Notas iniciais
Lembram qnd eu disse que a quinta temporada tinha um dos meus caps preferidos? Bom, esse é um deles hahaha Curiosidade: um dia tva jantando fora qnd um 'carro desse do capítulo' passou chamando atenção e a cena se desenhou toda na mesma hora. Pense num desespero de registrar pra não esquecer! Ah, e essa conversa aí da Milena com o Sávio... tá ficando suspeito... Tem um pouco do shipper Bruno e Dani ♥ Enjoy.

1. Está mais calma? 2. Gol”.

– Esse sorrisinho sempre te entrega, sabia?

Caminho para o corredor da minha sala, sem poder ignorar o comentário de minha amiga. O celular havia feito um barulhinho de alerta de mensagem, que, por instinto, chequei. Era de Vinícius. Sua pergunta era sobre minha ansiedade quanto à prova que faria logo em seguida da professora Garra. Meu risinho era por ele ter me perguntado isso milhares de vezes num só dia. E a cada momento eu tinha uma resposta diferente. Dessa vez, para o contraste de muitas, estou mais aliviada.

– Como se o teu, dona Flávia, não te entregasse também. Esse bem aí, que tô vendo. Pensa que pode esconder?

Ela já havia escondido algumas vezes, quando seu relacionamento com Gui era incerto. Se é que aquilo podia assim ser chamado de “relacionamento”, se passar da fase de amizade para outra coisa foi difícil. Tiveram uns abalos até tudo correr bem. Com eles foi tudo muito natural e inesperado, admirava muito o que tinham e o que sentiam um pelo outro.

Acho lindo esse brilho de encanto que tem os enamorados quando se veem, como se tivesse passado longas datas separados. É aquele sorrisinho bobo involuntário e feliz só de ver a pessoa, sem precisar de nada mais. Com o passar dos meses, às vezes isso de desgasta, se torna comum e já não se externa tanto quanto o início de namoro. Não comigo, não com Flávia, apesar de eu ter quase uns dois meses à frente dela com Gui. Felizmente não trato o gesto como desgaste, sei que comigo continua involuntário e quero que permaneça assim. Mesmo de ver uma mensagem de Vini, mesmo de vê-lo ao longe conversando com alguém, como faz Flávia.

– Quem disse que quero esconder?

Brincalhona, ela vira pra mim jogando seu material por cima de meus braços para que eu o deixe na sala. Eu não tinha a sorte dela de estudar na mesma faculdade, mesmo curso e mesma classe de meu namorado, então era fácil sentir umas pontinhas de inveja por ela poder correr em direção a Gui, de costas, e fazê-lo uma surpresa, colocando suas mãos aos olhos dele.

Assim que ponho o peso que carregava aos meus braços sobre as carteiras, pego novamente o celular, teclo uma resposta. “Faz gol msm s/ trabalhar e duvida da sorte. Tô + quieta, n tão ansiosa. As provas dela sempre são intensas, sendo o assunto fácil ou n”. Sento, suspiro mais tranquila. Hoje é a última prova do mês, graças a Deus, e de fato a última aula de Djane foi muito esclarecedora, pude tirar umas dúvidas e ouvir dos outros.

De tarde no estágio, até dei assistência a Gui – e a André, que só nos espiava e pegava as dicas de qualquer jeito. O assunto não era difícil, nunca era uma matéria ruim, só que Djane sempre a colocava numa perspectiva que era complicado de se imaginar e se prontificar a dar uma solução plausível. Era o motivo de ansiedade de muita gente, não só comigo.

Logo a professora estaria despontando na sala para aplicar a avaliação, assim me permito relaxar pelos minutos que faltam. Observo ao meu redor, aos poucos as pessoas iam chegando, conversando, estudando. Eu já não mais abria o livro, nada mais iria entrar no cérebro agora, tinha de ser confiante, não? Pensava sobre isso quando Sávio apareceu à porta com uma garota pendurada em seu pescoço; ela é de uma turma avançada à nossa.

Como sempre muito educado, ele se despediu dela, e ela esperou por algo... que não veio. Cheguei a ver, mesmo de longe, um pouco da decepção dela. Eu achava engraçado como ele sempre era seguido pelas garotas e nunca dando bola para outra coisa com elas.

Sávio entrou na sala, me avistou. Por estar comendo um sanduíche, ele só acenou ao sentar ao meu lado, ofereceu-me seu lanche. Agradeci, estava cheia. Geralmente antes de sair do estágio eu e Gui passávamos na lanchonete de lá, que tinha uns precinhos camaradas. Preciso dizer que já havia colocado uma sugestão na caixinha de atendimento um pedido de venda de gelatinas? Jurei que iria fazer sucesso. Ainda espero retorno deles até então, na esperança.

De qualquer maneira, estou economizando em tudo para poder ter uma renda boa na viagem, mesmo nos lanches. Se houvessem gelatinas, aí eu já não me preocuparia tanto em poupar, o vício não deixa.

– Escoltado de novo?

– Juro que não sei o que elas tanto veem.

Olhei não muito discretamente para ele, espantada por ele proferir tamanha coisa. Como não sabia, ele não tinha espelho em casa? Ele não se conhecia, não se ouvia? De longe ele chama a atenção! Já ouvi boatos no banheiro feminino que umas garotas se dizem “ovular” só de vê-lo passar ou fazer alguma gentileza a elas. Mas eu não poderia dizer isso a ele, poderia?

Não, claro que não. Isso é papo de mulher. Além de que ele ficaria sem graça.

– Carne nova talvez?

– Não sou o novato mais, estamos em maio, falta pouco para o fim do semestre.

– Vai ver por isso mesmo, é quase fim de semestre e nenhuma delas conseguiu uma chance sequer. Não achou ninguém... hummm... interessante?

– Todas são interessantes, às suas maneiras, mas...

Viu como ele é gentil e respeitoso?

Ao fim do seu sanduíche, Sávio mastiga bem para que um fio de confissão perpasse na conversa. Ele parece inquieto de falar uma coisa dessas, mas olha bem para mim, esperando uma resposta.

– ...mas acho difícil prestar atenção em outra pessoa quando já se tem mais ou menos uma na cabeça.

Praticamente bato palminhas, feliz. Ele que sempre se fecha em muita coisa, se permitiu admitir algo enfim. Ao longo desses meses ele tem virado um grande amigo, quanto Gui e Bruno, um companheiro de quem muitas garotas têm... certa inveja. Não posso negar que muitas tentaram se aproximar de mim para chegar nele, ou me pediram na cara de pau para serem apresentadas, entre outras coisas.

Elas tentavam mesmo, e só agora ele admitiu o porquê de sempre as dispensar. Deve ser de seu trabalho, aquele que o fez ser transferido para nossa cidade, porque por aqui pela faculdade ele não demonstra nada especial por ninguém.

– Eu sabia! E essa pessoa... gosta de você?

Sávio não faz a melhor das expressões, fecha um olho incerto, crispa a boca. Olha ao redor para ver se alguém presta atenção em nós, e só assim ele fala novamente.

– Gostar acho que gosta, porém, não como devia ou como eu queria que gostasse. Ela não me vê. A única garota que eu quero não está interessada.

– Como alguém pode não te ver, Sávio? Você chama a atenção ainda que estivesse em Marte. Melhor, Plutão. E olha que Plutão foi desclassificado como planeta por estar muito longe do Sistema Solar. Acho que você é que não se vê. Além de ótima pessoa, é muito bonito sim. E isso, my friend, é algo que a gente não vê facilmente no mercado de peixe. Eu posso não apreciar que abram portas ou puxem cadeiras para mim, não me importo com isso, mas tem gente que sim, acha que isso é cavalheirismo, coisa que você tem de sobra. Você é um cara de muito potencial, e se ela não vê isso, bom... ela perde muito, pois há uma fila inteira interessada.

Podemos não ser amigos a longas datas como Gui, porém aquela vibe de confiança que sempre senti nele me permite dizer uma coisa dessas, principalmente depois de nossa amizade ter crescido ao longo desses meses. Já até aprontamos um com o outro. As coisas simplesmente foram acontecendo, como foi com Bruno. Sei que posso confiar em cada um, sei que posso contar com eles, e mostro que podem confiar e contar comigo. Sávio já não fica tão incômodo de se abrir como era no começo, assim eu considero uma vitória.

– Bom, do mesmo jeito que você diz que eu não me vejo, ela também não vê a si mesma. Ela vê outra pessoa... ela gosta de outro cara.

É, aí... aí a coisa complica mesmo.

– Xiii... Sei muito como é. Aí é caso sério.

Bem me lembro como foi empurrar todo meu sentimento por Vini pro espaço quando descobri que ele tinha namorada. As inconveniências são incontáveis. Pra mim, felizmente, houve esperança. Não sei se quero dar esse pingo a ele.

O meu celular dá uma alerta de mensagem, que deve ser de Vinícius. Não sou é indiscreta de verificar enquanto estou mergulhada nessa conversa delicada.

– Olha, Sávio, às vezes não é tão assim quanto a gente pensa. Será que ela gosta mesmo desse outro cara? Já o viu?

– Sim. Ela não só gosta dele, o ama. Eu vejo. Sei que não tenho como competir.

Suspiro ao vê-lo admitir isso, tristonho. É tão ruim que nem tenho algo para dizer, me forço até mesmo em pensar em alguma coisa.

– Então deixe que o tempo colocará outro caminho. Na verdade, caminho é o que não falta, né? Fique mal não.

Sávio nota meu adendo de palhaça, arranca uma folha de seu bloco de anotações, amassa e joga na minha cara, como costumamos fazer quando o outro fala uma besteira de propósito. Rio, apoio minha cabeça no ombro dele, que se comporta e não me joga mais papel. Assim que ele se distrai para ajeitar seu material, eu deixo um beijo suave na sua bochecha. Não sei o que me deu, só fui lá e fiz. Como se faz a um dodói. Surpreso, só me olha e ri.

– Por que mesmo que eu não ganho um desses?

Gui aparece do nada com sua voz calma e exigente. Parece meu irmão invejando carinho. Como se já não tivesse o bastante. Jogo o jogo dele, mando a bola de volta, me fingindo de indignada:

– Gui, como posso se a Flávia não deixa?

E ele ralha com ela... amorosamente:

– Flávia! Você sabe que é minha paixão. Mas a Milena, ah, a Milena é minha friend do coração.

Minha amiga revira os olhos, bate de leve no ombro do namorado. Ele nem liga, só se abaixa para que eu possa dar um beijinho carinhoso no seu rosto. Assim que dou, ele se volta de pé, ereto, todo sorridente, se achando. Quando digo que ele não presta, ninguém acredita. Sua carinha é só de anjo mesmo.

Mas não dá tempo de bagunçar com ele, logo Djane aparece na sala e todos se sentam para que ela entregue as avaliações. Afastamos nossas carteiras, que estavam muito próximas, e deixamos que a professora Garra tome conta daquele horário.

~;~

Saio da sala tão animada que canto sem me importar, com Flávia e Sávio em meu encalço. Flávia não arrisca muito na cantoria, acho que é uma música um tanto antiga para ela lembrar assim. A música fala de impulsos, nada a ver com o que sinto, só coincidia de eu querer comemorar com um “la la”.

Trilha indicada/citada: Ashley Simpson – La La (02:14)

http://www.youtube.com/watch?v=K5BPeZYafD0

You make me wanna la la… la la la, la la la... la la la la la la la la...
You make me wanna la la, la la la...

Motivo de minha felicidade? Sinto que fui bem na prova.

Estava um pouco complicada, mas nada que com o tempo fui levando a coisa toda, consegui me concentrar e meter bala. Tinha uns casos bem diferentes para abrir discussão, as possíveis soluções não eram tão óbvias assim. As provas de Djane sempre foram desse jeito, o diferencial dessa vez é que uma aula antes ela nos tranquilizou. Geralmente a gente se sentia bem aterrorizados por todo o tempo.

As pessoas aos poucos estão acostumando com a nova Djane, mais confortáveis e nem tão desconfiados. Fazem até brincadeira na aula dela, riem e tudo. As coisas têm andado muito, muito bem nesse quesito. Djane trabalhando como chefe de departamento também anda estável, ela até que se acostumou rápido ao cargo, apesar de dar uma boa canseira nela. Quase teve que abandonar uma turma de sua responsabilidade no turno da tarde, que seria a turma com que faz monitoria com Sávio. Para não prejudicá-lo, ela tem aguentado firme e conta com ele para ajudar no que precisar.

Caminhando pelo corredor para chegar à rampa, topamos com Yuri e Daniela saindo de sua classe, junto a outros alunos. Ela me vê na cantoria e entra no ritmo comigo, era uma de nossas músicas de ônibus. Na verdade, foi ela quem me passou essa da Ashley Simpson.

You make me wanna la la… in the kitchen, on the floor, I'll be your french maid… Where I'll meet you at the door, I'm like an alley cat… Drink the milk up, I want mooore... You make me wanna...

Só posso dizer que é libertador quando as provas terminam.

Já no pátio encontramos outras pessoas, que passam nos observando. Como falta um pouco para dar a hora do intervalo, muitos alunos perambulam. Se fosse uma cantoria intencional, estaria envergonhada; como é um impulso, tô nem aí. Bruno, ao surgir no caminho, vê nossa animação, sorri como se fôssemos impossíveis e previsíveis, de sair cantando por aí. Ele coloca a mão na cintura assim que paramos frente a frente.

– Vocês num param mesmo.

Nisso seu Chico passa por trás dele, sem parar de andar:

– E você ainda achou que elas parariam?

Sávio, Flávia e Yuri vinham logo atrás, divertidos da cena. Chego a ouvir parte do papo, em que Yuri dizia que nunca tinha ouvido Daniela cantar, não desse jeito. Ele esperava por isso faz tempo. Acho que isso não chegou nos ouvidos de Bruno, pois sua carinha não mudara, nem sob o comentário de seu Chico, o zelador que participou de nossas bagunças no ano passado quando fizemos o encerramento do evento acadêmico, em que trabalhamos eu, Bruno e Dani de monitores de Djane.

Arranjamos uma mesa, a última na verdade. Não demorou muito para Vini me ligar. Me afastei um pouco das conversas para poder atender:

– Oi?

– Hey, Lena. Esqueci de te dizer que minha prova é no último horário, e daqui tem um grupo marcando para estudar pra prova de amanhã ainda essa noite. Acho que eu vou. Não vou poder te buscar.

– Ah, sem problema, amor.

Avisto meus amigos fazendo bagunça, sem entender nada do que dizem. Logo Gui e outros alunos descem, os últimos que permaneceram até o fim do horário. Djane passa do outro lado, segue para sua sala de chefe, não deixa de acenar para mim, que aceno de volta.

– Acha que Murilo pode te pegar?

– Como se Murilo fosse mesmo vir, um poço de preguiça e resmungação. Vini, eu me viro. Posso pegar uma carona, senão um ônibus mesmo. Ainda tenho carteira de estudante, sabe.

– Ô, Lena, sabe que me preocupo.

– Olha, vou ver minhas opções, ok? Te aviso. E boa sorte na prova. Não pensa em mim, viu! Te concentra.

Ele ri.

– Como se fosse fácil... Mas tá, me avisa mesmo. Como foi a prova de minha mãe?

– Foi... intensa. Num bom sentido. Tô mais leve que agora as provas acabaram.

– Ainda bem. Senão já ia falar com a minha mãe, saber que história é essa de ficar detonando minha namorada... Espero por esse feeling de alívio logo amanhã.

– Seu bobo. Falaria nada, porque eu num deixava. Se falasse, ficaria uma semana sem beijo. Nem abraço.

– Malvada, eu querendo te def... Lena, tenho que ir. Vê se não apronta nada.

– Há. Tá falando isso pra Lins errada.

Nos despedimos. Volto para beliscar algo na mesa, consigo uma carona com Bruno, que prontamente ofereceu quando perguntei. Foi até estranho a rapidez, como se... se precisasse desesperadamente de algo. Vai saber, Bruno por vezes não bate bem. Para sua sorte, o papo da viagem se sobrepôs a qualquer coisa, então acho difícil alguém mais ter notado enquanto comentavam sobre detalhes de compras para viajar.

Combinei com Flávia que no sábado iríamos fazer umas comprinhas, coisas de mulher, ao que os meninos assoviaram e vaiaram. Reviramos os olhos, eles não entendiam que é preciso renovar de vez em quando, principalmente à vista de uma viagem.

Meninos realmente vivem em outro mundo.

E não sabem como precisam da gente pra sobreviver.

~;~

– Felicidade de pobre dura pouco.

Digo preguiçosa quando paramos num engarrafamento. Esperava que pegando carona com Bruno chegaria bem rápido em casa, o cansaço do dia já me pegava. Confortável no banco macio, eu podia até dormir. Não tinha sono, no entanto, só cansaço mesmo.

– Você preferiria estar de pé nesse ônibus lotado aí?

Bruno aponta para o transporte ao nosso lado, com muitas pessoas de pé. Normalmente ele é o reclamão. Hoje tá de “conscientizador”. Olho bem para os que estão no ônibus, eu poderia mesmo estar lá. Me viro para meu amigo:

– Sabe que eu te amo, Bruno? Porque amo.

– Você ama o ar-condicionado, a música boa, o conforto. Tá quase dormindo aí.

Faço teatro, abro a boca estarrecida para tão logo cobri-la com a mão. Ele descansa a cabeça de lado, com o cotovelo apoiado no vidro fechado, só de olho em mim, achando graça.

– Oxi, eu declaro meu amor por você e... ah, você não me valoriza.

– Ô mulher pra fazer drama.

Uma carinha traquina se contrasta com minha face angelical.

– Claro. Sempre que puder.

Sei que há um caminho de desvio, que gostaria de indicar, porém não o conheço bem para poder descrever, assim nem menciono. Os carros a nossa frente se mexem um pouco, o que faz Bruno voltar à direção para mover seu carro também. Não anda muito, infelizmente. Com cara de quem tá pensando longe, meu amigo lança uma pra mim:

– Sabe do que a gente precisa?

– O quê?

– Matar aula. Faz tempo que não fazemos todos isso.

– Ô aluno dedicado você. Já pensa em matar aula, de novo.

– É bom de vez em quando, né? Estou convencendo?

– Num sei, marcar de matar aula previamente não tem tanta adrenalina quanto em cima da hora. Algum dia da semana que vem, talvez?

– Por mim tudo bem.

Ficamos uns bons 45 minutos presos, até que ele conseguiu uma passagem para cortar caminho. Por todo o tempo fomos papeando besteiras. Quando entramos na minha rua, que avistamos um carro diferente e nada conhecido à porta de minha casa, me pergunto quem pode estar lá. Onde está o carro de Murilo? Vejo que não consta na garagem. Havia algo muito estranho.

Bruno também notou. Estacionou em frente do para-choque do tal carro. Preocupado, desceu comigo. Rodeamos o carro, arqueamos as sobrancelhas ante ao que vimos. E ao que lemos.

À traseira, havia enfeites pendurados, de papel e plástico. No capô do porta-malas, os dizeres “recém-casados” em tinta branca, o fundo era azul escuro. Quem seriam esses e por que estariam em minha casa? Havia gente lá, era inegável pelas luzes que denunciavam.

– Quer que eu entre com você?

– Hum. Tá, só por precaução.

Não acreditei que haveria um ladrão ali ou coisa parecida. Entrar acompanhada era somente de garantia. Bruno segura minha bolsa enquanto enfio a chave no portão, faz graça pra descontrair a tensão:

– Nossa, o que vocês tanto enfiam nessas bolsas? Nós homens conseguimos jogar tudo numa carteira no bolso.

Para uma média de peso, a minha não pesava nada. Ele só gosta de implicar.

– Bruno, homem não se maquia ou retoca maquiagem. E apesar de terem lá suas TPMs, vocês não menstruam. Queria ver vocês enfiando um absorvente na carteira.

– Ai, Lena, isso é informação demais, tá. Não digo mais nada.

Entramos no terraço, ouço a voz de meu irmão, apesar de não entender o que fala. Suspiramos os dois aliviados. Agradeço a gentileza de Bruno, retomo minhas coisas e me despeço dele, que sai de minha casa mais “tranquilo”.

Só que ele também fez a ligação de que meu irmão era um homem... casado. Não consigo nem imaginar isso, sequer pensar.

Determinada, entro em casa, piso na sala. Vejo Murilo na mesa com um monte de papelada, pendurado no celular. Meu Deus, meu irmão casou! Murilo casou!

Bate uma revolta, explodo:

– Como você faz uma coisa dessas e não me chama, Murilo?

O besta tem a cara-de-pau de me dirigir uma cara de inocência. Como se não soubesse do que eu estava falando. Aham.

Desliga o celular.

– Hum?

Me aproximo a passos rápidos, coloco meu material perto das papeladas dele sem nem as olhar. Estar pasma define.

– Depois diz que eu que num falo as coisas. Mas só te digo uma coisa: mamãe vai TE matar e sou eu quem vai contar.

Ele se levanta com calma, olha para trás, para o corredor, como se alguém fosse sair de lá. Sua esposa talvez. Parece tudo muito insano.

– Mas do que você tá falando? Quê que eu fiz?

– Quê que você fez? Como tu é cara-de-pau!

Ele faz shhhhh pra mim. PRA MIM.

– Fala baixo, a Aline tá aí.

Salto mais as sobrancelhas. Minha voz sai num fio.

– Ela já trouxe as coisas dela?

– Que coisas? Mas do que você tá falando?

Saber que meu irmão é tapado eu sei, só que a esse ponto, até eu duvido. Ele queria me enganar ou o quê? Mantenho a voz baixa.

– As malas dela, seu idiota. Como é que vocês casam e...

É a vez de meu irmãozinho pasmar. Me puxa para a cozinha, nada delicado.

– Peraí, peraí. Que história é essa de casar? A gente não casou. Tá louca ou o quê? Ainda nem sei se é verdade a história dela grávida. Da onde você tirou isso?

– Ora, daquele carro que tá na frente de casa. Tem enfeites de recém-casados na traseira.

Isso parece o espantar.

– Tem o quê?

Antes que algo saia de minha boca, mais que rápido ele vai lá checar com os próprios olhos. Ouço suas passadas nervosas, o abrir do portão, um xingamento lá na rua mesmo, passadas rápidas novamente em caminho de casa, da cozinha, onde fiquei esperando. Volta nervoso.

– Foi o cara da oficina que nos ofereceu esse carro depois de um problema com o meu. A gente insistiu de pegar qualquer coisa porque temos que entregar um material urgente ainda hoje e foi esse que o mecânico podia oferecer... É coisa dele isso aí.

Murilo estava em maus lençóis, puxava seu cabelo inquieto. Aquilo parecia lhe embaralhar as ideias, estava a ponto de ter um tilt, ainda mais andando de um lado para o outro, apreensivo. A dúvida sobre a gravidez ainda o consumia, e ainda assim ele não admitia. Só parou mesmo de furar o chão quando Aline apareceu.

– Murilo? Ah, oi Milena.. Que vocês tão fazendo?

– Nada...

Respondemos os dois ao mesmo tempo. Isso só pareceu mais suspeito. Aline percebeu, preferiu não perguntar. Com certeza ficou na dúvida se devia ou não.

– Sei. Então... hã... Murilo? Temos que terminar.

– Consegui organizar ali na mesa, vai verificando que eu... eu só tenho que resolver uma coisa, bem rapinho, com a Milena e...

A Aline se retira, senta-se à mesa da sala. Doce ignorância.

Murilo não perde tempo, quase avança sobre mim. Vem com o dedo logo na minha cara. Puxo-o de vez, tão doida quanto ele. E daí que eu pensei errado? Era o que estava em evidência, oras.

– Nem um pio sobre isso, viu? Ela não sabe e nem vai saber.

Ralho com ele ainda em tom baixo.

– Não acredito que vocês ainda não conversaram... Murilo!

– Estivemos bem ocupados, tá. E esse não é bem um assunto fácil.

– Que seja, Murilo, você tem que saber. Pode ser o pai. Isso é sério.

– Eu sei. Só... me dá um tempo. Eu vou dar um jeito nisso. Nem conte pra ninguém. Nem pro Vini. Vou resolver.

Suspiro, preocupada. De verdade. E se a engravidou mesmo? Ele teria meu apoio, com certeza. Mas primeiro precisa descobrir a verdade. Antes de me encaminhar para meu quarto, dou minha última palavra.

– Vê se não faz besteira.

– E quando que eu faço? Ok, não responde.

Notas finais
HAHAHAHAHAHAHAHAHA