Mantendo O Equilíbrio - Um Novo Amanhã (T4 + T5)
48 Capítulo 18
Notas iniciais
Acho que não queria encerrar a noite tão cedo.
Apesar de não estar tão cedo assim.
– Vim telefonar também, os meninos estão assistindo filme na tv.
Sávio aponta para o celular na mão e quando o enfia no bolso, por estar de papo comigo, digo que vou deixá-lo a sós para não interrompê-lo, mas aí ele balança a mão ao ar como se não fosse nada e pede para eu ficar, que não era incômodo algum. Me pergunto se ele iria ligar mesmo ou se estava dando um tempo de seu quarto. Meninos conseguem ser bem bagunceiros às vezes.
Com minha permanência decretada, prendo meu cabelo e ajeito meu vestido, o calor da cidade está se intensificando. Sim, calor da cidade, não da companhia, só pra constar.
– O filme é de um cara perseguindo uma mulher por causa de uma pílula?
– Tu também tava assistindo?
– Não, Murilo. Ele teve a cara-dura de me dizer que liguei na hora errada.
Por conhecer a peste do meu mano, Sávio assente rindo. Ele balança a camisa também sentindo um abafo quente do corredor e olha para a janela atrás de nós.
– Aqui tá calor, por que não abriu?
– Quem disse que não tentei? Emperrou.
E como aquelas coisas que parecem abrir com um sopro, Sávio, mesmo sentado, puxa a aba que tanto briguei e ela se moveu com um mínimo estímulo dele.
É preconceito comigo.
Meu amigo sorri com aquela sobrancelha de “o que você dizia mesmo? Emperrada? Sei”.
– Depois de eu tanto puxar, ela cedeu, foi isso.
– Sei, sei... Como tá seu pé?
– Nem dói mais, aquela massagem ajudou muito. Por via das dúvidas, não vou usar bota amanhã, uma sapatilha me parece uma melhor pedida. Não sabia que você era bom nessas coisas. Obrigada.
– Quase ninguém sabe, na verdade.
Uma lembrança bateu rápido na minha cabeça e não hesito em mencioná-la.
– Hey, porque não ajudou a Dani naquela vez que ela torceu o pé?
– Ah, eu não a conhecia tão bem assim... ela poderia me interpretar mal.
Poderia mesmo. Mas era bem o que ela queria naquele dia...
– Então é segredo também? Não vai me dizer mesmo onde aprendeu a atirar?
– Ainda nessa?
Sávio ri discreto e deixa mais mistério rondar minha curiosidade. E olha que nem sou muito do tipo de pessoa curiosa. Não tanto, acho. Cutuco-o batendo ombro-com-ombro, já que estamos tão perto, um do lado do outro no banco de madeira e assento acolchoado.
– Posso esquecer fácil como posso não esquecer fácil.
Meu amigo faz que pensa, bota a mão no queixo e fica aquele ar de dúvida e suspense, me olha de rabo de olho com graça. Se o conhecesse menos, não insistiria. Ele enfim parece desistir, sob condições.
– Conto sobre a massagem. É o que posso oferecer no momento, por ser uma história menor.
– Ok, então.
Dou de ombros, espero pela sua “narração”.
Sávio ri discreto, tapa o rosto com uma mão. Poderia ficar a imaginar que isso inclua algum tipo de vergonha, mas, já o conhecendo, sei quem não se trata de algo assim. É só o jeito dele.
– Na escola eu jogava futebol. Uma vez fui suspenso do time por ter ficado de recuperação em mais de três matérias... e ter arrumado confusão num esquema de pesca.
– Depois disso que tu virou santo?
Brinco. Não consigo imaginar esse Sávio mais novo que me descreve, como se não entrasse na minha cabeça essa versão irresponsável. Ele é muito certinho, cuidadoso e dedicado em tudo que faz.
Mas dizem que os mais certinhos são os mais perigosos...
– Eu, santo? Passo nem perto. Gentileza é uma coisa, santo é outra.
– Sei... continue apenas.
– Pois então, mesmo suspenso do time, tive que comparecer aos treinos, mas não como jogador, apenas para assistir mesmo. E tinha que ajudar a enfermeira a cuidar de alguns jogadores. Ela me deu muita dica e... acho que algumas coisas a gente não esquece.
– Passou tanto tempo assim pra se recuperar nas matérias?
– Uns quatro meses. O que na escola parecia um ano todo. Aprendi muita coisa, no entanto. Tanto a me comportar melhor, quanto a me estabelecer nas matérias e ainda a dominar alguns exercícios de enfermagem.
– Daquelas coisas que a gente encara como uma coisa ruim, e depois se agrada.
– Exato.
– Já pensou em ser enfermeiro? Do tanto que meu irmão já me fez de enfermeira dele as pessoas duvidam de minha real disposição para a Administração...
– Apesar de uns truques e técnicas, sempre soube que nunca me daria bem na área de saúde. Não é bem comigo mesmo. Gosto de números. Estatísticas. Organizações. Planilhas.
Ele se dispersa olhando para frente como se estivesse falando com outra pessoa, ou se explicando novamente em algo já dito. Num sei, é uma impressão.
– Comigo é parecido também. Não tenho vocação para área de saúde. Cuidar do pilantra do meu irmão ou de alguém próximo a mim é outra história. Minha humanidade tem outros planos de como ajudar o mundo.
Sávio devolve minha cutucada ombro-no-ombro, brincalhão.
– Então estagiária de dia, estudante de noite, Mulher-maravilha nas madrugadas?
– Quem dera. Meu pique ainda tá limitado.
Suspiro um pouco cansada e me deixo cair um pouco para o ombro dele, de forma a deitar a cabeça e ele deitar a sua sobre a minha. Começo a divagar sobre ser essa Mulher-maravilha e realmente conseguir salvar o mundo, ou pelo menos o meu mundo, que está numa situação um tanto crítica.
As palavras de Eric mais uma vez me retornam, a verdade óbvia. De que “sempre haverá coisas acontecendo”.
E não me dou conta que estou fazendo “besteira” novamente até Flávia aparecer no corredor de pijama e me encontrar no banquinho com Sávio. Um repuxar de sua boca coloca a coisa toda em evidência do que ela já queria ter comentado no parque. Assim me afasto de Sávio, digo boa noite e me retiro sob a desculpa de que eu estava o alugando demais e impedindo-o de fazer suas ligações.
~;~
– Você sabe disso e fica por aí como se...
– Foi inconsciente, Flá. Poxa, ele é meu amigo. Eu sou assim como meus amigos e apesar de todas as implicâncias que já sofreram, seja de meu irmão, seja de Vinícius, eu não parei de tratá-los da forma que costumo só porque...
– Mas esse caso em especial, Lena, pense melhor a respeito.
Flávia tem aquela expressão sua de preocupada, de que quer me alertar de algo. Aproveitamos o tempo que Dani está no banho para conversarmos sobre o que eu havia lhe dito um tempo atrás, sobre o ciúme “infundado” de Vinícius sobre Sávio. Enquanto isso, vou separando minhas coisas que vou utilizar quando entrar pro banho, remexendo na mala.
Paro de pé no quarto perto dela, que está na sua cama – haviam 3 camas de solteiro dispostas, como foi pedido na reserva – sentada.
– Então você acredita que não é tão “infundado” assim, é isso?
– Não disse isso, Mi. É só que, se fosse o contrário... bom, acho que você não gostaria muito, né?
Olhando por esse lado...
– Só tô dizendo que não seria justo. E que tem hora que vocês estão muito juntos. É apenas amizade, eu sei, você sabe, mas isso deixa o Vini inseguro. Não vai ficar dando razão pra ele, né?
– Sei o que você quer dizer e concordo. Só que, sei lá, eu não queria me limitar, sabe? Ser uma dessas pessoas que param de falar com outras só por causa de uma.
– E não digo para fazer isso, Mi. Só, você sabe, ter cuidado. Independente de Sávio gostar ou não de outra pessoa, você não vai querer passar a impressão errada. E vai que a garota gosta dele? E se ela sentir que pode haver competição por essa amizade de vocês?
– Poxa, Flá, quando você pensou tudo isso?
Ela simplesmente parece que tem toda uma visão do caso e de ângulos que eu sequer tinha cogitado!
– No parque, quando ele cuidava de seu pé. Me coloquei no seu lugar e o Gui no de Vini. Foi... estranho.
– Imagino.
– Então, vai ficar mais atenta? Vai evitar situaç...
Nessa hora, a porta do banheiro revela Dani e ela se indigna por nos ver conversando e não assistindo ao filme como ela pediu. Pois se assistíssemos durante seu banho, poderíamos contar a ela o que perdeu.
Nos desculpamos.
E eu entro no banheiro, sabendo que nem preciso de água na cabeça para me fazer refletir sobre minhas últimas atitudes. Minha melhor amiga faz bem seu papel, tão bem que suas ideias plantadas na minha cabeça engrenam melhor no pensamento e conclusões vão saindo aos poucos que vou tomando meu banho.
Será que estou sendo egoísta mesmo? Que só penso no meu lado? Que estou deixando um pouco Vini na mão? Que exigo algumas coisas dele sem nem ao menos ceder um pouco mais de mim também?
Parece é que a voz de Flávia se junta com a de Eric no meu cérebro.
Pelo jeito minha consciência precisava de uns empurrõeszinhos.
~;~
Eram 9h da manhã quando a galera abandonou Gui no meio do saguão da faculdade para dançar seu sapateado. Baixei até uma música qualquer no celular para fazê-lo dançar. Aposta é aposta.
– Eu não vou dançar.
– Vai sim.
Respondi puxando sua mochila das costas, para não lhe atrapalhar na “apresentação”. Entre risos dos observadores, Gui tentava me comprar.
– Te pago os trinta, e nada de dança.
Uma vaia baixa seguiu-se de nossos colegas. Gui tentou mais uma vez.
– Vai, Lena, aceita.
– Por que eu aceitaria?
– Porque... porque sou seu melhor amigo. Já te defendi várias vezes, já te cobri em inúmeras situações e tô aqui com trinta pra te pagar.
Olhei para trás, as pessoas em expectativa, olhei para meu amigo, que realmente não tava a fim de pagar mico, e meu coraçãozinho disse para não fazer essa maldade com ele. Peguei meus trinta e o libertei.
– Só porque sou uma alma caridosa.
Aí a vaiada fui eu.
Gui, como meu apoio, sorriu abertamente e me abraçou de lado:
– Liga não, a gente os faz pagar uma hora dessas. Já disse que te amo?
Ele puxa a mochila do chão com uma mão e vamos andando, seguindo os alunos que iriam fazer credenciamento no evento e entrar num auditório para a palestra de abertura. Não haveria muita coisa para se fazer por esse período.
– Não.
– Pois amo, sua linda.
Aí me abraça e me beija no rosto na frente de todo mundo, o que me esquenta as bochechas, porque todo mundo fica de olho, alunos de toda a parte, gente desconhecida e...
– Eu devia era ter feito você sapatear! Agora tá todo mundo se virando pra mim. Você me enganou.
– Só tenho dez reais, serve?
– Passa.
E não me arrependo de ter capado 40 reais do meu melhor amigo.
~;~
– Bora, que tô com fome e tu vai me pagar o almoço.
– Quem disse, dorminhoco?
Se tivesse mais de onde puxar dinheiro de meu amigo, teria feito, porque ele dormiu a palestra inteira, se esgueirando sobre os ombros meus e de sua namorada, que ficávamos empurrando ele de um para o outro e não adiantava se ele continuava dormindo e caindo em cima de nós. No fim das contas, me peguei fazendo cafuné nele quando desisti de jogá-lo para o ombro de Flávia. Mexer nos seus pequenos cachos alourados o fez se acomodar foi mais.
Só que no fim das contas eu tive minha vingança e foi ótimo termos pegado os lugares do fundão do auditório, porque, com o consentimento da própria namorada começamos a pintar a cara dele sem que percebesse. Havia até xuxinhas em seu cabelo, fivelas, e maquiagem pelo rosto. Tava a coisa mais linda. Todo mundo queria tirar foto com o dorminhoco, até quem a gente não conhecia.
– Oras, tu me tirou todo o dinheiro que tinha de hoje, vai ter que me alimentar e... É impressão minha ou tá todo mundo olhando pra gente?
Todo mundo estava descaradamente fitando a gente. Ninguém ousava contar-lhe a verdade, até porque fui bem enfática em ameaçar quem o fizesse. Era como uma piada interna e, como sempre, Gui era o perdido da história. Íamos caminhando para o restaurante universitário que havia perto do prédio de Administração.
– Milena?
Estaco na mesma hora me deparando com um cara que me reconhece. Isso me dá um segundo para reconhecê-lo também, impressionada por ele se lembrar de mim.
– Senhor Caio?
Mais precisamente Caio Lima Monteiro, o “Caio-em-cima-do-dinheiro”, um dos mais conhecidos administradores e guru empresarial. Cumprimento-o e ele nos informa que está indo para o restaurante universitário também, apesar de meio perdido, como nós, que só seguíamos os alunos da instituição. Embora tenha umas placas pelo local, não dava pra simplesmente saber onde as coisas ficavam.
– Não acredito que o senhor se lembra de mim.
– Ah, claro, memória boa eu tenho de sobra. E como me lembro dos trotes de faculdade, parece que temos um jovemzinho vítima por aqui.
Gui, mais uma vez perdido, nem se toca do que o palestrante fala, ainda que Flávia me cutuque com o cotovelo, e umas risadinhas ecoam por nosso grupo que vai andando.
– É, acontece...
Ao chegar na portaria do restaurante, com outras conversas, eu já tava com pena do meu amigo. Até porque já tinha um bolão rolando sobre quanto tempo ele demoraria a descobrir – meus amigos são desses, acredite. Apesar de toda e cada referência que seu Caio fazia distraidamente, Gui não se tocava. Como alma bondosa, iria pagar seu almoço mesmo.
Seu Caio se despediu de nós, enfim reencontrara seus companheiros do outro lado, e eu tava resistindo de contar para Gui o que tínhamos aprontado, com todo mundo me pressionando para não o fazer, quando finalmente ele passa por um espelho e, ao notar seu estado, começa a puxar as coisas de seu cabelo e limpar o rosto com a camisa.
Grita:
– MILENA LINS DE ALBUQUERQUE, EU VO TE MATAR.
Como ele sabia que tinha sido eu?
Meu passado condena mesmo...
Rindo, entrei com a galera no refeitório e, pra não passar outra vergonha, resmunguei de volta:
– E HÁ DUAS HORAS ELE DISSE QUE ME AMAVA, GENTE.
Mal posso esperar para contar isso para os dois homens de minha vida.
Eles acham que tô amolecendo!
~;~
– Wow, como ele conseguiu isso? Humilhou o sacana!
Daniela arrumou companhia, para a cara amarrada de Bruno no coffee break do evento. Estava no telefone com meu irmão, tinha me afastado dos banquinhos que a galera tinha se espalhado para descansar um pouco, aí na hora de desligar, Murilo fez um comentário sobre a droga que era comentada naquele filme de ação e isso despertou minha amiga, pois ela perdera justamente o final.
Alguns de nossos amigos e colegas ficaram assistindo, porém, não acompanharam o final também, cansados como estavam. Murilo não chegou a ver o final enquanto passava na tv, fora Anderson que emprestara o dvd do filme quando apareceu lá na casa de Djane pela manhã.
Como estávamos todos sentados numa área calma, numa pracinha perto do prédio da universidade, onde acontecia o grande evento do Encontro Regional de Estudantes de Administração, coloquei o celular no viva-voz disposto na mesa central e todos ficamos acompanhando a “narração” do meu irmão sobre o final. Aos poucos fui entendendo as sacadas, gostaria até de assistir quando tiver a oportunidade. “Sem Limites” o título.
Os banquinhos eram um conjunto, acompanhados de mesas de pedra ao ar livre. As árvores farfalhavam perto, as sombras eram agradáveis e o céu estava limpo. Quando Murilo desligou, várias pessoas ainda comentavam o filme. Eu preferia perturbar meus amigos, principalmente Gui, que esse sim me perturbava de volta por causa daquela história no auditório, quando nos aproveitamos de seu estado de sonolência. Melhor dizendo, de apagado.
– Já te deserdei do meu coração, Lena, nem vem.
– Mas eu só queria um bombom, qualé.
Ele havia ganhado um saco de bombom num sorteio que houve no minicurso que fizemos de Gestão de Capital Intelectual, e não queria compartilhar um sequer. Até a garota chata que tinha dado em cima dele ganhou um – não que a Flávia saiba disso; da garota, digo. Viu, eu sou uma super amiga de manter esse segredo e ele me desmerece desse jeito. Eu o dispensei da aposta até – apesar de ter lhe capado 40 reais. E paguei seu almoço!
Sávio até tentou surrupiar um que ele havia pegado para me passar, mas Gui conseguiu de volta. Ele estava irredutível.
– Também não quero mais.
Parecíamos duas crianças no jardim de infância, encenando nossa “desamizade”. Quando começou o clássico “diga a essa pessoa tal coisa”, “responda isso para essa cidadã”, em que fingíamos não ver um ao outro – apesar de estarmos sentados um do lado do outro – e pedíamos aos colegas para falarem alguma mensagem, a galera tratou de nos forçar a fazer as pazes. Fizemos. Isso, no entanto, não diminuiu nossas brincadeiras bestas, que fizeram foram aumentar.
Mesmo concentrada nessas conversas, eu via o que acontecia com nossos amigos se espalhando pelo local. O que ficou bem claro foi a reação carrancuda de Bruno, que estava inquieto, prestando atenção demais nas conversas de outra pessoa. De Daniela, mais precisamente. Quando nosso tempo acabou, esperei que ele levantasse e fui para seu lado no caminho de volta, afinal, ele nem mais se preocupava de se manter perto de sua turma, só parecia vagar incerto acompanhando o restante do grupo.
– Você tá dando muita bandeira, sabia?
– Do que você tá falando?
– Do que você acha? Da Dani, claro.
– Ainda não sei do que você tá falando. Bandeira de quê?
– De quem está interessado e que fica com ciúmes quando sai muito de perto. Principalmente se ela estiver acompanhada de algum cara ou estiver de altos papos com algum deles. Seu coração já admitiu, qual o problema do cérebro também admitir?
– E-eu... você tá viajando, Lena. Não é nada disso.
Ele realmente quer pagar essa pra mim? Entro no jogo dele.
– Então eu tô vendo coisas, agora?
– Eu acredito que sim.
– Pois eu acredito que não. Mas não tem problema... só não aceite isso quando for tarde demais.
Acho que toquei num ponto difícil para ele, pois Bruno se virou bruscamente para mim e me parou no corredor que seguíamos para o auditório da faculdade, onde haveria a próxima palestra.
– O que você quer dizer?
– Depois de tudo o que vem acontecendo entre vocês, o que você acha que seja?
– Não tem nada acontecendo, caramba.
– É o que você diz, não esse coração aí.
Cutuco-o ao peito na altura do coração. Bruno vacila, baixa a cabeça e por dois segundos ou três parece pensar a respeito. Volta-se para mim ainda teimoso, porém, mais interessado no assunto:
– Então quer dizer que ela comentou algo a respeito? O que ela disse?
Ele acaba de se entregar.
É, ela me disse e nem foi algo tipo por alto. Me descreveu em detalhes o que foi a viagem ao lado dele, que pareceu longa demais para os poucos minutos que realmente voamos. Quando o avião levantou voo, foi na mão dela que ele segurou, quando lhe faltou um pouco de ar, foi a Daniela quem o tranquilizou, e quando houve certa turbulência antes do pouso, foi ela quem o ajudou a superar. Nem precisou que Sávio, do lado deles, fizesse algo para ajudar – ele na verdade disse que preferiu deixar os dois a sós e não intervir.
Houve ainda um momento que Dani confessou ter sido muito significativo. Logo que a turbulência passou e Bruno tranquilizou-se, ele não largou da mão dela. Ele na verdade se entrelaçou ao braço de Dani, firme de um jeito que ela se sentiu desconfortável pela proximidade. Foi meio que demais para o coração dela, e eu também achava injusto, pois significava brincar com o sentimento alheio.
Isso fora tudo o que ela já havia me detalhado outras vezes, outras histórias, outras conversas. Mas eu levanto tudo isso pra ele? Negativo. Nem que o código feminino me permitisse.
Se Bruno quer arriscar, ele que arrisque. Que esteja ao menos consciente.
– E é preciso dizer? Mas não, ela não mencionou nada. Talvez eu só esteja vendo coisas, como você mesmo falou.
Quando Flávia me grita da porta do auditório e sigo com passos mais rápidos para onde ela está, sei que pelo menos plantei uma boa dúvida na cabeça de meu amigo. Só espero que ele pegue a dica em tempo, de que havia um fundo de verdade que eu não poderia revelar, mas ele sim, precisava descobrir.
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