Mantendo O Equilíbrio - Tempo de Mudança (T6 + T7)
182 Capítulo 77
Notas iniciais
Meu quarto está uma completa zona e eu não tô em aí. Minha cama foi totalmente tomada por roupas, risadas, chamegos, chantagens e maquiagem. Tô, aliás, finalizando uns poucos cachos nas mechas da Iara com a chapinha. Ela, em contrapartida, está sendo maquiada pela minha mãe. Ao lado, meu notebook toca baixinho algumas músicas do One Republic, já em repetição, porque sim, contei pra I que ela me ilumina o coração como essa banda faz. Foi o toque leve perfeito para me manter presente e flutuante às batidas.
Mais cedo estava ouvindo as músicas que o Lucas tinha incrementado no mp4. Fiquei gamadinha na canção que tocou logo que acordei e encarei o sol, estarrecida pelo triunfo da madrugada. Fui atrás da letra e da artista e ainda mandei mensagem pro meu amigo, agradecendo mais uma vez o conjunto. Descobri que a música em questão é de um seriado da cantora e que o bonito tem o box dessa série. Ele disse pra eu o visitar logo, para a gente assistir alguns episódios.
Nessa hora, até pensei no Vinícius me oferecendo assim um box, de tão interessada que fiquei, deu vontade de assistir. Mas mesmo que o namorado fosse comprar, iria demorar um tantinho pra chegar. Então não, não caí nessa tentação. Vou é esperar o período do Carnaval para ir visitar minha família e surrupiar uns episódios para mim.
Falando em Carnaval, a Iara pesquisou quando seria a data de entrada de ano para os chineses e vai cair bem nos dias do feriado, colado com o aniversário da nossa criaturinha. Logo, vamos ter que escolher outra data para efetivamente comemorar. O que, por mim, não precisa; se ela faz questão, é outra coisa. Como fiz com mamãe e o Vini, deixo. Ou melhor, aceito. Aceito uma digna entrada com os Milenares e os Oliveiras.
Mamãe adorou esses nomes!
Ela não curtiu muito foi o look da Iara para a noite, um vestido preto um tanto ousado, bem mais do que o do Natal. Só que o problema, para minha mãe, não era a grande cava nos seios, as tamanhas as fendas nas pernas ou mesmo a questão de estar combinado com tênis (algo que tem estado bem mais em moda nos últimos tempos); na real, era o fato – pasme – de o vestido ser preto!
A I ficou de cara e quase não acreditou. Achou até ser zoeira.
— O que tem ele ser preto?
— Ora, é que entrada de ano precisa de algo mais vistoso, ou brilhoso.
É claro que fui defender a escolha da I. Só talvez não da forma que ela queria.
— Esse é vistoso e beeeeem vistoso. Eu tô vendo tudo daqui.
— Milena!
— E é lindo, poxa, não me deixam nem complementar.
— Ainda é escuro, meninas. Vestidos escuros não trazem sorte.
— Mãe, ela não vai em casa só pra trocar de vestido.
— Ué, tem os seus. Vocês têm... umas medidas próximas.
— Eu super emprestaria, mas se a I quer ir de preto, ela vai de preto. Aliás, o que foi mesmo, hein, que a gente conversou no outro dia... sobre individualidades?
Peguei ela com o argumento certo, mas daí a I fez o comentário que quebrou todas as ideias fechadas de mamãe.
— Tia Helena, eu passei anos a fio de branco e as coisas só pioraram pro meu lado. Porque não é sobre atrair sorte ou outra coisa, é sobre as pessoas ao nosso redor. Eu não tava num bom ambiente, não como eu tô agora. O preto pra mim, agora, é liberdade.
Só assim mamãe parou de implicar – e deu um abraço na minha amiga – para se concentrar em mim. Ela, inclusive, apontou pra mim.
— Agora não tem como fugir depois desse argumento.
Isso porque umas horinhas atrás eu tava questionando a sanidade de minha mãe de me sugerir um vestido vermelho, um que amo, mas que me pareceu um tanto pretensioso para a noite. E sabe o que essa senhora desvairada falou sobre passar A VIRADA DE ANO DE VERMELHO? Que paixão nunca é demais e que, pra todo caso, ainda havia as florezinhas e detalhes em branco para equilibrar.
Com essa, meu vestido entrou em pauta novamente e vez que tava um impasse, a gente na verdade tava esperando a Iara chegar pra desempatar. Eu votei no vestido azul com bege, e mamãe no vermelho.
E a I traiu o movimento! Cheguei a trocar de música, para alguma dos Backstreet Boys, mas depois ela colocou One Republic de novo pra tocar. Não foi exatamente um protesto e ainda assim ela entendeu o recado. Quer dizer, provocação.
— Nessa eu tenho que concordar com a tia, o vestido vermelho ficaria muito mais bonito. Esse azul deixa pra quando você for lá em casa, tá? Aliás, queria muito que pudesse ir amanhã. Massss... compreendo. Vamos ter nosso encontrinho uma hora dessas.
Eu sei que elas estavam implicando com minha escolha. Ao mesmo tempo, tô me permitindo aos poucos outras escolhas, já que minha individualidade anda tão... balançada.
— Tá, mas se eu ouvir um pio dos meninos, eu v...
— E desde quando TU baseia TUA OPINIÃO nos comentários dos meninos?
Nessa, a Iara me pegou que me calou.
— Só coloca e a gente para de falar. Né, tia Helena?
Resolvi confiar. De qualquer maneira, coloquei o vestido para elas e me pareceu bem confortável. Poderia me mexer sem problema, sem preocupação. Assim fiquei e assim mamãe tem nos enrolado, pois ainda não nos mostrou sua roupa.
— Acabei aqui com a chapinha. Como tá a maquiagem?
— Nos últimos retoques. Falta só... o batom. Ou prefere gloss, fadinha?
Mamãe agora só chama a I assim, que basicamente flutua a cada vez.
— Esse eu vou passar no carro, porque daqui pra lá já pode sumir.
— E o Sávio é desses, é?
Eu gargalho (alto) e a fadinha tenta se explicar enquanto vira uma pimenta.
Blush pra quê, né?
— Eu tava falando de outra coisa, tia Helena. Porque ainda vou beber água e o gloss vai todo embora. Isso quando não mancha.
— Tá, sei. Já que terminei por aqui, vou me vestir e volto já.
Mamãe sai do quarto e eu sigo rindo na cara dura.
— Não ri, Lena, não ri. Que coisas acontecem, tu sabe.
— Ô se sei!
— Eu não quero ter que te ameaçar em plena virada de ano, eu realmente não quero.
Inspiro o ar para me autocentrar de volta.
— Pronto, não vai ser preciso.
Ela me encara de olhos estreitos, me testando, e amasso um lábio no outro com a cara mais inocente possível. Por fim, ela se volta para a necessaire e começa a guardar os itens que usou.
— Que horas são? E cadê o reloginho da tua mesa?
— Tá na mesa mesmo, debaixo daquele montante ali. São... deixe-me ver... Dez para as nove.
Confiro no notebook mesmo, já pegando a leva de roupas minhas que mamãe foi espalhando enquanto fuçava meu guarda-roupa.
— Eita, o Sávio deve tá chegando!
— Ainda não entendi por que tu vai cedo assim. Não começa só lá pra dez da noite?
— Ah, é porque... errrr... eu vou passar na casa de uma pessoa antes. Um... amigo.
A maneira que ela fala “amigo”, quase sem conseguir soltar a palavra de fato, me faz inclinar a cabeça de lado, sem entender o porquê disso, dessa hesitação. Ela então complementa, um pouco sem jeito.
— O Gui.
Agora faz sentido até demais, que me aquieto. Não tem na verdade pelo que se espantar. Eles são amigos e ela tem essa liberdade sem problema. Nunca iria pedir que parasse de falar com alguém por conta de conflitos pessoais meus. Isso é com ela, decisão dela. Não a tenho por mal por isso também. Pra mim, ele é apenas outra pessoa no momento. Outra pessoa que tem contato com ela e que também trabalha na mesma empresa. É o mais seguro que posso pensar quanto a sua presença ou pessoa.
Isso eu até deixei bem claro para ela no nosso encontro com a galera aqui em casa. Porque a I me fez um pedido em especial depois que conseguimos remontar as peças do quebra-cabeças que era a situação na faculdade e a operação.
Ela pediu certa permissão para poder comunicar a ele sobre nossas descobertas.
— Lena, eu... fiquei aqui pensando... Eu sei e entendo que você não quer falar sobre o Gui, não mais do que o necessário, e tu sabe que tô do teu lado, né. Eu só... Ele também é meu amigo. Não concordo com o que ele fez, mas... ele também é uma vítima nessa história, nessa situação toda.
— Não precisa de autorização minha pra falar com ele, I. Você tem autonomia.
— Só não quero que pense que tô fazendo algo por trás. Nessa altura do campeonato, ele já deve ter conversado com Max. Mas não sabe o que a gente sabe. Não quero ser a pessoa a vazar, porém, não quero deixá-lo mais confuso do que já está. Entende o que eu quero dizer?
— Sim. E por mais que eu não seja fã dele nesse momento, acho que... seria bom fazer algo a respeito. Quer dizer, nessa questão.
— Então eu poderia falar com ele... sobre tudo isso?
— Não sei se tudo, tudo... Talvez só as partes que... sei lá. Faça do jeito que achar melhor. Contanto que fique realmente só entre nós, nosso grupo de amigos e... pessoas. Ainda precisamos ter certos cuidados com o que fazemos, né, pra não chamar atenção.
— Vou ter cuidado, pode certeza. Obrigada por isso.
— Não me parece que fiz muito.
— Você fez. E continua fazendo muito.
Volto ao espaço de meu quarto e da I quando ela me toca a perna.
— Tá chateada?
— Eu? Não. Nada demais.
— De verdade?
— De verdade. Acho que só tenho uma pergunta.
— Qual?
— A Flávia... vai tá lá?
— Não sei dizer ao certo, mas é capaz que sim. Por quê?
Algo em meu coração me diz para falar uma coisa. Repassar uma coisa.
— Pode passar um recado pra mim?
— Claro. Quer escrito ou falado?
A I alcança o próprio celular para anotar.
— Falado, acho. Melhor. É só pra dizer... Diz que ainda não li o e-mail dela, mas... em algum tempo, eu vou.
Ela anota rapidamente e vira para a zona de guerra que é minha cama, em busca de algo mais.
— Cadê meu amarrador de cabelo?
Agradeço internamente sua mudança repentina de assunto e me ponho a puxar mais roupas dali.
— Eu olhei ele ainda pouco... aqui. Achei.
Ao ver que faltava mesmo poucos minutos para nossa despedida, lembro de tocar em um assunto específico.
— I, antes de ir... Tenho uma outra pergunta.
Ela se levanta só para guardar suas coisas na mochila que trouxe, porém, continua atenta.
— Pode falar.
— Bom... como vai ter a festa e... nem sei se isso combina com pizza... Você pensa em tomar... hmmmmm... vinho?
Com essa direta, apesar de minha hesitação, ela se volta para mim mais autocentrada e consciente do que isso envolve.
— Não. Se eu for beber algo essa noite, vai ser água ou refri. O Sávio também, até porque é ele quem vai dirigir hoje. E nós tivemos essa conversa.
Fico mais satisfeita por eles terem conversado diretamente sobre isso. Não só demonstro isso, como também mostro minha confiança nela com um assentir breve. Com isso, ela complementa:
— Também não vou ouvir Evanescence e vou ser seus olhos e ouvidos para fazer a reportagem completa.
Sei que pedi isso e agora tenho um pedido a mais a reforçar.
— Seja seus olhos e seus ouvidos, tá? Se divirta.
— Prometo me permitir isso. Agora vamos pra sala que até tu chegar lá, o Sávio já vai estar na porta!
— Isso é preconceito comigo, te digo logo. Quem tava fazendo tua caveira era o Vini, não era eu não.
Ela me ajuda a achar minhas chinelas e a ajustar a tornozeleira nela. Para isso, Iara se abaixa aos meus pés.
— Eu acredito na palavra dele, que isso é intriga da oposição.
— Tá dizendo que tô mentindo na tua cara?
Iara se põe de pé com ares de pura provocação, apesar de me dar certo apoio para andar junto.
— Estou dizendo que faltam verdades nessa situação.
— Pois eu tenho testemunha. Uma não, duas!
Tento seguir o passo dela, embora seja ela quem está seguindo o meu. Iara nota algo diferente no modo com que ando e se detém para observar, olhando para baixo.
— Por que tô sentindo que tu não tá pisando direito?
— Porque eu não tô.
Um vulto do Murilo passa por nós no corredor só pra me entregar. Testemunhar, que é bom, ele não fica.
— É o que eu tava falando pra ela mais cedo!
— Ainda tô me acostumando, gente. Parece que meu pé tá todo incerto, sei lá.
Iara coloca a mochila em um ombro e me dá o braço esquerdo para mais suporte.
— Anda comigo.
Coloco as mãos na cintura, me fazendo de indignada.
— Não era tu que ia se atrasar, bonita?
— Não vou. E o Sávio pode esperar uns minutos, se for o caso. Até porque meu irmãozinho também ainda não deu as caras. É bom que ele chegue logo. Agora tu, bonita, cola comigo. Aproveita. Bora!
— Depois de tamanha educação, quem pode negar, né?
Resmungo mesmo, porque agora são três me cobrando. Quatro!
— Bora, Lena. Cola comigo.
Mas tá, outra vez, me permito. Aceito o braço e fico sem jeito. Iara, por outro lado, não desiste de mim. Não só fica observando minha passada, como me incentiva também.
— Aqui, devagar. Vai, tenta agora.
Solto um pouco da desconfiança no meu pé, concedendo um pouco mais de força ao movimento. Sei que esse é exatamente o objetivo da tornozeleira, me ceder mais confiança, porém, minha autoproteção permanece me fazendo andar toda esquisita.
— Isso, tá indo bem! Mais um pouco e te dou outro cookie da dona Bia.
Parece alguém que eu conheço. Só que o outro faz propostas bem mais descabidas. Fico muito mais propensa a aceitar suborno quando o valor das coisas estão mais equiparados. Nisso, a I acerta.
— Mais um pouco até onde?
— Até a empresa.
Faço um bico de chateada e dou minha cartada quando enfim chegamos ao sofá.
— Ainda bem que já tenho um armário cheio deles.
— Ainda te conquisto até lá. E ai de ti de não aparecer por conta desse pé.
— I, desse jeito, eu vou reclamar de ti pro Vini.
Com ares de sabedoria, ela coloca a mochila na mesinha de centro.
— Ele vai saber que é intriga da oposição.
Crispo a boca pra ela, infelizmente sabendo que tem razão. Para completar, cruzo os braços. Não tem viva alma para me ajudar no momento, então é eu e eu pra enrolar minha amiga. Aproveito o gancho dos cookies, apesar de ser uma curiosidade genuína:
— E onde tu arranjou tanto cookie da dona Bia de um dia pro outro?
Ela ri enquanto verifica algo no celular.
— Ah, foi papai. Ele teve que dar uma passada na empresa hoje e passou na lanchonete quando tava saindo. E aí viu que tinha. Foi engraçado.
— Engraçado por quê?
— Porque ele chegou pro moço e pediu uns cookies. Daí o moço perguntou: quantos? E papai: todos.
Abro a boca, chocada.
— Todos quantos?
— Acho que era uns 15 ou 20 pacotes. Por aí.
Em cada pacotinho vem cinco biscoitos caseiros. Antes eram de três e a pedidos dona Bia aumentou o número. Pouco, mas que super valem a pena, de gostosos que são. Mas a ponto de o Filipe comprar todos os pacotes disponíveis, fico realmente admirada. Preciso contar pra dona Bia essa.
— Caramba.
— Daí quando eu tava terminando de preparar as porções de comida pra vocês, ele chegou com uma sacolinha com os teus separados.
— Meus? Todos meus?
Nem sou sacana, né?
— Isso é você quem decide.
Mas ainda me encontro sem palavras pelo gesto de Filipe. É uma coisa tão pequena e tão... imensurável pra mim. Tipo, ele viu e correlacionou comigo e separou uns pra mim. Levou os seus para casa também. Espero que o Silveira tenha recebido o mimo, pois das últimas vezes não havia tido a oportunidade.
— Meu pai é ou não é um fofo?
— Me lembra de dizer isso pra ele ano que vem.
— Lembro e lembro de falar isso pro meu irmãozinho também.
O meu acaba se manifestando, outra vez como um vulto que escuta conversas, enquanto passa do corredor para a cozinha em uma pequena corrida.
— Ei, lembra de falar... QUE SOU FOFO TAMBÉM.
Bondosa que sou, grito pra minha criatura:
— ISSO NÃO É UMA COMPETIÇÃO, MURILO!
Da dispensa, ele responde:
— AINDA BEM QUE NÃO, PORQUE AÍ O FILIPE E O VINÍCIUS IAM FICAR NO CHINELO.
Rimos besta eu e Iara. Só assim, em meio a todo cuidado deles, que abaixo minha guarda e assumo essas coisas incríveis que estão fazendo por mim. Até mesmo as picuinhas bobas para me distrair.
— Vocês são uns fofos, todos vocês. Os Muniz, os Menezes e sim, os Lins. Sem distinção.
Isso a criatura não ouve, né? Mas a Iara sim e ela comemora jogando os braços ao alto. Logo termina apontando para a porta quando ouvimos um motor de carro chegar.
— É melhor que seja o Vini ou eu vou matar ele.
Faço o que qualquer pessoa sensata de nosso grupo diria:
— Eu vi e vou contar.
~;~
Fazendo sala à visita da vez, aproveito a oportunidade para uma pergunta.
— Me tira uma dúvida. Melhor, uma curiosidade.
— Diga lá.
— Quantas camisas dessa banda tu tem?
Eu mesma me lembro de umas duas pretas, com símbolos em cores diferentes, e mais a camiseta que o Bruno presenteou. Sávio sorri, daquele seu jeitão tímido e brincalhão.
— Com essa, acho que... umas cinco?
Minha voz sobe umas oitavas de surpresa.
— Cinco?
— Ia vir com a versão branca, mas a I pediu essa para combinar.
Essa era uma camiseta com os ombros e mangas pretas e o restante em cinza, a logo da banda e seu nome, Breaking Benjamin, ao peitoral. Combinaram bem, na verdade. Ele e a I, então, combinam bem demais. Gosto deles juntos e gosto de como parecem mais leves quando estão juntos. Digo isso ao meu amigo?
— Ela também te disse que a cor preta agora significa liberdade?
— Algo assim. E esse vermelho aí, significa o quê?
Revelo minha sina, abraçando uma almofada do sofá.
— Significa que não me deixaram ficar de pijama e a I se mancomunou com a minha mãe. Isso porque o tema da vez não é ano novo, é “tarde de domingo”.
— Mas tá bonita.
— É claro que tô bonita.
Faço uma jogadinha de cabelo para trás para enfatizar e o Sávio não só ri, como anui à minha vaidade. Em complemento, ele traz o assunto que baila ao nosso redor. Ou melhor, à ocasião.
— É bom te ver mais solta. Mais você.
Não sei exatamente o que a fadinha disse a ele, só sei que o Sávio foi uma das pessoas que me enviou mensagens de apoio neste dia. Uma mensagem, na verdade. Disse que acredita na minha força para atravessar adversidades.
Demorei a ver e a responder e agradeci.
— Às vezes acho que não é possível ser eu de novo e então... eles me trazem de volta.
Um tanto mais confiante, miro o corredor em direção das minhas pessoinhas da vida e aperto mais a almofada entre os braços. Me deixo levar por esse momento de colocar as coisas em perspectiva. Assumo de verdade o que assumo pouco – e para poucos.
— É uma situação bem chata ter esse tipo de limitação. Masss... tenho meus escudeiros. Que não param de me atormentar o juízo... com bobices e coisas aleatórias. Dessa vez, só escolhi aceitar a bondade e cuidado deles, mesmo que tudo ainda pareça incerto... E ver o show da I puta da vida com o Vini, nossa, me ajuda bastante.
Falo serinha e na maior cara de pau com gosto. Também só digo isso porque a Iara sumiu de nossas vistas. Todo mundo sumiu, na realidade. Minha mãe chamou a I para ajudar em algo no quarto de hóspedes e o Murilo ora e outra aparece de um lado pro outro. Não tenho ideia do que ele está aprontando.
Isso porque eu até meio que liberei a criatura para ir ver a Aline e a Lia antes de tudo, e ainda assim ele quis permanecer.
— Mas... Pode acontecer enquanto eu estiver fora.
— Pode também não acontecer enquanto estiver fora. Vou ficar bem. Vai, pode ir.
Havia receios nele e havia outra coisa também.
Um carinho imenso.
— Mana, entende uma coisa. Não tem nada, nem ninguém, que vai me tirar daqui hoje, tá? Agora me diz qual é o traje da noite.
Decidi aceitar o cuidado deles, não foi? E sem me sentir mal. Assim, segui essa sua animação e entreguei o tema da vez, que mamãe não havia especificado a ele até então.
— Casual de domingo.
— Maravilha! Vou estrear a camisa que a Lia me deu.
— A Lia te deu uma camisa?
Sempre acho fofo como ele se refere à pequena Lia como uma cidadã que ama seu dindo, que sabe quem ele é e que reconhece seus esforços. É engraçado porque nem sempre ela de fato o distingue dos outros e depois estão às livres gargalhadas. Isso quando o Murilo não atazana a guria e ela fecha a cara pro seu dindo.
Aí quem morre de rir sou eu.
— Claro que deu. E o dindo dela amou. Você vai ver.
Volto ao plano da realidade quando o Sávio toma um fôlego pra não rir (também) descaradamente da namorada.
— É de fato algo curioso de se observar.
— Não é? Nem só de amor se vive os irmãos. De vez em quando tem que ter uma explosãozinha de ódio pra equilibrar. Então acho que se pode dizer que a fase de lua de mel desses dois já acabou. Foi bonito enquanto durou e agora emocionante permanecerá.
— Deixe-me adivinhar: falta só a pipoca.
Dou um soquinho no ombro dele.
— É dessa sagacidade que gosto em ti.
— Ainda bem que gosta. Prefiro ser paz e amor.
Sávio até levanta dois dedos da mão para sinalizar.
— Isso porque tu é filho único. Não sabe a linguagem de amor e ódio que rola solta.
— Estou vendo que não vou demorar a descobrir. Nada do Vini mesmo?
Busco o celular ao lado e, é, nenhuma mensagem do bendito.
Queria ser uma abelhinha para saber se a Iara tá xingando o irmão no quarto com mamãe. Não me atrevo a ir lá por ter que me movimentar bastante e prefiro ficar ao sofá para ver de camarote a entrada do Vini.
Meu pedido a ele foi simples, embora talvez trabalhoso em um dia como este. Quer dizer, muito movimento em todo canto da cidade. Acho que é por isso que está atrasadinho, o que deixou a Iara doida.
Isso porque parte do plano era o convite de ela vir para cá e se arrumar. Depois de conversar com mamãe sobre como fazer algo mais nosso ou mais apropriado à ocasião, o Vini apareceu de volta ao meu quarto maquinando em suas ideias.
— Notícias?
— Não consegui falar com ela – ainda. Parece que saiu com o Silveira e meu pai. Vovô não soube dizer bem. Só falou que não devem demorar. De qualquer maneira, tudo certo... Certo?
Como o grande lance de ele passar a virada comigo era sob o critério de a I passar com a família na pizzaria, algo que ela não havia dado resposta – e sequer foi localizada num primeiro momento, meu Vini quis se certificar de que eu não havia desistido do plano. Claro que o tranquilizei.
Mas eu precisei me tranquilizar em um fato também.
— Certo. Só... tenho um adendo. Na verdade... dois. Pouca coisa e nada difícil.
— Só dizer.
— Então... Quero que vá em casa. Você vai passar a noite aqui, então vá em casa e faça as pazes com Djane. Ela não vai tá uma fera, eu sei, mas você a enganou mais cedo, não foi? Aproveita e veja seu pai também, e o vô Júlio. Dá um Oi pro Silveira por mim. Faz isso e volta. Traz uma muda de roupa e teus acessórios pessoais, pra poder se sentir mais confortável. E o traje.
Vinícius fez uma cara engraçada, perdido com essa última.
— Ao que parece, teremos um tema hoje. “Tarde de domingo”. Algo simples e... leve. Confortável. Bonito. Algo que goste. Não teremos nada demais aqui, mas podemos fazer dessa noite uma memória boa, né? O que ac...?
— Aceito os termos.
Ele nem hesitou. Como antes, no meu primeiro pedido, Vinícius abriu um sorriso gracioso e animado. Gostos desses sorrisos.
Gosto tanto que ao recair neles e na boa sensação que me trazem, dou realmente uma mergulhada neles. Sávio me traz de volta outra vez.
— Pensando no Vini, né?
— Tu me conhece. Mas já que tá aqui, tenho outra pergunta.
— Não sei se é pra ter medo agora, mas vamos nessa.
— Essa é tranquila também. Só queria saber... quais foram as músicas que tu sugeriu para o show da Dani. Não vou tá lá pra ver mesmo.
Faço drama? Sim. Ele vira o jogo? Também.
— Mas o show vai ficar gravado, não vai? Então você vai ver.
Arrisco uma pequena ameaça? Claro.
— Sabia que não é de bom tom fazer suspense comigo, ainda mais num dia como este?
Mas ele sabe driblar direitinho.
— Eu só não quero estragar a surpresa.
— Tá, me diz pelo menos uma. Uma música e uma banda.
— Um artista e só.
Mexo a boca maquinando a contraproposta e o fato de não ser eu a pessoa a dominar as propostas.
— Tá, um artista. Vai.
— Backstreet Boys.
Dou um gritinho de empolgação.
— E pra já entrar no clima, coloquei umas mil músicas deles no pen-drive do carro.
Dou mais um gritinho, toda boba e risonha. Porque é o famoso pen-drive que o Murilo queria topar de músicas do grupo quando surrupiei do Sávio numa aventura que não deu certo. Quero contar isso pra criatura, porém, quando é realmente para o Murilo aparecer, ele não aparece.
— Agora tu me deu ideias. O que bate muito com uma outra ideia da I.
Bate também com aquela playlist de músicas nos anos 90 e 2000 que encontrei no Youtube no outro dia.
— O que ela aprontou?
— Ela apresentou os videoclipes da Avril pra minha mãe. Acho que tá na hora de apresentar os Backstreet Boys.
Cato o controle da televisão ao lado para ligar o aparelho e ir ao aplicativo na tela. Antes que carregue, ouvimos as risadas da I e de minha mãe, finalmente saindo do quarto. Quase saltitante, Iara se coloca a nossa frente para anunciar a grande aparição de mamãe.
— Hora da revelação da tia Helena!
Ao incentivar as palmas e sair de cena para dar espaço à matriarca da casa, tudo faz sentido. PORQUE MINHA MÃE TÁ DE VESTIDO FLORIDO E VERMELHO. Tá, é bordô e bordô também é vermelho, né? Aquela cena todinha sobre o meu vestido era por conta do vestido dela, tenho certeza! Coincidência? Eu acho que não.
— AHÁ! Foi por isso que as duas tavam insistindo nesse vestido aqui.
Elas? Fingem que eu nem existo. Mamãe é só sorrisos e cochichos com a I, que ajeita algo no vestido de sua fã.
— Eu acho que estão todas lindas.
Reclamo porque sim, não é hora de trair o movimento e bem na minha cara.
— Não é hora ainda, Sávio.
Mas as duas novamente nos ignoram. Até porque a I solta a questão-bomba:
— Ué, cadê o Vini? Ele disse que já tava...
O que era sorriso estampado na cara vira um bufar impaciente, com direito a mão na cintura e a vontade de matar o irmão. Ela pega o celular pra caçar o cidadão. Mamãe sai de fininho da zona de conflito e se senta ao meu lado no sofá, de modo que agora fico no meio entre ela e Sávio. Atenta à fadinha, minha mãe comenta:
— E eu ainda segurei bastante ela lá no quarto, mas o Vinícius não tá facilitando.
— Não deve demorar mais tanto assim.
— E tá cedo, não tá?
— É que ela vai passar em outro lugar depois daqui.
Não sei se o namorado atende à ligação, só sei que Iara dá um urro com o nome dele – o nome inteiro dele – no celular.
— Vinícius... Menezes... Garra!
Assistindo o surto de raiva da fadinha, mamãe cochicha risonha para nós:
— Ela tá zangada mesmo. Ai do Vinícius se não aparecer nos próximos minutos.
Sávio aproveita a aproximação de minha mãe para ter seus elogios ouvidos dessa vez.
— Nem pude lhe cumprimentar direito, dona Helena. Está muito bonita.
Muito da humilde e modesta, ela responde, mexendo no cabelo.
— Estou? Gentileza sua. Estou bem simples.
Sávio é outra vez galanteador, agradando minha mãe.
— Não quer dizer que não esteja bonita.
Mamãe já era encantada com ele, agora então, se derrete toda. Não por muito tempo, porque ouvimos um carro chegar à porta. Bem na hora que a criatura também ia se anunciar ao chegar na sala. Iara pega a bolsa dela e já brada pra todo mundo se organizar:
— Vai na frente pra abrir, Mu, se não, não respondo por mim. Lena, já levanta, porque tu vai me deixar no portão.
— Eu vou? Então eu vou.
Com essa pimentinha esquentada, nem enrolo. Sávio pega a mochila com ela, Murilo dá um corridinha na porta e mamãe me dá suporte. Iara me espera na porta da sala, na parte de dentro, por onde o bonito do namorado tem a audácia de dar as caras e se anunciar.
— Cheguei, família!
Iara ralha na mesma hora, com as duas mãos na cintura. Mas não é nada como minhas expectativas estavam ditando. Porque ela amaina também. Chateada, mas maneirando na sua zanga. Talvez pela plateia que a acompanhava? Não sei.
— Isso são horas, Vinícius? Po-xa!
Ele desce a mochila dele pelos braços, de modo que fica dependurada nas mãos, ao mesmo tempo que vai acenando conforme o que explica.
— É que eu peguei trânsito, ué. Tá um negócio complicado de andar ali. Teve uma batida feia que caramba... Bem na avenida principal. Aliás, é bom vocês irem pelo outro lado.
Quase me dá vontade de pegar pipoca, mesmo. Principalmente quando o Vini de fato para e encara a irmã e o vestido dela. O longo e curto vestido dela.
Estou mesmo desejando um fight desses dois na minha sala? Sim.
— UAU, I. Isso é...
Checando o celular, a Iara faz um sinal para ele parar o que tava fazendo – encarando demais – e seguir o plano.
— Sem tempo pra isso, irmãozinho. Agora, me dá logo meu abraço que tô saindo.
Com essa, e o atraso monstro do Vini, eles enfim se abraçam e ela amaina mais um pouquinho. Eu e mamãe ouvimos parte da conversa deles nesse abraço:
— Nosso pai já viu esse vestido?
— Ainda não.
Ela ri e se aperta mais nele.
— Vai matar ele do coração, tu sabe, né?
— Pro bem dele, sei sim.
Eles se desvencilham, mas a I cochicha algo pra ele que não podemos alcançar. Por fim, meu Vini anui e a segura pelas mãos, novamente deslumbrado por ela.
— Tá magnífica, I.
Dessa vez ela parece ficar embaraçada, porém, sorri.
— Valeu, irmãozinho.
Seu irmãozinho ainda arrisca um comentário.
— É bom o Sávio dar conta.
A fadinha dá um tapinha leve no ombro dele.
— Seu chato. Bora, me leva no portão também.
Assim, aos risos, ela me puxa pela mão. Ao atravessarmos a porta e chegarmos no terraço, é inevitável que eu olhe para cima. Dou de cara com o céu completamente fechado.
Como é noite, as nuvens ficam num tom cinza claro que de certa forma ilumina a atmosfera. Encaro o céu por uns segundinhos e acho que todo mundo ao meu redor faz o mesmo. Murilo, que até então estava no portão, aparece ao meu lado para tranquilizar a todos. Ele quebra o silêncio repentino.
— Vamos ficar bem.
Repito isso, mais para mim do que para eles.
— Vamos, vamos sim... Sei que posso enfrentar isso.
Dou meu abraço final no Sávio e por último na Iara. Sinto que ela resiste um pouco em me soltar, mas logo me apresenta seu bom sorriso, mais confiante. Seus olhos então, brilham, cheios d’água.
— Até ano que vem, Lena.
— Até ano que vem, I.
Que este ano termine logo sem eu ver ou sentir e que o outro chegue logo com tudo o que tem para mim. Tudo de importante que tem para mim.
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