Seis pessoas ocupavam o gabinete do criador do MapleStory Online. O aposento nunca esteve em ambiente tão grave com tantas pessoas.

Ocupando quase todo o espaço da parede de madeira oposta à porta, a ampla janela que providenciava uma bela vista do mar lá fora pouco contribuía para atenuar a tensão do local. Dos seis, presentes, Mateus era o único que não estava vestido em um terno caro e monocolor: trajava camisa vermelha e calças jeans. Também se destacava por estar sentado atrás de uma mesa de cerejeira enquanto os demais sentavam-se do outro lado. Todos os olhares estavam fixos nele.

—Eu já falei algumas vezes — repetiu ele mais uma vez — Se fizerem isso, todo o Norte vai se desconectar.

—Não se os pegarmos primeiro — respondeu um homem, magro e calvo. Mateus o olhou.

—E da mesma forma que eu disse dez minutos atrás, digo de novo: eles vão ver o que vocês estão fazendo. E vão agir. Mesmo que a equipe de vocês consiga, não acham que alguém vai conseguir dar o alarme para os outros Focos em volta?

A discussão já se seguia por quase três horas, sempre voltando e remoendo ao mesmo assunto. Aqueles cinco visitantes eram membros representantes de grandes lideranças, que tinham chegado ali por causa de uma idéia que surgira na mente dos líderes de exércitos.

Sete meses haviam se passado, e os jogadores de MapleStory Online continuavam presos nos servidores. Aqueles homens queriam enviar pelotões de combate aos pontos de controle [i]hackers[/i], ou Focos, como eram chamados. Os invasores tinham anunciado claramente que não queriam a presença do exército ou de qualquer força armada. Isso não impedia que uma grande batalha fosse travada todos os dias entre os administradores e os [i]hackers[/i], mas a idéia daqueles líderes não envolvia estratégia de computador e comandos avançados. Tratava-se de invadir e tomar o controle a força. E esse era o principal motivo das discussões.

Sabia-se que os centros de controle do jogo eram divididos nas regiões do país, e em cada região haviam alguns Focos. Os líderes de guerra queriam invadir Focos no Norte, que era a região mais afastada da capital, e também onde eles eram menos numerosos. Mateus acreditava que, se um deles fosse invadido, os demais Focos da região saberiam. E poderiam desconectar erroneamente vários jogadores.

—Não é de sua conta as consequências da missão — interpelou um completamente careca, de olhos verdes e inteligentes — O que você deve fazer é nos dizer onde estão estes Focos, e o resto da parte não lhe diz respeito.

—Estranho você dizer isso, já que a culpa por todas as mortes parece ser sempre minha — o outro riu sarcasticamente. O de olhos verdes deu de ombros.

—E então? — disse bruscamente um grandalhão musculoso. Grandalhões musculosos não necessariamente precisam ser sérios, impacientes nem parecer que estão prontos pra brigar, mas aquele certamente o era. [i]E o parecia[/i]. E Mateus duvidava que o mandaram ali por coincidência.

—Eu que lhes pergunto. Já que a primeira parte da missão de vocês, que era me fazer contar onde estão os Focos, falhou, o que vem agora? Ou vocês só vieram aqui pra isso? Se foi só isso...

Três horas de reunião que só serviram para deixar os cinco impacientes, com a contínua recusa em permitir que atacassem. Na verdade, eles não precisavam da autorização de Mateus, o fato era que ninguém sabia onde os [i]hackers[/i] se escondiam. Dois anos antes, ele tinha descoberto o esconderijo de um outro [i]hacker[/i], rastreando-o pelos próprios comandos quando este tentou invadir um de seus programas. Poucas pessoas sabiam disso, mas os que sabiam também sabiam que ele certamente teria usado o mesmo esquema para rastrear os [i]hackers[/i] de MapleStory Online. Bastava que lhe dissesse onde, e as tropas seriam enviadas.

No entanto, por mais que os cinco executivos tentassem, Mateus não cedia. Eram todos mundo mais velhos que ele e certamente bem mais poderosos, mas o cara simplesmente parecia não ter medo deles. Zombava, desconversava e ria, como se estivessem discutindo um dos muitos problemas simples com que estava acostumado a lidar. Eles o pressionaram, ameaçaram-no sutilmente e até ofereceram-lhe recompensas, mas nada dava resultado além de irritar alguns deles.

—Este é um representante do Conselho Alemão, Hoff Hollofar — apontou o mais jovem de todos, para um rapaz igualmente jovem, de cabelos castanhos e olhar risonho. Este, ao ver que se referiam a ele, levantou-se com dignidade e puxou uma identificação do bolso. Estava coberta de selos e assinaturas importantes, uma delas a do próprio presidente e, sem dúvida, as de outros presidentes. Vendo aquilo, Mateus prontamente puxou uma segunda identificação.

—Clubinho do Trick — disse segurando o cartão azul-claro, o rosto exibindo a expressão que exibiria caso estivesse encarando o príncipe da Inglaterra, destruída quando o canto de sua boca se torceu num sorriso — Fico honrado em saber que aqui se reúnem personalidades tão importantes como nós. Eu deveria oferecer-lhes uma bebida, mas infelizmente meu estoque paraguaio acabou. Alguém aceita um Dolly?

O jovem praguejou em alemão, um alemão bem irritado — certamente ele acreditava que aquela carteirinha infantil com a estampa de um garoto sorridente não era uma resposta digna de sua identificação. O homem que o introduzira falou no mesmo idioma, em tom conciliador, e o rapaz sentou-se devagar, assentindo com expressão de desculpas. Mateus não dominava o idioma, mas talvez o jovem tivesse dito ao estrangeiro que aquela carteirinha era uma maneira comum de identificação naquele país, ou algo assim.

—Estamos perdendo nosso tempo — resmungou o grandalhão — Quero uma carta com as informações que desejamos, agora mesmo. O presidente será informado de tudo isso. Ou talvez eu mesmo dê um jeito por ele.

—Ora, se palavras educadas e engomadinhas não funcionaram comigo, que te faz pensar que arrogância funcionaria? — disse-lhe o rapaz com uma risada — Além disso, como você sabe que eu também não tenho contato com o presidente? O que faz você pensar que ele ouviria você e não a mim? Eu já lhes disse — seu tom agora era sério.

—São ordens superiores — lembrou-lhe o mais jovem, que mais tarde Mateus descobriria que se chamava Danton — Você deve obedecê-las. Recebemos ordens para informar-lhe disso e pegar a localização dos Focos. É só isso.

—Então estamos num impasse. Vocês querem que eu lhes diga, eu não quero dizer. Por quê, pelas unhas de Gorlog, eu iria resolver deixar de satisfazer o que eu quero para satisfazer o que vocês querem?

Ele e o grandalhão se levantaram ao mesmo tempo, este sério como uma rocha, o outro sorridente e divertido. O rapaz podia encará-lo nos olhos sem precisar olhar para cima, mas era muito menos musculoso(embora fosse quase igualmente corpulento).

—Pra mim chega. Você que se resolva com o presidente. Eu vou pra casa.

Virou-se abruptamente e deixou o aposento, seguido pelos dois mais jovens e pelo homem calvo. Somente o careca permaneceu na sala. Ele tinha uma expressão tranquila, porém séria, e segundos depois Mateus sentou-se novamente.

—Tenho ordens expressas para conseguir as informações — ele disse sem rodeios — Sabe o que vai lhe acontecer se não nos contar? Eles têm forças armadas prontas para atacar os [i]hackers[/i], o que te faz pensar que eles não viriam para cá?

—Nada — admitiu Mateus, aceitando a imitação zombeteira das palavras e do tom que havia usado ainda pouco — Mas eu posso segurá-los um pouco. Como você mesmo viu agora, sou bom nisso. Veja, eles vieram pedir informações e eu não quis dar, pois bem, não as dei e despachei quatro deles sem problemas.

—Já vou embora — prometeu o outro — Mas você não compreende.

—Compreendo, sim. Vocês não aguentam ficar parados esperando a gente resolver as coisas. Querem agir e querem mandar em todo mundo. Não posso dar a vocês informações que só vão custar a vida de bastante gente.

—Mas você precisa, são as ordens, como lembrou nosso amigo Danton — respondeu sem tirar os olhos verdes dele, e Mateus viu, por trás da seriedade, algum ressentimento ali. Compreendeu então que aquele homem concordava com ele. Sabia que usar a força não era a melhor maneira, mas estava dividido entre o que sabia ser certo e entre as ordens que recebera — Querem que você entregue uma lista com os lugares onde estão os [i]hackers[/i]. Ou seja: o que eles querem é um papel, com os nomes de alguns lugares, afinal. Entregue-nos isso e vão te deixar em paz.

Havia uma certa malícia estranha em seu olhar e, compreendendo o que ele dizia, Mateus assentiu e verificou a tela de seu computador, digitando algumas letras e imprimindo uma folha de papel coberta de nomes, minutos depois. Assinou-a embaixo e a entregou ao homem.

—Aí estão os esconderijos dos [i]hackers[/i] no Norte — informou. E não resistiu a dar um sorriso: — Quer dizer... Pode ser que tenha havido algum engano, meu rastreador me indicou estes lugares, mas nunca se sabe... Pode ser que eles tenha decidido se mudar... E se eles não estiverem aí onde indiquei, seria uma pena, porque seus colegas poderiam se voltar contra mim e achar que eu menti. Mas se alguém lá de dentro confirmar que esses lugares são exatos...

—Ora, pois eu conheço o homem perfeito — exclamou o outro — É um velho feio, careca e de olhos verdes. Ele pode certamente fingir que as informações aqui são verdadeiras, e se elas se provarem ser falsas, ele vai fazer com que acreditem que os [i]hackers[/i] se mudaram, e não que o nobre homem que o entregou estar informações estava mentindo.

—Ótimo — Mateus assentiu fingindo seriedade. O homem de olhos verdes sorriu.

—Ótimo. Agora... É uma longa viagem de volta a onde estou instalado, e não viemos exatamente de limusine. A promessa daquele Dolly ainda está de pé?

Os quatro outros homens conversavam do lado de fora e, minutos depois, seu companheiro deixou a sala. Sorria e exibia uma expressão clara de triunfo no rosto.

—Conseguiu as informações? — perguntou Danton, ansioso, ao notar o papel que carregava na mão. O recém-chegado ergueu a mão para que ele esperasse e sinalizou para que os seguissem. Somente quando desceram o elevador e saíram do prédio foi que ele puxou um celular e discou alguns números.

—Ander? — chamou o careca. A voz no telefone respondeu e ele sorriu: — Ótimo. Sabia que conseguiria.

—O quê? Conseguiu o quê? — quis saber Danton. Novamente erguendo a mão, o homem ao telefone puxou um bloquinho e fez algumas anotações enquanto ouvia. Quando desligou e guardou o celular no bolso, os olhos de Danton fervilhavam de curiosidade.

—E então? O que é? — perguntou mais uma vez. E todos encaravam o homem de olhos verdes quando este sorriu e guardou no bolso o papel que tinha ganho lá no gabinete.

—As localizações dos Focos [i]hacker[/i] — disse, mostrando as anotações que acabara de escrever, com localizações completamente diferentes das pistas falsas que tinha ganhado lá no gabinete.

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Anna gritou de susto. Normalmente, quando usava uma certa armadura, sua consciência adormecia e ela lembrava pouco do que fazia enquanto a usava. Por isso, não é de se surpreender que tenha estranhado ver-se de repente numa roupa de abóbora com um monstro de vinte metros do lado dela.

Reconheceu Vampiritico parado junto à porta, observando-a. Os olhos do rapaz subitamente desviaram e ele pulou longe no mesmo segundo em que uma bola de fogo laranja — uma abóbora em chamas — atingia a porta de madeira. O menino levantou-se de um salto perto dali. O monstro rugiu novamente, e quando Anna olhou para cima, viu a boca rasgada da abóbora abrir-se e cuspir outra vez, não atingindo o Gatuno por um triz.

Vampiritico tinha um velho escudo redondo que usou para rebater a próxima abóbora, mas ainda assim o dano foi alto. Praguejando, guardou o escudo e segurou apenas a adaga enquanto corria de um lado ao outro do pequeno quarto. As abóboras flamejantes continuavam a cair, e em dado momento um pé indistinto surgiu das dobras estranhas do vestido da criatura, atingindo-o no meio de um salto. O rapaz caiu de encontro às lancheiras, ao lado de Anna.

—Faz alguma coisa! — ele gritou para a menina — Skills novas, qualquer coisa!

—Eu... Não sei usar isso aqui! — gaguejou.

Outra abóbora explodiu perto do armário. Vampiritico aproximou-se e tentou golpear as pernas debaixo do vestido, mas recebeu um segundo chute ainda pior do que o primeiro. Um bom pedaço de sua vida tinha ido embora naquela investida, e ele não tinha sequer arranhado o HP do monstro. Tentou outra estratégia, mas a Explosão de Mesos fez tão pouco efeito que seria inviável mesmo que ele tivesse um milhão de moedas(mas se o Gatts tivesse resolvido ser Mestre Arruaceiro, bom, ainda assim inviável).

Gritou ao ser atingido por uma caveira sorridente lançada pelo alto monstro. Viu pelo canto do olho uma abóbora aproximando-se na horizontal, e desviou.

—Não, deixe ela atingir! — a menina gritou, e então ele percebeu que fora Anna quem jogara a abóbora. Assentiu, e quando a próxima abóbora veio, ela não o feriu. O monstro atacou outra vez, mas Vampiritico não se moveu. A caveira atravessou-o sem causar danos. Sorrindo malignamente, investiu contra as pernas da criatura, mas a abóbora de Anna não o protegeu do chute que o lançou de volta contra a parede.

Sacudiu a cabeça e recebeu outra abóbora, que também o atravessou. Como a habilidade de Anna o protegia de ataques das trevas, tentou beber uma poção de HP, embora a mesma habilidade tivesse o efeito colateral de cortar o efeito de cura pela metade. Trinta segundos depois, o efeito terminou. Anna renovou-o e abriu o menu novamente. Foi então que Vampiritico notou que a criatura até agora não a tinha atacado, na verdade, era como se nem tivesse reparado nela. Surpreendeu-se também com a calma com que ela mexia no menu de habilidades. Os olhos dela brilharam ao descobrir uma a seu gosto e ela fechou.

—Quando eu invocar os fantasmas, agarre um e tente atacar a cabeça — ela disse e o rapaz assentiu. Anna pulou para trás e levantou as mãos. Um som de sucção se fez ouvir e o quarto ficou escuro, com círculos que pareciam luzes de discoteca cor de abóbora, girando pelo teto, chão e paredes. A barra de HP da criatura ficou maior e, no chão, duas dúzias de criaturinhas com casacos branco-transparentes, com mãos que eram lâminas de foices, surgiram de repente.

Os monstrinhos apareciam e flutuavam, rodeando a sala como moscas. Vampiritico agarrou uma e subiu com ela pela sala, soltando ao chegar aos ombros do monstro e, sem perder tempo, pôs-se a atacar o pescoço com a adaga.

Eram cortes rápidos e silenciosos, e não houve muito o que fazer depois disso. A criatura não atacava Anna, tampouco parecia conseguir virar-se para ver o que o atacava. Pouco a pouco, a barra foi esvaziando até o monstro emitir um grito final e desfazer-se em luz azul.

Subitamente sem apoio, Vampiritico despencou e caiu feio no cabide de chapéus, batendo a testa bem na haste erguida. A dor era pungente e latejava muito, embora a quantidade perdida de HP fosse mínima e ele não tivesse nenhum dano real. Mesmo assim, sentia como se alguém tivesse dado uma martelada em seu crânio do lado de fora.

Anna ajudou-o a se levantar, cambaleando. Sorriram e deram uma breve risada, ela timidamente, ao constatar o quanto tinham ficado com medo minutos atrás. Então, recuperados, saíram e voltaram pelo caminho de onde vieram.

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Foram encontrar South e os outros quase meia hora depois, quando estes já tinham completado a maioria das Quests da estranha mulher fantasma. Nick estava agitado, a cabeça de Thugles era uma abóbora e South continuava cego. Somente Zeru parecia impassível como antes, embora tivesse uma ruga de preocupação na testa.

—Cérebros! — Thugles cambaleou até Vampiritico, pareceu mudar de idéia e virou-se para Anna — Cér... Ei, que legal essa roupa de halloween! Eu ganhei uma cabeça de abóbora, olha. Acha que ficou legal?

—Ficou lindo — South resmungou com os olhos negros — Podemos sair daqui?

—O último desafio — falou-lhes a mulher com os olhos de South, e então os conduziu pelos corredores da mansão.

Nick ia à frente, com Zeru ao seu lado, ainda mais preocupado. Vampiritico ergueu as sobrancelhas. Ia perguntar por que estavam agindo assim, quando sua atenção foi desviada para a porta que a mulher indicava. Era exatamente a mesma onde ele e Anna tinham acabado de lutar.

—Um dos lacaios do mal nesta mansão vive aí, neste quarto. Ele assombra nossa mansão e dá energia aos mortos, para que voltem perturbados de seu sono e ataquem todas as noites. Vocês precisam nos ajudar. Você, que me deu a visão, é quem deve liderar a missão — ela disse para South — Você tem a minha bênção.

South ganhou um [i]buff[/i] que o deixava com ataque aumentado, defesa aumentada e bônus na regeneração de HP. A mulher abriu a porta lentamente, viu o quarto vazio e voltou-se para ele.

—Herói, você lutou bravamente. Nunca vi alguém com tamanha coragem e habilidade, estou em dívida eterna para com você.

—Ué — fez Thugles.

—Você tem a minha recompensa. É claro, o mal ainda não foi completamente derrotado.... Mas temo que para [i]este[/i] mal, você não esteja preparado...

—Mas que [i]porra[/i] é essa? — South gritava — Chega. Vou morrer antes de dar a visão pra alguém de novo. Eu quero sair daqui!

Os outros riram enquanto ele xingava, sem compreender o que estava acontecendo. A mulher falou algo sobre ele voltar novamente no nível 105, e então todos ganharam uma boa quantia em EXP, uma centena de abóboras regeneradoras de HP e MP. Foram transportados em segurança de volta à entrada, e South ficou com o [i]buff[/i].

—Ah... Pensei que nunca mais fosse ver vocês, seus lindos. [i]Lindos[/i]. Quero aproveitar o resto da bênção que... Opa — ele percebeu Anna.

Todos os olhares se voltaram para a garota, que corou. Agora que tudo tinha terminado, repararam melhor na roupa que usava. Era um vestido azul-escuro que sobrava muito tecido, deixando um círculo de roupa ao redor dos pés. Os braços eram enfeitados com tiras e correias de couro com caveiras e diamantes. O chapéu, de azul mais escuro, ficava inclinado para o lado e para trás da cabeça, largo como um [i]sombrero[/i]. A mão direita da menina tinha uma luva que fazia parecer uma mão esquelética.

—Você achou a Kansou que tanto queria — Thugles sorriu para ela, já na cidade. A menina pareceu ofendida.

—Não era eu que "tanto queria". Era a outra armadura. Mas eu também queria ela, então acho que sim.

Eles ainda tinham muitos assuntos para conversar, embora toda a Quest tivesse sido para eles tão confusa que pareciam achar que fora um sonho. Ainda que estivessem ansiosos por descanso, ninguém queria ficar mais tempo em NLC. Voltaram para a cidade de Kerning e foram se arranjar na taverna preferida de Vampiritico: o bar de jaz, sede secreta dos Gatunos. Nesses tempos, as cidades de Victoria não ficavam muito cheias, então não tiveram muitos problemas. Alugaram um quarto, mas South insistiu que fossem para uma mesa beber algo antes. A bebida era tão boa que, por vários momentos, o assunto da conversa foram perguntas sobre como eram capazes de sentir o gosto e a textura, e também, como continuavam vivos depois de tanto tempo sem comida, água e até banho na vida real. Porque, quando entraram no jogo, tinham sido muito bem presos e afixados às máquinas, que só funcionavam fechadas. Era difícil imaginar pessoas colocando comida e água em suas bocas e limpando as máquinas pela falta de banheiro. A idéia provocou risadas.

Já eram onze da noite e eles ainda estavam animados quando a porta da taverna se abriu. Um homem todo vestido de negro, acompanhado por três pessoas empunhando armas aproximou-se da mesa. South virou-se e viu o líder, de máscara e corpo todo coberto. No lugar dos olhos havia um buraco aberto na máscara que lembrava o visor estreito de um binóculo, completamente negro. Trajava uma capa atrás de si. Quando falou, sua voz era distorcida, não como a de um robô, mas modificada, sombria e irreconhecível.

—Espero que não tenham alugado um quarto. Nós precisamos ir para Orbis.

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A noite estava escura e silenciosa como Mu Lung sempre ficava. De dia, a cidade era um magnífico jardim de grama verde, frutas coloridas e ar fresco. À noite assumia uma expressão mais solene, quieta e cheia de frescor. A Lua era imensa, tão grande e tão próxima que era possível distinguir as maiores crateras, brilhante como as estrelas que salpicavam de pontinhos brancos o céu negro.

—Linda, não é? — disse um garoto sonhadoramente olhando para o céu. O casal de amigos ao seu lado concordou, o olhar perdido entre as estrelas.

—Faz tempo que eu não via o céu assim tão bonito. Ele me faz esquecer os problemas — suspirou a garota.

—O que foi isso? — disse o terceiro, subitamente. Os outros dois olharam ao redor — Ali! — apontou.

Um fiapo branco de magia saiu de seu dedo como uma fita, enrolando-se numa sombra parada em um baixo arbusto. A sombra ondulou, tomou forma e transformou-se numa garota vestida de negro, com um gorro azul de gatuno. Ela levantou-se, sem palavras.

—Oi — cumprimentou, com um sorriso estranho no rosto.

—Afaste-se — avisou o menino que lançara a magia. O colega ao seu lado puxou a espada — Jon, eu distraio ela — disse baixinho — Leva a Liu.

—Vocês não estão esperando fugir de mim, não é? — riu a garota, que tinha um bom nível de Detecção Auditiva. Os corpos dos três estavam tensos. O que tinha lançado a magia segurava uma pequena faca e um pequeno bastão de madeira. Jon vestia um peitoral de bronze e estava armado. Liu carregava um martelo de duas mãos e agora o segurava à frente do corpo com habilidade, mas seu olhar estava muito assustado. Parecia ter dez anos, enquanto os rapaz teriam certa de quinze. A voz da menina de gorro azul ainda era nova, mas ela era tão alta quanto Jon. Puxou uma longa adaga, de ferro cinzento, e estudou-os como se analisasse a melhor maneira de matá-los. Jon deu um passo à frente.

—Você tem peito, garota — disse, e então sorriu — [i]Literalmente[/i], pra falar a verdade. Mas estou avisando, fique longe.

—Cuidado, Jon — advertiu o menino da magia, sem tirar os olhos da menina — Olha, não queremos problemas. Estamos em maior número, mais um passo e vamos acabar com você.

Mas era claro que ele soava inseguro.

—Não dei nenhum passo — respondeu a menina — E eu estava escondida, até você me descobrir. E se eu disser que tenho uma arqueira escondida logo atrás de mim?

—Se tivesse, você não diria isso — falou Jon, e no segundo seguinte uma flecha atingiu o chão a um metro de seu pé, ficando fincada na grama. Recuou um passo, assustado. A garota de gorro sorriu.

—Rá — disse ela, tossindo disfarçadamente — Como é que você disse? E eu também não quero problemas. Eu só quero que vocês me entreguem... — e arregalou os olhos e soltou um profundo suspiro quando algo a espetou com força nas costas, fazendo-a cambalear. Ela ofegou de dor, mas recuperou-se rapidamente. Voltou-se para a escuridão atrás dela no momento que outra flecha chegava sibilando. Desviou por um triz, mas ainda a recebeu dolorosamente na bochecha direita.

—O que está fazendo? — ela gritou para o vazio, então sentiu movimento atrás de si. Ouviu os passos rápidos de Jon e precipitou-se para a frente, procurando um arbusto. Outro fiapo de magia a atingiu, desta vez cobrindo-a com uma aura brilhante, e outra flecha passou sibilando a dois metros de seu rosto. Ela correu como o vento enquanto os três garotos a perseguiam, o fraco brilho que a cobria impedindo-a de se esconder na escuridão.

Os três amigos, antes as vítimas, agora corriam enfurecidos, desta vez esquecendo-se de que não queriam problemas. Mas a menina, embora brilhante na escuridão, era Gatuna e tinha as pernas mais longas e rápidas do que as de um rapaz de armadura ou uma garota com martelo. Aos poucos, a luz foi desaparecendo até sumir, no que ela aproveitou para esconder-se no único arbusto grande à vista, que crescia ao redor de uma árvore atarracada e de copa maior que o tronco. Agachou-se no chão, o olhar aguçado observando os perseguidores. Se resolvessem caçá-la, ela talvez tivesse trabalho para fugir — não sabia que outras habilidades aquele mago teria — mas, felizmente, resolveram aproveitar a oportunidade para sair dali em segurança. Ela viu quando Jon parou, pôs o braço no ombro da menina e foi com ela na direção oposta, enquanto o terceiro disparava fachos de luz aqui e ali, para garantir que a atacante havia mesmo ido embora.

Mas ela não iria, claro. Não iria ser passada para trás tão facilmente por um grupo de adolescentes como aquele. Mirava as costas dos três amigos, afastando-se cada vez mais na distância. Ela sorriu. As fitas de luz que eram jogadas para detectar-lhe a presença seria justamente o que a guiaria até eles pela escuridão. Puxou um frasco para curar o HP perdido e o levou a meio caminho da boca.

—Fique parada. Mais um movimento e eu perfuro sua garganta com uma flecha.

Ela fez mais um movimento, sim, ao virar-se para a arqueira sentada no topo da árvore, que também não atirou. Não era a arqueira que esperava ver: a sua amiga, que a acompanhara e que a menina agora se perguntava o que teria acontecido com ela. [i]Aquela[/i] Tinha o arco preparado e apontado para o gorro azul abaixo dela. Gatuna e arqueira estudaram-se mutuamente, sérias.

A de gorro azul tinha cabelos loiros escorridos que ignoravam o gorro, era alta e esguia como uma faca, ao passo que a garota sentada era tão menor que tinha os cabelos castanhos ondulados quase do próprio tamanho, terminando em cachos. Era baixa, atarracada e tinha uma expressão curiosa. Claro, nada disso faria diferença quando era ela quem estava sentada na posição elevada, segurando um arco e com uma flecha mortalmente apontada para a outra. Apesar disso, a loira de gorro azul não parecia ter medo.

—Fique parada você. Você nem sabe o que está fazendo... Agora baixa esse arco antes que eu tome ele de você.

O rosto da garota na árvore se fechou e ela puxou o arco. Tentou fazer outra ameaça, mas simplesmente não parecia boa nisso. Fazia cara feia, mas seu rosto era o de alguém que estava acostumado a rir e não a intimidar, e a outra garota sabia disso. Mesmo assim suas costas ainda latejavam dolorosamente, e ela não teria pego uma poção de HP se a flecha não tivesse causado dano. E a flecha pronta no arco parecia tão afiada e certeira quanto a anterior.

—Se você fizer um movimento que não seja pra longe daqui, e longe daqueles três, eu vou atirar — avisou. A de gorro azul deu uma risada seca.

—Quando você atirar, eu já vou ter subido nas suas costas e esfaqueado.

—Quando vocês duas terminarem de discutir — disse uma voz masculina — Talvez ela pudesse sair de cima de mim.

A garota com o gorro azul pulou para trás, assustada, quando o chão se moveu sob seus pés. Um estrondo se fez ouvir quando a arqueira caiu da árvore, levantando-se quando uma sombra cresceu e tomou forma, até se darem conta de que estavam diante de um rapaz ainda mais alto e magro que a gatuna de gorro, completamente vestido de negro até no rosto. As duas meninas recuaram um passo.

—Você corre, moça — disse a voz — Ei, não se preocupe, sou amigo. Tenho aqui sua amiga.

De trás da árvore surgiu uma terceira menina, também arqueira, de pele pálida e pouca idade como as outras duas. Vestia branco e o arco parecia ser de nível superior ao da menina mais baixa.

—Ah, então você estava aí! — a gatuna sorriu ao vê-la — Eu pensei que você estava atirando em mim, mas era ela!

—Fique... Fiquem longe — avisou a arqueira de cabelos castanhos, andando de costas. Tinha o arco apontado, e hesitava. A gatuna fingiu um bocejo.

—Isso, vai embora, antes que eu mude de idéia, sua bandida.

—Bandida? — a arqueira baixou o arco como se tivesse levado um soco, tão indignada que estava — Você estava atrás daquelas pessoas. Elas não te fizeram nada!

—Não, mas eles são os ladrões da Quest que eu estava completando. São NPCs, criminosos disfarçados, e matam por dinheiro. Eu ia matá-los, mas ALGUÉM, SABE...

—É mesmo? — disse a outra garota, mais levemente — Eu não sabia disso. Pensei que você estava atacando.

—E eu pensei que você estava defendendo — a gatuna riu com tristeza.

—E eu pensei que vocês três poderiam ser muito úteis — disse o de negro — Estou procurando pessoas pra formar um clã, e sua amiga me disse que vocês ainda não tem um... Você também — acrescentou, incluindo a arqueira de cabelos ondulados — Pode vim com a gente, se quiser. Ah, meu nome é Rockfield.

—Kash — apresentou-se a arqueira — Um clã — ela disse, pensativa. Seus modos desconfiados de antes desapareceram, e ela se tornara a garota alegre que parecia ser — Que legal! Eu não conheço ninguém nesse jogo ainda... Mas ainda não sou tão boa, meu nível é 46 e estou pegando o jeito do jogo.

—Não tem problema — sorriu a outra arqueira, de branco — Vai, venha com a gente, estou muito curiosa pra saber como é um clã. O que você acha, Giu?

—Não sei — admitiu a gatuna de gorro — Também não conheço [i]esse cara[/i]. Você confia nele, Noctolia? E se for uma armadilha?

—Aí eu acho que não teria me mostrado pra vocês quando podia ter te matado escondido... — respondeu o rapaz, e aquilo a convenceu.

—Tá, eu quero! — ela sorriu de repente. Então perguntou: — Qual vai ser o nome do clã?

—Ainda vamos ver — prometeu o rapaz de negro — Precisamos encontrar uns amigos primeiro... Eles devem estar em Kerning, terminando uma Quest em NLC. Depois disso, podemos ir para Orbis.