Notas iniciais
Último capítulo da temporada! Mas muita calma nessa hora, que os próximos capítulos serão disponibilizados, vou abrir outra página. Você leitor (a) que chegou até aqui, agradeço de coração! Mantendo o Equilíbrio começou a ser escrita em 2011 e já vai fazer 2 anos que ando por esse paralelo. Só até outro dia que comecei as postagens e tem sido uma vitória pessoal, pois me ajudou muito a desenvolver enredo e a própria escrita. Agradeço à Milena e ao Murilo por me perturbarem, e você leitor (a) (ainda que seja fantasma), guerreiro (a). Enjoy!

Bebida e frustração não combinam, apesar de uns e outros insistirem em juntar os dois. Se tiver as chaves do carro no bolso, menos ainda.

Ele poderia aprender com Vinícius, porém, nunca citei o caso para não ser inconveniente. Na verdade, até quando eu precisei desabafar, não pude falar a verdade e tive que embromar algo com minha avó, se bem me lembro. Sendo meu relacionamento ainda recente, meus amigos conhecerem Vini era mais recente ainda, então histórias de vida ainda não pudemos compartilhar. E essa noite estava saindo ou muito errado ou seria uma boa história para se contar aos netos.

A garrafa que consegui arrancar de Gui agora está nas mãos de Bruno e pela cara com que este saiu, senti uma aflição, que piorou ao perdê-lo de vista no meio da galera no meio da tenda. Saio empurrando as pessoas procurando por ele e Vini continua no meu encalço tentando me parar. Se eu parasse, teria que dar umas explicações e eu de fato perderia Bruno por aí. E como daria explicações com o som quase estourando nossos tímpanos? A batida era um ótimo remix, num estilo psy, para curtir se não estivesse tão preocupada com alguma besteira que meu amigo poderia fazer. E se ele fosse embora? E se ele saísse no carro? Eu sentia algo ruim.


Trilha indicada: Linkin Park – In The End (Club Remix)

http://www.youtube.com/watch?v=FSbidbYX26U


Nada estava saindo como eu planejava. E não era Vinícius que estava me roubando o controle, era a situação mesmo. Ou devia dizer os ciúmes? Parece que hoje era O dia do ciúmes. Queria poder registrar no calendário como se fosse, 10 de dezembro. Onde será que se tem que ir para fazer uma ocorrência dessas? Cartório? Centro cultural? Como se tira a patente? Ah, não importa... tenho outras coisas pra me preocupar no momento.

Corro e corro, passando entre as pessoas e me sinto andando em círculos dentro da cabana, pois pareciam as mesmas pessoas com as quais eu esbarrava. Derrubei bebida numa garota enquanto passei batido por ela ao ter encontrado ao longe Bruno saindo zangado da pista, a caminho da saída da cabana. Ao chegar onde estavam os seguranças, havia mais gente curtindo na portaria da tenda e eu olho para todos os lados, procurando por Bruno e por meu fôlego. Vinícius me alcança, ainda perdido sobre o que era toda a agitação.

– Pelo amor de Deus, Milena, o que está acontecendo?

Poderia conhecer pouco Bruno, entretanto, sentia por ele um carinho como de grande amigo, quase irmão. Não poderia dizer que ele era o irmão que nunca tive, porque tenho irmão, mas posso considerá-lo como aquele primo-irmão que eu nunca realmente tive. Apesar da minha última relação com familiares de outros graus não ter sido um bom caso para mim num passado, poderia considerar Bruno como alguém de minha família. Ele é o tipo de cara que sabe aporrinhar alguém quando quer, mas se precisar dele, ele te ajuda sem nem mesmo pestanejar. Pode até não parecer, mas ele já fez coisas por mim que não eu não pediria a qualquer um.

Não é por dívida que faço o que faço, é por ser uma boa amiga mesmo. Independente de ele ter me ajudado com Vinícius quando precisei, ou de ter me ouvido quando passei mal na casa de Dani, eu faria o mesmo que estou fazendo agora. Porque ele não estava bem, logo eu também não estava.

Vini pode ter encontrado apenas uns “qualqueres” naquela sua desgraça, mas houve uma alma bondosa que pelo menos tentou por ele fazer algo bom, de não deixá-lo na merda sozinho quando ele mais precisava. Essa boa alma o carregou para um carro, só não pode contar com a batida na rua. É com esse sentimento de algo ruim poder acontecer que fico louca a procura de Bruno. Sabia que ele não era de beber, só que... na merda, como ele provavelmente se sente, não deve estar ligando muito para isso. Tal qual Vinícius, que só engoliu esse veneno no bar, esperando o “entorpecimento”. Uma coisa é brindar com alegria, outra coisa é tomar todas para esquecer o que tanto lhe frustra.

Posso ter perdido o “show” como Dani, semanas atrás, descreveu o comportamento dele no dia que faltei na monitoria, mas não queria vê-lo desse jeito, por mais alterado que esteja. Por isso que a preocupação me pega de jeito. Uma outra vez ele quase bateu o carro só pra entrar na faculdade pois estava perturbado com o que tinha na cabeça. Pior agora, conturbação na cabeça, garrafa na mão, chaves do carro no bolso. Espero estar apenas pirando e ele não considerando chegar a esse ponto.

Eu nem sei direito como falar para Vini, porque as palavras não saem, minha mente pedia por ação para encontrar meu amigo. Quando vou avançando pela grama, quase caio, por meu salto ter ficado preso em algo. Já não me bastava o maldito ficar se enterrando por todo o campo? Teria caído se Vinícius não estivesse logo atrás para me sustentar.

– Milena, me diz algo! Eu não vou saber te ajudar se você não me disser o que é!

– O Bruno! Temos que encontrá-lo!

Vinícius tenta me puxar para ele, só que meus olhos só corriam pelo local meio escuro, então não adianta muito. Ainda assim, ele não me solta, tampouco deixa de tentar novamente:

– O que tem ele?

– Ele vai fazer alguma besteira, eu estou sentindo...

– O quê? Por quê?

– Não dá pra explicar agora, só temos de achá-lo.

– Vamos chamar os outros, temos o Gui também...

– Não! Eu acho que é por causa do Gui... que ele está assim.

– Eu não estou entendendo, Lena. Explica isso direito.

– Não dá tempo. Só o ache, ok? Pode conseguir isso?

– Calma, vamos achá-lo. Olha, o carro dele ainda está ali.

– Pelo menos... Você vai pela direita e eu vou pela esquerda. Me grita.


~;~


Ainda bem que Vinícius estava me ajudando a procurar, porque se não fosse por ele, nunca que eu ia perceber Bruno sentado no alto de uma árvore. Eu quase me perguntei porque ele estava numa árvore, mas considerando o movimento da festa, acho que ele não estava querendo ser encontrado. Talvez teria o notado se a jaca que estava ao seu lado caísse... mas estando ele encostado nela, seria mais difícil.

O fundo da casa estava bem escuro. O que clareava era a festa no gramado e as luzes dos postes da avenida que eram mais altos que os muros da casa. Todo esse trecho de “sítio” tinha virado estacionamento para os carros, a maioria dentre as árvores. Havia uma pequena trilha – pavimentada em pedras que pareciam históricas, as melhores para tropeçar e cair com o salto que tinha nos pés; tinha que andar devagar e com muito cuidado – que começava do espaço em frente à cabana e acabava no muro da avenida principal, passando toda a área da piscina que ficava do outro lado do muro. Tinha uns degraus no fim da trilha que levava ao jardim da frente, que foi onde encontramos Gui de primeira.

Quando Vinícius mencionou o Gui, chamando-o de Guilherme, tudo pareceu fazer sentido num segundo só. Quando levantei na mesa, Natália também levantou e disse que já ia escapulir porque tinha avistado uma tia chata e queria ir para a tenda logo. Dani não quis acompanhá-la com Bruno e pra mim ficou claro seu desconforto. O que eu mais queria era poder juntá-los, não separá-los, mas que fosse de um jeito bom, que minha amiga não se machucasse no processo. Eu também já estive no lugar dela e sei como não é legal ver quem se gosta com outra, mesmo que não haja algo entre eles, não mais. Quando os dois saíram de fininho, Dani perguntou o que era que eu tinha.

– Eu acho que o Gui está aqui. Lembra que ontem ele comentou que tinha que ir a uma festa chata com a mãe dele? Agora lembra daquela mulher que vimos na entrada?

– Oh.

Vinícius interrompeu nosso cochicho:

– O quê? Eu não entendi.

Gui costuma ser o desinformado, hoje era Vinícius. Tentei ao máximo reduzir a história para ele:

– Gui não vem de “Guilherme”, vem de Aguinaldo. Ele não gosta muito do nome, então apelidamos de “Gui”, que é bem mais prático. E ele tava um pouco zangado ontem de ter que vir a essa festa. Acho que aquela mulher que vimos gritando na entrada é a mãe dele. Chamava-o de “Naldinho”, lembra? E você disse que ele está com uma garrafa na mão. Entendeu minha agonia?

– Hum. Então vamos atrás dele.

Fomos. Era ele mesmo. Estava sentado nos degraus entre o jardim e a trilha do vulgo “sítio”. Tinha um celular no ouvido, enquanto virava um pouco da garrafa, engolindo o conteúdo. Repetia “atende, atende, atende...”. Quem quer que fosse, não parecia que ia atender tão cedo. Ele pasmou quando nos viu. Se soubéssemos da coincidência, com certeza esta seria uma total e diferente noite.

Daniela disparou:

– Como viemos parar na mesma festa e não percebemos?

– Pelo jeito, vocês foram convidados para a festa boa, e eu fiquei na parte chata. Minha mãe tem essa de fazer a social para conseguir uns negócios para meu pai, então tem que frequentar essas festas chatas... e me arrastam junto. Acreditem, se eu pudesse fugir, eu fugiria. Por enquanto, só sumi das vistas dela. Tive que pagar um gurizinho para me cobrir praticamente, a mulher não saía do meu pé...

Cutuquei minha amiga, e ela continuou a conversa para manter Gui distraído.

– E por que... por que você não ficou na cabana?

– Ah, pra quem está sozinho numa festa, não podendo estar com a pessoa que mais quer, o melhor é ficar na sua, na companhia de uma garrafa mesmo.

Troquei um olhar com Dani e sussurrei a ela que o enrolasse mais enquanto eu dava um jeito de pegar a garrafa. Vini estava ali para qualquer coisa se desse errado na transação. Até que ele não parecia bêbado, nem muito alterado... mas já tinha uns traços de estar “alegrezinho” demais. Tínhamos que trabalhar rápido.

– Então, Gui, aproveitamos e vamos lá pra cabana. Você não quer ficar aqui, quer? Vem com a gente... Onde você conseguiu essa garrafa?

– Peguei no bar da cabana mesmo, quando o bartender não tava olhando. Eu vou, só eu tentar mais uma vez essa ligação aqui, peraí.

Acho que não queriam atendê-lo. Ele pareceu chateado com isso, mas fingiu que não. Ninguém perguntou ou comentou. Consegui tirar a garrafa dele e levei comigo para devolver ao bar. Quando conseguimos entrar na cabana, logo encontramos Bruno e Natália numa rodinha de pessoas dançando. E foi como tudo se sucedeu, rápido demais, não prestou. Dani viu Bruno com a ex, não gostou e se atirou nos braços do senhor “alegrezinho” e se jogaram na pista, muito, muito próximos. Mais um pouco e “formariam” um casal. Logo Bruno passou por mim ao ver a cena e algo que vi de sua expressão não foi agradável. Nessa levou a garrafa de minha mão, se embrenhando no meio do povo. Tive que segui-lo, claro.

Não sei porque ele subiu uma árvore, mas eu agradecia internamente por não ter feito besteira maior. A árvore ficava praticamente no meio da área “florestal”, do lado direito do estacionamento. Vinícius chegou primeiro perto dele, falou com ele até que eu conseguisse me aproximar. Só que me barra quando chego perto da árvore:

– Espera, Milena... acho que ele vai passar mal. Melhor eu cuidar disso.

– Por quê? O que houve?

– Ele não disse muita coisa, mas disse que precisa vomitar.

– Ah. Bom, e ele quis dizer literalmente?

– Acho que sim. Por que não seria literalmente?

Ai, detalhes! Toda hora os detalhes voltam e não dá pra ficar explicando, fica chato. Assim, para encurtar, grito para Bruno, forçando a voz para sobrepor a zoada que vinha da cabana:

– BRUNO! O QUE VOCÊ QUIS DIZER COM VOMITAR? VAI PASSAR MAL?

– NÃO... QUER DIZER, NUM SEI.

– VOCÊ QUER CONVERSAR?

– ACHO QUE PRECISO DISSO.

Viro para o namorado perdido:

– Viu? “Vomitar” foi uma metáfora que Dani inventou sobre quando precisamos desabafar. Porque, tal como o vômito, enquanto não botarmos para fora algo, a coisa toda fica só se remexendo dentro da gente e isso... não é nada legal.

Eu acho que vi uma sobrancelha de Vinícius se levantar, a fronte dele se mexer. Não dá pra afirmar muito bem por estar escuro. É detalhe para outras conversas. A metáfora do “vômito”, não a sobrancelha de surpresa e confusão. Grito de volta para Bruno, sentado de boa num galho, apoiado no tronco, como se fosse a coisa mais normal do mundo. Que esse menino tem em mente?

– DESCE DAÍ QUE A GENTE CONVERSA.

Ele desce. Na verdade, se estatela no chão quando faltava um pé para chegar ao solo. Não foi uma queda forte, nem engraçada, não para o momento. A garrafa cai ao seu lado e não quebra. Pelo que vejo dela, mesmo deitada, dá pra ver que ele tinha tomado um pouco dela, pois quando a encontrei com Gui, estava baixa uns 25%. Não parecia estar na metade, mas isso já o deixava um pouco alterado. Talvez tenha bebido algo antes de eu o encontrar na cabana. Ajudamos ele a se sentar e a se levantar, não tinha se machucado, apesar do susto. Cambaleou um pouco e se apoiou em Vinícius, que o deixou onde tínhamos encontrado Gui minutos antes, nos degraus perto do jardim.

Da festa ainda se ouve bastante, apesar da pausa que deu aos nossos tímpanos. Fica meio ao longe a zoada. Mas dá para ouvir quando uma nova música começa e... não tinha como não ser irônica. Ou coincidente. Ou verdadeira. De uma batida ainda chegada do psy eletronic, começa o remix de Mr. Brightside, que é uma das músicas mais na cara sobre os ciúmes, ironizando com o chamado “senhor otimista” que não tem nada além do pessimismo de um belo ciúme.


Trilha citada/indicada: Avicii – Mr. Brightside

http://www.youtube.com/watch?v=tVKb9EKK1Vg&feature=related


I'm coming out of my cage

And I've been doing just fine

Gotta gotta be down

Because I want it all

Eu estou saindo de minha "prisão"

E estava me saindo bem

Devo, devo estar tendo uma recaída

Porque eu queria tudo

It started out with a kiss

How did it end up like this?

It was only a kiss

It was only a kiss

Now I'm falling asleep

And she's calling a cab

While he's having a smoke

And she's taking a drag

Começou tudo com um beijo

Como foi terminar assim?

Foi apenas um beijo

Foi apenas um beijo

Agora eu estou caindo no sono

E ela está chamando um táxi

Enquanto ele está fumando

Ela está dando um trago


– Há, essa foi encomendada.

É, ele também percebeu. Vinícius se mantém próximo e senta ao lado de Bruno para ouvi-lo. Este nem se importa de falar na presença de outro, ele só precisa desabafar. Mantenho-me de pé, em frente aos dois, de braços cruzados. Eu não queria sujar minha roupa, oras, sentando naquele degrau. Só se houvesse necessidade.

– Eu saí de lá pra não ver e vem essa música? Logo essa? Aposto que vai ficar na minha cabeça.

– Melhor que “Garçom, aqui, nessa mesa de bar”.

Saiu sem querer, juro. Vini até fez sinal cortante para mim. Acho que ele estava começando a entender o que era o caso. Bruno logo replicou, meneando a cabeça. Coloca a garrafa de pé entre suas pernas e tinha uma expressão de muita confusão em seus pensamentos:


Now they're going to bed

And my stomach is sick

And it's all in my head

But she's touching his chest now

He takes off her dress now

Let me go

Agora eles vão para cama

E meu estômago está péssimo

E está tudo em minha cabeça

Mas ela está tocando seu peito agora

Ele tira o vestido dela agora

Me deixe ir embora


– Lena, isso não é amor.

– E é o que, Bruno? Se não está escrito AMOR, tá escrito ROMA! Quer que eu pegue um espelho pra te mostrar?

– Não complica, tá? Eu não sei mais o que tô sentindo... Eu não quero um relacionamento agora, eu não gosto da Dani, ela só é minha amiga. Só que ultimamente...


And I just can't look, it's killing me

and taking control

E eu não posso olhar, está me matando

E tomando o controle


– Ultimamente você tá vendo... ou sentindo coisas diferentes?

– Sei lá. Eu gosto de tê-la sempre por perto, mas acho que nada mais que amizade. E agora que ela anda com o Gui... eu num sei, algo me irrita. Quero que fique perto de mim, não dele. Por que ela tá com ele, ela gosta dele? Ela te falou alguma coisa?

– Isso porque você não gosta dela, né?

Ele gosta dela, ele gosta dela!

– Não.

Eu sei que é mentira. Posso demorar a ver algumas coisas, mas se vejo, grandes são as chances de ser verdade. Não conta a vez que achei que a Dani estava a fim do meu irmão, foi uma distração. Eu sei que gosta dela... mas sabe ele que ele gosta? Ou ele sabe e não quer aceitar isso?

– E por que não quis ficar lá na cabana? O que tem demais ela com o Gui?

– Eu num gosto dele. Não gostei daquela história de beber com ela naquele dia no salão. Também viu agora há pouco, eles estavam quase se pegando. Eu que não ia ficar lá, plantado, olhando. Mas com essa música... eu já tô vendo sem ver. Eles estão ficando, aposto.

A música descrevia bem o que a faísca do ciúme pode fazer com a imaginação fértil de uma pessoa. E era provavelmente o que andava povoando a cabeça dele, imagens de Dani com Gui. Se só essa ilusão estava fazendo um estrago nele, imagine o que seria ele de fato ver a cena. Ele devia não saber, mas eu sabia que, por mais enciumada estivesse minha amiga, ela não ficaria com outro. Dani tem suas loucuras, mas nem pra tanto, não a esse ponto.

– E se tiverem? Você não gosta dela.

– Mas eu não a quero com ele! Não com ele!

– Com quem então? Com você?

– Ninguém, oras.

– Bruno, isso não faz sentido. Tem que haver uma razão.

– Eu num sei, tá? Só sei que não é amor, tampouco ciúme. Eu só não gosto dela com ele, só isso. Deve ser coisa de amigo protetor, sei lá. Também não gosto que ela beba, e ele a faz beber.

– E você pegou essa garrafa por que mesmo?

– Não faz pergunta difícil, tá? Caramba, Milena, você faz parecer que é outra coisa...

– E não é?

– ... que não é. Não, não é.

– Tá, então se ela ficar com qualquer outro cara dessa festa, não sendo o Gui, você fica de boa?

– Não. Num sei... Isso é tão confuso.

Bruno parece uma bagunça. Mexe no seu cabelo e faz ninho de passarinho lá.

– É, meu amigo, acho bom você começar a se perguntar o que é isso, porque proteção não é. Esse “se importar” aí não tá muito chegado na amizade.

De repente ele levanta a cabeça rápido, e apesar de nauseado, ele tenta a manter desse jeito.

– Como eu faço pra parar?

– Não para. Só piora.

Foi só uma brincadeira. Ele não percebeu, dado sua cara de assombro. Levanta o olhar perdido, oscilando de mim para Vinícius e não consegue responder. Vinícius, por outro lado, dele sinto um olhar cair sobre mim de quem entendeu outra coisa. Que é possível eu ter dado a entender sem querer essa outra coisa. Porque eu sei o que é sentir algo pelo outro e não querer sentir, só hesitar e negar o quanto puder. Aceitar nem sempre é fácil, as circunstâncias não deixam. Mas quais seriam as de Bruno? Comigo foi o fato de Vini “estar” com Becca, além de eu ter pensado que ele me via apenas como amiga, apesar dos parênteses que ele abria quando estávamos sozinhos. O que estaria impedindo-o? Por que não quer um relacionamento? Eu não vou perguntar, tenho que deixar que pense a respeito. Se ele quiser falar, estarei ouvindo.

– Quem sabe se vir a admitir, não para mim ou outra pessoa, mas para si de que tem algo diferente... bom, tem meu apoio. Ficar direcionando ódio pro Gui não vai resolver nada.

– Mas é que... ele... deixa pra lá. Já deu, eu vou vazar.

Levanta-se bruscamente e senta-se bruscamente, porque o empurro de volta para os degraus. Aham que ele iria embora desse jeito! Aham que eu ia deixar!

– Negativo. Passa as chaves.

– Não.

– Somos dois contra um. Você bebeu e não tá bem das ideias. Anda, me dá essas chaves.

Bruno levanta, desafiador. Como se isso fosse me assustar! Hello? Não sabe ele com quem está lidando? Ele pega as chaves do bolso e as aperta, mostrando que ninguém mais iria as pegar, não além dele... Pois que me odiasse, antes ele me odiar do que eu me odiar por não ter o segurado de fazer besteira. Vendo a complicação, Vini intervém pra apaziguar:

– Gente, não vamos brigar, ok? Não precisa diss...

Num movimento rápido meu namorado rouba as chaves da mão de Bruno e joga pra mim. O negócio é que... sabe aquela brincadeirinha de “pensa rápido”? Aquela que a pessoa atira um objeto e o outro tem que pensar rápido e pegar a coisa? Pois é, Vini poderia ter me dado um alerta antes, porque... EU NUM PENSEI RÁPIDO. Quando eu vi, o chaveiro já tinha voado para trás de mim, batendo no chão da trilha numa zoada seca metálica.

No segundo seguinte ficamos os três se encarando esperando o movimento do outro para contra-atacar. Dessa vez Vini fez sinal, apontou com a cabeça que eu pegasse as chaves que ele daria um jeito. Confiei nele e me virei para pegar no chão. Na mesma hora Bruno rosnou um “não” e praticamente se jogou em cima de mim. Foi então que Vini o segurou e eu consegui pegar sem esforço. Joguei-as na minha bolsa... que vibrava. Ao ver a iluminação do meu celular ao abri-la, vejo “Murilo” no visor. Não era tão tarde, mas deve ser uma ligação só pra checar as coisas. Reviro os olhos de pensar que nem estando com Vinícius ele me deixa em paz. Sem chances ademais, meu amigo se solta de Vini e volta a sentar-se, emburrado.

– Hey maninho...

– Alô-ô? É a Mi-ilena?

Uma voz feminina sai do outro lado. Isso não me parece bom. Principalmente sendo uma voz hesitante.

– Sim, é ela.

– Oi, Milena... é a... Aline.

– Ah, sim. Oi, Aline. E aí?

– Você pode me passar o endereço de vocês? Houve um problema e... seu irmão não pode dirigir.

– Problema? Meu irmão? O que houve? Por que ele não pode dirigir?

– Bom, é melhor você se sentar.

Ouvir isso não me faz bem. Bruno minutos atrás praticamente ouviu o mesmo de mim e isso lhe deu raiva. Agora, acontecendo comigo, me deixa nervosa. Tão nervosa que os dois na minha frente também se calam para qualquer coisa que eu pronunciasse.

Minutos atrás Bruno também queria vazar. Para o que veio a seguir, ele praticamente teve que ficar sóbrio e responsável, porque quem estava mal... era eu.

Notas finais
Calme, calme, ele está bem... ou parece bem.
Logo estará disponível a terceira temporada, que a trama vai esquecer um pouco das missões e revelar um pouco das fragilidades de certas vidas. Manter o equilíbrio não é fácil, afinal.
E núcleos! Teve núcleo puxando a barra da minha camisa para chamar atenção. Então sim, eu acredito que virou "novela" (rs). Nos vemos na outra página. Obrigada mais uma vez.

Abs,
Alexis K.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!