Manuel e Ruth
1 Capítulo Único
Notas iniciais
O que venho a lhes contar não é a mais linda história de amor entre dois adolescentes separados que tentam viver um grande amor, nem uma bela e triste história de dois adolescentes doentes, que tentam aproveitar cada segundo que lhe resta, muito menos aquela história do garoto que tem sua vida pacata mudada por aquela “garota furacão”, a história que eu venho contar não é a mais agradável de todas, na verdade eu nem queria ter vivenciado ela, mas sou o que podemos chamar de protagonista. Antes de qualquer outra coisa entenda que esta história é contada por meu ponto de vista, se quer saber por outra pessoa fique à vontade, mas garanto que tudo é verdade, sem exageros e sem escrúpulos.
A história não começa com “Era uma vez...” tão pouco irá terminar com “Felizes para sempre”, mas podemos dizer que ela começou de uma forma bem interessante e embaraçosa, para mim.
Tudo começou na volta as aulas do nosso segundo ano do ensino médio.
Morávamos no Recôncavo Baiano, interior do Bahia, mas especificamente na pequena cidade de Teolândia. Todos os adolescentes estudavam na única escola pública da cidade e era impossível não vê-los. No caso eu poderia arrancar meus olhos, mas preferia aguentar aquela visão.
Naquele tempo eu poderia descrever Manuel como: Moço ajeitado e intelectual. Usava óculos e passava gel no cabelo, deixando ele arrepiado, dando uma mistura de bad boy do sertão com nerd, o que lhe custou várias piadas, mas no fundo ele era um tonto.
Já Ruth era mais fácil descreve-la, já que ela era conhecida por aquelas características: Pequena, com a voz engraçada e muito brava.
Eu havia estudado com Manuel quando éramos criança, no ensino fundamental, mas a sorte fez a gente ir estudar em salas diferentes, mas naquele ano eu não estava com sorte e com isso eu acabei na mesma sala dele e da Ruth. Era uma bomba prestes a explodir.
Nunca tive uma conversa direta com a garota, mas só de lembrar da sua voz, eu já dava risada. Enfim, os dois já eram irritantes o bastante sozinhos, mas é claro que isso não bastava, precisava juntar o chato a detestável.
Não sei o dia, hora e o segundo quando Manuel e Ruth se conheceram, mas foi no ano passado, quando os dois ficaram na mesma sala e passaram a conviver juntos.
Como em muitos casos eles começaram brigando. Os dois não se deram de cara. Eram inimigos mortais, Ruth odiava a falta de personalidade de Manuel, ou o excesso da mesma, as vezes sentando na frente e prestando atenção na aula, outros dias ficando só no fundão bagunçando. Já Manuel não suportava a voz da Ruth e não conseguia ficar perto da garota. Mas numa coisa eles combinavam de cara, os dois tinham o mesmo tamanho.
Enquanto isso eu vivia os últimos meses de paz da minha vida na sala ao lado.
Mesmo estudando na sala ao lado, eu via poucas vezes os dois, ou até via, mas não prestava atenção. Mas fui acompanhando o avanço do seu romance de longe. Não que eu quisesse saber sobre a vida dos dois, mas quando os dois começaram a namorar sério, não havia ninguém no colégio que não comentava sobre o assunto.
Era alunos, professores, merendeiras. Todos comentavam, não havia outro assunto.
- Sabe quem Manuel ta pegando?
- Quem não sabe.
- E parece que estão namorando serio.
- Eu sempre falei que aquela implicância toda era outra coisa.
Todos sabiam que os dois se odiavam e de repente, PÁ, lá estava, os dois de mãos dadas, beijinho pra cá, beijinho pra lá.
- Bom dia, Mô! – Falava Manuel
- Bom dia, Mô! – E Ruth respondia com sua estridente voz.
- Tava com saudades Mô.
- Eu também Mô!
Eram assim todas as manhãs, quando os dois chegavam no colégio.
- Tchau Mô!
- Tchau Mô!
- Já to com saudades, Mô!
- Eu também, Mô!
E era assim quando eles se despediam no fim da aula.
Os dois seguiam caminhos diferentes, mas meu caminho era o mesmo de Manuel, por isso tinha que vê-lo suspirar quando recebia um minuto depois uma mensagem de Ruth ou ter que escutar aquelas músicas de apaixonados, que ele insistia em não ouvir no fone.
Eu poderia aguentar isso por mais alguns meses, mas minha experiência com o casal chegou ao extremo na festa de São João daquele ano e eu tive a pior das minhas experiências naquele lugar, que todos chamam de escola. A festa havia começado as 18 horas e todos estavam com roupas quadriculadas e chapéus de palha. Infelizmente, para entrar era preciso esses trajes e por isso eu também estava passando pela aquela vergonha.
Manuel e Ruth haviam brigado e já estavam uma semana sem se falar. O motivo? Poucos sabiam o verdadeiro, mas tempos depois saiu o boato que fora por que Ruth não tinha gostado de uma música que Manuel havia achado perfeita e que combinava com o casal de pombinhos. Já outros diziam que Manuel havia beijado outra garota e alguns até diziam que Ruth havia beijado uma garota.
A festa começou bem, tinha um monte de comida e até a música estava legal e olha que sou muito exigente com música. Mas tudo começou a desandar com a chegada de Ruth. Manuel já estava na festa desde cedo e mesmo sendo proibido bebidas alcoólicas, sempre acabava que uma ou outra garrafa de whisky entrava na festa e ele parecia estar bêbado.
Enquanto Manuel parecia estar afogando as magoas na cachaça com o fim do namoro, Ruth estava ótima. Ela chegou bombando.
Com uma mini saia xadrez e uma blusa mostrando a barriga e os ombros, até quem não colocasse reparo nela podia ver outras coisas também, ela chegou chegando. Ela chamou a atenção de todos, até o professor de educação física ficou de boca aberta. Todos pararam e ficaram observando ela entrar na quadra, onde estava sendo realizado a festa, mas Manuel nem havia visto ela, até ela começar a descer na boquinha da garrafa.
Quando ela mandou botar um funk e começou a descer até o chão, foi a gota d’água.
Eu já estava indo embora, quando ocorreu.
Manuel agarrou o braço de Ruth e saiu arrastando a garota pelo corredor. Ela gritava e esperneava, mas querendo ou não, ele era mais forte. Todos ficaram parados, ninguém tentou pará-lo ou tentou ajuda-la. Todos conheciam os dois e o histórico do casal. Como se nada tivesse acontecido, todos voltaram a dançar.
Menos eu.
O tempo passou e eles não voltavam e ninguém parecia se importar. Não sei o que me deu, mas fui atrás do dois. Procurei por todo o primeiro andar, mas eles não estavam em lugar nenhum.
Subi pro segundo andar, mas nas duas primeiras salas não encontrei ninguém, porém quando cheguei na terceira, ela estava entreaberta e era possível escutar gemidos e mesas sendo empurradas, misturado com a música da festa, que tocava lá fora.
AAAIIIRRRRRRRR AAAIIIRRRRRRRR
Como fui burro, várias coisas passaram pela minha cabeça, desde que ele estava batendo nela ou destruindo a sala, menos o que realmente estava acontecendo lá dentro. Mesmo não gostando daquela garota, não queria ver ninguém ferido. Entrei na sala e congelei.
Ruth estava apoiada na mesa do professor e Manuel atrás dela. Não dava para ver direito o que estava acontecendo, pois estava escuro e o garoto estava na frente, mas percebi que sua calça estava abaixada e os dois iam e vinham, em sincronia.
Percebi que os gemidos vinham de Manuel e foi quando percebi o que estava acontecendo.
Senti meu rosto esquentar e saí correndo antes que alguém me visse.
Sei que depois da festa os dois voltaram e ficaram entre tapas e beijos pelo resto do ano. Mas nunca vi os dois da mesma forma, toda vez que olhava para eles, eu havia apenas uma cena e quando escutava a voz de Manuel só um som me vinha a mente.
AAAIIIRRRRRRRR
***
Eu nunca mais tive um contato íntimo com os dois e agradecia a isso, mas chegou o primeiro dia de aula do 2º ano e eu me deparei com os dois na mesma sala que a minha.
Eu estava ansioso com as voltas ás aulas, não que eu quisesse rever meus amigos, matar a saudade e lembrar de momentos engraçados do ano passado e rir dos calouros. Eu nem sabia ao certo, estava apenas ansioso.
Como era o primeiro dia, todos demoraram a chegar e por isso levei um livro para ir lendo enquanto esperava meus velhos e novos colegas. Na porta da sala havia a lista dos alunos daquela sala e era por isso que eu sabia que estudaria lá aquele ano, mas não tive coragem de procurar outro nome além do meu. Eu tinha curiosidade, mas também medo, não sabia o que esperar daquele ano.
Aos poucos os alunos foram chegando. Alguns animados, já outros com olheiras ainda.
Como de costume coloquei minhas coisas na primeira fila e sentei na mesa do professor e a cada aluno que entrava na sala eu olhava ansioso, esperando nem eu sei quem. Mas quando Manuel e Ruth entraram de mãos dadas na sala, não soube o que fazer, tentei me concentrar no livro e continuar a ler, mas tive que olhar novamente para os dois e percebi que eles se dirigiam a minha pessoa.
- Bom dia. – Falou ela, com aquela voz engraçada e irritante ao mesmo tempo.
- Eai! – Falei, tentando mostrar que não estava disposto a nenhum dialogo. Voltei a olhar para o livro, para mostrar que estava lendo, mas eles pouco se importaram.
- Como vai Pedro? – Perguntou Manuel.
- Bem – Respondi sem entusiasmo.
Então de repente Ruth puxa os livros das minhas mãos e quando olhos para os dois juntinhos, com o braço de Manuel envolta da cintura da namorada só o que eu vi foram os dois apoiados na mesa, gemendo.
- Estamos tentando conversar com você. – Falou Ruth fechando o livro sem marcar a página, com certeza de propósito. Minha vontade foi de agarrar aqueles cabelos alisados de pranchinha. Respirei fundo e olhei para aquela cara de vaca.
- E eu tentando ler. – Respondo rudemente e ela me fuzila com seu olhar, enquanto Manuel nem parece perceber as faíscas voando.
Ela me devolve o livro e começa a conversar com Manuel, me ignorando, mas continuou ali na minha frente, me provocando. Logo eles começam a trocar selinhos e ficam olhando um pro outro, não aguento mais tanto amor e saio de perto. Acho que os dois nem repararam, pois continuaram a se beijar e quando olhei pela última vez para a sala, a lembrança do ano passado havia voltado novamente a minha cabeça.
AAAIIIIRRRRRRRRR
O dia passou ligeiramente depois daquele encontro. Revi meus amigos e os professores, colocamos as novidades e dia e já ficamos sabendo um pouco como iria funcionar o sistema da provas e notas naquele ano.
A primeira semana passou como um foguete e tentei evitar ao máximo o casal, me focando nos estudos, já que eu queria fazer o ENEM logo naquele ano. O namoro dos dois não era mais novidade, mas ainda era assunto entre algumas pessoas, que disseram que os dois passaram toda as férias juntos. Se isso já não bastasse eles tinham que ficar juntos perto de mim.
Foi na segunda semana de aula que eu tive a pior surpresa que eu poderia esperar, mesmo sabendo que não estava com sorte aquele ano, não esperava que eu estivesse com tanto azar.
Eu estava sentado ao lado dos pombinhos e a nossa professora de Português estava explicando o novo assunto, Literatura Contemporânea. Pela primeira vez, Manuel e Ruth deixaram de cochichar para prestar atenção na aula, já que falava sobre o amor.
- Então, para vocês pegarem o assunto de vez, faremos um trabalho, quero que vocês escrevam uma história de amor.
- Olha que incrível, Mô! – Gritou histérica, Ruth.
- Faremos uma história de amor proibida, como Romeu e Julieta. – Fala Manuel.
- Não, faremos uma história ao estilo Nicolas Sparks. – Rebate ela.
- Sei que vocês estão animados. – Continua a Professora. – Mas será em trio. Então vocês não devem decidir sozinho.
- Coitado desse cara. – Cochicho, só para mim, mas parece que a Professora escutou.
- Falou alguma coisa Thiago? – Questiona ela.
- Nada não. – Digo, já temendo o que estava por vir.
- Já que é você está bem engraçadinho esse ano, que tal fazer o trabalho com Manuel e Ruth?
Manuel olhou para mim todo feliz, enquanto Ruth parecia não crer no que havia ouvido, assim como eu.
- Eu tenho outra opção? – Pergunto a professora.
- Não. – Responde ela direta e seca.
Era meu fim.
***
O combinado era dos dois chegaram lá em casa antes das 14 horas, mas meu celular já marcava 15:20 e meu estrese já era de mais de oito mil. Deviam estar trocando frases melosas enquanto se beijavam e depois, depois...Eu nem queria pensar.
AAAIIIRRRRRRRR
Voltei a me sentar e abri o Word, a tela em branco surgiu novamente em minha frente, mas nada saia, o que eu iria escrever? Eu já havia pegado meus livros de romance, que eram poucos na verdade, lido suas sinopses e alguns trechos, mas nada vinha a minha cabeça. Eu não queria escrever sobre uma garota com câncer que conhecia o garoto perfeito, tão pouco uma universitária virgem que acabava tendo um caso com o jovem chefe. Nem Shakespeare, nem Nicolas Sparks, nem qualquer outro romance clichê.
A única coisa que vinha a minha cabeça era Manuel e Ruth. Eles estavam atrasados, ocupados com outra coisa.
AAAIIIRRRRRRRR
- Manuel e Ruth.
- Manuel e Ruth.
- Manuel e Ruth.
Repeti os nomes até eles soarem estranhos e sem sentido queria tira-lo da minha cabeça, queria apagar da memória a cena do São João, queria não ter que estudar na mesma sala deles. Queria esquecer que eles existiam, mas eu não conseguia e eu me odiava por aquilo, me odiava por não simplesmente ignora-los. Eu me odiava porquê... porque... eu nem tinha coragem de pensar nisso.
No dia seguinte, quando encontrei com o casal, nem quis saber qual fora a desculpa, mas por incrível que pareça eles haviam escrito algo. Pego as folhas e finjo que leio, mas não estava afim de ler algo clichê, sem graça, melodramático e repetitivo, que começava com Era uma vez e terminava com Felizes Para Sempre.
- Não gostei. – Simplesmente digo.
- Faz melhor então! – Havia sido Ruth que tinha escrito boa parte daquilo, que eles insistiam em chamar de conto contemporâneo baseado num amor real. Bem, ela não aceitou muito bem minhas críticas construtivas.
- Bem, eu tentei escrever algo original, mas nada me veio a cabeça. – A não ser algo (AAAIIIRRRRR). – Eu até tenho algumas fanfics que eu escrevi sobre alguns livros lá de casa, mas isso seria ilegal e eu quero algo bom, não isso! – Digo a última frase balançando as folhas com a história que Ruth escreveu.
Ela fecha a cara e pega as folhas da minha mão, saindo de perto. Manuel, que parecia até então estar no mundo da lua, olhou para mim e depois para a namorada. Me deu um aceno de mão e correu para segui-la.
Eu já estava de saco cheio e com a cabeça doendo, porém a minha vida tinha uma regra, “Se algo já está ruim, vai piorar”. Durante a aula, a Professora nos deu outra maravilhosa surpresa, não bastava a gente ter que escrever uma história de amor, teríamos que criar ainda um clipe e exibi-lo para todo o colégio. O clipe não precisava ter atores e tal, só algumas fotos relacionadas e alguma música que combinava com a história que seria exibido enquanto liamos o romance para todo o colégio no sarau que iria acontecer naquele trimestre.
- Já sei a música perfeita! – Gritou Ruth com sua voz de esquilo. No mesmo momento lembrei de uma história sobre os dois do ano passado.
- Nós nem criamos a história ainda, como você já tem uma música que se encaixa perfeitamente com ela?
- Porque essa música é perfeita em qualquer situação.
Giro os olhos com desprezo e Ruth fecha a cara para mim. Manuel apenas parece viajar na maionese. Eu não conseguia entender como alguém poderia ser assim. Antes de começar a namorar Ruth, Manuel ainda tinha alguma personalidade e senso de escolha, mas depois que começou a namorar aquela esquila irritante ele havia virado um fantoche sem personalidade.
Depois de muita discussão, combinamos de se encontrar na casa de Manuel naquela tarde, antes de ir para casa dele fiz algumas anotações e tive algumas ideias.
Para minha surpresa, ao entrar no quarto de Manuel, eu não encontro os dois agarrados, mas conversando como se fosse duas pessoas normais. O quarto dele estava um pouco bagunçado e a cama desarrumada, sentei nela e começamos a discutir sobre o trabalho.
Pela primeira vez na televisão brasileira, tivemos uma conversa decente, socialmente normal e educada. Mas tudo isso durou pouco. Quando novamente os dois começaram a discutir.
- Você não percebe como isso é brega? – Grita Ruth após Manuel insistir numa ideia bem ruim.
- Não precisa gritar. – Responde no mesmo tom, Manuel.
- Eu não to gritando, você que está! – Ela retruca e eu fico ali observando aquele bate-boca, até Ruth se levanta e sai do quarto. Sei que quando uma pessoa fica junto de um casal que está namorando, dizem que ele está segurando vela, mas não sei como se chama quando o casal briga.
- Espera Ruth, volta aqui por favor. – E o cachorrinho vai atrás da dona e eu fico ali, sozinho no quarto.
Me aproximo do PC e começo a ler tudo que já tínhamos escrito. Ruth tinha razão, a história de Manuel era muito brega, mas a que ela mesmo tinha escrito era clichê e sem pé, nem cabeça. Se fosse continuar assim, eu já sabia até nossa nota.
Eis que surge uma ideia na minha cabeça, brilhante, mas um pouco invasiva e doida.
Fecho o Word e abro a janela da internet, o Facebook de Manuel estava aberto, era a oportunidade perfeita. Vou nas conversas e vejo a com Ruth. Todas as conversas, desde tempos atrás até hoje, todas estavam lá, parecia que Manuel não tinha o costume de apaga-las. Passo os olhos e não vejo nada de interessante, mas quando olho para outras conversas, acho algo bem mais interessante. Manuel havia tido uma conversa bem “picante” com uma menina do colégio. Ali estava minha história.
Salvo tudo, a conversa com essa menina e com Ruth também. Mando pro meu e-mail e depois abro as imagens do PC e encontro várias dos dois juntos, aproveito e mando tudo também. Apago todas as pistas que me condenam e quando Manuel volta para o quarto, eu estou sentado em sua cama mexendo no meu celular, entediado.
Eu tinha a melhor história que aquele colégio teria em anos.
***
Era domingo e no dia seguinte seria o dia em que apresentaríamos nosso romance. Como era um conto eu fiz algumas alterações e exagerei em vários pontos, tinha ficado incrível. Era até surpreendente saber que Manuel havia traído Ruth, ele que era todo sonso, mas é como dizem os sonsos são os piores. Mas com uma namorada como Ruth, qualquer um iria trai-la.
Eu havia trabalhado duro e sozinho nesse trabalho, tinha feito o romance e o clipe já estava pronto também. Mas eu não deixaria Ruth e Manuel ganharem nota de graça, por isso eles ficariam responsáveis por apresentar o romance, para o colégio todo.
Tudo estava perfeitamente planejado.
A apresentação ocorreria em um sarau organizado pelos professores de língua portuguesa e todas as salas iriam estar assistindo, os alunos só iriam apresentar um trecho do romance, com o clipe acompanhando, a história na integra seria impressa e deixada na biblioteca para quem quisesse ver.
Era quase meia-noite e só agora eu estava enviando o arquivo com o romance para o casal-mais-chato-da-história, como eu sabia que eles já estavam dormindo, eles só leriam pela manhã, isso se lessem. Então quando os dois fossem se apresentar, eles nem imaginariam que o romance era inspirado neles, mas com certeza quem estava ouvindo iria ligar uma ponta a outra e iria chegar a uma mesma conclusão, ainda mais com o clipe mostrando fotos de casais uma hora namorando outras brigando, ao ritmo da música “A Lua me traiu”.
Desliguei o computador e fui dormir me sentindo um pouco diabólico.
Bem cedo já estava no colégio, como eu sabia que era preciso ajudar a organizar tudo, mas para minha grande surpresa, me deparo com alguém que eu nunca esperava encontrar lá.
- Fatima Vieira!? – Gritei assim que pisei no auditório do colégio e me deparo com a escritora conversando com minha professora.
- Bom dia Thiago. – Cumprimenta a Professora e me apresenta a escritora de fama nacional. – Sabia que você iria adorar conhece-la.
- Oi, meu nome é Fatima. – Fala a moça, carismática. Ela não tinha mais de 30 anos, cabelos longos e negros e lindos olhos verdes. Mas bonita ainda ao vivo.
- Eu sei. – falo feito bobo – Quer dizer, é uma honra conhece-la, meu nome é Thiago.
- É um prazer finalmente conhece-lo. – Ela gargalha e continua: Sua Professora me chamou aqui, somos amigas e ela me convidou para escutar os romances, quem sabe não saia um escritor desse colégio, né?.
- Ela vai ser tipo uma “juíza”, irá escolher o melhor romance. – Falou a Professora e eu já estava dando pulos de alegria, eu tinha que ganhar. – E eu falei muito bem de você, viu Thiago? Não me decepcione.
Aquilo parecia até um sonho, eu estava conhecendo uma das minhas autoras preferidas além de ter a chance de poder publicar meu romance. Eu nunca teria outra chance como aquela.
É quando eu percebo que meu mundo desmoronou. O romance. Manuel e Ruth. Eu havia estragado tudo.
Eu poderia até ganhar, o romance não havia ficado ruim, na verdade havia ficado muito bom, mas era só uma brincadeira, que devia ficar apenas no colégio, eu não poderia contar a intimidade dos dois pro Brasil todo, quem sabe pro mundo inteiro.
Eu tinha que resolver aquilo.
Manuel e Ruth.
Manuel e Ruth.
Manuel e Ruth.
Manuel e Ruth.
Eu estava na frente da tela em branco a mais de meia hora e nada me vinha a cabeça, apenas Manuel e Ruth, Ruth e Manuel. Eu devia estar ficando louco. Eu havia voltado correndo para casa para tentar rescrever o conto, assim eu ainda poderia ganhar, mas sem expor a intimidade dos dois.
Mas eu havia esquecido de outra coisa, de uma coisa que não saia da minha cabeça, mas eu havia esquecido. Eles tinham a cópia do romance e iam se apresentar e eu não tinha avisado eles. Corri e peguei o celular, liguei para os dois, entretanto caia apenas na caixa postal.
Não tinha mais o que eu fazer, não tinha mais tempo de fazer outro conto e mesmo que fizesse Manuel e Ruth já tinham uma cópia. Decido voltar para o colégio com uma questão atormentando minha cabeça: Eu devia impedir Manuel e Ruth de apresentar e assim perder minha chance de se tornar um autor nacional ou deixá-los apresentar e expor sua intimidade e ganhar, porque eu com certeza ganharia, uma chance única na vida?
***
Cheguei suado e cansado ao colégio. As apresentações já haviam começado e para piorar tudo, parecia que Manuel e Ruth eram os próximos, pois estavam já em cima do palco, esperando a apresentação que ocorria acabar.
O auditório estava cheio e era difícil andar, vi que Fatima estava lá em cima também e a apresentação havia acabado. Era a vez dos dois.
O Diretor do colégio vai até o microfone e fala: Agora chamo ao palco Manuel e Ruth. – Outra pausa e mais palmas. – Eles irão apresentar o romance escrito pelos dois e seu colega Thiago. Espero que gostem!
Ele deixa o microfone e vai até o fundo do palco, onde espera ali. Manuel e Ruth se aproximam do microfone e ficam de frente um para o outro, de mãos dadas. Eu queria sumir.
Quando o clipe começa, os dois começam a falar.
- Quando te conheci. – Inicia ela. — nunca esperei te amar, você não era nenhum Príncipe, tinha mais cara de sapo. – Ao terminar a frase, todos logo dão risada. – Vivíamos brigando, escondendo o verdadeiro sentimento que brotava em nossos corações.
- Quando te conheci. – A voz de Manuel estava um pouco mais tremula, mas mesmo assim ele prosseguiu confiante. – Achava você uma megera, com sua voz chata. Não esperava, de tantas brigas o amor brotar.
- Eu achei que te conhecer foi a melhor coisa que aconteceu na minha vida. – Falam os dois em uníssono – Mas foi tudo mentira, as brigas, os beijos, você me traiu.
Todos olham boquiabertos, eles já haviam percebido a verdadeira história, ainda mais com o clipe.
- Eu esperava tudo de você, mais brigas, mais confusões, tudo menos traições. – Prosseguiu Ruth.
- Você foi como um vendável, uma catástrofe no meu coração. Entrou sem permissão, na minha vida sem razão, me ensinou muitas coisas, me desculpa por não te amar mais. – Manuel parecia mais relaxado e trocava olhares com Ruth, mas ela começava a perceber algo. Ela olhou para o clipe e viu as fotos e a música.
Olhei para Fátima, mas ela não expressava se estava gostando ou não.
- Essa é a história de um casal jovem. – Continuou Manuel. – Que conheceu o amor, livre e sem pudor.
- Mas esta história não acabou com Felizes para sempre. – Os dois falaram juntos, mas Ruth já tinha certeza que algo estava errado e viu várias pessoas rindo e ela sabia que era dela. – Ela apenas começou.
Assim que termina a última frase, antes mesmo das palmas ou de qualquer coisa Ruth dá um tapa em Manuel e sai correndo. Um silencio mortal preenche o ambiente e Manuel fica lá em cima sem entender nada.
***
Corri para alguma sala e lá fiquei. Eu sempre estragava tudo. Sempre foi assim, desde pequeno, era eu que quebrava o prato que minha avó guardava desde seu casamento, era eu que que esquecia a torneira aberta e alagava a cozinha inteira. Era sempre eu.
Lagrimas brotaram do meu rosto, mas minha solidão logo foi interrompida. Ruth vinha em minha direção, ela também havia chorado.
- Você estragou tudo! Seu idiota. – Ela me dá um tapa, mas nem tento me defender. – O que você pretendia com aquilo? Acabar com nosso namoro?
- Eu só queria dar risadas. – Grito, em minha defesa, na verdade eu nem sabia porque eu tinha tanta implicância com os dois.
- Risadas? Você conseguiu então. Mas se você acha que iria conseguir separar eu e Manuel está enganado, eu posso até ter acreditado no começo, mas sei que ele nunca iria me trair.
Eu poderia ter ficado quieto, eu já havia feito muita coisa errada naquele dia, mas a raiva era maior.
- Nunca? Então olhe no Facebook dele então, ele estava te traindo na sua cara e você, que se acha a gostozona, nem percebia. — Novamente lagrimas surgem no seu rosto, mas nada ela me responde.
- Mas ele disse que me amava. – É a única coisa que ela fala.
- Homens mentem, é melhor você aprender isso antes que se machuque mais. – Digo tentando ajudar, mas nunca fui bom com palavras.
- E você estava tentando me ajudar? Me expondo para todo mundo? Não sei se você está vendo, mas você não me ajudou em nada.
- Eu sei. Eu nunca sirvo para nada.
Um silencio incomodo surge entre nós e antes que ele começasse a falar novamente saio correndo da sala. Entro no banheiro e mais lagrimas descem pelo meu rosto.
Eu nunca havia namorado com ninguém, nunca tinha provado do amor e era por isso que eu não conseguia entender o que eu tinha feito. Eu sempre fora o cara solitário e frio, o que dá risadas dos outros casais e implica com isso.
Esse era o motivo de eu não conseguir tirar Manuel e Ruth da minha cabeça, eu só queria ser igual aos dois, ter alguém para chamar de meu e como eu não tinha isso eu havia tirado de quem tinha. Eu era um monstro. Do pior tipo, do tipo que tem inveja dos outros e fazem de tudo para tirar isso de quem ter. E eu havia conseguido, finalmente eu havia conseguido.
Não sei quanto tempo passou, mas fiquei no banheiro até que o sarau passasse, ninguém me procurou, mas àquela hora a professora já devia saber de tudo e eu percebi que eu estava mais preocupado com minha nota do que com Manuel e Ruth.
Saio do banheiro e vou ao auditório, poucas pessoas permanecem lá, não encontro Ruth nem Manuel, mas minha professora ainda estava lá, assim como Fatima.
Assim que me viu a professora me chamou, não sei como consegui andar, mas quando vi estava cara a cara com as duas mulheres.
- Estou decepcionado com você Thiago. – Diz ela e não consigo continuar olhando para ela e abaixo o rosto. – Não esperava algo assim de você. Tive que chamar os pais de Manuel para leva-lo embora, ele não estava nada bem e Ruth, bem, acho que vocês já conversaram.
Não sabia como ela já sabia de tudo aquilo, mas pouco me importava, com certeza eu seria suspenso e meus pais iriam vir no colégio.
- Mas mesmo assim, não posso negar que seu romance ficou ótimo. – Diz ela levantando várias folhas, que reconheci como a cópia que tinha mandado para Manuel e Ruth. – Se ignorarmos tudo que aconteceu aqui hoje e que você humilhou os dois em público.
- Desculpa.
- Você não deve desculpas a mim, mas para eles dois. Mas não era isso que eu queria falar, Fatima quer conversar com você também.
- Você gostou também? – Pergunto ansioso, quase esquecendo o resto do mundo.
- Sim, eu li e adorei. Maria me explicou tudo que aconteceu, mesmo assim achei sua escrita magnifica e a história, apesar de tudo, é boa. Se você aceitar, podemos transformar isso em um conto que será publicado com vários outros em um livro.
- Isso é incrível! – Eu não poderia ter mais sorte, eu poderia ser um autor de renome nacional e até internacional. Mas eu me lembro de algo que me atormenta a mais de um ano. Manuel e Ruth. Eu não deveria aceitar, não depois de tudo. Mas o pior já não estava feito? Porque eu não aceitaria?
Olho para minha professora, eu sei o que ela quer que eu diga, ela quer que eu recuse, mas eu não consigo dizer não. Eu já era um monstro, eu já tinha um coração de pedra, eu estava destinado a morrer sozinho. Porque não morrer sozinho, mas rico e famoso?
Eu digo sim a Fátima, mas sei que foi um não aos últimos amigos que eu tive de verdade em todos aqueles anos.
Fale com o autor