jogo online era um jogo online, e dificilmente se entrava numa alta posição do ranking se não fosse para ficar lá. E num jogo como aquele, era preciso ter muita raça para chegar à lista dos dez melhores. Por isso a idéia de um deles morrer era algo que se devia reconsiderar.
—Está me dizendo que ele realmente voltou todos esses níveis? — Gatts inquiriu, e quando Rockfield assentiu, praguejou — Aquele maldito. O que ele pensa que está fazendo?
—Ele pensa que está ficando mais forte. E eu não discordaria tanto assim dele — retrucou Rockfield — Seja como for, eles agora vão tentar pegar Edelstein. A cidade é bastante rica e fica perto da Mina Verne. Eu tentei entrar lá uma vez e fui até os monstros mais fortes que eu. Não cheguei nem na metade. Se eles forem donos dos segredos daquela mina, será muito pior pra derrotá-los no futuro.
—Pelo menos, assim eles chegam ao 200 logo e nos deixam em paz — Kiara disse num rosnado. Rockfield deu uma risadinha.
—É, mas o tanto de gente que ia morrer nesse meio tempo... — seu olhar voltou-se, sério, para Gatts — É por isso que precisamos de você. Eles têm o Italo, com poderes que eu não sei bem quais são, e vamos precisar de gente forte pra combatê-lo. Já temos o Donnie e o Apha, e com isso espero ter você entre os mais fortes. Precisamos criar um clã e lutar contra eles.
—Não sei se me dou muito bem em clãs...
—Você sabe que os motivos são mais do que seus gostos por clãs — Rockfield deu um leve sorriso, e Gatts assentiu, pensativo.
—Eu sei, é claro. Os outros também sabem disso tudo, não é?
—Os outros...? Ah, você fala do Vampy e do pessoal? Não — ele disse, sério — Eles sabem que vão ter um desafio bem duro, mas tento parecer mais confiante do que estou. Eles ainda não sabem que o Italo voltou esses níveis. Quero deixar que eles se preparem pra enfrentá-lo como se ele fosse o mais forte, e então contar a eles. Vai elevar bastante o moral.
—Sim — Gatts assentiu meio distraído — Você tem razão. Imagino que estão sem Paladino, também? Estou nessa — seu olhar era firme, determinado, fazia jus ao que os amigos diziam sobre ele. Virou-se para Kiara — Você vem também?
Rockfield riu nervosamente quando a confiança e poder que o guerreiro irradiava sumiu num instante quando a garota se ergueu e começou a bater nele, gritando como é que ele podia fazer uma pergunta estúpida e sem sentido como aquela. Ele mordeu os lábios e vestiu a máscara, casualmente.
—É bom ver que se entendem tão bem. Só temos um Sacerdote, e você seria tão bem-vinda quanto Gatts.
Ela se virou para ele, a raiva desaparecendo dos olhos. Sorriu.
—Ah! É claro: que grupo pode sobreviver sem o Sacerdote? — ela já guardara a pedra, e estavam prontos para ir — Será que eu consigo chegar ao quarto avanço antes da guerra?
—No seu nível... Eu diria que é bem difícil — comentou, a voz distorcida.
—O Italo conseguiu, e ele não tem um Sacerdote — Gatts disse descrente. Rockfield deu de ombros.
—O Italo também fez a quest de Orbis praticamente sozinho sendo que cinco dias atrás estava no nível 30 — disse a voz mecânica — E derrotou o segundo melhor lutador do nosso clã depois de mim e dele próprio, no dia seguinte à Quest. Não é tão certo comparar com o Italo. É por isso que estamos trabalhando juntos para focar nele e derrotá-lo.
—Entendo — Gatts assentiu.
—Eu estou ansiosa! — Kiara comentou, e embora o amigo estivesse quieto e sombrio, ela parecia animada como sempre — Vamos acabar com ele, e ter um clã... Eu sempre quis participar de um. Como é? Tem coisas legais?
O rosto sorridente de Rockfield era indecifrável, por trás da máscara. Virou-se e logo se puseram a caminho.
—Quando entrei em um, ganhamos uma casa na árvore bem legal — ele disse, bem-humorado — Mas receio que podemos não ter essa sorte.
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—Me juntar... Ao seu clã?
—Sim — Italo ergueu uma sobrancelha — Foi o que eu disse, não?
Vampiritico o encarou, indeciso por um momento. Aquele era o Italo, líder do clã que há muito importunava a ele e seus amigos. Por outro lado, aquele era o Italo, seu velho amigo que conhecera em um outro jogo, numa outra época.
Ele sabia que Nick e Thugles jamais aceitariam, se fosse com eles... Mas a idéia era muito tentadora. A Sunrise of Astoria era o clã mais forte que já tinha visto. Na verdade, ele até poderia convencer o líder a controlar mais seus membros, pensou, para que não saíssem por aí atacando as pessoas. Ficou em silêncio por um bom tempo, e Italo bateu o pé.
—Vamos lá, cara. É só entrar pro meu clã, não é como se eu estivesse te chamando pra uma rebelião satânica. Você reclamou que não tinha como criar clã no Dark Souls, então a gente cria um aqui.
—Eu sei — Vampiritico respondeu — É só que...
Todos os seus sentidos, não os que ganhara no jogo, mas os [i]reais[/i], lhe alertavam para recuar. Mas por quê? Italo nunca tinha feito nenhum mal a ele ou a qualquer um de seus colegas. Um líder não era capaz de vigiar tudo o que seus membros faziam, e não podia culpá-lo pelos assaltos de Dark Corpse. Mas uma sensação muito ruim se apoderava dentro dele. Uma coisa grande que engolia os pensamentos, algo que até então ele não sabia que era medo. E mesmo se soubesse, acharia estranho.
—Meus amigos. Eu pretendia criar um clã com eles, e acho difícil eles quererem vir.
—Se você chamar eles, eles vão vir — Italo devolveu — Eu falei com o Dark Corpse pra ele parar com isso, pra parar de atacar sem motivo. Ele que não me ouviu. Mas, bom, inimigos podem certamente virar amigos. A única vez que ataquei seus amigos foi em El Nath. Eu cheguei e vi meus amigos e os seus lutando entre si, e do nada os seus me atacaram. Eu não ia ficar parado levando hit, certo?
Àquilo, Vampiritico deu uma risadinha.
—Aphanyus contou que ele foi o primeiro a atacar — refletiu. Era irônico: grande parte do clã tinha se mobilizado naquela luta, mas o líder nada tinha a ver com aquilo — Eu poderia dizer a eles que você não tem culpa, claro.
Mas falou com certa hesitação, pois ainda havia preocupação em sua mente.
—Vamos lutar em Edelstein agora — Italo lhe contou — Todos vocês seriam úteis. Um mago, um Sacerdote, disso precisamos [i]mesmo[/i], de um Sacerdote. Seu arqueiro também seria bem útil, e eu soube que vocês conheceram outros dois guerreiros.
Vampiritico parara de escutar. À menção da palavra "arqueiro", finalmente se deu conta do que o atormentava.
—Não temos arqueiro. Vocês mataram o Sheddeer — acusou.
—Talvez... Ele deve ter atacado primeiro, eu acho.
—Vocês [i]sequestraram[/i] ele, e depois o mataram! — gritou. Era meia verdade: tinha sido Anna quem o levara, junto com Rockfield, quando então encontraram com Dark Corpse no caminho — Não quero me juntar a um clã de assassinos!
—...meio irônico isso, pensei que vocês faziam pizzas na Mist Brotherbind.
—Não interessa o que você pensa! — berrou — O seu clã é um clã de bandidos, eu nunca vou fazer parte disso. Esqueça! Se eu encontrar o Dark Corpse de novo, vou eu mesmo matar ele! Na verdade — ele continuou, um nada mais calmo — Seria melhor que você mesmo fizesse isso. Porque se eu pegar ele...
Italo tentou acalmá-lo, mas nada do que dizia deu resultado no jovem garoto. A mágoa pela morte do amigo, todas as lágrimas que não tinha chorado por ele, verteram de repente naquela clareira. Esta triste, mas acima de tudo sentia raiva. Tinha acabado de encontrar o assassino ali, perto daquelas árvores, calmo, como se nada tivesse acontecido. Dark Corpse estava escondido por ali em algum lugar. Talvez tivesse até saído, sem interesse.
—Nunca — Vampiritico rebateu quando Italo falou com ele mais uma vez — E meus amigos estariam certos se estivessem aqui. Vamos criar um clã nós mesmos. Não é nada com você, cara, mas simplesmente não vou conseguir olhar pra cara dos seus membros.
—Claro... Você olha pra cara da Amanda quando está com ela?
—Aman... A Mad Shadow? Ela te contou?
—A boca dela não é difícil de abrir quando se sabe abrir o resto — Italo lhe disse — Habilidades de Andarilha, quero dizer. Ela falou como você olhou pra ela quando estava presa com vocês.
—Qualquer um olharia pra ela, ela é bonita, só isso — Vampiritico deu de ombros e sua fúria voltou — E se eu ver ela de novo, mato ela também! Nem que eu morra envenenado, mas ela vai junto com o Dark Corpse.
—Certo. E supõe-se que eu deveria ficar aqui parado ouvindo você contar como pretende matar meus tenentes de clã?
Ele levantou-se do tronco, a lança nas mãos. Por um momento, Vampiritico ficou paralisado. Tinha se esquecido de onde estava, e que aquele não era só seu amigo que conhecera tempos atrás. Então percebeu que talvez, Italo não quisesse ouvir um "não" como resposta...
—É mesmo uma pena. Mas te desejo boa sorte, de qualquer forma.
—Você também — o garoto respondeu no mesmo tom.
Italo caminhou lentamente em sua direção, passou por ele e saiu entre duas árvores, ortogonal ao caminho que ele mesmo tinha feito. Vampiritico ficou só, observando ao redor em silêncio, tentando sentir a presença de alguém na clareira. O barulho das folhas era mais frequente do que o normal, e as sombras que a lua projetava no chão pareciam mover-se com mais rapidez do que se moveriam, se não tivesse ninguém à espreita nas árvores...
Amaldiçoou-se em pensamento. Fora tolo em ir até ali sozinho, embora soubesse que não poderia ter ido de outra maneira. Agora entendia por que os portais da Mist Brotherbind, que só funcionavam quando ele estava em alguma missão, não funcionaram. Mad Shadow também era membro da organização, e ele agora tinha certeza que a mensagem tinha sido escrita por ela. Soltou um longo de profundo suspiro.
"[i]Há inimigos ao redor de mim[/i]", ele pensou. Para onde deveria ir? Certamente, o caminho por onde viera era a trilha que ele conhecia, e a mais indicada para pegar, já que qualquer outro caminho pudesse estar cheio de armadilhas colocadas ali antes da conversa. Por outro lado, era exatamente isso que esperariam que ele fizesse, que se virasse e seguisse a trilha pela qual tinha chegado. Respirando fundo, virou-se lentamente, deu um passo na direção dessa mesma trilha...
E virou-se, rápido como uma pantera, pelo caminho oposto. Correu como o vento, pulando o altar destruído e alcançando as árvores logo à frente. Levou as mãos à frente do corpo, para proteger-se das folhas e dos galhos.
Mas, mal andara dez passos e a floresta terminou de repente, e ele se viu na areia com o largo mar à sua frente. Olhou em volta, surpreso — não tinha imaginado que a clareira estava tão perto da borda da floresta. E ficou parado, olhando para ela. De um lado a outro, a praia estendia-se infinita, sem a menor possibilidade de ocultar um inimigo que ele não pudesse ver. E não muito longe dali, o balão que levava para Orbis flutuava acima da margem. Coçando a cabeça e sentindo-se um tanto tolo, correu rapidamente até ele.
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Vampiritico dormiu o resto da madrugada na viagem, e ao chegar em Orbis, não encontrou os amigos. Decidiu então ir até o Mercado comprar equipamentos novos.
Tinha bastante dinheiro, mas mesmo que grande parte dele tivesse ido embora depois das compras, ele sentia uma grande satisfação com o resultado. Adquirira um conjunto de calça e camisa preta com prateado, botas negras e uma bandana de tecido flexível que cobria toda a cabeça, com duas tiras escorrendo atrás. Da bandana, toda a parte que cobria a testa era em formato quadrado, cor de aço escuro com o emblema de três espadas cruzadas, desenhadas de modo a parecerem entalhadas. Era equipamentos de nível superior, 80, na verdade, o que o deixou tomado por uma ansiedade de upar e ter nível para usar as novas vestimentas.
Ele só não comprara uma arma — usava sua velha adaga de nível bem baixo, um punhal longo e reto. Ele tinha dinheiro para comprar uma arma melhor, mas a partir do nível 50 as adagas passavam a ser lâminas curvas seguras de lado, como uma espada cujo cabo ficava no meio da lâmina. O rapaz as achava muito bonitas, mas descobriu que não era tão bom assim manejá-las, não mais do que as adagas comuns. Além disso, as lâminas retas faziam mais seu estilo furtivo e direto. Mas encontrou algo que nunca tinha visto antes: um pergaminho que supostamente deixava a arma mais forte. A perspectiva de fortalecer sua arma, sem precisar comprar uma de nível maior, o animou, mas a animação estourou como uma bolha ao descobrir o preço. Além disso, a chance de funcionar era de 10%. Decidiu então que sua arma não estava tão fraca assim.
Foi encontrar-se com os demais mais tarde, numa pousada. Estavam lá Thugles, Nick, South e Zeru, e também as duas meninas. Quando lhe apresentaram Tabs(que apareceu no prédio depois de ele ter saído), ele inclinou a cabeça.
—Ora, encontramos o Rock em Kerning e de repente começa a chover menina no nosso grupo. Seja bem-vinda, Tabs, eu sou o Vampy — apresentou-se com uma piscadela.
—Esse é o vendedor de xampus de quem eu te falei — Thugles disse a ela, que riu.
Continuaram uma conversa animada, agora que estavam num grupo grande. Orbis era um bom lugar para se esquecer dos problemas: todas as pousadas tinham vista para além da cidade, que flutuava no meio de um imenso oceano. As terras de Victoria e Ossyria podiam ser vistas muito abaixo, e mesmo que Orbis estivesse cheia de nuvens, havia mais no céu acima dela, espalhadas como fios de energia etérea, congelados no ar, deixando entrever o azul através do branco. Ali era sempre fresco e o eco das conversas escapava para o infinito, o que tornava um lugar calmo mesmo quand cheio de gente.
Rockfield apareceu poucas horas depois, acompanhado de um homem robusto coberto de armadura e capa, e uma garota de túnica branca que sorria para todos. Vampiritico comentou algo sobre Rockfield("[i]Eu não falei?[/i]") e em seguida estavam no quartel-general dos clãs de Orbis.
O mestre dos clãs Heracle esperava sentado com os braços na mesa de madeira, cabelos brancos e cicatriz no rosto mal-humorado. Encarou-os fixamente, quando fizeram um meio círculo ao redor.
—Então... Vocês gostariam de criar um clã. Vocês acham que têm união o suficiente para fazer parte de um clã legalizado em Orbis, pois bem, eu lhes darei a chance. Estão cientes da taxa de inscrição? E, mais importante, que o clã possui laços muito mais fortes do que somente um grupo comum? No passado, os clãs eram famílias lideradas pelo grande general de cada uma delas, e o costume de manter um hoje é uma descendência daqueles tempos. Então não pensem em manchar o conceito de se fazer parte de um clã. Vocês têm certeza de que todos, juntos, têm o que precisam para se dizerem um clã?
Quando todos concordaram(e Thugles pagou a taxa), ele disse:
—Então... Vocês estão aptos. Qual vai ser o nome do clã?
Um minuto se passou. Dois...
—O que vocês acham de "Companions"? — sugeriu Thugles.
—Se for assim, eu preferiria Dark Brotherhood — Vampiritico retorquiu com sarcasmo — Que tal Straria?
—Solaris — Gatts falou solenemente.
—Já sei! Torre de Queijo! Ou... Carneiros Voadores, o que acham? — brincou Tabs.
Começou-se uma discussão, e os nomes sugeridos nem sempre podiam ser levados a sério. Thugles sugeriu Engenheiros. Noctolia sugeriu Fantasy. Vários outros sugeriram vários outros nomes, e ficaram lá por tanto tempo que surpreenderam-se ao ouvir uma sucessão de socos na mesa.
—Chega! Chega! Assim não vamos chegar a lugar nenhum — bravejou mestre Heracle — Vamos começar com o primordial. Qual de vocês é o líder?
Rockfield afastou-se, mãos erguidas; ele que já fazia parte de um clã e não faria sentido dificultar a decisão. Desta vez, caiu-se um profundo silêncio, e ninguém teve sugestões. Ninguém queria liderar o clã, mas uma vez que Thugles tomou a frente, os demais se interessaram.
—Sem ofensa, mas será que é uma boa idéia? — falou Vampiritico — Você sendo Sacerdote e tendo tão pouco HP, imagina se a gente chega num lugar onde só o líder pode lutar? Vamos colocar a luta nas mãos do suporte?
—É mesmo — Thugles assentiu relutante.
E quando Vampiritico sugeriu que ele fosse o líder, o mestre reclamou que ele já fazia parte de um clã e, portanto, não poderia participar. A notícia abalou bastante seus amigos, mas Vampiritico também não quis pensar em deixar a Mist Brotherbind.
—Eu não sabia que contava como um clã! — queixou-se.
—Então quem vai ser o líder agora? — interpôs Noctolia — Eu, pessoalmente... Não sei, o Thugles é legal e tudo, mas eu acho a Giu bem mais apta pra esses troços de liderança, é.
—É — Giu sorriu — Ah, mas eu também não sei ser a líder... Que tal você, Kiara?
—Mas ela também é Sacerdotisa... — Nick objetou — Não faria muita diferença, não é?
—Ei! O que quer dizer com isso, seu merdinha?
—Nada — Nick apressou-se a corrigir — É só que...
—Gente, não estamos avançando nada... Que tal uma votação? — Kash disse. Thugles e Vampiritico ergueram olhares.
—A votação segue o código dos piratas...
—...e cada pirata sempre vota em si mesmo — Thugles completou — Mas ninguém quer votar em si mesmo. Então temos que ver...
O rosto de Tabs se iluminou.
—Eu já sei! Quem comer mais queijo em dez minutos ganha!
Nick ergueu os braços.
—Mas ninguém quer ser líder, então quem iria levar a sério? — perguntou.
—Eu, porque eu gosto de comer queijo!
Grunhindo, Gatts empurrou Nick para abrir caminho e se aproximou da mesa de Heracle.
—Eu vou ser o líder. E o clã vai se chamar Solaris.
—Atitude — aprovou mestre Heracle — Você vai lutar por alguma cidade?
—Sim, nós vamos disputar Edelstein.
—Ótimo — o mestre assentiu — Os membros estão de acordo?
Kiara foi a primeira a levantar a mão, o que, secretamente, agradou o rapaz por baixo da expressão séria e impaciente que trajava. Kash em seguida, então Nick e Thugles, e por fim, todos aprovaram, até mesmo Vampiritico e Rockfield, mais atrás, ambos que não participariam do clã.
Gatts olhava o mestre Heracle. Sem dizer nada, o homem puxou um papel marrom e o estendeu sobre a mesa, que todos assinaram. A cada assinatura, o papel emitia um leve brilho. Quando a última assinatura, a de Nick, foi colocada, Heracle puxou o papel de volta e assentiu.
—Meus parabéns. São agora um legítimo clã de Orbis
E com essas palavras, criou-se a Solaris.
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—Hu! Há! Iáááááááá!
Os gritos e o bater das espadas espalhavam-se no vazio gelado de El Nath. Na neve baixa que forrava as pedras, três pessoas lutavam, duas delas contra uma. Todos usavam algum tipo de lâmina, embora a de um deles parecesse mais curta, embora não fosse possível dizer com clareza à distância.
Eles não tinham notado nas cinco pessoas que observavam ali perto, de cima de uma elevação. A Death Star voltava de mais uma missão bem-sucedida quando escutara o som da luta, e parara para observar. Viram três rapazes, e um deles gritava alto enquanto atacava. Bruken deu um passo instintivo para frente e Davien ergueu o braço para impedi-lo, os olhos fixos na luta. Dali não era possível ver o nível de Honra, e mesmo que pudessem, seria difícil saber quem estava certo e quem estava errado.
Ficou claro que o espadachim de roupas verdes era o que estava em menor número, enfrentando um vestido de preto e um vestido com armadura cor de metal. Golpes eram trocados e apesar da desvantagem, o lutador solitário não estava indo mal. Um golpe súbito derrubou o oponente vestido de preto. Seu companheiro tentou aproveitar a brecha, fechada com rapidez quando o defensor parou o ataque com a espada. De repente, a lâmina dele estava por cima e o de armadura foi atingido repetidas vezes, caindo ao chão. O de verde recuou a espada e posicionou-se à frente, preparado para o golpe final.
—Ei, já chega, cara.
A voz de Davien era firme, mas não inamistosa. Ele e seu clã aproximaram-se lentamente do guerreiro. Estava de costas para eles, sua armadura era uma roupa verde com proteções de couro em estilo oriental. O capacete parecia leve e tinha uma proteção que ia até a nuca. Agora podiam ver o nível de Honra: verde, brilhante como a armadura, mas isso não fez Davien relaxar.
—Você venceu a luta. Acabou.
O derrotado vestido de preto levantou-se com dificuldade e correu para longe. Ninguém prestou atenção nele. O homem vestido de verde não disse nada. Aproximou-se do que estava caído no chão e inclinou-se para perto dele. O rapaz de armadura mexeu-se desconfortavelmente e ergueu a cabeça para olhar Davien, ainda deitado.
—Ele... Ele diz que estava se defendendo. Que não tinha intenção de matar alguém.
Bruken bufou, e Davien ergueu as sobrancelhas.
—E por acaso ele também é mudo? Será que tem medo de encarar as pessoas na cara? Isso pode ser encarado como uma ofensa, sabe...
—Eu posso interpretar isso como um desafio para uma batalha, Davien? — a voz dele, grave e viril, soou enquanto ele se virava.
Davien congelou no mesmo instante. O homem era forte, e muito mais velho do que qualquer outra pessoa que tivesse visto naquele jogo: não tinha menos de trinta anos, rosto quadrado e firme e uma barba negra, curta, mas no queixo descia em um fino fio por uns quatro centímetros, como num arranjo chinês. Mas não havia nada de chinês naqueles olhos castanhos, duros e dotados de um humor ácido que Dave costumava conhecer.
—Duh...?
—E então, você me desafiou pra uma batalha? — Duh prosseguiu, aproximando-se, sorrindo sarcástico — Você agora tem uma arma, uma foice bem legal, devo dizer, e já se esquece de seu mestre? Pare de segurar assim, você não está me ameaçando.
Eles se apertaram as mãos calorosamente(o que estava caído no chão se levantou e fugiu, e como não tinha um nível de Honra baixo, deixaram que fosse embora). Logo o resto de clã convergiu para perto.
—Então você é o Duh, mestre das armas do MinarForest. Dave falou que você é muito bom — Bruken disse. Simpatizara-se com o homem, que sorriu e fez um gesto de cabeça.
—Ah, o Dave aqui é bem impulsivo, mas sabe o que falar de mim. Eu lembro da primeira vez que ele não soube. Foi a última, também, agora que me lembro — ele pôs a mão no queixo, como que pensando. Davien fez um aceno displicente.
—Isso não importa... Como você entrou aqui? E o que veio fazer aqui?
—Mais importante é, como você derrotou aqueles dois — Gui interveio. Baixava um dispositivo vermelho que lembrava um celular de abrir — Nível 63, armadura de Guan Yu. Aquele que você acabou de derrubar era um Templário de nível 72, e o outro era certamente um Gatuno. Não vi um nível, mas a adaga que ele levava era de nível 70, no mínimo.
—E essa sua espada é aquela de nível 50, não? — Bruken reparou na lâmina longa e fina, curioso — Ela não tem tanto ataque, e seu oponente estava de armadura.
—Uma Armadura de Metaliprata, nível 68 — ajuntou Gui — Contra uma espada de nível 50.
Eles olhavam curiosos, talvez até desconfiados, mas Duh não se alterou. Levou as mãos às costas, espreguiçando-se.
—Você é guerreiro — ele olhou para Davien — Qual é a sua build?
Davien franziu a testa.
—Força. Força pra melhorar o dano e o HP, e Destreza pra controlar os golpes. E um pouco de Agilidade, também. Às vezes minha Força sobe demais, então coloco um pouco de Destreza pra balancear, mas estou começando a colocar em Agilidade pra ficar mais rápido.
—E diziam que você não era do tipo complicado — Duh disse — A minha é um pouquinho mais simples. Simplesmente aumento tudo diretamente no dano, na Força. Mais Força, maior dano. Simples.
—Isso não funciona — Bruken sacudiu a cabeça — Você precisa de Destreza pra controlar a força.
—Toneladas de Força são inúteis quando você não tem a técnica para direcioná-las. Meu mestre de espadas me contou isso — Davien disse significativamente para Duh, cujo sorriso se alargou.
—Por acaso você está sugerindo que me falta técnica? Talvez você esteja se esquecendo que nossos atributos iniciais são baseados em como somos na vida real. Tenho muitos anos de treino e estou sempre praticando, etnão já entrei aqui com uma boa quantidade de Destreza.
—Quanto? — Davien quis saber.
Duh disse o número, e riu quando as bocas de todos fizeram um "O".
—Mas você não veio aqui pra me mostrar sua Destreza — -perguntou seu antigo aluno — Como exatamente você entrou?
Duh adiantou-se e pôs um braço no ombro do rapaz. Puxou-o significativamente para um lado. Dave fez um gesto distraído para os companheiros, e logo que ficaram sozinhos, Dave libertou-se do braço.
—Duh, é isso, é justamente isso que estou precisando! Você tem muita força, derrotou aqueles dois com tanta facilidade... Nosso clã só precisa de mais um pra poder competir nas guerras...
—Dave...
—Eu sou o líder, posso colocá-lo numa boa posição de comando. Eu te ajudo a chegar no nosso nível. Podemos conquistar El Nath, e quando todos chegarmos ao 110, podemos ir para o castelo do Rei Leão. É um lugar de nível bem alto e não vi ninguém lá ainda...
—Não, Dave — Duh o cortou com firmeza — Não vim aqui pra me juntar ao seu clã, por mais que eu gostaria. Escuta, eu não posso chegar perto das cidades. Os hackers possuem sensores nelas, e podem descobrir que não entrei aqui junto com os outros. Não tenho certeza, mas Mateus achou melhor não arriscar.
—Mateus? — Davien repetiu incrédulo — O criador do jogo?
—Enquanto você montava seu clã, Nuck teve uns acessos com ele — Duh exibiu a sombra de um sorriso — E no meio de tudo eu acabei vindo. Sobre eu ter vencido a luta... Digamos que eu tenha alguns truques, ou você acha que me encontrou aqui por acaso, como aqueles dois fizeram? Vim aqui ajudá-los. Mateus diz que está trabalhando pra tirá-los daqui antes de novembro.
—Antes de novembro — Davien rosnou.
—Sim, você tem bastante tempo pra se despedir do jogo. Mas por enquanto vai ter que upar sozinho. Não posso confiar em ninguém, então devo ficar fora das vistas por enquanto. Seu clã... Eu vi os olhares deles, a forma como eles esperaram você fazer as coisas. Você está sendo um bom líder, e me orgulho disso. Eu não teria confiado neles mesmo assim, mas já que você falou quem eu era, e pelo visto já falava de mim antes... — ele sacudiu a cabeça — Só diga para eles não espalharem.
—Você não pode entrar nas cidades, nem participar da guerra — Davien disse infeliz — Então por que veio aqui?
O sorriso de Duh era um rasgo e seus olhos brilhavam, como se fosse a pergunta que ele estava esperando.
—Digamos que alguém lá fora deve ter um plano. Devo ganhar níveis, ficar escondido, me fortalecer. E então vou saber mais, mas por enquanto sei tanto quanto você, e olha que você nunca foi o mais brilhante. Mas é importante que ninguém mais saiba disso. Nem seus colegas — a voz dele estava só um pouquinho mais baixa agora — Se encontrar com eles, nem pense em mencionar isso. Não [i]mesmo[/i]. Você jura pela sua honra?
Era a forma que Duh encontrara, havia alguns anos, de garantir que seu melhor aluno não trapacearia. E isso trouxe lembranças a ambos. Davien jurou, e eles se apertaram as mãos, com mais força desta vez. Davien lembrou-se de Duh tinha dito que sentira orgulho. Não eram muitos os alunos que tinham esse privilégio.
Não havia mais nada a ser dito. Duh acenou educadamente para o clã do seu aluno, virou-se e desapareceu através de um grupo de árvores.
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Era a primeira semana de criação do clã Solaris. De início, acharam melhor que ficassem todos juntos em dois grupos conscisos, para upar. Kiara, Gatts, Zeru, South, Anna, Aphanyus. Tabs, Kash, Thugles, Nick, Giu e Noctolia, e como cada grupo comportava até seis membros, Donnie decidiu jogar sozinho. Os níveis eram bastante desbalanceados, contudo — Giu tinha pego 52 e o melhor lugar para ela era Orbis, mas não podia fazer as Quests de Mu Lung que eram o lugar correto para Thugles e Nick. Tabs estava perto de chegar ao terceiro avanço e queria ir até El Nath. Não havia um lugar onde todos pudessem ganhar níveis juntos. Foi uma indecisão até Gatts resolver que levaria todos eles, um de cada vez, para upar com ele e Kiara.
Primeiro as damas, que tinham menor nível, sempre com o Símbolo Sagrado de Kiara, que aumentava a Experiência ganha. Anna e Aphanyus terminaram por deixar o grupo e juntar-se a Donnie, combinando encontrarem-se em Edelstein. Em seguida, Thugles e Nick, South e Zeru. Gatts os levou para os jardins de Mu Lung, para o fundo de Aquarium, para a escuridão de Magatia e até para o interior da Selva do Sono, no centro da ilha Victoria. Os monstros eram sempre dez, vinte e até mesmo vinte e cinco níveis mais altos(nunca para Gatts, claro). Mas ele não matava os monstros enquanto os amigos descansavam, longe disso.
"[i]Segure o arco um pouco mais pra cima[/i]", ele dizia a Noctolia, "[i]Use a adaga para rasgar, não apenas para furar[/i]" instruía Giu, "[i]Controle-se, Nick![/i]", ralhava. Ele tinha recebido instruções sobre cada uma das quatro classes quando participara da versão beta(que ainda não tinha Piratas) para que pudesse se decidir com qual delas começar, então sabia o geral sobre todas elas, e achou que seria uma boa idéia compartilhar essas informações. Sempre que achava que era seguro, quando encontravam um monstro mais isolado dos demais, ele pedia à pessoa que estivesse com ele para atacar, para testar a técnica.
E enquanto treinavam, Vampiritico seguia com suas próprias Quests.
—É melhor eu upar sozinho — foi a resposta que dera a Gatts, quando este lhe oferecera ajuda — Não vou poder entrar para o clã de vocês, então é melhor que se acostumem a lutar sem mim — sorrira então, divertido, e acrescentara: — O que vai ser bem difícil, então tratem de ir treinando desde já — brincou.
Depois que todos ficavam mais ou menos nos mesmo nível, começaram a se organizar mesmo em grupos e a participar efetivamente das batalhas. Quase não havia pausas na rotina de treinamentos, e era necessário um esforço muito grande para acompanhar o ritmo diário exigido por Gatts. Foram quatro longos dias, seguindo uma versão mais branda da marcha dura que Duh implantava uma vez por ano, no MinarForest: doze horas de treinamento, com pausas de quinze ou vinte minutos a cada três horas, depois sete horas de sono, três de treinamento e uma última hora de intervalo antes de iniciar mais uma sessão de doze horas. Mesmo Thugles e Nick, que tiveram o mesmo professor, estavam tendo alguma dificuldade. Nem as meninas mais novas eram poupadas.
Kiara também ajudava, e era, de muitas formas, maternal: tinha a bondade e a gentileza de uma mãe, e explodia como uma quando contrariada. E sua ira não era coisa bonita de se ver. Felizmente, esses momentos aconteceram poucas vezes(Thugles sabiamente distorcera um pouco os fatos ao contar para todos a ocasião em que ela transformara Evil Corpse numa lesma, e Nick conferiu um genuíno toque de história de terror ao acrescentar algumas palavras, o que funcionou bem. Mas acabariam por contar a verdade ao fim dos treinamentos).
Estavam se saindo bem e, embora o treino fosse exaustivo, havia o conhecimento de que ganhariam novas habilidades quanto mais Experiência ganhassem, o que só os animava a continuar treinando. E Gatts não fazia apenas treinamento de combate, mas também testes de corrida e aptidão física. Também conhecia os segredos de onde upar vários Atributos — mandava South e Zeru para as melhores academias onde poderiam ganhar Resistência e Força, conhecia lugares ótimos para aprender Magia, e outros para treinar Precisão, Furtividade e Esquiva. Boa parte dos jogadores só ganhava Atributos ganhando níveis. Eram poucos os que tinham a disposição para ficar duas horas correndo numa esteira ou meditando sobre uma pedra.
Foram quatro dias em que seguiram a marcha dura, mataram monstros, ganharam níveis, equipamentos e despojos de monstros, e treinaram os Atributos. Quando chegou o último dia, todos tinham feito o terceiro avanço de classe há pelo menos cinco níveis atrás, e testavam suas novas habilidades com alegria. Estavam na hora de descanso em um dos hotéis de Orbis, uma torre em que cada quarto era um andar com janelas por toda parte. Gatts convocara todos os membros(exceto Anna, Donnie e Aphanyus) para uma reunião coletiva.
—Estamos nos saindo muito bem — anunciou meio rouco, meio atrapalhando com as palavras como às vezes lhe costumava acontecer — Todos trabalhando, como deve ser. Vamos fazer um descanso agora, e amanhã vou chamar os que faltam pra começarmos a treinar táticas de combate pra guerra.
Estavam sentados em duas camas, e quando todos se levantaram ele sentiu um súbito e desconfortante arrepio de medo. Teria soado muito autoriário, ou talvez estivesse sendo duro demais? Mas Thugles parou ao passar por ele, pôs a mão no ombro coberto de bronze e disse:
—Você levou isso a sério mesmo, hein? Quem diria que o Arroiz daria um líder tão bom assim. Não consigo pensar em outra pessoa melhor... Já pensou o Duh te chama pra ser auxiliar dele na escola, quando a gente voltar?
Seu coração estava mais leve quando desceu as escadas, o último a chegar no salão de refeições. Os demais já estavam comendo peixe assado ao redor de uma mesa e conversando. Ele notou que Kash parecia um pouco triste — ele a conheceu assim, triste e distante, mas como não sabia dos motivos, pôde apenas sentir pena. Achou que a surpresa que tinha planejada para eles a animaria.
Mandou que todos saíssem, quando terminaram de comer. De fato, lá fora estava Rockfield, de roupa preta e máscara, abrindo o menu. Distribuía comandos nele.
—Trouxe presentes — anunciou — Equipamentos de mago foram bem fáceis, e encontrei uns outros bons de Gatuno e dois arcos. Também pechinchei uma espada [i]scrollada[/i], pra um de vocês — sua máscara disfarçava o tom de desculpas ao falar com Zeru e South.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!Houve agitação e animação ai receberem os itens novos. Kash e Noctolia tinham recebido cada uma um arco dourado de curvatura dupla, enrolado nas pontas e com uma águia a gritar no centro. Giu ganhara um conjunto de roupas pretas com sutis listras azuis na cintura e nas mangas, e também uma adaga. Thugles admirava sua nova túnica, uma peça de linho negra adornada com curvas e espirais douradas como ondas, e uma tiara entrelaçada com um triângulo comprido e arredondado na testa, onde estava incrustada uma pedra vermelha. Nick recebera o mesmo conjunto, porém a túnica era branca com desenhos azuis e a pedra na tiara era negra, e também uma longa varinha branca, meio cor de creme, com uma pedra azul na extremidade que parecia ter crescido dentro da própria varinha, afastando as tiras que a confeccionavam como uma esfera de galhos.
A espada, uma lâmina curta no formato de uma folha alongada, prateada e de gume dourado e cabo vermelho, fora para South, e Zeru ficara com um par de luvas prateadas. Mas ainda assim, nem todos tinham ganho seus itens.
—O resto de vocês pode comprar no Mercado — Gatts disse atrás deles. E entregou uma boa quantidade de mesos a todos.
Passaram boa parte do dia no Mercado Livre gastando as pequenas fortunas recém-adquiridas. Tabs comprou uma nova touca verde-esmeralda pintalgada com estrelas de prata e um cajado metálico com uma oval azul-clara aninhada entre as duas pontas de uma lua crescente, de nível 95, para usar depois. Um vendedor sorridente tentou dar em cima dela, e no fim das contas obteve uma pequena vingança quando Giu roubou dele um magnífico escudo de bruxo, um losango formado por dois cones longos prateados, do tamanho de um antebraço, que criava um círculo de energia verde. Chamava-se Escudo Místico, e o deu de presente à maga.
—E combina com meu chapéu, Giu! Obrigada!
Giu acabou por vender a adaga e comprar uma nova, um cabo com duas lâminas, uma em cada ponta, pontudas e onduladas como água congelada. Eram idênticas, espelhadas, um gume apontando numa direção diferente à do outro. Zeru conseguiu uma armadura de aço com as mangas vermelhas, e um escudo de metal azul emoldurado em madeira grossa. Kiara comprou um pergaminho para melhorar os atributos da roupa. A chance era de 60%, mas funcionou.
Compraram, além dos equipamentos, poções e outras coisas, até itens de Quests que Gatts recomendou que necessitariam no futuro. Ele não fez compras, já tinha tudo o que precisava — seus equipamentos eram a armadura de bronze completa com luvas, botas e capacete, que só usava em batalhas, e também a capa negra e a espada larga que era do seu tamanho e mais larga que uma perna, de cabo marrom grosso e lâmina negra.
—Agora — ele disse quando terminaram — Podemos encontrar o Donnie e o Aphanyus, e então criar novos grupos pra continiuar upando. Nos encontramos depois de amanhã na mesma pousada de Orbis, e então vamos pra Edelstein.
—Mas e você? — Thugles ergueu uma sobrancelha — Não devia ficar com a gente? Ou tem afazeres de gerente pra fazer?
Um sorriso distante brincou nos lábios dele, ao assentir.
—Mais ou menos. Eu ainda não tive a oportunidade de sair pra ganhar níveis, e pretendo fazer isso antes de lutarmos.
Assim ele fez, saiu para treinar. E em dois dias, estava de volta para a guerra.
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