Notas iniciais
Muita calma nessa hora! Vamo dar um voto de confiança pro Bruno pelo menos. E pra essa opção de "bebida" no bar. Boas histórias em viagens começam assim, né? "Trágicas". Adorei escrever esse capítulo, principalmente o "jogo", que foi óoootemo! Shippers, preparem os corações. Pode seguir leitura e descobrir do que tô falando :)) Enjoy!

A trilha seguiu sem nós, que preferimos ficar ali no meio do caminho mesmo. Os cachorros estavam fora de vista, porém, para o bem psicológico de Daniela, combinamos com a guia de esperar até que o grupo voltasse, para assim retornarmos todos juntos para o ponto inicial.

Tentei convencer aos outros de seguir passeio à frente, porém, do nosso grupinho mesmo, ninguém mais quis ir. Mas também não reclamaram em nada enquanto nossa amiga se recuperava do surto, só ficaram um pouco afastados enquanto eu e Flávia cuidávamos de nossa companheira de quarto.

Bruno era o inquieto, não queria sair de perto de jeito maneira. Sua preocupação era tamanha que nem ligava para a rejeição que sofria. Tive que insistir muito na verdade, para que ele se afastasse um pouco e Daniela pudesse respirar melhor. Em dado momento ficou apenas eu e Dani mesmo, sentadas à areia, enquanto ela se recuperava mais do susto.

Tampava minha garrafinha de água quando ouvi um gemido dela, um gemido de dor, que se seguiu de um olhar mais clínico dela para o tornozelo direito. Remexe-se um pouco, curvou-se mais sobre o corpo, tocou seu tornozelo, negou com a cabeça em decepção.

– Machucou?

– Acho que torci.

– Consegue andar?

– N-não sei.

Seu choro havia amainado mais. O susto foi apenas isso, que descontrolou seus nervos e logo umas lágrimas escapuliram pelo delicado rosto. Por experiência da situação, me mantive calada. Mas era Daniela, ela não é desse jeito. Quando cai, ela logo levanta e nem parece que foi ao chão. Assim logo estava falando novamente.

– É horrível ter uma fobia.

Me ajeitei no tronco que estava sentada. Umas formigas caminhavam em descida, assim me afastei um pouco. Dani estava numa pedra ao lado, empurrando umas folhagens secas que lutavam em incomodá-la.

– Eu que o diga.

– Trovões, certo?

Por um momento, sabendo que Dani poderia compreender, senti aquela vontade de discorrer a respeito, algo que sempre me mantive calada e odiei quando os outros levantavam o assunto. Talvez pelo fato de ter me deixado me abrir mais para as pessoas nos últimos tempos, assim como a praticar mais o diálogo, as coisas já parecem apenas fluir de mim. Apesar do embaraço que me acomete, sigo em frente e me sinto mais livre de poder dizer isso em bom som.

– Aham. Já cheguei a passar a aula trancada num banheiro da faculdade e Murilo ter que me buscar de tão surtada que fiquei.

– Sabe a origem?

– Minha família acredita que deve ser de uma vez que fui raptada quando criança, numa noite de chuva forte e trovões violentos.

– Que horrível! Mas você não acredita?

– Não... Creio que nem toda pista numa cena leva ao mesmo crime. Quer dizer, não tenho a mínima lembrança disso, não acho que venha a ser um trauma. Só... uma eventual coincidência eu não gostar de trovões. Eu poderia não gostar deles mesmo não tendo esse “passado”. E você?

Mais aliviada, Dani apenas funga enquanto amarra seus cabelos.

– Presenciei um ataque faz uns anos. Um primo meu ficou muito mal. E uma tia distante quase sofreu um aborto ao ver a cena, então acho que juntou tudo e ficou isso preso na minha cabeça. Tive pesadelos terríveis na época. Você não têm pesadelos?

– Não, espantosamente, não.

O que corroborava muito com minha teoria.

– Sorte a sua.

Mais um tempo em silêncio ficamos, o que era estranho, já que Dani não é o tipo de pessoa que permanece assim por muito tempo. Após mais uns goles de água da garrafinha que havia em minha bolsa, sua palidez e tremor finalmente davam tchau. Mas aí, como experiente nesses casos, vi que apenas sobrara a vergonha.

– Não acredito nessas coisas, mas acho que tô tendo um baita inferno astral.

Também não era de crer nisso, só que o azar realmente andava pegando ela de jeito. Era outra experiência de meu currículo.

Porém não deixo isso sair, tento outra abordagem:

– Pra quem sempre dá um jeito de sorrir da desgraça, você até que tem rido pouco. Sorrir para não chorar, lembra?

– Milena, cara... eu tô... morrendo de vergonha! Atrapalhei todo mundo e ainda torci o pé no processo.

Dessa vez ela se jogou sobre os joelhos, abraçando as pernas e se escondeu. Toco-lhe nas costas, faço carinho em seus cabelos.

– Hey... Normal. Até que você conversa muito. Digo, depois da crise. Num consigo encarar ninguém, Murilo e Vini que inventaram um modo de me distr...

Uns passos pela mata seca foram ouvidos, quebrava uns galhos e folhas caídas eram o alerta de que alguém estava por ali. Que logo nos interrompeu. Bruno. Hesitava. Minha amiga, apesar de ter levantado a cabeça, parecia ainda estar fechada em si. Fiquei na minha, só observando os dois.

– Dani?

– O que você tá fazendo aqui?

– Quero saber como está.

– Tô melhor, já pode ir.

– Acontece que não quero ir. Não sem você.

Já ia me botar de pé para sair de fininho, aí Daniela segurou minha mão para permanecer no lugar e foi rude com Bruno. Me senti mal por ele, e me senti mal por Murilo, por todos esses anos eu mal ter olhado nos seus olhos quando só o que queria era cuidar de mim. Ok que ele exagera, mas eu poderia também ter maneirado.

– Não sou qualquer uma, já te disse isso uma vez.

– E você não é, também já te disse. Para de teimosia e aceita minha ajuda.

Quando vejo, ela mesma fica de pé, sozinha, com um esforço que faz. Logo me levanto também, para lhe dar assistência e a discussão continua.

– Dignidade, Bruno, se chama dignidade.

– E não pode deixar um pouco de lado?

– Não.

– Pensei que... fosse minha amiga.

Imaginava quão difícil era para ele dizer “amiga”.

– E pensei que tivesse respeito por mim. Ou pelos meus sentimentos.

Quando pensei em abrir a boca pra intervir, eis que Flávia aparece e faz o trabalho por mim.

– Hey, gente, Gui disse que tem um barzinho aqui perto. Se a guia vai voltar só daqui a pouco, pensei em... Interrompi algo?

Aquela carinha de inocente de Flávia foi o toque final dela, que pareceu dispersar a tensão dali. Ainda que tudo ficasse no ar, era melhor não trocar farpas, principalmente se as mágoas eram recentes. Dani se apóia em mim, começa a andar e, numa expressão impassível, engoliu a vergonha e a dor. Aceitou fácil a proposta de Flá:

– Não. Boa ideia a do Gui. Porque eu tô precisando certamente de uma bebida.

Bruno tentou dar seu ombro para mais um apoio e ela negou, dispensou-o de imediato. Restou-lhe apenas seguir a gente.

– Eu sei andar, muito obrigada.

– Como queira.

~;~

Quando a gente machuca o pé é que sentimos todas as anormalidades do chão. Vinícius havia me dito isso uma vez, sobre quando ele torcera o tornozelo e teve o Wellington forçando-o a manter o pé no chão para evitar prolongação do seu tempo de recuperação. Qualquer pisada era um tormento. Eu via isso claramente por estar apoiando Dani até a entrada do barzinho, e não adiantava o quanto eu ficasse no seu ouvido tentando convencê-la a voltar logo. Ela queria uma bebida e só. Ok.

Entramos às conversas no barzinho desértico, as cadeiras estavam viradas em cima das mesas, o ambiente era um pouco escuro, ao fundo tinha um balcão, de onde reluziam os resquícios de luz do dia numas garrafas, era fim de tarde. Sávio e Gui ajudaram Dani a sentar, a colocar uma cadeira para os pés dela, e ninguém comentava o que não devia. Um bartender surgiu com um pano no ombro para nos atender, ele meio desconfiado. Dani foi a primeira a se manifestar:

– Moço, que doses indica pra hoje?

Talvez eu começasse a acreditar em inferno astral no fim das contas.

– Olha, desculpem-me, mas tivemos problemas com a inspeção de segurança essa semana e não podemos vender bebida alcoólica no momento. Só temos água e...

~;~

Que decadência.

Mas quem sabe não vire uma boa história para se rir depois? O clima estava mais animador, no entanto. Com conversas e brincadeiras, éramos um grupo (e único) nos deixando levar com papos. Era a vez de Bruno de responder:

– Eu nunca... beijei um cara.

Nós, meninas, o vaiamos pela clássica restrição que nos fez virar o copo. Seria cômico se não fosse trágico a gente estar tomando doses de LEITE. Porque era isso ou água. Ao que parecia, o bar tinha um grande estoque de leite para a população que atendia, pois mantinha parceria com um mercadinho próximo dali.

Como o refrigerador do mercado havia enguiçado esses dias, sobrou para o do bar, que dava uma força. As pessoas poderiam ir ao bar para comprar leite. Íamos pedir água, porém, para a brincadeira que Dani sugeriu, não tinha o bastante, informou-nos o carinha que nos atendia.

O bartender até se sentou conosco, se enturmou rápido para um jogo de “eu nunca”. Não estava nem aí se ficava em desvantagem por não conhecer nenhum de nós. A mesa era quadrada e para cada lado ficou uma dupla praticamente, eu e Bruno, Sávio e o atendente, Dani e seus pés noutra cadeira e Flávia com Gui, fechando o círculo.

Sem demora, o bartender chutou qualquer coisa.

– Eu nunca... falei num microfone.

A maioria de nós tomou mais uma dose. Na verdade, só o cara e Sávio que não, de olho na gente e rindo. Sávio deu continuidade, se aproveitando de histórias que já havíamos contado por quase todo o semestre:

– Eu nunca... fui monitor na faculdade.

Mais um gole se foi, meu, de Bruno e Dani. Quem vê, jura que ela nem tinha se estatelado um tempo atrás ou que tivera uma crise nervosa... Ela demora a pensar numa resposta, mas quando sai algo, é fatal. Pra mim. Todos os meus amigos se viraram pra mim. Como se nunca tivessem dado porrada em alguém. Pelo menos bebem junto.

– Eu nunca... dei nas fuças de alguém.

Curioso pelo fato de todos terem envergado na minha direção, o bartender comenta com graça. Ele era até bonitinho, mas tinha uma cara de safado. E Gui ainda entra na dele, pra me sacanear mais.

– Eita que temos uma valente aqui.

– Ainda não viu nada, amigo.

Eu num ia mentir, né? Ri, dei de ombros. Aí Flávia resolve me acabar e garantir mais cálcio no meu organismo. A descarada concorda, ri, e sabe que não posso deixar de tomar mais um gole.

– Ainda não viu mesmo. Sabe por quê? Eu nuunca... acertei as partes de um cara!

Tomei minha dose e fui me explicar. Porque né!

– Não foi culpa minha!

Gui acrescenta mais leite no meu copo, pois jazia quase mais nada e termina de me acabar. Eles estão mancomunados, é isso.

– Nunca é, né?

– Você tava lá, nem vem. É que a gente tava jogando frescobol um dia na praia, ai eu fiquei de cara pro sol, não via nada, mandei a bola pra um lado que não vi... E acertei um cara. Eu pedi desculpas!

Geral riu e gargalhou mais ainda quando Bruno resmungou “que nunca jogaria comigo”, seguido de Sávio que sussurrou um “bruta” pra mim. Mas Gui hoje estava sem misericórdia nenhuma:

– E tu é outro que ainda não viu nada... Eu nunca... quebrei...

Eita.

Um vaso...

Mais que desgraçado!

Na cabeça de uma pessoa.

Foi humilhante virar uma dose sozinha. E mais ainda aguentar o coro de todo mundo me ralhando ao me chamar pelo nome. Até o carinha! Sávio parecia inconsolável, mas de risos. Ele tava até vermelho.

– Milena... por que, cara?

– Eu pensei que era um ladrão, qual é!

E Gui não parou por ali. O que ele tinha hoje?

– Conta isso direito, Lena.

– Mas foi.

– Tá, isso foi verdade. Agora conta pro pessoal em quem você quebrou o vaso.

A mesa ficou em silêncio ante a expectativa. Olhei para o copo mordendo os lábios de confessar meu crime. Só que Dani não aguentou o suspense:

– Pelo amor de Deus, me diz que não foi no Murilo!

Expliquei ao carinha que Murilo era meu irmão. E que não tinha sido nele, apesar de parte da culpa ter sido dele. Era melhor frisar, né? Flávia entrou no jogo, botou mais pilha. Suspirei.

– Ok, foi no vsghifshj...

Um coro de “quê” seguiu-se e não tive alternativa, senão confessar logo. Abaixei a cabeça na mesa, meu resmungo saiu abafado.

– Foi no... Vinícius.

Você sabe que o negócio foi tenso por razões de muito silêncio. Ergui minha cabeça de volta e encontrei os outros de modo estátua. Bom, menos por Gui e Flávia, que sabiam do ocorrido. Para o bem deles, eu já tinha superado a culpa disso e Vinícius de vez em quando faz piada sobre o assunto. Mas ser encarada assim, eu não tinha onde enfiar a cabela. Me escondi no ombro do ex-amigo, Gui, que me acolheu enquanto eles discutiam sobre o caso. Se o leite libertou todo mundo assim, o que seria uma bebida?

E quando o bartender descobriu que Vinicius é meu namorado?

– Garota, tu é o perigo.

Tá, essa eu tive que rir.

Bruno bateu seu ombro no meu, ainda desacreditado.

– Até ser seu amigo tá nos deixando no risco. O que você não deve ter feito ao Gui esses anos?

– Nada mais que carinho, eu juro.

O que tinha naquele leite pra causar tanta sem-vergonhice em Aguinaldo, eu queria saber. Ainda era zanga por aquela história do tê-lo maquiado enquanto dormia no auditório? E por ter deixado que andasse todo o campus daquele jeito até o refeitório universitário?

– Se eu não tivesse meus cuidados, essa aqui já tinha me passado a faca.

– Mentira!

– Vai dizer que ano passado não me ameaçou com uma?

– Porque você... Tá, essa eu não posso contar. É muito confidencial...

O bartender até afastou um pouco sua cadeira de mim.

– Nem precisa dizer, garota. Eu acredito.


~;~

Acabei que soltei umas histórias bem interessantes sobre Aguinaldo. Que ele já caiu em um buraco fundo num dia de chuva forte e parecia um pinto molhado (tenho essa foto LINDA), que ele já sambou de cueca em classe (ok, foi uma aposta e ninguém mais que eu e Flávia vimos isso), interpretou papéis femininos em peças de escola (com direito a voz de menininha), se aprontou pra aula num dia sem aula (era feriado nacional), e já dançou (ele sabia a coreografia!) uma música do N’sync em cima do capô do seu carro (imitando o clipe Girlfriend, enquanto cantava às alturas por efeito de álcool). Infelizmente para essa última não pude contar muitos detalhes... Ou sim, ele me mataria na calada da noite com um travesseiro.

As atenções ficavam alternando muito também, a conversa ia fluindo devagar. Quando ouvimos o grupo do passeio voltar, pagamos o que consumimos e foi uma luta para levantar Dani, que então reclamava do tornozelo dolorido. Não adiantava o famoso “eu te disse”, e nem o gelo ou a massagem que Sávio dessa vez fez pareceram ter dado jeito (adivinha quem tava com ciúme desse cuidado). Ela praticamente nem o deixou mexer no pé dela, de qualquer forma.

Tava um pouco inchado mesmo. A guia do grupo deu uma olhada, nos disse para ir ao posto de atendimento e logo, nem pensar em botar aquele pé no chão. Daniela quase chorou só de cogitar colocar gesso. E a briga pra quem ia carregá-la? Dela e Bruno, quer dizer, pois nenhum dos meninos iria se meter de levá-la ao colo depois de todo aquele clima dos dois e da cara nada bonita de Bruno.

Ela só aceitou na marra mesmo, porque o grupo estava impaciente para voltar e já era noite. Para ficar mais cômodo, ela foi nas costas dele como eu tinha feito no outro dia, pois aí o peso estaria mais distribuído pelo corpo, não se centrando apenas nos braços se fosse do modo clássico de casados. A caminhada não era muita mesmo já que não voltamos pelo caminho das pedras, fomos direto.

Mas foi só chegar na praia que ela inventou de beber. Que ninguém deixou, claro, afinal, teria que tomar uns remédios para dor e não poderia fazer misturas, o médico do posto a que fomos nos avisou. De volta à areia, já estávamos cansados do dia, e os ônibus que nos buscariam calharam de atrasar. Uma hora e meia!

E o que povo fez nesse meio tempo? Sim, bebeu.

E não falo de meus amigos, mas da galera toda do evento que havia ido para a praia. Até parece que não tinha gente ali que ainda ia fazer apresentações no evento no dia seguinte. Poucas pessoas estavam sóbrias, talvez poucos além de mim e meus amigos. Quer dizer, Sávio entrou nessa.

Quando chegamos à mesa da galera, ele foi puxado por André para um grupinho lá e quando vi, tomavam doses, uma atrás da outra, de garrafas que vi dispostas ao bel-prazer dos caras. Não gostava quando se transformava nesse outro ao lado de Hermani e companhia. Mesmo tímido, Sávio se tornava parte deles. De um modo que nunca soube bem me explicar. Vez e outra dava desculpas, que não era aquilo que aparentava... enfim. Mal comentava sobre o assunto.

Era escolha dele afinal, em nada eu iria ou deveria me meter. Desde o começo do semestre viu quem era e como funcionava as coisas com André. Mesmo que tenha me defendido, me ajudado algumas vezes, era apenas isso. Então eu ficava distante dele, pois significava ficar longe de André.

Ainda bem que ninguém dali iria dirigir, para meu alívio pessoal. Quando os ônibus chegaram, aos poucos fomos nos redistribuindo conforme fomos encontrando nossos antigos lugares. Nem preciso dizer que até esse tempo a maioria estava em péssimas condições. Foi fácil alguns se arriarem de tão bêbados que estavam, principalmente os companheiros de André. Só não saberia se Sávio estava do mesmo modo, ele se mantinha quieto enquanto subia no micro-ônibus.

Flávia ficou com Gui na mesma poltrona da ida, mas Daniela teve que se acomodar na primeira, por ter mais espaço para seu pé enfaixado, Yuri a acompanhava. Bruno teve que engolir, como tem feito desde que voltamos da trilha e se separou dela. Ele tem a encarado tanto que até eu me sinto mal, pelos dois. Mal pisca, ficou calado desde que saímos do posto de atendimento. Houve um momento quando chegamos lá que por uns minutos deixamos os dois sozinhos na enfermaria, e não se sabe o que rolou, o que tanto ele remói.

O ônibus estava um pouco escuro quando pegou estrada, o motorista havia desligado tudo por causa do turno e uma parte dos passageiros dormia. E roncava. Alto. Era algum dos caras que andava com André, lá no fundo, que parecia um porco grunhindo. Pelo menos não era da minha turma de Administração, porque ele era um projeto de Hermani e tendo um na minha sala me parecia o bastante pra uma vida inteira.

Como se não bastasse esse porco, ainda havia um odor de bebida que impregnava o ambiente, misturando-se ao “bom ar” que o motorista espichou com o spray. Tava um negócio estranho. Eu não conseguia dormir daquele jeito, mesmo cansada como me sentia, então só permaneci na minha, enquanto Bruno ficava na sua, de olho no caminho escuro pela fresta da cortina que havia ao seu lado. Estávamos nas mesmas poltronas.

Ele não parecia muito no ânimo de conversar, contudo, dado um tempinho quando eu revia umas mensagens que Vinícius havia me mandado e as saudades dos homens da minha vida batiam, Bruno virou pra mim e naquele escuro iluminado pela luz do meu celular, vi que ele queria “vomitar” algo. Com um resquício de sinal de telefonia, mal respondi a uma mensagem de minha mãe perguntando se eu me alimentava direito – e que disse a ela que nunca haveria tanto cálcio no meu organismo. Não demorou a vir:

– Ela disse que... não gosta de gostar de mim.

– Bruno...

– Ela não entende que eu gosto dela... E que gosto de gostar dela.

– Dê um tempo, sim? Dani deve ter suas razões.

– Mas não quero me sair dela, posso perder meu lugar. Yuri já a me roubou o bastante, eu...

– Aquele coração é seu, Bruno, acredite. Ele só precisa respirar um pouco, ok?

Inquieto, ele assentiu. Revirou-se na poltrona, dormiu em poucos instantes. Desejei ser possível me acontecer o mesmo, mas logo senti a bexiga cheia e dali pra frente tava na cara que não iria dormir com essa vontade. E nem louca que iria no banheiro do ônibus. Primeiro pelo sacolejo, segundo pela higiene, terceiro por ser a área dos idiotas, o fundão.

Me surpreendi que dado um tempo o ônibus parou. Pelas frestas da janela vi que era um posto de beira de estrada.. Apertada como estava, dei um pulo e saí, o motorista estava falando com um frentista. Logo mais pessoas, outros turistas, me acompanharam na descida. Dentre eles, da faculdade mesmo, só havia Sávio. Parecia meio lerdo.

Então corri para o banheiro como a desesperada que estava por todo o líquido que guardava. Nem me toquei se as pessoas do mesmo ônibus meu usavam o banheiro, pois outros ônibus estavam estacionados e não dava pra distinguir bem. Só sei que quando voltei para onde meu ônibus estava... bom, ele não estava mais.

E eu não havia ficado sozinha.

Notas finais
WHAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAT? Alguém chuta com quem ela ficou... para trás? Curiosidade: a parte do frescobol quaaaaaaase foi verdade. Já aconteceu comigo de acertar o cara que vendia coco do lado, mas eu só acertava o carrinho de venda e... ok, eu quase acertei a cabeça dele rs Não fiquem contra o vento num jogo de frescobol, é o que eu recomendo XDD