Mantendo O Equilíbrio - Um Novo Amanhã (T4 + T5)
19 Capítulo 18
Notas iniciais
E um papo esclarecedor sobre... irmãs.
Mto amor ♥
Enjoy.
P.S.: Dica de cast?
Aline - Rachel McAdams (Para Sempre; O Diário de uma Paixão)
http://i1286.photobucket.com/albums/a619/alexisklets/MoE/aline_zpsdec7a6f3.jpg
Iara - Joy Lauren (Desperate Housewives)
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Seu Júlio - Timothy Dalton (James Bond; Chuck)
http://i1286.photobucket.com/albums/a619/alexisklets/MoE/BBE-005028_zpsd597a090.jpg
Aline foi muito bem recepcionada na casa de seu Júlio, tanto que a deixaram sem-jeito. Murilo enchia a boca para falar dela, qualquer coisa que fosse, o que me fez quase beliscá-lo, ele não via que estava a deixando desconfortável? Sentei do lado dela durante o almoço para rebater sua timidez, um tanto nervosa pelo alvoroço. Djane estava mesmo parecendo minha mãe, toda radiante com a novidade, grudada no próprio que acho que até Vini começava a ter uns ciuminhos. Ciuminhos saudáveis.
Minha mãe... ah, minha mãe acho que deu pulinhos quando soube da notícia. Confessou que já era hora de Murilo se acertar com alguém. Convidou Aline para passar o feriado de carnaval conosco, que nem sabíamos se iríamos ainda. Pelo menos quanto a isso eu cutuquei meu irmão, que Aline já havia fugido dele uma vez... Pressioná-la com tudo isso, indo muito rápido, depois que não corresse pra mim.
Bobo do jeito que está não levou muita fé no que eu disse, que as coisas entre eles mudaram. Espero, de verdade, só espero que tenham mesmo. Nesse meio tempo de animação demais do meu irmão, eu quem tento fazê-lo maneirar.
Seu Júlio dessa vez desafiou os “netos” para jogar videogame, umas partidas de jogo de corrida. Murilo cedeu seu player para que a primeira partida fosse seu Júlio e Vinícius. Djane se negava a participar daquilo, queria só assistir e torcer. Só não sabia para quem. Eu e as meninas, Aline e Iara, ficamos mais para trás, num sofá conversando sobre qualquer coisa. Quando levantei para pegar um pouco das frutas frescas dispostas como sobremesa, meu irmão veio para perto de mim. Sussurrou.
– Num gosto dessa Iara.
Revirei os olhos. Ele sempre a evita, só não a destrata. Se fizesse isso, eu ficaria muito chateada. Pensa que é o quê, melhor que ela? No estágio, sempre que Iara pode, ela aparece pra me cumprimentar, disfarça que nos conhecemos. É uma graça, na verdade. Gui também entrou nessa.
– Hum. Frescura tua.
Murilo fica me rondando, mesmo de olho no jogo dos outros ali perto. Eu continuo selecionando fatias de frutas para meu pratinho. Dentre a variedade havia uvas, abacaxi, melancia, melão, morangos, banana. Me surpreendeu não terem feito logo uma salada de frutas.
– Tenho que te lembrar toda vez do que ela fez?
– Até parece que você não fez pior. E não, isso não foi um corte, patada, seja lá como queira encarar. Só tô dizendo. Devia dar uma chance a ela. Os dois, Vinícius também não sabe o que tá perdendo. Iara é uma boa pessoa, gosto de conversar com ela.
Iara é bem o tipo de pessoa que se abre aos poucos aos outros. Do jeito que a gente tem se falado lá no estágio, é possível que Gui saiba mais como ela é do que propriamente o irmão dela. Que insiste não ser o irmão dela. É como se fosse, oras! Iara ainda chama Filipe de “pai” mesmo.
Meu irmão pega um palito, leva à boca uns pedaços de melão e morango que eu tinha separado no meu prato. Ah, safado. Puxei o palito dele com um olhar feio, ao qual ele deu de ombros.
– Ainda bem é que aquele Filipe num veio hoje. Não sei como Vinícius anda depois daquela briga deles. O negócio foi feio... Ele comentou algo?
– Não diretamente. Tem hora que ele fala umas coisas, são mais do tipo desconexas, deve não estar preparado, sei lá. É bem difícil para ele.
– Não acredito ainda que o cara quis dar um boneco de presente para ele...
– Fala o outro a quem dona Bia prepara biscoitinhos especiais. E, Murilo...
Tem horas que é ele quem fica fora de órbita. E arranjou outro palito.
– Hum?
– Para de pegar minhas frutas. Não, não era isso que eu ia dizer. Só que... não guarde rancor deles. Principalmente se se tratam de pessoas que se arrependem do que fizeram. E para de exagerar por causa da Aline, tô te avisando.
Puxei o palito de novo, apontei para ele. Se ser mais enfática era o que ele precisava, eu estava o sendo. Ele se conscientiza com um resmungo, depois sorri idiota de novo. Homem apaixonado é uma coisa mesmo...
– Hum. É que tô muito animado, só isso.
– Sei que gosta dela, e muito mesmo. Só lembra que muitas vezes ela ficou insegura quando se tratou de vocês dois juntos. Não quer fazer besteira logo agora, né?
– Juro que vou me comportar.
Juntou dois dedos ao ombro em sinal de juramento. Coisa de escoteiro?
O problema é que Murilo nunca foi escoteiro.
– Sei.
Continuou a me rondar. E pairar com um terceiro palito no meu prato, não importasse quanto eu afastasse dele.
– Sério. Dessa vez é sério. E então, o que ela tem dito?
– Ela quem?
Uma garota pode sacanear com os bobos apaixonados, né?
– Ora quem, Milena!
– Não sei se você percebeu, tem pelo menos três mulheres nesse recinto além de mim. Isso sem contar a enfermeira que tem cuidado de seu Júlio, algumas empregadas e a cozinhei...
– Você entendeu. A Aline.
Dou de ombros.
– Ah, nada demais.
– E o que era esse nada demais?
– Nada para teu bico, coisa de mulher. A gente tem código feminino também. Aff, Murilo, pega teu prato, deixa o meu.
Com um tapa na testa, seu “ai”, deixo-o sozinho na mesa com essa pergunta em suspensão. Não era nada, mas... ri internamente, nada como um misteriozinho para ocupar essa cabeça oca dele, que me pareceu muito pensativo.
Um perigo, um perigo só!
~;~
Ok, eu menti um pouco. Era algo, só não era aaaaaaalgo.
Enquanto fiquei conversando com as meninas no sofá, tratei de dar um passe de tranquilidade para a Aline, que tava toda acanhada por aquela atenção toda. Fui dizer-lhe que o Murilo é assim às vezes, exagerado, que uma hora ele para. Eu também não gostava de atenção desse jeito, sempre dispensei. O jeito não era ficar de reserva e sim interagir, que todos só queriam conhecê-la melhor. E assim nossa conversa foi a acalmando, Iara me ajudava.
Quando voltei para nosso canto observador, as duas riam mais animadas. Estavam falando de Murilo fazendo bico no dia do aniversário de Vini, de quando estavam na casa do vizinho, a bomba que enchia os balões deu de 10 a zero nele. Rachei e ralhei. Então Iara fez um comentário que fez a apreensão de Aline voltar.
– Isso é pra ele aprender a assoprar balão para os amigos.
– E para o aniversário dele? Ouvi Vinícius falar que está perto.
Ao que parece, Aline não sabia da data.
– Aniversário? Como que ele não me disse nada?
Aproveito a deixa para sacanear um pouco meu irmão. Era tão bom.
– Não sei se você já notou, Aline, e não tardará a notar. O Murilo não bate bem. Mas não se preocupe, ele não gosta de festas de aniversário, não das grandes, nem de fazer, nem de ganhar. Sempre foi assim.
Isso é verdade mesmo. Era uma briga sempre quando mamãe queria promover festas, chamar até a décima geração de parentes do fim do mundo, e sobrava pra ele fazer sala para quem ele nem lembrava quem era. Odiava isso também, assim, com o tempo passamos a unir para nos livrar dos planos terríveis de mamãe.
– Não?
– Não, mesmo. Quando não fazíamos alguma reuniãozinha, um jantar ou almoço de família, que ele nem gostava tanto assim, a gente combinava uma saída. Cinema, pizzaria, compras, passar o dia na praia, jogar alguma coisa, fazer alguma atividade. Ele só num aceita bungee jump.
Uns dois anos atrás, um pouco tempo depois de eu ter entrado na faculdade, propus essa para ele. Falei de brincadeira, ele pensou que eu tinha pirado de vez. Acabamos indo para um centro de paintball com uns colegas dele e uns antigos vizinhos amigos nossos que estavam de passagem na cidade. Ainda que estivéssemos no mesmo time, a gente se caçava. Foi tão legal.
– Hum. Vocês combinaram algo para esse ano? Quando é?
Por causa dos últimos acontecimentos não planejei nada, nem propus algo com ele. Coisa que ele tinha consciência, assim como de seu por quê.
– Até então nada. Sexta.
Aline quase pula do sofá. Iara no meio de nós duas só ria, comia das frutas que eu havia oferecido a ela do prato que me servi. Os outros continuavam entretidos mais a frente com a Tv e o videogame.
– SEXTA? Ai meu Deus, nem sei o que compro. A gente acaba de começar a namorar, não quero exagerar. Meninas, preciso de ideias!
– Ih, presente de homem é difícil... Mentira, tô te zoando. Num sei o que pode ser, uma camisa, um perfume, um...
Pensei, pensei. O que Murilo pode ter perdido, quebrado esses últimos tempos? O que possa querer de presente? Iara me pergunta o que eu havia comprado.
– Hum. Não comprei esse ano. Ainda tenho uma parcela do último presente dele, um óculos de sol, que dei no Natal. Não tô podendo ter muitos gastos, tô juntando para uma viagem que vai ter da faculdade.
Viagem pela qual já consegui as passagens e ainda nem mostrei para ele. Fico temerosa de Murilo surtar de novo, mesmo que tenhamos conversado sobre isso. Ele não quer que eu viaje de jeito nenhum.
Iara então aparenta pensativa e hesitante:
– Hum. Se eu comprar algo, e-ele aceita?
Aline não deve saber da história de Iara, não em detalhes.
– E por que ele não aceitaria, Iara? Milena?
Não deve saber o porquê de Iara não se sentir muito confortável com Murilo, ainda que ela goste dele. Não é bem algo que a gente sai comentando, é uma história longa e muito complicada. Iara fez que era para deixar para lá, eu que tomo a voz:
– Ele aceitaria, acho. O negócio, Aline, é que Murilo não gostou de uma coisa que... que Iara fez ano passado. Desde então, não é muito fã dela, se assim posso dizer.
– Poxa, Iara, nem sei o que dizer... que desculpe por esse comportamento do Murilo? Você é tão legal, de verdade. Não acredito que ele...
Iara a interrompe, não era seu assunto preferido. E o que vejo nela quando volta ao tópico do presente vejo em Flávia quando fala de Murilo, como alguém que se importa com ele e lhe quer bem, como um irmão. Um irmão que ela também não teve...
– Tudo bem, eu... eu o entendo. Obrigada, de qualquer forma. E que tal um cd ou dvd? Ele deve querer algum. Dicas, Milena?
– Hum?
Minha cabeça estava um pouco mais longe.
~;~
Ao fim de tarde de domingo, inventamos de ir para a praia vadiar um pouco. Tinha outro ensaio para terminar de escrever para a aula do professor Bartolomeu, que parece que não conhecia outro tipo de atividade senão essa, para sexta. Pelo menos o assunto era melhorzinho dessa vez, o que não queria dizer que não tava me deixando de cabelo branco. Sei que ele vai me avaliar mal novamente, contudo prefiro dar o melhor de mim, não só pra provar para esse cretino o que posso desenvolver, mas também porque posso aproveitar desses trabalhos mais tarde. Relaxar com eles seria fazer trabalho dobrado depois, então preferível me dedicar agora enquanto o faço.
Vinícius nem perguntou, me intimou a ir, não importasse o que eu dissesse. Não ia deixar o professor mala me tirar essa oportunidade de ficar com meu namorado, o que acontece de já ser pouco, então aceitei. Como iria Aline e Murilo também, chamei Iara, porque queria que ela fosse, não foi por educação. Tinha um plano se formando na minha cabeça quanto ao comportamento desses dois, Vini e Murilo, em relação a ela. Talvez se ela se abrisse mais, se eles pudessem ver mais dela... Só que ela não aceitou, disse que tinha algumas coisas para fazer no apartamento. Infelizmente.
Jantamos os quatro na beira-mar, ficamos até tarde de conversa, comentando qualquer coisa. Chegamos a discutir por que o cavalo-marinho não era comparado ao camarão, pois ouvimos a conversa de dois biólogos que passaram perto de nossa mesa falando do animal, que era muito parecido com um camarão. Pelo que comentavam, ambos mudam de cor e mexem os olhos independente do outro. Semelhante ao cavalo só a cabeça mesmo. No fim das contas, não dava para chamar de camarão-marinho, porque todo camarão é marinho.
Cheguei primeiro em casa porque Murilo foi deixar Aline. Namorei um pouquinho meu Vini quando me veio na cabeça a chance de abordar o assunto. Então fui à cozinha, voltei com duas colheres e dois potinhos de gelatina — sempre gelatina – bem quando Murilo chegava berrando seu “cheguei, família”. Antes que ele virasse a chave na porta que o levaria à sala, deu uma continuidade, sem berrar dessa vez, no entanto:
– É bom que não estejam fazendo nada demais, ainda existem regras nessa casa.
Ele nunca esquecia essas regras. Depois eu que tenho de conversar com ele sobre estender as mesmas sobre seu relacionamento com Aline, pois quem tem se excedido é ele. Ok, minhas visitas noturnas foram bem no passado – outro dia praticamente – quem tava precisando de umas regrinhas de controle era ele.
Murilo adentra a sala exatamente quando chego à sala, entrego a gelatina a Vinícius, sentado no sofá. Meu irmão querido traz um bom sorriso ao rosto para tentar furtar meu potinho, ao que fujo dele rondando o sofá para me juntar ao meu namorado.
– Viu, não estávamos fazendo nada.
Claro, se ele tivesse chegado faz unas 10, 15 minutos atrás, eu já não poderia dizer o mesmo e nem poder disfarçar tão bem. Ainda assim, isso não parece convencer o tonto do meu irmão, que deixa suas chaves na cômoda da entrada antes de se dirigir à cozinha. Pensei que ele iria pegar uma gelatina também. De lá mesmo retrucou.
– Sei.
– Estávamos planejando dominar o mundo. Pronto, falei.
Murilo volta com um copo d’água, cumprimenta Vinícius sugestivamente. O que meu namorado encara como uma sacanagem para ele. Revirei os olhos para a discussãozinha que começava ali, os dois se provocando.
– E aí, Pink, em que ponto chegaram?
– O que te faz pensar que eu sou o Pink? Por que não o Cérebro?
– Há.
Murilo termina de engolir o conteúdo de seu copo, deixa sobre a mesa da sala, se joga no outro sofá com a cara mais cínica do mundo.
– Porque conheço minha irmã. Ela é, definitivamente, o Cérebro.
Não sei se devia encarar essa como insulto ou elogio, só sei que pego esse gancho para puxar outra história, abordar o que tinha em mente. Os dois olham pra mim sem entender.
– Era sobre isso que eu queria falar.
– Que você é o Cérebro, amor?
– Não. Sobre irmãs.
Murilo faz graça.
– Eu só tenho uma irmã. Que outra é essa?
– Falo de um modo geral... Ok, me refiro a Iara.
– Ah. Ah.
Incrivelmente eles pareceram dois bonecos sincronizados quando resmungaram juntos em entendimento. Viro para Vini ao meu lado, que nem abre a gelatina dele perdido em pensamentos silenciosos.
– Eu queria saber... se sua “aversão”, Vini, de Filipe, se estende tanto assim. Se há esperanças de vocês pelo menos terem alguma relação.
Vinícius coça a cabeça, incerto. Murilo continua na pose dele de “não gosto dessa garota”, mesmo jogado no outro sofá.
– Tecnicamente ela não é minha irmã.
– Não, biologicamente ela não é. Tecnicamente, ela é.
– Por que isso agora? Ela mencionou algo?
Vinícius quis saber. Parece repentino tratar sobre isso, só que não o é. Não ia esperar completar ano nessa situação se nos vemos aos domingos, se a vejo agora todos os dias. E mesmo estando na mesma mesa para almoço na casa de seu Júlio, não concordo que ela fique tão distante, como se não pertencesse à família. Ela não matou, não roubou... e o que fez não foi exatamente crime.
Como se estivesse distraída, abro o pote de minha gelatina enquanto falo. Quero saber de suas reações.
– Não, nada em especial. Só a acho muito reservada. E sei que ela gosta muito de vocês dois, que não dão chance alguma para ela.
Murilo é o primeiro a criticar, carregado de antipatia e quase repulsa. Rebato com seriedade.
– É, por que será, né, Lena...
– Lembra o que te falei hoje? Sobre não guardar rancor? Pois é, ela se arrepende do que fez, ela sequer tinha muita noção do fazia. Eu a perdoei.
Meu irmão bufa, como se tivesse muita credibilidade no caso. Rebato mais uma, com todo o cuidado de ele não entender como uma afronta ou uma discussão a mais para a gente. Afinal, ele não é o centro dessa.
– Você perdoa fácil.
– Tão fácil que ainda nem te perdoei. Eu tô falando sério. Poxa, a Iara é tão legal... só que sempre fica pelos cantos, só observando. E imagino que seja porque vocês não dão entrada a ela. Custa tanto assim? Pelo menos de ser gentil ou educado? Essa frieza de vocês, principalmente de você, Vinícius, sim, que é o irmão dela, isso é prejudicial a ambos, não percebem? Ela só quer uma chance.
Vini suspira, vacilante. O que me conforta é que ele aceita bem. Quando deixa a gelatina em cima da mesa, passa a mão pelos cabelos, meneia a cabeça em afirmação, vejo que está disposto, apesar de um pouco hesitante, de falar sobre. Sua voz sai calma e preocupada.
– É, eu sei. Quer dizer, eu penso sobre isso também. Só não penso alto, acho. Na semana passada, por exemplo, eu fui deixar um documento para o porteiro do meu antigo apartamento, onde ela mora agora. Eu já atualizei meu endereço para minhas contas, só que das coisas que levei para casa de minha mãe quando fiz a mudança, não vi bem o que levava. Dentre minhas coisas estava um acordo do síndico, que Iara já havia me perguntado uma vez, só não sabia que ainda estava comigo.
Murilo se ajeita de onde está, um repuxo na boca pelo corte de então há pouco, que nem foi exatamente um. Era hora de ele pensar também sobre isso... e não de pegar a gelatina dos outros. Ele capa na cara-de-pau o potinho de Vini, o que só me faz encará-lo em negação. Vinícius está alheio a isso, ele continua a externar o que não teve oportunidade de abrir.
– O fato é que fui deixar com o porteiro, pra evitar topar com Filipe. Fui depois da aula, um dia que a aula terminou cedo. Quando desci do carro para entregar, ela tava chegando, a pé. Cumprimentei ela e tal, ficamos naquele clima estranho, e eu saí. Ela me parece uma pessoa estranha, só isso. No sentido de que não a conheço, é alguém de fora. Praticamente me jogaram Iara como irmã, Filipe como pai. Às vezes é demais pra minha cabeça.
Chego mais próxima a ele, abraço-o de lado, que me recebe passando um braço por meus ombros. Por instinto, procuramos um a mão do outro para mantê-las juntas. O beijo que deixo em sua bochecha era para mostrar meu cuidado para com ele, com essas questões difíceis de lidar que tínhamos deixado in off na época do Natal.
– E então penso no que aconteceu pelo Natal. Iara me ajudou, me aconselhou, sem nada pedir em troca. Não sei se por causa de Filipe, o que tem hora que acho que não. É confuso. Acho que... que só não sei como me comportar, não a vejo como inimiga, ou interesseira. Também não concordo muito do que Murilo diz, e volto a me questionar por que, se eu também era zangado com ela por causa da história de vigia. Quer dizer, ela nos perseguiu, certo? Eu num sei, num sei como lidar.
Seu monólogo termina abafado, pois Vinícius levou uma mão ao rosto. Não sei se envergonhado, confuso, temeroso de como interpretar as ações de Iara ou tudo junto. Para quebrar essa aura de dúvidas, Murilo volta a se manifestar, deu de ombros como se fosse uma coisa justa o que estava dizendo.
– Nunca vou esquecer o que ela fez.
Eu, por outro lado, não quis me estender no que ele sentia por ela, coisa que sabemos às claras. Só que ele aparentemente sim.
– Então não esquece, ué. Supere. Tá na hora, né? Não tô dizendo pra sair a abraçando do nada, só... você sabe, deixá-la confortável ou algo assim.
– Não me sinto confortável com ela por perto.
– É, uma das razões por eu ainda não ter te perdoado. Tu não sabe o que isso quer dizer.
– Sei sim.
– Não, não sabe. Não vejo isso em você.
Viu como ele sempre quer puxar pra ele? Vinícius meio que acorda, e mesmo longe eu de Murilo, tenta nos “separar”, como se dali fosse sair uma briga. Faz que não aprova, não gosta de como ficamos em afronta. Sinto seu aperto na minha mão para me chamar atenção, ao que viro para ele e percebo sua fronte franzida. Me pedia compreensão.
– Hey, Lena, não seja tão dura com ele. Pelo menos não quanto a isso.
Inspiro e mudo de assunto. Ou retomo ao inicial. A Vinícius então.
– De qualquer forma, não era isso que eu tava falando. Vini, não acha que tá na hora de, sei lá, considerá-la de alguma forma? Conhecê-la? Pelo menos pensar nela como irmã? De verdade.
– Num sei, é estranho.
Então eu quis brincar, pra dizer que o clima não ficou ruim. Apontei para meu irmão, que dá um meio sorriso pela suposta “ofensa”. Era minha bandeira branca. Que ele recebe e entra no jogo.
– Humf. Estranho é eu amar esse aí.
– Hey!
– O quê, quer que eu te odeie agora? Te amar custa muito, sabe? Agora o Vini pode ter isso. Ou próximo disso. Não pode?
– Sei lá, sempre fui do tipo solitário, porque não tive outros pra brincar, pra puxar o cabelo, pra roubar um carrinho, que seja. Não até conhecer Wellington e Vanessa, meus vizinhos, quase irmãos... é a referência mais próxima que tive de irmã e irmão. É estranho vir a pensar que agora tenho uma... que nem é propriamente também.
– É legal ter uma irmã. Falo isso porque sou uma e esse aí não sabe viver sem mim. Quero ver se ele fala que não.
Meu querido safado fraternal levanta-se para se jogar quase em cima de mim no sofá em que estou. Se eu não me afastasse, se não me juntasse a Vini, dando-lhe espaço, seria uma irmã esmagada. De quem ele ri. Acomodado, ele passa um braço por meu ombro, onde anteriormente estava o braço de Vini, que havia descido para minhas costas. Me sinto aninhada aos dois, aos dois homens de minha vida.
– É, ter irmã é legal. Ela prepara o jantar quando você tá sem coragem, limpa seu quarto, arruma sua cama, faz cafuné durante um filme num domingo, pergunta se você quer sorvete com calda, dobra suas camisas...
Oxi!
– Assim você me faz parecer uma empregada. Pior, uma escrava.
Pego a almofada que está atrás de Vini, preparo-me para o ataque. Acerto em cheio a face de Murilo. Só assim ele pega no tranco e para de coisa. Vinícius nos observava, sorridente. Diz ele que admira nossa cumplicidade.
– ...E nem preciso pagar. Ai. Tá... tem outras coisas também. Elas guardam coisas de seus pais, que eles não podem saber, te fazem se sentir o herói delas às vezes. São boas companhias, pessoas com quem contar.
– Hum. Melhorou.
Faço bico. Oras!
Então Murilo mostra o lado “negro”. Se mostra revoltadinho, sem seriedade, me solta para pegar a almofada e ficar me mirando.
– É, mas não são boas quando pedem encarecidamente, muito meigas e cuidadosas – que é eufemismo para “te pegam de supetão com uma travisseirada bruta na cara numa madrugada só pra pedir... quer dizer, te chutar da cama pra você ir na farmácia comprar... comprar coisas de mulheres”. Não é fácil chegar numa dessas 24h, ficar procurando nas prateleiras “o material”, tentar discernir um do outro, e sempre tem um atendente chato que quer fazer piada. Perguntam se é para sua mulher. Se dissemos “não”, eles insinuam que é pra você só com um “hummm” suspeito. E você lá, de um olho mal aberto se segurando pra não bater no cara. Porra, era 4h da manhã, tinha outro horário não?
Acredite, na hora fiz a mesma pergunta para o universo.
Rimos os três. Essa madrugada foi tensa, Murilo passou anos para voltar com um absorvente. Quer dizer, me apareceu amanhecendo o dia com 5 pacotes diferentes. Não havia um atendente mulher para lhe guiar melhor. Eu disse que era culpa dele, que nunca prestava atenção no que eu comprava no supermercado. “E eu tinha que olhar por quê?” ele resmungava daquele seu jeito. “Nunca se sabe quando se pode precisar”, eu deixava aquele toque de mistério.
Aprochego-me a Vinícius, faço carinho no seu rosto antes de dar-lhe um beijinho na bochecha. Murilo fica de bico do outro lado.
– Não se preocupe, amor, nunca farei isso com você. Pra isso existe o Murilo, ele já tem experiência.
– Hey!
Notas finais
Trechin do próximo?
- Iara? Como assim já sou avô?
Posso dizer que isso também foi... fofo? Meu Deus, Filipe em crise de fofura, é demais para meus olhos (ou ouvidos?). Ele riu da própria piada, se despediu de quem falava ao celular, puxou o nariz da garotinha e confirmou se Iara se encaminharia para a sala das mamães.
[QUÊ??????]
(...)
- Preciso te contar uma coisa.
- Agora?
- Sim. Se não for agora, talvez não consiga falar depois.
(...)
Entendi que era sério.
- Eu o vi.
Isso deveria significar alguma coisa para mim?
(...)
- Vi o Eric.
Aí a coisa definitivamente mudou de perspectiva.
[Huuuummmm]
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