Manual de sobrevivência do Apto. 408
7 06 - Aquele em que todo mundo odeia Suigetsu
Notas iniciais
“Uma escolha anula uma série de outras possibilidades”
Nem todos os dias foram alegres, nem em todos os dias você, caro leitor, enquanto lê este manual, vai conseguir rir de mim ou das desgraças que me atingiram. De todos os capítulos já escritos, devo avisá-lo, leitor, que este não é um dos mais alegres. Engraçado pensar nos dissabores de um dia que desejei muito que terminasse enquanto lhe escrevo essas memórias. Engraçado mais ainda é pensar que, quando meu dia finalmente terminou, desejei que não tivesse terminado.
— Desculpa. — O singelo pedido, dirigido a um senhor ao meu lado direito, surgiu – de repente – de uma moça que parecia empenhada a não esbarrar em mais ninguém com sua bolsa enorme.
Ao olhar aquela simples cena, deparei-me logo pensando em como é interessante observar a dinâmica dos transportes coletivos e o modo como são capazes de comportar tantas pessoas diferentes, no mesmo lugar, por um curto período de tempo. Durante alguns minutos, você tem dentro do metrô, por exemplo, a chance de compartilhar um momento da sua vida com centenas de desconhecidos. Mesmo que o contato, muitas vezes, limite-se a um olhar simbólico ou a um tímido pedido de desculpas quando se esbarra ou se pisa, sem querer, no pé de alguém; mesmo quando o contato não passa disso, é interessante observar as pessoas no trajeto de suas vidas.
De fato, o melhor do transporte público é ter a certeza de que aquelas pessoas para quem você olha e que te olham de volta não sabem verdadeiramente quem você é. Quer dizer, você pode perder algum tempo tentando desvendar quem elas são, pode se dar o luxo até mesmo de julgá-las e tentar adivinhar seus gostos, suas profissões, suas personalidades pelo modo como se vestem ou pelo modo silencioso que se comportam. Um gesto, um trejeito, um estalar de dedos podem revelar tudo ou nada, dependendo muito de quem se observa. É claro que, por diversas vezes, você também pode se enganar em seus julgamentos.
Eu não diria, por exemplo, a primeira vista, que esse senhor de terno e gravata, em pé, ao meu lado direito seria o tipo de pessoa com um livro de autoajuda. Assim como também não diria que a mulher a minha frente, com um rosto quase angelical, seria capaz de curtir várias publicações góticas no facebook pelo smartphone.
— Ouve essa música! Já ouviu essa?
Obviamente, há alguns frequentadores do transporte público que são exatamente o que aparentam. Não é preciso observá-los muito tempo para desvendar pelo menos um traço marcante de sua personalidade.
— Você precisa ouvir!
Os colegiais permanecem atemporalmente como grupo de frequentadores mais transparentes dos coletivos. O modo como andam em bando, como se comunicam, como se olham, como se divertem conversando é invejável. Arriscaria a dizer que nenhum dos adultos, vestidos formalmente ali, apreciaria tanto a descoberta de uma nova música como os garotos a minha esquerda e se apreciassem não a compartilhariam com tanta alegria. De todos os presentes no metrô, o jeito mais leve, o sorriso mais espontâneo, o olhar mais verdadeiro é com toda a certeza o deles. Enquanto quase todos os adultos tinham esse ar de cansaço, enquanto quase todos os adultos eram monocromáticos, enquanto quase todos os adultos pareciam terrivelmente infelizes, os colegiais escutavam suas músicas.
Não quero alegar com isso que eles não tinham suas preocupações, cada fase da vida tem a sua, mas não vejo problema em afirmar que, naquele momento, trocaria de lugar com qualquer um deles.
Se eu acabei de atribuir a adolescência esse ar idealizado que talvez ela não mereça?
Sim, provavelmente.
Mas o que seria da humanidade se não pudéssemos dizer, a cada instante, que as lembranças do passado são melhores que os acontecimentos do presente e bem mais reconfortantes que as incertezas do futuro?
E por falar em incertezas, leitor amigo, tenho a impressão de que – ao contrário da leveza dos nossos queridos colegiais – você, a essa altura, pergunta-se em que momento saciarei sua curiosidade sobre os acontecimentos do último capítulo. Sim, porque certamente você não se interessa pelas minhas divagações nostálgicas ou – aparentemente – sem propósito. A você, caro leitor, importa apenas que a história se desenvolva no previsível enredo e que as ações o levem para o momento que mais deseja.
Não interessa a você, nesse exato momento, como encarei naquele dia com desgosto a minha imagem refletida na divisória de vidro da porta automática do metrô, nem como desejei ter dezesseis anos novamente, nem como desejei poder dizer a algum amigo simplesmente numa ida à escola:
“Ouve essa música! Você precisa ouvir!”
Não, querido leitor, você não se importa com as minhas divagações porque, no fundo, quer apenas descobrir o que me aconteceu naquele dia e o que fui obrigado a fazer.
Próxima estação Nakano. Desembarque pelo lado esquerdo.
A porta finalmente abriu-se, anunciando que eu havia chegado ao meu destino, na zona norte da cidade, após uma hora e trinta minutos de viagem. Infelizmente, fui obrigado a partir bem no momento em que o senhor, ao meu lado direito, estava na página cento e sessenta três do seu ridículo livro de autoajuda. Fui obrigado a partir no instante em que descobriria como superar o peso de escolher uma determinada possibilidade e excluir inúmeras outras. Eu sei o que está pensando, apressado leitor, o autor daquele livro certamente não tinha a resposta para isso, mas não vamos negar que é sempre mais reconfortante quando você acredita que alguém tem a resposta.
Não seria apenas por isso que as pessoas gostam tanto de conselhos, afinal? Por que só querem que alguém, aparentemente, mais sábio ou mais esperto lhes dê uma solução para problemas com os quais elas não sabem lidar? Atravessei o quarteirão com um emaranhado de pensamentos ruins à cabeça. Meus passos possuíam um ritmo apressado, o ritmo daqueles que desejavam se livrar, de uma vez por todas, de uma obrigação odiosa.
— Hozuki Suigetsu. — Assim, tão rápido quanto cruzei as ruas; tão rápido quanto a vida de centenas de pessoas cruzou o meu caminho aquele dia; tão rápido quanto todas essas pessoas passaram por mim e desconheciam o meu nome, assim como eu desconhecia o delas; eu cheguei a uma das divisões da Osawa, empresa do ramo tecnológico para qual trabalhava, e identifiquei-me na recepção.
— Pode subir — A recepcionista informou-me com um sorriso amistoso. Certamente, não me trataria tão bem se soubesse o que eu estava prestes a fazer.
Adentrei ao escritório de seu chefe mantendo, falsamente, uma aparência de seriedade. Afinal, o que tinha para fazer ali seria rápido e, até aquele momento, acreditei que não me tomaria muito tempo. Tudo que eu precisava fazer era transmitir um curto informe e me despedir.
Com esse único objetivo em mente e envolto pelas paredes de coloração acinzentada da sala, cumprimentei, ainda que de modo esquivo, o diretor geral e sócio daquela filial, recebendo de volta um aceno mecânico em retribuição, e em seguida sentando-me a sua frente para lhe dar a notícia.
— Boa tarde, Takeshi-san, meu nome é Hozuki Suigetsu e eu venho em nome de... — Iniciei minha fala, praticamente de maneira pigarreada, tentando fazer com que sua atenção se desviasse um minuto dos documentos que assinava com tanto afinco. — Bom, serei direto — dei continuidade, observando-o agora suspender sua assinatura quando concluía o segundo “o” de seu sobrenome.
Os minutos que se seguiram após essa frase foram repletos de um constante pigarrear que parecia não deixar minha garganta. Logo eu, um homem de corte cirúrgico, sentia dificuldade de finalizar aquelas palavras.
Estaria ficando mole demais?
“As pessoas não são números, Suigetsu”.
Maldita Sakura! Não havia tempo para sentimentalismos baratos, eu não conhecia aquele homem...
— O senhor deve saber que estamos passando por um momento difícil no mercado financeiro. — Forcei-me a lembrar de todas as palavras que havia ensaiado, em minha mente, enquanto estava no metrô e, assim, aos poucos fui despejando sobre ele tudo o que tinha a dizer.
A cada frase pronunciada, tive aquela leve sensação de que estava fora de lugar. O que eu estava fazendo? Ao ver o rosto impassível com o qual o senhor Yamomoto Takeshi me encarava, perguntei a mim mesmo se ele, de fato, me ouvia e se conseguia compreender o que estava acontecendo ali. Se entendia que eu era um mero mensageiro, se compreendia que eu era apenas um mero estagiário a quem foi dada uma função desagradável. Afinal, o que poderia fazer? Eu era apenas uma pequena peça no meio de toda aquela engrenagem e esperava que o diretor geral entendesse minha situação.
Eu era apenas uma pequena peça na engrenagem.
Pequena peça.
Pequena peça?
E, naquele momento, eu disse para mim mesmo várias vezes que há momentos na vida em que você simplesmente não tem escolha. Porém, é preciso que se diga algo importante sobre aquele dia e, na verdade, espero que você, leitor, compreenda o ligeiro desvio da proposta deste manual por um momento, mas – felizmente ou infelizmente – as histórias que contamos, às vezes, tornam-se maiores do que nós. Diante disso, peço licença para deixar registrado aqui uma lição importante do que chamaremos de lição bônus para vida, incluso de maneira indireta neste manual de sobrevivência, sendo o seu primeiro ensinamento o seguinte:
Não se ausente de suas escolhas.
Nunca tente culpar as circunstâncias pelo caminho que você mesmo escolheu. As circunstâncias me levaram até aquele dia, mas eu escolhi pegar o metrô, escolhi adentrar aquele prédio, falar com a recepcionista e dizer tudo o que eu disse naquela sala. Eu escolhi aquilo quando podia ter optado por não fazer nada disso, me demitir e ir para casa.
— Você dirá a eles. — Aquelas palavras transformaram-se no início do meu desespero, uma súbita reviravolta que me colocara num lugar pior do que o portador de más notícias.
— Mas o senhor é — engasguei por um segundo de indecisão, serrilhando meus dentes pela boca — o diretor geral.
— Senhorita Emi, por favor, — ignorando, no entanto, meu lembrete o senhor Yamomoto prosseguiu, interfonando para sua secretária — peça a todos os operários que se concentrem na área central da fábrica e peça também para que os nossos convidados se encaminhem para lá.
A passividade com a qual a mensagem foi transmitida acendeu uma luz de alerta em mim. O que estava acontecendo ali? Infelizmente, para o meu total desconforto não demorou muito para que me visse obrigado a segui-lo pelos corredores da empresa afora até a área central do maquinário de produção.
De repente, ao descer a rampa que dava acesso ao que era praticamente um subsolo, a base de toda aquela filial, eu me vi diante de milhares de funcionários que traziam no rosto uma dose incômoda de expectativa.
Eu e eles.
Senti naquele instante uma linha tênue de suor delinear meu supercílio, descendo devagar por meu pescoço e perdendo-se no vão do paletó. Quando menos pude esperar um autofalante fora colocado em minha mão, quando menos pude esperar o primeiro flash atingiu meu o rosto com uma rajada de luz ameaçadora.
Jornalistas? Por que estavam ali? De onde tinham surgido? Como? Quando? Onde?
Olhei um segundo de esguelha para o senhor Yamomoto que estava afastado, quase escondido, eu diria, num canto ao meu lado esquerdo e então compreendi. Tudo aquilo, desde o início...
— Como vocês têm acompanhado, — iniciei minha fala aos tropeços de uma voz falha — são tempos difíceis para a economia mundial e tempos difíceis exigem medidas que, muitas vezes, parecem extremas, mas que são necessárias. — Ter o olhar de todos os funcionários fixado em mim foi, sem dúvida, um dos piores momentos da minha vida. — Vamos ter que fechar essa divisão — ainda, agora, posso ouvir os protestos e a indignação que foi se tornando cada vez mais alta a cada frase que saía da minha boca — mas isso não significa o fim!
— Como assim? — Uma voz surgiu altiva por entre o burburinho. — Esse é nosso fim! Acabamos de perder nossa única fonte de renda!
Para completar o cenário caótico, os flashes dos repórteres só aumentavam, dificultando minhas tentativas de estabelecer um diálogo com os funcionários. A situação já era complicada o suficiente e a presença deles ali só ajudava a acirrar mais os ânimos. Aquele, com certeza, seria o pior escândalo empresarial desde o episódio em que a Sony havia decidido fechar algumas fábricas no país. Culturalmente, atitudes como essa eram mal vistas por todo o Japão, então, por que arriscar a estabilidade de uma empresa tão reconhecida com uma atitude, visivelmente, precipitada?
Simplesmente não fazia sentido.
— Nós temos família! — completou outro. — Você não pode chegar aqui simplesmente e dizer que essa divisão vai ser fechada!
— Isso é um absurdo!
As vozes dissonantes prosseguiam mostrando o desagrado e fúria com a minha notícia e me encurralando numa posição de algoz.
— Eu sou apenas um mensageiro! — Defendi-me. — Essa decisão não partiu de mim! Eu não...
— Crápula!
Sim, e foi desse modo, foi ao primeiro insulto que vi uma multidão descompensada se insurgir contra mim e, aos poucos, tomar a rampa, que me servira de palanque, ganhando o enfoque dos jornalistas.
— Vamos nos acalmar!
Frase inapropriada e geradora de mais caos essa. Parece que quando a pronunciamos as coisas tendem a sair mais do controle. Em poucos minutos, o burburinho transformou-se em falas mais alteradas enquanto a distância que alguns funcionários mantinham de mim na rampa só diminuía. Em poucos minutos, o primeiro funcionário que levantara me agarrou pelo colarinho do terno. Quantos metros ele tinha? Corresponder ao estereótipo de operário malhado me parecia tão antiquado!
— Eu sou um mero mensageiro! — Expliquei-me novamente. — Tão funcionário quanto você, se quiser acertar contas com alguém...
Nunca consegui terminar aquela frase ou qualquer outra depois daquela primeira investida. O soco no meu rosto foi mais rápido do que um desvio que tentei executar. Senti meu maxilar trincar assim que seu punho acertou-me. Depois disso, foram flashes, flashes e mais flashes, não só dos repórteres, mas também da minha mente que, no meio daquela confusão, lembra-se vagamente de ter reagido com um ou dois socos e lembra-se também de como, lamentavelmente, meu corpo despencou da rampa e da dor que se seguiu quando minha coluna chocou-se com a beirada da mesma.
Segundo Sakura, meses depois, descobri que poderia ter ficado paraplégico. Encarei isso como um exagero absurdo de sua parte, mas considerando o vídeo que está até hoje no youtube, talvez ela não estivesse exagerando tanto assim. A queda realmente foi feia, a altura não era exorbitante, mas o modo como caí foi realmente desastroso.
O importante a considerar depois deste triste relato é que agora eu não era um ser desprezível somente para Karin, eu era um ser desprezível para o resto do país em Full HD, mas não nos adiantemos muito sobre a repercussão desse episódio em minha vida, não falemos sobre youtube e seus mais de um milhão meio de compartilhamentos, não falemos do modo vil como a mídia passou aquele episódio nos jornais locais e do modo ainda mais vil como aquilo foi transferido para os jornais de alcance nacional, não falemos sobre o ódio que recaíra em mim – o desalmado que deixou sem emprego todas aquelas pessoas – acredito que teremos tempo para você, leitor, se deliciar com os efeitos disso.
Por agora resta saber que...
— Senhor Hozuki, seu telefone! Senhor Hozuki!
— O quê? — Gaguejei em meio a dor.
— Seu celular não para de tocar!
Embora meus olhos ainda estivessem semicerrados por causa do inchaço que tomou meu rosto, consegui perceber o desconforto da recepcionista ao ter que amparar o homem que, supostamente, havia lhe deixado sem emprego. Em frangalhos, eu havia sido carregado para o pequeno sofá da recepção, onde permanecia recostado enquanto a insatisfeita secretária colocava uma compressa de gelo sobre o meu maxilar.
— Você pode, por favor... — Pedi com o olhar para que ela pegasse o smartphone no meu bolso.
— Suigetsu... — Do outro lado da linha, uma voz preocupada sussurrou quase com receio de me ferir.
Ela era realmente capaz de adivinhar o que eu sentia?
— Armaram pra mim! — Adiantei as palavras de Amaya, poupando-a da conclusão óbvia.
— Eu sinto muito! — As palavras soaram de modo tão sincero que não tive coragem de destratá-la, pelo menos não naquele momento. — Tem alguma coisa que eu possa fazer para... Eu posso...
— Chá! — Não sei dizer ao certo como aconteceu, mas aquela necessidade precedeu a formulação de um raciocínio coerente, impregnando-me de uma vontade quase instintiva. — Preciso de uma xícara de chá!
— Chá? — Do outro lado da linha, o tom de Amaya demonstrava certa perplexidade diante daquela confissão inusitada. — Mas você não acha que deve ir ao médico? Pelo que passou na TV, seu tombo foi...
— Preciso ir! — Cortei-a. — Não se preocupe! Está tudo bem! — As frases curtas e largadas no ar, então, concederam-me ânimo para sair daquele lugar.
...
Depois de tanta confusão, depois de ter sido surrado, cuspido, empurrado por uma legião de pessoas irritadas com a minha “insensibilidade”, depois de uma dor na lombar começar a se alastrar por toda a minha espinha, pensei que talvez pudesse e devesse, de alguma maneira, receber um pouco de consolo em forma de xícara de chá.
Tal pensamento começou, assim, devagar. Não pense você, caro leitor, que fora algo premeditado ou coisa do tipo. Eu apenas precisava da tranquilidade proporcionada pelo vapor de uma xícara de chá verde e nada mais e que fique claro que necessitava do conforto oriundo da bebida e não de uma possível companhia como sua mente fantasiosa deve ter imaginado. A possível companhia, se houvesse, seria só um acréscimo, um consolo a mais.
Dirigi-me, desse modo, arrastando a perna esquerda pela zona norte da cidade afora como um vira-lata que acabara de ser atropelado. Devia ser uma imagem patética a minha certamente, porém, embora a dor e a raiva ainda me dominassem, devo confessar que meu espírito ganhou força quando virei o quarteirão à direita.
Tão perto.
Mais uns dez passos e em breve seríamos Karin, eu e uma xícara de chá. Eu contaria sobre o meu dia terrível e ela com certeza falaria qualquer coisa desconexa e banal como quem não dá a devida importância as minhas lamentações ou, talvez, já ciente do ocorrido pelos jornais locais, gargalhasse sem piedade da minha cara assim que visse minha figura deplorável cruzar a porta.
Sim, provavelmente seria a segunda opção.
Mesmo sabendo da provável humilhação a qual seria submetido, continuei ainda com pensamento fixo em Karin, digo, na xícara de chá, meu único tranquilizante em situações de crise. Quando estava aproximadamente a cinco metros de distância, minha visão prendeu-se de súbito dentro do estabelecimento do velho Sarutobi. Fiquei ainda tentando entender a cena que se apresentava diante de mim com certa perplexidade.
A cada passo, a cada arrastar da minha perna esquerda, entendia menos. Na verdade, quanto mais me aproximava, mais confuso ficava. Devo admitir, inclusive, que confuso não era bem a palavra que me descrevia naquele momento, a palavra correta para a minha boca semiaberta, para o meu franzir de testa, para os meus olhos estarrecidos era possivelmente surpresa. Sentimento esse que ainda não conseguia definir ao certo se positivo ou negativo, embora um certo desconforto, já me mostrasse o teor de sua natureza. Diante de mim, assim que me prostrei em frente ao vidro da casa de chá, estavam Karin e... Juugo juntos.
Juntos?
Conversavam e sorriam, sentados um de frente para o outro, numa das várias mesinhas que compunham o local. Fiquei desconcertado por alguns segundos do lado de fora do estabelecimento ainda tentando entender. Para você, querido leitor, o motivo de meu desconcerto deve ter parecido sem sentido, mas não será se você espertamente relembrar os acontecimentos anteriores descritos no início da penúltima lição. Lembre-se da incessante troca de mensagens que ocorrera pela manhã entre Karin e algum desconhecido.
Juugo e Karin? Karin e Juugo?
Talvez agora não pareça assim tão descabido o motivo do meu incômodo. E talvez pareça menos ainda se eu lhe disser que Juugo não morava na cidade, na verdade, além de não morar na cidade, ele mal vinha aqui por não suportar o que chamava de aspecto metropolitano exaustivo. Além disso, talvez não pareça tão estranho se eu lhe disser que o motivo da minha perplexidade diante de sua presença devia-se ao fato de que Juugo e eu éramos o que as pessoas costumavam chamar de melhores amigos e – devido a isso – eu sempre sabia quando ele estava na cidade e, por sinal, era sempre para mim que ele ligava antes de falar com qualquer outro, pelo menos, tinha sido assim até aquele dia.
As risadas continuavam e eu continuava lá, parado e irritado, com um misto de fúria e surpresa remoendo-me por dentro. O que estava acontecendo, afinal? Por que Juugo não ligara, como de costume, avisando que estava na cidade? Será que o encontro com Karin fora só uma mera casualidade?
Sim, era isso.
Não havia explicação possível para aquilo, além de um encontro casual. Contudo, os indícios presentes me faziam desconfiar dessa possibilidade. Eram os gestos, uma das mãos dele debruçadas sobre alto da cadeira em que Karin estava sentada, a forma como ela colocou o cabelo atrás da orelha, como se tivesse acabado de ouvir algum elogio.
Ela estava mesmo corada? E o sorriso? Nunca o vi tão espontâneo e olha que, aquela altura de nossa convivência, já me considerava expert em todos os seus gestos e trejeitos, não que reparasse tanto nela, porém era de alguma forma inevitável não saber. Eu havia aprendido a lê-la e, apesar do claro constrangimento, notava-se a felicidade estampada em seu rosto. Ela estava tão diferente da Karin que brigara comigo pela manhã, tão atenciosa às palavras de Juugo, sem indícios de deboche presentes em sua fisionomia. Deboche que, por sinal, nunca deixara de ser destinado a mim, mesmo em nossas conversas de teor mais sério.
Onde estava seu habitual ar de escárnio? Por que, naquele momento, esse ar não era direcionado a ele também? Era a presença dele que lhe arrancava sorrisos? Era a presença dele que iluminara seu rosto daquela maneira? Juugo, o meu melhor amigo e Karin, a minha... a minha Karin?
Minha?
Meu estômago embrulhou-se.
No que eu estava pensando? O que aquilo significava? O que Juugo e Karin significavam um para o outro? Aquele dia não tinha como piorar.
— Hideki, quantas vezes tenho que te dizer para não falar com estranhos? — A voz repressora atingiu-me de imediato enquanto um garotinho ao meu lado oferecia-me o que parecia ser um pedaço de torta.
— Mas ele parece tão faminto, mamãe! — desculpou-se ainda levantando a torta em minha direção. — Coitado está com cara de quem não come há dias.
E foi quando aquele triste garotinho me confundiu com um mendigo, devido a minha lamentável aparência, que estipulei uma meta em minha vida:
Ninguém iria me fazer de bobo e se Karin e Juugo estavam tendo alguma espécie de caso, às escondidas, eu iria descobrir.
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