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32 Gatos e Duendes



O estágio seguinte era um portal que levava para o exterior da torre. Muitos metros acima do chão, havia uma cobertura de nuvens envolvendo aquele andar, funcionando como o chão de uma enorme varanda. As nuvens eram tão largas e espessas que plataformas de pedra haviam sido construídas sobre elas, com cordas e escadas ligando umas às outras.

-Essas devem ser aquelas nuvens que vimos do chão — deduziu Vampiritico.

-E pensar que tentamos chegar à torre por aqui — Thugles suspirou — Bom, temos seis plataformas... Divididas em dois conjuntos de três... Que conveniente. Mas não, vamos todos juntos.

Ninguém quis discordar com ele. Vampiritico foi o primeiro a chegar até a corda e sinalizou para que os amigos o esperassem. Usou a Visão Noturna, que o tornava praticamente invisível para os companheiros. Subiu na corda com agilidade e parou ao chegar no topo, erguendo a cabeça para ver o chão da plataforma.

-Duendes Estelares — anunciou — Tem uns dez aqui. Podem subir.

-Não fiquem tão confiantes — Anna avisou enquanto subiam. Tinha um mal pressentimento sobre aquilo. Já enfrentara duendes uma vez, e não tinha sido tão difícil. Porém...

-Detesto esses duendes — disse Zeru — Vamos logo com isso.

O guerreiro levantou a espada apontando para o céu e gritou, cobrindo seu corpo com uma aura vermelha que logo desapareceu. Depois fez o mesmo, desta vez apontando a espada para South, que desembainhou a espada. Aquela habilidade era Fúria, que aumentava consideravelmente o ataque com arma.

Zeru atacou o primeiro duende, cravando a espada direto no corpo pequeno e rechonchudo da criatura. Atacou de novo, desta vez, com a espada brilhando laranja.

O duende virou os olhinhos escuros para Zeru, a boca torcida numa careta furiosa e indignada. Ele deu pulinhos flutuando no ar e gritou estridentemente.

-Aaaah, morre, bicho chato — exclamou South, ajudando o companheiro. Logo Nick e Anna, equipada em sua armadura de fogo, foram ajudar.

-Foi fácil — Zeru sorriu, pegando uma pequena pedrinha que dropou do monstro — Agora é só...

E então a torre inteira foi tomada pelo grito dos duendes.

Eram apenas nove, mas pareciam milhares, gritando um lamento queixoso e estridente de arrebentar os ouvidos. Os duendes restantes tinham as bocas abertas e agitavam as varinhas, fazendo surgir estrelas que flutuavam e seguiam lentamente em direção aos amigos.

Eles tentaram voltar pela corda, mas um outro duende a estava bloqueando. Não era um Duende Estelar: em vez de branco, ele era cinza e semitransparente, o chapéu estava rasgado e seus olhos eram bolas brancas vagas e sem brilho. A boca, uma abertura bambeante e sem dentes, emitia um som grave e assustador que chegava a ser pior que os gritos dos duendes.

Nick tentou congelá-lo, sem sucesso. South e Zeru puseram-se a atacar a criatura, mas suas espadas apenas atravessavam o duende. Foi Anna quem, com seu cajado de fogo sagrado, conjurou uma esfera brilhante que jogou o fantasma longe. Quando ele voltou, Thugles o finalizou com a Cura.

O duende fantasma tinha desaparecido, mas agora as estrelas atiradas pelos duendes estavam cada vez mais próximas e numerosas. Eram muitas, e quando atingiam o corpo, explodiam em fagulhas com um som agudo que se misturava ao emitido pelos duendes.

-AAAAAAAAAAH CALEM A BOCA! — South gritava, golpeando os duendes a esmo.

-Concentrem-se em um só! — Nick gritou para se fazer ouvir, então teve uma idéia.

-O que tá fazendo? — berrou Thugles quando o mago correu exatamente para onde os duendes estavam concentrados, ficando mais perto do alcance das estrelas...

Girando o corpo e fazendo a túnica azul esvoaçar nas pedras, Nick ergueu os braços e conjurou um pilar gelado que saiu de seu próprio tronco, espalhando gelo pelos duendes. Mas eles não pareciam ter sentido nada, nem o HP deles reduzira muito.

-Nível 1 ainda, seu idiota! — Vampiritico gritou furioso. A habilidade podia ter sido útil para congelar as feras, mas fazia sentido que duendes tivessem mais resistência à magia.

Agora Nick estava no meio da massa de duendes, que atiravam-lhe estrelas sem piedade. O garoto tentou teleportar, mas o barulho desnorteante era insuportável. Ele só não morreu naquela hora porque Anna, South e Zeru se jogaram entre as criaturas, atacando rapidamente e sem pensar. Quando Nick saiu da linha de fogo, Thugles o curou.

Vampiritico movia-se por trás das criaturas, acertando-os pelas costas e causando a maior parte do dano. Levaram alguns minutos para matar todos, mas com isso apareceu um outro problema: descobriram que, quando um duende morria, um Duende Fantasma tomava o seu lugar.

Eles ficaram em posição para atacar, prontos para lutar contra a nova ameaça. South, no entanto, não parecia disposto a fazer tal coisa.

-Corram! — gritou e saiu desabalado para descer a corda. Depois de hesitar um pouco, os outros o seguiram, deixando os fantasmas sozinhos na plataforma.

-Temos que matá-los. Não podemos deixar eles aí na Torre de Orbis! — ofegou Thugles. Vampiritico deu-lhe um tremendo tapa na nuca.

-Cara, isso é um jogo, um JOGO, eles não têm sentimentos! Quer arriscar morrer pra salvar uma NPC que não sabemos nem se dá pra realmente salvar?

-Os Duendes Fantasmas não dão pedras — Zeru argumentou — Não precisamos matá-los. São mais fortes que os Duendes Estelares, lutar contra eles só vai nos fazer perder tempo. E como ele disse, podemos morrer facilmente.

As outras plataformas também tinham duendes, embora os das plataforma do meio fossem Lunares e os da de cima, Solares, que eram os mais fortes. Mesmo assim, deram conta do recado mais rapidamente do que esperavam. A Quest não havia sido feita pensando que metade do grupo estaria no nível máximo, portanto, eles estavam realmente com a vantagem.

Quando limparam as seis plataformas(e ignorando completamente os Duendes Fantasmas) Eak pediu as pedras e as juntou numa peça intacta da estátua. South, Anna e Zeru foram envolvidos pelo brilho azul que indicava subida de nível.

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Para desânimo de alguns, o sexto estágio era parecido com os das caixas de Ludibrium, onde eles precisavam escolher um número de um a três, um deles os levaria para o nível superior onde teriam mais três caixas, e assim por diante. A diferença era que aquele eram plataformas de pedra sem números — e não eram três, mas quatro.

Eles usavam as plataformas como portais, apostando para ver quem achava mais corretas e tentando fazer o outro ir numa plataforma errada, voltando ao chão para recomeçar a subida. Perceberam que aquele também tinha mais níveis do que a de Ludibrium. Por fim, chegaram ao último portal, que os levou a uma pequena caixa onde estava a última peça da estátua.

-Agora vamos montar — Thugles disse com animação.

Ele tinha seis peças ao todo. Com a habilidade de pulo de Vampiritico, subiu numa das mãos da estátua e analisou o que tinha. Escolheu um pedaço que parecia ser da capa e, sem saber ao certo o que fazer, jogou-o no lugar onde ela deveria estar.

Imediatamente a peça parou no ar, crescendo e alongando-se até se encaixar perfeitamente na falha da pedra. Animado, pegou outro pedaço, mas então notou o olhar dos os amigos embaixo e sorriu. Não era o único que achara aquilo divertido.

Depois que cada um colocou uma peça, eles contemplaram a réplica da Deusa Minerva como ela realmente era. Consertada, parecia muito mais imponente, com as enormes asas ainda maiores que o corpo, um cajado numa mão e uma esfera na outra, a que tinha a palma virada para cima. Eles levaram algum tempo para acalmar Eak, que lhes disse que, embora a estátua estivesse restaurada, ainda precisavam eliminar o Papa Pixie e recuperar a magia que ele havia roubado.

-Espera — Anna chamou, e os amigos se viraram para ela — Ainda tem essa escada...

South se aproximou, pensativo. Ela tinha razão: quando entraram na torre, viram a estátua quebrada e as plataformas para os andares superiores. Mas também havia uma escada de madeira que levava a algum tipo de porão. Thugles franziu o cenho, levemente apreensivo.

-Pode ser arriscado — Zeru disse por fim — Pelo que o Thugles falou, é só falar com Eak pra irmos até o próximo estágio. Ele nem mencionou esse porão, na verdade. Deve ser apenas um extra.

-Ele está aí por algum motivo — argumentou Nick — Se é um extra, com certeza vai nos dar mais prêmios e Experiência.

Zeru pigarreou.

-É, mas pode estar cheia de monstros mais fortes, ou até um sub chefe secreto — disse. Alguns resmungaram em aprovação. Vampiritiu apenas bufou.

-Ora, então melhor pra gente, não é? Se é um lugar feito pra gente mais forte, então é pra gente mesmo. A Quest foi feita pra pessoas com segunda classe, e temos três aqui na terceira. Embora a terceira classe do Thugles não dê nada de útil...

-Vou me lembrar disso quando ganhar aquela skill de transformar em lesma — respondeu Thugles suavemente.

Nick tossiu, afastando-se da borda do buraco.

-Bom, e aí? Vamos entrar ou não?

-Por mim tudo bem — Vampiritico respondeu. Zeru, no entanto, não concordava inteiramente. Nick lançou um olhar de dúvida...

-Caralho, vocês são muito complicados — South retrucou com impaciência — Anna, você lembrou a gente dessa escada. Você quer entrar?

-Ah... Eu, ah... Sim, eu queria.

-Ótimo, cuidado pra não cair em cima de mim.

Sem dizer mais nada, South pulou no buraco, desaparecendo na escuridão. Thugles lançou um olhar preocupado aos amigos e seguiu o companheiro.

Não havia luz. Foi a primeira coisa que notou antes mesmo de chegar ao chão. A segunda coisa a ser notada foi um traseiro macio em sua cabeça, seguido de um grito e alguém se estatelando no chão.

-Falei pra descer devagar — disse a voz de Vampiritico, lá de cima.

-Você que me empurrou! — protestou quem caíra. Ouviu-se uma risada abafada e o Gatuno se juntou a eles, seguido pelos outros dois.

-Ah, vocês chegaram — ecoou a voz de South — Anna, sua linda, dá pra usar aquelas bolas de luz por favor? Ah... Ótimo!

Os seis se viram encarando uns aos outros numa sala com paredes de pedra. Ali, no entanto, elas pareciam mais gastas e malcuidadas. Alguma coisa fazia barulho não muito longe de onde estavam.

-Liguem as Proteções Arcanas e as Paredes de Pedra — South falou — Pressinto perigo... Aaaah, olha só!

Ele olhou para baixo, e o que viram chegou a surpreender. Havia um monstro ali — um pequeno gatinho de pêlo azulado do tamanho de... Um gato. Os olhinhos claros pareciam furiosos abaixo de um pequeno caroço amarelo na testa: um chife em desenvolvimento.

-Um Grupin Jr.! — Vampiritico reconheceu. Nick soltou um suspiro deliciado.

Anna se agachou para fitá-lo melhor.

-É muito bonitinho. Mas é um monstro, precisamos tomar cuid...

-NNNNHHHHHHWWWWWWWWWW!!!!!!!!!!!

Chiando e rosnando, o pequeno Grupin pulou no rosto da garota, acertando-lhe uma dolorida cabeçada. Ela recuou, assustada. O filhote arrepiou os pêlos e exibiu os pequenos dentes num rosnado de aviso.

-Ele ataca! — Thugles riu — Awn, Anna, seu grito foi tão...

Ele parou de falar — o que aconteceu em seguida teria paralisado qualquer um. Num segundo, estavam no meio de uma bolha de luz com um pequeno Grupin — no outro, Nick estava coberto por criaturas de cores vermelho, azul e amarelo.

Ele tentou usar magia, mas não conseguia nem impedir os felinos de agarrarem-se ao seu corpo. E enquanto os amigos tentavam ajudar, mais deles pareciam surgir do nada, os gatos de de repente se parecendo com ratos correndo atrás de um monte de queijo.

Zeru gritava, a espada inútil contra montes de criaturas pequenas e velozes. South não estava em melhores condições. Vampiritico corria de um lado a outro, a adaga facilmente pegando pontos fracos nos monstros diminutos. Nick ainda estava caído e Thugles usava Garras em alguns.

Em um dado momento, Nick conseguiu se libertar e usou seu pilar de gelo. Imediatamente, seis dos felinos foram congelados, finalizados por uma magia de Anna. Rápida e habilmente, o Mago continuou a usar o pilar para congelar os que sobravam e acalmar um pouco a confusão.

Thugles curou o amigo, o único que perdera quantidade significativa de HP. Ao fazer isso, viu uma das criaturas desaparecer e ser substituída por alguma coisa fina e escura, como um cartão ou pedaço de papel.

-Eles estão dropando algo! — gritou, e agora ele podia ver vários outros objetos aparecendo onde algumas das criaturas caíam.

-Não, sai, esse é meu — South empurrou o afobado Gatuno com a mão livre, enquanto matava o último Cellion Jr. Golpeou-o à esquerda, depois por cima e por fim deu uma estocada tão forte que a mão dele bateu no focinho do filhote. Ele desapareceu, deixando para trás um pedaço de papel marrom.

Nick pegou uma delas, interessado.

-"Deusa Minerva, Página Quatro, 24 de Abril: Hoje, Papa Pixie veio me visitar com aquele chapéu circular estranho..." — ele franziu a testa — É o diário da Deusa!

-Você acha? — Vampiritico retrucou sarcástico — Já que é tão esperto, pode ficar com essas páginas aqui. Não estou muito a fim de ler o diário de uma deusa petrificada.

Eles juntaram os seis papéis, tendo conseguido as páginas 3, 4, 5, 7 e duas páginas 10. Como não faziam idéia de pra quê aquilo servia, Nick as pegou para ler(Thugles também queria, mas não queria começar pela terceira página).

Subiram de volta à torre, encontrando um Eak totalmente alheio ao que acontecera. Quando Thugles falou com ele, no entanto, o NPC se contraiu e começou a murmurar. Sem dizer palavra, levou-os para cima, onde um novo portal havia aparecido na parte mais alta.

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Eak começou a falar, apreensivo. Imediatamente, os amigos souberam que haviam chegado ao fim da jornada.

A parte mais alta da Torre da Deusa era um espaço aberto, com alguns monumentos parecidos com o altar onde restauraram Eak ou o lugar onde colocaram a vitrola na entrada. Mais nuvens compactas o bastante para pisarem aumentavam a altura do lugar em alguns metros. Aquelas nuvens tinham grandes objetos de pedra em forma de cilindro baixo, onde caberia uma criança agachada.

-O Papa Pixie reside aqui — Vampiritico repetiu as palavras de Eak instantes depois de entrarem — Mas onde está ele?

Além das decorações, o topo era um círculo largo, com nuvens flutuando tão baixo que era evidente que serviriam como plataformas para que eles pulassem. Mas não havia sinal do Papa Pixie, nem de nenhum duende. Os amigos olharam para Thugles, que olhou para Eak, que se encolheu.

-Ele está dormindo agora — contou, a vozinha esganiçada quase um leve ganido — Está transferindo a energia da torre da Deusa para si mesmo, como vem fazendo há anos.

-Se ele está dormindo... Cadê ele? — Thugles perguntou. Eak suspirou.

-As Carnívoras... — seu rosto enevoado se torceu numa careta — Oh, minha Deusa, quanta maldade! As plantas... Este é o lar das Plantas Carnívoras. São selvagens, mas a Deusa Minerva dizia que eram criaturas adoráveis e incompreendidas. Ela as criou com amor e carinho aqui na torre, longe das pessoas para que não causassem problemas. As plantas, realmente, pareceram muito mais simpáticas aqui em cima mas... Essa energia...

-O Papa Pixie as matou? — Nick adivinhou.

-Pior! Ele está usando as raízes para entrar nas fundações da energia da torre. Posso sentir que é uma Carnívora Negra entre as da deusa! Ela deve ser a planta que o protege e impede que ele seja acordado pelas outras enquanto absorve a energia.

-Outras? Não tem nenhuma planta aqui — Thugles disse um tanto preocupado. Eak sacudiu o corpo.

-Ah não, elas estão aqui, sim. O Papa Pixie, com toda a sua maldade, respeita as plantas e outras criaturas da natureza. Ele não as mataria assim sem remorso. Acredito que tenha usado um feitiço para torná-las sementes outra vez.

Vampiritico bufou, sarcástico.

-Você sabe disso só de chegar aqui, né?

-Lamento, apenas o líder do grupo deve falar comigo.

-Ah, seu viado, pro Nick você não fala isso, né?

-Se as sementes estão aqui, precisamos encontrá-las — South lembrou — Vamos começar nessas nuvens. Vampy, usa aquela skill doida que dá pulo, por favor?

Vampiritico usou a Agilidade, e novamente eles estranharam o repentino aumento na velocidade e na altura do pulo. Ao fazerem isso, descobriram que os cilindros de pedra eram vasos de plantas cheios de terra, mas sem nenhuma muda.

-Tem uma planta aqui — South observou — Ela parece... Ai!

Ele recuou quando a planta, uma espécie de flor vermelha com uma boca cheia de dentes finos e longos, cuspiu uma enorme semente em seu rosto, tirando boa parte do HP. Não demorou até que estivessem todos em cima da planta. Em segundos, ela desapareceu, derrubando uma enorme semente verde.

-Já sei! — falou Nick — Vamos colocar em um vaso vazio.

Feito isso, outra planta carnívora apareceu. Ao morrer, derrubou outra semente, que foi plantada em outro lugar. Em um dado momento eles encontraram uma planta cuja flor era negra, e aquela deu mais trabalho de matar. Quando isso aconteceu, ela não derrubou semente.

Instantes depois, ouviram um barulho, um grito e um suspiro que certamente vinha de Eak. De repente, as nuvens sob seus pés pareceram se descondensar e eles caíram, gritando assustados. A queda foi amortecida por uma nuvem, que eles constataram ser Eak, que alongara o corpo como uma massa de panqueca.

-Ele está aqui! O Papa Pixie...

Trêmulos, os amigos se viraram e olharam para o algoz da Torre da Deusa.

O Papa Pixie era imenso, apenas alguns centímetros menor do que Alishar. Era gordo, também, a pele de um branco pálido e redondo, com uma cauda ondulante como um fantasma bizarro. A boca rosada era encimada por um bigode cujas pontas se curvavam em espirais, e os braços eram pequenos tocos arredondados ao lado do corpo. Um deles segurava uma varinha que não era mais do que um bastão com uma pedra azul-claro na ponta. A única vestimenta que usava era um chapéu azul escuro com ponta dobrada e um emblema dourado que parecia a caqbeça de algum animal mordedor com asas.

South e Zeru foram os primeiros a correr até a enorme criatura. Vampiritico ficou mais atrás, atirando facas de arremesso e aproximando-se para usar o Ataque Selvagem quando elas acabavam. Thugles recuperava-se de ter abençoado os seis, mas ainda não havia necessidade de Cura.

Havia algo errado com os ataques de Nick e Anna. Esta usava o fogo sagrado e aquele, ataques de gelo. Mas não inflingiam muito dano no monstro. Nick passou para a Garra Arcana e se deu conta do que era.

-Ataques elementais não fazem efeito nele! — gritou.

-Ah, maravilha — Anna retrucou resignada, baixando o cajado.

Isso praticamente inutilizava a garota no combate. Não pela primeira vez, desejou ter outra armadura para usar além da Imperatiz de Fogo. Enquanto isso, South e Zeru enfrentavam o Papa Pixie com determinação.

A luta permaneceu equilibrada durante alguns minutos. Então o grande duende pareceu se erguer e, girando a varinha no ar, conjurou uma hora de Duendes de todo o tipo, inclusive os fantasmas.

Eram dezesseis no total, e na confusão, ninguém parou para analisar de que tipo era cada um, se Estelares, Lunares ou Solares. Apenas os fantasmas se destacavam, e esses eram os que precisavam matar primeiro.

A formação era simples: South e Zeru na frente, protegendo os bruxos e a garota, e Vampiritico vagueando entre eles acertando alguns ocasionamente. Os duendes tentavam avançar a todo custo, e às vezes os dois guerreiros não davam conta de matar todos.

-Pega os da direita! — South instruiu em voz alta para Zeru — Vampy, mantenha as facas nos Solares.

Eles obedeceram — realmente havia uma falha no flanco direito, que o guerreiro de armadura se apressou em cobrir. Thugles cuidava dos Fantasmas que, apesar de mais fortes, eram imensamente vulneráveis à magia sagrada. Ele alternava com Nick e Anna para defender o flanco esquerdo, somando as forças dos três membros menos eficazes naquela batalha.

-Indo bem! Estamos indo bem! — South gritou.

Ouviu-se um barulho alto e uma luz surgiu ao lado deles. Perplexos, perceberam que Vampiritico acabara de atingir o nível 71.

-RÁ! Só pode até nível 70, né? — ele tagarelava, animado — Chupa, nuvenzinha idiota!

Eles estavam indo muito bem — o HP do Papa Pixie estava quase na metade — quando, num piscar de olhos, tudo mudou.

O Papa Pixie rodopiou com o cajado, conjurando outra horda de duendes. Continuando o movimento, ele fez o cajado brilha com uma luz que não era azul, mas negra. Uma espiral saiu de sua testa e flutuou rapidamente até o grupo.

A névoa caiu sobre todos, mas apenas Zeru e os dois bruxos tiveram a vista atrapalhada como se fumaça estivesse cobrindo parcialmente seus olhos. Não apenas a visão lhes fora prejudicada, como também a maioria dos ataques causava "MISS".

Anna jogou Água Benta em Nick, mas nada aconteceu. Horrorizada, ela constatou que a poção só funcionava para o cadeado que selava as habilidades. E, como que lendo seus pensamentos, Papa Pixie abriu a boca e gritou, um berro agudo e torturante que pareceu expulsar o próprio sol do céu, escurecendo tudo por uma fração de segundo.

Quando a luz voltou, estavam todos cobertos pelo conhecido cadeado preto rodeado por esferas flutuantes que os impedia de usar qualquer skill.

Vampiritico e os dois guerreiros não se preocuparam, sequer notaram o que estava acontecendo nos primeiros segundos. Foram os bruxos que foram prejudicados. E ao mesmo tempo, numa coincidência grande demais para ser o que parecia, Papa Pixie invocou a terceira horda de duendes.

Eram todos Estelares, o tipo mais fraco deles, mas aquela também era a onda mais numerosa deles. Havia cinquenta duendes, no mínimo, forçando caminho pelos dois guerreiros que logo perceberam que não havia mais Cura atrás deles. Anna tentou usar outra Água Benta, mas foi envolta por dezenas de estrelas gritantes atiradas pelos duendes.

-Água Benta! Alguém me jogue uma Água Benta! — gritou Thugles. Sem ele para recarregar o HP dos outros, a luta seria bem mais complicada com toda aquela quantidade de duendes. Mas se alguém tinha a poção,e stava ocupado demais para usá-la no companheiro.

Zeru virou-se para trás e viu a cena se desenrolando: os dois bruxos encostando as costas, lutando para evitar os duendes, a poucos metros de um vulto laranja e vermelho envolto por uma massa de duendes. Acima deles, uma pequena barra cujo vermelho desaparecia a cada segundo...

-South!

O aprendiz se virou, e naquele instante todos se esqueceram do Papa Pixie. Correram para abrir caminho, cortando e retalhando os duendes. Pelo menos, aqueles era os mais fracos. Penosamente, conseguiram matar a maior parte dos que envolviam a garota impotente.

South olhou para um lado e arregalou os olhos.

-Vampy, O QUE É QUE VOCÊ ESTÁ FAZENDO? — gritou. O Gatuno estava parado longe da luta, fora do alcance dos duendes. Parecia estar mexendo em alguma coisa no menu. Não havia cadeado flutuando sobre ele, e logo a visão foi bloqueada por um bando de duendes que entraram na frente de South.

-Morram, diabinhos, morram! — dizia, o braço começando a formigar de tanto girar a espada. Sentiu Zeru ao seu lado e soube que ele estava ajudando os outros. Aparentemente, Thugles livrara-se do cadeado: a aura verde brilhava em diferentes pontos da massa de duendes. A luta poderia se estabilizar, mas...

Com outro grito, o Papa Pixie avançou, atacando diretamente pela primeira vez. Usava uma espécie de Garra Arcana que não afetava os duendes e ardia onde tocava nos jogadores. Anna conseguiu ingerir uma poção. Nick procurava atacar os mesmos monstros que Zeru, mas logo seu MP baixou.

-Tive uma idéia — Thugles disse de repente — South, você...

Havia pelo menos três duendes olhando para ele, todos sumiram num piscar de olhos. Um lampejo metálico lhe avisou que era Vampiritico e seus seis golpes do Ataque Selvagem. Subitamente, ele apareceu entre os inimigos, um brilho no olhar.

-Joguem dinheiro — ele pediu — Sacos de mil, no meio dos duendes!

-Pra quê? — South virou-se para ele sem entender — Vai usar Visão Noturna e pegar tudo enquanto a gente...?

O gatuno, no entanto, metia a mão no bolso e tirava sacos de dinheiro sem parar, atirando-os fazendo um pequeno monte no chão. Resmungando, South guardou a espada e enfiou as mãos nos bolsos, também atirando alguns sacos. Mesos podiam ser trocados digitando a quantia que se queria enviar no menu, mas os jogadores também tinham uma bolsinha onde eles podiam digitar uma quantia e, depois disso, retirariam esse valor quando tentassem tirar algo dela.

Não demorou até que todos estivessem ocupados em realizar o pedido bizarro do garoto e o chão estivesse cheio de pequenos sacos tilintando de moedas. Satisfeito, o rapaz pegou uma adaga e voltou a atacar.

-Agora se afastem! — gritou, e os cinco correram para trás, deixando o rapaz sozinho contra o Papa Pixie, dezenas de seus duendes e uma pequena fortuna em mesos.

Os amigos estavam de costas, correndo ara salvar suas vidas enquanto confiavam cegamente no pequeno rapaz. Ninguém viu quando ele pareceu se desmaterializar e transformar-se numa sombra travessa com olhos brancos inexpressivos e um sorriso estranho no rosto.

Eles se viraram bem em tempo de ver a figura curvada apertar um puxador em forma de "T". Um segundos depois, os mesos explodiram.

O barulho deveria ser ensurdecedor, mas era estranhamente baixo e suave para algo daquela proporção. Uma enorme nuvem negra e vermelha saiu do chão, cobrindo a horda de duendes, Vampiritico e afastando o Papa Pixie. Mais explosões se fizeram ouvir, e quando a névoa finalmente se dissipou, havia apenas um duende e um garoto.

Vampiritico atirou mais sacolas de mesos e rapidamente voltou a se transformar na sombra, explodindo dinheiro e fazendo o monstro recuar com mais força do que qualquer outro ataque já inflingido nele. O Gatuno voltou a se materializar quando o HP do monstro baixou o bastante, as facas de arremesso já escapando de seus dedos hábeis como dardos ávidos por atingir seu alvo.

South foi o primeiro dos amigos a chegar até lá, somando os esforços com sua espada rápida e sibilante. Nick foi o segundo a se teleportar e, quando Zeru estava a a poucos passos do Papa Pixie, ele desapareceu.

O garoto apareceu novamente diante deles, as facas de arremesso já escapando da mão como que ávidos para atingir seu alvo. South foi o segundo a chegar, cortando o corpo gordo do grande duende com rapidez e fúria. O Papa Pixie desapareceu antes mesmo que Zeru chegasse para ajudar.

Os outros chegaram, apressados, para encontrar o menino que tinha no rosto o sorriso mais inocente do mundo.

-Que idéia genial! — Thugles disse meio que abraçando o amigo — E skill bem legal, também. Ela dá mais dano se os sacos tiverem mais mesos?

-Não sei totalmente como ela funciona, eu acabei de ganhar — o rapaz respondeu, rindo.

-Então era por isso que você estava parado mexendo no menu, estava aumentando os pontos de skill... Mas como? — South perguntou sem acreditar — Aquele detonador... A skill realmente apareceu pra você assim, do nada?

A maioria das skills precisava que a pessoa fizesse uma Quest, ou simplesmente falasse com o instrutor de classe para obtê-la ao atingir o nível requerido. Vampiritico o olhou e sorriu.

-Tenho ela desde que virei Mestre Arruaceiro — explicou — O detonador faz parte de uma Quest sim, mas eu ganhei ele lá na Mist Brotherbind. Tenho quase tudo pras skills aqui, inclusive um livro que disseram que usa lá no quarto avanço.

-Então tem um quarto avanço — Nick observou, excitado — Mal posso esperar pra ver quais devem ser as minhas habilidades.

Vampiritico deu-lhe um tapa nos ombros.

-Meio cedo pra isso, ainda não sabe nem usar o pilar de gelo direito — brincou.

-É cedo pra discutir — Anna disse, um pouco distante deles, agachando-se para pegar a semente que caíra do Papa Pixie — Agora precisamos ressuscitar a Deusa.

-Ah, o Eak vai ter um ataque de nervos...

Exatamente após South terminar de falar, a nuvenzinha apareceu diante deles, mais animada do que jamais o viram.

-Excelente! Vocês derrotaram o Papa Pixie com garra, força e coragem! Claro que ele não está morto...

-Como sempre acontece nos jogos...

-...mas agora podemos trazer a Deus de volta! — completou — Ah, obrigado, muito obrigado...

De volta à sala, Thugles recolocou a Semente do Poder em frente à deusa, como Eak lhe instruíra. O objeto flutuou até tocar a pedra e parecer ter se incrustado nela. Um brilho tomou conta da semente e ela pareceu começar a brotar: galhos e ramos feitos de luz destruíam a semente, e no lugar onde ela estava havia somente luz, que ficava cada vez mais forte até eles precisarem desviar o olhar.

Quando a luz cessou, perceberam que estavam numa outra parte da torre, um cilindro apertado com uma escada em caracol. Curiosos, os amigos a subiram. No topo, encontraram uma figura que era, de certo modo, decepcionante.

A NPC tinha o tamanho de uma pessoa normal. Cabelos loiros encaracolados, olhos claros e traços finos. A túnica branca cobria todo o corpo, e o cajado numa mão e a órbita na outra não deixavam dúvidas de quem ela era.

No entanto, ela não se parecia nada com a belíssima mulher esculpida no centro da Torre da Deusa.

-Muito obrigada, vocês me libertaram de minha prisão — disse a deusa — Agora que a magia da torre foi restaurada, ela poderá tornar a ser um local de paz para todos do mundo Maple. Mas ainda levará tempo... E eu sinto muita falta do meu diário...

Ela olhou como que esperando que alguém respondesse. Como ninguém o fez, Minerva apenas suspirou.

-De qualquer modo, tenho uma grande dívida para com vocês. Por favor, aceitem estes itens como prova de minha gratidão. Espero vê-los novamente, quando a torre estiver pronta para receber visitas. Vocês todos são bem-vindos aqui.

Nisso ela sorriu, uma curva tão singela, pura e angelical que compensava qualquer magnificência que faltava nela, em comparação à estátua. Os amigos não puderam deixar de sorrir também. Minerva fez um aceno de despedida e soltou a órbita no ar, em seguida a tocou com o cajado. Uma força pareceu emanar da esfera, puxando-os para dentro.

E então não havia mais nenhuma força, apenas a entrada da Torre da Deusa com a fada Wonky mastigando uma enorme folha.

-Valeu a pena — Thugles comentou, abrindo o menu de habilidades: acabara de ganhar três pontos novos — Será que ela falou sério quando nos convidou pra voltar, ou ela vai ser presa de novo se a gente tentar fazer a Quest novamente?

-Não faz diferença pra mim — Zeru resmungou — Não piso de novo nesse lugar nem daqui a um milhão de anos.

-Ah, eu acho que pisa sim.

Ele se virou para encarar quem falara: um jovem alto de cabelos brancos montado num cavalo preto com a cara branca. Franziu a testa. Era o único que não conhecia aquele rapaz de cabelos brancos espetados.

-Sabe... Quando você morre aqui, deve ir pro deus daqui, no caso, a deusa — Dark Corpse continuou com desdém — O que acha de ser o primeiro a descobrir?

Com um último sorriso cruel e debochado, ele sacou ambas as pistolas e atirou.