Notas iniciais
EU POSSO EXPLICAR! Mas é uma looooooooooonga história, talvez mais longa que essa fic. Desculpem, de verdade, o sumiço. Muita coisa rolando ao mesmo tempo. Então o que vou dizer é apenas EITA GIOVANA, SEGURA ESSES FORNINHOS! ENJOY! P.S.: À galera que me mandou msg no privado, vocês s2 s2 s2 s2 s2 Bora ver como vão ficar as teorias de vocês dpois desse post ^^

Tal como Vinícius, meio que petrifico de onde eu estou. Sou tomada por tantas vozes, sentimentos e lembranças ao mesmo tempo, que parece que estou sonhando acordada. Penso na postura de defesa de Vini desde o começo, em que dizia coisas como “sabe como me sinto em relação a ele”, querendo dizer o pai. Ou ainda na sua cabeça que entrava em fuso e nem ele bem entendia o que passava dentro de si, que falava que não conseguia estar em paz consigo mesmo, pois “levantar a bandeira é uma coisa, fincar essa bandeira é outra”. E eu, ali, do outro lado dessa história, quem via perdas e mais perdas enquanto ficava nesse impasse, me encolhi cada vez que pensava na raiva que ele sentiria de mim por ter me envolvido onde não devia... E agora estava acontecendo. Vini vira os papéis da investigação de Filipe sobre sua mãe.

Acordo desse curta-metragem interno; apesar de paralisada, eu tento reagir. Tento dar espaço à crença de que todos os nossos altos e baixos nos últimos meses de alguma forma nos prepararam para esse momento. Meu coração bombeia essa verdade dentro de mim.

Sou mais despertada quando ouço um suspiro nervoso de Vinícius. De pronto, jogo o que trazia às mãos no sofá, o fio do carregador do notebook que fora buscar minutos atrás, e me encaminho para onde ele está, do outro lado da sala. Mas quando chego diante dele, pauso... ainda receosa sobre ele me querer por perto tão logo lhe contar o que tenho pra contar. Algo dentro de mim, pelo contrário, me diz para eu transpor qualquer barreira.

Vini nem parece me perceber, ele só fica encarando aqueles papeis, mesmo de onde está. É só quando falo, com calma, que pouco roubo sua atenção. Desorientado é a palavra para descrevê-lo.

— Não é nada do que você tá pensand... Quer dizer, não sei o que você está pensando, mas antes de qualquer coisa, me ouve.

Baixinho, o Vini responde:

— A minha mã... É um relatório sobre a minha mãe.

Esclareço, ainda que sem dizer muito.

— É um dossiê.

Isso captura sua atenção de vez, pois seus olhos de repente me veem ali, tão perto. Vejo que eles estão já preenchidos de água e, por osmose emocional, sinto os meus assim também. Logo nossos fôlegos estão mais puxados. Mas, de alguma maneira, Vini suaviza sua reação. Ele se permite respirar, rir um riso nervoso, incrédulo e sem vontade.

Com calma, me aproximo mais e puxo sua mão para as minhas, tirar ela do apoio do corpo, pra se apoiar em mim. Era como eu testava território. Acabo por vigiar todas as suas reações de perto, seus lábios já trêmulos, assim como seu franzir do rosto, essa sua indecisão ainda de rir sem querer rir, aquele choro entrecortado e quase entregue. Isso me desmonta um pouco por dentro, porém procuro não me abater. Vini precisa de mim e ele precisa que eu esteja bem.

— Foi isso, não foi?

Aí mais uma vez Vinícius olha além mim, para os papeis lá do outro lado.


Trilha indicada: Secondhand Serenade – Fall For You

— Foi isso... Foi isso o que você dizia ter feito por mim, não foi? Você buscou informações de minha mãe biológica e fez um... dossiê... de busca?

Ele aperta sua mão na minha e... eu não consigo dizer. Logo seus olhos estão brilhando, me encarando e esperando uma resposta e tudo o que vejo é uma imagem que minha mente projetara no outro dia... Relembro que ele havia conversado com Djane sobre tentar adivinhar o que eu tinha feito, e que sabia que envolvia seu pai. Não deu para ouvir a conversa toda, porém, dava pra ver que ele vinha ficando mais calmo desde aquela vez que lhe confessei que guardava algo. Com esta certeza em mente, só assinto, visto que não quero dizer nem sim, nem não, mesmo que haja tão mais história nisso.

Meu gesto é muito bem recebido, pois de repente Vinícius junta sua testa na minha, já sorridente, mas ainda muito surpreso, e me abraça o rosto com as duas mãos. Acho que se ele não estivesse me segurando, eu teria me desmanchado toda. Foi aí que meus olhos se encheram mais, meu coração surtou acelerado e... sim, eu sorri como a boba que sou e uma boba aliviada de ele estar aceitando bem assim – embora ele estivesse creditando a pessoa errada.

E não importa. Não importa tudo o que já imaginei, o que já tentei planejar, nada, penso ao estar tão perto dele, ao ver quão verdadeiramente ele me sorri. Acho que nenhum preparo é suficiente quando se trata de pensar de maneira racional, pois o soco da emoção sempre é mais forte. No entanto, é sendo levada pela emoção que sinto mais segurança. Mais segura ainda quando ele me pega desprevenida e me puxa para um beijo apaixonado. Logo sinto que me abraça e eu o aceito igualmente em meus braços, tomada por todas essas sensações agridoces. Sinto o seu nervosismo e aposto que ele pode sentir o meu.

E, novamente, não importa, pois só quero me perder nessa urgência dele. Talvez seja assim que temos de nos provar: com o coração aberto.

Mas estaria o dele aberto o bastante para ouvir-me?

— Por que não me falou antes, Lena? Por quê?

Meio que desvio o olhar, porque a insegurança não só bate na minha porta, como repercute por ela toda. Já não sinto aquele medo alucinante que me acompanhou durante tal jornada, mas há fios dele que ainda me amarram as mãos, os braços, a boca.

— Milena, eu só quero entender. Eu... eu só estou surpreso. Um tanto descrente sobre o quanto ou como você conseguiu tudo isso, mas... Queria que tivesse me dito. Por favor, Milena, olha pra mim.

Vinícius me segura delicado pelo queixo, a fim de virar meu rosto. Permito que ele faça isso, porém, ainda não me entrego por completo a seus olhos ansiosos. Por outro lado, tento comprimir essa força negativa que quer me tomar... Não queria que ele visse o quão vulnerável isso me deixava.

— É porque envolve meu pai? Hein, Lena? Por que se for...

Volto minha atenção no mesmo instante para ele, como que por instinto. Ele logo compreende minha pergunta muda.

— Porque está tudo bem, amor. Está tudo bem.

E assim ele me abraça mais uma vez, me abraça apertado, enquanto murmura baixo contra o meu corpo:

— Obrigado, amor, obrigado, obrigado, obrigado.

E aí eu vi, que era a hora de me mover, de fazer algo. Por mais que ele esteja reagindo bem até aqui, há tanto para esclarecer, tanta verdade para lhe contar e... Havia muita coisa em jogo! Por um segundo ainda me permito sentir o seu corpo ao meu, exultante, então seguro a respiração e penso: vai, Milena, ele precisa saber.

— Espera, Vini... N-nã... Não foi assim que...

Ao aceitar isso dentro de mim, me desvencilho dele e recobro um pouco de racionalidade com toda a calma do mundo que eu poderia arranjar neste momento. Razão e emoção, afinal, são dois pesos que agora devem estar em equilíbrio, num estado de sobriedade. É assim que devo me fortificar, penso, é assim que decido recomeçar. Com sua atenção novamente voltada para mim, deslizo meus braços de seu pescoço para seu dorso, para manter certa distância, porém uma que não nos desconectasse por todo.

— Não foi assim que aconteceu.

— O quê que não aconteceu?

— Eu não fiz a busca...

Ele não compreende de início.

— Mas os papeis... eles estão aqui.

— Sim, estão. Porém não são os originais. A gente nunca falou a respeito porque nenhum de nós tinha coragem pra interferir nisso e nenhum de nós tinha boas referências sobre como você reagiu anteriormente a outras notíci...

— Esperaí... nós?

Ao perceber o que eu tinha falado, fico sem jeito em primeira instância, abrindo e fechando a boca em busca de palavras. Vini me fita confuso, mais confuso do que antes e não posso culpá-lo. Tomo um fôlego e trato de esclarecer antes que soe de outra forma.

— Há mais gente envolvida do que parece. Eu... O Murilo... Filipe... Seu Júlio... Iara... Djane.

Trilha indicada: Goo Goo Dolls – Not Broken

Minha... mãe?!

Vinícius dá um passo para trás, cauteloso. Decido não entender isso como uma postura ruim, afinal, é uma informação que pede cautela mesmo. Ok, e esse franzir de sua testa também, que é algo que poderia me parar, mas, por dentro, minha mente só reforça: a verdade, Milena, diga a verdade.

— Todo mundo sabia? Esse t-tempo todo?

— Bem, não todos, mas foram descobrindo pouco a pouco. E eu não fiz o relatório, foi um detetive. Contratado pelo Filipe. Minha participação nisso foi menor.

— Participação?!

Engolindo o ar, Vini se mostra desorientado de novo.

— Tentei ao máximo não me envolver demais porque... porque não achava justo. Você é quem deveria sair em busca da tua história, não eu. Mas lá e acolá surgiam outras coisas que tornavam essa minha postura impossível.

Metralho de novo antes que qualquer raiva surja nele. Enquanto vou contando as coisas, a atenção de Vinícius parece dispersar e ele se afasta, o que por certo me preocupa, mas não fraquejo novamente. Puxo um fôlego maior, a fim de controlar mais a mim do que outra coisa, e vou tentando encadear os fatos, para que ele tenha uma visão mais clara da situação. Não vale a pena deixá-lo mais no escuro.

— Na verdade, Filipe quem reuniu os dados e até apanhou por isso. Lembra daquele assalto na empresa? Iam roubar o carro dele, onde estavam os últimos documentos que ele tinha de Viviane e... ele lutou, Vini. Ele lutou de inimagináveis maneiras e também teve seus momentos de baixa. Mas todos abraçamos essa causa, porque valia a pena. Aqueles papeis ali são apenas uma cópia que o Murilo conseguiu.

— Como assim “conseguiu”?

— É, ele ficou mexido depois que... que... É uma história um pouco longa, Vini.

É agora, é agora que tudo vai pesar, penso temerosa. Junto de meus temores, já me autoacuso de traidora, que não lhe deu espaço, que armou... ou ao menos ajudou a armar e, num segundo, entro em conflito. Pois há um outro lado de minha consciência que diz que era um risco por qual era válido passar. Minha esperança está de novo procurando penetrar meu peito e esmagar minhas impressões ruins. É a essa força interior que devo dar vazão, não? O amor de tentar algo fazer dar certo?

Só, por favor, não me odeie. Por favor.

Ao contrário da minha mente alvoroçada, o ambiente onde nos encontramos está um tanto estático... com um ar de indecisão, descobertas e surpresas. Trôpego, Vini se encaminha para o sofá, e, em um movimento surdo, nele se senta, outra vez atordoado, mas nem de todo desorientado, percebo isso ao ouvir sua pergunta:

— Se você fala daquela vez que ele esteve no hospital, quer dizer que tá rolando... há m-meses?

Engulo a seco e assinto, mesmo que ele não possa ver.

— Sim. Faz alguns meses.

— Mas isso... Isso é desde quando?

Me aproximo do sofá, e, me apoiando em seu encosto do espaldar, fico em dúvida em como falar essa parte. Mas, de novo, sigo em frente.

— Desde... desde aquela viagem que fizemos e Filipe disse que te deixaria em paz. Um pouco antes ele me ligou pra avisar que se afastaria e... eu achei um absurdo. A história de vocês não deveria terminar ali, não daquele jeito. E aí eu e o Mu nos encontramos com ele. Filipe já estava resoluto, não tínhamos o que fazer quanto a isso... Mas aí o Murilo o lembrou de Viviane, pois era algo que muito te interessava e Filipe, bem, ele teria meios de conseguir informações. E foi o que ele fez.

Exasperado, Vinícius exclama:

— Mas por que ninguém me contou?!

Ele não tá me ouvindo?

Fico sem resposta e ele se vira pra trás, estarrecido com isso. E então mais estarrecido, com a boca aberta em um “O” e a surpresa em seu semblante. Diante disso, fico perdida. Abaixo minhas vistas, já que olhá-lo olho no olho neste momento me parecia demais.

— Não acredito que... vocês fizeram isso. Quer dizer, eu estava pensando esses tempos em conversar com ele para conseguir algo e... v-vocês... Vocês tinham cópia de todo o material! Vocês tinham tudo... em mãos!

— De lá p-pra cá aconteceu muitas coisas, Vini, m-muitas coisas mesmo. Eu só... Eu só queria que v-você não me odiasse.

Para controlar-me, fecho uma mão na outra e, por instinto de proteção, encolho-me, chegando-me cada vez mais para trás. Vinícius acho que nem se dá conta, vez que ele permanece virado no sofá, falando como se eu ainda estivesse ali, atrás dele.

— Como posso te odiar, Lena, me diz. Como? Essa é a coisa mais... mais sensacional que você poderia fazer por mim. Vocês, na verdade. É meio chocante, claro, mas sabe o que mais me vem na cabeça agora? O que eu fiz pra MERECER vocês?

Pasma, eu paro onde estou, quase chegando à cozinha.

O quê? Mas você nem sabe a história toda e...

— Eu não me importo! Não me importo de verdade, Lena, e...

Ele se vira para mim e me nota. Sua expressão muda no mesmo segundo.

— Meu Deus, você está mesmo com medo de mim?

Apesar de estar eu mesma me tapando a boca, um soluço meu audível é sua resposta. De pronto ele se levanta, dá a volta pelo sofá, se aproxima de mim, agora nervoso e... preocupado comigo.

— Amor, olha pra mim. Sou eu que tô aqui aterrorizado! Não odeio você!

— N-não?!

— Ô, Lena, claro que não. Como poderia imaginar is...? Ok, acho que dei motivo antes, não? Mas...

Ele pausa para cobrir suas mãos nas minhas e faz com que eu as abaixe. Logo Vini me puxa, delicado, de volta à sala. Tão cuidadoso, não me larga um segundo. Me toca no rosto, me observa como se eu fosse quebrar e tenta ele mesmo dispersar essa tensão que recaiu sobre nós.

— Mas tudo tem mudado, e pra melhor. Ainda não acredito que...

Ainda estou tão chocada que há lágrimas descendo sem que eu possa as segurar. O choro que segurava agora está se quebrando para ser aberto. Vinícius, ao notar isso, interrompe o que iria falar e passa o polegar por minhas bochechas. E então me abraça, me toma por todo seu ser e me diz baixinho:

— Shhh, Lena, está tudo bem, ok?

— E-eu quem... devia... t-tá... te consolando...

— Acho que já fez muito, amor. Muito mesmo. Merece descansar agora.

Vinícius inspira e me beija o alto da cabeça. Percebo que ele está até muito do calmo. Preocupado, o coração batendo aloucamente, mas calmo.

Eu sou um desastre mesmo. Fui boba de me deixar levar por temores. Pior, de ainda pensar em experiências passadas. Apesar de todo meu crescimento ao longo dos últimos meses, acho que também ainda não estou tão 100% na prova de confiança nos outros, pois vira e mexe, entro em pânico só de pensar que tudo vai entrar em xeque. Preciso realimentar mais minhas esperanças e deixar esse passado pra trás, reconsidero.

Reconsidero também o que Vini declarara há minutos atrás.

— Realmente acha que foi... “a coisa mais sensacional”?

Com delicadeza, Vinícius se desvencilha de mim, mas só o bastante para que ele pudesse me olhar e me lançar uma expressão de crença sobre minha descrença.

— Você não?!

— Eu não fiz isso, Vini.

Balançando a cabeça devagar para si mesmo, ele volta-se para mim para declarar:

— Acho que você, como sempre, gosta de se dar pouco crédito.

Me aparto um pouco dele para respirar e limpo os caminhos de água de meu rosto. Teimosa, ainda quero deixar claro o que é a situação, o que representa. Melhor, que eu não merecia tanto crédito que me dava, pois o crédito mesmo devia ser para outra pessoa. Seu pai.

— É sério, Vini. O que eu fiz não foi um déc... um décimo do que Filipe fez.

Neste momento é que o namorado se desarma de vez. Ele abaixa, tenso, os ombros, embora não me solte, e suspira um suspiro bem cansado, triste e dolorido. Não era a primeira vez que se sentia assim quando se tratava de seu pai.

Envergonhado e de olhos fechados, ele pergunta:

— Ele também tem medo de mim, não tem?

Eu queria dizer que todo mundo tem medo de sua reação, mas me detenho.

— Estaria mentindo se dissesse que não.

Imagino que ele iria ficar reservado, como sempre, mas se num segundo ele se permite exprimir-se esse sentimento pesado em um longo e fundo suspiro, no outro ele já parecia mais determinado. Vini acorda deste velho torpor para me dar um selo breve aos lábios e falar, resoluto:

— Preciso vê-lo.

— Agora? Desse jeito?

— Preciso fazer algo. Ele não merece isso. Acho... acho que nunca mereceu.

— Mas, Vini, dirigir assim... Espera um pouco. Espera até amanhã se for o caso.

Nem eu estou assim, recuperada. Sem falar que da outra vez, quando Vini teve um pesadelo, ele ligou para Filipe e... Ok, Milena, não pense no passado de novo. Deixe que ele tome suas decisões. Inspiro e expiro devagar, vendo que estava mesmo mergulhado nessa decisão repentina, agitado.

— Eu só não quero que se precipite demais.

— Não vejo razão para esperar, Mi. Além do mais, não vou sossegar até falar com ele. Meu pai.

Vinícius me abre um sorriso tão genuíno que não poderia lhe negar nada neste momento. Estava um pouco emocionado ainda, com uma carga pesada sobre si, mas boa. Ele realmente precisava de uma boa conversa com o pai. Uma conversa sincera.

Então, em um movimento rápido, Vini cata as chaves do carro em cima da mesinha da sala, volta para me dar um beijo e antes que possa passar pela porta, me diz, com um sorriso maior de esperança, animação e ansiedade:

— Me deseje sorte.

— Boa sorte. E toma cuidado!

Após sair porta afora, entrar no carro e ligar o motor, fico estarrecida olhando para o nada, o tudo, e por fim, sorrio. Acompanho seu carro até virar a rua. O sol já está ameno e agora, sozinha, quero apenas mergulhar nessa sensação boa que é ter terminado bem... embora não tenha terminado de fato. Era só o começo de uma nova jornada, uma pela qual todos estávamos esperando ansiosamente. Quase não posso acreditar no que acabara de acontecer. Acho que nem mais mato o Murilo por ter deixado aquela papelada tão à luz do dia.

Murilo! Tenho que avisá-lo. Mas antes, melhor ligar para Djane.

Sendo assim, corro de volta para meu quarto, onde estava meu celular. Enquanto procuro o contato dela na minha lista, procuro inspirar e expirar o bastante para falar com a sogrinha sem fazê-la surtar. Mas só chama, chama, chama. Desligo e ligo de novo.

Em uma nova surpresa neste embaralhado dia, ouço um barulho de alguém chegando e fechando a porta da sala. Claro que não é o Vini, imagino ser meu irmão, que chega na melhor hora! Eu já ia ligar para a criatura. Assim corro para sala e... encontro um Murilo quieto, de testa na porta. Será que ele já sabe? Mas tão rápido?

— Murilo?

Ele nem parece me ouvir.

Mais uma vez neste dia estranho, me aproximo e a ansiedade me sobe.

— Murilo?

— Oi?

Meu mano se vira e não parece nada bem. Desnorteado?! Nem dá tempo de pensar sobre isso, pois logo que ele me vê melhor, provavelmente um bagaço, ele questiona logo em seguida:

— Você andou chorando?

— É, sim... é que o Vini... Mu, o Vini descobriu da investigação. Ele acabou de sair daqui e... Meu Deus, Murilo! Ele não tá odiando a gente! Na realidade, gostou muito e... Hey, você tá legal?

O semblante de meu irmão não mudou um milímetro enquanto lhe contava a boa nova. Devia ter algo muito errado, vez que essa vitória também era sua. Murilo desvia de mim e faz o mesmo caminho de Vinícius momentos antes, se dirigindo para o sofá, onde se senta como um peso morto.

— Não sei.

— Como assim “não sei”?

— A gente precisa conversar, Mi.

— Mas o Vini...

— O Vini vai ficar bem.

— O que foi que te deixou assim? É algo com o Armando? Com o trabalho? Aline? Você saiu daqui tão animado, mano.

Caído como estava, ele apertou uma mão na outra, distante, hesitante. Não gosto nadinha de sua expressão. Tomo uma postura dura e...

— Diz. Diz logo.

— Recebi uma ligação ainda pouco. Do nosso pai. Não é sobre a vovó, nem ninguém da nossa família. Bem, mais ou menos.

— Eu não tô entendendo.

Meu mano não consegue olhar para mim, no entanto, bate no lugar vazio ao lado. Apenas observo, sem fraquejar em minha postura. Pelo menos do que ele via, né.

— Senta aqui.

— Diz, Murilo. O que te deixou assim?

— Papai me ligou pra avisar que vai viajar essa segunda... Parece que nosso tio está tendo dificuldades em lidar com o processo da Denise e ele vai lá, pra ajudar.

Ok, sento. Depois dessa, eu tinha que sentar mesmo.

— Isso quer dizer...

— Isso quer dizer que devemos contar pra ele... sobre a Denise. Não porque ele pode descobrir algo durante a viagem, mas porque acho que é preciso, até mesmo para que esteja ciente do que está lidando. Tem outra coisa.

— Mais?

— No caminho eu vim pensando sobre isso, sobre o que fazer e... Acho que vou nessa viagem com ele.

— O quê? Não!

— Por que não?

Porque não!

— Bom... e a vovó?

Eu sei, péssimo argumento. Mas o que posso eu dizer se nem tenho tempo de pensar com essa bomba no colo?

— Ela vai entender a emergência.

— Você não está pensando em ver a Denise, está? Está, Murilo?

Eu sei que está e sei que isto lhe pesa muito. Inquieto, meu mano se joga ao espaldar do sofá e no encosto descansa a cabeça, que devia estar a mil.

— Não sei, Lena, nada está certo agora. Acho que nossa preocupação de agora deve ser a nossa conversa com papai.

Mal tinha me livrado de uma boa dose de lágrimas, lá estavam elas de novo, preenchendo minha visão. Ao espiar o corpo tenso e pesado que mostrava meu irmão, apenas atendo a minha súbita vontade de estar perto e me junto a ele, abraçando seu dorso. Cansado, Murilo mal se mexe, mas me recebe.

Como não quero assustá-lo mais do que devia, forço-me a engolir as emoções e estar ok para ele. Porque, caramba, meu mano precisava disso. Precisava também de descanso. Só que então um pensamento me belisca de repente.

— Espera... Se ele quer viajar segunda, então só temos...

— Amanhã. Amanhã é nossa oportunidade.

Notas finais
NEM EU TENHO PALAVRAS PREPAREM O CORAÇÃO QUE VEM MAIS LOGO EM SEGUIDA pra, como a Milena disse, não me odiarem haha então sejam o VINI e me digam que a fic é a coisa mais sensacional -q