Notas iniciais
Nada como encerrar uma trabalheira com uma trilha pra animar e uma baguncinha pra comemorar. E entre reflexões e neons na testa de uns e outros, algumas coisas vão ficando mais claras. Mas outras...

Depois do meu furo, emendei uma conversa qualquer sobre o ambiente, a movimentação na faculdade e até mencionei a história que seu Caio contou na sala dos professores. Bruno continuava com aquela cara numa mistura de “me engana que eu gosto”, “eu tô sabendo” e “tá na cara que você quer tapar o que tá exposto”. Eu precisava virar o jogo de algum jeito, não sei qual. Nada me vinha na cabeça! Depois de um tempo, acabei indo ao banheiro dali perto. Como a “casa” estava cheia, tinha fila relativamente pequena de três pessoas para usar o reservado. Esperava minha vez quando uma Flávia apertada entra, bem atrás de mim:

– Gente, pelamor, vai rápido aí.

– O que foi, hein? De onde saiu tanta água?

– Ai, Lena, eu estava tão nervosa pra minha apresentação... e pior! Fui a última da lista para expor meu trabalho. Então pra conter minha ansiedade, eu virei duas garrafinhas de 500 ml lá na sala, que agora estão fazendo um efeito danado.

– Pode passar na minha frente, tem problema não.

Trocamos de lugar e as meninas a nossa frente se entreolham. Estavam ouvindo nossa conversa, pelo visto. Nem no banheiro tínhamos privacidade.

– Valeu, só você e o Vinícius pra me salvarem hoje.

– Como assim?

– Ele ficou vigiando minhas coisas na poltrona. O Gui nem ficou hoje e sabe que eu não sou de confiar em qualquer pessoa pra vigiar minhas coisas. Só deixei com o Vinícius porque eu sei que ele não tentaria nada, afinal, o que ele poderia querer da minha bolsa? Do meu netbook ele já viu as fotos do meu aniversário, mostrei ontem quando o encontrei na palestra. E te dizer uma coisa, você escolheu bem o cara hein, Lena...

A última parte ela diz sussurrada e eu temo por outras pessoas terem ouvido. Será que hoje todo mundo resolveu me dizer essas coisas? Primeiro o Bruno, depois a Flávia... que não tenha próximo! Sem falar que era o dia de eu ficar desconcertada também... pois quando fui visitar Alexandra na maternidade, também não escapei.

Dentro do carro mesmo, quando Vini me buscou, ele percebeu que eu estava meio desanimada. Eu não tinha brigado com meu irmão de novo antes de sair de casa, mas parecia que sim. Vini falava sobre a confusão que foi a data do parto da Alexandra, que estava na data certa – houve um engano quanto à contagem de semanas dela e adiantaram a previsão do parto – o que significava que a qualquer hora ela poderia ter tido o bebê e que não era culpa de Becca que discutia com ela na hora. Ouvia tudo, só estava meio distante. Não respondia muito e quando dizia algo, era monossilábico. Enquanto estávamos parados num sinal – que não parecia querer abrir –, ele resolveu perguntar de vez:

– Tá, se você não me diz, eu pergunto. O que foi que você está assim, tristinha?

– Briguei com meu irmão... e foi sério.

– Por isso que ele estava com aquela cara quando você saiu? Acho que essa então não é uma boa hora pra dizer que eu esqueci a minha camisa de ontem no quarto dele...

– Espero que ele não veja mesmo, senão começa o fight 2.

– Ele vai ficar chateado por eu ter pego uma camisa dele? Amanhã eu devolvo, sem problema. Dona Ana já lavou, nem precisa se preoc...

– Não, não é isso. É coisa de... coisa de irmãos. Besteira.

Suspirei frustrada. Ele notou, claro. Pela minha visão periférica, vi que ele ficou incomodado, pois suas mãos não paravam quietas no volante. E assim ficaria, porque eu não estava a fim de falar disso.

– Besteira que te deixou assim. Não gosto de te ver desse jeito.

– Vai passar. Tá passando... é só continuar olhando pro trânsito e avenida. Continue falando.

– Bom, sei de algo que possa te animar.

– O quê?

– Vou te apresentar meu amigo Wellington. Tá aí um camarada que vale a pena conhecer.

E como valeu... porque, ô visão ótima. Depois de visitar Alexandra e o bebê, um lindo garotinho ainda rosado, Vini me levou para o quarto da irmã do Wellington. Quando entrei no quarto e vi aquele cara de farda militar... pronto, esqueci o que era chateação, o que era compromisso, e até o que eu tinha ido fazer lá. Sério. Mulheres parecem ser previsíveis quando topam com um militar fardado, com aquelas botas maneiras, porte disciplinado e cabelos meio raspados. Eu era uma delas e quase me perdi no sorriso gentil dele quando me cumprimentou num aperto de mãos. Bem vale dizer também que se eu não estivesse gostando de outra pessoa, consideraria o Wellington uma boa opção.

Vini nos apresentou e logo teve que nos deixar pra poder falar com Becca. Wellington parecia se lembrar dela, vagamente ele me disse. Ficamos conversando na porta do quarto da irmã dele, que ainda estava sob observação, pois a cirurgia dela foi um pouco complicada. Como Vini tinha falado no dia anterior, Wellington seria pior que coruja se fosse pai, falava e descrevia seus sobrinhos com muito amor e saudades já, pois iria embora na quinta-feira para continuar seu trabalho com famílias necessitadas.

Desse breve momento que ficamos conversando, eu estava muito feliz, estava conhecendo mais sobre o outro lado de Vini e colhendo algumas de suas aventuras da adolescência, como da vez que ele subiu no telhado pra fugir de um castigo da mãe, que tinha dito que ele não poderia sair de casa. As poucas travessuras que seu amigo contava me fazia rir boba pela graça das situações e ali mesmo pensar em como poderia abordar Vinícius com essas histórias. Só que então... pareceu que eu estava flertando com o cara. A enfermeira que tinha checado ontem no Vini apareceu para verificar a irmã de Wellington e com sua “sutileza” nada sutil, me fez um comentário desses:

– Você não perde tempo hein, é das minhas, colega.

Com uma cara de “HÃ?”, neguei na hora. Bem na hora que Vini voltou, o que foi bem desconcertante... Se ruborizei, não sei dizer, mas que merecia um facepalm, eu merecia. Vou fazer promessa de não aparecer mais em hospitais, pois cada vez que piso neles eu tenho que sair com um mico pra minha coleção. Pedi desculpas pelo mal-entendido, Vini não sacou e Wellington, a salvação, entendeu minha situação e mudou bruscamente de assunto, o qual eu não entendi, boiei e que me deixou super curiosa, principalmente com o ar de mistério que Vini falou. Não que eu fosse assumir pra eles que fiquei pensando no assunto, claro, deixei que falassem como se eu não quisesse saber. Só que parecia que eles queriam dizer algo pra mim, principalmente o Wellington, que enquanto falava às vezes direcionava o olhar pra mim. Não sei que impressão foi essa.

– Então, cara, a Rebecca ainda tá naquele... acordo?

Ele abraça Vini de lado e dá umas palmadas nas costas do amigo, que também retribui. Não se viam há muito tempo e ele nem sabe ainda do acidente do Vini. Quanta história pode acontecer em semanas, imagine meses. O mesmo para Wellington, esse tempo todo afastado... o que ele não deve ter visto por aí.

– Nam, acabou faz tempo. Na verdade, acabou de sair a nota oficial de fim de acordo, para o bem de todos.

– Até que enfim, cara, porque olha, vou te dizer... que... já era tempo.

Queria ficar lá conversando com ele, descobrindo mais travessuras do meu Vini, porque só eu parecia que contava... espera, eu pensei “meu Vini”? Ai, coração, porque você tinha que arranjar dono logo agora?!

– Bom, nós temos que ir, porque ontem por causa de um bebê eu dei o maior furo lá na faculdade e hoje eu quero chegar cedo. Até porque tenho um plano pra colocar em ação.

– É, meu amigo, o dever nos chama. Quer dizer, o dever dela, eu só tô acompanhando. Mas aparece quinta lá em casa, almoça comigo antes da tua viagem. A gente ainda tem muito pra conversar. Vou lá dizer tchau pra tua irmã.

Quando ele entrou no quarto, fiquei de novo sozinha com o amigo dele, num silêncio constrangedor não sei por quê. A minha visita fechou com mais um momento de desconcertada, quando o cara viu que não tinha ninguém olhando pegou minha mão e seriamente me olhou, me deixando nervosa e gelada.

– Cuida bem dele. Sei que tem... e ele merece.

O máximo que consegui fazer foi dar um sorrisinho nervoso, assentir e engolir a seco. Como assim ele sabe? Tem muita gente sabendo de muita coisa que eu não sei, pelo jeito.


~;~



Geralmente quando participamos de eventos, independente do intuito deles, não damos bola para o material que recebemos, não perguntamos quem está por trás deles, e nem pensamos no que acontece depois que as cortinas se fecham. Entre na organização de um e você vai ver o mundo de outro jeito. Vai agradecer ao colega que lhe entregou um material bonitinho, vai facilitar a atividade do monitor e vai sentir pena por ele ter que ficar até depois do “expediente” arrumando tudo, desde o recolhimento de materiais e suprimentos à faxina do local, dividindo uma vassoura com o zelador. Ele está sendo pago pelo trabalho, você, pela experiência e créditos. Entrar nessa é virar de tudo, atendente, recepcionista, faxineiro, apresentador, assistente, porta-voz, pombo-correio, motoboy, programador... conselheiro, apaziguador... Cansa, mas vale a pena.


Era o que eu dizia pra Dani, minha companheira da portaria na terceira e última noite de evento. Hoje Bruno faria o plantão nos bastidores, assistindo uma palestra que era bem de seu interesse, “atendimento colaborativo e corporativo”. Ele ainda nem terminou o curso e já sabe que área é mais afim, graças ao trabalho com o pai numa loja de automóveis. E como era a palestra final, com direito a discurso maçante daquele reitor-tédio, estava demorando bastante no auditório, o que era bom pra nós, que podíamos ficar mais tempo conversando. Ou diria “viajando”?

Aliviadas por tudo isso finalmente acabar, a gente conversava sobre o que havia acontecido ao longo desse tempo de monitoria e como tudo mudou. Daniela dizia que agora respeitaria mais qualquer organizador, por sentir na pele o que é ser um e como sofrer como um. Muitos dos panfletos que foram impressos sobraram e dava pena de jogar fora. Que desperdício de dinheiro, papel, tinta, suor de trabalho... Era um fato, que na correria do dia-a-dia, não damos muita importância ao que o outro faz até estarmos no seu lugar.

– Também não sabemos que esperam de nós um simples bom dia, boa tarde, boa noite, um aceno, uma piscada, um tapinha nas costas, um obrigada... um simples sinal de aquilo que você faz ou o outro faz é importante. Não dizem que coisas pequenas fazem a diferença? E como fazem! No outro dia só porque eu joguei um copo descartável na lixeira móvel que um gari levava na rua, ele agradeceu e eu distraída não saquei logo de cara. Depois ri de mim mesma por lembrar que algumas pequenas ações fazem o dia do outro melhor, de que esperança no mundo se encontra nesses mínimos detalhes.

Dani mostrava um lado bem filosófico que eu nunca tinha visto dela. Eu achava o máximo, não só pelo que ela falava e concordava comigo, pois eu gostava de vê-la amadurecendo e isso só o dia-a-dia nos oferecia. Disso a gente não cansava.

Embalada na conversa, comento de volta:

– Talvez você seja o desconhecido do desconhecido ao seu lado e ganharia o dia por ter algum reconhecimento, afinal, cremos muito naquela história de que “quem dá, recebe”, então se nos doamos um pouco para o outro, esperamos um possível retorno. Quem planta, colhe, e valor não se mede apenas em cifrão. Engraçado é pensar tudo isso ao mirar um panfleto nas mãos que foi duro pra alguém de conseguir sair bonitinho e outro jogado e amassado ao chão. Se não tivesse tão cansada de um dia tão intenso poderia escrever nessa mesma folha esses nossos pensamentos antes que se percam e mandar pra minha avó postar junto às suas crônicas no jornal.

– Uia, que máximo! Imagine eu saindo no jornal com uma crônica? Ia me achar A celebridade... Falando na sua avó, como ela tem passado?

– Bem, muito bem na verdade. Ela me ligou ontem pra perguntar se eu andava falando pro meu avô dicas de esconderijo para biscoitos, porque ele anda revirando a casa atrás deles, acredita? Aí descobri que era meu irmão, e minha avó disse que a primeira coisa que ia fazer com ele quando formos passar o recesso de Natal lá é dar um puxão na orelha dele e deixar os dois sem sobremesa por dias que ela ainda vai calcular. Amo minha avó...

Falava na maior nostalgia. Fim de ano próximo e logo iria ver meus pais e avós, sentia muitas saudades deles. Minha avó estava cada dia melhor e, claro, não largara o jornal. Se pudesse escrever lá do céu ela escreveria acho. E que não vá tão cedo pra lá, eu peço a Deus, a passagem dela na Terra ainda não acabou. Tenho muita admiração por ela, é um grande forte de exemplo pra mim e grande guia de inspiração.

– Parece uma comédia ela. Eu não conheci meus avós, de nenhuma parte. Morreram muito cedo... e meus pais não comentam muito sobre eles. Parece que eles não se davam muito bem... o pai da minha mãe não gostava do meu pai e a mãe do meu pai não gostava da minha mãe. Era uma confusão sem fim, nunca me interessei de saber sobre eles também.

– Poxa. Que chato.

– Nam, num é nada. Mas o convite da Natália, isso sim é algo. E é claro que eu vou.

Um sorrisinho animador toma seu rosto travesso, sem falar dos olhinhos brilhando. Não esperava menos que isso dela, afinal, é a Daniela, ela espalha esse espírito contente só por respirar.

– Sei que você não perderia por nada.

Por isso que, quando ela traz um traço inseguro no seu comportamento, é fácil desconfiar. As pessoas têm várias maneiras de se entregar e, sabendo observar, a gente acaba unindo os pedaços e deslizes. Vendo os dela me preocupo com os meus... será que estão muito óbvios também?!

– Ai, Lena, não preciso repetir, né? Eu já disse que gosto dele... Só que ele não me vê assim.

– Como você sabe?

– Sei lá, sabendo... Não tá escrito na testa dele.

O sorriso de antes some com seu dar de ombros, fazendo surgir um bico de desgosto atípico dela. Todos nós temos nossos momentos, altos e baixos, porque não dá pra ser feliz o tempo todo. Bem que queríamos, né?

– Bom, já que estamos botando os bofes pra fora, não tem ninguém mais por aqui por perto, e faz um tempo que eu queria te dizer... eu est...

– Eu sei. Você gosta do Vinícius.

– Como você sabe?!

– Lena, todo mundo viu vocês juntos no niver da Flávia. Se aquilo não era amor, sinceramente, eu não saberia nomear, porque isso ficou escrito na testa de vocês. E ainda está... Estava doida pra falar isso desde a festa, mas uma coisa leva a outra e sempre Bruno estava com a gente... enfim, só queria dizer que EU SABIA, EU SABIA, EU SABIA! NHAA!

Ela dava pulinhos discretos – ela tentava, quer dizer, porque discrição e Daniela não combinavam para um mesmo quadro – com aquela cara de “ela finalmente confessou”.

– Falando nele, por que ele não veio hoje?

– Ele ficou preso no trabalho.

Eu estava feliz por finalmente falar abertamente sobre isso – não tãaaao abertamente claro, pois não ia falar do rolo maior... por enquanto só Flávia sabe parte da história – e me sentia boba também. Tão boba que grudei a cabeça na porta de vidro do auditório que eu cuidava pra não ver Dani quicando ali do meu lado. Só me restava resmungar.

– Ai, cara, anos e anos de armações e disfarces... agora todo mundo parece me dizer isso. O que houve comigo, Dani?

– Você está apaixonada, amiga.

– Legal, muito legal. Onde eu consigo o remédio contra isso mesmo?

– Num sei, mas se você encontrar, eu quero também.


~;~



Era a última noite, tinha que ter um encerramento digno. Tudo bem, envolvia vassouras, pás e muito lixo, mas era digno, porque eu estava entre amigos e com eles por perto tudo sempre fica melhor. Tio Chico, o zelador, também estava curtindo, principalmente porque agora ele tinha arranjado umas boas companhias, pois, sabe quando está em carnaval e aparecem uns garis nas propagandas da TV dançando e sambando no ritmo? Então, substituindo o samba e o gari por aquela playlist que eu fiz, o zelador e mais uma Dani animada, poderia se dizer que o auditório estava em festa enquanto os professores, coordenadores e afins estavam no seu coquetel V.I.P.


Quando os gatos saem, os ratos fazem a festa, certo?

Tio Chico era um cara em seus quarenta anos, magro, de cabelo ralo e pouco grisalho, bem apessoado e engraçado. Nunca tinha reparado bem nele ou conversado com ele, era só educada com boa tarde, boa noite, bom fim de semana, bom feriado, essas coisas. Como bem Daniela tinha dito mais cedo, às vezes o outro espera isso de nós e passamos batido, como se fosse besteira ou coisa pouca, e nem sempre é assim. Não precisamos só de educação, precisamos de respeito com o trabalho dos outros. Assim conhecemos pessoas extraordinárias... e vivemos coisas extraordinárias com elas, como por exemplo, enquanto Dani se fazia de Lea Michelle (Glee) sentada em cima da mesa de palestras, o Tio Chico se fazia com sua vassoura como se fosse uma guitarra no corredor do meio do auditório. Logo vários monitores entraram na graça.


Trilha indicada: Glee Cast – Don’t Stop Believin’


http://www.youtube.com/watch?v=5WxPyUzWSPA&feature=related


Lídia e Mariana, monitoras do diretor Fabiano, sentaram do lado de Dani na mesa e puxaram as palmas. Queria eu filmar essa cena épica, mas uma frustração me subia por ter esquecido o celular em casa. Tinha gente gravando e tirando fotos, então não me sentia tão frustrada assim. Bruno ajeitava os fios e recolhia os microfones usados na conferência, só de olho na cena. Ele era muito tímido pra soltar a franga assim, e algo me dizia que isso ia mudar, só estando do lado da louca da Daniela, porque comigo isso tem mudado também.


Era justamente nela que eu tinha pensado quando tive a ideia no outro dia. Eu sabia que ela ia mover e conquistar todo mundo, tão a cara dela. Como fiquei de espiã de novo na sala dos professores – e aquele chato do reitor não falou nada do que o diretor Fabiano queria saber, só me fez gastar tempo ouvindo ele e suas pretensões – não vi como as coisas tinham se sucedido no auditório. Só fui saber depois, e Dani foi a que mais agradeceu, porque ela tinha adorado a seleção musical.

Nem preciso dizer também que ela tava se achando quando lhe disse que fiz pensando nela. Ela disse que se sentia nos programas de TV enquanto eu passava a vassoura na parte debaixo do palco e ela segurava o saco de lixo com uma pá, ela pirando no “Girls Just Wanna Have Fun”. Parecia o microfone aberto de novo, sem necessariamente o microfone. O som não estava tão alto, o que vibrava mais era as vozes das pessoas cantando.


Trilha citada/indicada: Miley Cyrus – Girls Just Wanna Have Fun


http://www.youtube.com/watch?v=0sdh9SWXXrE


Acredita que eu achei pipoca por lá? Dani disse que podia ser pior... ela se surpreenderia se encontrasse camisinha. Aloca se fosse mesmo. Aos poucos que fomos arrumando as coisas, baixando os assentos, e mais gente da monitoria foi chegando pra ajudar. Isso porque era a nossa função e a galera nem estava mais se importando. Fazer limpeza assim é fácil demais.


A que a galera mais se animou foi quando começou “Under Pressure”, uma regravação feita pela banda The Used em conjunto com o My Chemical Romance. A letra era bem a nossa cara àquela hora, findando um trabalho de muita pressão.


Trilha citada/indicada: The Used Feat. My Chemical Romance – Under Pressure


https://www.youtube.com/watch?v=cF3HvA5pdOk


E não só os monitores, tinha outros alunos também. Era uma festa improvisada que começou numa brincadeira e foi e foi e foi crescendo. Quando vi todos estavam sentando-se na ponta palco e abraçando a pessoa do lado... e no meio ficava tio Chico organizando o “coral”, todo orgulhoso.



3:00


[...]

Insanity laughs under pressure we're cracking

Can't we give ourselves one more chance?

Why can't we give love that one more chance?

Why can't we

Give love? [repeats]

'Cause love's such an old fashioned word

And love dares you to care for

The people on the edge of the night

And loves dares you to change our ways of

Caring about ourselves

This is our last dance

This is our last dance

This is ourselves

[...]

A insanidade sorri, sob pressão estamos pirando

Não podemos dar a nós mesmos mais uma chance?

Por que não podemos dar ao amor mais uma chance?

Por que não podemos

Dar ao amor? (12x)

Pois o amor é uma palavra tão fora de moda

E o amor te desafia a se importar com

As pessoas no limite da noite,

E o amor desafia você a mudar nosso modo de

Nos preocupar com nós mesmos

Esta é nossa última dança

Esta é nossa última dança

Isto somos nós mesmos


– UNDER PRESSURE… UNDER PRESSURE…


– MAS O QUE SIGNIFICA ISSO?

Parecia que todos tinham congelado com o grito do diretor. Teria ficado um silêncio nervoso se não o som não tivesse continuado com a playlist. Tio Chico que estava no “comando”, se atrapalhou todo e deixou a vassoura, que tentava inutilmente esconder atrás de si, cair. Eu mesma cheguei a pensar “lascou de vez agora”.

– Há! Peguei vocês, hein!

Que brincadeira perigosa a dele... O suspiro de alívio de todos deve ter sido ouvido da avenida. Logo atrás dele vinha os professores e os outros convidados. Seu Caio foi o primeiro a se meter na frente do diretor, descendo o auditório pelo corredor do meio para chegar até nós e dizer:

– Por que para as festas legais não me chamaram?

O riso foi geral, mas eu sabia, lá no fundo, sobre o que ele se referia. É, aquele reitor saco deve tê-lo adulado por três dias e ninguém mais aguentava. Mas o que acontece por de trás das cortinas, por lá fica, né?


~;~



De despedidas e despedidas, chegamos ao estacionamento. A noite acabava, o serviço findava, a companhia ficava. Nem parecia que tudo tinha acabado, não teríamos mais reuniões nos intervalos, não ficaríamos mais de um lado para o outro em busca de alguma coisa ou informação e nem passaríamos vários horários decidindo cada detalhe. Houve muitas falhas, não dá pra negar, mas estaria mentindo se dissesse que não foi legal. Eu tinha que agradecer, na verdade, pois se meu nome não tivesse sido sorteado naquele dia ruim, eu não seria a pessoa que sou hoje e quem sabe o que poderia ter acontecido com os outros. Como bem dizem, alguns males vem para o bem e não é de imediato que percebemos isso. Estranhamente, acho que iria sentir um pouco de falta.


O carro de Djane estava no estacionamento do fundo, perto do de Bruno. Ela tinha me oferecido carona e eu aceitei para deixar Bruno com Dani mais a sós – o que ela anda percebendo – e para aproveitar e conversar com a professora. Nesses últimos dias foi quase impossível com tanta correria. Com o freio do cotidiano, as coisas voltariam ao normal? E o que seria esse normal?

– Parabéns a todos vocês, nós conseguimos.

Djane nos puxa para um abraço grupal ali mesmo no meio do estacionamento. O espanto dos meus amigos foi tamanho que eles não se mexeram muito e praticamente deixaram a professora falando sozinha. Eu sabia que a mulher devia estar rolando de rir por dentro, como eu estava, e depois eu que sou má. De qualquer jeito, mais cedo ou mais tarde eles iriam ver a renovada Djane, que eles poderiam classificar como “antes” e “pós-evento”, enquanto eu classificaria como “antes” e “após o despertar do filho”. Sem graça, eles se despediram e cada um foi para seu carro.

– Trouxe a camisa do seu irmão, só pegar na sacola aí atrás.

Viro-me do banco da frente para o de trás, esticando-me o máximo que o cinto de segurança me permitia pra alcançar a sacola. Ao pegá-la, tiro a camisa do meu irmão, lavada e passada, e coloco a de Vinícius, que eu levava na bolsa.

– Me esqueci de te perguntar uma coisa... Seu celular está com problema? Porque meu filho me ligou dizendo que não conseguia falar com você e seu celul...

– Ah, nadinha não, eu só o esqueci em casa. Fiquei perdidinha a noite toda. Mas então quer dizer que... vocês estão indo bem mesmo?

Era meia-noite e pouco, estava cansada, mas era aquele tipo de cansaço que a gente quer esticar um pouquinho mais, “segurar esse fim”. As avenidas parcialmente iluminadas estavam desertas e lisas, o que pode ser considerado relaxante para quem enfrenta engarrafamentos quase todos os dias. O silêncio da rua era tão confortável que meu sono aumentava e, de pouco em pouco, eu me esparramava deslizando pelo banco como se fosse dormir. Djane também deixava seus bocejos ali. Um novo dia começava e nós ainda não tínhamos sido derrubadas... um friozinho vindo da janela meio aberta anunciava o dia chuvoso que provavelmente amanheceria.

– Para mim, cada dia é uma conquista. Meu filho está de volta a nossa casa, falamo-nos aos poucos, ele me procura às vezes, comenta algumas coisas... seu Júlio está me apoiando, tenho você iluminando meus caminhos... E logo a verdade estará em pratos limpos na mesa. Tenho sonhado esses dias com isso. Sempre acordo quando Vini vai reagir...

– Não dá pra saber como vai ser a reação até que ele a tenha de verdade. Mas estamos preparadas, né? Toda espera vai ser compensada, tenho certeza. Quando Filipe estará de volta para acabar com essa agonia?

– Aí que está... ele disse ao pai que terá que ficar mais uns dias no que está lhe ocupando, por causa de uns imprevistos. Deve chegar no fim de semana. Então nesse fim de semana tudo acaba para finalmente recomeçarmos.

– O que tanto Filipe faz nessas viagens?

– Ele nunca entra em detalhes comigo, não fala de seu trabalho. Nunca quis eu saber também, você viu como é nossa relação.

– Bom, isso vai ter que mudar também, né? Vocês não vão ficar nesse pé de guerra para todo o sempre, ou vão?

– Espero que não. Ele também tem que ceder, se ama realmente meu filho. Só não posso considerar “nosso” filho, pois iria dar outras impressões...

Seu bom humor tinha sido restaurado. Acho que era mais engraçado vê-la assim do que propriamente a tentativa dela de fazer piada. Do escuro ainda dava pra perceber um risinho meia boca dela quando passávamos por postes na avenida.

– Isso é verdade. Naquele dia que vocês me contaram a história, eu me assombrei por pensar que vocês tiveram um caso ou algo assim. Ainda bem que não, afinal, que imagem teria o seu falecido marido? Digo, pegaria mal pra todo mundo...

– Deus me livre manchar a imagem de meu marido, que foi um homem tão bom que morreu cedo demais. Pelo menos antes de ir, ele teve muitas realizações, como ter nosso filho. Era seu grande orgulho. E falando em orgulho, você sabe o que quer dizer “Gol”? Porque foi isso que Vinícius deixou de recado pra você e eu não entendi, mas que ele parecia orgulhoso, esse tom ele tinha.

Notas finais
Eita labuta, tanto pro evento acadêmico, quanto para os planos... Um passo de cada vez, né? Ou um "gol" de cada vez?