Notas iniciais
"Vou muito além do que possa parecer Faço meu mundo, vivo o hoje sem pensar E amanhã crio algo pra fazer Não há nada que me impeça de voar E voo longe Mergulho fundo..." Adiviiiiiiiiiiiiiinha quem sobe num palco dessa vez?

– Quatro estações ou portuguesa?

– Quatro estações, por favor.

O garçom serve um pedaço da pizza ao meu prato e segue atendendo outros clientes. Eu tava com fome, já tinha esperado demais, não tinha estrela essa que me faria essa graça de esperar. Estávamos num rodízio de uma pizzaria, a mesma em que fizemos o aniversário de Flávia no ano passado. Na verdade, estamos em outro aniversário, não sei de quem, não conheço, é de outra mesa. Só sei que é aniversário porque vi uma mesa de presentes na entrada, assim como balões e uma atendente nos perguntou se éramos convidados. Se éramos, éramos, foi a Dani que nos chamou.

Melhor dizendo, a Daniela intimou a galera pra vir aqui essa noite. Se não aparecêssemos, alarmou ela, seríamos enterrados vivos. Morrendo de fome que eu tava, já me considerava sendo morta enquanto a lindinha não chegava. Como saí do trabalho, vim com Gui e arrastei até Iara junto. Na entrada já encontramos com Vinícius, Flávia e Bruno, depois foi chegando mais gente, alguns amigos e conhecidos da faculdade, alguns primos de Dani, alguns convidados do aniversário. Ananda, Sávio, Yuri, Marcinha, Mariana... Tava todo mundo curioso e amarelo de fome acho. Porque só fui eu me servir, que todos resolveram me acompanhar.

O salão meio que tava dividido, um lado era focado no tal aniversário, o outro, onde estávamos, perto do palco da banda, era dos clientes fora da festividade. Embora fosse uma segunda-feira, o estabelecimento estava bem cheio.

Meu pedaço de pizza praticamente sumiu em segundos, me fazendo acenar para mais um garçom, que me serviu um pedaço de napolitana. A conversa era muita nas nossas mesas, a maioria sobre aquela peripécia que foi o níver de Flávia no ano passado. Por causa da presença do sabemos-quem, Gui e Vinícius se mantinham longe dele, assim como o próprio preferiu se reservar na mesa ao lado com outras pessoas. Na nossa mesmo, estavam uns primos de Dani, Vinícius, eu, Iara, Gui, Flávia, Bruno, Ananda, também conversando sobre a última monitoria e as loucuras que houve naqueles dias. Iara nem parecia deslocada, estava bem animada até.

Nisso, dado um tempo lá vinha finalmente a aniversariante – menos a bendita da Daniela, que a gente tava combinando de assassinar. Cantamos todos o parabéns, contagiados pela festa ao lado praticamente, e logo mais a banda começou a tocar. Inicialmente só estavam o guitarrista, o baixista e o baterista no palco, que deram partida numa música que não me era desconhecida acho.

Trilha citada/indicada: Banda Vega – Vou Mais Longe

(00:28)

E aí ouvimos a voz da cantora e sim e claro E com toda a certeza todo mundo se voltou de repente para o palco, atentos, por a cantora ser a linda da Daniela (http://bit.ly/1mB0z1v) divando, dominando o microfone e tirando a maior onda da nossa cara com um sorriso de ponta a ponta brilhante-colgate! Então era essa a surpresa!

Vou muito além do que possa parecer

Faço meu mundo, vivo o hoje sem pensar

E amanhã crio algo pra fazer

Não há nada que me impeça de voar

E voo longe

Mergulho fundo

Passo meu tempo explorando o céu e o mar

E vou mais longe

Vou mais fundo

Meu tempo é curto pro que a vida pode me dar

Entremeados aos sucessivos “ai, meu Deus, ai, meu Deus, ai, meu Deus, ai” que Flávia soltava extasiada, a galera se levantou e o salão geral aplaudiu, gritou e se animou com a banda tocando. Eu também tava besta, não acreditava. Fazia dias que ela dizia que tinha algo pra contar, algo MUITO BOM pra contar, e só fazia suspense e mais suspense, sem nos ceder pista alguma. Aí quando foi essa manhã, recebemos todos sua mensagem. Quero matá-la e abraçá-la ao mesmo tempo!

Daniela não só estava relaxada, como segura, com toda uma performance naquele pequeno palco. Estava genuinamente feliz. A aniversariante foi lá pra frente do palco e todo mundo a seguiu logo depois. Quem conhecia a música, que por maioria era da festa, cantava junto. Mas era a voz de minha amiga que divava.

No mar de braços levantados e seguindo o ritmo, a gente via que Dani também nos assistia. Sorria largamente pela surpresa de todos. Quando a música acabou, engatou logo outra, nos indicando que dali a frente só conseguiríamos cumprimentar a estrela só no break da banda. Se não, ao fim da festa mesmo.

A gente mal podia esperar.

~;~

Trilha citada/indicada: Banda Veja – Pra não pensar mais em você

E se teve gente que achou que a performance da banda era só aquela, perdeu o ar quando entrou uns caras para a repercussão e até um saxofonista. A aniversariante, que completava seus 28 anos, mais chorava, gritava e agradecia do que outra coisa. Foi coisa bem armada eu diria. As músicas em geral eram de MPB e Bossa Nova, que não eram o ritmo muito voltado para os gostos que conhecíamos de Daniela, mas ela imperava bem nele. Ela cantou até Sandy! A versão Sandy alternativa, bossa e crescida. “Sem jeito” era uma música bem a cara de Dani com Bruno – menos pela parte de casamento e filhos, claro. Acho que nunca vi tanto orgulho e admiração dele ao ver a namorada cantando na festa.

E eu penso no que fazer
Pra não pensar mais em você
E eu penso no que fazer
E eu penso no que fazer
Pra não pensar mais em você
E eu penso no que fazer

A nossa galera se reservava mais atrás dos convidados do níver, que estavam mais perto do palco, mas acabava que todos dançavam no salão. Pendurada no pescoço de Vinícius, que me guiava conforme o ritmo, dançávamos juntos, e ora e outra mudávamos de par, sem nos preocupar, afinal, estávamos entre amigos. Dancei com Bruno, com Yuri, com um primo de Daniela, só não com Sávio, óbvio. Na verdade, Ananda não queria era trocar de par depois que conseguiu puxá-lo enquanto rolava Cássia Eller.

Mas o par fofo da noite, preciso dizer, estava sendo Vinícius com Iara. Ela parecia mais com jeito do que ele, e não falo no quesito dança. Eles ficaram por umas três ou quatro músicas só conversando e eu me mantive quieta, sem espiar muito, até porque estava lidando com outro que me pedia atenção.

Gui escolheu “Dois Rios” acústico do Skank para me fazer seu par e tocar novamente no ponto que tinha sido nossa discussão na semana passada, uma que a gente custou de segurar por hoje, quando nos vimos de novo no trabalho. Embalada pelo ritmo leve, apenas abracei meu amigo e deitei minha cabeça em seu ombro.

Trilha indicada/citada: Skank (cover) – Dois Rios

O céu que toca o chão

E o céu que vai no alto

Dois lados deram as mãos

– Mi?

– Hum?

– Quero que saiba que eu pensei melhor. Sobre o caso do Sávio, digo. Desculpe se interferi... e-eu...Sei lá, não me parecia bom deixar vocês sozinhos. Desculpa, ok? Mas agradeço de verdade pela oportunidade... De me permitir fazer parte.

Aguinaldo falava de sábado à tarde, quando tivemos um break bom no evento e foi essa hora que Sávio escolheu para nos revelar alguns detalhes até então confusos. Foi... bastante esclarecedor. Porém, ao mesmo tempo, instigava mais e mais nossas dúvidas sobre ele. Foram coisas, no entanto, relevantes e válidas.

Nunca achei que ter conhecimento de que André tinha quebrado um dente naquela briga – nem que tivesse sido só mesmo uma pontinha – seria em algum ponto da história algo importante, e nem que eu não iria rir por isso. Sávio se revelava uma fonte muito bem informada sobre o que acontecia (e ainda acontece) com André.

Mas, por mais que o break tivesse sido oportuno, não foi longo o bastante para que eu ou Gui investigássemos mais sobre essas informações. Sávio só tocou mais em questões sobre outros processos que André detinha na justiça, assim como vários casos de “stalkerismo”, provocações e... digamos que André tinha uma bela duma ficha suja, mesmo que ele fosse um tapado para executar as próprias merdas. Dessa vez a sua família interviu, e foi por isso que André se desmatriculou de nossa instituição, ele estava se mudando para alguma cidade do interior. Rezava eu internamente que não fosse o da minha família ou próximo de lá, mas essa info Sávio já não tinha.

– Eu sei. Na verdade, eu gostei de você ter estado lá comigo, me irritei só no começo.

Como que me aninhando mais, Gui quase não saía do lugar e eu também não, bastava-nos estar ali. Era tão tão tão tão tão bom ter seu apoio. Mais que um ombro pra descansar e um amigo para compartilhar aquela situação, Aguinaldo era meu companheiro. Foi preciso, no entanto, ele entender que força bruta e marcação cerrada em nada ia ajudar, principalmente se havia muito para se descobrir ainda.

– Eu sei. Eu fui muito insistente, não fui?

– Insistente foi pouco, tu parecia era um cão de guarda. Faltou rosnar!

Brinco, mas isso foi bem verdade. Fazia dias que Sávio me sondava, buscava uma chance para uma conversa, mesmo que fosse breve, aproveitava várias brechas, mas muitas delas não resultavam em um bom tempo para uma conversa concreta como precisávamos. Nesse meio tempo, Aguinaldo vigiava. Pior, sempre que podia, nos interrompia, nos afastava, às vezes me olhava feio e, se preciso, discutia comigo – porque ele queria mandar em mim. Aí já viu, deu treta.

Foi quando voltávamos nós dois do almoço lá perto, que o diretor Fabiano avisou que a tarde seria mais calma, com a passagem de um documentário no auditório e assim achamos que iríamos descansar mais. Alguns monitores ficaram a comando da sessão, outros saíram para relaxar no Center, e eu e Gui ficamos no pátio conforme Sávio nos pediu. Ele tinha visto que ou seria com Gui ou seria com Gui, não tinha jeito. E aí nos afastamos para um canto e fizemos nossa própria reunião.

– Já contou para o Vini? O que Sávio nos disse?

– Não. E não digo isso por estar escondendo, não é isso. É só que... entre toda essa monitoria repentina, o cansaço, o teatro com Djane, Djane doente, Djane de licença, e mais umas questões, como o fator Anderson, não acho que deva me precipitar quanto a isso. Prefiro reunir mais informações a contar tudo pingado.

– Tem certeza?

– Acho que sim.

– E eu estou desculpado? Juro que não quis ser mandão, só... tava tomando conta de você.

Só o que Murilo fez por quase toda uma vida. Eu não ia permitir que Gui seguisse o mesmo caminho. No entanto, não seria uma bruta de dar um “chega pra lá” nele, iria com jeitinho. Assim apertei delicada mais meus braços ao redor do pescoço de meu amigo e senti que ele fez o mesmo comigo, abraçando mais meu torso.

– Vou te perdoar por essa, mocinho, mas só por essa e porque foi um pouco nobre. E não te acostuma não, nem inventa de querer dar “muriladas” comigo, tu sabe o que acontecia com o outro quando ele resolvia dar uma de mandão pra cima de mim.

– Ô se sei! Mas Mi...

Gui se desvencilha um pouco de mim de modo que pudéssemos olhar diretamente um para o outro.

– Hum?

– Obrigado mesmo pela confiança.

Sorrio, discreta.

– Obrigada por ser digno dela.

~;~

Foi só quando o noivo da aniversariante resolveu encarar subir no palco (e esquecer pedaços da letra de “Mais” de Capital Inicial, gritando no microfone para que as pessoas cantassem junto) que Daniela desceu do palco. Elétrica, esfuziante e toda toda como estrela, ela praticamente se jogou na galera, que a engoliu num abraço maluco em grupo. Abafados pela banda e pelo público que continuava na cantoria, surtamos todos juntos, gritando, abraçando, beijando e felicitando nossa amiga.

Os “ai, meu Deus” surtados continuavam sendo de Flávia. Gui teve que tapar a boca dela para que enfim abríssemos espaço para que dona Daniela Azevedo pudesse nos dar alguma explicação daquilo. Foi com muito custo que a galera se aquietou.

– Gente, nem eu acredito! Juro, juradinho! Quando recebi a propost...

Já eu, animada, me meto sem querer:

– Como assim “quando recebi a proposta”? Como tu não espoca um babado desses? E como assim eles fizeram uma proposta?

– Ai, gente, é uma longa história! A melhor maneira de resumir foi convidar todo mundo. O que vocês acharam do... meu MAIS NOVO TRABALHO?

Houve um momentinho para todo mundo meio que se tornar estátua pela notícia. Bom, tava todo mundo crendo que seria coisa de uma noite e uma noite bem aleatória. Bruno é quem intervém, expõe a pergunta que ninguém mais deixa escapar:

– Novo trabalho? Eles te contrataram, amor?

– Siiiiiiiiiiim! Não é maravilhoso? Vou ficar mais pelos fins de semana, claro, por causa das aulas na faculdade. Mas enquanto as aulas ainda não voltaram, posso trabalhar de boa.

Nisso, o noivo lá da mulher desce do palco, ele tinha anunciado algo sobre o aniversário e algumas surpresas mais que acho que ninguém da nossa galera prestou atenção, mas ficou claro, pela reação do público que era a deixa para que Daniela reassumisse o palco. Mal tínhamos ficado um tempinho com ela, poxa.

– Eu tenho voltar. Espero que todos tenham gostado da minha surpresa. Eu tô, tipo, em outro patamar de felicidade!

E com mais um gritinho de pura piração, nos deixou para subir novamente ao seu posto. Agradeceu a todos convidados por comparecer, parabenizou a moça centro da festa, exultou-se como nunca ao falar que estava sendo uma baita noite maravilhosa e que ainda viriam mais músicas para encantar e fazer a emoção tocar a todos.

Como se soubesse, Daniela dá voz a uma música em especial que era a cara de Djane e de minha mãe. Quando foi todo mundo passar o carnaval lá na minha cidade, as duas trocaram figurinhas sobre seus artistas favoritos e uma delas era Ana Carolina, e botaram até pra tocar. Fazendo graça, Vinícius me puxou pra dançar lá na sala de casa. Agora, como o lembrete que bate na porta da memória, ele novamente me puxa, com aquele seu sorrisinho sabichão e...

Trilha citada/indicada: Ana Carolina – Quem de nós dois

– Essa música te lembra algo, amor?

– Só me lembra mamãe aplaudindo e dizendo que a música super combinava com a gente, enquanto eu dizia que tínhamos lá nossas músicas, e foi aquela discussão báaaasica sobre as músicas calmas demais delas e as nossas sempre agitadas. O Ryan Tedder pode ser tão tão romântico quanto a Ana Carolina.

Ele pode, mãe!

O Ryan tanto era romântico e lindo que saía do meu celular só nunca, isso apesar de nos últimos tempos eu ficar renovando meu toque de celular. Acho que ele tá tão grudado no meu cérebro já que tem hora que penso estar ouvindo e meu celular não está tocando. Esse é o sinal para se trocar de toque, na verdade.

Não fosse por isso, eu tinha outra candidata do One Republic para substituir.

– Eu só lembro como aquele feriado foi bom. Muito bom. Às vezes eu gostaria de deixar tudo como está, voltar no tempo e reviver aqueles dias. Só pra dar uma relaxada mesmo.

– Foi mesmo um bom feriado. Você parecia mais feliz que nunca.

Vinícius parecia mesmo.

Estava abraçada a ele, me apoiando em seus ombros, sendo abraçada de volta, ele em volta de meu dorso, o que nivelou um pouco nossos rostos. Ele um pouco mais alto, claro. Seguíamos aqueles passinhos básicos de lá pra cá conforme com batida leve. O ambiente, a agitação amena, a festividade, tudo tudo nos transportava à nossa velha e intensa bolha.

E nesse bolha nunca realmente se tratava só de nós.

Tão fácil como veio o sorriso de Vinícius por se lembrar daquelas bons dias que passamos no feriado, tão logo lhe bateu outra memória e ela o fez contrair-se um pouco.

– É... foi bem naquela época que Filip... Hum.

– Pode dizer, não tem problema.

Vinícius fez que ia deixar pra lá, mas como o encarei, ele termina a sentença enfim. Não quero que ele fuja mais disso, mesmo desses sentimentos que não são bons. O fato de não gostarmos disso não impedia em nada de estarem ali ou não.

– Que Filipe tinha largado do meu pé e era algo que eu queria faz tempo.

Às vezes parecia que Vinícius não gostava de tocar no assunto não porque imaginava que iríamos discutir (pelo fato de eu não concordar com suas atitudes), mas por vergonha. Eu entenderia se fosse o caso – não queria era que achasse que tudo nos levaria a uma discussão, por isso o melhor que poderia fazer era aceitar que aqueles sentimentos ainda se preservavam com ele. Só o fato de aceitar era um passo a mais na caminhada pela paz interior. Que era o que eu mais queria lhe ceder, uma tranquilidade em relação a isso.

– Isso realmente te satisfez?

Inspirando meu cheiro, calmo, ele me enlaça mais e descansa sua cabeça junto da minha. Sua barba por crescer começa a espetar um tantinho, cedendo uma sensação boa na realidade. Ao pé do meu ouvido, ele termina por sussurrar:

– Por um tempo sim, Mi, não minto. Filipe era uma sombra que eu não queria ter ao meu lado. Mas eu sei que só tava fugindo de tudo que ele me representava.

Enroscando-me mais nele, questiono:

– E o que ele representa hoje... ainda é tão ruim assim?

Devagar e quieto, Vinícius se move e levanta um pouco a cabeça. Em sua face vejo a velha insegurança sua, aquela que não sabe se olha pra frente ou se olha pra trás quando se trata de sua vida. Em seus olhos também brilhava aquela velha mágoa.

– Eu não sei te dizer, sinceramente. Sei que ele significa muito para você hoje, sei que ele nos ajudou de maneiras que eu poderia passar uma vida agradecendo, mas quando se trata de estar com ele, de ter em mente tudo que ele fez... Eu não consigo. Simplesmente não consigo. Levantar a bandeira é uma coisa, fincar essa bandeira é outra.

Delicada, toco seu rosto e ele aprecia esse toque, fechando os olhos. Mas torna a abri-los quando lanço outra questão.

– Sobre esse fato de ele hoje significar pra mim, isso te incomoda?

– Às vezes. Ele afinal conseguiu o que eu mais temia: um lugar no seu coração.

– E por que isso tanto te assustava?

– Porque, óbvio, era uma maneira de chegar até mim.

Eu sei que era “óbvio”; no entanto, havia uma parte de mim que ansiava que talvez não fosse só por isso. Não depois de tudo o que Filipe havia feito. Vinícius que não via isso e não sei se prefiro dizer-lhe ou esperar que sua cabeça que maquine tal ideia.

De qualquer forma, tudo deveria ser abordado com cautela. Também era de meu desejo que ele confiasse em mim para tanto.

– E ele chegou? Digo, ele se aproveitou disso?

– Num sei por exato... Mas por que pergunta?

– Não sei, curiosidade. Acho que só evitei perguntar por um tempo. E agora que você mencionou... sei lá, só quis saber.

Dou de ombros, é verdade, apesar de ter lá meus receios quanto ao dia que ele descobrirá sobre a investigação. Confesso que isso me pegava às vezes, me fazia temer sua reação. Eu também buscava tranquilidade no fim das contas.

– Tem algo mais que queria saber?

– Na verdade... sim. Vocês eram muito ligados, do que Djane e você mesmo já haviam me contado. Não sente falta? Ao menos de ter... um tio?

Como que rindo de uma piada interna, Vinícius é quem dá de ombros. Não sei bem como interpretar isso. Ele já havia dito noutras conversas, sem muito se deter, no entanto.

– Sei lá, ele era meio estranho.

– E nem mesmo desse estranho você sente falta?

– Acho... que sim? Quer dizer, sei lá? Não sei dizer se sinto falta de um tio, de um amigo, de... um pai. Às vezes gostaria de conversar com ele, mas sem toda uma pressão de dar-lhe um cargo. Mas aí volto a considerar o que ele fez, e algo ruim cresce em mim... E tem certeza que você quer falar sobre isso agora? Aqui?

Sou pega um pouco de surpresa, engulo em seco e aspiro o ar, o ambiente, me endireitando por me tocar que era um local público. Mas isso não me desconcerta se avançamos tanto nessa conversa. Estava gostando do resultado e parar agora seria uma quebra de vibe total. No palco, Dani já estava noutra música, uma que não conhecia, e pelo salão cada par que dançava estava preso em seus mundos, outras pessoas nas mesas. Apesar de ser um local de muita gente, estávamos sozinhos.

– Eu só acho bom que você se abra de vez em quando. E que saiba que estarei te ouvindo. Seja numa mesa com nossos amigos, seja numa dança numa pizzaria.

Vinícius me dá um sorriso contido, daqueles que agradece, mas que guarda umas reservas. Ele assente para si e continua, ultrapassando as barreiras de seus próprios anseios:

– Me canso disso, sabe? Dessa raiva. Me sinto às vezes como se estivesse num estado de torpor. E no meio disso, aparece muitas diversidades.

– O que quer dizer?

– Como quando aquela vez que você sumiu... e ficou no antigo no antigo apartamento. Quando ele ligou, Mi, eu não pensei em outra coisa senão você. Eu não via outra coisa senão o teu irmão destroçado. E-eu... Minha ficha só caiu quando eu estacionei o carro. A realidade me bateu ali, de que eu estaria com ele novamente. Eu não tinha muito tempo pra pensar, o Murilo tava acabado do meu lado, e aí eu pensava em você, na situação, na história que a Flávia havia me contado. Me senti socado no estômago, perdendo um pouco do ar.

– Vini...

De repente, paramos de dançar. Vinícius abraça dessa vez meu rosto, as duas mãos em minha face e me fita intensamente, independente das pessoas ao nosso redor.

– Mas a questão era você, amor. Enquanto eu dirigia, eu só pensava em você. Era um misto de cuidado e temor por aquela história bizarra e você no meio... Então só meti a cara e fui. E lá, me surpreendi.

Levantando um pouco as sobrancelhas, ele faz um pouco de suspense. Aproveita e foge também da nossa troca de olhares, abaixando suas vistas. Se mostrava envergonhado.

– Me surpreendi pela gratidão que sentia. E ao mesmo tempo, mal, porque parecia que Filipe tinha medo de mim. Ele se esquivou, se ausentou, fez tudo, só para não ficarmos sozinhos num mesmo espaço. Enquanto você se entendia com o Murilo, ele... Ele tava bem nervoso, bem mais sem ação que eu, que fiquei entre o torpor e o “pouco me lixando” e aquela sensação de culpa e horror de mim mesmo por implicar uma reação dessas nele.

– Awn, Vini.

Desarmado, ele se desvencilha de mim e se afasta um pouco, como quem quer fugir a qualquer hora pela coisa ruim que fizera.

– Eu fui terrível, não fui?

Ele não tava pronto para ouvir a resposta concreta, penso. Me esquivo.

– Era... compreensível.

– Mi, não tenta me fazer sentir melhor, que e-eu... me sinto pior.

Dito isso, Vini realmente foge. Ele atravessa o salão entre as pessoas e isso chama um pouco de atenção entre os presentes, que se viram logo pra mim com seus olhos questionadores, mas ninguém interfere. Eu não sei em que paralelo estava, e todo ambiente para mim estava abafado. De pronto e sem muito alarme, sigo pelo mesmo caminho que Vinícius traçou e o encontro num canto da varanda de entrada, apoiado numa mureta.

Antes de impor minha presença, observo como ele, de costas, se concentra em não se deixar dominar por aquelas sensações ruins. Só assim avanço, e novamente com cautela, me sentindo uma idiota por ter levado isso mais além do que devia.

– Desculpa. Entenderei se você precisar de um tempo. Um tempo de mim fazendo essas perguntas estúpidas.

Ele não se vira. Estava de braços cruzados e, ao que o corpo todo se mostrava, estava tenso. Estava na verdade, em sua própria escuridão.

– Não são estúpidas, são... Droga! São coerentes. E eu te amo muito para ouvir e te responder, mas...

Me aproximo e passo a mão por suas costas, querendo acalmá-lo antes de tudo. Mas ele se vira, discordando dessa minha abordagem.

– Shhh, não precisa de mais nada, ok?

– Precisa, Mi, nós dois sabemos que precisa. Eu ainda sou esse maldito inseguro.

– Maldito nunca.

Ele ri um riso desgostoso.

– Mas eu estraguei a noite.

– A noite ainda não acabou. E isso... Isso pode ser... bom.

Vinícius apenas abaixa a cabeça, sussurrando suas palavras.

– Gostaria tanto de ter sua visão de mundo.

Eu, no entanto, alcanço o seu queixo com a mão e levanto seu rosto para mim.

– Se tivesse, não seria o meu Vini.

Notas finais
Muito amor Sim ou Com Certeza sobre esse capítulo? (apesar dos apesares, claro) :D Adoro essa turma junta! E que assim permaneçam, né? Não sei, não sei. Tô de sacanagem com vcs. Ou não hahaha Ok, não aguento guardar essa: tem uns capítulos suuuuuper especiais mais a frente e tô doida pra postar. Só posso liberar a info de que tem MUITO a ver com essa música aqui: https://www.youtube.com/watch?v=13oXf68zRcM Duvido que alguém venha a descobrir minhas tramoias, mas já nessa altura do campeonato, vai saber! Agora que já plantei a semente, fui!