Mantendo O Equilíbrio - Um Novo Amanhã (T4 + T5)
4 Capítulo 3
Notas iniciais
Continua a saga do aniversário.
Enjoy.
P.S.: hoje tive uma odisseia milenesca que me lembrou muito o capítulo 1, no momento que a Milena diz "quando eu te contar o que me aconteceu hoje, tu vai é me abraçar". Milena até se compadeceu de mim. Nada grave, só micos e odisseias numa parada de ônibus hahaha
– Está mais calma? Quer contar?
– Melhor não, querida. Não quero mais saber disso enquanto posso. Vamos falar de coisas boas, como meu filho por exemplo.
Encontrei Djane numa mesa da lanchonete com uma cara péssima, daquelas que nem onça pintada tem coragem de dar as caras. Ela abrandou a raiva que sentia ao me ver. Fazia uns tempos que não via uma reação dela assim, alguma coisa tinha dado errado naquela reunião de última hora. O que terá sido isso que lhe alterou tanto?
Bom, ela não quis conversar sobre, então que assim fosse. Quando notei que tremia de raiva, busquei uma garrafinha de água. Aos poucos foi acalmando. Os outros professores já tinham saído, só não o diretor Fabiano, que também não tinha uma cara muito boa quando o vi passando pelo pátio com umas papeladas para o setor da administração.
– Tudo bem. Eu tô com uma ideia e não sei se é possível fazer... Tá, não me olha estranho, mas não é algo muito convencional.
– Milena, se saiu da sua cabeça, não tenho porque olhar estranho. Se você acha que dá pra fazer, nós tentamos.
– Sério, Djane, você ainda nem ouviu.
– Confio em você.
– Ok, lá vai. Eu sei que Vini vai querer ficar em casa pela tarde, então não tem como arrumar a festa lá. Wellington ofereceu a casa dele que é quase em frente, mas pensando bem, eu acho que seria incômodo, sabe? A irmã dele teve gêmeos faz um pouco tempo... imagina uma super festa rolando lá?
– Hum. Verdade, eu não tinha pensado por esse lado.
– Fica chato tanto pra gente quanto pra eles. Pensei na casa do seu Júlio também. Só que também me preocupo com a barulheira. Seu Júlio precisa de descanso, não de uma papagaiada dessas.
– Então como?
– Pois é, agora que vem a parte... estranha. Estava pensando se a gente podia deixar tudo na casa de um vizinho, e... bom, eu sairia com Vinícius para enrolá-lo, dava uma passada na casa do Wellington num sei, e vocês entravam em ação fazendo a passagem das coisas. Teríamos que ter máximo cuidado, pois, passando pela porta da frente, fica muito visível... Mas como não deve ser muito, dá pra arrumar na hora. Aí dou um jeito de voltar com ele até em casa, digo que esqueci algo e pronto. Surpresa.
Djane ficou pensativa. Olhava para o copo de água em mãos. Devia estar matutando uma forma de me dizer que eu era louca sem querer me ofender de verdade.
– Acho que podemos fazer.
– Sério?
– Claro. Sei até como convencer o vizinho... Você pensou realmente em tudo, Milena. Eu não poderia desejar nora melhor.
– Aiin, Djane, num começa me a me deixar constrangida, não. Foco!
– Tá. As encomendas que fiz estão em ordem. Pego tudo depois do almoço. Você vai embora agora? Te levo em casa.
– Acho que vou esperar seu filho. Falando nisso, tô sem o celular. Posso usar o seu? Não sei se ele já saiu da faculdade.
– Ah, claro. Fico aqui com você até ele chegar então.
– Djane, posso perguntar uma coisa sobre... essa reunião de agora?
– Perguntar pode, se poderei responder, vejamos.
– Aconteceu algo muito ruim? Por que ninguém que saiu daquela sala tem uma boa expressão.
– Bom, o que posso dizer é que sim, aconteceu algo muito sério. E para arrumar isso Fabiano está tomando as devidas precauções e medidas, o problema é do conselho de classe que o barra. E por uns boatos do departamento, estão colocando a palavra dele em prova. Alguns professores também estão divididos. Não sei nem tenho alguma previsão do que possa acontecer agora.
– Que chato. E isso te afeta?
Desgostosa, ela assente em clara frustração.
– De certa forma sim. Me ofenderam essa noite. Mas não se preocupe, estamos resolvendo. Eu só queria poder matar o professor Bartolomeu.
– A senhora e 90% das faculdades, melhor dizendo.
– Ai, Milena, só você para me fazer rir numa hora dessas.
– Então logo que eu falar com o Vini, lhe conto as peripécias de hoje. Sério, hoje foi um dia daqueles e cá estou sorrindo. Desesperada ainda, mas sorrindo.
~;~
Se você tem algo ruim a comunicar, melhor não dizer na lata numa puxada de band-aid. Pelo menos algumas vezes é melhor. Tem que preparar o terreno pra plantar bem a semente – não a da discórdia, claro! – e dela colher melhores frutos. Isso só é possível se uma planta for bem cuidada, certo? Então uma breve insinuação é uma boa para começar. Algo que apenas suscite o assunto sem entrar de vez nele.
Aprendi com papai que faz isso o tempo todo.
– Hey, Vini, lembra daquela vez que você pulou o muro lá de casa?
– Uhum.
– Como você foi tão rápido?
– Me afastei pra pegar impulso. De primeira não foi, tive que pegar mais impulso. Aí peguei apoio na caixa de correio do vizinho e consegui subir. Por que a pergunta agora?
– Curiosidade. Tentei hoje e levei pelo menos uns 30 minutos, acho. Bom, não tem muito como saber já que não ando de relógio e o celular ficou preso dentro de casa...
– Espera, o quê, Lena?
Viu, agora que a semente foi plantada, tem que cuidar dela. Quer dizer, da informação.
– Er... foi isso. Fiquei presa no terraço sem chave e sem celular. Pulei o muro.
– Lena, porque não pediu ajuda para alguém?
– Quem disse que tinha viva alma lá?
– Mesmo assim, gritava, sei lá, alguma coisa.
– Não era uma grande emergência assim, só... falta de sorte.
– Você e suas histórias de falta de sorte.
Ele bufa negando com a cabeça. Observa a avenida pela janela e retrovisor antes de dar alerta de entrada numa rua, estava me levando para casa.
– Você e suas histórias de acreditar que tenho sorte. Quase fui assaltada e você me fala em sort...
– Pera, você foi assaltada? Lena, conta isso direito.
– Não fui. Isso já foi perto da faculdade, antes de ir para a aula. Tinha uns caras estranhos quando saí da casa lotérica. Me livrei deles.
– Como?
– Você sabe, no punho.
– Quê?
Ele quase parou o carro, senti que deu uma diminuída enquanto andava. Melhor que eu parasse de brincadeira antes que ele se exaltasse de preocupação.
– Tô brincando, amor. Pedi ajuda pra viva boa alma que tinha lá perto. E num é que o cara não apenas é da minha faculdade, mas agora da minha turma? Ele foi transferido.
– Espera, Milena. Você tá embaralhando tudo. Começa do começo.
Ele quis descer do carro para conversar, já na porta de minha casa. Só que Murilo estava lá dentro, vi pelo seu carro já na garagem – imagine o que ele pensou de mim quando viu meu caderno lá jogado no terraço, aquele que eu esqueci enquanto pulava o muro – então tive que impedir Vini de sair do veículo. Ainda não conversava abertamente com meu irmão, preferia deixar as coisas mais sucintas possíveis.
Minha ideia era de não mais machuca-lo, tampouco de alimentar sua sede de proteção. Ele ficaria maluco se eu contasse em detalhes do que foi meu dia. Vinícius, apesar de preocupado, tem mais controle das coisas. Ele deve ter percebido isso logo que eu pedi para não descer, se era sobre isso que íamos conversar.
– Lena, você precisa tomar mais cuidado. E se tivesse acontecido alguma coisa? Como saberíamos? O que tanto tinha nessa sua cabecinha hoje?
Eu praticamente estava atravessada no banco da frente, deitada em seu ombro, enquanto ele me abraçava de lado e esperava sua aflição baixar. Também não deixo de pensar no que poderia ter acontecido se eu não tivesse me safado daquele... assalto. Ou coisa pior.
– Num faz pergunta difícil, tá. Tô bem, num tô? Tô aqui com você, num tô?
– Tá, mas... não deixo de pensar que eu poderia te...
– Não, Vini, você já me conheceu assim. Não gosto dessas odisseias, mas é assim que tem que ser. Sabe que gosto de batalhar pelas coisas, nada de ficar dependendo ou tendo ajuda dos outros.
– Assim você é muito radical. Poderia evitar muitos problemas.
Me levanto minimamente para reforçar meu ponto. Ele ainda resiste, apela com jeitinho, me tocando pelo queixo e ansiando leves toques de nossos lábios.
– Haverá dias, Vini, que você não poderá me buscar, haverá dias que não poderá me proteger. Eu tenho que saber por onde ir, me virar.
Ele adota uma seriedade em seu rosto e palavras, ainda me tocando no rosto delicadamente. Apesar de ser uma conversa descontraída, não quer que eu perca a atenção.
– Até esses dias, Lena, eu vou te acompanhar. Já me basta ficar longe de você tanto tempo. Agora vou te ver menos.
Rodeio seu pescoço e aperto-o um pouco aos braços. Era uma realidade da qual não escaparíamos, estávamos voltando à rotina dos estudos e cada vez mais isso nos pediria por atenção. Temia que de alguma forma eu pudesse atrapalhá-lo, afinal, passara um semestre por fora dos estudos, já estava atrasado.
– Iria me ver menos mesmo se você não tivesse em aula. Pelo menos somos do mesmo turno. E não precisa me buscar todas as noites, a sua faculdade fica bem mais próximo de sua casa, não precisa dar esse giro todo.
Ouço sua baixa risada ao pé do meu ouvido, que me arrepia.
Pelo que diz, pelo modo como diz.
– Precisa sim se for pra te ver.
Uma imagem me perpassa na mente, coisa rápida.
Dou um peteleco na ponta de seu nariz, brincalhona.
– Você me vê a manhã toda. Pensa que não sei?
– Como assim?
Peguei de surpresa.
– Sei que tem uma foto nossa na área de trabalho do seu computador no serviço.
Dou de ombros.
Ele nunca havia mencionado. Mesmo.
Esperei por muito tempo e esperei por alguma oportunidade para abordar, justamente porque ele nunca falava. Eu só soube mesmo porque uma vez estive no prédio de seu trabalho, fiquei no carro enquanto ele tratava de uma emergência. Quando fui ao saguão pegar um pouco de água, dois funcionários cochicharam sobre mim. Ouvi tudo que disseram, até quando um deles soltou a informação. De que me reconhecia pela foto que Vinícius havia paginado seu desktop de trabalho.
– Gostaria de saber como você descobre essas coisas.
O universo gosta de se comunicar.
– Acredite, eu também.
– E quanto de coisas que você fica guardando aí dentro, me deixando louco sobre o que tanto pensa.
Cutuca minha testa, brincalhão também. Mas sinto que há alguma verdade maior por trás de suas palavras, uma velha preocupação. Por mais que conversássemos mais, que eu colocasse as coisas para fora, sempre haveria uma fagulha de, não sei bem, certa dúvida? Só sei que cada vez que lhe contava algo, via em seus olhos um descanso, de que ele ficava mais tranquilo por eu partilhar com ele. Não só como prova de que eu confiava nele, mas de que eu dava um pedacinho de meus pensamentos, coisa que eu não faria com outro.
Uma vez ele se disse frustrado por me querer, pois eu me doava a cada pessoa e ele sempre quis mais que os outros. Quis meus sorrisos e meus motivos, quis minhas preocupações e pensamentos, minhas atitudes e cuidados, que já eram dele. E por não saber, ele desejava, tinha ciúmes de outras pessoas, exasperava-se, frustrava-se. Mesmo que todo esse quadro tenha mudado, Vinícius queria estar “atualizado” com tudo o que era ruminado dentro de minha cabeça. Contudo, para expor isso eu precisava de tempo, saber onde estava pisando. Dessa forma, eu tinha quase uma mesma resposta.
– Uma hora, eventualmente, eu te conto.
Era nossa confiança a questão. Desenvolvia suas pilastras, fortificava para não cair sobre qualquer abalo. É difícil falar de algumas coisas, apesar de que algumas têm deslizado para fora agora que tudo tem mudado. Penso que isso é bom, porque, bem, deve ser, não é? Me parece certo.
– E vai me contar o que tanto falava com meu avô ontem? Pensa que num vi vocês cochichando depois do almoço?
– Ô garoto desconfiado. Estava acertando os detalhes do seu jantar de aniversário lá, esqueceu foi? Sabe que para seu avô isso é muito importante.
Vinícius suspira de leve e clica nuns botões de seu aparelho de som do carro. O pen-drive de músicas que dispunha lá era meu alvo, eu tinha que pegar para sua festa e ainda não sabia como exatamente faria sem que ele percebesse. Porque uma festa tem que ter a trilha que convém à pessoa. E teria que me lembrar desse pequeno detalhe no dia que se seguiria.
– Por mim passar o dia com você está de bom tamanho. Fico muito feliz.
– E deixar sua família de fora? Seus amigos? Olha que nem impeço o Murilo de jogar uma caixa de ovo em você por causa dessa resposta. Escolha bem suas palavras.
Ele finge pensar por uns três segundos de um “hummmm”
– Resposta difícil.
Dou um leve tapa em seu ombro, para seu divertimento. Já tínhamos acertado algumas coisas sobre seu aniversário, e ainda assim ele gostava de ficar me contrariando. Algumas coisas não estavam para negociar. A presença de sua família, por exemplo.
– Vini!
– Eu sei, eu sei. Mas não podíamos só fazer como aquela vez que saímos para a praia com a galera?
– Paramos na praia por acaso das ordenadas.
– Posso dar umas ordenadas.
– E você vai, depois do jantar na casa de seu avô. Marquei com o povo de nos encontrarmos no posto lá perto por volta das 21h. Dá pra ceder 2h com seus familiares, não dá?
– Pergunta com jeitinho que respondo melhor.
Até parece que fui bruta. Mas me finjo, com outro leve tapa no mesmo lugar do anterior. Ele faz carinha de dó. Como se funcionasse.
– Vini!
– O quê? Eu disse pra perguntar com jeitinho, não pra exclamar assim.
– Você sabe que essa carinha não me convence. Sou i-mu-ne.
– Tenho outros meios, não se preocupe.
Desculpa, até parece que não conheço esses meios. E conheço bem. E por isso, já vendo que partiria dessa inflexão para a real ação, eu retomo o mais rápido possível o assunto.
– Ok, voltemos à pergunta antes que você invente de usá-los. Você tem me enrolado esses dias. Por que evitar sua família? Vocês têm progredido tanto.
– Não quero evitá-los. Só... sei lá, não acho que seja uma data importante assim. Já passei o Natal com eles. Já tivemos outros jantares.
– É seu aniversário. Eles amam você. Eles acompanharam seu crescimento, de perto e de longe. Pode não gostar disso, mas isso você não pode lhes negar. Pelo menos para umas horinhas de descontração. Eles querem fazer parte de sua vida, coisa que não tinham chance até então. Lembra-se daquela reunião que fez na sua casa, quando saiu do hospital? Ficou péssimo porque quem estava ali não se importava de verdade com você. Não terá a mesma sensação de solidão, você tem com quem contar agora.
– Eu sei. Mas você estava lá. “Linda” no escuro.
Ele tinha então essa mania de dizer que eu era linda no escuro. Porque eram poucas as horas que realmente ficávamos sozinhos e, naquela noite, houve o blackout.
– Até parece que não vou passar a tarde na sua casa. E Djane nem vai estar lá.
– Essa é uma parte da qual eu não reclamo.
– Pois bem, vai indo que amanhã vai levantar cedo e...
Outra mania dele era me cortar as palavras e sair me beijando. Não que eu reclamasse, mas custava esperar um pouquinho eu concluir? Ah, que importasse, tudo aquilo que ele me fazia sentir com um beijo só me fazia esquecer. Imagine se ele começasse com seus “truques de persuasão”.
Dificultoso, como sempre, nos despedimos. E ora quem foi lá na porta?
– Vocês querem amanhecer aí, é?
Murilo, que bateu na janela do carona. Trajava uma camiseta e calça de dormir, abraçava o corpo pelo friozinho que tinha a noite. Fazia isso às vezes quando queria dizer que estava na hora de Vini ir. Interromper digo, não andar pela rua de pijama. Me acompanhou até entrar em casa e se dirigiu, calado, à cozinha, onde buscou um pouco de água na geladeira. Ao atirar minha bolsa na mesa, vi que lá estava meu caderno. Sabia que ele ia perguntar. Estava intrigado.
– Por que seu caderno estava jogado no terraço? Não tinha que levá-lo pra aula?
– Melhor nem querer saber, acredite.
Eu não falei de má intenção, juro. Porém, já tinha virado costume seu se retrair quando eu não falava muito. Até ano passado eu o distraía com qualquer assunto para evitar alguma questão que ele mesmo tinha levantado. Se não fosse algo de que pudesse ficar no meu pé, eu teceria comentários até ambos ficarmos bêbados de sono, só esperando alguém tomar coragem e ir para sua cama. Tinha saudades disso. E é por dessa falta que quase abro a boca para relatar meu dia, do qual possivelmente eu já poderia rir – pelo menos de algumas partes sim. Por pouco mesmo eu não sentei e o convidei para a papagaida do meu dia.
– Arranjou a bomba?
– Fiquei atarefado o dia todo lá no centro meteorológico. Sabe, com o projeto do Armando. Quando consegui sair de lá, estava cansado. Vou ver amanhã de manhã.
– Um amigo meu ofereceu, para todo caso. Pegamos ou não?
– Pegamos, eu acho. Uma preocupação a menos. Você precisa dormir.
– Ainda não terminei minha lista do que fazer hoje.
Iria mandar uma mensagem a Sávio para combinar sobre a bomba de bicicleta e arrumar uma cara-de-pau pra ligar para o amigo de Vinícius, o Anderson, para avisá-lo da surpresa. Além de Wellington e Becca – sim, eu a convidei, nada demais nisso – Anderson era um outro amigo, que até então não tive a oportunidade de conhecer. Agora estavam juntos novamente na faculdade.
Murilo continua a nossa pouca conversação:
– Você realmente tem preparado essa surpresa pra ele... Meu aniversário também está perto...
Por um momento pensei que ele estava falando por falar, assim, divagando só. No entanto, quando levantei a cabeça após encarar a mensagem que já escrevia para Sávio, senti o peso do que Murilo quis dizer. Como se quisesse que eu lhe preparasse algo, mesmo sabendo que nossa relação anda muito, muito limitada.
A verdade é que, desde que chegamos de viagem, ele tem tentado e muito melhorar seu jeito com as coisas. Andava tão sereno que eu era capaz de apontá-lo como um estranho. Como a pergunta que levantou sobre o caderno, muitas outras ficaram no ar pelo mesmo motivo. As respostas que eu tinha não competiam com o nível de “fraternidade” que nos encontrávamos. Algumas vezes avançávamos, outras, retrocedíamos. Estava um vai-e-vem sem previsões.
E por causa disso eu dormia com aquela sensação de engano, pois eu não estava cumprindo bem o acordo que fizemos, de nos restabelecer. Porque, verdade seja dita, eu tinha medo do que poderia vir. Murilo não é lá uma pessoa de bom controle, e não sei se suportaria outra grande crise entre nós. Amava-o demais para me separar dele.
Me segurei, de qualquer forma, para não deixar escapulir a grande razão do nosso abalo novamente, de que eu ainda não havia o perdoado, e nem tinha previsões quanto a isso. Seria dar uma facada direta nele, facada que eu já havia dado, então para quê lembrá-lo? Aqueles olhos pesados eram de cansaço, físico, corporal e mental pelo seu trabalho, mas eu tinha plena certeza, por todos esses dias, que eu tinha lá minha parcela. Mesmo esgotado, ele não desistia.
– Eu sei. Logo estará na marca 3.0. Está crescendo.
– Estou. Ainda bem que você vê.
– Ainda não é o bastante.
– Espero longamente até o dia que seja.
Ele não sabia o quanto eu esperava por tal dia também.
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