Notas iniciais
Milena tem um costume de se referenciar ao Murilo e ao Vinícius como os "dois homens da vida dela" por todo o amor que irradia de seu coração para com os dois. Aqui veremos o contrário, "as duas mulheres da vida de Murilo" HAHAHA

P.S.: Murilo tá danado reclamando que não comemorei os dois anos completos que ele e toda a turma de MoE me cutucam. Eu tinha a data certa anotada em algum lugar que se perdeu, massss sei que foi entre fim de setembro e começo de outubro. Como estamos exatamente nessa época (pelo menos a postagem inédita), eis um capítulo muito amor ♥ ♥ ♥ e um abraço enorme pra essas pestes que vivem me atazanando a vida. Comemore você também se esbanjando em "murilices"!
*agora ele me olha todo tocado* XDD

Acordo com um barulhinho de notificação do celular, uma chuvinha boa de trilha natural e um cheiro gostoso de terra molhada. Não sei se houve intervalos, pra mim choveu nesse mesmo ritmo a noite toda. Expiro longamente me aconchegando mais na minha cama sem coragem pra levantar. Por mim a cama poderia me engolir que eu não iria protestar muito. Aí penso no Vinícius e sua bela coragem para ir trabalhar. Isso porque quando veio me deixar em casa ainda queria ficar mais, eu lembrando toda hora do quanto ele ia se arrastar quando o dia amanhecesse...

A preguiça me domina novamente e me permito fechar os olhos mais uma vez. Com mais uma notificação e outra um tempo depois o meu celular me desperta. Sem muita força de vontade, me estico na marra para pegá-lo no criado-mudo ao lado e ver quem era esse que afugentava o sono. Ora quem, Vinícius. Desde as 7h da matina mandando mensagem.

Mandou 5, sendo que eu devia estar tão pesada que mal ouvi chegar 3. A primeira dizia “Me acorda, estou andando batendo nas paredes”, a segunda “Mamãe tá do mesmo jeito”, a terceira “Vou colocar um esparadrapo nos olhos pra deixá-los abertos”. A quarta já era de há pouco, que tinha uma proposta que dizia “Que tal dormir comigo hoje de tarde? Dormir, preciso dormir. Com você”. Proposta tentadora, preciso admitir. A última perguntava se eu estava dormindo ainda. Ele queria me acordar. Que era pra eu ter sono para dormir essa tarde com ele novamente. Palhaço.

Eu podia fazer invejinha dizendo que estava acordando naquele minuto. Podia fingir que ia pensar no seu pedido e esperar que ele enchesse minha caixa de entrada. Preferi, no entanto, dizer logo que iria. Só que outra mensagem chegou e essa foi a decepção dele... Lembrou-se de uma palestra que deveria comparecer na faculdade.

Que com certeza iria dormir no meio de tanto blá, blá, blá, mas tinha que ir porque o professor inquiriu no primeiro dia de aula e Vini não queria causar má impressão agora que voltara a estudar e já tinha matado aula por causa de seu aniversário. Respondi apenas um “Leve seus óculos escuros e não babe na cadeira, as pessoas podem ver. Se cuida. Te vejo depois”.

Trilha citada/indicada: The Black Keys – The Tighten Up

http://www.youtube.com/watch?v=L95iKBiZUEs

Liguei numa rádio alternativa no aparelho micro-system para acordar melhor e só assim dei partida no meu dia, sendo levantada por The Black Keys, The Tighten Up, reconheci. Mal sabia a letra, o que num importava de verdade, só que ela corroborava com uma alegria boa com que acordei. O aniversário e suas boas partes estavam fresquinhas ainda sob a pele.

Arrastei-me para o banheiro. Quando saí de lá, a água com que lavei o rosto foi revigorante, porém, não exatamente aplacara meu estado meio lerda, meio feliz. Me arrastei dessa vez em direção da cozinha, ainda ouvindo a rádio lá do meu quarto tocar, que, por estar longe, o som saía meio abafado. Não sabia ao certo o que já tocava, tinha leve impressão de conhecer, mas com meu estado grogue não poderia afirmar algo.

Dei um super bom dia à dona Bia na sala, que passava pano molhado pela casa, dando-lhe a confirmação que a festa tinha sido maravilhosa. Ela nem mesmo perguntou, só disse que eu não precisava falar coisa alguma se meu humor já dizia tudo. Como sobrou muito bolo, Djane insistiu que eu trouxesse um pouco, que deixei na geladeira. Nada melhor que bolo gelado do dia seguinte, né? É mais delicioso. Oferecia para dona Bia uma parte quando a porta da sala abriu e um Murilo assoviando abobalhado adentrou.

Ele não disse nada, não como costuma. Geralmente quando chega, ele grita um “cheguei, família” pra se anunciar. Jogou suas chaves no móvel de entrada, andou com passos ritmados como se estivesse ouvindo música por fone de ouvido – que fiz questão de verificar e nada – nos deu um “bom dia”, sorriu como nunca, atravessou a sala, foi pelo corredor para seu quarto. Acompanhamos cada passo seu até fechar e, quando viramos de volta, acho que nos identificamos uma na expressão da outra. Ficamos paradas por uns 30 segundos no mesmo lugar, ela com o cabo de vassoura, eu ainda de pijama, como andava pela casa como se estivesse de férias ainda.

– A noite para seu irmão parece ter sido longa e boa, pelo jeito.

Tive que concordar, parecia mesmo. Não deixei de notar que sua camisa de botão estava um pouco abarrotada. Mas isso não poderia dizer muita coisa, afinal, por maioria das vezes que chega em casa do trabalho, ela tá mais ou menos amassada assim. Ele não fica se agarrando todo dia com alguém, fica, pra chegar em casa desse jeito, fica? Ai meu Deus! Será que... que eles ficaram? Tipo, finalmente? Ele e a Aline?

O que poderá ter rolado naquela emergência no seu trabalho?

Ai que tudo!

Ai que tenho que arrancar dele!

A pergunta é como. Até onde lembro, ele está chateado comigo. Vou ter que dar meu jeito, porque se depender dele, talvez não conte nunca. Eu não torci tanto para eles ficarem juntos para agora ficar no vácuo das novidades. Se é que realmente aconteceu algo... Deve ter acontecido, tem que ter acontecido para ele ter entrado em casa assim tão radiante.

Vou para a cozinha tomar meu café da manhã. Esperaria só ele sair do quarto.

O que não demorou muito. Quando eu quase finalizava minha xícara de café, Murilo compareceu ao cômodo de banho tomado, vestindo seu pijama costumeiro de calça moletom e camisa largada. Não mais assoviava, não mais parecia chateado. Sentou-se à mesa, serviu-se, coçou os olhos de sono, fazia tudo mecanicamente. Mas tudo ainda com aquele ar risonho bobo. Tá que ele era um tapado por natureza, só que agora... Agora era diferente.

Segurando minha xícara por uma asa dela permaneci. Ao alto próximo da boca para sorver eu o observei a minha frente calada. Não demorou muito e ele se tocou de que eu o examinava com as sobrancelhas de pé. Para então de passar a manteiga no seu pão.

– O quê?

– Eu que pergunto. Você tá feliz. Muito feliz.

– Tô, ué.

Dá de ombros e volta a passar a manteiga, lentamente dessa vez.

Seguro minha xícara com as duas mãos, que de tanto eu demorar para tomar tudo, estava só morna. Sorvo o final. Ele se mantém impassível com a minha abordagem.

– É o que eu tô pensando?

– Eu num sei o que você tá pensando...

– Murilo!

Tava curiosa, poxa! Dois anos de convivência com Flávia me deixou assim.

– Não foi apenas uma emergência no trabalho, foi?

– Não.

– Vocês então... ficaram?

– Sim.

– Mentira.

Disparei, surpresa. Eu acreditava e não acreditava ao mesmo tempo.

Murilo meneia a cabeça confirmando. Um sorrisinho dele não me escapa a vista.

– Sério.

Baixei a xícara, animada, bem diferente dele, que se mantinha sereno. Aposto, aposto que ele estava soltando fogos por dentro. Porque ele gostava dela faz muito tempo, mesmo antes dele aprontar no trabalho e ser suspenso. Uma vez me disse que já a tinha observado, participado de uns eventos e palestras com ela, que ficava num setor bem próximo ao seu. Aquela sua vingancinha, no fim das contas, meio que os uniu... lhes deram mais contato e oportunidade de se conhecerem, bem diferente do que ele pensava quando teve que se apresentar como culpado pela brincadeira de mal gosto.

– Ai, meu Deus. Aleluia, Senhor! Até que enfim rolou entre vocês... Agora conta tudo! Detalhes, quero saber os detalhes.

Vai que cola essa animação e curiosidade?

– E quem disse que sou mulherzinha pra ficar falando detalhe? A gente ficou e foi isso. Não precisa saber mais nada. Eu não soube de nada de você com Vinícius, só sei que ele é uma pessoa e por isso já me dou por satisfeito.

Bruto.

– Mas eu não.

Com que direitos eu pedia mesmo? Não sei. Só que eu não conseguia resistir.

Tamborilo os dedos na mesa pensando num modo de convencê-lo.

– Aposto que Vinícius te contou.

Apelo.

– Não exatamente. Só sei que foi numa danceteria. Ou gafieira. Algo assim.

– E... você já esteve curioso?

– Hunf. Como se você algum dia fosse contar.

– Bom, se “algum dia” for hoje... acho que há possibilidades...

Ele ri meio debochado quando dá a primeira mordida no seu pão. Mas sinto que quer aproveitar a situação. As intenções de meu irmão sempre dão pra ser sentidas de longe. Mesmo com ele falando de boca cheia.

– Duido. Coho?

Tradução: “Duvido. Como?”. Peguei sua atenção.

– Me contando o que aconteceu com Aline.

Só porque eu tava muito curiosa.

– Sério que você quer saber?

– Tu acha que eu passaria meia hora falando sobre isso pra não querer saber?

– Hum. Acho que... tá, mas só se você contar primeiro.

Ó moedas de troca... quando que ficaram tão caras? E Murilo, quando que aprendeu a barganhar? Talvez eu tenha começado a negociação num preço muito alto.

~;~

Oh Gosh, como fui me meter nessa.

O que não é a curiosidade feminina e essa inerência toda nossa por detalhes. Porque se vai contar uma história, tem que contar ponto a ponto. Não somos práticas ao ponto de numa frase só ser contista, de colocar começo, meio e fim nessa extensão e ficar por isso mesmo, como fazem os homens. “A gente ficou e foi isso” foi o que Murilo tinha dito. “E foi isso” o caramba!

Confesso que nunca fui muito para o lado de ser curiosa, quem sempre foi assim era meu irmão. Às vezes ele nem perguntava, só dispunha duas colheres e sorvete sobre a mesa que significava “fala tudo”. Quando eu descobri sobre Filipe ser pai de Vinícius, por exemplo, ele fez a mesma coisa, me esperou e, mesmo vendo meu cansaço, ele não largou de mão até eu contar pelo menos um pouquinho da história para ele. Sentia falta de dias assim.

Que eu ou ele chegávamos em casa e falávamos sobre nosso dia, nossos problemas, nossas loucuras. Falávamos por naturalidade, não por cobrança, por perseguição ou desconfiança. Ele não é gente quanto se pensa, quanto se vê. Mas é com esses traços que ele se faz, o que acredito ser algo tão dele que se não fosse meu irmão, acho que eu o quereria como um. Já que ele é, e já que eu o amo, um amor torto e incondicional, o jeito é aceitá-lo com seus defeitos, inseguranças e ideias idiotas... E se existe alguém que pode tranquilizá-lo, pelo menos metade de seus problemas, essa pessoa sou eu.

Então tenho que começar a me mexer se eu quero tudo isso de volta. Confesso que não tenho trabalhado muito para isso, ao contrário dele que tem deixado isso bem claro, de estar fazendo sua parte.

E fácil não é. A começar por tornar a falar de Eric, pelo menos de um jeito pacífico, pois ele é um ponto muito importante para se comentar no que refere a primeira vez que, enfim, rolou algo entre mim e Vinícius.

Mordisco um biscoito de polvilho doce que dona Bia trouxe da padaria e penso em como começar a falar. Antes que eu começasse, ela grita lá do fundo do corredor pedindo permissão para passar pano molhado nos nossos quartos. A gente responde que sim e eu acrescento para que ela desligue o som que eu deixara ligado. Murilo nem um instante parou de me encarar, à espera.

– Nós saímos com a turma, e, por uma brincadeira, seguimos umas coordenadas que Gui indicou. Paramos na danceteria. A gente mal tinha sentado e você ligou para o Vinícius, lembro que ele me mostrou a tela do celular com seu nome. Foi bem na época que vocês dobraram o cuidado comigo por causa de Filipe, depois de ele ter me atacado aqui na rua, que Vini virara meu “guardião” e tal.

– Hum. Ele me disse que vocês estavam perto da faculdade, com a galera. Tinha muito barulho lá, quase não conseguia falar com ele. Só afirmou que talvez vocês demorassem, ele não sabia. E eu... só queria muito falar com você. Por isso te esperei no quarto.

É, quando cheguei em casa, Vinícius queria que eu dormisse mais uma noite com ele no quarto de hóspedes. Só que ao descobrir meu irmão em minha cama, vi que não daria certo essa fugidinha. Soube então que havia algo errado, pra que Murilo invadisse de tal forma meu espaço e esperasse por mim por tanto tempo. Confessou-me estar com problemas com Aline, além de sentir ciúmes dos meus cuidados com Vinícius, que “eu não dava atenção a ele”. A carência de meu irmão às vezes era palpável, coisa que só hoje, depois de ouvir certa conversa, eu posso entender. O ciúme que ele nutre não é mero ciúme, é cuidado excessivo mesmo.

– O casarão que ambientava lá era magnífico. Ficamos passeando eu, Flávia e Bruno pelo saguão e dado uma hora o Bruno voltou pra mesa. Então encontrei a mãe do Eric, ela é a dona da danceteria.

Não pude deixar de notar que meu irmão me desviou o olhar quando citei o Eric. E agora que já ajoelhei, tenho que rezar a missa. Prossigo sem abalo.

– Aí a Flávia foi no banheiro e eu ia para a mesa... Só que dessa vez encontrei o Eric... Nossa, eu não o via há tanto tempo. Estava tão diferente. Conversamos um pouco e ele disse que queria me mostrar mais do local. Não achei nada demais, então fui.

Atenta a cada movimento de meu irmão a minha frente, eu falava pausadamente medindo minhas palavras, apesar de algumas emoções falaram bem mais alto enquanto revivia tudo em mente. Ele, para minha surpresa, não se mostrava nenhum pouco alterado. Fico um pouco tensa pelo silêncio desse ser, que, se fosse noutros tempos, já estaria gritando sem mesmo me ouvir ou entender bem do que eu estava falando.

Será que algum dia eu não vou esperar nada de ruim dele? Me recosto na cadeira, prossigo mais uma vez.

– Pelo que as meninas me falaram, todos na mesa viram esse reencontro. Vinícius não gostou. Gostou menos ainda quando Gui conseguiu identificar quem estava comigo, que era um ex. Como subi para ver as salas de aula de dança, sumi das vistas de todos. Enquanto isso, eu ia me atualizando de algumas coisas com Eric, descobri que ele estava na faculdade de teatro e fazia dança com a mãe. Ou pelo menos tentava conciliar isso.

Murilo se mantém tão calado, mas tão calado, que se estivesse descrevendo para uma planta, acho que ela seria mais ativa que ele. Como esse comportamento era tão não-ele, lidar com essa diferença era tão não-eu. Sinto uma ponta de paranoia e, por mais estranho que pareça, uma paranoia por me sentir paranoica. Existe sentido nisso?

Tento não me agitar. Ao baixar as mãos para o colo, brinco com a ponta do pano da mesa para ter o que mexer e não ficar nesse incômodo. Tento apenas pensar naquela noite, voltar à confusão de antes, que era melhor que a atual.

– A sacada para que ele me levou era maravilhosa, podia se ver boa parte da avenida e... as luzes, aquele clima ameno de festa, o céu escuro, era lindo. Estava com o pensamento bem disperso... Bom, até que Vinícius apareceu, sem mais nem menos, gritava procurando por mim. Simplesmente achei que tinha acontecido alguma ruim, porque, convenhamos, as desgraças foram uma atrás da outra naquela semana.

– E o que era?

Ok, se assustar por finalmente ele responder algo era uma coisa muito ruim?

Terminava seu café, que só nele centrava seu olhar. Diria que estava meio longe se não tivesse abrido a boca. Acompanhava sim o que eu dizia. Devia estar pensando que não mais valeria a pena, e não valia mesmo, se ele fosse fazer ceninha, pois, do que adiantaria ele reclamar por alguma coisa que já passou? A merda maior ele já tinha feito, de qualquer maneira.

– Ciúme. Muito ciúme. Tipo, muito mesmo.

Murilo ri. Nessa hora seu rosto se ilumina. Queria tanto que externasse o motivo, perguntar ao menos, mas prolongar o assunto que já findava ali eu preferia que não.

– Então ele revelou tudo o que sentia... e descobriu que era recíproco. Fim.

Tá, agora já chega, já contei demais. Não ia detalhar sobre o primeiro beijo meu com Vinícius (já que aquele que me deu na passagem de consciente para inconsciente não pode valer como primeiro). Isso nem com todo o ouro do mundo ele daria um jeito de me arrancar. Meneando a cabeça, ele pega uns biscoitinhos de polvilho da tigela e se manifesta:

– Vinícius foi o único que conseguiu meu respeito. Com certeza se ele chegar a te magoar, o que não vejo bem como, porque ele te ama destrambelhada que nem tu é, eu sei que quebro ele... Contudo, preciso dizer que as coisas mudaram. Se você fizer alguma coisa que o machuque, quem acaba contigo sou eu.

Ele tá falando sério?

Ele... ele tá.

Que resposta posso dar depois dessa?

Melhor refazer minha questão: quem é este Murilo a minha frente?

Nem os aliens conseguiriam uma mudança tão... tão... tão brusca! Conseguiriam? Ele me pegou bem desprevenida, fato, e por constatar isso, as mudanças que tanto pedi, exigi, choraminguei, estavam ali, acontecendo. Estavam mesmo, não estavam? Acho que gritar com ele era tão zona de conforto que quem agora está sem o que dizer sou eu.

E me sinto feliz por isso. Tão feliz que a vontade que tenho é de levantar, rodear a cadeira e pular nas suas costas como o gesto mais fraternal que possa encontrar para o momento.

– Você tá rindo? Eu tô falando sério.

– E é por isso mesmo que estou rindo. Não porque não acredite que vá fazer isso, mas por essa confiança que tem dentro de si de fazê-lo, se necessário. E quer saber? Estou feliz por ter dito isso. Mesmo que seja uma ameaça.

Aproximo a tigela de biscoitinhos para mim.

– Vocês mulheres são tão estranhas, eu hein.

Ele puxa a tigela para si.

– Tá, num enrola, fala logo tua história. Não venha me enrolar.

Eu puxo de volta. Acho que éramos nós novamente, sendo apenas Milena e Murilo, “brigando pacificamente” por um recipiente de polvilho doce.

– Ok, ok, por onde começo?

– Do começo, oras. A emergência.

~;~

Já tinha me acostumado a uma boa vida. Não a good life que o Ryan ficava me falando, nem a life in color que toca no meu celular. A boa vida de não ter que cuidar das coisas de casa. Sabe, de passar pano, varrer, limpar, espanar, lavar, colocar no varal, tirar do varal, dobrar, passar, coisas assim. Só porque tinha contratado alguém para nos ajudar dentro de casa não queria dizer também que eu tinha me livrado dessas funções. Não, eu ainda fazia parte delas, mas uma ajudinha de dona Bia era uma mão na roda. Ô se era.

Teve um tempo, quando ainda estava no ensino médio, que tivemos uma ajudante para esses serviços. Porém, quando ela teve que viajar e deixar o emprego, ficamos sem com quem contar, eu e Murilo sobrevivemos no rodízio mesmo, dividindo as tarefas. Como ele é o mais velho, queria ficar como um rei me explorando. Depois ele entendeu – leia-se levou um puxão de orelha daqueles da nossa família – e passou a me ajudar, porque eu não daria conta sozinha. Apesar de a casa não ser grande, na hora da limpeza, ela se tornava.

Com o tempo fomos pegando o jeito da coisa, aprendendo na marra o que era cuidar de uma casa. Isso virou motivo de muitas de nossas apostas e moedas de troca. Não demorou muito e tivemos que passar a temporada com nossos pais por causa da vovó que iria começar um tratamento. Quando voltamos, até pedimos por alguém que pudesse nos livrar desse tipo de trabalho, mas não encontrávamos gente que aceitava nosso acordo. Foi difícil encontrar dona Bia, procurei durante um bom tempo até calhar uma oportunidade. Chegou numa boa hora.

Agora que ela torceu o pé numa queda de piso molhado me dá preguiça só de cogitar passar uns tempos sem ela. De voltar ao trabalho caseiro, de dividir as tarefas com um Murilo fujão da raia. Ele foi lá, deixá-la em casa, não morava muito longe. Foi só uma pequena torção no tornozelo, dona Bia saiu andando aos protestos nossos de mantê-la quieta, no gelo.

Na realidade, nossa intenção era de levá-la para um pronto-socorro, só pra todo caso, pois ela tinha caído de mau jeito. Estávamos conversando na cozinha eu e Murilo quando aconteceu, dona Bia gritou pela queda no quarto dele, fomos socorrê-la. Ela tropeçara no balde, que virou e derramou o conteúdo. Dona Bia foi conter e escorregou lá mesmo.

Dou uma olhada no andamento do almoço e apago as bocas do fogão ao ver que estava no ponto já. Nessa hora meu irmão chega, lava as mãos na pia e, quando acho que ele vai sentar para me contar a sua parte do acordo, ele caminha para o quarto. Não era hora do almoço para comer, apesar de ser 11h da matina.

– Pra onde você pensa que vai?

Murilo para perto do corredor, ainda na sala:

– Hã... pro quarto?

– Fazer?

– Dormir. Eu não dormi ainda se você não notou.

– E não vai dormir agora, não até me contar essa história da Aline... eu contei a minha, poxa! Isso num vale.

– Não tenho culpa, eu preciso dormir, foi uma noite muito longa.

Continua a caminhar em direção ao quarto. Enxugo as mãos correndo, jogo o pano sem nem olhar pra onde caiu e o sigo.

– Que vai ser mais longa ainda se você não começar a falar.

Ele se vira pra mim de supetão:

– Pra quê tanto você quer saber?

– Porque eu quero oras.

E porque eu contei a minha. Que não valeu prata, mas ouro de troca.

– Na hora do almoço, então.

– Murilo!

Ele se vira novamente, quase se arrastando pro quarto, pra enfatizar bem seu estado. Parecia que sua bateria estava de final mesmo. Não tinha acordado cedo no dia anterior, pelo menos. Isso não diminui, no entanto, sua exaustão.

– Lena, eu tô cansado... Vou ter que voltar pra lá e nem sei se vou conseguir me mover. Ou dirigir. Ou abrir os olhos. Tenha pena de mim.

– Mas, mas...

Eu não entendia também porque estava tão determinada. Queria e iria conseguir.

– Lena, estou perdendo minutos de sono. Vou deitar.

– Então vou com você.

Volto rápido pra cozinha, ajeito o pano que voou pra mesa, fecho umas panelas, arrumo tudo na mesa e o encontro na porta do quarto ainda, mal de um olho aberto. E esse olho aberto era o assustado.

Eu diria bem-vindo ao clube, eu também não tava me reconhecendo.

Sentei e me recostei na cabeceira da cama, peguei um travesseiro e pus sobre o colo. Como o morto que ele estava, praticamente se jogou do seu lado da cama e fitou-me curioso, abraçado ao próprio travesseiro.

– Vai cuidar de mim?

– E você lá precisa de cuidados? Vai é precisar se não contar.

– Só se...

– Só se o quê? Quem tá devendo é você.

– Só se fizer cafuné na cabeça...

Meu Deus, ele tá com aquela carinha. Aquela que diz “preciso de você e não é brincadeira”. Mas como que um cafuné iria ajudá-lo? Ele não está nervoso, com insônia, tampouco ferrado. Aquela felicidade toda que trouxe pra casa não lhe parece o bastante?

Quero ceder. Não sei o porquê disso. Não é bem essa sua carinha, esses olhos que piscam devagar, essa respiração que busca o descanso, que me convencem... Finjo pensar um pouco para não aceitar logo de primeira. E isso me dá a oportunidade de negociar novamente... O que sai quase por instinto, sem muito ter pensado. Como um chute que pode ser chamado de proposta.

– Só se você limpar o banheiro. Os dois banheiros, quer dizer. Dona Bia não pôde chegar até esse ponto.

Murilo resmunga baixo. Percebo que ele leva a sério quando vejo sua expressão mudar de várias formas em poucos segundos. Eu não bem falei como brincadeira, só pensei que ele não fosse... aceitar.

– Argh. Preço alto. Muito alto. Ok, vale a pena.

No espaço entre ele dizer sim e eu processar a ponto de oferecer meu colo para que se encoste, não deixo de refletir, novamente, sobre o preço deste segundo acordo. Preços, na realidade. Como ele disse, foi alto, muito alto. É uma das tarefas top chatas e ruins de fazer dentro de casa e ele não resistiu. Bem, não muito. Quando aceitávamos uma tarefa dessas em um acordo, era porque o que conseguiríamos era muito valioso, algo que realmente precisávamos.

A última vez que fizemos isso foi na ocasião de seu atendimento na emergência, que tinha febre e eu não quis tratá-lo só em casa. Incidiu de ser justo no dia que Djane me ligou e me buscou para ir ao hospital ver seu filho. Como era caminho, pensei “por que não?”. Murilo ficou na espera por um tempo, me ligou quando viu que ia ser atendido e interrompeu um pouco de meu momento com Vinícius. Porque ele sempre teve certa aversão a agulhas, eu devia estar lá para lhe acompanhar. E, poxa, não queria ter que sair daquele jeito do quarto de Vinícius, o que ele bem percebeu e fez sua proposta. Que lavaria o banheiro por dois meses. DOIS MESES. Estava bem desesperado.

Mas como um leve cafuné estaria à tamanha altura? Não era proporcional.

Será que Murilo sente tanto minha falta assim? De precisar de uma desculpa, de um acordo para que eu me aproxime dele, que cuide dele, mesmo que não precise? Antes de dedilhar seus cabelos logo que deita sobre o travesseiro às minhas pernas, desisto de ter isso em mente, não quero que me distraia do que ele está prestes a me contar. Sinto sua serenidade pelo exalar de cansaço quando sua cabeça pesa ao travesseiro.

– Então vocês saíram às pressas...

~;~

Murilo coça os olhos e reprime um bocejo.

– Eu disse que ia deixá-la em casa, o problema era do meu departamento, ela iria só se cansar lá. Mas ela bateu o pé, insistiu de ir e ver como poderia ajudar, pra qualquer coisa. Tive que aceitar... não poderia me demorar. Consegui falar com Armando quando desci do carro, ele estava a caminho e muito perturbado pelo acidente.

Ele vai ter que cortar esse cabelo logo, está grande. Tão grande que dá pra puxar e fazer moldes quase como o Jim Carry no filme do Ace Ventura. Brinco com seus fios rindo bestinha. Ainda bem que ele não está olhando, pareço criança.

– Corremos pelos corredores, os vigilantes foram nos deixando passar, já me conheciam de outros plantões e emergências. Quando cheguei no meu departamento, os caras do plantão da vez foram me explicar qual era o problema. Foi um curto-circuito em uma máquina lá que “feriu” outras que estavam próximas, uma delas que estava em observação de desempenho, que faz parte do projeto de Armando. Ela que tava emitindo sinais que não eram reais, como medir frentes frias e condensações que nem existiam. Não condizia com a chuva que estava caindo naquela hora, pra você ver. Mandava alerta atrás de alerta para o sistema. Precisávamos ver como reverter o efeito, descobrir o ponto de conserto e reprogramar, com urgência.

Ou é o cansaço ou é a preocupação pelo problema que o deixa levemente tenso. Ele demora a relaxar... até falar dela.

– Quando Armando chegou lá a gente se juntou para fazer o controle da situação, evitar a emissão de informação errada. Enquanto isso, outras pessoas iam chegando e chegando, a Aline meio que se meteu no meio e foi atualizando todos do ocorrido. Sentia por ter que deixá-la por vezes sozinha para me meter entre as aparelhagens, mas era meu trabalho e ela ainda ficava me empurrando de volta quando eu passava por onde ela tava e parava. Aquilo devia ser chato pra ela, não?

– Ela também trabalha lá, talvez não.

– Bom, um dado momento até que ela se fez necessária, além do pequeno auxílio que nos dava. Quase tivemos que chamar a diretora para ter acesso a um banco de dados que tinha risco de ter sido afetado e tínhamos que checar. Como Aline estava lá, nos ajudou na decodificação do código por já ter feito um serviço parecido com a diretora. Fiquei preocupado de depois ela se complicar por isso, mas foi um ponto-chave e ninguém ali pode reclamar disso. Foi necessário diante das circunstâncias. A fase de controle foi até umas 1h da manhã.

– Mais ou menos por essa hora que fui dormir.

– Do grupo geral, nos separamos pelos departamentos afetados para fazer corujão de observação. Você sabe, verificar e vigiar as aparelhagens, conferir as emissões, fazer a filtragem das infos, atualizar o sistema, coisas assim. Me ofereci de novo para levá-la pra casa, ou de ela pegar um táxi e ir, que dali pra frente seria um processo cansativo de contenção da emergência. Ainda assim, ela não quis.

Que lindo, ele ri, contido, mas ri. Contenho também minha vontade máxima de importuná-lo por isso. Murilo apaixonado é uma graça.

– E o que você achou disso? Ficou feliz?

– Estava com ela, então sim. As circunstâncias não eram boas, então não também. Fiquei dividido... aí ela fincou o pé novamente e não teve jeito senão aceitar sua ajuda. Ela fica tão engraçada quando se mostra determinada, que tinha hora que eu não acreditava que realmente estávamos juntos naquela confusão. E aí ficamos apenas nós dois numa cabine para acompanhar o reset e atualização do sistema.

– Huuuum.

– Hum nada, porque não aconteceu nada. Ela se segurou bem durante muito tempo, ficamos conversando, trocamos ideias sobre aquela parte do trabalho, coisas que ela já não tem muito acesso... e quando dei por mim, ela ressonava na poltrona. As luzes do painel que iluminava seu rosto, e... enfim, eu não poderia oferecer nada melhor para ela se deitar, senão ali mesmo.

Cadê os doces pra se morrer de fofura? Devia ter trazido alguma guloseima. Os bolinhos de polvilho doce! Ah, acabaram...

– Mas então, como foi?

– Calma, tá muito apressadinha. Num quer todos os detalhes? Então xiu.

Ele acaba de me mandar calar? ELE acaba de ME mandar CALAR?

Modo “resistindo ao pior puxão de cabelo dele” ligado. Engulo meu orgulho.

– Hum. Prossiga.

– Acabei dormindo também, já era mais de 3h da manhã e o processo até então estava regular, tava cansado, o sono veio e não pude impedir. Quando foi umas 5h ela me acordou, o sistema tava atualizado e... tudo estava bem. E aí...?

– E aí...?

Sei que faz de propósito!

– Que a gente foi cada um para seu vestiário, dar um jeito nas nossas condições, claro. Dormi todo de mau jeito, fui lavar o rosto, escovar os dentes... sabe que já deixo umas coisas por lá sabendo dessas emergências. E aí...?

Já não reprime um bocejo, fico impaciente.

– E aí...?

– Fomos tomar café da manhã na cafeteria. Lá é 24h e já estava amanhecendo. Estava tudo sobre controle, mas só esperávamos algumas notícias mais para poder ir pra casa. Nisso ficamos conversando... sobre o aniversário. Eu... eu ainda tava chateado com aquilo que você tinha falado... E aí a recepcionista nos avisou sobre uma ligação da diretora, que Aline teve de atender. Fui com ela até sua mesa, fiquei na sala de reuniões... lá tem umas poltronas melhores, sabe.

E será que ainda está chateado? Por que ele não se prolongou no assunto quando o mencionou? Deve ser o sono mesmo, ele quer apenas dormir e cá estou arrancando coisas dele. Se já não estivesse no fim da história, eu abandonaria o barco, digo, a cama, para que pudesse descansar.

– Quando ela apareceu lá depois da ligação, num sei, veio aquele silêncio... era confortável. Era bom estar assim com ela. Se sentou numa poltrona do meu lado e foi então que... rolou. Fim.

Dou um gritinho agudo de expectativa ao mesmo tempo em que ele diz “fim” e se esconde com o travesseiro que estava agarrado. Seu corpo reverbera seu sorriso, todo bobo por estar como está, por ter contado como contou.

– Fico tãaaaao feliz por vocês dois.

Ele se vira no meu colo, tira o travesseiro de seu rosto, me olha surpreso. O que é, hein? Não posso ficar mais feliz pelos outros não? Não sou tão má assim. Ou sou por vê-lo de olhos quase fechados de tanto que suas pálpebras estão pesadas.

– Sério?

– Claro. Nunca achei uma boa isso de você ficar com uma aqui, outra acolá.

– Eu as respeitava sempre.

Frisa.

– Sim, eu sei. Mas o bom é se apegar a alguém, não é? E ter só esse alguém.

– Hum.

– Agora tá livre pra dormir.

Me ajeito para poder levantar, ele me impede.

– Fica.

– Mas você vai dormir... eu num tô com sono.

Há muito tinha passado. Menos a preguiça.

– Só... fica. Pega meu celular, gasta a bateria com joguinhos, com internet, que seja. Só fica.

Pondero por um, dois segundos, fico entre um avanço e um retrocesso de nossa relação. Já ganhou tanto num só dia que... talvez um a mais seria bom. Eu tinha que ceder também, né? Fazer minha parte no processo de recuperação.

– Tá, mas chega pra lá que acho que já não sinto minhas pernas.

Preciso dizer que ele se entregou ao sono com um sorriso enorme?

Pelo menos não vou ter que lavar o banheiro...

Notas finais
Ok, não deixem seus feels de amor pelo Murilo muito evidentes porque ele já tá se achando. Tá, só um pouquinho.
Velhos hábitos são difíceis de deixar rs