Mantendo O Equilíbrio - Um Novo Amanhã (T4 + T5)
11 Capítulo 10
Notas iniciais
(e que tbm fiquei com essas músicas na cabeça).
Enjoy.
Tudo na tv tem um tempo de passagem rápido. Pra algumas coisas eles passam ligeiro mesmo. A minha pergunta quanto a isso é: como os personagens sustentam seus estudos? Porque eles não estudam! E quando reservam um momento para os estudos, não é incrível como eles conseguem fazer tudo certinho? Isso quando eles não são um fracasso total, que é algum detalhe que faz parte do enredo. Fora isso, o pano de fundo é uma educação que não aprofunda nos estudos, nas dificuldades, no trabalho duro...
Para as turmas de ensino médio, eles podem desmascarar um traficante agente triplo de sociedades secretas e passam de ano. E os universitários? São os que mais dormem na aula, quando não faltam, e não sabem o que é meter a cara num livro enquanto está caçando pistas sobre um assassino em série que, sei lá, tem os perseguido. E ainda assim, formam-se. Com louvor.
Que educação é essa? Eu não consigo uma glória dessas não. Como eles conseguem passar assim, como eles alcançam todos os seus créditos, como eles absorvem tudo tão fácil? Ah, sim, porque é a tv, conflitos de estudo só acontecem lá como pano de fundo mesmo e olhe lá... Enquanto isso, nós, meros mortais estudamos do modo mais lento e chato possível.
Isso num sábado.
A partir dos casos sorteados na turma na aula de Administração Financeira, cada aluno devia analisar o que chegou no papel a suas mãos e fazer um pequeno ensaio acadêmico sobre as implicâncias de avaliação financeira, isso sem falar do fichamento (resumo) de um material de assunto similar cedido pelo professor... Tudo bonitinho para a sexta seguinte. Ok, até aí tudo bem, o seguinte que é a minha indignação... O professor Bartolomeu disse que vai escolher alunos ao aleatório para explanação do ensaio, relacionando com o fichamento. Que não significaria problemas... até que ele deixara nas entrelinhas de sua ordem quem seria o alvo, que de aleatório não tinha nada.
Depois ele que reclamava de favoritismo! Passou a aula toda me alfinetando como se eu estivesse sob teste por todo momento, coisa que me irritava e ainda deixava os outros alunos desconfortáveis quando realmente tinham alguma dúvida. Se ele acha que isso me derruba fácil, está muito enganado. Todo tomate que ele jogar para me humilhar vou rebater... e espero que algum dia possa pegar em um de seus olhos e vou dizer “opa”. Nesse meio tempo tenho que fazer o trabalho chato, querendo que fosse algo ligeiro e fácil como na tv para me dar bem e me livrar logo, porque de pendências eu tinha muito, não iria deixar esse homem me alugar.
Nem seguiria suas dicas de estada na viagem do evento para estudantes de Administração, o EREAD, para ficar bem longe dele. Viajar pra encontrá-lo numa mesma hospedagem era demais para mim, já me bastava ter ele em minha cidade, que era saco o bastante. Assim, logo que finalizo o bendito fichamento e termino as pesquisas para o caso que deveria analisar, inicio uma nova busca linda no Google: passagens e pousadas que Djane me indicou para avaliar dentro de meu orçamento.
No dia anterior havia combinado com os amigos os dias que ficaríamos fora, planejamos algumas coisas, como pegar avião, que era mais prático, avaliamos trabalhos para apresentar lá. Iríamos numa segunda, porque o evento começa na terça e termina na sexta, o que nos daria um bônus de ficar lá até domingo.
Como quinta-feira foi o dia que Vinícius se esparramou no sofá doente, nem se eu quisesse ele me deixaria ir para faculdade. Perdi foi a aula da mãe dele, um inconveniente conveniente, pois era só dois horários mesmo. Esse período me calhou umas certas folgas no que se pode falar enquanto à grade semanal. Às quintas e sextas tenho apenas dois horários; na quinta com Djane, bom, na sexta com o chato ao quadrado do Bartolomeu.
Vinícius também ficou com horário vago, entretanto, para às terças e quartas, o que o deixou bem frustrado. Certamente pegaria meio mal para o seu lado sim, mas se tratando da saúde dele, não poderia deixá-lo desfazer-se do jeito que estava numa sala de aula. Anderson estava o cobrindo e certamente apareceria hoje em sua casa para atualizá-lo das atividades acadêmicas, Djane havia me dito.
Como cuidei de seu filho até aparecer, Djane me inteirou de sua aula e entregou-me um material com os assuntos. Quis repreendê-la por fazer isso, eu era a aluna que faltava, mesmo para cuidar de Vinícius, e não devia receber ajuda, eu quem deveria correr atrás. Porque a verdade era que, por mais que eu não ligasse para o que falam de mim pela faculdade, pelos cochichos, as fofocas têm tomado forma e se direcionado a mim, como o professor Bart que no dia seguinte ficou no meu pé na aula.
Qualquer coisa está virando motivo pra me perturbarem, então se evitarem me fazer qualquer favor, já me é um favor por si só. Mas não falei nada, ela estava muito cansada e muito cansada até de ouvir falar o nome daquele professor, e a deixei apenas ser mãe, e estar agradecida por cuidar de seu “filhote”, que logo acordara sem febre alguma.
Como tive que ir para a aula na sexta, Murilo ficou com o turno de enfermeiro do amigo. Apesar de Djane não ter dado aula, teve de ficar na faculdade e foi com ela que eu voltei... Informou-me que logo logo todos saberiam o que era o problema que circundava o departamento, estavam esperando um pronunciamento do conselho para qualquer tomada de posição. As opções de solução é que deu motivo de explosão lá dentro. Sinceramente? Eu não estava entendendo mais nada. Mas também não questionei.
Graças que dona Bia estava bem melhor e resolveu dar uma geralzinha, mesmo sendo sábado, ela se sentia em dívida. Seus dias esse ano foram para estabelecidos para segundas, quartas e sextas, trabalhando apenas um expediente. Ela apareceu tão cedo que não era nem 9h30 da manhã o almoço estava pronto. Me tirou pelo menos esse trabalho, porque não estava com coragem mesmo de preparar ou comprar alguma coisa, e não queria ter que aceitar um convite da sogra, pois sou entendida o bastante de deixá-la um pouco com seu filho, que melhorava devagar.
Nisso, avaliava alguns preços e sites para comentar com a galera depois sobre a viagem quando Murilo chegou. Sua situação com a Aline era tão tensa que de longe eu via que ele não estava nos seus melhores dias... Sentia-me um pouco mal por ter dado tanta esperança a ele com uma teoria que ele me fez abrir a boca pra falar, a teoria do “segundo beijo”.
Se trata mais ou menos daquilo que “define” certo status para o relacionamento de um casal, pois o primeiro beijo é aquele no auge da emoção, um momento de surpresa e carregado de incertezas, inseguranças e dúvidas, como uma pisada em falso, que se dá apenas para testar o risco. Vem de um impulso, de uma emergência, de precipitação e deixa aquela questão na cabeça dos envolvidos...
A confusão do “rolou beijo... e agora? Como ficamos?”.
E então vem aquele momento cair a ficha, de dar atenção ao que realmente aconteceu, dar razão para o ato “impensado”. O segundo beijo então pode funcionar como uma marca, é aquela atitude já pensada – apesar de não exatamente calculada – que funciona como a certeza do casal.
Mas é só uma teoria – da série de tv que havia comentado com Vinícius, Dawson’s Creek o nome – e foi muito estranho explanar isso numa mesa para meu namorado e irmão. É o tipo de conversa que não imaginava mesmo ter na relação que mantemos os três. Uma mistura de amizade, fraternidade e... amor. Eu diria “já podem me enterrar” se a Aline não tivesse tomado chá de sumiço depois de ter evitado meu irmão.
Ele voltou para o trabalho, após o almoço na casa de Djane, animado e ansioso, e voltou para casa à noite pensativo e todo jururu. Aline desde então não apareceu mais no trabalho, não deu mais notícias, está com o celular desligado, ninguém sabe dela. Mais cedo nessa manhã mesmo eu havia ligado para ele para pedir que comprasse vitamina C na farmácia para nós dois, pois as chuvas, mesmo fracas, continuavam na sua temporada e ficar doente não é luxo que posso me dar por essas épocas. Só por dizer, perguntei de Aline e... nada, nada mesmo.
Mais deitada do que realmente sentada na cadeira, observei Murilo ir para seu quarto sem muito ânimo. Um tempo depois retornou. Quando foi me entregar as embalagens de vitamina C, apercebeu-se do que eu fazia e, pelo franzido que fez de pé ao meu lado na mesa, estranhou o conteúdo da página de meu computador:
– O que tá fazendo?
– Vendo umas passagens...
– Passagens?
– É... e uns locais de estada, pousadas, albergues, hotéis, essas coisas. Ah, vou viajar. Evento da faculdade.
– Quando isso?
– Daqui uns... quatro meses.
Surpreendeu-se e fez uma contagem baixa pelos dedos das mãos, ainda segurando a sacolinha da farmácia. Algo não bateu bem e ele me cortou.
– Quatro meses? Um, dois... Não, não vai não.
– Como assim, não, não vou?
Paro na mesma hora de manusear o touchpad do notebook, encaro-o confusa.
Ele fecha meu notebook como se dissesse para uma filha “não, chega de piano, fecha isso, você não vai tocar”, só que na versão “você não vai nessa viagem, larga de mão”. De primeira juro que ele está brincando... porque ele só pode estar. De todo esse tempo ele vem se aproximando devagar, testando território e aos poucos dos aos poucos temos progredido. Ele não iria estragar isso a essa altura do campeonato, iria? IRIA?
Iria.
– Você não vai. Simples.
– Há. Por quê?
Me ajeito na cadeira, levanto-me para o peitar ali mesmo na sala, que já trazia uma expressão tensa. Lá estava ele cruzando os braços, firmes ao peito.
– Porque... porque eu não posso ir.
Me pergunto se a Aline levou com ela os parafusos da cabeça dele.
– E? Não te convidei.
– Você não pode viajar sozinha.
Hã? Como que é a história aí?
– Quem disse?
– Eu disse. Você não vai.
Aham, até parece que eu ia tomar essa ordem. Humf, ordem! Eu lá recebo ordens do Murilo? Se isso pode ser chamado de direito, ele perdeu comigo há muito tempo. Faço uns tsc tsc em desaprovação, meneio a cabeça e vou até a cozinha beber uma água. Pra refrescar a cabeça e me impedir de falar qualquer outra merda. Só que Murilo quer mesmo me barrar, me segue, com aquela mesma expressão.
– Sabe, às vezes você esquece que não tem autoridade alguma comigo.
– Tenho permissão de nossos pais.
– Grande coisa. Eles mesmos estão me ajudando com umas despesas. Falei com eles ontem.
– O QUÊ?
Ele é surdo ou o quê? Sorte a dele que ainda tô sendo boazinha. Podia ter estourado já. Depois de tudo ele achou mesmo que eu iria “acatar” um absurdo desses?
– Não precisa essa cara de tapado.
Ia levando o copo à boca quando ele me intercepta no caminho e tira de mim. Mas nem beber água eu posso? Que sacanagem é essa?
– Mas... você não pode ir.
– Ora, por que não?
– Porque eu não vou poder ir, tenho planos feitos para daqui quatro meses no trabalho e não posso faltar. Se não posso te acompanhar, não tem quem possa estar lá te protegendo. Sabe-se lá o que acontece por aí.
Sério... SÉRIO que era por isso? Ah vá!
Se ele repete discurso, eu também sei o fazer. Só que sou mais decente.
– Sei me cuidar sozinha e muito bem, tá. E não é só você que tem planos. Além disso, vai ter muita gente da faculdade. O evento é de Administração. Satisfeito?
– Não. Todo mundo sabe que essas viagens, encontros, simpósios, congressos, o que seja, são apenas desculpas para extravagâncias dos alunos.
– Dá pra parar? Que coisa. Você não é meu pai. Nem papai tá assim. E vão ser poucos dias, nada demais.
– Vinícius vai?
Fiz cara de tédio.
– E ele faz Administração?
– E só se pode ir quem faz Administração?
Ele me cansa a beleza.
– Claro, você acha que vai aparecer alguém de História, Artes ou Medicina num evento de Administração? Publicidade e Comunicação ainda vai, né... Se Vini queria ir pra faculdade doente daquele jeito pra não perder aula, imagina se ele perderia uma semana quase de aulas só pra ir num evento que nem é da área dele.
– Milena... eu só acho que...
Se ele não me devolve o copo, que fique com ele então. Saio de sua vista retornando à sala, puxo o carregador da tomada e enrolo em cima do notebook. Melhor findar por onde estava e me afastar dele. Eu hein! Não vou me estressar com isso.
– Que eu tenho que aceitar esse teu argumento fajuto de três séculos atrás? Ah faça-me o favor, Murilo... Eu não vou ficar tendo essa discussão a cada passo que tiver que dar na vida. Já sabe minha opinião e o que eu vou fazer, isso é o bastante.
– Ah e você acha que vou deixar assim? Pra pagar uma conta você já foi quase atacada ou coisa pior, tive que saber por terceiros. E agora quer se meter numa cidade que você nem conhece? Eu vou ligar para nossos pais...
Droga! Tinha esquecido que ele ouviu Sávio contando sobre como nos conhecemos. Será que ele estava guardando argumento para quando discutisse comigo? Não sei. Não importa.
– Pois liga. Com ou sem vocês eu vou nessa viagem e não vai ser você a me impedir. Agora com licença, porque eu sou educada, tá? Fecho por aqui.
E saio com o notebook debaixo do braço.
– Milena, espera... essa conversa não terminou.
Só quando chego na porta de meu quarto que me volto para ele. Decepcionada.
E eu achando que quem estava em falta com ele era eu.
– Sabe, tenho pena dos filhos que você tiver. Cruzes se for menina. Mas pensando bem, que seja uma, porque só você no auge da loucura vai entender. Ela vai sofrer e você verá que é o culpado disso. De qualquer forma, vou estar lá por ela. Porque EU saberei entendê-la.
Bato a porta, uma batida que largamente é ouvida e que, enfim, silenciou-nos.
Pelo menos por uns minutinhos de eu só acertar a playlist especial dele.
~;~
Eu acredito que música seja um recurso terapêutico.
Ajuda na concentração, no pensamento... nos no guia no tempo e nas decisões. Às vezes nem precisa de letra, só ritmo, melodia. Música é o chocolate de nossos ouvidos... Uma vibração da música pode mesmo despertar a endorfina, uma vez que diz ao cérebro que existe um espaço de tempo só seu e da música. E a explosão de emoções que ficam presas ao peito, que precisam ser expressas? Sempre haverá alguém, de algum lugar do mundo, que teve voz suficiente e que já disse. Ou parecido.
Muito indignada com a discussão que tive com meu irmão, resolvi retomar uma playlist que eu tocava sempre quando ele quis medir autoridade comigo, ou me frescar a paciência com essa história de proteção. Não era uma lista grande, eram duas músicas apenas, em overdose de repeat nas alturas... “Overprotected” e “Stronger” da Britney Spears.
Trilha citada: Britney Spears – Overprotected
http://www.youtube.com/watch?v=wwQ7X1Pjpvs
Trilha citada: Britney Spears – Stronger
http://www.youtube.com/watch?v=IKsQLk5DMhM
Me veio a calhar de certa forma.
Porque o contato com cálculos, tabelas, índices e número, muitos números, sempre me pedia música de fundo, uma qualquer só para não ficar aquele silêncio e pudesse dar caminho ao pensamento. Então não me atrapalhava em nada enquanto estudava meu caso de administração financeira, a Britney continuava em looping infinito tomando nossa casa, gritando para o Murilo o que achávamos daquilo e que revolta era aquela que sentíamos.
Não me surpreenderia se no ensaio que começava a fazer umas normatizações primeiras eu soltasse uma citação da Britney... “You’re gonna have to see through my perspective”, de “Overprotected”, por exemplo, seria uma boa. Infelizmente professor Bart não iria entender a base emocional daquilo, coisa que eu não poderia arriscar se também tô numa batalha com ele.
Apesar de chato, eu até que poderia agradecer a ele por essa atividade, pois é com ela que descarrego minha frustração, os números, o som, a eletrização do meu pensamento dispersava o estresse de ter brigado com meu irmão. Nesse meio tempo, a Britney continuava fazendo uma barreira emocional que afastava Murilo e lhe dizia as boas verdades: precisava de tempo, espaço, só para mim. Minha perspectiva? Preciso dos meus próprios erros, aprender do jeito certo.
I need time (time)
(love)
Joy (joy)
I need space (love)
I need me
(Action!)
Say hello to the girl that I am!
You're gonna have to see through my perspective
I need to make mistakes just to learn who I am
And I don't wanna be so damn protected
Eu preciso de tempo (tempo)
(amor)
Diversão (diversão)
Preciso de espaço (amor)
Preciso de mim
Ação!
Diga olá para a garota que sou
Você verá através de minha perspectiva
Preciso cometer erros só pra aprender quem eu sou
E não quero ser tão merda de protegida
(...)
Ele não viveria por todo o sempre grudado a mim, Murilo tem que entender isso. Não adianta ele me sufocar com seus apertos de proteção. Isso lhe cega tanto que não percebe o quanto quero é me desprender dele. Eu tenho opinião, sei do que gosto, do que não gosto, e não preciso ser corrigida. Ele não detém a verdade para me exigir isso.
Não preciso ser protegida.
I tell 'em what I like
What I want
What I don't
But every time I do I stand corrected
Things that I've known
I can't believe what I hear about the world, I realize
I'm Overprotected
Eu digo o que eu gosto
O que quero
O que não quero
Mas todo vez que digo sou corrigida
Coisas que sei
Não posso acredito sobre o que ouço do mundo, percebo
Sou superprotegida
(...)
Isso é me anular, não deixar-me eu ser eu.
Cansei de ser aquela que fica no imaginário das pessoas, aquela que sempre deve ceder, aquela que... não sou eu. Como se não tivesse minhas próprias coisas, minhas vontades.
I say (no no)
And nobody's telling me just what i wanna (do do)
I'm so fed up with people telling me to be-e
Someone else but me
Eu digo (não não)
E ninguém está me dizendo justo aquilo que quero (que quero que quero)
Estou farta de pessoas me dizerem pra ser
Outra pessoa menos eu
(...)
Não vou ser essa pessoa idealizada. Não sou propriedade, não sou objeto, não sou robô.
Ok, já fiz besteira... caí e levantei. Doeu, claro, mas aprendi. E por ter aprendido que não dá pra ser manipulada que mais quero sair desse aperto. Sou forte, eu consigo, tanto me virar, quanto vencer. E se preciso de algo, é apenas apoio, não cercas.
I've had enough
I'm not your property as from today, baby
You might think that I won't make it on my own
But now I'm
Stronger than yesterday
Now it's nothing but my way
My loneliness ain't killing me no more
I'm, I'm stronger
Tive o bastante
Não sou sua propriedade a partir de hoje, querido
Você pode pensar que não posso lidar sozinha
Mas agora eu estou
Mais forte que ontem
Agora não há nada senão meu caminho
Minha solidão não está me matando mais
Eu estou, estou mais forte
Ao tempo do almoço que abri a porta do quarto, só pra poder buscar meu prato. Murilo estava na mesa da sala fazendo alguma coisa em seu notebook, ficou só me observar, que cantava a plenos pulmões ainda com a Britney. Só posso dizer que os cinco anos que se passaram desde minha última overdose de Britney continuam com as mesmas frustrações, tanto minhas, quanto dele.
Ele me chamou várias vezes. Me perseguiu quando, ao final da tarde, eu desliguei o som e dei as caras na sala, passei batido e fui pra rua. Tentou me interceptar, porém, mais rápida, alcancei a rua antes dele. Correu pra me alcançar, pegar no meu braço e fazer cena.
– Pra onde você vai?
– ...
– Lena, olha... eu entendi o recado, ok? Vamos conversar, hein? Civilizados.
– Você não mudou. Então também não mudo. Simples assim.
– Não faz assim, Lena, e-eu... eu tô tentando, poxa.
– Ficar calado ou remoendo o que eu faço não é tentar, Murilo. Nem se fazer a vítima. Me deixa, eu vou pra casa de Vinícius, estão me esperando.
– Eu te levo. Vou só pegar as ch...
– Não precisa, sei pegar ônibus.
– Mas...?
– Me deixa. Quer piorar tua situação?
E assim ele recuou, alterado, mas o fez.
Só esperava que não tivesse só entendido o recado, que as músicas, as letras já conhecidas por ele, surtissem algum efeito. Porque em mim elas faziam, elas grudaram por todo meu caminho.
Elas eram meu bota-fora.
~;~
Um dos poucos lados bom de se ficar doente é que sempre tem alguém pra cuidar de você. Ou pelo menos ao seu lado, não importa quão horrível que você esteja.
Estava no meu “expediente”.
Porém, era o doente que queria cuidar da sua “enfermeira”:
– Você não tá legal.
– Você que não tá legal. Ainda tá meio rouco. Ainda dói muito a garganta?
Ok, eu desviava o assunto. Intensifiquei até o cafuné pra ver se Vinícius deixava o assunto de lado. Depois da briga, eu tinha mandado uma mensagem pra ele, algo como “Antes que ele fofoque, nós brigamos. As questões de sempre. Tô bem, não se preocupe”. Mandei outra quando ia para sua casa. Como estava longe do celular e o sono da gripe não o deixava se mexer muito, só quando Murilo chegou, primeiro que eu, que Vini olhou.
Devo agradecer a Djane por ter levado meu irmão ao supermercado quando eu pisei na sua casa. Imaginei que assim me sentiria se encontrasse com o professor Bart na mesma hospedagem, de sair do lugar, mas parecer que não tinha se deslocado, porque o “vilão” estava na sua cola do mesmo jeito.
– O que é minha dor de garganta perto dessa tristeza em seus olhos?
Vinícius tocou-me ao queixo para centrar-me nele, deitado no meu colo. De fato estava pensativa, vagueante ao filme na tv que eu não compreendia. Só sei que era de ação pelos vários tiros que batiam lá no cérebro distraído.
– Não é tristeza, é... só cansaço. A primeira oportunidade que ele poderia mostrar-se mudado com vem dizendo, Murilo dá esse salto para trás. Acho que Aline fugiu com os parafusos dele...
Vendo que eu não tinha atenção mesmo ao filme, Vini se levantou e quis trocar de lugar, ele o acalentador, eu a acalentada. Me abracei a ele quando sentou-se devidamente no sofá. Suspirei fundo ao estar assim com ele, meu ouvido ao pé de seu coração, quase debruçada nele, que me rodeava em seus braços. Senti seu beijo ao topo da minha cabeça. Que eu pegasse gripe, tava nem aí mais.
– Se importa se amanhã eu não for ao almoço na casa de seu avô?
– Me importo sim. Por que não? Se eu, do jeito que tô, vou...
– Não tô muito no clima com essa situação com Murilo.
– E você acha que tô no clima todo domingo pra ver o Filipe?
Justo.
– Ah, ele é seu pai.
– Ele não... enfim, só por isso, Murilo é seu irmão. Dá uma chance, vai. Foi um deslize, ele tá tentando se acostumar. E você disse que se eu fizesse um esforço de ver meu... de ver Filipe, mesmo de longe para acalmar os nervos, disse que faria qualquer coisa que eu pedisse. Então, bom, esse é meu pedido. Se estará por mim, estarei por você.
Suspiro mais uma vez. Golpe baixo o dele também.
Mas já que entramos no assunto mesmo...
– Desculpa se o deixei ir na sua festa, é que... ele insistiu tanto domingo passado. Prometeu que não se aproximaria de você se não o quisesse... Vocês têm uma história muito intensa.
– Você e Murilo também... e já que falou em Filipe, tenho uma pergunta.
Me desenlaço dele para encará-lo. O que seria dessa vez?
– Na quinta, quando eu insisti em ir para a faculdade... você... hum... por que disse que chamaria meu pai? Quer dizer, Filipe? Por que não minha mãe?
– Disse a ela que cuidaria de você. Ela tem tido muitas preocupações com...
– Com...?
– A faculdade.
Brincando com minhas mãos, de se entrelaçar nelas ele prossegue a conversa.
– Ela tá mesmo estranha esses dias. O que está havendo?
– Algo com a diretoria, eu não sei bem, ninguém de fora sabe.
– É ruim?
– Parece ruim.
Acho bonitinho que ele tenciona um pouco a mandíbula, incerto do assunto. Ele tem agora uma relação ótima com a mãe. Vê-lo inquieto por isso é uma felicidade para Djane. Quem diria...
– Devo me preocupar também? Ir atrás?
– Melhor não, ela virá até você. Só... seja um bom filho.
Ele puxa meu nariz. Eu aponto para o seu, que segura meu dedo em repreensão.
– E você, uma boa irmã.
– Já sou. A falta é dele, não minha.
– Lena...
– Eu sei, eu sei. Mas é desse jeito que me sinto. E se não muda, eu também não.
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