Manuela

1 Capítulo único


Notas iniciais
Boa leitura!

Manuela já tem vinte e um anos. Vive o inicio da fase adulta, e está quase terminando o curso de Medicina. É uma boa menina, aparenta ser feliz.

Mas o que ninguém sabe é que os dias de Manuela são perturbadores de tão iguais que são.

Diariamente ela anda no campus, os fones sempre nos ouvidos, e as musicas lentas e alternativas no volume máximo. Ela evita os olhares dos outros universitários, sempre se senta no fundo do RU, sozinha, sempre põe os livros na cadeira do lado. Ninguém se aproxima.

Manuela é invisível.

Não pensem que Manuela é solitária ou depressiva. Ela ainda tem alguns amigos, e às vezes também sai à noite. Conversa com algumas das poucas amigas que tem, todas do ensino médio, sempre que se reúnem elas contam sobre os namorados, ou namoradas, falam sobre o amor, as festas loucas que frequentam, as aventuras, e as brigas corriqueiras de casal, e depois sobre as reconciliações sempre intensas e calorosas. Todas falam menos a Manuela. Ela não fala, pois não tem namorado, não vai a festas, não costuma brigar nem mesmo com a família e por isso também não precisa se reconciliar com ninguém, sua vida não tem nada de interessante. Manuela as ouve e percebe que não tem muito a acrescentar num bate papo animado entre velhos amigas, e pensa que é muito difícil não se sentir triste com essa conclusão.

Depois volta pra casa, com a cabeça cheia de perturbações, e uma sensação ruim que cresce dentro do peito, regula a ducha na temperatura fria, e toma um banho demorado. Manuela chora, chora e pensa nas amigas, e na vida maravilhosa e cheia de emoção que elas parecem ter, pensa em todas as coisas que ainda não viveu e sente inveja delas. Sente inveja porque é a única que não tem aquele brilho nos olhos, é a única que continua sozinha, e parece à única não ser feliz. Mas, então, Manuela se corrige, se sente mal, porque sentir inveja não é bom, não é bonito. E a mãe dela lhe disse que meninas devem sempre ser gentis.

Desliga o chuveiro e se enrola na toalha cara que a mãe comprou. Com receio sorri para o espelho, doce e melancólica. Olha o reflexo da menina de olhos escuros e pele quente, os cabelos encharcados que ela não deveria ter deixado molhar, olha a boca de lábios secos e sedentos por algo que ainda não provou, o rosto de expressões delicadas é tão confuso, a expressão amedrontada é tão sem vida. Manuela não sabe, mas ainda é uma garotinha, e talvez apenas ainda não se sinta preparada para a vida.

O melhor é ir dormir, querida.

Então, a menininha se deita. A colcha macia cobre a pele nua, os bracinhos envolvem os travesseiros com o cheirinho doce do amaciante, ali é confortável. Mas ai, ela fecha os olhos, fecha os olhos e se lembra da vó perguntando quando vai arrumar um namorado, aperta os travesseiros e se lembra das amigas falando que o cabelo dela é muito curto, e fica mais bonito grande, vira na cama e se lembra da mãe dizendo que mulher deve se dar ao respeito, abre os olhos e se lembra do pai falando que moças devem terminar os estudos para depois pensar em outras coisas, se lembra da irmã, das amigas, da própria vida, de todos os nãos:

Manuela não se encaixa,

Manuela não sabe aproveitar a vida,

Manuela deve estudar primeiro,

Manuela não pode usar sainha curta,

Manuela tem que ir a igreja,

Manuela não pode, não deve, não escolhe...

E as vozes ressoam desesperadamente na quebrada mente da menininha.

Manuela chora, chora porque sabe que amanhã vai ser igual, e ela vai continuar se lamentando, e se mal dizendo por sentir inveja das amigas e querer o que não pode ter.

Manuela é uma conformista, vítima de si mesma, dos próprios medos.

Mas, eu só te peço Manuela, por favor, por favor, não se conforme, minha querida.

E por favor, por favor, liberte-se.

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