Notas iniciais
FELIZ 2013333333333333 :D Opa! Feliz 2025 ❤ Vim abrir o Nyah e agora já é PLUS FICTION! Confesso que vinha lendo no último mês na nova plataforma, só testando mesmo, tateando as opções de leitura e TÁ APROVADÍSSIMO! Mas o Nyah... Ah, o Nyah vai deixar saudades. Anos e anos sendo esse cantinho de conforto, né? MAS ESSA GALERA AQUI TRANSCENDE PLATAFORMAS, TRANSCENDE CORAÇÕES - e quem sabe gerações? A ótima notícia de hoje é que TEM MUITA COISA escrita e já revisada! Tô meio perdida nas configurações novas, mas VEM AÍ! Antes de tudo: VAMO DE CAPÍTULO GIGANTÃO?

Diferente do dia anterior, em que acordei em júbilo com o feito do Murilo, que se sobrepôs à batalha desgracenta de trovões, acordo meio perdida do que me parece ter sido uma noite sem sonhos. Acho. Não sei. Já não confio na minha própria cabeça quanto a isso. Não sei o quanto confiar em minhas memórias até.

Mas tento puxá-las de volta conforme pisco e me situo no meu próprio quarto.

Também diferente do dia anterior, o sol não tá na minha cara. Nem sol há. O ambiente se encontra bem escuro e o clima, friozinho. Não é para menos, vez que a chuva chia lá fora, caindo forte ao telhado e ao terraço, o que quase abafa o som do mp4, que continua do meu ladinho na cama. Para mais uma coincidência de vida, toca uma música amena dos Backstreet Boys. Acho que I Still. Quando chega no refrão de novo, confirmo.

Sem ninguém à vista, só levanto a cabeça rapidamente para conferir a hora no relógio da mesa; são 9h55. Volto a me enroscar ao lençol, me embolar no travesseiro e me coloco deitada de lado, tentando relembrar um pouco mais do que se sucedeu.

Sei que depois do jantar, quando o Murilo me repassou o fone de ouvido, o pequeno mesmo, eu não quis. Eu deliberadamente neguei. Ele até achou estranho e insistiu, mas daí mamãe me chamou pra alguma coisa e o Murilo acabou colocando no bolso do meu vestido, dizendo para deixar lá pra todo caso. Como também me encontrei avulsa, diversas vezes durante o dia e principalmente à noite, isso acabou ficando à deriva junto. Fui relembrar do fone só quando, já baqueada de tudo, me retirei para poder trocar de roupa.

A questão, que não tive como explicar na hora, é que eu não queria me fechar para o mundo. Tanto é que aumentei bastante o volume da televisão, para poder abafar um pouco do que seria os primeiros trovões. Não sei se foi ingenuidade minha ou se foi só pouco neurônio meu trabalhando – muito provável que os dois. O que sei é que começou a chover já quase 1h da manhã e não muito tempo depois começaram os primeiros trovões, bem baixos. Eu já estava de pijama no sofá quando aconteceu. Me despedi de mamãe e o Vinícius me acompanhou até a porta do quarto, onde o Murilo me esperava.

- Vai ficar tudo bem. Você dá conta.

De olhos cheios, abracei o torso dele.

- Agora quero que repita isso pra mim.

Meu Vini mesmo me soltou dele, para poder me olhar e me entregar à batalha da vez. Com um carinho ao rosto, me incentivou de novo.

- Sei que não tá agradável, mas eu confio em vocês e sei que podem lidar com isso. Estarei aqui fora caso precisem de alguma coisa. E quando acabar, porque sempre acaba, vou lá te dar um beijo de boa noite.

Entrei ao quarto pensando já sobre esse final, que é a parte boa. Sentei à cama, não lá muito dotada de coragem para guerrear contra as sensações que já começavam a me apertar, e logo começamos o processo. As jogadas de respiração, concentração e todo um borrão. Sei que em alguns momentos ouvi os trovões e chorei e ouvi a chuva e a angústia me pegou. Sei também que em certos instantes foi suportável. Acho que consegui associar o barulho tenebroso ao que foi minha vitória da vez passada.

Nessa, o Murilo não precisou gritar. Nem eu espernear. A chuva deu uma aplacada, não sei. Foi bem mais razoável do que aquele atentado anterior. Ainda mexeu comigo, mas eu consegui mergulhar mais no experimento, seguir os passos. Ao final, eu mesma peguei o mp4 do lado do meu travesseiro e procurei o mesmo áudio anterior. Como havia encarado ele por tanto tempo na crise passada, lembrava que o número do nome do arquivo era parecido com o meu CPF. AS489630. Não precisava adivinhar as músicas, só me concentrar nelas.

Foi nessa hora que mamãe e o Vini entraram no quarto. Sonolenta ao escuro, não vi muita coisa. Acho que conversei com o Vinícius. É, eu brinquei. Apática, mas, com certa vida ainda, acho.

- Nem chorei... Mentira, chorei sim. Mas tô tranquila agora.

Não sei dizer se eles saíram e eu dormi, ou se eu dormi e eles ficaram. Só sei que dormi e agora acordei. Temerosa e apreensiva. Não pelos trovões, mas sim pelo que eles me fazem fazer... Enquanto antes não queria me fechar para o mundo, agora minha preocupação reside no quanto posso ter sido aberta durante o sono. Mesmo que estivesse com pessoas queridas e que eu posso confiar, isso me angustia.

— Ih, amorzinho. Já acordou?

Me sentindo fora de órbita, visualizo mamãe, que adentra o quarto com algo nos braços. Não consigo distinguir do que se trata, só me parece ser algo do tipo uma colcha dobrada. Ela vem para perto de mim, na lateral da cama.

— Tá cedo, querida. Pode dormir mais se quiser.

Uma lágrima desce assim que ela me toca o rosto.

— Filha, tá tudo bem, viu.

No que eu desvio o olhar para o chão, acho que isso mostra que não está.

— Tá sentindo algo?

Sinto sua preocupação. Estava a ponto de chamar o Murilo aposto. Passo o braço no nariz e pergunto diretamente.

— Eu... Eu falei alguma coisa... e-essa noite?

Mamãe enternece na hora. Suspira e se agacha para ficar emparelhada comigo.

— Não disse nadinha não. Quer dizer, se disse, eu não ouvi.

Ela me acarinha o rosto e os cabelos.

— Você dormiu bem mais leve, meu amor. Isso eu posso atestar com toda a certeza. Não sente que dormiu melhor?

— Acho que sim... Sinto um pouco de... cansaço, mas sinto que dormi.

— Que bom. Quer que eu pegue um suco ou café?

— Suco. Tem de acerola?

— Tem e tá prontinho. Volto já. Ou prefere que o Vini venha?

— A senhora mesmo.

— Tudo bem. Vai levantando que volto num pulo.

Me demoro um pouquinho na posição, encarando o chão. Ela não sabe dizer se falei algo. Dessa vez não ouviu. Ou dormiu e não percebeu. Não sei o que eu teria falado ou se falei. Só não me sinto tranquila com isso. Mas me forço a sentar, mesmo com isso me revolvendo a barriga, como se tivesse algo ali para vomitar.

Talvez estivesse precisando mesmo vomitar.

Mamãe me encontra sentada ao meio da cama quando retorna. Ela se coloca à borda, voltada para mim e me entrega o copo com sua amorosidade maior. De me acarinhar os cabelos e passar os dedos abaixo dos meus olhos para levar o restante das gotículas quentes embora. Acho que o fato de haver doçura e não preocupação nela seja um bom sinal.

— Eu perguntei pro seu irmão. Fui bem discretinha, tá? Ele também disse que não ouviu você dizer nada.

Dou um suspiro, meio perdido, meio agradecido pelo gesto, mas não sei dizer se de algum alívio. Volto às minhas goladas, enquanto mamãe preenche o espaço outra vez.

— Vou jajá lá de novo, pra pegar o seu sanduíche, que tá terminando de esquentar na sanduicheira. O Murilo tá lá, olhando. Já tá preparando o almoço.

Ouso perguntar, encarando os goles faltantes no copo.

— E o Vini?

— Tá no banho.

— Ele dormiu onde mesmo?

— No quarto do seu irmão. Ficou conversando comigo até tudo acabar.

Sua resposta ecoa na minha cabeça. Até tudo acabar.

Mesmo que a acerola atinja meu estômago vazio, sinto-o esquentar com aquele quente ruim. Quase uma pontada. De algo que eu preciso colocar pra fora. De uma coisa que eu não havia contado a minha mãe ainda.

Segurando a boca como quem segura a ânsia, chamo sua atenção.

— Mãe.

— Juro que não falamos nada demais.

Fecho os olhos e solto. Apenas solto. Largo de vez.

— A Flávia me ouviu falar durante o sono.

— Quê?

Seguro dessa vez os lábios trêmulos, amassando um no outro. Sem abrir os olhos, comprimindo a mim mesma, tento ter algum domínio sobre meu corpo.

— Ac-conteceu... Aconteceu quando... quando eu fiquei aquele tempo... na casa dela. Ela me ouviu... falar... c-coisas.

— Meu amor!

Mamãe pega o copo de suco de minhas mãos e me puxa para ela, para um abraço de proteção. Me escondo no vão de seu pescoço e por mais que o choro fique embaraçado ao momento, luto para tirar de mim o restante que ficou.

— Eram c-coisas... da faculdade. Que Djane... que ela... ela confiou a mim.

— Ah, por isso que... que vocês... E que Djane sabia. Ô, querida. Meu amorzinho.

Mamãe me aperta mais contra si, balançando a nós duas como quem nana uma criança. Nesse momento, sou mesmo uma criança precisando de conforto e abrigo.

Passando a mão em meus cabelos, mamãe também fica afetada.

— E ela espalhou, foi, querida? Foi isso que aconteceu?

Com certo impulso, me desvencilho dela, porém, não a encaro. Fito o botão fora da casinha da blusa de minha mãe, ainda sentindo seu carinho e compreensão.

— N-não. De falar pra alguém, ela falou só pro Gui. Mas ela... a Flávia guardou isso... de mim. Usou d-dessa informação... e me escondeu. E eu descobri por acaso, por conta de... De uma briga dela com o Gui. Que eu presenciei.

— Ai, meu amorzinho. Essa vida adulta não tá facilitando mesmo.

— Não tá mesmo não.

Retruco baixinho, fungando e já sem coragem de esconder esse sentimento em mim. Assim, torno a fechar os olhos de novo e novas lágrimas descem com vontade por meu rosto. Mamãe me detém para seu pescoço novamente e ali desabafo o restante desse peso, que não se esvai por completo, mas alivia a tormenta.

— Muito, muito obrigada por me contar, meu amor. Entendo como isso é difícil. E como deve ter sido difícil com a menina Flávia. Desculpa se eu falei o que não devia ontem, de novo, e ter colocado isso sobre a superfície quando não... Mas não queria que se sentisse mal, tá, amorzinho. Acho que eu... Acho que me surpreendi, só isso. Quer dizer, você falar durante o sono, que isso aconteceu. Não sabia disso desde que era pequena. Mas o Murilo tava certo, não era pra agora e eu fui linguaruda.

Apertada em seu colinho, me permito falar um pouco mais sobre isso. Sobre a noite passada e como isso me pegou.

— A senhora tava no seu direito... de perguntar. Eu só... Acho que eu não tava preparada pra mexer com isso, não de novo. Mas não foi de todo ruim, sei lá. Porque é mesmo algo pra se observar acho. E eu precisava saber. Que tinha desandado de novo.

— Ain, querida, e eu trazendo isso à tona, sem querer.

— Tudo bem, mãe. A senhora não sabia. Eu também guardei essa da senhora.

— É, mas... acabei sendo bem intrometida, forcei uma barra. E nem disse que você tinha ficado fofa chamando o Murilo de “Muguilo”.

— Q-quê?

Me solto dela na mesma hora, sobressaltada e perdida.

— Você apenas soltou e foi assim... só chamou ele e... o Murilo disse “estou aqui”. Foi estranho porque eu tava presenciando, sei lá, e foi bem inesperado. E aí você ficou até mais serena, acho. Suavizou a expressão e voltou a dormir. Foi até fofo para as circunstâncias. Porque a sintonia de vocês é linda demais, filha. O companheirismo mesmo, sabe? Vocês têm essa relação muito bonita. Depois ele me explicou de como às vezes acontece quando você fica sob muito estresse. Mas que passa.

Mamãe me fala essa coisa preciosa, mas eu só consigo pensar no Gui e na Flávia se passando pelo Murilo para extrair informações de mim. Me aquieto um pouco, distante, de como isso ainda pesa no meu coração.

— O que foi, meu amor?

Acho que agora que abri a torneira, vem tudo. Fico tão além, tão apática, que nem meu corpo já reage tanto assim. Dessa forma, consigo falar só deixando que as palavras saiam de mim, como que derramadas, sem as pausas embaralhadas de choro.

— A Flávia se passou pelo Murilo. Ela e o Gui. Ela contou pro Gui e fez ele... Fez ele ficar no quarto... Pra os dois conversarem comigo. Pra fazer as perguntas certas. Comigo dormindo.

Mamãe fica sem resposta imediata. Como eu fiquei. Como todo mundo fica.

— Quando foi isso?

Me perco nessa. Tento voltar no tempo para lembrar quando desandou.

— Quando eu descobri? Acho que no começo de dezembro.

— E tem carregado tudo isso desde então?

Letárgica, quase posso dar de ombros. Mas então ouvimos um grito do Murilo na cozinha, pedindo auxílio, atarefado.

- MÃE, PRECISO DE VOCÊ AQUI! MUITA COISA!

Sinto que mamãe me encara, dividida, e eu só seguro sua mão nas minhas.

- MÃE!

— NUM MINUTO!

— Pode ir, mãe. Ele tá precisando.

— Vou lá e volto com seu sanduíche. É coisa rápida, juro!

Ao passo que ela sai, eu desabo no meu próprio colchão, também desacreditada de que falei tudo, que falei muito. Despejei. Acho que sinto algum alívio com isso.

~;~


Meio avulsa, mas apegada ao sentimento de que soltei grandes bolsas pesadas que carregava comigo (às costas, aos ombros e aos braços), fico tombada por um tempo na cama ouvindo o chiado baixo da chuva. O ritmo constante da chuva batendo no telhado. Parece que me lava a alma, sei lá. Ou abraça meu torpor. Quase um estado relaxante, que nem noto o quanto de ausente mamãe fica. Só sei que ela volta, como disse que voltaria.

— Trouxe um pouco mais de suco e seu sanduíche. Pra minha menina ficar forte.

Essa menina precisa desse cuidado, penso. Essa menina tá sendo menina-mulher por muito tempo e quer ser criança de novo. Ser leve de novo. Quem sabe por isso eu tenha chamado o Murilo de “Muguilo” no dia anterior, tal como aquela garotinha no centro meteorológico. Sobrinha ou prima do Armando. Ela foi fofa de chamá-lo assim. Eu fui fofa de guardar isso no meu inconsciente. Não é exatamente uma vergonha e acho que nem meu irmão encarou assim. Pelo contrário, ele me deu suporte. Eles estão me dando suporte. Estão sendo pessoas de ouro de reagir de uma melhor forma pra mim.

Isso eu aceito. Mesmo nesse estado dormente da vida, inerte, inanimada, aceito. Quero, aliás, morar nesses carinhos todos. Quero fechar a porta da casa e só ficar com eles assim. Eu dando a passagem e eles me enchendo de aconchego, mimos e calor. Ternura e delicadezas. Isso eu mereço depois de tudo. Isso eu mereço mesmo.

Ver mamãe ajustando a bandeja na minha cama me faz querer ela só pra mim. Um pouquinho só pra mim. Pra esse alívio me ganhar cada vez mais. Pra eu poder soltar as coisas cada vez mais.

— Pode fechar a porta, mãe?

Desorientada, ela olha de mim pra bandeja e a porta.

— Fechar?

— Dessa vez.

Quando entende mais ou menos o que quero dizer, ela assente e se dirige para fechar, só que no meio do caminho, deixa sua gentileza.

— Tá, mas antes de qualquer coisa, dê ao menos uma mordida no sanduíche.

Dou, mais como um agrado a ela do que a mim. O sabor acaba me atiçando e dou mais umas mordidas. Está morninho e delicioso. Dá pra reconhecer o queijo, o presunto e o requeijão. Acho que tem tomate de novo. E orégano.

— Tá gostoso?

Bebo um gole do suco para ajudar a engolir.

— Tá bem gostoso, obrigada.

— Seu irmão que preparou. Ele já tá quase terminando com o almoço.

Percebo que ela já está seguindo as orientações de como corresponder a mim e isso não me parece um mal sinal. Até me faz perceber que estou mais consciente. Quer dizer, estou com a memória no lugar. Com a cabeça no lugar. Isso também é precioso.

É extraordinário que ela tá me dando meu espaço e ao mesmo tempo se colocando aberta. E me deixando aberta, sem pressão. Finalizo o sanduíche e o suco em minutinhos que parecem segundos.

— Essa é minha garota. Comeu direitinho!

— Tenho o melhor serviço de quarto, pelo jeito.

— Tem sim, isso eu garanto.

Limpando um pouco dos dentes, me demoro de repente em algo que quero falar.

— Desculpa, mãe, por ter escondido coisas da senhora.

— Eu entendo, querida. Agora entendo. As barreiras, né? Barras quase físicas que fecharam esse seu coração. Uma tranca pra se proteger.

— Acho que isso mesmo. Com vocês tentando me acessar nos espaços entre as barras... Pra me abraçar em tudo o que sou e pra... me proteger de mim mesma.

— Algo que você faria se fosse com qualquer um de nós, não faria?

Isso me dá um estalo. Eu totalmente faria isso. Eu totalmente faço isso.

— S-sim.

— Fico muito feliz por essa abertura, filha. Muito mesmo. Dá muito sentido ao que seu irmão e o Vinícius fazem, e como fazem, e também um convite para me deixar ser essa pessoa também, que pode fazer algo por você, de uma maneira que só sendo mãe eu não poderia fazer. Mas agora eu posso. Posso ser e fazer uma variedade de coisas.

— A senhora fez muito nesses dias, pode apostar. Mesmo que nos fizesse paralisar em algumas instâncias, nos acolheu em muita coisa.

— É, mas precisei entender que tinha que fazer com paciência, nada apressada ou nada na chantagem... Até porque isso já não cola mais. Não quando é sério. Precisei encarar isso também. Pra poder acessar esses outros lados das histórias.

Suspiro e faço isso pesadamente, elevando e inflando essas palavras em mim, então soltando-as como devem ser liberadas.

— Acho que a gente do lado de cá teve que fazer isso também. Muitas doses de paciência e muitas doses de amor.

Mamãe me olha com um brilho diferente. Me permito ser um pouco brincalhona, no que dá diante disso.

— O quê, tem tomate nos meus dentes?

Como eu a segundos atrás, ela inspira e solta o ar devagar.

— É muito bom ver você falando, sabe? E falando mais aberta.

A I e o Vini também me disseram isso. Também ficaram impressionados com isso.

— Eu precisava “vomitar” assim faz um tempo, acho.

Faço as aspas e tudo, para que compreenda bem o sentido desse uso.

— Segurei essa ânsia mais do que deveria.

Ela meneia a cabeça.

— É compreensível dado ao que aconteceu. É uma... uma traição? Algo que tiraria qualquer um do eixo. Um quebra de fato. Da confiança e das coisas mútuas.

— Umas quebras mesmo. Uma traição. Eu também demorei a achar palavras.

— Você sabe por que ela fez isso?

— Eu tenho mais ou menos uma ideia, de coisas que ela me falou. Coisas que vinha me falando e... Na verdade, mãe, isso foi reflexo de outra coisa que aconteceu. Algo que eu quero contar, mas sei que não é pra agora. Vou precisar que seja mais paciente nisso.

— Vou tentar com todas as minhas forças. Pode, aliás, traçar os limites que precisar.

— Valeu. Isso até me faz querer dizer tudo de uma vez, mas... acho que tenho que lidar com uma coisa por vez.

Até mesmo para eu poder preservar minhas energias.

— Com certeza. Uma coisa de cada vez.

A confiança de mamãe, no entanto, me é uma força imensa.

— Então eu vou adiantar uma coisa pra senhora. Só pra poder entender mais do que foi isso. Porque... Quer dizer... Errr...

Mas nem mesmo a força significa achar as palavras certas. E não sei se há palavras certas. É confuso.

— Não precisa forçar isso, querida.

— Eu sei, eu só... quero que saiba essa parte. Que tem a ver... com a Denise. Eu não vou poder dizer agora, mas ela... ela me machucou. E machucou o Murilo também. Machucou muita gente ao meu redor... Eu demorei a ver, a entender, e a me recuperar. Nem sei se já me recuperei por completo... Mas isso afetou muito minha relação com o Murilo. Me afetou num nível que eu nem sei dizer na verdade.

Para não parecer que estou divagando, ou para deixar de ser menos confuso, aproveito para fazer um link com a referência que ela me deu recentemente, que conversamos por acaso.

— Eu sei que a senhora teve suas preocupações a respeito... e como falou no outro dia, quando a gente tava vendo aquela série... Ela realmente foi como aquela personagem, a Abby de Dawson’s Creek. Levantava o pior das pessoas e deixava um rastro de estrago. E tinha muito prazer de fazer isso.

— Ô, meu amor...

— Isso trouxe muitas turbulências entre mim e o Murilo. Porque ele não ligou muitos pontos sobre isso, e não ligou porque eu não deixei. Eu também não queria que ele soubesse. Mas um dia ele descobriu. E foi por conta da Flávia. Ela meio que assistiu como as coisas foram acontecendo e me deu muito, muito suporte mesmo. E olha que eu fiz uma série de besteiras naquele tempo. Ano passado. Ou ano retrasado... E isso também respingou no Vinícius. E por um tempo, até tive que ficar longe dele. Por isso que ele apareceu na nossa casa daquele jeito, no fim do ano passado. O Vini... ele tava tentando consertar as coisas. E eu dei com o vaso na cabeça dele.

Fato que nunca vou esquecer.

— Estava acuada, pelo jeito.

Sua resposta não só me faz sentir mais centrada, como me diz que estou na direção certa, que, por mais que eu não dê tantos detalhes, ela está compreendendo o que conto.

— Sim! Muito. Muito mesmo. Ele e o Murilo juntos me dava... Eles também demoraram a se moderar nessas coisas. Foram muitas brigas com isso, quase infinitas. Mas aí um dia... eu realmente fiquei entre a cruz e a espada com todo esse rolê sobre a Denise. O que é outra longa história. Mas fiquei contra a parede.

Percebo que ela quer perguntar e se retrai. Desse modo, tento resumir um pouco, para dar mais contexto e assim poder ceder os pontos certos para serem ligados.

— Uma pessoa, que também foi prejudicada pela Denise, tava me pedindo pra revelar as coisas. E fez mais do que me acuar. Foi quando cheguei no meu limite. E foi aí que eu contei a verdade... pra Flávia. Porque ela tava comigo quando algumas coisas aconteceram e tava vendo como a coisa toda tava sofrível e...

Um toc-toc se faz ser ouvido no quarto. Ambas olhamos para a porta.

— Milena? Posso entrar?

Vinícius basicamente mostra que há um mundo lá fora.

— Deixa que eu resolvo, querida.

— Mãe, já que... Pode trazer um pouco de água? E papel.

— Volto num minutinho!

Ouço a conversa baixa deles.

— Bom dia, dona Helena.

— Bom dia, querido. A Milena não tá muito disposta agora. Mas está bem. Dormiu bem. É até melhor você ir pra cozinha... que o Murilo... Ainda pouco ele me pediu ajuda, mas não pude ficar muito lá. Pode me cobrir nessa?

— Com certeza.

— Vai na frente que eu vou pegar as louças dela.

Quando mamãe volta para o quarto e pega a bandeja, agradeço silenciosamente com um movimento labial.


~;~


— Eles viram essa bandeja?

A tábua amadeirada dessa vez chega no quarto trazendo uma jarra de água, dois copos e um rolo de papel higiênico inteiro. Levanto as sobrancelhas num misto de surpresa e sensação de estar bem servida. E bem acompanhada.

Mamãe dá um sorrisinho bobo, levando as coisas para a mesinha do meu quarto.

— Viram. Ainda mais quando eu coloquei o rolo junto.

— E não disseram nada?

Ela enche um copo pra mim e me entrega, um pouco acanhada, mas um tantinho confiante também.

— Antes que perguntassem, eu disse que estava tudo bem e que se encaminhava para ficar ainda melhor. Pedi pra confiarem. Fiz mal?

— Não, fez bem. E fez de um modo interessante.

Enquanto dou minhas goladas, ela divaga um pouco.

— Até pensei em fazer pipoca, porque histórias, né, isso parece que te empolga, mas ao mesmo tempo não queria te deixar enjoadinha ou entupida de milho. Quero que tenha fome para apreciar o almoço.

Encaro minha mãe, admirada e chocada numa medida só.

— Tô falando besteira, né? Vou calar minha boquinha.

Devolvo o copo pra ela, já saciada.

— Não, pelo contrário. Me pareceu... sagaz... Tipo, a senhora ter percebido isso. Sobre o que me empolga. Sobre contar histórias. Sobre desatar essas histórias. Quem sabe não role um episódio de Dawson’s Creek mais tarde?

Até eu me admiro de propor isso.

— Quero. Mas quero isso aqui primeiro. Se você quiser também.

Ela aponta para nós duas, ajustando-se na cama. Depois da “vomitada” que dei, ou que comecei, sinto realmente que as coisas estão mais amenas dentro de mim. E eu quero mais disso. E entrego isso com sinceridade.

— Valeu pela compreensão, mãe. Isso é meio que... enorme... é enorme pra mim. De um jeito bom.

Dona Helena sorri agraciada em reciprocidade.

— Nem eu sei mensurar o que é pra mim, Milena. E essa música...


Natalie Imbruglia – Torn (1:45)

Seu olhar vaga para o nada, concentrada no trecho que toca no mp4 player. De acordo com o Luke, ele deixou algumas músicas mais completas porque achou que eram irresistíveis demais para deixar só uma parte. Assim ficou bem variado também. Essa clássica da Natalie Imbruglia é uma dessas tão irrefreáveis de se ouvir, por isso está mais completinha no áudio que roda. Gostei dessa ideia e perspectiva. Algo que também venho explorando conforme os usos durante os enfrentamentos.

Uma música anterior foi Viva Forever, das Spice Girls, bem levinha, que me lembrou da Daniela cantando no karaokê em sua casa, numa festa de pijama improvisada que fizemos faz um tempo. Foi inclusive a primeira vez que usamos o termo de “vomitar” como conotação. Mas na época ela achou que eu iria vomitar de fato.

Apesar de ser uma música lentinha, ela me acompanhou bem. Depois que mamãe saiu, eu aumentei um pouquinho o volume do player para poder me concentrar nos exercícios do pé, na beirada da cama. Embora já esteja com novo o suporte, não posso parar de fazer movimento nos pés. É nessa fase final mesmo que tenho que manter. Até o fim. Até depois do fim, quem sabe.

— Tenho a sensação de que essa eu conheço. Por alguma razão, me dá uma lembrança de água... e mar... praia.

Fico surpresa com essa.

— E o clipe não tem nada a ver isso. É só a cantora no próprio apartamento.

Mas mamãe fica realmente pensativa nisso, do tipo segurar o queixo e procurar mais dentre as memórias.

— Acho que era de alguma novela. Acho que ainda tenho um CD com ela.

Faz mais sentido. Pego o celular pra abrir o Google e jogar essas palavras-chaves. Logo uma cena (link) aparece e abro para ver. Coloco o celular no meio de nós, na cama. É uma cena de encerramento da novela Corpo Dourado com essa música de trilha sonora.

— Nunca ia adivinhar o nome dessa novela, mas sei que o CD tá... lá na estante da sala. Naquela parte do meio. Vou pedir pro seu pai localizar. Faz um tempo que não ouvia.

— A senhora dançava mesmo com o papai ouvindo um CD com os Backstreet Boys? Porque eu não me lembro disso.

— Acho que vocês já estavam morando aqui... Porque foi uma das coisas que a gente fez pra... Preencher a casa. De barulho. E era o barulho de vocês sem a gente saber.

— Awn, mãe.

— Coisas da vida, Milena. Apenas isso.

— É, acho que sim. E algumas coisas que quero falar... são para além dessas coisas da vida. Coisas que são difíceis, mas agora... acho que consigo... Onde eu parei mesmo? Quando o Vini bateu na porta.

— Acho que no vaso... que você... Não, espera, foi algo sobre a Flávia. Que tinha alguém querendo informações sobre a Denise e você contou pra Flávia.

Envolta disso e retomando nosso papo, balanço a cabeça confirmando que foi nesse ponto mesmo.

— É, eu acabei revelando do modo mais adoidado possível pra ela e a coisa toda explodiu. E eu explodi também.

Noto que divago e isso não explica nada pra mamãe, que aceita isso do jeito que vem. Então me endireito mais no colchão para poder entregar isso de um jeito mais acessível. Mas também perco fácil o fio dessa meada.

— Não me orgulho do que fiz nessa época... Porque eu fugi de todos. Quer dizer, a Flávia entregou o caderninho.

— Que caderninho?

Pego esse gancho pra nortear melhor a história.

— Acontece... que eu tinha provas do que a Denise fez, de uns anos atrás. De como arquitetou e... Coisas. É um caderno de anotações. Guardei por muito tempo, às vezes sem nem saber muito o porquê. Mas era uma prova. Na verdade, continua sendo uma grande prova. Porque ele ainda existe e ainda tá comigo.

Divago outra vez e tento novamente focar no meu objetivo.

— O que é outro papo. O fato é que nessa situação que tô falando... Uma pessoa tava atrás desse caderninho. Eu até cheguei a repassar, mesmo contra minha vontade. Depois ele me devolveu. A gente conversou sobre isso, sobre as pessoas envolvidas, sobre quem sabia a respeito... Eu sei que eu não tô sendo muito clara quanto a essa história, não te entregando os detalhes ou nomes...

— Tudo bem, Milena. Vá no seu tempo.

— Eu só quero que saiba que um dia eu vou contar isso, tá? Só não é hoje, tá?

— Por mim tudo bem, não precisa se preocupar. Não vou encher você de perguntas. Tô acompanhando e entendendo. Você conversou com a pessoa sobre o conteúdo. As pessoas envolvida na confusão.

Não sei se posso dizer que Anderson estava envolvido, não como o Eric, mas ele certamente se intrometeu e foi justo o Anderson que montou o circo todo. Não é um detalhe que eu possa entregar agora para minha mãe, então uso do bom português para driblar essa parte e continuar com o restante do panorama, porque é o panorama que importa aqui e agora.

— Isso. Essa e outra pessoa... na verdade. Que me pediram pra eu deixar de esconder. Mas eu não conseguia não esconder. Eu demorei muito a perceber a real índole da Denise e também a entender o que ela havia feito. Eu não sabia o quanto as pessoas, e aqui falo do Murilo também, o quanto acreditariam em mim. Porque tinham uma completa imagem diferente.

— Mas havia o caderninho.

— E havia histórias que eu queria esquecer. Então... foi mais fácil esconder, como quem joga tudo debaixo do tapete. No meu caso, dentro do meu guarda-roupa. Mas teve um evento que eu fui com a galera e acabei dando um encontrão com essas pessoas, essas que queriam que eu revelasse tudo. Nessa época, a Flávia tava separada do Gui, eles tinham terminado fazia umas semanas e ela tava precisando de mim, do meu apoio. Mas aí, com essas pessoas no evento... eu também precisei de apoio. Eu tava no meu limite.

Mamãe comprime a boca, com certa apreensão, porém, me incentiva em sua expressão, para que eu continue.

— Eu tava muito confusa com tudo. Sufocada até. Nesse evento, que era de teatro, eu meio que escapei do meu grupo e depois tentei voltar como se nada tivesse acontecido. Só que não adiantava mais eu esconder, porque tava totalmente na minha cara. O Vini percebeu. A Dani percebeu. A Flávia percebeu. Mas só ela me confrontou... pra saber a respeito. E eu ainda menti descaradamente.

Fui a pior atriz que poderia ser, de tão embaralhada que me encontrava, lembro.

— Só que, como eu tinha ficado na casa dela, por conta do encontro que ela teve com o Gui, eu... Quando foi de madrugada, eu desmoronei. Daí a Flávia me pegou perambulando pela casa, ruminando, escondida na dispensa. Ela não precisou me apertar muito para eu contar. Então eu revelei a história e mostrei o caderninho. Porque foi nesse dia que a pessoa me devolveu. E aí...

Sopro o ar, buscando um mínimo de autodomínio. Nesse ponto, mamãe segura minhas mãos e é gentil.

— Você consegue falar. Está em um ambiente seguro, comigo.

Tomo um pequeno fôlego e libero o restante.

— A Flávia fez o que eu deveria ter feito. Ela pegou o caderninho e entregou pro Vini. Contou tudo pro Vinícius. E ele pro Murilo. Isso tudo enquanto eu dormia. O que pareceu uma grande traição naquela época. E por conta disso, eu até fugi. Eu dei um sumiço louco.

Dona Helena me repreende, mas não no sentido de brigar ou... sei lá. É de chamar a atenção quando alguém faz merda. No caso, ali fiz merda.

— Filha!

— Eu sei, muito imprudente. Muito muito muito imprudente mesmo. Foi um negócio louco que me deu, incontrolável. Tava o Vini e o Murilo literalmente correndo atrás de mim na rua. Porque eu só descobri que eles sabiam quando eu cheguei em casa e vi o caderno na mesinha da sala. Eu fiquei num estado... de estátua para mega fujona. Morta de vergonha, morta de culpa. Só sei que corri, corri pela rua, fui pra avenida, peguei um ônibus e fugi deles.

— Pra onde você foi?

Sei que ela poderia ter perguntado outras coisas, outras mil coisas, e aceito que esteja se contendo por minha causa.

— Nem sei dizer por exato, parei onde o ônibus me deixou. Algum lugar com uma pracinha e umas clínicas. Só sei que daí ficou geral me procurando, me ligando. Ou era minha impressão de que era todo mundo... Porque o Sávio me ligou e era pra perguntar algo da faculdade. Ele percebeu que eu não tava bem. Daí quando vi que ele não sabia de nada mesmo, eu pedi ajuda. Pra me esconder. A Iara também não sabia de nada. Nessa época eles só se conheciam... ou tavam se conhecendo. E a Iara não tinha tanto contato com a família. Quer dizer, não com o Vini, ou o Murilo ou Djane. Então eu pedi pra ir pro apartamento dela.

— Que loucura, filha! Não queria mesmo ser encontrada.

Abaixo o rosto, encarando as unhas e com elas arranhando a pele, por chegar na parte difícil da difícil.

— Não queria mesmo não. Aproveitei das brechas conforme apareceram. O Sávio foi me encontrar e me deu carona, me deixou lá. Mas eu só fui depois de suplicar pra I de não revelar nada a ninguém, sob o risco de eu ir embora de novo.

— Um pedido muito difícil, Milena. Ainda mais que...

Levanto o rosto, de olhos vagos, para fugir do olhar dela, mas é complicado.

— Eu sei. E eu fiz esse pedido difícil. Fiz essa coisa horrível, mãe. Desculpa. O Murilo então... ele ficou um desastre. Quase quebrou a casa toda. Nesse período, ele ainda era todo movido a raiva... e a violência. Dessa vez, ao menos, a raiva não era de mim. E eu só soube disso porque o Seu Júlio ligou pro Filipe, pra avisar que eu tava sumida.

Mamãe leva as mãos ao rosto, tomada por esse alvoroço que lhe conto.

— Ô, meu Deus.

— A essa hora, ele já tinha chegado no apartamento e também ficou de mãos atadas com o que eu pedi. Com o que exigi dele por mil e uma razões. Mas essa ligação do vô Júlio... ela me quebrou demais. Ouvir o que ele disse e como tava preocupado e... nossa, me doeu tanto, mãe.

Abaixo a cabeça de novo ao passo que ela também se desmonta em suas aflições.

— Imagino que sim.

— Então deixei que o Filipe avisasse o Vini. Eles, inclusive, nem tavam se falando nesses tempos. O Vini quase não atendeu e até quando atendeu... Ele só permaneceu na ligação porque o Filipe falou o meu nome. Que tinha notícias minhas.

Nesse ponto, mamãe ajusta uma mecha minha do rosto para trás da orelha, mais centrada e mais racional, embora fungue de emoção.

— Como sempre, movendo histórias e pessoas.

— Ao menos um saldo bom nessa treta toda.

— Então o Vini foi te buscar?

— Mais ou menos. O Filipe passou meu recado, pra ser só o Vini a me ver no apartamento. Só que o Murilo foi também. Não sei como na minha cabeça seria possível ele não ir, só sei que foi assim. E foi uma das coisas mais difíceis deixar ele subir e... reencontrá-lo, com ele sabendo tudo.

A gente tava tão machucado um do outro que o Murilo ficou na porta do apartamento temendo a minha reação. Mas no instante que eu o vi, logo quis meu irmãozão de volta. Assim tomei os passos até ele, soltando todos os pesos que em mim restava. Ali retomamos nossa relação.

— Eu tava sendo uma tola e tava... Tava transtornada demais pra ver o que eu tinha na minha frente. Mas era também por conta dos problemas do Murilo, de como ele lidava com as coisas. Então era quase um padrão eu fugir dele, dos desmandos dele, do cerco que ele fazia. A senhora soube, não soube?

Passando os dedos rente aos olhos cheios, mamãe confirma com a cabeça.

— Algumas coisas sim.

Pego o rolo de papel logo ao meu lado e o aperto em reflexo das dificuldades daqueles dias insanos.

— As circunstâncias nos levaram a situações extremas. E precisou ele acordar pra eu poder deixar tudo aos pés dele, toda a verdade. Pra enfim deixar ele me abraçar. Não pra me proteger como um maluco insano. Pra isso, ele precisou trabalhar a consciência dele e o comportamento dele. Só assim pude soltar minhas amarras. Então a gente se reconciliou, ali mesmo na sala dos Muniz. Conversou e se abraçou.

Minha mãe não consegue conter as lágrimas dessa vez, assim puxo um pedaço de papel e passo no seu rosto, delicada.

— Daí eu jurei que não ia fazer mais nada dessas coisas. Sem mais fugas, sem mais segredos... Só que aí o Murilo quis acionar vocês. A senhora e o papai.

Meu braço cai ao espaço entre nós assim que lembro do que cometi frente a essa proposição do Murilo. Foi algo ruim, mas agora tô aqui assumindo.

— Era algo justo, porque se tratava de uma coisa séria e que precisava da ação de um adulto... Um mais ponderado. A gente tava total agindo pela emoção, isso era fato. Só que eu me fechei. Foi duro pra me abrir com tudo isso e achei que teria acabado ali, com a história do caderninho vindo à tona, mas isso... revelar a vocês, foi um pedido bem além da conta pra mim. Eu não q-quis dividir isso, mãe. Eu n-não... não quis contar. Desculpa, eu não q-quis.

— Ô, meu amorzinho.

Mamãe me toma o rosto com amabilidade. Logo passa também o papel em meu rosto, reforçando seus carinhos. Fungo só mesmo poder continuar essa imensa história e assumir tudo o que puder assumir.

— Eu quis preservar tanta coisa... Quis m-me preservar. Já tinha acontecido tanta doidice. E pra mim isso seria um baita golpe... Um misto de medo e vergonha, muita vergonha. Que eu não teria como acolher em mim. Não havia mais espaço em mim pra algo assim... entende?

Assoando o próprio nariz, mamãe assente, para depois enfatizar seu afago, um zelo que aceito sem pestanejar.

— Acho que sim. Ainda assim... Alguém devia ter contado. Como você disse, precisava da ação de um adulto a mais nisso. Não pra julgar ou pra dar ordens. Era pra acolher vocês.

— Isso certamente. Mas não entrava na minha cabeça. Então a gente ficou num pé de guerra com isso e por muito, muito tempo. Eu não queria ceder, ele não queria também... E isso nos consumiu bastante. Volta e meia discutíamos. E por isso que depois a proposta foi mudando. O Murilo tava tentando me driblar... E a ele mesmo, acho.

Mamãe me entrega um pedaço de papel, porque visivelmente eu precisava. Mas, no momento, eu me concentro em fazer dobraduras aleatórias do material enquanto deixo as palavras enfim escaparem de mim.

— Ficamos nessa de ver se falava, com quem falava, como falava. Quem falaria. Meio que destroçou mais a gente. Só que... tava ficando cada vez mais claro como tava afetando o Murilo. Aí eu decidi falar, nem que fosse por ele. Mas seria só pro papai e pro vovô.

Puxo um pouco do ar, embora as vias nasais estejam pra lá de entupidas, e me preparo um segundinho mais pra confessar meu delito nisso. Confessar meu erro. Culpa.

— D-de alguma forma, eu achei que a senhora... que a senhora não daria conta. Que eu teria que dar conta. E eu não queria detonar mais uma pessoa, que se preocupasse com isso ou que... Não sei, manchasse sua visão de mim.

À medida que encolho os ombros, minha mãe os segura com firmeza. Me dita também palavras com convicção. Só que esse conflito era outro tão antigo quanto os outros. Um machucado que ainda não havia sido de todo sanado.

— Nunca faria isso, filha. Nem se...

— A senhora ainda me tratava como criança. Não havia um tratamento de adulta. Até mesmo quando viu que eu tava tomando pílula... A senhora quase desfaleceu.

— Mas isso não deveria ser sua referência.

— Era a que eu tinha na época.

Abaixo a cabeça, comprimindo minha vergonha. Do ato de tê-la deixado de fora e do fato de eu não ter buscado consertar essa sua visão. Ao menos, de colocar em pauta.

Mamãe levanta meu rosto com cuidado e, é, também assume sua parte nisso.

— Eu demorei sim a te ver como mulher... e adulta. Isso assumo. E é claro que eu ia querer te proteger e te defender. Mas acima de tudo... te acolher.

— Como uma criança.

Uma lágrima desce enquanto luto contra minhas próprias ideias. Ainda assim, mamãe não me solta o rosto. Pelo contrário, firma sua mão ao meu queixo, bem concentrada.

— Como a minha filha. Que precisava de direção. Suporte e amor.

Aperto o papel ao nariz ao, outra vez, aperceber-me tardiamente disso.

— Acho que eu não me achava digna dessas coisas. Achava... Falhei até no que achava. Não tava com a cabeça no lugar. Nada tava no lugar. E pra completar, a Denise foi presa e o papai teve que ir ajudar nosso tio.

Dona Helena aperta o papel no seu nariz também.

— E o Murilo foi junto.

— Pra ele, foi uma janela de oportunidade, pra ele lidar com isso. E foi outro inferno, porque eu também não quis aceitar isso. Achei que pudesse estragá-lo ainda mais. Mas a gente conversou e aí vi... que ele precisava disso. De verdade.

Milena não desiste de Murilo e Murilo não desiste de Milena, um lema que acabou se tornando um bordão meu nessa saga toda.

— Com a iminência da viagem de papai, fizemos a ligação. Pro vovô e pro papai. Eles ficaram na loja, pra que ninguém mais ouvisse, ou soubesse. Porque ou era desse jeito... ou...

Mamãe irrompe essa com os olhos vagos em alguma lembrança.

— Foi bem repentino quando ele disse que o Murilo ia. E foi a piiiooooor explicação a que o seu pai me deu. Fiquei encasquetada desde ali.

De geniozinho alterado, ela demonstra aquela raiva que veio de viagem consigo.

— Eu sei que fiz mal, mãe. Desculpa. Desculpa mesmo. Até pouco tempo atrás eu teria ficado muito mal de saber como afetei a relação de vocês, como tive que fazer o papai mentir desse jeito. Na verdade, fiquei bastante mal com isso por um tempo. Por ter sido isso uma necessidade. Eu odiava... odeio... odeio como isso afetou pessoas que não tinham nada a ver. Logo as minhas pessoas favoritas do mundo. Foquei nisso e não conseguia ver nada mais com clareza.

Limpo um pouco da coriza antes de continuar.

— E eu sabia das suas desconfianças. Na viagem do lançamento da vovó, ela também me soltou as dela. Disse que sabia o porquê de ninguém contar nada – a questão cardíaca. Justo o que usei pra barganhar com o Murilo. Me apeguei muito nisso pra tentar fazer do meu jeito. Do meu jeito torto e perdido.

Recebo outro pedaço de papel em mãos e torno a apertá-lo em meu rosto.

— Você foi bem além da conta, Milena.

— Fui... E também não me orgulho disso.

Dona Helena abranda sua postura, pois chorosa sim, raivosa já não sei dizer. Ela até abraça os próprios braços, sem cruzá-los e sem se fechar de mim, apesar de concentrar o olhar baixo. No que fala, fala de maneira mais ponderada e prudente.

— Não vou puxar tuas orelhas por isso, nem as do Murilo, porque vocês já se massacraram o bastante. E desse jeito torto mesmo, foram atrás de uma direção pra vocês. Foi aí que você ficou na casa da Flávia, né? E esteve sob todo esse estresse... a ponto de falar dormindo. É essa a história então.

Já que aqui estou e consegui falar das mil coisas que prometi a mim mesma nunca abrir a boca, sigo meu instinto de vomitar outros fatos restantes e agravantes.

— É. E mais outras histórias, porque tava rolando umas coisas na faculdade e que não era pra ninguém saber. Mas dava pra desconfiar, sabe? Tanto é que eu descobri sem querer. Mas Djane me pediu pra guardar. E a Flávia...

Dou uma pausa de respiro, também para procurar as palavras.

— Na semana passada, quando fui vê-la, pra poder entender como tudo aconteceu, ela me disse... Disse que tava com muito medo de como eu vinha me comportando. Que tava parecido com a vez anterior, em que eu não só não contava as coisas, como também só me machucava. E uma coisa que ficou pelo meio do caminho, quando meus amigos entenderam o porquê daquela minha fuga, depois do rolo do caderninho, de como escondi um tantão de atrocidades... eles ficaram muito impotentes. Porque eu não os considerei, nem nada. Eu errei muito com eles. Então a Flávia tava preocupada com isso. Ela tentou agir e descobrir. E fez o que fez, quando eu comecei a falar durante o sono.

Mamãe parece além de mim e de si envolta dessas circunstâncias todas.

— E eu gritando com você toda vez que ligava e...

— Tava sendo minha mãe, né?

Tal qual eu minutos atrás, ela suspense o rosto para puxar ar do nariz congestionado. Nem de todo em vão, por seu esforço. Por fim, ela sopra o ar em sua boca trêmula e me segura as mãos, alinhando a altura dos olhos aos meus.

— Agora vejo mais sentido, Milena. Em muita coisa, mas... falo mais... por aquilo que me disse... no outro dia. A nossa distância geográfica. Não coloquei essa função no Murilo... de ser um guardião... Só confiei que tudo estava indo bem, na medida do possível. Mas também... vejo que não me coloquei disponível pra vocês. Eu poderia ter deixado mais a escola de lado... ou a loja de lado. Vocês precisaram de mim. E eu acabei...

Os olhos dela se enchem tanto de aflição e impotência, como meus amigos no passado, culpando-se por algo que não poderiam prever ou sequer resolver. Assim me movo para que não coloque sobre si mais responsabilidade do que já tem.

— Não é culpa de ninguém, tá. Não é minha, nem é sua. Eu sei onde esse caminho de pensamento vai dar e eu já fiz essa trilha um milhão de vezes, mãe, e por muito tempo. Espero que não pegue essa via também. Porque se alguém tem culpa e deve sentir essa culpa... são as pessoas que fizeram errado com a gente. As outras pessoas, não a gente. Nem o papai, ou o Murilo, ou o Vini. Eu acho que até consigo entender a motivação da Flávia, só não concordo com o modo que...

Ainda é difícil nomear. Porque as palavras que disponho não parecem contemplar tudo o que foi aquilo.

— Fora isso, eu já vinha brigando com o Aguinaldo faz... faz umas cinco vidas. De coisas da faculdade e de coisas do nosso grupo de amigos, de conflitos variados. Que culminou nisso. Eu sei que na cabeça torta dele, era seu jeito de me defender e de me proteger. Mas ele também passou muito do ponto, sabe? Passou diversas vezes até que eu precisei dar um basta... Por isso tentei me livrar do girassol.

— E eu fui lá e catei a florzinha de volta.

Dona Helena faz um bico tamanho em autopenitência, o que me faz desatar a falar destrambelhada de vê-la desse jeito.

— A senhora não sabia e não tinha como saber. Fez por bondade. E eu acabei aceitando a flor dele porque a gente tava no meio da emergência, na adrenalina pós-queda, e eu tinha entregado o meu presente de amigo oculto pro Bruno, e aí começaram as trocas de presentes ali mesmo e eu fiquei tão sem ação de saber que ele tinha... logo ele tinha me tirado. E que era um jarro de flor ainda por cima. Logo eu, que não sou de flores. Imagina de cuidar de uma.

Isso – minha relação com meus amigos – captura ela.

— Apesar dos apesares, vocês têm uma amizade bonita. Você e seus tantos amigos. Conseguem trocar presentes até mesmo dentro de uma emergência.

Quase rio só de imaginar quando eu contar que o Sávio abriu presentes de aniversário numa delegacia. Mas não seria pra agora, seria em algum tempo, quando essas coisas todas já estiverem mais assentadas nela – e em todos. Vai ser só mais um fato e que ela com certeza vai dar conta.

— E eles ficaram com você o tempo todo.

Seus amigos são os melhores quando se trata de você.

Novamente comovida, dona Helena resgata mais desse meu lado. Ou melhor, destaca, assim como ressalta a sua chegada, de como encontrou a nós.

— Você realmente fez história com essas pessoas, filha. Eu acho que nunca toquei pessoas assim, não como você. E pelo jeito, quando cheguei, ainda fiz mais confusão, quando não havia mais espaço pra isso. Eu vim e remexi tudo, exigindo tanto de vocês.

Essa parte pra mim, agora, é mais do que alívio. É descanso.

É colinho.

— Isso foi uma coisa muito boa, no final das contas. Porque, apesar de mexer com nossas percepções e barreiras, a sua presença tem sido essencial... pra quebrar todas essas coisas. Então sim, a senhora tocou pessoas. Fez história aqui com a gente. Eu não sei o quanto teria melhorado se não fosse a senhora aqui. Sendo essa pessoa “de fora”, de fora da história, que sem saber como, colocou as coisas no lugar. Acho que como fui para a família do Vinícius. Precisei de alguém pra tomar perspectiva das coisas. E também precisei da minha mãezinha, claro.

— Ô, meu bebê.

Dessa vez ela me aperta em beijos, que penso nunca mais dispensar.

— Tem sido um misto de coisas, isso sim. Eu quis tanto tudo isso, saber tudo isso... E não fiz da maneira certa.

— Não sei se existe uma maneira certa. Existem... maneiras. Que só se descobre pelo meio do caminho. Mas acho que o que pegou mesmo é que eu não dei exatamente a abertura pra isso. O Murilo também ficou embaralhado. Tivemos essa dificuldade de abrir espaço pra senhora. Desculpa.

Com um bico de determinação, ela dita pra mim:

— Sem mais pedidos de desculpa, mocinha.

Mas ainda tenho tantos pedidos e razões aqui dentro, que só aperto os olhos.

— É que fiz muita besteira. Muita mesmo. Muita coisa de que não me orgulho e de que me arrependo. E manter essas loucuras todas dentro só de mim... Não tava me fazendo bem. Precisei colocar pra fora. Precisei chegar no meu limite de novo pra colocar pra fora.

Dona Helena se levanta para se sentar bem juntinho de mim, abraçando-me de lado.

— E eu tô aqui agora. Pra te cuidar e te abraçar e te amar, no tantão que precisa. Minha menina-mulher incrível que pode tudo nessa vida. Pra sempre minha menina, mas uma mulher linha dura pra enfrentar a vida adulta e colocar muita gente no chinelo.

Rio em descontração por sentir que isso é real.

— Valeu, mãe.

Ela firma mais seu braço em mim.

— Você tem razão sobre a culpa. Não deve ser a nós a sentir. Claro que todos temos o direito de errar e isso é comum da vida com outras pessoas. Todos temos conflitos, seja aqui dentro, seja do lado de fora, na convivência. E todos fazemos escolhas. Mas tem algumas que escolhem fazer errado, mais do que de uma maneira torta. Elas preferem o errado. Pessoas realmente perigosas. Pessoas que tem algo muito perverso dentro delas e que pouco assumem responsabilidade por seus atos. Essas que deveriam carregar esses fardos todos. Não a gente.

Mais uma vez, assumo e declaro palavras que nunca pensei expressar para essa mulher de poder.

— A Denise foi essa pessoa pra mim... E eu carreguei muita culpa por conta dela. Culpas e vergonhas imensas, que só beneficiaram a ela. Também tô trabalhando isso em mim.

— Então vamos fazer juntas. Acho que a gente finalmente se reencontrou, né?

Devolvo o aperto nela, mais leve e desafogada, sem mais embrulhos à barriga.

— Com certeza, mãe. Te amo um tantão mais por isso. E principalmente pela paciência que tá tendo comigo. Conosco, na verdade.

— Aprendizados do meio do caminho, não é?

Como ela mesmo disse, tudo se encaminhava para ficar ainda melhor.

E já que estamos aqui, assim, unidas, vejo uma janela de oportunidade para algo que vinha postergando também.

— Tem uma coisa, mãe, que eu preciso fazer... e quero que fique aqui comigo enquanto faço.

— O que é?

— A Flávia me mandou um e-mail uns dias atrás. Acho que chegou a hora de lê-lo. Pode ter umas respostas a mais. Eu sei que eu poderia ler em qualquer outro momento, mas... não sei, acordei remexida demais com isso do meu sono, com a mágoa que... Agora que coloquei pra fora, quero terminar de fazer essa limpeza aqui dentro.

Coloco a mão ao peito para demonstrar isso. E completo:

— Ou pelo menos ter algo mais concreto no que diz respeito a respostas.

Em contentamento por meu convite, ela se mostra mais disposta.

— Vamos nessa, então. Vamos tomar uns goles de água, tomar um fôlego e você abre o e-mail. Pode ser?

— Melhor plano acho que não há.


~;~


Assunto: Por favor, leia

Milena,

Pensei muito em como poderia explicar ou começar a te explicar tudo o que aconteceu (e como aconteceu), mas parece que quanto mais eu tento, mais me vejo perdida. Ainda assim, eu quero contar.

Desde o começo, eu quis contar. Só que as coisas foram se atropelando e tem hora que realmente não sei o que fazer, como fazer. Não quero que veja isso como uma desculpa ou uma justificativa pelos meus atos. Eu só quero mesmo te falar o que aconteceu do lado de cá. Escrever este e-mail foi a forma que consegui concatenar tudo, pois, como pôde ver, só de olhar e estar perto de você, fico sem palavras e só me dá vontade de chorar. Chorar também por não conseguir falar o que tenho pra falar e por você ainda ser tão generosa comigo depois de tudo o que se passou.

Como não chorar, afinal? Como dizer o mínimo?

Considero isso uma baita sorte, pois sei que nem o Murilo, nem o Sávio, eles não tiveram esse tratamento quando foram além dos limites com você. Sinto muito por ter passado dos limites também. Eu realmente não sabia o que tava fazendo até ver o que fiz. E não tem como consertar sem eu confessar minha invasão e meu arrependimento.

Eu me arrependo, Milena. Tanto e tanto que tem hora que esse sentimento parece não caber mais em mim. Nunca pensei em estar numa situação dessas ou o quanto me deixaria levar. Acho que a gente nunca sabe até se ver dentro disso, né?

Às vezes, apenas quero sumir. Daí você me liga ou aparece na minha porta e diz para eu tomar vitaminas, sabe? Me cuidar. Fico sem ação. Perdida. E mais triste ainda por ter feito o que fiz. Esse buraco parece não ter fim e não tenho ideia de como faz para parar de afundar.

Mas não quero apelar falando de como me sinto, vez que isso não vai de fato mudar em nada. Quero te contar as coisas que me levaram a errar desse jeito tão trágico. Essas razões talvez falem mais do que eu poderia dizer. São coisas que guardei tempo demais comigo e que é chegada a hora de colocar para outras pessoas verem. Pessoas que confio. Mas você não precisa carregar esse fardo, tá? Só quero que entenda que existia coisas além de mim, além de nós, assim como você me falava e eu nem sempre acreditava. Depois dessas coisas, eu passei a acreditar.

Aquele suposto assalto do Aguinaldo foi um susto tremendo pra mim. Mas quando eu fui na emergência de madrugada com ele, a mãe dele me contou uma coisa muito mais surreal. O pai dele ligou quando o recado foi repassado, sabe? De que o Gui sofreu um atentado por conta dele. Mas a tia Alba ignorou as ligações dele como de praxe. E atendeu sem querer uma dessas ligações quando estávamos lá na emergência.

Foi uma coisa de outro mundo ver como ela ficou. Nessa hora eu tava procurando por ela pra pegar a guia que a enfermeira tinha dado e eu a encontrei no corredor. Eu nem sei colocar em palavras como ela tava. “Destruída” não engloba tudo, sabe? E estava tão confusa, processando a informação, que ela falou ali pra mim sem perceber.

Falou às claras que foi um atentado. Que o alvo era o ex-marido, era algo pra atingir ele. Que tinham as imagens do Gui no chão. Que era pra ser um susto, não era pra matar. E que não era pra envolver a polícia. Se soubessem que havia polícia no meio, eles poderiam matar o Gui de verdade. Eles tinham olhos em tudo que é canto, inclusive na faculdade. Não teria como ser blefe dessa vez.

Eu desmoronei real ali. Fiquei caída junto com a tia Alba. E quando ela se levantou, foi pra me fazer jurar não contar pra ninguém, principalmente pro Gui. Ela sabia que ele poderia fazer uma besteira maior e não poderíamos correr mais o risco.

No passar dos dias na casa do Gui, eu não sei nem como segurei isso, só sei que segurei. Usei o próprio atentado, incidente, assalto, que seja, para disfarçar de todos. Não havia muito a ser feito. Eu já tava para além de desorientada pela merda que fiz com você, que eu não sabia como explicar a você. E mesmo que os casos estivessem ligados, o que também demorei muito a notar, eu não teria como falar isso do Gui, não sem me entregar que eu sabia da investigação na faculdade. Não teria como falar isso pra tia Alba também. Eu já não sabia mais como me movimentar dentro desse círculo.

Só que aí teve uma merda com o pai do Gui, que quis ir visitá-lo. Pra extrair informações. Não era de verdade preocupação pelo filho, sabe? Foi um inferno manter isso fora do alcance do Gui e no final nem deu certo, pois ele acabou descobrindo. E descobriu que eu e a tia Alba sabíamos. E aí você apareceu durante a nossa briga, lá no quarto do Gui. É claro que ele ficou transtornado. É claro que todo mundo ficou.

Eu achei que tava fazendo o certo e não tava. Achei que poderia te acessar de um jeito diferente, te alcançar um jeito diferente e fiz merda. Só fiz merda desde então.

Não tenho como explicar o lado do Gui, mas não posso também deixar de mencionar mais uma vez que fui eu que fiz ele entrar no quarto e tentar conversar com você. Ele não queria e eu insisti. Ele não acreditou ser possível conversar com você daquela maneira ou mesmo colher algo com sentido. Também achava errado. Ele quis cumprir o que você pediu. E eu extrapolei. Achei ter visto algo que poderia te ajudar e acabou sendo bem o contrário. Achei que precisava saber disso.

Até porque, quando você falou naquelas conversas, a grande questão do Sávio é que ele fez o que fez para nos proteger. Ele me protegeu. E você me protegeu junto. Eu também quis te proteger... na outra situação. Achei que precisasse de ajuda, como da outra vez precisou. Precisou de alguém para agir. Então achei que eu poderia ser essa pessoa. Mas deu errado. Muito errado.

Do fundo do meu coração, te peço perdão, Milena. Não comecei esse e-mail com esse pedido para não parecer vazio, tampouco para ser um pedido de perdão como mero perdão. Eu sinto sua falta e sinto que estraguei coisas em você. Coisas que nem eu sei se eu consigo me perdoar. O que consigo nesse momento é te dizer esse contexto, que foi o regente de meus falhos atos e agora é o regente de meu arrependimento profundo.

Não se sinta obrigada a nada comigo, tá?

Sei que foi muito para despejar e é muito para processar. O que aqui te revelo é por você merecer toda a verdade. Eis a verdade. Faça o que quiser com ela. Vou continuar a tomar minhas vitaminas e espero que esteja tomando as suas. Muito obrigada pela sua atenção de ler até aqui. Não sei se valho tanto assim, mas agradeço de verdade.

Da amiga que algum dia fui,

Flávia.


— Mãe.

— Sim, querida?

— Chama o Murilo agora.

Notas finais
GRITOS AO INFINITO nem eu sei o que dizer (me digam vocês!) Trechinhos do próximo? "Depois disso, pode me trancar, pode me vigiar, pode tacar comida goela abaixo. Eu não vou deixar de comer ou de existir e eu tô te prometendo isso. Tô te entregando isso. Pode fazer tudo isso comigo." e "- Era algo... perigoso... a situação? Muito certa do que tô fazendo, respondo sem precisar pensar duas vezes. - Essa eu não posso dizer nem que não, nem que sim." e "Eu ainda te puxaria do Juliano, do Beltrano, do Cicrano, quantas vezes fosse preciso." Será que tem combo hj? Se o Plus Fiction deixar, acho que sim!