Mantendo O Equilíbrio - Um Novo Amanhã (T4 + T5)
51 Capítulo 21
Notas iniciais
Só conseguimos pegar o café-da-manhã (ou o que restou dele) porque a camareira se derreteu toda pela forma suplicante e gentil com que Sávio implorou para que ela abrisse uma exceção naquela manhã. Era 11h batido quando nos apresentamos em maioria na área do restaurante do hotel. Agradecemos por Sávio ter nos salvado, já que ninguém tava a fim de sair para procurar comida. Eu ainda insistia em cancelar a viagem à cidade praieira, mas os outros, além do meu grupo, permaneciam nessa ideia. Com o tempo, só passei a dar de ombros e ver no que aquilo ia dar.
Devagar, mais de nossos colegas foram descendo e se juntando em suas ressacas. Poucos de nós realmente estavam dispostos, alguns não tinham virado a noite como outros. Era essa a razão que eu me convencia para os papos sem pé nem cabeça que eu ouvia aos paralelos. Como essa de Sávio e Daniela, que, infelizmente, não peguei o começo.
– Entre 8 e 80 prefiro 44.
– Sorry, não entendi.
– Quer dizer que não quero nenhuma das opções. Mas tenho esperança de que parte do 8 e parte do 80 resolvam se unir de outra maneira.
Só sei que era fácil perceber que Bruno não desgrudava os olhos dela, e por isso até sua faca com manteiga foi parar no chão. Distante, era como se ele quisesse ouvir cada coisa que ela proferisse e não estava mais nem aí sobre as circunstâncias que nos encontrávamos. Alguns de nós permanecíamos bem alheios e outros mais nem sentiam a atmosfera. Parecia um paralelo muito estranho.
Acho que havia entendido o que Dani quis dizer, ainda que não fosse algo de muita credibilidade. Não saberia dizer se era apenas mágoa ou machucado e esperava puder conversar com ela durante a estrada até a praia. Mas como Bruno ficava muito perto de mim, só via o quanto mais ela preferia se distanciar... e logo estava rodeada de outros colegas, dentre eles Sávio e Yuri. Fiquei apenas a pensar se deveria intervir.
~;~
Apesar de o nosso almoço ter sido praticamente unido ao café-da-manhã, para essa hora as pessoas já estavam mais despertas e animadas. Papos e papos sobre a bagunça que foi a festa, quem tinha pegado quem, quem devia quem, gastos, diversão, músicas, ficantes alternativos, bebidas, a animação foi voltando ao semblante de cada um.
Já na estação próxima à praça, point dos micro-ônibus, cada grupo foi chegando devagar e durante a espera de formar os “comboios” para se distribuir aos veículos disponíveis, foi que consegui falar com Vinícius:
– Desculpa, amor, mas é que Anderson comprou um aparelho celular igual ao meu e sem querer trocamos. Quando fomos perceber já não dava mais para trocar e o sistema ainda ficou fora de área por um tempo. Ia pegar o celular do seu irmão, mas sabe como ele tá agora com Aline e...
– Sei.
– Ah então você sabe, né, bonitinha? Porque ele tá ficando meio maluco com isso já, se é que ele consegue ficar pior. O que é esse mistério todo de vocês?
Essa eu realmente me seguro para guardar, como Aline me pediu. Murilo não perde por esperar! Por fim, aquela cara dele de culpado e de quem se arrasta por um perdão funcionou com ela – na verdade, foi mais a conversa dela com mamãe – para o bem da nação. Contudo, me foi solicitado muito sigilo.
– Nada que ele não possa esperar mais um pouco. Ele tá merecendo depois do suposto trato que fez com o Gui. E ai de ti, Vinícius Garra, se concordar com essa!
– Eu não disse nada. Mas, bom, pelo jeito parece que o universo não queria nos juntar ontem.
– Vini, não fala assim do universo. Sabe que...
– Que ele se move estranhamente. Sei. Recuperei o aparelho faz um pouco tempo, te liguei e nada. Aconteceu alguma coisa?
– Ele havia descarregado, aí coloquei na tomada e esqueci de ligar. Também né, se você visse como o negócio tá complicado por aqui.
– O que quer dizer? Vocês têm folga hoje, não tem? Murilo comentou comigo.
– Sim, temos, na verdade estamos a caminho de um passeio. Vamos visitar a cidade ao lado, que tem praia. Voltaremos à noitinha. Mas o caso de que falo é... bom, Dani e Bruno. Tá um caso sério esses dois. Tenho certo receio do que pode acontecer... que possam cometer alguma besteira.
– Tão ruim assim? Não sei como ele se aguenta, sinceramente. E não sei como ajudá-lo se ele mesmo não se ajuda. Melhor não se meter, Mi.
Olho de longe meu grupo de amigos conversando alto, sentados nas cadeiras de espera enquanto se acertavam com o coordenador da viagem. Havia muitos turistas requisitando o passeio de última hora, e dentre eles, nós éramos uma parte grande. Pego a sacola de besteiras que comprei com o moço que me atendeu na loja de conveniência perto e permaneço no canto em que estou para preservar a boa ligação.
– Eu sei, mas... são meus amigos. Esse pé de guerra deles uma hora ainda vai me exigir de escolher um lado e eu não vou ter como fazer uma coisa dessas. De qualquer forma, conte-me, cadê mamãe?
– Saiu com a minha. Murilo tá se recuperando bem e...
Vinícius se interrompe ao passo que ouço claramente um ovacionar de torcida. Jogo de futebol. A essa hora? Não era nem 14h ainda. Estranhei.
– Tá passando jogo a essa hora?
– Ah, não.
Gargalhadas e urros de vitória se seguiram. Murilo com certeza no meio.
– Anderson tá aqui, tamo jogando videogame. Teu irmão tá ganhando. Diz um oi, vou colocar no viva-voz.
Apesar de todos os apesares que sinto na caixa torácica toda vez que Anderson está no meio deles, ultimamente tenho procurado me acalmar e seguir sem me abalar. Sendo ele tão amigo, além de companheiro da faculdade, de Vinícius, tive que me soltar mais das minhas amarras do passado. Assim hoje é mais fácil para conversar e até fazer brincadeira.
– Anderson, seu molenga, tá se deixando vencer por essa coisa a quem chamo de irmão? Tua moral tá em baixa, tô só dizendo.
Uma mistura de vozes se deu entre Anderson e Murilo e mal deu para entender que um acusava ao outro de roubar e pude ouvir a risada gostosa de Vinícius acompanhando de perto. Não sei bem o que rolava ali, mas parece que havia aposta no meio e dinheiro rolando. Só pensei “deixa mamãe saber disso”.
Daí se sucedeu uma pausa no jogo, o volume da tv foi baixado, e Vini puxou um papo que fez enfim meu coração bater forte como há muito não batia quando Anderson era um envolvido. Me faltou até saliva para engolir.
– Ah, amor, agora que o Murilo foi saber que você e o Anderson se conheciam de tempos. Precisava ver a cara dele quando mencionei que aquela sua prima, ele quase não acreditou.
Precisava ver era a MINHA cara!
Não, na verdade não precisava. Quase desliguei a ligação no pulso que me pegou. Melhor dizendo, no efeito estátua que fiquei.
– Milena? Alô? Alô? Lena, você tá aí?
– Errr... sim. É que... motorista... micro-ônibus... sair... comprar...
Me deu um surto de falar coisas entrecortadas como se a ligação “de repente” começasse a falhar. Eu tava em choque ainda, caramba!
– Lena? Acho que vai cair.
– Provav... e... sacola... carregar...
– Vou deixar você ir. Me deseja sorte, vou derrubar teu irmão. Tchau, amo você.
– Amo...
Fiquei olhando o celular na minha mão por uns minutos sem ter o que pensar. Ou por onde começar a pensar.
~;~
Enfim entramos no micro-ônibus. Desde a ligação me mantive num modo fujona para que ninguém visse meu estado até que eu estivesse respirando melhor. Ter conhecimento disso me deu um baita susto. Ainda que não necessariamente significasse algo de verdade que pudesse me prejudicar, foram uns minutos bem tensos para mim. Por isso me mantive distante, só pegando um lugar depois de muita enrolação. Nosso comboio era o último do horário, estava parcialmente cheio, sendo a maioria algumas pessoas da minha faculdade.
Sávio, Dani, Yuri, William, Marcinha e uns outros estavam ao fundão, enquanto Flávia e Gui se preservaram ao meio, do lado da sombra, e um distante Bruno se encontrava na poltrona a frente deles. De braços cruzados, permanecia virado para a janela com o pensamento longe. Eu poderia me deslocar para o fundo, no entanto, preferi ficar ao seu lado. Por mais que o lugar vago ao seu lado estivesse mais para um aviso de “não quero companhia”, optei acreditar que era um convite para mim. Ele acabou nem se importando.
Joguei parte das guloseimas a Gui e me soquei na poltrona como se estivesse muito cansada. E me sentia assim só de ter essa história de Anderson-Denise-Eric me rondando novamente. Por dias, meses, anos, eu esqueci. Me esforçaria a esquecer novamente e aproveitar o que tinha a minha frente.
Porém as coisas nunca funcionam como realmente queremos. Se já não bastasse todo esse tremor na minha espinha pela mínima menção à Denise, eis que nosso micro-ônibus começa a demorar a sair. Estava crente que tinha sido a última a subir, vi quando o motorista se preparava para assumir o volante logo que entrei. Quando ia levantar para averiguar qual era da demora, eis que o motivo nos é apresentado. A contra gosto, claro.
André Hermani entra com sua trupe ao encalço. Bufos foram ouvidos por todo o espaço e sei que Gui era um deles. Também bufei desgostosa. De todos os ônibus, de todos os passeios, de todas as cidades, aquele idiota veio se enfiar junto com a gente. Dou uma boa respirada funda quando ele passa por mim no corredor e me toca os cabelos, jogando um beijo generalizado às moças do recinto.
– Hermani chegou garotas!
Logo um tumulto se deu ao fundo com várias pessoas se dispersando. Era a podridão de André que os afastava. De rabo de olho dei uma checada lá e vi que dentre a galera que se locomovia para outros lugares estava Daniela. Mas a decepção mesmo não foi só a presença desse ser desprezível, foi o fato de Sávio ter se mantido ao seu lugar, agora ao lado de André. Eu provavelmente nunca entenderia por que ele se juntava com pessoas desse naipe.
Por um momento nossos olhares se cruzaram e ele bem sabia o que eu tinha em mente. Foi o primeiro a quebrar o encontro, baixando a cabeça e pegando algo na sua mochila, enquanto André fazia seu blá blá blá com os outros que foram pegando lugar por ali. Balanço em negação a cabeça conforme me volto para minha acomodação. Dessa vez Bruno não está mais tão longe em introspecção.
– Não sei como você aguenta trabalhar com ele.
Ele se acomoda mais na poltrona reclinável como se fosse dormir, só que virado para meu lado. Faço o mesmo depois de ajeitar minha bolsa em cima da mochila dele aos nossos pés. Porque o compartimento de cima já estava lotado. O micro-ônibus enfim dá partida. No celular checo as horas, 14h45.
– Aguento porque tenho de aguentar. E você?
– Agradeço por ele não ser da minha turma.
– Não, quero dizer sobre noite passada. Tem algo... te incomodando.
Um suspiro fundo meu amigo dá e, apesar de preferir mexer no pano que cobre parcialmente a poltrona, se mantém atento a nossa conversa em tom baixo.
– Sempre tem.
– Então?
– Não quero discutir sobre isso. As coisas... as coisas ainda estão embaralhadas.
– Você não se lembra do que aconteceu?
Levanta um pouco a cabeça, está sério. Não deixo de pensar “eita porra”.
– O problema é que lembro, de tudo mesmo. E não gosto do que me lembro. Não fui exatamente gentil.
Remexo a boca só de imaginar o que possa ter acontecido. As palavras de Vinícius me dizendo para não me meter perpassam na cabeça dando de encontro com minha vontade de intervir. Termino apenas por comentar.
– Acho que não é a toa que ela esteja magoada então.
– É, acontece que ela me magoou também. Mas não falemos disso.
Assim o assunto morre, ficamos um tempo sem papear, acabo provocando Gui atrás da minha poltrona (porque ele ficava jogando bolinha de papel do panfleto que havia recebido antes de entrar). Flávia o coloca na linha mais uma vez, fazendo-o parar, ela queria tirar um cochilo e não deixávamos. Então me acomodo mais para tentar o mesmo. Fora umas conversas mais quietas no ônibus, não havia outra zoada senão o somzinho do motorista, que tocava algum tipo de música local de brega em volume baixo. Ainda bem que era baixo.
Quando começava a ficar sonolenta, ouvi de meu amigo ao lado:
– Você tinha razão. Acho que sempre teve.
– Em relação a quê?
– Eu... gosto dela. De verdade. E por mais que eu resista, só piora. Acho que posso sentir que tem escrito ROMA na minha testa, como uma vez você me apontou.
Rio minimamente de lembrar daquela noite, mas não chego a complementar. Bruno faz isso no meu lugar.
– Agora estou a perdendo por egoísmo meu. Sou um canalha mesmo.
– Talvez seja. Ou foi. Pelo menos reconhece.
– É, me tranquiliza a aceitar mais o que sinto, porém, a me odiar por tudo o que se passou. Eu... e-eu nunca esqueci aquele beijo, nosso primeiro beijo, a forma com que ela se entregou... Dani provavelmente mencionou o que houve no ano novo.
– Yeah.
– Acha que ainda tenho chances?
– Se realmente queres se redimir... e gosta dela. Vale a pena tentar.
– Eu quero. Preciso, antes mesmo de essa viagem terminar. Não quero voltar àquela rotina se significa me distanciar... porque ela simplesmente não sai da minha cabeça. E não quero se envolva com ninguém mais... Não tô dizendo isso para que você me ajude, só... queria poder confessar isso a alguém.
Toco-o ternamente no rosto, que sorri um sorriso triste.
– Posso talvez fazer algo indiretamente... Como sempre fiz.
Dessa vez o sorriso triste dele se abre mais por reconhecer minha “travessura”.
– Eu sabia que você tinha engenhocas, sabia! Não que eu esteja reclamando agora... Obrigado.
– De nada.
~;~
Apesar do atraso de início de estrada e de uma parada no meio do caminho, chegamos pouco mais das 15h na cidade adjacente. O dia estava quente, porém muito convidativo. O micro-ônibus nos deixou já no ponto da praia, onde ao longe reconhecíamos alguns de nossos colegas de faculdade aproveitando. Havia jogos de vôlei, futebol, pessoas torrando no sol, tomando banho, conversando, descansando, lanchando...
Num bar ali perto fui com as meninas para trocar de roupa. Lá estava um grupo de turistas com uma guia que traçava trilhas de passeio por pedrarias e áreas mais arenosas daquela praia. Meu lado explorador foi aflorado e de algumas das meninas também. Combinei com Flávia, Dani, Marcinha, Mariana e Ananda. Mariana era da sala de Bruno e Ananda de um período acima do meu. Algumas das pesquisas acadêmicas dela eram semelhantes às de Flávia, então de tempos em tempos acompanhávamos os trabalhos uma das outras.
Às 16h15 o grupo explorador sairia. Assim fomos comunicar aos garotos quais eram nossos planos e quem queria se unir para a trilha. Avistamos eles já espalhados pela areia, em barraquinhas disponibilizadas pelo bar. Vestidas de biquíni, chinelas, shorts ou saias ou saídas e batas de praia (meu caso), fomos caminhando até eles, pois havia certa distância. E eis que antes de chegar à mesa, assistimos ao espetác... errrr... ao Sávio se despindo perto da barraca. A parada nossa dos passos foi instantânea.
– Pai a-ma-do!
Dani que ia à minha frente, exclamou. Ananda parou junto dela e...
– Santo pai esse!
Não se tratava apenas dele revelando seus... dotes... mas como fazia isso. Seu modo distraído de levantar, absorto em qualquer coisa a ponto de nem prestar atenção que meia praia estaria “ovulando” pelos seus movimentos mais simples, como de tirar a camisa. E olha que foi só a camisa!
Ele começou com um leve espreguiçar ao levantar os braços, unir as mãos ao alto e fazer um esforço para estralar o corpo, então logo que os braços foram à baixo, as mãos dele foram direto para a barra da camisa branca, puxando-a devagar, como se ele tivesse a maior paciência do mundo para fazer isso. O que possivelmente tinha.
Detalhe que ele estava de costas para nós. Na barraca estava apenas ele, com as coisas dos meninos jogados pelas mesas e cadeiras.
Logo percebemos que muitas mulheres – e até uns caras – tinham os olhos vidrados no que era o corpo de Sávio. Ele, que estava sendo esquadrinhado de cima a baixo sem notar, se virou um instante para jogar a camisa em cima de sua mochila e vimos. Vimos o “tamanho peitoral” que Daniela de vez em quando se referia, era malhado sem exageros. Não fui a única a ficar sem ar e a sentir o sol queimando.
As exclamações começaram a vir de todo lado, entre sussurros e sorrisinhos. Ouvi até assobios bem indiscretos, porém, ele mesmo, estava muito introspectivo para entender que era ele a causa de toda aquela comoção. Então meu amigo se sentou, normalzinho à sombra da barraca, vendo a bela paisagem da praia à sua frente e... por que mesmo meu coração estava batendo forte desse jeito?
O que está acontecendo comigo? Esta boba não sou eu. Não tenho feelings por ninguém mais além de Vinícius, ele eu sei que é uma certeza, uma constante. Então porque dúvidas me enchem até o topo enquanto tenho certos momentos, certos pensamentos indevidos, quando Sávio está em cena? Visualizar parte de seu corpo nu me faz lembrar das vezes que estive próxima demais, que senti essa mesma musculatura naquela moto.Já tive medo de cair para trás de tão preocupada que fiquei por algumas vezes ter o abraçado daquele jeito.
Talvez todo o jeito tímido de ser dele tenha sido transportado para mim em convivência com ele, o que não é de agora mesmo. Uma vez, sem querer, ao levantar o apelido que a mãe de Eric me chamava, eu abaixei a cabeça em acanhamento e receio, coisa que não sentia quando alguém mencionava. “Leninha” saiu da boca de meu amigo como um flerte bobo, que me deixou tapada. Sim, flertávamos de vez em quando, brincadeira apenas. Gostava de deixá-lo sem graça, todo vacilante.
Por que tá acontecendo isso comigo, logo agora?
Talvez o dia esteja quente demais, só isso. Certo?
Quer dizer, não há ânsia de algo mais, só questões por trás de questões, dúvidas sobre um sentimento indefinido. Quem sabe brincamos tanto com essa coisa de flerte não intencional que uma hora a coisa virou séria. Porque é só isso, certo? Ambos gostamos de outras pessoas – apesar de não conhecer a garota por quem ele está interessado.
Isso tudo é só uma confusão idiota. Claro, claro. É daqueles sentimentos esquisitos que pegam a gente de surpresa mesmo, assim, sem um porquê definido. É como um gostinho de mistério que nos alcança. Sim, deve ser isso mesmo. Porque eu não amo o Sávio, eu não sinto o que sinto quando vejo o Vinícius, ou quando penso nele. É totalmente diferente. Pensar nesse amigo não chega nem a ser similar, é como pensar em qualquer outra pessoa no mundo.
Não o desmereço, entretanto. Sávio é uma ótima pessoa, não posso negar uma coisa dessas. Acho que ele tem certo atrativo sim, e é um conjunto de coisas, estas que andam fazendo bagunça nos meus sentimentos. Sávio até mesmo tem quase a idade de meu irmão, tenho admiração por ele. Não é mesmo todo dia que damos de encontro com um cara assim, como ele. Assim como não é a toa que toda e qualquer pessoa com um útero não comprometido olha a cada vez que por ele passa ou se joga de alguma forma. Porque ele é um cara que vale muito a pena, sabe.
Não pra mim, claro. Admito que existe um campo estranho entre a gente. Algo que atrai. Não necessariamente de forma ruim, só estranho mesmo. Porém, só posso admitir para mim mesma, que já tranquiliza, pois outra pessoa não poderia entender tão bem quanto eu poderia explicar.
E outras pessoas já viram isso, perceberam que há... essa coisa, da qual sempre desconverso. Essa minha explicação pra mim basta. Vinícius, por exemplo, não aguentaria. Ele tem um ciúme monstro, que só agora, infelizmente, pude ver melhor, não era apenas implicância. Ele vê algo que passou imperceptível por mim; não mais agora.
Preciso urgentemente me sair disso, como Flávia havia me avisado e até Gui na noite passada me deu um singelo toque. Só não posso dar na cara, pois aí mesmo que ficaria suspeito. A minha conscientização é o mais importante no momento.
Tanto que nem notei que Flá me cutucou de lado para voltar a andar. Ela também tinha o observado com certa cobiça, desejo (desejo?), que seja, eu notei. Mas será que me notaram? Sinceramente esperava que não.
E sinceramente estava até agradecida por algumas mulheres terem se aproximado dele para puxar um papo, pois assim, se alguém viu mesmo essa minha reação, que logo fosse esquecida em favor de outros comentários. Ao chegarmos na barraca, só sentei e fiquei na minha, mandei uma mensagem para os dois homens de minha vida afirmando que tudo estava ok, que a praia era linda e provavelmente dali ainda iríamos pegar a trilha. Enquanto as meninas foram puxando outras conversas – Dani principalmente, a espivitada de sempre, fiquei mais reclusa até os outros garotos chegarem e então contarmos sobre a trilha.
~;~
Foi tudo muito rápido.
Num momento estávamos sobre as pedras, era um pouco deserto para aquelas bandas, noutro, estávamos de volta à trilha e estranhamente ouvimos latidos. Eu que estava mais atrás com Marcinha, Bruno e uma garota que entrou na nossa rodinha de conversa, paramos nos perguntando o que era aquilo, se tinham ouvido o que o outro tinha escutado, porque pareceram tão longe. Observando ao nosso redor não víamos nada. Até aí tudo bem, continuamos a trilha... só que lá na frente despontou a origem dos latidos, perto dos montes mais altos de areia.
Era uma mulher passeando com vários cachorros de uma vez. Cinco se pude contar bem. No instante que vi, só pensei numa pessoa, assim como Bruno provavelmente lembrava bem.
Vi quando Daniela retesou num ponto da trilha de areia, vi quando o nervosismo bateu instantaneamente assim que a mulher soltou algumas das coleiras dos animais para brincar com eles, como naquele filme Doce Novembro. Mas para Dani era Nada Doce Junho, pois até seus amigos com quem conversava, deixaram-na, já que não notaram que ela havia paralisado enquanto eles continuaram andando. Só quem estava ao fundo observou isso.
Quando alguns dois cachorros correram mais para perto do grupo que deu problema. Apesar de amigáveis e brincalhões, para Daniela, eles não eram nada daquilo. E nisso ela correu. Simplesmente assim. Ela esbarrou em outras pessoas que acompanhavam o passeio, saiu cortando a trilha e pegou um caminho leste. Mal deu seu primeiro passo de carreira, eu e Bruno demos o nosso, causando certo espanto entre as pessoas para estar no encalço de Dani.
Havia certa mata seca que circundava a trilha, para lá que a seguimos. Do burburinho que deu percebi que nossos amigos estavam logo atrás de nós, também preocupados com o que fosse. Só me deu tempo de gritar para alguém segurar aqueles cachorros, mantê-los longe e acho que foi Flávia e Sávio que deram meia-volta para cuidar disso.
Independente, Dani continuava a correr e se embrenhar pela mata, por mais que pedíamos para que parasse. Ela só parou mesmo porque tropeçara numa raiz e foi atirada ao chão. Bruno conseguiu alcançá-la primeiro, que tentava se levantar sozinha, em plena crise de fobia. Eu não iria interferir, pensei, não até que vi que ela estava negando a ajuda dele, quem tentou a abraçar para que deixasse de fugir.
Eu sabia exatamente como ela se sentia.
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