Notas iniciais
Menina de ouro, revestimento de alumínio, uma modéstia só.

Djane mora numa casa grande e muito bonita. Grande parte da beleza é vista pelos muros de entrada feitos de grandes pedras claras, interrompidos pelo portão automático prateado. Fica num bairro perto do hospital. Uma vez quase vim, aí o diretor do hospital ligou e todo o curso do nosso caminho mudou – pra todos os efeitos, eu “vim” aqui e peguei o material que Djane tinha mencionado. Foi isso que disse à Dani e ao Murilo. Agora só ele sabe que não foi bem assim.

O terraço é tão grande que coube perfeitamente, com sobra de espaço, três carros. Ao entrar e encarar sua casa me perguntei como ela vivia nesse imenso lugar sozinha. Nem animais havia pra distraí-la. Num era a toa que ela era uma vaca na faculdade, a pessoa se torna horrível vivendo nas condições que ela estava. O que me anima é que agora ela tem algo pra cobrir esse buraco.

A sala tinha sido preparada por ela com balões coloridos, tantos que quase tomavam o teto e a parede do fundo, formando uma faixa de “arco-íris”. Bom, ela disse que tinha sido ela... Não que eu esteja duvidando, é que parece muito trabalho para uma pessoa, sendo que o Vini só disse que ia vir pra cá ontem quase de madrugada. Se bem que com essa notícia ela deve ter arrumado disposição rapidinho. Logo descobri uma ajudante dela que também não parecia ver Vinícius há tempos. O tesouro do fim desse arco-íris pelo jeito estava de volta.

O brilho não saía do rosto da professora. Parecia que era ela a aniversariante. Tava muito engraçada, isso sim. Quer dizer, ela e Murilo. Ele não perdeu tempo quando viu salgadinhos pela mesa. Me arrastou pra lá e... não tive como não rir ao encontrar uma seleção de gelatinas. Viciei todo mundo!

Estava me divertindo, claro. Djane quando não estava perto do filho emendando uma conversa leve sobre a casa, estava me abraçando e me agradecendo. Desejei tanto esse dia que é estranho estar vivendo ele. Sempre acreditei que ele ia chegar, só não do jeito que aconteceu. A vida tem essa de armar pra gente, o tempo todo, todo o tempo, nos faz desejar tantas coisas e quando acontecem, podem ser tão boas quanto imaginamos ou não. Planejamos, sonhamos... e caso aqui e acolá, vem o banho de água fria. Meu balde foi Filipe e a água fria, a “Becca”.

Putz. E ela é tão boa pessoa. Parece ser.

O Filipe também parecia... Não posso me espelhar pelo caso dele para tal comparação. O fato é que eu não sei que peso é esse no meu estômago que senti logo ao conhecê-la. Foi tudo tão estranho que acho que dá pra contar pelos dedos esses fatos.

Primeiro o baque com as palavras do seu Filipe ao apresentar a garota. Não sei se alguém percebeu quando me encostei no Murilo procurando um apoio. Acho que me senti assim por ninguém ter comentado sobre ela além do tio do Vinícius.

Djane também não sabia, mas Vini bem que podia ter mencionado – ou vai ver ele não achou uma oportunidade pra falar dela, não tivemos tantos encontros assim. Ele deve ter seus milhões de amigos por aí e não mencionou nenhum até agora. Nem falou daqueles que estava com ele no acidente. Djane não tinha muito contato com ele, por isso não tinha quem contatar ou contar... ela me disse isso uma vez e eu fui a única que acabei sendo envolvida. Mesmo assim, ele poderia ter falado algo. Poxa, eu “encontrei” o tio dele, não? Tenho por que estar assim, né? Pensei que ele era... meu amigo.

Segundo, a surpresa do próprio quando viu a namorada. Tá que ele ficou muito tempo “fora”. Isso não justifica a... a quase “frieza”... com a qual ele a tratou. Logo que ele apareceu na porta, ela deu o balão pro Murilo e abraçou o Vini. Tentei evitar de olhar, não tive sucesso... e o que vi foi isso. Ele ficou hesitante pela própria namorada. Alguém mais tem que ter visto isso... Bom, não sei se ainda eram namorados mesmo, mais de três meses sem se ver não é um sinal de bom relacionamento.

Ai, é tudo tão confuso. Não era culpa deles, tenho que me lembrar disso. Foi um grande contratempo isso sim. Filipe comentara que o relacionamento deles era estranho, não deu detalhes do que ele quis dizer. Foi uma torrente de informações quando conversamos da primeira vez. Deve ter sido por isso que me senti esquisita quando mencionou a existência de uma namorada, algum tipo de traição por ter sido deixada pra trás. Digo, pra trás no sentido de... de... que Vini devia ter me falado! Pronto, falei.

Devia ter comentado e ponto final, oras. Era como se toda a confiança que senti dele tivesse sido muito pouca do que realmente senti. Senti errado então.

E terceiro... bom, acho que não tem terceiro. Era só pra enfatizar meu incômodo mesmo. Justificá-los também. Teria como argumentar caso alguém perguntasse algo, estaria preparada. Até agora nada, nem no carro a caminho da casa. Claro que Vini foi no carro de Filipe, seria estranho se não fosse. A Becca também estava com eles. Vim com a professora para não deixá-la sozinha e Murilo nos seguiu com seu carro.

O caminho foi curto, a casa fica bem perto. Não tão se viéssemos andando. A professora foi me descrevendo como tinha sido a manhã, a última para sair do hospital. Filipe quis brigar até quanto a pagar as contas, ele num desistia mesmo. Não vi mal nisso, mas sabe como é mania de perseguição. Não era só comigo, afinal. Ao argumentar isso, ela ficou na defensiva de novo. Pelo menos estava mais aberta à conversa.

De fim, o diretor deu a ideia de dividir os valores. Ela não me disse o quanto era e não fui inconveniente de perguntar, imaginava por mim mesma que era muito. Foram quase quatro meses de estadia naquele lugar... Ao menos pra esse mês ela tinha que deixar seu orgulho e aceitar a ajuda do cunhado. Fez isso a contragosto.

- O que foi, maninha?

- O quê?

- Você aí olhando pra quina da mesa. Alguma coisa errada?

- Er... tava pensando em... quer dizer, contabilizando o tempo que posso ter pra finalizar aquele trabalho que você me interrompeu ontem à tarde. Ainda não deu pra continuar e é pra segunda...

- Ah, você me agradeceu ontem por ter interrompido. Ou não se lembra?

- Lembro. Isso não me ajudou ainda a terminá-lo.

- Esquenta não, ainda tem o fim de semana todo. Eu sei que você não tá vagabundando, então tá de boa.

---------------------------------------------------

Super simpatizei com a empregada da professora, dona Ana. Ela que fez parte dos salgadinhos, que estavam ótimos. Quando Vini chegou, ela praticamente se jogou em cima do que ela chamava “meu menino fujão”. É, faz tempo que ele não deveria aparecer pela sua própria casa.

Depois de uns comes e bebes, Djane foi mostrar ao filho o seu antigo quarto, agora reformado, deixando-nos pela sala mesmo. Ainda não tinha conversado direito com a tal garota, Rebecca, porque Filipe ficava pairando por perto. Sentia o cara me olhando de vez em quando, com um semblante que eu não conseguia decifrar. Permaneci em volta da mesa com Murilo falando besteira e de lá mesmo peguei umas olhadelas do cara, que estava de pé perto do sofá, conversando com a garota. Não estava gostando e por isso evitei ir por lá... Algumas vezes desviei o olhar pra TV ligada. Estava num canal de clipes musicais, pra não ficar tudo em silêncio, Vini disse. Ninguém prestava atenção, mas deixava um clima muito bom.

- Essas gelatinas são tão pequenas.

- Então seja educado e não coma todas, Murilo.

- A professora disse que poderia comer quantas eu quisesse, viu. Não é malvada como você.

- Ela estava sendo gentil. Você devia fazer o mesmo.

- Vou aproveitar que você não pode me impedir. Quer é elas só pra você, pensa que eu num sei.

- Então COMA!

Vi quando um balão verde, dentre os vários coloridos pendurados acima de nós, se desprendeu e começou a cair. Minha mente traquina maquinou e esperei chegar até mim pra rebater como uma bola num jogo de vôlei na cara do Murilo. Mais engraçado foi por ter sido bem oportuno, na deixa da minha vez de falar “COMA”. Não foi bem um grito, só uma ênfase.

Murilo, ao ver minha cara travessa, aproveita pra achar a sua depois da “balãozada” que lhe dei. Deixou sua gelatina na mesa, junto à minicolher que usava e tratou de pegar o balão que voara para suas costas. Jogou de volta pra mim, mirando meu rosto. Assim que se iniciou nossa batalha.

De visão periférica vi dona Ana chegar da cozinha e parar perto de nós com uma pose de braços na cintura, vendo a cena. Engatando o jogo de vôlei improvisado, uma hora joguei pra ela, que prontamente, rebateu para Murilo. Soltou um “faz tempo que não vejo ninguém ser criança por aqui” que só me fez abrir mais um sorrisão, até Murilo me acertar no rosto. Peguei o balão de volta e rebati. Não lhe acertou, mas quem disse que eu tava me importando? Quando dei por mim, Rebecca recebia uma batida de dona Ana e já estávamos rondando os sofás.

Quando voltei por perto da mesa, Murilo jogou o balão pra mim. Só que foi alto, então meio que me pulei, me jogando pra trás para agarrar. Consegui pegar, só não vi que tinha um degrau de diferença que nivelava a sala. Como um tropeço, dei de costas com Filipe que estava numa ligação no seu celular. Não caí, graças, me equilibrei logo.

- Opa. Desculpa aí, tio.

Seguro mais que posso minha expressão traquina, com um biquinho e o riso implodindo na minha garganta. Ao se virar pra mim, ele também se segura, pra não falar “algo demais” ante nossa plateia espalhada pela sala. Deu pra ver que ele queria expressar muita coisa... eu sei o quanto ele odeia que lhe chame de “tio” e mais essa deixa não pude deixar passar. Resmunga ele então um “desastrada” que não consegue me atingir e sai de perto, de volta à sua ligação.

Dou uma dançadinha com uma música qualquer que toca na TV pra descontrair e jogo o balão pra cima. Bato na direção da dona Ana, próxima ao corredor. Vinícius surge dele e rebate no lugar da dona Ana, assustando a coitada pela aparição do nada.

- Ninguém nem me chama, né?

- Você apareceu, isso que importa.

Djane veio logo atrás, de braços cruzados, só nos observando. Não quis entrar na brincadeira, mas quando Murilo jogou na direção dela, ela também não hesitou em rebater. Ficamos assim até que meu irmão errou uma batida e o balão foi pairar por umas plantas no canto da sala e espocou.

Por um momento ficamos todos parados observando. Murilo para descontrair a atenção volta à mesa e retoma sua minicolher e gelatina como se nada tivesse acontecido. O inusitado não era bem isso porque... Quem mantém um cacto dentro de sua sala?

---------------------------------------------------

- Cara, eu não sabia que você tinha namorada. A Milena não me disse nada.

Estávamos sentados quase todos na mesa nos deliciando com o lanche. Tinha minisanduíches, alguns salgadinhos, docinhos, suco e as famosas gelatinas. Não eram tantos porque não éramos muito mesmo, só um pequeno grupo. Filipe ainda estava no celular não me incomodando ou dando trabalho pra professora, enquanto que ela estava na cozinha com dona Ana, fazendo não sei-o-quê.

A mesa era grande, daquelas de 10 lugares, uma cadeira em cada ponta e as outras divididas em duas partes de frente pra outra. Todo o lanche estava espalhado, então nos sentamos nas cadeiras do meio, Murilo do meu lado direito e Vini com Becca a nossa frente. Ele de cara a cara comigo e ela com meu irmão. Tava tudo muito bem até essa genialidade em pessoa resolve abrir a boca demais.

Dei-lhe um chute por debaixo dos panos e uma olhada significativa quando se virou pra mim ao sentir a dor. Às vezes um sorriso pode ser um bom disfarce.

- Eu também não sabia. Filipe me contou ontem, por acaso.

Como um clic, foi só abordar o assunto que o “casal” se aproximou. Não que eu tenha ficado observado muito... acho. Becca poderia muito bem ter dito algo como “Como assim você não falou de mim? Nem pra sua mãe!” que era bem o direito dela comentar, mas não, ela apenas passou a mão no cabelo dele bagunçando aqueles fios castanho claro e cruzou um braço com o dele. Vinícius lhe deu um sorriso cúmplice e meio que inconsciente me lembro de quando fiz essa mesma cena de bagunçar seu cabelo. Dissera-lhe “quanto mais bizarro, melhor”. Nem isso ela fez direito... Com um pigarro, ele quis se explicar melhor:

- É, da última vez que nos vimos, er... tivemos uma... discussão e logo depois veio o acidente e... meio que ficou por isso mesmo, acho.

Acho que de certa forma tenho que agradecer que soube disso de última hora. Imagine se ele tivesse me pedido pra encontrar a namorada perdida dele. Quer dizer, o perdido era ele. Ah, tanto faz. O fato é que eles têm que começar a criar iniciativa... não posso sair consertando o mundo não. Isso não depende de mim. Pra esse lado mesmo que não vou me meter.

Murilo começa a se levantar.

- Então pessoal, estou de saída. Tenho que voltar ao trabalho.

- Poxa, cara, queria que todos ficassem por aqui... sabe, pra num ficar sozinho.

Vini, meu amigo, te conheci cara-de-pau assim não. Faço-lhe minha cara nada condescendente ao seu comentário, que ele sabe muito bem o que significa, conversamos sobre isso tempos atrás. Além do mais, ele estava com a família dele, na antiga casa, sua namorada e... eu. Queria ele o quê mais?

- Posso trazer uns games depois, agora tenho que ir mesmo. Meu chefe me liberou por pouco tempo. Vai ficar por aqui, maninha?

- Hum?

- Gente, não liguem, tem dia que ela fica bem aérea. Aproveitem e façam umas perguntas estranhas. Vocês podem se surpreender com o que essa menina fala.

Meu irmão me ama. Ama tanto que faz de tudo pra manter minha imagem linda. O que é dele tá guardado. Recordo bem do que me disse sobre meu vídeo, ele não perde por esperar. Miro minha bolsa um pouco mais longe sabendo do que o CD guarda. Tenho que segurar minha ansiedade de revelar uma informação sequer pro plano que comecei a traçar dar certo.

Ah se ele soubesse de meus devaneios... pra deixá-lo confuso, respondo-lhe, com um ar de conhecimento que ninguém provavelmente entenderia.

- Yeah, nunca sabe do que uma pessoa é capaz... O que você tinha perguntado mesmo?

- Ele quer saber se você vai ficar mais. Claro que vai, né? Vamos assistir a algum filme ou coisa parecida.

O braço que não estava cruzado com Becca serpenteou a mesa para me encontrar. Sua mão roça na minha e a segura com carinho, num terno aperto. Putz, o que tem de errado com esses homens ultimamente? A Rebecca tá do lado dele, caramba! Tá parecendo o traste do Diogo. O que é uma comparação bem injusta, mas é bem isso.

Não dou um retorno entre nossas mãos, mexo alguns dedos apenas tendo uma visão de Becca por soslaio. Ao ver meu irmão se mexer, vejo que ainda não respondi e que estão esperando eu falar alguma coisa. Ser seca era o que eu podia fazer... porque, que opção eu tinha?

- Ah sim, claro. Daqui devo ir pra aula. E você, vai se despedir de Djane, né?

- Aham, vou lá na cozinha falar com ela.

E me deixa sozinha “de vela”. Disfarço o vago que ficou na mesa apontando pras embalagens pequenas de gelatina que meu irmão colocou no bolso da camisa – foi a deixa que vi para, de fininho, desviar minha mão da de Vinícius. Murilo que pensa que ninguém viu seu contrabando e eu espero que não tenham reparado na minha mudança meio abrupta de foco. Não exatamente pensei no que estava falando, quando vi, senti que tinha jogado um verde para ver como andava a ideia dele sobre a mãe:

- Ele tá se achando agora pensando que isso foi uma ação direta pra ele. Se não tomar cuidado, Djane o adota.

- Seria legal ter um irmão, aí ela diminuiria essa atenção toda pra cima de mim. Às vezes ela sabe muito bem sufocar.

- Hum. Acho que vi algo parecido.

- Ela fez algo com você?

Uma linha se forma com a sobrancelha de Vinícius numa aparente preocupação, seu tom logo mudou. Não sei dizer se é sobre mim ou ele quer enfatizar e arrumar mais problemas com a mãe. Sabe como são as pessoas com rancor, ficam meio paranoicas, achando tudo ruim ou ruim demais.

- Não exatamente... nós... discutimos ontem.

- Tava demorando... o que foi dessa vez?

- Ah, foi umas besteiras minhas e dela.

- Pra quem brigou com ela, você a defende muito.

- Olha, deixa isso que eu vejo depois como fica. Ainda há coisas pra resolver antes que eu saia falando qualquer coisa... Não seria justo tratar disso procurando novos problemas. Eu... eu vou ali na cozinha... er... lembrar o Murilo de... uma coisa...

Que tola às vezes pareço. Quase engato uma discussão com ele. Parecia aquela briga que tive com ele no hospital... Bom, se tratava do mesmo. Eu sei que ele tá tentando e começou com algumas intenções erradas, querendo não se aproximar de Djane. Não era bem assim que eu via esse dia...

Me levanto e passo para o corredor que me levaria à cozinha, só que me detenho na parede onde ninguém pode me ver. Encostada na parede ouço um pouco da conversa de Vinícius com Rebecca. Acho que ela estava o repreendendo:

- Ai. O quê? Que foi que eu fiz?

- Você foi rude com ela... Claro que ela ficou na defensiva. Às vezes você consegue ser muito tapado, viu.

- Eu? Minha mãe que faz besteira e eu que levo bronca? Não acha que tem algum erro não?

- Acho. Você. Temos que...

Quase estava afinando os ouvidos, curiosa, pois a TV continuava ligada e a conversa não estava num tom alto. E pra minha grande “sorte”, Murilo aparece no corredor:

- Quê que você tá fazendo, Lena?

- Eu? Er... tava admirando esse quadro aqui da frente. Tentando adivinhar qual o estilo dele... e você, já vai?

- Só vou ao banheiro... se eu encontrar. Esse corredor é tão grande que chega a dobrar.

- Verdade. Então tchau. Vou ver como a professora anda.

Quando chego á cozinha dona Ana a atravessa e me abraça. Sem ação, abraço-a de volta. Não ia deixar a mulher no vácuo, mesmo não sabendo o porquê da atitude repentina.

- Você trouxe meu menino fujão de volta. Trouxe brilho pra esses dois briguentos... Merece uma piscina de gelatina! Dona Djane me falou da sua preferência. Gostou do que preparei?

Há! Eu disse que não tinha sido pro Murilo. Quando ele souber...

Faço questão de ressaltar isso com ele.

- Eu? Que é isso! O paparicado deve ser ele, não eu.

- Dona Djane também comentou sua modéstia, não é, senhora?

- É uma menina de ouro que se reveste de alumínio.

- Ai, assim vocês me deixam sem-graça. Vou voltar pra sala pra não ganhar tanta atenção...

Finjo ir embora da cozinha, mas não consigo sair dela. Dona Ana volta às suas louças e Djane partilha com ela um sorrisinho. É verdade, tem algum brilho diferente emanando delas e ver isso me deixa muito grata. Percebo que essa relação que temos nutrido, mesmo entre confusões, significa muito pra mim. Não a vejo apenas como uma professora, aquela pessoa que me assustava e aterrorizava todo um prédio de jovens alunos e velhos professores – sim, existem professores que ficam distantes dela só por causa da fama que ela tem. Ela virou parte de minhas preocupações, de minhas dúvidas e do meu círculo de convivência. Não tem como voltar trás.

- Vamos deixar dona Ana voltar aos seus afazeres. Vem comigo que eu tenho que conversar com você. Onde estão os outros?

- Ficaram na sala. Filipe não sai do celular. Não que eu esteja reclamando...

- Vamos ao meu quarto então, lá teremos alguma privacidade.

O tom ameno e sério me desperta uma nova preocupação. O que será dessa vez? Os aliens estão dominando o quintal? Aceitaria de boa e até promoveria comunicação com eles, se soubesse sua língua, contanto que não fosse mais um problema. Chega disso, não? Eu canso também. Mais uma vez, em menos de uma hora, penso: não era bem assim que imaginei esse dia.

Djane passa seu braço por meus ombros e vai me levando pelo corredor ao seu quarto. Antes de chegar nele, Filipe chega ao corredor e nos chama:

- Vou ali buscar uns filmes que o Vinícius pediu pra alugar. Volto logo. Vê se vocês não aprontam nada.

- Poxa, tio, senhor me dá tão pouca credibilidade...

Ele não se digna a me responder, só vai embora com um bico indignado. Olho pra professora ao meu lado e sei que ela percebeu que ando provocando o homem. Ela balança a cabeça em negação sem falar nada... pra mim ela não estava discordando, tava era rindo dele.

---------------------------------------------------

Tomamos o corredor direto sem verificar como estava a sala. Melhor, dava um espaço pro “casal”. Não que eu esteja querendo manter distância ou... sei lá, tanto faz. Eles não se veem há um tempo, então melhor que aproveitem. Nessa ida, ao dobrar o corredor à direita, Murilo aparece voltando do banheiro. Tava meio distraído, só cumprimentou e se despediu de nós. Disse a Djane que estava atrasado e tinha que correr. Pra mim ele deu uma olhadela e sinalizou com as mãos que depois tinha que conversar comigo. O que deve ser não sei, só sei que algo o deixou pensativo.

O quarto de Djane é quase de frente com o corredor, como se fosse o final, no entanto, como o corredor dobra pra direita, do lado do dela ainda tem o quarto do filho. À frente deles fica o banheiro e uma despensa, Djane explica. A casa já tinha me parecido grande, agora parecia sem fim, mesmo por ver as paredes de limite. E ainda tem mais do outro lado, eu que ainda não vi.

Ela abre a porta pra mim, que tentando não ser inconveniente, entro e sento num “divã” neutro no pé da sua cama. Seu quarto parece ser o dobro do quarto do meu irmão – o sacana me roubou o quarto maior, perdi numa aposta – e mesmo luxuoso, é bem simples. Dinheiro não compra tudo, não o que se quer de verdade. Ela senta-se na ponta da cama perto de mim.

- Então, Milena... acho que ainda não tivemos muito... tempo... para conversarmos.

- As últimas horas tem sido tensas. Eu mesma não assimilei tudo acho.

- Por quê?

- Ah, sei lá. Já ouviu a expressão “informação demais”? Tanto que tivemos que passar por cima de alguns “problemas” pra conquistar o temos hoje.

Ela olha diretamente pra mim e, sem rodeios, engata o que tinha pra me dizer. Também não desviava meu olho dela. Era o meu momento de ser sincera e vice-versa.

- É sobre esses “problemas” que quero conversar. Não quero ficar mal resolvida com você também... O que você tem feito, acho que nem consigo nomear ou explicar o porquê... e não tenho mais do que agradecer e claro, pedir desculpas pelo que houve nessa semana. E não diga que não foi nada demais, porque foi.

Corto nosso contato visual e começo a desenhar linhas com os dedos no colchão de onde eu estava sentada. Não tinha vergonha, não, tava era sem-graça. Ambas fomos fracas, fizemos besteiras e era hora de confessar. A calma nossa dominava o cômodo.

- Eu não ia dizer. Fiquei muito mal... não sabia bem o que pensar ou fazer. E fiz besteira... o Murilo que me arrastou pro hospital ontem. Se dependesse dele, ele me carregaria de pijamas... lá que topei com o Filipe. Foi... uma grande surpresa. Mal consegui falar com ele e logo a senhora chegou e nos viu ali, tudo muito rápido. Não sabia mais se era culpa, raiva, ressentimento...

- Comigo foi parecido também. Eu mal dormi, me desesperei. Lidando com Filipe então que quase pirei. Achei que te perderia também... Quando os vi ali sentados conversando, pensei que tinha perdido mesmo e estava sozinha mais uma vez. Aí você me surpreendeu. Milena, você quase me deu um tapa na cara e merecido! Quando fui me perceber, você já tinha ido embora. Foi essa sua atitude que me deu esperança de conseguir lidar com aquele homem. Se não fosse aquilo, não sei o que eu poderia ter feito.

Isso me chamou a atenção. Parei de traçar pelo colchão para observá-la melhor. Ela me queria por perto e aceitou minha revolta. Sabe que eu tinha razão e que ela pode e quer contar comigo.

- É, eu fiquei revoltada. Ouvi quando me chamou, mas não queria lhe ver. Eu tive que sair de perto.

- Pra onde você foi? Não pegou aquela chuva não, né? Você demorou tanto a atender e demorou a aparecer que fiquei preocupada horrores. E ainda tinha aquele homem me criticando.

Foi só ela comentar isso que me veio a imagem de ontem e aquela confusão com Diogo e seu Filipe. Foi muito tenso. Me forço a resumir bem e por falar em Diogo, torço para que não perceba meu tom hesitante, e se percebe, que relacione isso a qualquer coisa menos ao asco que sinto de verdade sobre a história de “créditos”. Ainda não está na hora de tratar disso. Nem sei se haverá boa hora para falar de qualquer maneira. Ainda assim, é bom ouvir que ela estava preocupada comigo... sinto certo conforto.

- Ah... não, nem saí do hospital. Eu peguei a chuva quando cheguei, o vestido que eu estava era emprestado de uma das enfermeiras amiga de Diogo. Demorei porque dei um tempo off... precisava pensar um pouco. Depois... eu fiquei com Diogo na lanchonete, porque eu ainda não tinha comido, e acabei me distraindo com... com que estávamos falando e esqueci de ir pra sala do diretor. Quando cheguei por lá que, bem, a senhora já sabe.

- Ainda nos esquecemos de uma coisa...

- O quê?

- Como tudo isso começou. Lá no prédio de administração ainda.

- Verdade. A senhora me deixou danada da vida com aquela coisa de contar pro Murilo... me incomodou. Mas é o caso dessa coisa proteção de vocês, exagerada. Tem que maneirar isso.

- Eu sei, eu sei... me deu um nó de pensar que você ia esconder uma coisa daquelas do seu irmão. Era uma coisa tão pequena e simples, não tinha por que... não exagera um pouquinho também?

Levanto e ando um pouco pelo espaço amplo do quarto, sem propriamente observá-lo, até chegar a sua frente. Estava concentrada demais com a conversa para notar algo do ambiente. Era como se o lugar estivesse vazio e apenas nós duas estivéssemos conversando.

- Era precaução. Eu conheço meu irmão, uma coisinha dessa ele transforma num furacão. A senhora diz isso porque também é muito protetora. Lembra que me perguntou mil vezes se eu queria ir ao hospital, se eu já tinha ido tratar? A senhora mudou o foco da conversa até, que era sobre o Filipe. Desde quando me envolvi com a história de vocês eu percebi isso, notei que vocês não se comunicavam... e por essa falta, a senhora “pulava” o limite que ele estabeleceu da relação de vocês... por pura proteção, medo de perder seu filho. Isso não era e não é saudável. Nesse dia em particular eu me senti retraída, como ele talvez muitas vezes se sentiu.

- Tem certeza que seu curso é Administração?

Djane ri não certa de que eu falei como uma administradora ou futura profissional da área. Meu “discurso” pareceu mesmo de outra área, talvez mais social, porém, esse eu que falava sabia muito bem o que fazer da vida. Minha ambição era essa mesma.

- Tenho. Acho que administrando o que tenho, com o que me é dado, vou me sair bem na vida. Alguém tem que fazer esse trabalho, não?

- Sim. Tenho muito orgulho de ver isso em você. Parece a filha que nunca tive.

- Oxi, assim eu emociono. Minha mãe tá muito longe, mas tenho espaço no meu coração pra você. Só não diz isso pra ela, se não ela morre de ciúmes!

- Então, estamos bem?

- Ainda acha que não? Depois do quase puxão de orelha que dei naquele homem? Ele tá revoltado comigo, tô sentindo.

- Não se preocupe, ele não faria nada com você sabendo que estaria prejudicando a si mesmo.

- Por isso que é engraçado atentar ele um pouquinho...

- Milena!

- Ah, eu não ia deixar essa oportunidade passar, né?

Terminamos abraçadas, partilhando um pouco do perdão mútuo que tivemos nessa conversa. Besteira todo mundo faz, desculpa nem todo mundo pede ou recebe. Agora sim temos muito a comemorar!

Notas finais
Rumando para o fim de temporada, hein.