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20 A Little Plot Twist


Rockfield sabia que a Sunrise of Astoria era um clã com vários integrantes, que serviam para realizar as tarefas "sujas e ordinárias" para o grupo. Só não esperava que eles fossem suficientes para formar quatro fileiras de cinco pessoas cada, dispostas na clareira logo à frente da casa de madeira onde o grupo se reunia, já que o espaço era insuficiente para comportar todos eles.

O pequeno exército era composto de membros menos importantes da Astoria. Eram principalmente homens, a grande maioria Guerreiros ou Gatunos, todos Assassinos, como era chamada a clase dos que usavam shurikens. Havia poucos Arruaceiros no MapleStory. Quando se virava Gatuno, os jogadores tendiam a querer a escolha que ensinava a atirar shurikens em vez da alternativa adagosa, que consideravam "simples e sem graça demais".

Eles estavam reunidos ali para serem informados do plano de ataque a um pequeno grupo: o grupo composto por Donnie, Sheddeer, Aphanyus e, agora, o grupo de Thugles. Rockfield não havia contado que eles haviam se encontrado — e nem Anna sabia disso — mas Bloody Tarantula, o perverso traidor que tinha um dos olhos coberto por uma atadura, sabia. E tinha dedado. Era bom espião, tido como o terceiro melhor do clã. "O melhor, no momento" Rockfield pensou com sarcasmo, lembrando-se que o segundo melhor estava preso e o melhor era um agente duplo que sabotava as informações.

Na frente dos vinte bandidos, estava um pequeno grupo separado, e esses eram alguns dos mais fortes e influentes do clã. Eram três ali naquele momento: Dark Corpse, Vile Slayer... e Live Corpse.

Apesar de ser a mais nova no grupo, Anna não havia sido indicada a ficar com as fileiras comuns. O que não era exatamente surpresa. Sua armadura negra e a espada grande e espinhosa provocavam murmúrios de admiração nos presentes, e sempre havia alguém olhando para a garota. Embora esse fosse um privilégio apenas para os das duas fileiras da frente, já que a ela era muito pequena.

–Então, meus amigos, agiremos daqui a duas horas — Dark Corpse continuou com voz alta e clara. Ao lado dele, Vile Slayer se mexia inquieto, emitindo alguns "hue" para si mesmo. Anna estava do outro lado dele e, e apesar da armadura, ela parecia bem insignificante ao lado do alto e magro pistoleiro. Mas "insignificante" não era uma palavra que alguém colocaria nela naquele momento. A expressão decidida e imponente fazia qualquer comentário sobre sua altura morrer antes de ser proferido.

–Vamos todo mundo de navio? — perguntou um homem pálido usando uma longa capa negra. Ele não parecia satisfeito com a idéia. A pergunta era desnecessária — não havia outro meio conhecido para sair de Edelstein -, mas a caminhada até Mu Lung era longa e cansativa. Mas as palavras seguintes animariam o grupo um pouco.

–Eles não estão em Mu Lung — ele disse — Mas sim, numa fenda em El Nath. Antes da entrada da cidade, então não devemos demorar muito pra achá-los.

–Lord sabe onde encontrá-los — bradou Vile Slayer — Né, Lord?

Vinte cabeças se viraram para trás para olhar na direção que a cabeça de cavalo encarava. Perto de um tronco, atrás das fileiras de bandidos, um homem coberto de preto ergueu o polegar, concordando.

Ele usava a máscara, por isso ninguém podia ver a expressão no rosto dele. Nem que ele olhava para Anna(apesar de que não era o único). Depois que a garota entregara a verdadeira posição de Donnie, ele fora incubido de rastrear o grupo, mas desta vez, não haveria fingimentos. Se ele mentisse sobre a localização dos amigos, Anna certamente o deduraria.

No entanto, ela ainda não o havia feito, e ele se perguntou por que motivo. Afinal, se ela os tinha traído, então seu disfarce como espião estava acabado. Contudo, curiosamente, ela não o fez. Por que seria...

Então, ele teve uma idéia. Aquilo era tudo um plano da garota, ela ainda estava do lado deles, agindo como agente duplo da mesma forma que ele mesmo fazia! Ela não havia reclamado de estar se sentindo uma inútil? Talvez quisesse conseguir mais informações, agindo como espiã, era isso! Afinal, Rockfield duvidava que ela os entregaria. Anna simplesmente não faria isso.

Mas...

–Nós vamos formar uma fileira grande com os que usam as armas mais pesadas — Anna começou a falar, a voz em um tom completamente diferente de tudo o que já tinha ouvido dela — Martelos, machados de duas mãos, espadas largas. Esses podem enfrentar o Aphanyus. A espada dele é grande e ele é bem rápido, nossa melhor estratégia é atacá-lo com cinco, seis de uma vez.

Um grupo de sete homens se adiantou, entre eles, o homem pálido com a capa. Ele sorria maldosamente como se estivesse ansioso para o combate, e o machado de duas lâminas em suas mãos musculosas exigia respeito. Qual escola de ensino médio aceitava um urso como aquele, era uma pergunta que ninguém se atrevia a fazer.

–Finalmente a ação que você queria hein, Nils — Dark Corpse falou para ele. Apenas os mais influentes do clã tinham o privilégio de receber um nome tosco, mas mesmo que estivesse entre os membros comuns, o sorriso do homem se alargou. Não se importava com rankings, estava mais animado com a ação que estava prestes a ter.

–Enquanto esses pegam o Aphanyus, alguns Assassinos podem ir atrás do Sheddeer — ela continuou, e houve movimento na maioria dos membros presentes na multidão — Ele é um arqueiro, mas não é frágil. Ele sabe correr e se esconder enquanto atira, então...

–Vai dizer que precisamos juntar isso tudo pra enfrentar um triozinho de merda? Esse Aphanyus pode até ser bom, mas um arqueiro...

Ele se calou com o olhar que Anna dirigiu a ele.

–Você pode ir sozinho, se quiser — a garota sugeriu com sarcasmo — Quando você virar um monte de purpurina brilhante, talvez os outros aprendam a calar a boca e a fazer o que estou mandando.

Tinha sete guerreiros armados com lâminas pesadas e até maiores do que a garota que falava. Nenhum deles abriu a boca para fazer uma objeção sequer.

–Shurikens, facas... Flechas não vão dar certo, precisamos atacá-lo por trás — ela continuou impassível — Seria bom se alguns de vocês, uns quatro, se movessem por trás dele e mantê-lo ocupado. Se o Dark Corpse conseguir chegar perto o bastante, Sheddeer já era. Quanto ao resto... — ela se referiu aos outros, Thugles, Nick e Vampiritico com certo desdém — Vocês se livram deles como quiser.

Ouviram-se alguns resmungos de aprovação do grupo que escutava atentamente o que ela dizia. Dark Corpse passou pelas fileiras e selecionou cuidadosamente quatro Gatunos, que se separaram dos demais. Eles ficariam incubidos de enfrentar Sheddeer. Os outros nove membros, duas magas, três piratas e quatro guerreiros estariam livres para enfrentar Thugles, Nick e Vampiritico.

Eles conversavam baixinho entre si enquanto Dark Corpse os selecionava, animados com a perspectiva da luta. Não era a primeira vez que se juntavam para enfrentar um grupo treinado, como piranhas se reunindo para dominar um tubarão. Parecia simples demais, apenas mais um dia de trabalho na Sunrise of Astoria. Então, Anna voltou a falar, e a conversa morreu no mesmo instante.

–Se a gente conseguir isso, ainda vai faltar mais um.

Eles a encararam, confusos, então assentiram ao se dar conta do que era. Ainda faltava Donnie — o que era estranho ninguém ter lembrado, já que, quando aqui fala do grupo do Donnie(tá vendo) é sempre "grupo do Donnie", nunca "grupo do Sheddeer" ou "grupo do Aphanyus", portanto era de se esperar que com tanto "Donnie" eles não se esquecessem dele. Mas como eles não estão lendo isso, então não é estranho que eles não saibam, mas ainda assim não é motivo pra esquecerem, na verdade nem chegaram a esquecer muito porque a Anna lembrou logo depois.

–Ele é, apenas, o mais forte do grupo — ela informou — Pode bloquear qualquer magia elemental com o cajado. Magia sagrada seria bom, mas não temos ninguém que saiba usar aqui. E o nível dele também é bem alto, ele já tem magias do terceiro avanço, por exemplo, um par de esferas que soltam raios, correntes e outras coisas. A principal vantagem dele é que ele é muito rápido com o cajado, que ele usa como se fosse uma espada. Nem pensem nisso — disparou, quando um brilho pareceu iluminar a expressão de alguns dos Guerreiros — Já vi ele matando um homem dez níveis mais alto que ele, e isso foi antes de ele pegar o terceiro avanço. Não, ele é muito forte. Felizmente, é só um, e ele não pode proteger a frente e as costas ao mesmo tempo.

Uma mão gelada apertou o coração de Rockfield. Sendo o melhor amigo do rapaz de quem falavam passava bastante tempo ao lado dele, e era muito observador. Se tinha uma coisa que ele tinha certeza, era que Anna amava aquele Donnie Nirvana.

Aquelas informações, nas mãos daquele grupo, poderiam levar o amigo à morte... Ela nunca se arriscaria a expor ele daquela maneira. Não se não os tivesse traído.

–Mas espera — o rapaz ouviu um gatuno dizer — Então nós vamos precisar de mais gente, não?

–É verdade — Dark Corpse olhou para a garota com relutância — Todos os outros vão estar ocupados em formação contra os alvos designados. Pelo que você disse, vamos precisar de várias pessoas pra conseguir vencer a força do Donnie. O Italo foi com o Evil Corpse pra Mu Lung ajudar ele com uma Quest lá, acho que não vai participar... Quem vai enfrentar ele?

Ela se virou para encará-lo, os olhos sombrios na expressão da mais profunda indiferença.

–Eu vou — Anna disse com simplicidade.

Foi aquilo, mais do que tudo, que despertou o sentido aranha de Rockfield. Ele precisava sair dali. Se ela tinha arriscado a pessoa que mais amava, por que não a ele? Involuntariamente, ele deu meio passo em direção às árvores, mas a garota percebeu o movimento, já que todos estavam parados e ele era o único que se havia se mexido. Ela lhe deu um olhar frio, e o rapaz congelou no mesmo instante. Mas logo ela se voltou para falar novamente com Dark Corpse.

Espantado, Rockfield teve um pressentimento estranho. Ela estava agindo assim, não revelando que ele era um espião, porque ainda precisava dele. Mas por que seria? Ele tentou pensar no que poderia ser. Talvez ela quisesse a armadura Nightingale, talvez o pedisse em troca de segredo. Pensar nisso o deixou enjoado. Ele poderia fugir dali e despistar a gangue, mas o problema era Dark Corpse. Eram de levels diferentes, mas eles estavam praticamente mesmo nível no que se referia a batalhas. Ele não queria ter que enfrentar aquele pistoleiro. Sabia que, se tentasse fugir, Anna o alertaria e a luta inevitável começaria.

(Resolvi me referir aos "níveis" do jogo como "levels" pra não confundir com a palavra níveis quando ela tem sentido de... Bom, se não encontrei uma palavra melhor pra substituir "níveis" no parágrafo anterior, certamente não vou encontrar pra usar na comparação. Pense em "níveis de energia", "aquele rapaz tem um nível de burrice grande" etc. Pra não confundir, nível de jogo agora é "level". Obrigado pela atenção!)

Por isso, ele decidiu que iria esperar. Sempre poderia fugir depois, afinal, não aconteceria nada com ele agora. E no momento, eles estavam ocupados com outro problema.

–Não quero subestimar você nem nada — Dark Corpse começou, mas Vile Slayer o interrompeu, aproximando-se dos dois.

–Pois eu não ligo pra essas bobagens de subestimar. Live, você não passa de uma garota, com uma armadura incrivelmente foda, mas uma garota. E já ouvi coisa demais do Donnie pra achar que uma garotinha bonitinha pode vencer ele assim.

–Você mesma disse, ele é bom com o cajado, e você... Bom, nunca vi você lutando, e você decididamente não é nível 80 — Dark Corpse acrescentou, tentando abrandar as palavras do Cavaloface.

A tropa de bandidos pareceu prender a respiração quando Vile Slayer disse aquelas palavras nada encorajadoras. Surpreendentemente, a garota sorriu, o sorriso mais sincero e menos frio que já tinham visto, embora prejudicado pelo brilho sádico e maldoso no olhar dela.

–Donnie fica mais vulnerável quando exposto a magia sagrada — ela disse — Não sei usar a magia em si, mas tenho algo parecido. Fogo sagrado. É um tipo de fogo abençoado ou coisa assim, mas o que importa é que diz lá na propriedade: "sagrado".

–Hue fogo sagrado — repetiu Vile Slayer — E como você planeja...

Anna abriu os braços e Dark Corpse pulou para trás, espantado. A armadura da garota começou a brilhar até que ela fosse uma figura humana feita de luz branca, mas que não chegava a prejudicar a visão. Enquanto olhavam, a armadura brilhante pareceu mudar de forma e tamanho rapidamente, moldando-se novamente ao corpo pequeno da menina.

–AH MEU DEUS, ELA TÁ EVOLUINDO!

O brilho foi diminuindo até passar, e agora todos a olhavam com os queixos caídos. Exceto Vile Slayer, que não tinha nem se mexido. Ainda era Anna quem estava ali, mas a armadura preta havia desaparecido. No lugar dela, estava um peitoral de aço vermelho vivo, calças da mesma cor com botas e luvas que pareciam chamas amarelas e vermelhas. A enorme espada havia ficado mais fina e longa, transformando-se em um bastão de metal com a ponta ornamentada por argolas ao redor do que parecia ser uma pirâmide larga de cabeça para baixo, formada por placas que se encaixavam como escamas de peixe e em cores que lembravam uma tocha acesa.

–E é por isso que ela é melhor que todos vocês! — Dark Corpse gritou em meio aos aplausos que se seguiram.

–Então, problema resolvido! — falou Vile Slayer — Qualquer dúvida venham até aqui e deixem seu hue.

A tropa ficou mais descontraída depois disso, conversando entre si e com os dois líderes. Anna pareceu perder o interesse em discutir mais e apenas caminhou até a casa. Rockfield sacudiu a cabeça, resignado.

"Tenho que pensar em alguma coisa", refletiu enquanto olhava para a turba de bandidos treinados prestes a sair em viagem de ataque aos seus amigos "Será que consigo..."

–Rock — ele ouviu uma voz chamar e se virou para ver quem o encarava. Era Anna.

–Estava esperando que você viesse — ele resmungou muito lentamente — E eu espero uma explicação muito, muito convincente da senhorita, porque...

–Por que estamos aqui? — ela perguntou de repente, e ele se virou para ela — Rock, por favor, o que estamos fazendo aqui?

Ele levou alguns segundos antes de responder, lutando contra o sarcasmo. Não venceu.

–Eu não sei o que faço aqui, mas você, eu sei bem. Você deu algumas dicas a eles, nada tão revelador, claro, mas...

Ela sacudiu a cabeça veementemente para interrompê-lo.

–Eu acabei de alugar um quarto em Perion — ela disse, baixinho — Eu fui dormir, e agora tô aqui parada. Por que me trouxe aqui, Rock? Quem são essas pessoas? Não conheço esse lugar, e aquele ali... É o Dark Corpse? — a voz dela se transformou num sussurro — Rock, por favor, eu estou...

Mas ele não estava mais escutando. Uma idéia terrível lhe passou pela mente, e ele olhou lentamente para o bando. Estavam conversando animadamente com Vile Slayer e Dark Corpse, discutindo sobre os planos e alguns agitando as armas casualmente. Enquanto isso, a garota ela ali, parecendo não se lembrar do que tinha acabado de fazer... Ele a olhou. Os grandes olhos cinzentos da menina estavam confusos e assustados. Ela sabia esconder bem os sentimentos, mas quando fazia isso, apenas parecia indiferente por causa da falta de jeito com pessoas.

Se ela estava muito emocionada, sabia esconder, mas ele nunca a tinha visto fazendo o contrário. Ela parecia verdadeiramente confusa, como se estivesse acabado de se deitar uma cama numa cidade a quilômetros dali e de repente estivesse em pé no meio dos bandidos que ela mais temia. Rockfield percebeu, não muito surpreso, que acreditava nela. Não sabia o que estava acontecendo, mas precisavam sair dali. E precisava agir rápido.

Ele pôs ambos os braços nos ombros da garota, o que fez com que ele se curvasse bastante devido à diferença de altura. Ele retirou a máscara. Não havia mais desconfiança ou suspeita em sua voz. Agora que pensava naquilo... Não. Ele teria que pensar depois. Olhando fixamente para a menina, ele contou o que ela precisava fazer.

Anna arregalou os olhos e sacudiu a cabeça assim que entendeu o que ele queria, mas Rockfield a segurou com mais firmeza. Com os olhos fixos nos dela, ele falou.

–Anna, olha só, a situação já tá complicada demais com o que acaba de acontecer aqui. Por favor, faz o que estou dizendo! Você tem...

–Que é que vocês tão discutindo aêah? — interrompeu um Gatuno, seguido pelas risadas zombeteiras do grupo. Todos olhavam para eles agora. Rockfield olhou suplicante para a menina, que fechou as mãos e se virou.

–Preciso ir pra El Nath antes de vocês — ela disse dando alguns passos para frente. Por dentro, estava fervendo de vergonha, mas conseguira imitar bem o tom de voz frio e autoritário que havia usado antes. Algumas pessoas resmungaram em desagrado — apenas os que estavam mais atrás, fora do campo de visão da garota.

–Acabei de lembrar que eles estão indo pra outro lugar — ela continuou, a voz falhando apenas um pouquinho — Donnie tinha falado que ia mudar o acampamento, porque estava ficando tempo demais num lugar só. Acho que sei onde é, mas é melhor eu ir pra garantir. Vou precisar de alguém pra me ajudar a rastrear a pista deles — acrescentou, pensando rápido.

–Sim... Entendo — Dark Corpse assentiu, pensativo — Lord, vá com ela. Deixa seu caso com o Viadão de lado por um tempo e vai fazer alguma coisa útil.

Ele fez uma careta quando Lord não fez um movimento para cumprir o que fora pedido, apenas erguera as sobrancelhas.

–Vai você, porque é o melhor rastreador que temos aqui e precisamos dos outros pra planejar o ataque — ele acrescentou com os dentes cerrados. Rockfield permitiu-se dar um pequeno sorriso.

–Ah, se é assim, vou ficar feliz em ajudar — ele respondeu — Vamos, Live Corpse.

Ele envolveu os ombros da garota com um braço e a conduziu para fora da floresta. Aquele era um gesto desnecessário, mas ele faria o possível para irritar o pistoleiro. Minutos depois, quando as árvores começaram a ficar bem para trás e a terra árida não poderia esconder nenhum ouvinte, Rockfield parou.

–Tudo bem, me escute — ele pediu, tentando não falar em tom de urgência — Não sei bem o que acabou de acontecer, na verdade eu poderia dar uma paulada nessa sua cabeça e te jogar na cadeia pelo que fez, mas não vou fazer isso. Agora me conte, por que você fugiu?

As últimas palavras foram proferidas com mais firmeza do que deveria. Ela não recuou, mas seu olhar vacilou um instante.

–Eu fui... Completar uma Quest — ela explicou na defensiva — Eu não estava ajudando, então pensei...

–Anna — ele a interrompeu, fechando os olhos e tentando manter a impaciência fora da voz — Quando você aprender que só o fato de você estar ali com a gente já é uma grande ajuda, vai ser uma coisa boa pra todo mundo. Mas isso não é importante agora. Só me fala o que você fez.

O tom de voz dele era mais brando, mais tranquilo agora. Encorajada, ela respirou fundo e começou a falar.

–Eu fui pra Ilha Victoria — ela contou. Não havia sentido em hesitar e tentar justificar tudo — Eu tava indo pra Perion, e quando fui me esconder numa caverna, achei uma ruiva numa armadura de aço gigante. Uma NPC, e ela estava... Morrendo. Ela me pediu ajuda, disse que havia perdido os equipamentos, eu me ofereci pra buscar mas ela só sorriu e disse que não haveria mais jeito. Ela me contou sobre os amigos dela, um mago de fogo e veneno, um de gelo e raio, uma atiradora que tinha acabado de se casar... — ela se interrompeu. Haveria tempo mais tarde para os detalhes — Enfim, ela chorava porque tinha visto todos eles morrerem. Mas era estranho, só saía lágrimas por um olho, enfim, depois... Ela me deu uma Quest — completou, agitando os ombros um pouco — Me deu uma armadura, procurei em Victoria e consegui outra. Depois eu... — ela hesitou, como se tentasse se lembrar — Voltei pra Perion e... Aluguei um quarto, acho que fui dormir... Não, eu fui comer... Depois... — ela franziu a testa.

–Não force a memória — Rockfield recomendou — Não agora. Vamos discutir isso com calma depois. O mais importante agora é que eles estão indo pra El Nath, e sabem onde o pessoal está. E o Thugles, Nick e Tássio estão com eles também, e a Team Italo está prestes a ir até lá.

Anna arregalou os olhos, o rosto pálido de medo.

–Vão atacar? Todos eles? — ela repetiu, e o gatuno confirmou com a cabeça. Ela não notou a expressão estranha no rosto dele, e Rockfield não achou necessário contar que tinha sido ela mesma quem revelara a localização dos amigos.

Mas ele não deixaria isso passar. Ainda teria uma conversa muito séria com a garota, mas isso não seria ali, e não apenas com ele.

–O que vamos fazer agora? — ela perguntou, e o rapaz olhou para ela. Seu rosto estava franzido numa careta enquanto vários pensamentos se atropelavam em sua mente. Por fim, ele respondeu, a voz anormalmente séria.

–Você não ouviu o que eu disse ao Corpse? — respondeu, olhando fixamente para o rosto assustado que o mirava — Nós vamos até onde está o Donnie, antes deles.

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O pôr do sol de Mu Lung era realmente um espetáculo magnífico. A grande bola de fogo brilhava parcialmente escondida atrás das nuvens enquanto seu brilho começava a enfraquecer na pequena colina onde um espectador silencioso o observava.

A colina ficava de frente para um pequeno templo em Mu Lung, que não era mais que uma casa grande. O telhado da construção era dividido em várias seções curvadas para cima, como os telhados japoneses. A porta estava fechada, e ninguém podia entrar lá dentro. Os únicos presentes ali eram um homem já de idade e seu aprendiz, um garoto loiro que, finalmente, vai parar de ser mencionado apenas como "espadachim loiro"

–Uma grande honra lhe foi concedida, jovem Rakyaat — disse o mestre, os olhos sérios enquanto encarava a cabeça do menino ajoelhado aos pés dele — Usa a armadura de samurai, que protege seu coração puro. Este, jovem gafanhoto, é seu maior trunfo.

Rakyaat franziu a testa levemente. Chamar um aprendiz de "gafanhoto", apesar do que significava, era um clichê muito usado em jogos relacionados a artes marciais e orientais. Apesar de que isso não se comparava ao termo "coração puro". Dizer isso a ele, um membro do clã que ele era...

–Agora lhe entrego a katana Mizu-Ori. Você, Rakyaat, deverá usá-la com sabedoria e em favor do bem, e lembre-se, ela não é sua arma. É parte de você, uma extensão de seu corpo que luta ao seu lado, por isso, cuide bem dela, e ela cuidará de você.

Rakyaat olhou para o mestre, sem saber muito bem o que fazer. Ele lhe estendia uma espada curva embainhada, e ele a pegou entre as duas mãos. Imediatamente, a espada desapareceu, aparecendo em seu inventário.

O menino a pegou, olhando fascinado para a arma em suas mãos. A bainha em si já era muito bem trabalhada, branca com listras azuis ondulantes criando um tom suave junto com a curva que a arma fazia. O cabo grande era de madeira cuidadosamente desenhada e entalhada, e ao passar a mão por ele, pôde sentir as saliências que a faziam aderir à mão quando segurava.

–Levante-se — o mestre disse com suavidade, e Rakyaat obedeceu — Liberte Mizu-Ori da bainha. Você precisa conhecer sua arma agora que a possui.

Ele achou melhor não lembrar que o velho acabara de dizer que a katana não era exatamente uma arma.

Rakyaat desembainhou a espada lentamente, segurando a bainha com a mão esquerda enquando puxava o cabo com a direita. Ela fazia um som tranquilo e agradável ao sair da bainha, como se estivesse esperando o momento de se libertar e finalmente ser usada por um dono. A lâmina prateada refletia a satisfação dos olhos azuis cintilantes, brilhando com um fulgor incomum, ao mesmo tempo metálico e azulado.

–É feita com um tipo diferente de metal — o mestre explicou — Tiras curtas como canos pequenos são torcidos e derretidos, então a arma é martelada, aquecida e resfriada várias vezes. É afiada apenas uma única vez após ser criada, jamais perderá o fio. Use-a bem durante sua jornada, jovem Rakyaat.

–Obrigado, mestre Shukin — o garoto disse com a voz embargada pela emoção. Estava muito orgulhoso de si naquele momento(o que seus amigos não diriam quando o vissem naquela armadura?) Mas não era o orgulho arrogante de alguém que se achava melhor que os outros. Era a satisfação inocente de um menino, o orgulho ao conquistar algo depois de tantas provações.

Ele havia descoberto a Quest em Mu Lung, enquanto procurava o grupo de Donnie. Como tinham ido na frente, eles ainda não sabiam que o grupo se encontrava em El Nath, e não em Mu Lung como acreditavam. Enquanto procuravam, Rakyaat havia encontrado algo a mais.

Ou melhor, Shukin havia encontrado o jovem rapaz. Quando ele entrara num dos pequenos templos, o mestre havia pedido que ele ficasse, e assim ele fez. Depois de uma longa conversa ao redor de uma mesa com xícaras de chá, mestre Shukin finalmente lhe passara uma Quest nova.

Ela havia mudado muito o jovem Rakyaat. O garoto era bom espadachim, mas sabia que era só isso. Não se achava especial, e nem tinha nenhum outro poder além de ser um bom guerreiro. Seu coração quase saltara pra fora com o ânimo que sentira ao se dar conta de que havia descoberto uma Quest Única. Passou por vários testes, durante vários dias, e finalmente ele estava lá recebendo o item final da sua busca. Havia treinado com uma katana durante a Quest, mas era uma arma "emprestada" que Shukin lhe dava temporariamente. Agora, ele estava ganhando a própria.

O mestre o dispensou com um sorriso. Até um NPC era capaz de ver que ele estava ansioso para testar o novo equipamento. Curvando-se respeitosamente, Rakyaat se virou e saiu do templo, correndo para se encontrar com o companheiro que estava sentado na colina.

Ele ainda estava lá, sentado observando o sol, já uma fraca insinuação de luz no horizonte. Rakyaat não conhecia bem aquele rapaz. Não era alguém muito importante no clã, pois não tinha um apelido de vilão como Dark Corpse ou Vile Slayer. Não que isso fosse surpresa. O homem tinha concordado em ficar ali e escoltá-lo durante a Quest. Que membro influente da Sunrise of Astoria se ofereceria para ficar com ele? Dark Corpse, talvez, mas ele era o mais conhecido membro do clã. Certamente, tinha afazeres mais importantes do que vigiar um dos aprendizes.

–Cara, consegui, olha só, você não vai acreditar no que... — ele parou de falar e a correr, quando o companheiro pediu silêncio com a mão. Na outra, segurava um telefone celular, fato que Rakyaat achou muito estranho. Era o primeiro aparelho daquele tipo que ele via durante o jogo.

–Tudo bem. Estamos indo pra aí, por caso de vocês precisarem de ajuda — ele disse para a pessoa no telefone.

–Quem era? — Rakyaat perguntou, ansioso. O homem o olhou, pensativo.

–Era o seu mentor. Ele diz que estão lutando em El Nath, e que lá vai ter bastante ação e gente pra enfrentar. Por que não vai na frente pra experimentar seus novos equipamentos?

O rosto de Rakyaat se iluminou e ele assentiu várias vezes, muito alegre com a sugestão. O homem sorriu para ele. Então se virou e voltou a se sentar no chão, olhando para o céu.

–Você não vem? — Rakyaat perguntou, confuso. O homem demorou alguns momentos para responder.

–Ah, não, eu vou ficar aqui olhando o que sobrou do sol por um momento. Ele me ajuda a pensar e a inspirar... Você sabe como a luz natural pode ser agradável?

O homem olhou para Rakyaat, que continuava sem entender. Ele suspirou.

–Esqueça. Tenho que entregar uma Quest aqui e o NPC só aparece dez minutos depois do sol se pôr. El Nath não fica tão longe daqui, então você pode ir na frente.

–Ah... Certo. Se cuida, então.

Ele viu um pouco desanimado que o homem de casaco azul continuava a fitar o céu distraído, como que perdido em sua beleza. Rakyaat tinha que admitir que isso não o tornava estranho: o céu de Mu Lung era lindo. Mas não tão lindo quanto a katana que ele acabara de ganhar.

Caminhando depressa, quase correndo, ele pensou na luta que estava prestes a ter. Iria enfrentar muitos inimigos, pelo que o companheiro havia dito. Não estava totalmente confiante que iria ganhar, é claro, mas daria o melhor de si.

Apesar do que o rapaz de casaco azul dissera, Rakyaat sabia o motivo pelo qual o companheiro sugerira que ele fosse na frente . Era quase óbvio que queria fugir da luta, o garoto pensava. Tinham ficado juntos por quase uma semana, e nesse tempo, nunca o tinha visto lutar. Apostava que ele tinha alguma alguma garra e shurikens escondidas por baixo do casaco, e que não era muito forte. Isso explicaria o motivo pelo qual ele estava ali, e não indo lutar junto com Dark Corpse.

"Melhor que sobra mais gente pra mim", ele pensou dando de ombros, alcançando as fronteiras do jardim Mu Lung com as geleiras de El Nath.