Notas iniciais
E que a viagem comece... no estilo! Enjoy :)

Se eu tivesse um diário de bordo, a estreia da primeira página seria com duas notas: o que fazer e o que não fazer dentro de um avião.

O que fazer: mancomunar com o guri da poltrona de trás que jogava bolinhas de papel em você para mirar no carinha chato que mandava a minha amiga calar a boca. Afinal, você tem que usar as estratégias a seu favor; o que não fazer: gritar “uhul” quando o avião levanta voo, principalmente se você chama atenção, se cabeças convergem para seu lado, se a aeromoça aparece para te advertir e pedir silêncio e se em nada ajudou – e talvez até piorou – na aversão dos seus amigos em relação a voar.

A gradativa força que Flávia implica na minha mão mostra que piora.

Mas não reclamo nada, porque aí que ela entraria em pânico. Abraçada com Gui, ela permanece no aperto de minha mão, assim como da dele, coisa que apenas imagino, porque também não fico espiando. Gritaria pra o carinha chato que Flávia não tem medo de avião, é só que ela ficou grilada com umas histórias de viagens e acidentes. E a alteração de pressão machucando nossos ouvidos não ajudava.

Pelo menos o guri parou de jogar bolinhas em mim.

Quando o avião se estabilizou, catei todas e fiquei jogando nas poltronas da frente, onde Sávio, Dani e Bruno estavam. Isso relaxou mais meus amigos, pelo menos os que estavam tensos, pois Bruno sim tem aversão com avião e até então ele tava pálidozinho (ouvi um sussurro de Dani mencionando isso). Mas também não deu muito tempo para uma aeromoça vir nos repreender. Pelo menos era uma diferente de outrora. Assim nos aquietamos e eu fico olhando as nuvens que são cortadas pelas asas do avião.

Sob o olhar da aeromoça que cismou comigo e da distração dos meus dois amigos apaixonados ao lado, quero alguém pra perturbar. Como o voo é de apenas 45 minutos, não tenho porque levantar ou mesmo me agitar. Sou obrigada a ficar no meu canto e, quieta, já sinto saudades. Estou é fadada a pensar nesses dois “homens de minha vida”, é o que acho.

Essa manhã foi como todas quando é meu último dia na casa de meus pais, mamãe não me deixou dormir muito e ficou como uma barata tonta com suas crias, toda saudosa, não querendo nos largar. Foi bom ter uns mimos, não nego. Meu querido irmão tava com a maior cara de desconfiado, dado a conversa de véspera que tivemos, na qual fiz revelações que ele sequer imaginaria. Sendo cuidado por mamãe e Djane, foi fácil manter o assunto off. Já Vini era outro que também não queria me largar, não compareceu ao trabalho e pela sua cara, apostava que meu mano havia contado.

Depois de tudo meticulosamente separado e ajeitado para a viagem, dona Ana nos apresentou um bom almoço com direito a muitas gelatinas de sobremesa, das quais me esbaldei e mostrei aos dois que não estava chateada. Aos poucos eles foram parando de se comportarem estranho.

Após a sobremesa que era hora de ir. As despedidas começaram ainda dentro de casa, pois Murilo não poderia me deixar no aeroporto. Djane se ofereceu para ficar com ele enquanto mamãe e Vini me levariam. Da minha roda de amigos fui a primeira a chegar, fiz logo o check in, embarquei as malas e controlava minha mãe por uma cena de despedida daquelas. Aos poucos a galera foi chegando e fomos conversando, mamãe até se enturmou.

Vini aproveitou esse momento para me afastar um pouco. Um pouco tenso e incerto ele se mostrava enquanto fazia um carinho suave em minhas mãos. Só olhava para elas.

– Então você sabia... o tempo todo.

– Quando digo que as coisas simplesmente aparecem pra mim, acho bom começar a acreditar.

– Lena... eu... é que... o quanto você ouviu?

– Acho que... tudo? Quer dizer, de quando começou até que eu fosse deitada na minha cama. Estava bem debilitada emocionalmente, e foi muito muito muito difícil de lidar com aquelas confissões de Murilo, sem falar de me manter calma, porque eu me sentia muito mal com aquilo e não podia dar bandeira. Mas no fim das contas, Vini, ajudou bastante. Finalmente pude entender esse complexo do meu irmão...

– Não fale desse jeito, Lena, parece até que ele...

– Que ele tem problema? Acontece que ele tem, Vini. E eu não posso ficar alimentando esses medos dele.

– Eu sei, é só que... acho que entendo a insegurança dele.

– Mas não tá inseguro agora, tá?

Ele dá um sorrisinho de canto que melhora a aura da conversa.

– Não. Apesar de “ele” estar nessa viagem, confio em você. Que me ama, e sabe dar um certeiro golpe se avançarem o sinal, certo?

– Certo.

Mesmo com toda a ciumeira dele por causa de Sávio, logo retomamos ao grupo e os dois conversam como Vini não tivesse mesmo uma desconfiança sobre ele, o que agradeço-o no portão de embarque, quando me abraça muito apertado.

– Já pode não querer te soltar mais?

– Só daqui a uma semana quando vier me buscar, aí pode.

– Awn.

– Cuida bem da peste. E diz pra ele que usar perfume por enquanto não é uma coisa boa.

Vini riu.

– Por que não?

– Porque dá uma mistura esquisita. Fui me despedir dele, e tu sabe como ele é, todo jeitoso, já saiu me abraçando como se eu fosse sumir por anos. Aí perguntei que perfume estranho era aquele que usava. Era colônia pós-banho com aquele troço violeta que usa para aliviar a coceira.

– Acho que depois dessa, talvez ele não misture mais... Boa viagem, amor. Me liga. Todos os dias, toda hora.

– E vê se não apronta tu também.

– Só diz que me ama.

– Agora que num digo mesmo.

– Tá, num diz. Vou confabular de tudo com sua mãe.

– Tá, tá, eu te amo, viu, seu chantageador sacan...!

Lá de novo me cortou a frase e me deu um daqueles beijos digno de aeroporto, só que sem aplausos, o que agradeci. Já não gostei de como uma garota fitava meu namorado depois de passar pelo portão de embarque. Ele se encontrava alheio a tal olhar, mas eu não. Minha cabeça apenas insistiu em respirar, me juntei aos amigos e...

– Com licença, meus jovens, mas, por favor, podem se manter eretos às suas poltronas, se certificarem dos cintos e não manifestarem muito afeto aqui dentro?

Espio de rabo de olho, é a aeromoça que me reprendeu da primeira vez e a segunda, que logo veio atrás. Queria muito era desatar a rir dos meus dois amigos, Flá e Gui, constrangidos se ajeitando em seus lugares. Aí a aeromoça bateu o olho em mim e fez cara de mandona, como se eu tivesse passando dos limites.

Eu, hein, tava quieta no meu canto!

Diria que era um complô se o André não tivesse começado a chamar por alguém, pois ele queria fazer uma reclamação por escrito ao esquema de atendimento dentro daquele avião e o fez para todos ouvirem. Aí eu só revirei os olhos, abaixei a cabeça em negação e tive pena dessa moça em seu ofício, de ter que aguentar uma criatura dessas.

~;~

– Tem coisa que só acontece comigo.

Digo, mancando.

– Para todas as outras, sobra pra mim então.

Responde Dani, alongando o braço.

Um cidadão simplesmente insistiu em dizer que a mala rosa – que ele dizia ser salmão – era dele, e não de minha amiga, na hora de pegarmos nossas coisas na esteira do aeroporto. Enquanto os outros estavam distraídos, começou o vuco-vuco de Daniela com esse cara, e se não fosse por mim, os dois teriam saído rolando, porque a discussão já começava a ficar feia quando percebi e fui intervir.

Só deu tempo de gritar pelos seguranças, aí me meti pra separar, o cara me empurrou, eu tropecei pra trás, caí por cima de outra mala, e, Senhor, que vergonha! Meus amigos me ampararam, assim como se meteram no meio pra dar na cara do chatolino que queria pegar a mala de Dani.

Os seguranças iriam levar os dois para o escritório de segurança, pra resolver o caso, aí Dani já com raiva abriu a mala lá mesmo, no meio do saguão de desembarque. O cara ficou tão revoltado por não ser a mala dele, que chutou a de Dani e umas roupas se espalharam pelo chão, até alguns sutiãs e calcinhas, pra completar o mico.

– Pensem pelo lado bom, Bruno não foi detido e o cara tá na pior, já que a bagagem dele foi extraviada. E agora estamos indo para o hotel, descansar.

– Não ri, Flá, senão eu extravio a tua.

Ameaço de brincadeira enquanto me meto no táxi. Acompanhadas pelo segurança até a porta do aeroporto, conseguimos prioridade na fila dos táxis, o que aceitamos de prontidão depois daqueles minutos tensos. Depois que as roupas de Dani, dentre elas algumas íntimas, se espalharam no saguão, Bruno deu de voadora no sujeito e lá foi outra confusão para soltar os dois se engalfinhando e a gente passando mais vergonha.

Dani entra depois de mim, quieta. Flávia fecha a porta após se integrar a nós no banco de trás e dá o endereço para o moço.

– Sorriam, garotas, boas histórias de viagens começam assim.

– E as de terror também. Quer que eu conte?

– Ai, não, Lena, de novo não! Vocês ficaram contando aquelas no aeroporto e depois tavam reclamando que eu tava muito nervosa. Culpa de vocês.

Viro pra Daniela, que já não tá chateada assim. Flávia apenas bufa, sabe que não to falando sério.

– Viu, Dani, não basta ser humilhada, também tem que levar a culpa.

O melhor mesmo era fingir que nada daquilo acontecera... ou daqui uns dias apenas rir daquela cena com certa distância. Flávia tinha razão, era uma boa história. Mas até passar por ela, não, não era.

~;~

Meu pé não inchara, mas doía que era uma beleza quando fazia certos movimentos. Por isso que quando resolvemos sair para o parque de diversões perto do hotel, o que era bom, já que não precisaria pegar táxi, era um programa barato e não muito cansativo (afinal, iríamos acordar cedo para chegar ao local do evento do EREAD), da portaria eu gritei “quem me carrega?” e consegui carona nas costas do Bruno.

Não sei que milagre foi esse que ele parou de resmungar por qualquer coisa, então fiz foi aproveitar, que não sou besta.

Da galera reunida nos dispersamos após o aeroporto em alguns grupos pelos hotéis que fizemos reserva. No Lux Blanche Hotel, ficamos eu, Flávia, Gui, Bruno, Dani, Sávio, Marcinha, Yuri e outras pessoas de várias turmas, dentre elas as de Bruno e Dani.

Como houve umas desistências de última hora, Dani se integrou ao meu quarto que dividiria com Flávia; Bruno com Yuri e mais um cara de sua turma, o que era bem estranho, porque ele não gostava muito de Yuri, mas eu que não ousei falar uma coisa dessas; e Gui permaneceu com Sávio e William, também de nossa turma. Nossos quartos ficavam num mesmo corredor, porém alternados, pois era uma temporada de muitos eventos na cidade e foi muita sorte os desistentes encontrarem vagas em outros hotéis.

Bruno me largou num banquinho perto das barraquinhas de lanche do parque, porque preferi comer primeiro antes de me meter na exploração do parque. O povo se espalhou, restando apenas eu, Sávio, Flávia e Gui. Fiquei mexendo no tornozelo por um tempo, aí Sávio o puxou para o colo de suas pernas e disse que ia fazer massagem.

De repente senti um olhar estranho vindo de minha amiga, do outro lado da mesa. Gui estava tão aéreo, pensando alto quanto a decodificar o padrão da charada que o garçom deixou – pois se o fizesse, teríamos desconto na conta. Sua concentração era tanta que não percebeu nada da interrogação que sua namorada mandava pra mim, que só dei de ombros. Se eu negasse a massagem aí sim pareceria que tenho algo contra e pegaria mal. E aquela massagem, ah, Sávio tinha sabe-se lá de onde conhecimento de como fazer uma, pois quando acabou, meu pé realmente melhorara.

Aí sim ajudamos o resmungão do Gui a resolver a charada, conseguindo nosso descontão para universitários espertos. A charada que é a expressão de Flávia me diz que outra hora eu vou ter que dar um jeito de desfazê-la.

~;~

Preferi não me acabar nos brinquedos como muita gente fazia, principalmente porque a maioria era daqueles de deixar qualquer um enjoado e eu não queria arriscar de vomitar meu jantar. Vimos todos quando uma garota vomitou no vai-e-vem da Barca do Pirata. Foi justificativa o bastante para aqueles que insistiam me chamar para a Montanha-russa. Depois de umas três partidas no carrinho bate-bate, Gui me desafiou na barraca das argolas, aquela que você faz tantos lançamentos de argolas e ganha o prêmio quem tiver mais acertos nos pinos.

Ele me ganhou, deu o ursinho para Flávia. Ao me ver chateada, Bruno disse que ia ganhar um ursinho para mim, Flávia e Dani, de um conjunto de pelúcias que anunciava na barraca do lado, de tiro ao alvo. Só que nessa competição Sávio também entrou na jogada.

E devo dizer, Bruno e Gui eram péssimos. Tão péssimos que eu disse que ia assumir o posto de Bruno e honrá-lo. Gui aumentou a aposta ainda assim, mesmo com Sávio ganhando deles. Só sei que de uma hora para outra só ficou na disputa eu e Sávio. Eu era boa no tiro porque tive que aprender na marra o que é atingir o alvo com uma espingarda no passado. No jogo de paint-ball, quer dizer, não que eu andava armada, credo! Já a experiência de meu amigo, eu não saberia dizer, e nem ele comentava.

– Faltam apenas quatro alvos. Se eu ganhar, Sávio, você vai sapatear na entrada da faculdade junto com o Gui amanhã cedo. E me contar onde aprendeu a atirar assim.

– E se eu ganhar, você vai fazer ula-ula junto com ele. E me contar que sorte de principiante é essa com a espingarda.

Sorte de principiante uma ova, quis dar com a arma na cabeça dele. Mas sei que ele só queria era me distrair. Ambos acertamos um alvo, um terceiro caiu por si só e o último leva bala de nós dois. Com a arma bem próxima de meu rosto, lembrando bem da técnica que um primo distante meu me ensinou para ferrar com Murilo naquele campo de paint-ball, capto um sorrisinho discreto de meu amigo e noto quando ele disfarça.

– Empatados então?

– Por enquanto.

Quando o moço nos entrega o prêmio, dou um para Dani e um para Bruno, de brincadeira, afinal, Flávia tinha o dela e o que acabou recebendo de Sávio, como Gui também, humilhado, recebeu. Iria ficar com o meu para mim, mas aí, para a surpresa de todos, Sávio me deu o ursinho dele, e numa troca justa, lhe dei o meu.

Voltamos todos com nossos “ursinhos carinhosos” de volta para o hotel, sem eu precisar pular nas costas de ninguém. Gui dizia que não iria sapatear na frente de tanta gente, e ameaçamos fazer coisa pior. Na hora de entrar cada um no seu devido quarto, eu cutuquei Sávio:

– Ainda não me disse onde aprendeu a atirar daquele jeito.

– Isso, minha cara, precisa de outra aposta.

E piscou pra mim.

Ah, não me incite, rapaz, que isso é bomba na minha mão.

Já fecho a porta do quarto pensando numa aposta para ganhar dele. E dou de cara com Flávia me avaliando.

~;~

Meu irmão atende quase no último toque, parece ansioso e não é por falar comigo:

– Alô?

– Hey, Muril...

– Eita merda.

– Que tu já fez, coisa?

Disparo sentando no banquinho embaixo da janela do corredor do hotel. Como Flávia entrou pro banho e Dani ficou assistindo tv, preferi sair do quarto para telefonar. Tento abrir um pouco a janela pelo calor que faz, mas parece que tá emperrada.

– É do filme que tô assistindo. A mulher tá fugindo de um cara estranho e... Putz, ele matou dois caras que foram ajudá-la. Mas tu tinha que ligar agora mesmo? Bem na hora que começa o maior suspense do filme?

Puxo mais um pouco a aba da janela de madeira e nada. Coloco o celular entre a orelha e o ombro, equilibro bem e penso em ligar pro namorado, já que tô sendo ignorada por meu próprio irmão.

– Tá, desculpa se eu quero falar com meu amado irmão ingrato. Tchau.

– Nããaao, pera, pera. Eu... vou desligar a tv, só eu achar o controle e... vish, a mulher tá correndo no meio dos patinadores, o assassino tá com o facão na mão e...

– E o quê? Ele consegue alcançá-la?

Não sei por que ainda pergunto se não sei quem é a mulher, o assassino, ou que filme é esse. Desisto de puxar a aba da janela, apenas me acomodo no banco.

– Ela faz uma manobra e o derruba. Cara, foi massa! Ela deu de voadora nele. Tá, achei o controle. Pronto, desliguei. Mano adorado e preocupado on. Como foi a viagem?

Pondero um pouco sobre os acontecimentos lindos no desembarque e prefiro não comentar. Primeiro, porque ele responderia “eu te disse”, segundo, ficaria fazendo perguntas demais e, terceiro, iria abrir o bocão pra todo mundo. E tem a audácia de espalhar que eu sou a culpada pela história da gravidez de Aline.

Pode uma coisa dessas?

Termino por dizer um “foi tudo bem”. Ouço quando ele se joga no sofá.

– Mesmo, mesmo?

– Foi, mano. Nada de... hã... anormal.

Do ponto de vista que os seguranças são treinados para qualquer tipo de situação, então se houve uma, é normal. Talvez não esperado dessa forma, porém, muito bem lidado por eles.

Já não posso dizer bem do cara zangado que chutou a mala da Dani.

– Menos mal. Tá no quarto de hotel?

– No corredor. Achei melhor conversar aqui fora. Saímos mais cedo para um passeio, acabamos de voltar. Fomos num parque aqui perto mesmo. Cadê todo mundo?

– Hum. Mamãe saiu com Djane e Vini tá na aula.

– Que teve por aí?

– Nada demais, acho. Filipe recebeu alta, tá na casa de seu Júlio. Teria ido lá se não fossem minhas condições. Iara me ligou pra avisar que tá tudo bem. Vinícius age como sempre, não pergunta, não diz nada. Armando saiu daqui ainda agora, veio treinar para a apresentação do nosso projeto, já que não vou poder ir junto. Ele tá bem preparado acho. E, ah, a Aline viajou de novo. Me afirmou ser a última viagem... espero que possa espairecer mais esses dias. E... errr... você também.

As últimas palavras saíram quase num sussurro. Entendo, mas fico na dúvida se faço de conta que não sei do que ele está falando. Não é uma boa estando distantes e no telefone. Não é como se conversa fosse fugir, de qualquer maneira, vamos conversar sim sobre, só não agora.

Mas sou teimosa e acabo respondendo bem ao que levantou:

– Como se tu não tivesse incluso, né?

Ouço meu mano inspirar forte do outro lado, ele fica sem como abordar, sinto.

– Lena, então... errrr... eu... aquela conversa... Você devia ter me dito.

Mais uma vez, minha boca parece funcionar primeiro que o cérebro. A razão é deixada de lado, a emoção fala por si.

– Eu disse, Murilo.

– Quase 6 meses depois não conta, Lena. Queria que estivesse aqui, para conversarmos melhor. Se antes já a sentia longe, agora mesmo que...

– Mu, você também me escondeu isso. E por anos. Eu não tô reclamando.

Não pra ele.

– É só que...

Ao fundo ouço Vinícius falando alto “cheguei, família”, o que me faz rir um pouquinho, suspirar mais confortável por essa interrupção. Ouço os dois conversarem brevemente até Vini sacar que sou eu ao telefone. Quase posso ouvir seu sorriso.

– Amor?

E ouço os resmungos de meu irmão, que ignoro.

– Oi.

– Recebeu minhas mensagens?

– Não. Até estranhei. Tem certeza que foram enviadas?

– Agora que mencionou, acho que não. Que tá fazendo? Como foi a viagem?

– Tirei uma folga para ligar pra vocês, avisar que tá tudo bem, a viagem foi boa, estamos bem instalados, fizemos um pequeno passeio, vamos dormir daqui a pouco. Não vou me demorar, ainda vou tomar banho. Só... queria ouvir um pouco vocês.

– Ô amor, assim meu coração fica pequenininho. E do teu irmão também.

Não sei o que os dois estão fazendo, mas se movimentam muito. Não consigo interpretar tudo só pelo que dá pra ouvir através da ligação. Meu irmão faz que não, com uma voz de quem gosta de implicar. Aposto que tá apontando para mim do celular.

– Eu? Foi ela quem nos abandonou.

– Mas tu num para, mano. Deixa de ser fresco e diz logo que tá com saudades.

– Eu num sou fresc...

Vini interrompe. E Murilo discute com ele. Dá pra entender que ele ainda se coça e muito.

– Eu tô saudades do tamanho do universo.

– Hey, eu tava faland...

A porta da sala se abre, interrompendo mais uma vez meu mano. Sei que é a porta, pois ela faz um ruído singular, ainda que baixo de ouvir. Rio ao identificar minha mãe.

– Ei, vocês dois, ajudem a descarregar as compras.

Murilo, como sempre, quer se aproveitar da situação.

– Vai lá, Vini, eu não quero contaminar ninguém.

Aham!

Rio mais ainda por saber que talvez não tenha que me preocupar tanto com mamãe mimando demais meu maninho.

– Murilo Lins, cadê tuas luvas?

– Tirei pra atender o celular.

Nessa deixa, eu grito.

– Oi MANHÊ!

– Milena, filha.

Ruídos e ruídos tomam a ligação, eu não entendo mais nada, fico testando com “Alô? Alô?” pra ver se respondem e, quando penso que a ligação caiu, ou ia cair, mamãe me responde.

– Oi, filha. Tô morrendo de saudades já.

– Que foi essa zoada aí?

– Catei as luvas do teu irmão e o empurrei pra pegar as compras. Murilo anda muito molenga. Vinícius se mostra bem mais disposto e solícito. Teu irmão é uma peça mesmo.

Um “eu ouvi” se ecoa de algum fundo da casa. Tão a cara de Murilo.

Converso com mamãe conforme ela vai dando umas ordenadas para os dois homens de minha vida e até papeio um pouco com Djane. Quando se reúnem pra jantar, sinto que sobro e já ia finalizar quando mamãe meio que sussurra no telefone.

– Espera, eu tenho uma última pergunta.

E isso vindo de minha mãe é altamente suspeito.

Tanto que Murilo também nota, ele diz um “que é que vocês já estão falando? Por que tirou do viva-voz?” ao que mamãe só o ignorou e pediu licença da mesa. Ela vai se movimentando não sei pra onde, talvez o quarto – ou o banheiro? Ouço quando fecha a porta.

– O que é, hein, mãe?

– Filha, se eu te perguntar uma coisa, você será extremamente sincera comigo?

Já pode começar a se preocupar?

– Mãe, que foi?

– É que... Seu irmão tá me escondendo a namorada? Tô aqui há dias e ainda não vi a cara dessa menina. Ele me enrola e diz que não é nada. Ninguém quer me dizer nada. Estão me escondendo algo, posso sentir.

– Mãe, relaxa. Ele não tá escondendo a garota.

– Tá fazendo a mesma coisa que eles, Milena!

– Não, mãe, olha... é só que a Aline tá envolvida com uns trabalhos que tão sugando ela, nada demais, por isso tem viajado muito. Antes mesmo de a senhora aparecer, eu mal via a Aline.

– Meu sétimo sentido de mãe diz que tem algo mais acontecendo.

Porque seu sexto sentido é aquele que consegue adivinhar coisas, como números de loteria ou outros sorteios. Dificilmente ele aponta. Incrivelmente é que quando aponta, esse “sentido” é certeiro. Já ganhei rifa assim.

Só não sei se isso pode ser considerado “sexto sentido de mãe”.

– Já que a senhora insiste, eles... hã... estão meio que brigados. Por isso sugiro que a senhora não procure muito saber sobre, principalmente em conhecê-la. Pode assustar ou algo assim.

– Que ele fez?

Me admiro que ela faz a pergunta certa e não “que ela fez”.

– Isso eu já não sei bem.

Alguém desponta de uma porta no corredor do hotel. Avisto Sávio saindo do seu quarto, ele acena e caminha até mim. Me despeço de mamãe que fala descontroladamente sobre o fato de todo mundo manter essa história no ar.

– Mãe, tenho que ir. Meu amor por você é do tamanho do universo. Pronto, eu disse. Não dê muita trela pro Vinícius, e ai da senhora se contar histórias demais pra ele. Tchau.

Desligo antes que ela possa esticar mais conversa. Meu amigo senta ao meu lado, assiste eu desligar o celular – porque conheço a mãe que tenho – e fica com aquela pergunta muda. Até parece que não lhe contei história alguma sobre minha mãe.

Sei que tenho de voltar para meu quarto, mas saber não é o bastante para me fazer querer levantar e seguir caminho. Aproveito a companhia.

Notas finais
Eita que o negócio já começou bem, hein. E... shippando S2