Notas iniciais
Eu sei que vocês querem saber, então eis logo um capítulo explicando a cena final anterior XD Segurem o coração que a coisa não para por aí.

Enjoy.

Pois então. Sávio me deixou umas ruas antes de minha casa por ter um desvio policial de uma batida, coisa de perícia. Sávio seguiu seu rumo, eu o meu, fui andando pra casa. Antes de sair da faculdade nem me toquei de ligar para Vini, avisar para não me buscar, fiquei foi de conversa. Ia ligar para ele quando chegasse em casa, pra evitar chama-ladrão de ficar usando celular em rua de noite.

Cheguei na porta, enfiei minha chave. Enquanto abria, senti uma coisa se remexendo na bolsa. Era meu celular no silencioso, estava nesse estado desde a aula. Atendi:

- Oi, Vini.

- Hey, Lena, você acha que vai ver minha mãe ainda hoje?

Meio que engoli seco tendo a visagem da professora Garra beijando professor Carvalho, eu não poderia conversar sobre. Pior se fosse pelo telefone.

- Não. Tô entrando em casa. Hoje acabou mais cedo, não vi Djane.

- Hum. Conseguiu carona?

- Até certo trecho, aqui perto. Isso porque insisti que ainda sei andar de busão.

Com o celular preso ao pescoço para mantê-lo no ouvido, girava a chave no trinco da porta, a outra que tem que abrir para entrar definitivamente em casa, passando o terraço da frente. Discutia com Vini sobre a arte de não saber dirigir ou ter carro, assim como andar de ônibus ainda era digno. Mas não consegui chegar nesse ponto.

Porque não deu pra chegar a argumentar quando alcancei a sala, iluminada, e ouvi uns barulhos estranhos. Imaginei que meu irmão estivesse por lá, porque, afinal as luzes da sala e da cozinha estavam acesas. Minha voz morreu durante uma sentença com Vini, de quem ouvi me chamar ao longe. Me petrifiquei na porta da cozinha, lá estava ele. Murilo, digo. Estava de costas e... estava quase subindo a Aline na pia.

- Ai, minha nossa!

Veio um grito de espanto enquanto eu me virava tapando os olhos, mortificada.

Vini com certeza ouviu parte do desastre porque continuou a falar no celular, gritava para que eu respondesse. Mas o que eu iria dizer? “Ah, não foi nada, só peguei meu irmão no maior amasso com uma garota na nossa cozinha. Besteira”. Mal pude foi soltar um “depois falo com você” antes de desligar e dar um espaço ao que tinha presenciado. Porém, antes de conseguir me refugiar no quarto, os dois reapareceram na sala, tentando consertar a impressão que deixaram.

- Errrrrrrr...

- Nã-ã-ão precisa dizer nada.

Merda, saiu tudo embolado.

- E-eu... eu num vi nada.

Só vi eles quase chegando aos finalmente ainda pouco, ele recolocava a camisa, ela ajeitava seu vestido. Caramba, é certo que uma irmã não quer ver o irmão numa circunstância dessas! Mais um minuto e... com o que eu toparia? Ai meu olhos, ai meu cérebro. Quero nem pensar. Preciso tirar essa cena da Aline puxando o cinto dele.

Que horror!

Tão desconcertada quanto eu, ela se retira devagar:

- Melhor eu ir.

- Te acompanho até a porta.

Quando eles saem, me sento no sofá. Meu celular, foi aqui que caiu, vibrava continuamente ligações de Vinícius. Queria tranquilizá-lo, mas primeiro tinha que fazer comigo mesma.

Pelo menos não os peguei no sofá... Onde mais eu sentaria?

Não demora muito para Murilo voltar.

Quem está mais embaraçado não sei dizer. O que falo? Fico calada?

- Sobre isso... eu, hã... o que você está fazendo em casa essa hora?

- A aula acabou cedo. Não sabia que vocês estavam aqui, nem me liguei do carro dela na porta e...

- Tudo bem. Hã... eu posso explicar.

Deus, não.

- Não precisa, juro. Acho que entendi.

Aquele momento mais estranho que dois irmãos podem compartilhar.

Podendo passar, já pode.

- Ela tá morrendo de vergonha.

Imagino que sim.

- Ela não é a única. Quer dizer... bom, que bom que estão... err.. juntos.

- É, eu só queria que você... você sabe, não tivesse visto.

- Nem eu, acredite. Pior mesmo seria se fosse o contrá... rio.

Por que eu sou a insana de falar isso, por quê? O que tem na minha cabeça para falar uma merda dessas justamente pra meu irmão, vulgo ciumento e protetor? Vou considerar que isso veio de meu desligamento ou baque visual. Por um segundo espero que ele não tenha entendido. Ele poderia ser tapado a esse ponto.

Só que ele... entende. Ele é tapado, mas nem tanto assim.

A voz dele toma outro tom, um sugestivo, meio fulo. Para perto da tv, enquanto permaneço sentada no sofá, evitando de lhe olhar.

- Vocês...?

Me faço de besta, que não sabe nem do que propriamente falei. Engulo a seco.

- Hum?

- Não acredito. Vocês já...? Eu vou MATAR o Vinícius!

De repente ele não é mais o flagrado e, além de não gostar de ser o centro da questão, não gosto de sua atitude. Quem ele pensa que é pra ficar nervosinho? Me dá vontade de dizer umas boas pra ele, mas só porque tô evitando briga, eu me comprometo em não me exceder também.

Mesmo com Murilo inquieto, de punho fechado. Ah, vá.

- Matar por quê?

- PORQUE ELE TÁ TRAÇANDO A MINHA IRMÃ!

Grita, enérgico. Não acredito que disse o que disse. Odeio quando ele fala assim.

- Porra, Murilo, tinha outra expressão não? Que coisa mais horrível de se dizer.

- Ora, eu aqui pensando que o cara te respeita, quer que pense o quê, que eu fale o quê? Não é fácil engolir que seu amigo tá pegando sua irmã!

Meninas de 13 anos pegando qualquer um e ele preocupado com Vinícius?

- Me dá esse celular, eu vou falar com ele.

Capturo meu aparelho de volta, não deixo que ele pegue quando se abaixa para alcançá-lo. Ele tá em abstinência de discussões ou o quê, pra ficar bravo assim? Me levanto de imediato, Murilo não desiste de pegar meu celular, que ainda pisca o nome de Vini. Segura, com o sofá entre eu e meu irmão, peito-o de vez:

- Acho que também não é fácil lidar com meu irmão transando no meio da cozinha!

Nessa hora ele abaixa a cabeça, tão corado quanto a vergonha pode lhe deixar vermelho. Isso se é realmente de vergonha... Pego minhas coisas e me lanço em direção de meu quarto. Por me ver passar, ele me segue, me chama. Aí abro a boca de novo, já não me importando de falar o que não era pra ser falado:

- Então é melhor ficar calado na tua. Ele me respeita sim. Nem te devo satisfação disso, assim como ele também não. Por isso não me venha com explicações.

Bato a porta de meu quarto, me encosto nela. Uma vez parada que sinto as fortes batidas de meu coração, um pouco alterado. Coloco minhas coisas na cômoda ao lado, tudo parecia pesado. Só porque havia uma porta entre mim e ele, isso, infelizmente, não o impedia de falar, ou eu de ouvi-lo.

- Volta aqui, Lena. Abre essa porta.

- Pra quê, hein? Eu sou mulher, a Aline é mulher. Isso tu entende né?

Escuto-o bufar, frustrado. Mais uma vez ele tenta:

- Olha, c-c-om a... com Aline é... diferente. Nós somos maduros pra lidar com isso.

- Tá me chamando de criança?

Há! Ele que não ouse.

- Não, não é isso que tô dizend...

- E não me venha com essa de ser maduro. Se fosse, não taria tão envergonhado.

- Maduro no sentido de ter noção das consequências. Vocês... ai, droga... Vocês pelo menos usaram proteção?

- Ter essa informação vai te acalmar ou não?

- Argh, eu não sei. Esse tempo todo eu ajudando o cara, dizendo pra ele ter paciência e ele faz uma coisa dessas? Poxa, é de deixar qualq...

Eu não aguento, não aguento que fale dessa maneira sobre meu relacionamento. Tão fula quanto ele, abro minha porta de vez para encará-lo, que se surpreende e dá um passo para trás.

- Paciência, Murilo, paciência? Você tem falado com ele? Pois pare, isso não é... saudável, caramba! Esses assuntos não te desrespeitam, ok? E outra, se vale regra pra mim, vale pra você, viu. Eu não quero ter que chegar na minha casa e ver coisas que não devia ver. Quer ficar com a Aline, fique, meus parabéns. O que rola no teu quarto não é de minha conta. Pra mim você dorme no chão, é o bastante pra mim.

- Eu...

- E não responde. Fica calado, eu não quero mais saber disso. Mais uma coisa e eu não olho pra sua cara o resto da semana.

Ok, nessa parte exagerei. Mas só porque né, alguém tinha que botar ordem nisso.

Por uns segundos ele só me olha, abre a boca algumas vezes, nada sai de lá. Trinca sua mandíbula algumas vezes, sinto que ele a aperta cerrando os dentes, de forma que ela se mexe e é visível ao seu rosto o quanto ele não sabe que razão seguir. Termina por passar a mão no rosto, inquieto, e sai da soleira de minha porta em direção da sua, onde fecha e mais uma vez o silêncio reina ali.

Fiz ao meu máximo para não citar nem o fato de seu cinto ainda estar desfivelado, aquilo era o bastante. Deus, preciso de qualquer coisa pra me distrair. Fecho minha porta, pego meu celular.

Onze ligações de Vinícius.

~;~

No dia seguinte não nos falamos pela manhã, Aline não foi almoçar na nossa casa, eu comi mais cedo e saí logo que ele chegou para a refeição. Até minha louça suja deixei para ele, afinal, quem fez o almoço fui eu. No ônibus a caminho do trabalho não deu jeito, minha cabeça se voltou para aquela discussão, e sobre como não sei de onde arranjei forças pra manter aquilo tudo pelo tempo que ficamos, senão mesmo sobre tudo o que foi dito ali.

Lembro-me de como fora um pouco chocante para minha mãe quando descobrira que eu e Vinícius já havíamos dado esse passo na nossa relação, ela ficou um pouco transtornada. Mais triste, na verdade, pois eu não havia dividido isso com ela. Mamãe já sofre por nossa distância, então isso foi meio que demais para sua cabeça... para seus ideais, para sua impressão de mim. Considero um momento de quebra de ilusões. Ela me viu como uma mulher, enfim.

Foi duro ela fazer essa passagem, mas fez. Murilo faria – ou teria de fazê-lo. Foi um choque para ele também, que ainda mantinha umas doces ilusões de mim, mesmo com mais evidências que mamãe de que cresci. Que estou num relacionamento, do tipo sério.

Se foi a hora ou não com Vinícius, meu irmão não tem de dar conta disso. Isso diz respeito apenas ao casal, afinal, somos nós os apaixonados. E paixão envolve não só amor, mas desejo. Não só cuidado, mas carinho. Amor não é apenas sentimento. Apesar de não material, uma hora ele se detém a algo físico. Cedemos à natureza de homens e mulheres. Eu entendo, por que não meu irmão também?

Só quero que minha mente dê seu jeito de suprimir todas aquelas imagens da noite passada e delete-as de vez. O fato de algumas delas ainda dançarem em meu pensamento horrorizado me diz que não é bem o melhor tópico para se conversar com seu irmão, se não o mais desconfortável. Isso ficou bem claro.

Mesmo de pé no ônibus, num horário ruim, agradeço por estar nele. Não por me manter distante de Murilo, mas por ter as famosas janelas da alma, que elevam seu pensamento tão longe que nem o sacolejo de um buraco na rua te faz sair de lá. Pelo menos não se for pequeno.

No serviço do dia faço-o normalmente, converso com as pessoas, acho que elas notam que estou meio que longe. Umas mensagens de Vini alertando um “Gol” como tempos ele não fazia me trouxe um sorriso ao rosto, me dispersou um pouco. Quando conseguir ligar para ele, não expliquei bem o que foi a situação. Foi demais para mim também, confesso, e falar dela, de fato, estava fora de cogitação.

- Milena, o que foi? O que aconteceu? Você tá bem?

- Er... sim, tô. Não foi nada.

- Mas eu ouvi você gritar, e não me atendeu. Fiquei preocupado.

- É sério, Vini, não foi nada.

Quanto mais tentei tranquilizá-lo, mais ele parecia que não entendia:

- Milena, pode falar comigo. Ou quer me esperar? Já tô saindo da sala de aula.

- Não! Não precisa vir, sério. Não venha, não hoje. Olha, foi nada... eu só... só exagerei um pouco. Tá tudo bem, tem ninguém machucado. Eu só não entro em detalhes, Vini, porque acho que... bem, não é algo para se comentar no momento. Além do mais, tenho uns trabalhos pra finalizar, tenho que dormir cedo. Te vejo depois, tá?

Ele não insistiu muito depois disso.

Outra mensagem dele chegou logo, disse que iria me buscar hoje e não era um aviso, mas sim uma ordem. Ri e brinquei com ele por mensagem escrevendo umas bobagens. Estava bem risonha até André me cutucar:

- Dá pra parar? Tô tentando ouvir aqui, o áudio já é baixo.

- E tu num devia estar com umas planilhas abertas também não?

- Só quando Thiago aparecer. Até lá, shiu, garota.

Folgado. Não parei, só de mal. Logo nosso chefe reapareceu, minha parte estava cumprida e André ainda ficou um bom tempo na sua. Enquanto se resolvia sozinho, fiquei tirando umas dúvidas com o Thiago, que caíra da cama e estava bem gentil essa tarde. Me ofereceu até café pra acompanhar nossa conversa sobre os dados novos que chegaram no sistema sobre umas partes lá de consultoria. Dispensei, de qualquer forma, vai ver era um teste psicológico e eu queria me dar muito bem ali para não arrumar confusão. Nem puxar o saco dele, que disso eu não precisava apelar.

~;~

Gui dessa vez estacionou ao fundo da faculdade, pegou um caminho diferente pra evitar uns trechos de trânsito lento. Apressado como estava para ir à biblioteca, ele saiu correndo sem me esperar. Entrei na faculdade, mas tão logo saí, tinha de ir a uma papelaria, minha pasta-catálogo se foi lá no estágio. Não se pode confiar suas coisas pra ficar em lugar nenhum mesmo. A loja de materiais de estudo ficava perto, na quadra do lado.

Saindo dela caminhei tranquila sob a zoada da cidade grande. Logo começaria a aula, era quase 19h, mesmo assim não vi necessidade de correr. Na esquina da quadra da faculdade vi uma pessoa sentada na calçada, estava meio escuro, só que quanto mais eu me aproximava, desconfiei conhecer a pessoa. Era Sávio. Ferido.

- SÁVIO! O que aconteceu? Você tá bem?

Já estava no chão da calçada ao seu lado avaliando seus ferimentos. Um pequeno sangramento no canto da boca, outro na sobrancelha, outros arranhões em suas mãos e braços. Ele fechava os olhos de dor conforme eu ia lhe tocando e descobrindo novos ferimentos.

- Tô bem, foi só... ai, um assalto.

- Deus, e você reagiu, foi?

Ele não pôde responder, tossiu, meneou a cabeça em confirmação.

- Sávio!

E eu que andava por ali de boa, distraída, escapei por pouco. Não tinha muito para ralhar, e sim avaliar o local para ver se não havia mais ameaças. Parecia limpo.

- Consegue levantar? O que levaram?

Com dificuldade ele levantou, não dizia um ai, mesmo que fosse claro que estava tudo doendo ali. Me esperou pegar seu material estirado ao lado para se apoiar em mim, que o segurei para andar, com todo o cuidado possível.

- Como foi isso?

- Eu ia ali... na loja de informática, quando um cara me abordou. Pediu celular e carteira... Era menor que eu, pensei em bater e correr, só que tinha um outro atrás de mim que eu não avistei, esse sim era maior do que eu. Ele me segurou enquanto o primeiro vasculhava meus bolsos da calça. Ia gritar “ladrão”, foi aí que eles começaram a me bater.

- Aiin, que perigo, Sávio.

- Tô bem, tô vivo.

- É, tô vendo. Tô vendo tu todo quebrado.

- Ah, são só uns arranhõ... Ai.

Ele pisou em falso num canteiro próximo à entrada da faculdade e, se não fosse por mim, teria caído novamente. De qualquer forma, ele se moveu demais e isso doeu. Andávamos devagar, de acordo como ele podia, assim aquele caminho nunca pareceu tão grande.

- Pelo menos eles não encontraram a chave da moto. Pra onde tá me levando?

- Vamos pra lanchonete, lá tem gelo. Decidimos o que fazer lá. Tem alguém da família pra ligar? Alguém que possa vir te pegar?

- Ainda não decorei os números novos, ficou tudo no celular que os caras levaram. Acho que dá pra eu pegar a moto... hum, normal.

- Tá maluco ou quê? Tu não vai ver moto nenhuma hoje. E eu te quebro mais se for necessário. Não deixo uma coisa dessas de jeito nenhum.

- Lena...

- Não me contraria, Sávio. Tu sabe que eu posso fazer isso.

Por chegar às proximidades da entrada, as pessoas nos observaram e entenderam que algo errado tinha. Logo se tornou um burburinho, e, como Sávio sempre chama atenção, muitas garotas apareceram para nos ajudar. Conseguimos colocá-lo numa cadeira da lanchonete, o pátio vazio por as aulas estarem rolando já. Com nossas coisas espalhadas na mesa, fui apenas ao banheiro para pegar toalhas de papel molhadas, além de um pouco de papel higiênico para fazer uma geral pelo menos.

Não era muito indicado para o caso, só que não havia enfermaria lá, nem materiais para limpeza própria de ferimentos. Quando volto para o pátio, Sávio está rodeado de garotas, alunas e funcionárias da secretaria, que perguntavam mil coisas, sentiam pena dele, avançavam nele. Que bando de desesperadas, pensei, o cara quebrado e elas tirando casquinha do cidadão!

Peço passagem até me deixarem sentar ao lado dele, que agradecia às garotas o cuidado e tal, pedia que ninguém perdesse aula por ele, que estava bem. Eu mais rolei os olhos para elas que rodinha de carro de montanha-russa, não tinha jeito pra aquele bando de gavião esperando carne fresca. Se duvidasse, elas pediriam pra ele tirar a camisa e avaliar se havia outros machucados. Tossindo um pouco, Sávio conseguiu dizer que levou apenas um soco no estômago. Não doía, dizia ele, e elas soltaram aquela sonora interjeição de dó.

Ele insistiu mais, até que elas nos deixaram. Só assim pude dar atenção aos seus ferimentos. Elas não deixavam! Comecei primeiro com os braços e mãos, ainda havia um pouco de terra por cima. Como passei papel molhado, ele sentiu ardor, engolia arreliado as dores. Às vezes resistia quando tocava num ponto certeiro. Ainda assim, dizia que não precisava dos cuidados. Aham.

- Você devia ir pra aula.

- Me viro depois com Djane.

Conforme fui sendo a enfermeira de última hora, ele se calou. Não mais reclamou, nem me dispensou. Só me observava. E isso, não sei por que, me deixou um pouco desconfortável. Quando migrei para seu rosto, encontrei um arranhão debaixo do queixo, com sangue seco já. Não contabilizava, mas ele claramente estava fazendo coleção de ferimentos. Brinquei com isso enquanto segurava seu rosto e mexia em seus lábios, passando o papel quase seco já, mais precisamente no canto onde levou o golpe.

Na mesma hora que riu, sua boca se moveu em espasmo por doer, o que ele sugou o ar, fechando novamente os olhos. De repente percebi que estava muito, muito, muito próxima a ele, centímetros nos separavam, os rostos quase colados. Captei sua reação involuntária de morder um pouco o lábio inferior, e então olhei diretamente em seus olhos, novamente abertos, que me diziam algo indecifrável. Paralisei. Porque queria saber o que era aquele não dito, simplesmente queria. Então senti sua mão sobre a minha, delicada, de toque suave, retirava de seu rosto.

O momento se perdeu assim que diretor Fabiano passou por nós, nos avistou:

- Meu Deus, Milena, o que aconteceu?

Como sair de um transe, eu despertei, me afastei de imediato:

- S-sávio foi assaltado na esquina.

- Você está bem, rapaz? Como se sente?

- Tô bem, senhor, não foi... não foi nada não.

Ele não ia largar esse discurso nunca, nem se aparecesse um raio-X dizendo-nos o contrário. Sávio se recusava a ao menos ir na Emergência, ver se tinha algo quebrado mesmo. Mas até por sentir dor, ele dizia que não doía tanto. Ele achava que tava falando com quem?

- Cara, tu tá todo quebrado. Se isso não é nada, ainda bem que não pegou o pacote completo, né?

Fabiano quase riu pelo meu modo de expressar, preferiu, no entanto, ajudá-lo a se deslocar, para onde teria algum atendimento melhor.

- Vamos para minha sala, lá eu tenho uma caixa de primeiros-socorros se não me engano. Eles levaram alguma coisa?

- Apenas celular e carteira. Graças que não viram minha moto.

Além do auxílio do diretor, seu Chico, um amigo que trabalha na limpeza da faculdade, conseguimos mover Sávio para a direção. Tio Chico tomou a frente para fazer uma limpeza melhor dos ferimentos, já com os materiais certos. Enquanto isso, mandei uma mensagem pra Flávia, avisando o ocorrido. Sávio voltou com seu papo sobre eu perder aula.

- Lena, pode ir.

- Vou ficar, Sávio.

- Tá perdendo aula por... por besteira.

Sua voz sai um pouco fraca, dava pra sentir que as dores estavam pegando seu corpo. A pedido de seu Chico, busquei gelo na lanchonete. Ao voltar, encontrei professor Carvalho se inteirando do assunto. Inevitável foi pensar no dia anterior, ele beijando Djane. Afastei esses pensamentos, foquei no Sávio. Antes que ele dissesse algo novamente, seu Chico interviu:

- Não discuta com a menina, ela quando se determina a algo, não desiste fácil.

Professor Carvalho concordou, assim como o diretor, que voltara da secretaria com um vidrinho de remédio que achara por lá. Acho que todos sabiam dessa grande característica minha.

- Milena?

- Hum?

- Obrigado.

~;~

Por ter ficado na direção acompanhando Sávio, soubemos que professora Silvana não compareceria na aula, que seria os horários de aula depois do intervalo. Para não interromper a aula de Djane ou mesmo deixá-lo sozinho, preferi permanecer em sua companhia. Comprei sanduíches antes que começasse o intervalo, se não demoraria a comprar por causa da fila.

Depois que seu Chico deu um jeito nos ferimentos de Sávio, o movemos para uma saleta do lado, onde ficava a secretária de Fabiano, não poderíamos ficar por lá, seria inconveniente demais. Conversávamos baixo, buscando uma solução sobre como ele ir para casa. Se deixava a moto ou não, coisas assim.

Mandei uma mensagem pra Vini, avisei que não teria os últimos horários, o que dava de encontro com seus horários vagos também. Com uma observação, disse também que houve um assalto pequeno, que Sávio estava um pouco machucado.

Na hora do intervalo, Gui, Flávia e Djane logo apareceram. Por um acaso Dani soube, e apareceu também. Ela, na verdade, foi nossa luz. Seu amigo de turma, Yuri, sabia dirigir motos, ela conseguiu que ele nos prestasse o favor de ajudar Sávio a ir pra casa. Já tínhamos todo um esquema bolado, só esperando Vinícius chegar.

Ao me avisar que estava na portaria, a comitiva se formou para acompanhar o soldado ferido até o carro. Falo comitiva porque apareceu gente do nada para ajudar, garotas de outros períodos (e outros cursos) que insistiram em fazer um burburinho pelo acontecido. O mais engraçado na verdade era que era Djane quem o apoiava, com a ajuda de Gui. Mas Djane, de tão preocupada que se mostrava, não queria soltá-lo de jeito nenhum e deu seu jeito que espantar aquelas meninas.

Eu fui na frente, encontrei Vinícius para contar do esquema. Que Sávio e Dani iriam com a gente, enquanto Yuri seguia com a moto para a casa de Sávio, que não era tão longe assim dali. Ele concordou, perguntou se havia acontecido algo comigo também, foi me avaliando em busca de qualquer vestígio. Só encontrou um corte na minha mão.

- E esse aqui?

- Foi o papel sulfite, Vini, lá no estágio.

Seu semblante logo mudou quando eu disse que havia prestado socorro ao meu amigo, que cuidara de seus ferimentos, que fiquei com ele esse tempo todo. Por um momento, esqueci que ele no outro dia teve ciúmes de Sávio. E esqueci também que teve ciúme de sua mãe com Sávio. Vini ficou mais sério quando avistou sua mãe cheia de dedos com seu monitor quebrado, movendo-o devagar, conforme ele podia andar.

Abri a porta do banco de trás para que ela e Gui amparassem Sávio na hora de sentar, passei o material dele para Dani que ficou lá atrás também. Vini não deixou um segundo de olhar como a gente dava a assistência, principalmente sua mãe, que é uma manteiga derretida para essas coisas. Acarinhava o rosto de Sávio como faria com seu filho – se já não considerasse seu filho, fazia-o prometer de se cuidar, de dar notícias, já havia lhe passado seu número, ela iria manter contato. Calado, meu Vini só recebeu um Oi de Djane antes de sairmos.

Sávio havia cedido as informações para Yuri, para ter noção mais ou menos de onde era, a leste da faculdade. Enquanto ele dizia as direções para Vini dirigindo, Yuri só nos seguia. Na volta, ele voltaria conosco, já que meu caminho mesmo era a oeste, assim o deixaríamos na faculdade, onde ficou seu carro, e ele levaria Dani, já que ela mora bem perto dele.

Dani como sempre era quem movia a conversa no carro:

- Veja pelo lado bom, Sávio, teremos só mais um dia de aula e então será feriado de Carnaval. Na verdade, nem precisa ir, comece logo seu feriadão.

- Ah, não, num posso. Amanhã é minha vez de apresentar ensaio, não posso ficar sem nota. Aguinaldo disse que vai me pegar em casa, sem problema, quando sair do estágio. É caminho.

É, é caminho mesmo.

Como Vini permanecia calado, puxei um papo que poderia ser engraçado para tirá-lo daquela vibe que havia se metido. Eu só não sabia onde tava me metendo...

- Hey, Dani, que história era aquela de ontem quando eu cheguei? Sobre a atriz que queria tirar a roupa... Isso é sério?

- Nam, não era uma atriz. Quer dizer, tem um grupo de teatro famoso que faz uma apresentação sobre jogos de azar, aí dependendo do resultado, eles tiram suas roupas. E isso é feito no meio da rua. Já teve confusão por causa disso, a polícia quer intervir sobre essas apresentações. Até aí, tudo bem. Acontece que tem um grupo daqui que quer fazer uma apresentação semelhante, no quesito de tirar a roupa. Esse é o boato. Aí a discussão era sobre ter coragem ou não de se despir a favor de seu trabalho de atuação, mesmo que implique ser preso por isso. Você saiu antes da resposta, Lena.

- Ah, foi. Bom, acho que tem trabalhos e trabalhos, eu não entregaria meu corpo facilmente. Acho que quem o faria seria muito determinado. E você?

- Faria não, morreria de vergonha. Coisas assim que me dizem que eu não daria boa atriz, eu não daria pra qualquer papel. Mas que dá vontade de ir, isso dá. Vocês não?

Sávio cobre a deixa:

- Ah, eu num sei...

E Dani intervém, indignada por outro comentário:

- Acreditam que o Bruno disse que não iria porque não queria ver “macho tirando roupa”? Até parece que só tem homem no grupo. O que não seria tão mal assim, seria?

Era meio estranho de discutir se eu queria ver atores pelados se meu namorado era quem estava ao lado com mãos no volante.

- Ai, Dani, você me pergunta isso mesmo sendo que quem tá dirigindo é o Vini?

- Ops, desculpa, Vinícius. Pode deixar que quando for a hora, eu fecho os olhos da Milena, tem problema não.

Vini não falou muita coisa, só respondia a algumas coisas que Sávio falava sobre o caminho, outras que Dani comentava. No caminho de volta, ele permanecia calado, mesmo comigo puxando assunto, qualquer assunto.

Notas finais
Essa vibe toda com esse Sávio, hein...