Manto Negro

7 Capítulo VII


Despertei com uma picada sobre minha coxa, levantei no susto e Leona estava plantada sobre a minha cama.

— Acredito que a gente não se conheça — Falou

Agora com o rosto limpo, eu podia observar suas característica, de perto ela é bem mais ruiva do que o normal, com uma pele avermelhada por conta do sol, sardas pela bochecha e olhos escuros. Poderia facilmente ser contratada como modelo para alguma revista de gente branca.

— Não sabe apenas sacudir ou chamar a pessoa? — Exclamei

— Eu tentei, mas você não acordava, dormia como uma pedra — Retrucou

Me perguntava por quanto tempo eu havia dormido, não reparei na hora em que me deitei, mas agora era quase 4 da tarde.

— Por quanto tempo eu dormi? — Perguntei

— Eu diria que por no minimo 9 horas — Respondeu

Não era atoa que eu me sentia restaurada de qualquer cansaço.

— Não sabia que minha colega de quarto seria uma preguiçosa — Comentou

— Não é bem assim, eu estava exausta —

— Você chegou ontem, certo? Ainda não sei seu nome, o meu é Leona — Falou estendendo a mão em um gesto amigável

— Maria Augusta, mas pode me chamar de Guta — Retribui o gesto

— Então Guta, o que você faz? — Perguntou enquanto sentava em sua cama

A distancia entre nós devia ser um pouco mais de 1 metro. Ela me fitava com um olhar curioso, e eu só queria ir comer algo.

— Ah... Ainda não sei ao certo, mas é algo que não posso demonstrar com facilidade — Respondi

Isso a deixou ainda mais curiosa, ela começou a cuspir inúmeras perguntas, querendo dicas ou detalhes de como seria a minha habilidade.

— Posso responder depois? Não como nada a 2 dias, preciso realmente mastigar algo — Cortei

Leona foi gentil e me guiou até o refeitório, tinha pouquíssimas pessoas, algumas comiam frutas e outras conversavam enquanto segurava um sanduíche. Assim que entrei, toda a atenção veio para mim, senti meu rosto queimando e tentei não encarar, parecia o primeiro dia na escola nova.

— Aqui, você fazer o que quiser, vou ficar te esperando naquela mesa — Falou

Montei um lanche rápido e me sentei, ainda sentindo os olhares ao redor e sussurros.

— Agora me conta, como é a sua habilidade? — Perguntou ansiosa — O meu é assim

Leona abriu a mãos e uma onda elétrica saltou entre seus dedos esguios.

— Incrível — Comentei admirada — O meu é simples e sem graça

Eu tentava de qualquer forma me esquivar dos detalhes do meu poder, ninguém iria querer alguém que pode despertar seus medos de uma forma bizarra.

— Controlo a noite — Falei

Resumi tudo que podia fazer em uma frase, sem detalhes e direta.

— Isso é curioso, você apenas deixa o local escuro? — Perguntou

— Sim, praticamente é isso —

— Ahhh duvido, se tem uma coisa que essa Casa te ensina, é que os poderes são como músculos, podem crescer se você treinar — Comentou

— Pode ser... Como era o seu quando chegou? — Perguntei desviando o foco de mim

— Era como uma descarga elétrica, só funcionava se eu tivesse emoções fortes, era bem desagradável, agora eu posso manipular qualquer meio de eletricidade — Respondeu

Leona tinha orgulho do seu potencial, era obvio pelo seu tom ao falar de si.

— E como você treinou a habilidade? -

— Praticando com algumas pessoas —

— Você usava seu poder em alguém? — Perguntei incrédula

— Sim, da mesma forma que alguém usava em mim — Respondeu

— E isso é obrigatório? — Perguntei

— Não, tudo aqui é opcional, se você quer crescer de alguma forma, é sua escolha —

— Até mesmo se eu quiser ir embora? —

Ela concordou.

— Você pode sair quando quiser, e voltar também. Os mutantes mais antigos como Vlad, tem sua casa própria fora daqui, mas sempre retorna — Comentou

— Leonaa, lutou muito bem ontem, esta ficando cada vez melhor! — Uma garota se aproximou

Era baixa, por volta de 1,65 cabelo curto e castanho, os olhos da mesma coloração, pele morena e magra.

— Maya, essa é Guta a novata — Leona nos apresentou

Ela tinha um sorriso fofo, com covinhas na bochecha.

—Acha que vai estar pronta pra enfrentar a campeã? — Maya perguntou a Leona

— Sempre estou pronta — Falou confiante

Maya de repente virou-se para mim e falou.

— Ela já perdeu umas 5 vezes pra atual campeã —

— Como funciona esse torneio? — Perguntei curiosa

Foi Maya quem explicou.

— Então, todos que quiserem lutar precisam se inscrever e dizer seus poderes. A cada semana tem um duelo, e o perdedor é eliminado, e assim vai até chegar na atual campeã, que desde sempre nunca foi derrotada — Respondeu

— Ah, e de maneira nenhuma, você pode usar as habilidades para infligir alguma dor ou força extra. É apenas luta livre — Leona acrescentou

— Você chegou no final do torneio, semana que vem vai ser Leona versus a finalista invicta — Maya informou

— E quem é essa pessoa que nunca foi derrotada? — Perguntei

— Sempre esqueço o nome dela... Ela não é muito comunicativa ou interage conosco, e raramente fica na Casa... — Maya falou

— Acho que é Haxi... Algo do tipo — Leona tentou chutar

— Hazel?! — Perguntei incrédula que seria ela

As duas concordaram.

— Vocês se conhecem? — Leona perguntou

— Não, estávamos no mesmo carro quando fui salva — Respondi — Mas vocês tem certeza que é ela?

Não era possível que uma garota cega, podia lutar tão bem.

— Sim, tentamos descobrir como derrotar uma garota cega, mas toda vez ela nos surpreende de alguma forma — Maya respondeu

— Mas dessa vez eu vou vencer — Leona falou

Eu, Leona e Maya conversamos por mais alguns minutos, descobri que Maya podia adquirir certas características de animais, como a força de um urso ou a velocidade de um leopardo.

Confesso que era realmente incrível e gratificante, poder conversar normalmente sobre algo que foi ocultado e oprimido por anos. Os dias foram passando, e esqueci do mundo do lado de fora, da ignorância e perseguição que existia atrás do encanto da Casa. Não demonstrei meus poderes nenhuma vez desde que cheguei, mas algo dentro de mim queria explora-lo, saber se posso apenas despertar o medo ou se posso me transformar nele, e se o que Leona falou for verdade, então até que ponto eu poderia chegar?

Mas de nenhuma maneira tentaria infligir essa tortura nos peculiares, eu teria que sair daqui para poder praticar.