Notas iniciais
Boa leitura!!
"Ei, bom dia" abro meus olhos lentamente, percebo que é Ana. "Já é quase onze" ela sussurra num tom doce. "Vamos comer?". Quando ficava mais tarde nas festas de sextas e as pessoas iam embora eu e Júlia ficamos perambulando e fumando nas ruas, nunca dormi aqui e nem passei mais de seis horas na casa, era esquisita a sensação de abrir os olhos e ver um lugar novo, um lugar que nunca dormi antes. "Sim" respondo. Depois de tentar escovar os dentes com o dedo e me ajeitar fui até a sala pra comer. "Está tudo bem?" "sim". Ana estava me esperando na sala, sentada com a mesma roupa da festa de ontem. Num impulso se levanta do sofá, e com um sorrizinho, estica sua mão até encontrar a minha e me leva até a cozinha, que era muito bonita e bem arrumada, assim como os outros cantos da casa. Tinha uma mesa, uma pia e uma geladeira, não era muito cheia, era bem pequena até. Tinha alguns quadros que eu imagino ser ana com seus pais e sua irmã. "É. É a minha família" ela sorri "me desculpa" "por que? você deveria parar de pedir desculpas por tudo". A irmã dela era tão bonita quanto ela, mas tinha um ar de mais velha e responsável. Elas tinham a mesma cor de olhos, verde escuro, puxaram seu pai, sua mãe tinha covinhas no queixo, ana puxou dela. Seu pai era forte e seu sorriso na foto era sincero, ele parecia feliz. Parecia ser uma pessoa realizada. "Nem sabes" ela olha a comida e espera eu parecer interessado. "O que?" "Carol, ela veio aqui, e ahn... Nós voltamos" "sério?" foi uma pergunta não tão animada e nem tão surpresa. "Que bom, mas vocês conversaram sobre o que?" ela começa a me responder e eu perco a linha de raciocínio. Eu estava feliz, com certeza, mas é engraçado como elas conseguiram tão fácil. Como algumas pessoas não precisam se mover pra fazer diferença, mas como algumas precisam de muito. "... E então ela pegou no meu pescoço e me beijou" os olhos dela estavam brilhando e seu sorriso era doce. Suas mãos, pela lembrança que teve do beijo, ficaram mais trêmulas e ela estava sobre o efeito de amor agudo. Parecia estar mergulhada em certezas. Faço algumas caras para parecer que eu estava ouvindo e contínuo conversando com ela, tentando parecer interessado. Me sentia estúpido por não estar ali em alma, ela estava sendo legal me dando comida e moradia nesse dia de infelicidade. A conversa sobre elas acabou e eu não sabia mais o que falar e então perguntei o óbvio, com a voz trêmula, e gaguejando. "Sabes... Se era Júlia?" "não... Eu fui até o quarto e esperei eles saírem, fiquei alguns minutos e depois bati na porta. Nada. Quem estava lá, já havia saído" apenas balanço a cabeça e finjo estar melhor que ontem a noite, o que é mentira. Comemos, vimos filme, comemos mais. Por um tempo ficamos sentados no tapete da sala, ela tinha perguntado como eu estava em relação a minha mãe, e eu tentei me conter, não chorar, só que era impossível. Saí da casa dela só depois do final da tarde.
Andando em direção a rua, vejo uma pessoa sentada na calçada da casa de Ana. Não queria ir lá e bater papo, não queria fingir que estava tudo bem. Não queria mesmo e pela primeira vez fiz o que eu queria. Fui pelo lado esquerdo para não se chocar com ela, passo e agradeço a Jesus que a casa de Ana não tem portão, assim como a minha. Ando normalmente tentando não fazer barulho. 'Anda anda anda anda', minha cabeça repetia para me acalmar. Fecho os olhos por alguns segundos e aquele plano estava indo bem. 'Anda anda anda', ela continuava. Abro meus olhos e algo me faz cair. Caio no chão e levo comigo uma lata de lixo. Aquilo faz um barulhão. Alguns lixos caíram em cima de mim. Tiro alguns deles do corpo e tento me levantar, recebi ajuda de uma senhorinha que estava passando. "Léo?" ouço aquela voz familiar. Oh não. “Obrigado” falo a senhora que estava saindo. "Jú" olho para ela e ela está acabada, seus olhos estavam roxos, seu cabelo desarrumado e parecia estar chorando, mas mesmo assim estava dando algumas gargalhadas. Chegando mais perto ela para de rir, fica séria e me diz "me da a mão que eu te ajudo". Queria poder dizer pra ela não me tocar, mas Leonardo se lembre ela não é sua, não te traiu. Aquelas mãos fininhas e macias pegam na minha e me puxam pra perto. "Está tudo bem?". Não. "Sim". contínuo meu caminho e ela me acompanha em meu lado. "Vou ter que perguntar de novo?" "não" não mudo o tom de voz, tento parecer calmo. "Eu só preciso de um banho" "aonde você estava? passou a noite ali?" "sim, eu passei a noite te esperando aqui na calçada, dei umas voltas hoje de manhã e voltei agora". Eu estava com raiva dela. Eu queria empurrar ela para longe, e ela continuava "eu te procurei em tudo que você pode imaginar, só não fui no quarto da Ana porque sabia que ela estava lá chorando pela Carol. Eu fiquei muito triste por elas, mas não queria incomodar". Sem estar prestando atenção, de novo, na conversa, eu estava com medo de que alguém tivesse contado sobre o beijo, o meu e de Ana, mas que se foda. "O que te contaram?" "que elas brigaram e... Rolou beijo... Hein". Contínuo andando e olhando para frente. "Ela beija bem" idiota. Idiota. Idiota. Cala a boca. "Oh, que bom, então você estava no quarto com ela?" "sim" meu Deus. Eu estava preocupado, eu não sabia se ela sentia algo por mim. Poderia estar quebrando o seu coração, o que era patético de se pensar, mas algo no meu eu de dentro me fazia ter essa ideia estúpida e iludida em mente, ou poderia estar fazendo ela rir de mim. Não queria nenhum dos dois. "O que você fez a festa toda?" "eu fui até o André, nós ficamos, eu me senti mal, saí e fui até você. Te vi beijando a Ana achando que vocês estavam fazendo aquilo porque queriam. Saí e fui até o campo por não ter nada o que fazer, voltei e te procurei, nada. Então fiquei ali esperando" ela me viu beijando a Ana e foi para o campo. Com certeza ela ficou abalada ou mexida com isso. Lembrei do que Ana me disse sobre falar com ela, mas não estava no meu melhor momento, e aquilo com certeza não era o melhor momento. Estava pra partir ela ao meio... Mas, espera... "Você só ficou com André?" "sim. Fiquei e conversei com ele em menos de dez minutos". Não era ela. Eu sentia uma grande dor saindo de mim e um grande alívio invadindo meu corpo, dou uma risada por lembrar do chororó que fiz por algo que não aconteceu. "Do que você está rindo?" não sabia o que responder. "Saiba que ele muito beija bem assim como Ana" ela passa a ter passos mais largos e rápidos. Ela sai furiosa, eu não estava entendo. Saio correndo atrás dela. "O que foi?" "você estava rindo porque fiquei cinco minutos com ele?" não estava entendendo mais nada "ele é um fofo sabia?" fala num tom de deboche como se estivesse cobrando isso de mim. "Ele quer ficar mais vezes, disse que eu era única". Como ele podia dizer isso a ela? ele transou com outra depois. Ele estava mentindo para ela, Júlia não fazia ideia que ele podia estar fazendo aquilo. "Preciso te contar uma coisa" "cara não quero saber, de verdade". Nós chegamos em casa e ela corre até a sua antes que eu posso pegar em seu braço e fazer ela ficar e ouvir que deveria saber. Mas não a tenho mais em minha visão. Merda. Tudo saiu errado de novo.
Bato na porta e ninguém atende, imagino que meu pai está trabalhando, vou até os fundos e tiro a fenda de cima do nosso tanque e pego as chaves e abro a parte de trás. Sem nada pra fazer e olhando aquela maldita janela do meu quarto, penso em fazer os deveres e estudar. Sempre fui preocupado com os meus estudos, mas desde o começo do ano, quando meu irmão saiu de casa e brigou com os meus pais, eu não tive vontade alguma de pegar um caderno, mas algo dentro de mim dizia que eu deveria fazer isso. O ano estava acabando e eu queria ir para a minha festa da minha formatura fazer o que os meus amigos e eu estávamos planejando. Peguei minha mochila, meus cadernos, penal e comecei a fazer todas as atrasadas, todas da semana que eu não faltei. Mandei uma mensagem para Ana me mandar as matérias que eu não tinha. Arrumei a bagunça da mochila e até do meu quarto, fui ao banheiro e limpei o chão. Limpei minha estante do quarto e limpei os cds e os livros. Voltei para os cadernos, copiei o que Ana mandou, fiz os deveres restantes e quando vi já era bem tarde. Olhei ao redor e percebi o que havia feito. Me sentia orgulhoso, era uma grande mudança, me sentia melhor, desocupou minha cabeça.
Fechei os livros, os cadernos, mochila. Deitei na minha cama e pensei no que fazer. Pensei em chamá-la aqui, não acho justo ele fazer isso. Ou melhor poderia chama-lo aqui, acertar as contas, mas não poderia brigar com ele, eu era magrelo e ele era maior que eu, sabia que daria briga feia. Seria mais fácil alerta-la e eles se resolverem. A chamo em mensagem e digo que é urgente, que eu precisava vê-lá. Ela nunca havia vindo aqui, era uma boa essa mudança de cenário. Em cinco minutos ouço a companhia, espero que não seja meu pai. Desço e para minha alegria era Júlia. Perto da escada pergunta "o porque disso?". Não respondo até entrarmos no meu quarto. Eu me sento e ela vai até minha estante "não sabia que você lia... Não me contasse que tinhas tantos CDs" ela falava como se não tivéssemos brigados a um tempo atrás. "Já lesse todos?". Ela perguntava olhando e passando a mão em cada livro. Tinha um brilho nos olhos dela. Ela sempre lia muito, sempre teve uma grande paixão para leitura e para música. "Sim, mas faltam alguns" "seu quarto é bonito" estava olhando para ela com cara de bobo, ela quando terminou sua frase olhou para mim e ficou sem jeito por perceber que eu estava a observando. Apenas dou um sorrizinho. Não conseguia ficar bravo com ela. Ela era tão incrível, as vezes brava com suas bochechas rosadas, as vezes calma como o mar, as vezes agitada como o vento. "Por que está me olhando desse jeito? e por que me chamou aqui?" ela fala olhando para mim com um sorriso safado, admito. Ela parecia estar me querendo como eu estava querendo ela. Eu me deito mais na cama e paro de olhar, ela deita na cama do meu lado e eu começo a me questionar se ela realmente queria me beijar como eu queria beijar ela. Engulo seco. Eu não queria mais alerta-la, não queria mais falar e ouvir ela gritando dizendo que era mentira. Queria beijar-la, queria pegar em sua mão, queria dizer que a amo. Queria de novo, queria e queria, mas não posso... *Deveria conversar com ela* lembro ana me dizendo. "Júlia?" "oi" ela me olha e sorri. "Você quer conversar sobre André?" o que? "não…” fez cara de duvida, suspirou e terminou a frase. “Olha, eu gosto dele, eu acho... É tão idiota, mas ahh eu gosto. Gostei de beijar ele, gostei do que ele me falou, gostei das coisas que conversamos, gostei de passar meu tempo com ele. Não ria você é meu melhor amigo" não estava rindo, não estava achando legal, não estava gostando da conversa. Paro de olhar para ela e olho pra porta no momento em que ela se mexe. "Oi... Júlia?!" meu pai diz surpreso. "Oi... sr Daniel... Eu já estava ind..." ela sai da cama constrangida "que isso querida, fique a vontade, vou preparar algo para comer". Ela volta pra cama e se aproxima mais. Meu pai fecha a porta. "Fico feliz por vocês" na verdade era mentira, pelo menos um pouco. Estava com raiva, mas feliz, ela nunca me disse que gostava de alguém, nunca me disse que se apaixonou. Eu estava feliz por ela estar se sentindo feliz, mas ele transou com outra... E isso não sai da minha cabeça. Ela respira fundo como se estivesse aliviada de ter contado, mas parecia triste. Não sorria, estava séria, com uma expressão rasa. Se aproxima mais e se deita no meu peito. Faço carinho em sua cabeça e ficamos ali até meu pai nos chamar para comer.
Eu estava pensativo em meu quarto já sozinho, eu estava com ciúmes, com ódio. Não queria perder ela, ele tinha transado com alguém. E se ela se apaixonar? e se ele a machucar, mas quem não iria se apaixonar por ela? quem sabe ele precise ficar só mais um pouco pra descobrir o que sente, e aí perceber que esta apaixonado e dar o amor que ela merece. Eu, como um completo imbecil estava deixando ela ir, eu não podia fazer nada, apenas podia estar contente por ela achar o amor. Mesmo sabendo disso, depois de me despedir, chorei em meu quarto. E se durasse o namoro? e se eles se apaixonassem pra valer? eu não queria me culpar por todas essas coisas, mas estava, e isso me doía dos pés a cabeça. Certamente havia outro motivo pra eu estar chorando, sentia falta dela, sei que poderia estar desejando ela voltasse pra perto de mim e poderia estar sendo egoísta não pensando no quanto eu estava sendo egoísta, mas sentia sua falta, como sentia.
Notas finais
Espero que tenham gostado!!
beijosss.
Fale com o autor