Mantendo O Equilíbrio - Um Novo Amanhã (T4 + T5)
46 Capítulo 16
Notas iniciais
O que é controlar (ou tentar) uma criança com catapora? O que é controlar MURILO com catapora? Não dá pra oferecer chocolate, sorvete ou brinquedo se ele bem sabe a intenção. Nem dinheiro! — quer dizer, de onde eu tiraria mesmo? A viagem me puxou tudo.
Apesar de eu ter estudado (foi apenas um semestre) Psicologia na faculdade de Administração, essa matéria tá um pouco longe dos meus interesses. Se bem que é bom saber essas coisas quando se trabalha com o consumidor ou representantes de empresa no momento de uma consultoria. Mas não tô falando de trabalho, quero falar é de meu irmão e como é difícil lidar com ele nessas condições.
O mais terrível aconteceu e não tem como escapar. Minha mãe e Djane se juntaram para mimar meu irmão, fazer todas as suas vontades, ouvir cada resmungo, dar uma vida de rei. E eu não concordo com isso.
Não é ciúme, eu juro!
Só acho que estão acostumando-o mal... e que vai sobrar pra mim depois. Murilo pode ter participado de minha criação, mas quem o educa sou eu. E se coçar, mesmo com a desculpa da catapora, é má educação se se faz perante visitas. Ou sendo uma visita.
Sim, mamãe aceitou o convite de ficar um tempo na casa de Djane junto com meu irmão, para que pudessem cuidar bem dele sem ter muito trabalho. Num acesso de loucura eu quase gritei que desistiria da viagem. Mamãe que insistiu para eu ir, afinal, estava tudo pronto.
Só que ele tava abusando delas que eu sei.
Minha mãe nem chegou a ir para minha casa, foi direto para a da minha sogra. Eu, por outro lado, fui para a minha, tinha que avisar dona Bia sobre seus serviços enquanto estivéssemos todos fora. Aproveitei pra descansar um pouco e também trabalhar na minha mala. À noitinha que juntei umas mudas e deixei minha residência.
Quando cheguei na sogra, ela e minha mãe pareciam duas amigas de anos, se entendiam, conversavam muito, riam e ficavam de olho nas suas crias. Mais precisamente Murilo, que tem aproveitado toda essa babação em cima dele. É como destruir todos os anos que batalhei pra colocá-lo no caminho certo.
Alguém, por favor, pode entender meu lado?
Isso sem falar que mamãe tava abrindo o caderno sobre minha infância e Djane seguiu seu exemplo, as duas “costurando” sobre como foi quando eu e Vini pegamos e sobrevivemos à catapora. Vergonhoso demais. Tão vergonhoso que puxei meu namorado de lá sob a desculpa de que precisava arrumar algumas coisas mais sobre a mala.
Se não fosse o bastante todo meu constrangimento, um Murilo todo entalcado e rosado de loção de calamina (aplica-se nas bolhas pra aliviar a coceira e agir como antiinflamatório), com todas as pintinhas evoluídas para bolhas em todo o corpo, quis dar uma de irmão protetor. Na frente da nossa mãe e da minha sogra.
– Tô de olho, viu. Bom não se demorarem...
E eu fiquei lá, na sala, querendo dar cascudo na peste por sua insinuação, coisa que não podia, porque ele, ah, ele tinha dois escudos pra me repreender de prontidão pra qualquer agressão que eu pudesse oferecer. Na verdade eram três, mas Vini se diz em cima do muro. Sei.
Pra não criar outra confusão, meu namorado cedeu seu quarto para mim e minha mãe, dormiu na sala, enquanto meu irmão ficou isolado no quarto de hóspedes e minha sogra em seu próprio quarto. Aposto que se mamãe não tivesse ficado comigo, Murilo teria cogitado um acampamento de vigia, principalmente depois que descobriu que eu e Vini já havíamos dado um passo definitivo na nossa relação.
Mas quer saber qual foi minha real vontade?
Espalhar para os quatro ventos que quem devia tomar cuidado era ele. Só não o fiz por respeito à Aline e porque todos os que tiveram naquela enfermaria na noite fatídica fizeram um “pacto” de não deixar que aquela história vazasse. Em outras palavras, esconder totalmente de qualquer outra pessoa, principalmente mamãe.
Ela bem que poderia ter um treco se descobrisse de maneira tão abrupta... Não merecia, não desse jeito. Isso que me ajudou a ficar calada, mas não me impediu de sair bufando.
– Não sei por que você tá tão chateada... vai ser tão legal. Sempre quis um irmão.
Vou até a geladeira de casa, verificar se tem alimentos que podem estragar. Imersa no ar gelado, vou pegando frutas e outros condimentos. Pela voz de Vini que posso o situar, em algum lugar da cozinha perto de mim.
– Não um que se coça e resmunga toda hora, né?
– Ah, ele tá com catapora, que culpa tem? Isso é bom, porque aí ele vai se distrair mais e vou ganhar nas partidas de videogame.
Reviro os olhos com graça para a caixa de leite.
– Sério, Vini? Você já tá pensando no videogame?
– Claro. E Anderson disse que vai levar uns pra gente.
Será que é assim as festas de pijama dos caras?
Rio besta para os ovos por ter cogitado denominar “festas de pijama dos caras”. Se declarasse isso alto, provavelmente levaria um ovo na cara. Porque os homens nunca se referem dessa maneira. Disfarço comentando sobre essa reuniãozinha, da qual meu namorado parece ter todos os planos.
– Nada de cerveja pra ele, né?
– Até parece que sua mãe e minha mãe deixariam a gente ficar com cerveja...
Responde com vaga decepção.
– Hum. Ainda bem. Não deixa elas paparicarem muito ele.
Vou colocando algumas coisas na mesa, na qual Vini está encostado, só me observando. Tão concentrada nos alimentos, não o vejo mais que pela visão periférica.
– Lena.
– Também não se faz de ciumento. Sabe o que elas adoram essas coisas...
– Lena.
– Tinha algo mais pra dizer... num tô lembrando.
– Lena!
– O quê?
Quando tento me virar – ou quase isso, já que trombo nele – Vinícius me acoberta com seu corpo, apoiando-se com as mãos na ponta da mesa, uma de cada lado meu, fico acuada com sua prisão sem poder virar-me. Como que ele chegou tão perto em tão pouco tempo?
Trilha indicada: The Fray – Look After You
https://www.youtube.com/watch?v=bK2a7pnEH_g
E o que ele acha que vai conseguir sussurrando no pé do meu ouvido assim?
Talvez tudo.
– Tá parecendo uma despedida... E eu não vou me despedir até chegar segunda-feira naquele aeroporto. Me deixa aproveitar esses dois dias, ok?
A prisão se desfaz conforme seus braços se soltam da mesa, suas mãos me seguram firme, nos trazendo um para o outro. Preferiu não me virar para ele, apenas um braço me apertava a cintura, o outro tratava de ser delicado e passeava por debaixo de minha blusa. Senti que desviou do meu rabo de cavalo, plantou beijos leves a minha nuca, mas muito sugestivos, que logo alteraram o meu modo de respirar.
– Vini.
Seu sorriso me beija no espaço sensível da clavícula. Uma alça da blusa cai.
– Temos tempo...
Não era bem isso que eu tinha em mente... Por isso o chamo novamente, mais risonha.
– Vini.
– Eu sei que você quer.
Ah, e como quero. Mas ele não tá vendo que...?
– Vini!
Ele desperta finalmente.
– O quê? Fiz algo errado?
Desde que se tomou como “respeitador” – mas um respeitador seletivo, daqueles que não se sente impedido, apenas “cuidadoso” – meu namorado tem cautela para tudo. Até para o próprio... ato. No dia que pudemos aproveitar para ficarmos juntos, ele planejou cada detalhe, contou com planos Bs e Cs, já que nesse dia eu tive problemas no trabalho. Foi o dia que meu supervisor me dispensou, o que era ruim, porém acabou tendo sua serventia, pois assim pude ficar com Vinícius.
Aconteceu no seu antigo apê, já que não havia outro lugar que podíamos ter tamanha intimidade com segurança e sem interrupções. Fora esse seu grande plano com Iara, para quando ela viajara com Filipe, um pouco antes do Dia das Mães. Além do quarto principal e do ocupado por ela, havia o de hóspedes, onde nos acomodamos.
No começo foi meio estranho, Vini parecia se prender a si mesmo, atencioso, responsável, cuidadoso demais. Do tipo bem exagerado mesmo. Ok que ele queria que fosse tudo ao natural, sem pressa e tal, mas ele tava como um robô, com tudo programado. Aquilo me agoniou.
– Eu não vou me quebrar se me tomar com menos sutileza.
– Só não quero te machucar de alguma maneira.
– Vai me machucar se continuar assim. Melhor, não pense mais. Me olhe... e me beije. Apenas isso.
Se eu não tivesse o parado para dizer isso, ou não haveria relação ou... sei lá. Só sei que isso foi meio que mexer num interruptor interno seu, que acendeu o seu lado mais instintivo, mais apaixonado. Só então me amou da maneira “certa”, deixando o “correto demais” para trás.
A casa agora vazia acabou se tornando sugestiva novamente.
– Claro que não, amor, é só que... se formos adiante, tenho de repor tudo isso na geladeira.
Ele ainda parecia distraído, fitando-me.
– Por quê?
– Porque com a mudança de temperatura pode estragar.
– Ah, isso não faz diferença...
– Quero ver se eu desse uma de fria aqui, se tu num ia sentir a diferença.
Na mesma hora ele me soltou, pegou os alimentos, depositou-os de qualquer jeito, mas que constassem, na refrigeração. Nada como um bom incentivo.
– Opa, opa, já tô botando na geladeira. Não seja por isso.
Num mero segundo que nossos olhos se conectam, noutro mero segundo demos de encontro no escuro das pálpebras. Mais apaixonado me segurou numa pegada, daquelas que se perde o ar e sabe-se que nada poderia ou deveria nos interromper. Tampouco nos separar. Por isso sua camisa foi a primeira a desaparecer.
~;~
Pai amado!
Um delírio de Filipe me salvou. Na verdade foi a mensagem que Iara me mandou, um recurso que consegui usar como desculpa de última hora para o frio na espinha que me paralisou quando vi Vinícius com o caderninho maldito da Hello Kitty na mão.
Mas não digo isso para seu Júlio, nem que o meu coração dentro de caixa torácica falta atravessar tudo, pelo susto que levei. Tomo uma golfada de ar e disfarço, vou assentindo, discreta, conforme ele vai me agradecendo. Mentia por exigência da situação, infelizmente.
– Não precisava ter ido lá, nem entrado para vê-lo.
– Eu sei, eu quis.
Tá, eu quis mesmo.
Uma vez lá no hospital de novo, resolvi logo visitar Filipe no quarto. Não me viu, descansava de sua febre. Parece que a ferida na cabeça inflamou um pouco e ele não se deu bem com o remédio que o médico utilizou. Soube dessa reação do seu organismo por Iara, que hora e outra me manda mensagens, me mantém informada da situação. Essa chegou quando Vinícius dirigia para minha casa, quando fomos lá para algumas coisas pendentes.
Acabou que aproveitamos – e bem – o tempo e o espaço que nos dispunha. Ficaria mais se tivéssemos todo o tempo do mundo. Foi na realidade com muita falta de coragem que Vinícius se levantou da minha cama, isso quando não me puxava de volta, brincalhão e apaixonado. Depois de tudo arrumado, mesmo com tamanha distração, eis que inventei de colocar uma cadeira perto do guarda-roupa para poder colocar uns materiais meus que estavam fora do lugar.
Vinícius, como homem, se ofereceu para colocar ele mesmo, sem deixar de fazer a piadinha sobre eu ser “baixinha”. Mediana, sou mediana, lhe frisei. Basicamente faltava só isso e rever a dispensa. Enquanto alinhava uns livros na estante e Vini fazia seu “serviço de homem” (grande coisa o fato de ele só esticar porque era mais alto), ouvi uma notificação do meu celular que fui checar. Nessa hora me virei para falar não sei o quê, mal havia lido o recado de Iara sobre o estado de Filipe e... estava lá, nas mãos de Vinícius. O caderninho da Hello Kitty.
Acho que até minha alma gelou.
E ele percebeu.
– Milena? O que foi?
Tava muito difícil de disfarçar, o embaralho na minha cabeça era terrível, o caderninho ainda tava lá, nas mãos dele, tão inocente, não tinha noção do que carregava, do quanto ela coisa minúscula representava um peso para mim... Por que ainda guardo isso? Por que não me livro?
– Mi, me diz, o que foi?
Só deu tempo de eu vislumbrar a mensagem no meu celular que permanecia com a luz acesa, na tela, as palavras de Iara. Vinícius se aproximou de mim, sentou o caderninho na minha mesa e me sondou. O fato de ele ter soltado o caderno acho que foi o que oxigenou meu cérebro.
– Não, é que... acho que... eu só... li errado e tive uma má impressão da sms.
– Que impressão?
– Hã...
Inventa!
– Li que... ele estava... errrrr... “desmaiando” e não “delirando”. Sim, Iara escreveu que ele... err... esteve “delirando” da febre, que já passou, mas... quando li, processei “desmaiando” e acho que pirei, porque, Murilo... foi um susto, apenas.
– Ah. Ok... está tudo bem, certo?
Vinícius perguntando do pai? Que mudança brusca.
– Com Filipe?
– Com você, amor.
Bom demais para acreditar. Meu cérebro devia estar em fuso mesmo.
Discreta como nunca, peguei o caderninho e enfiei numa gaveta de minha cômoda, para afastá-lo de Vinícius de vez, que não se tocou do perigo aquilo me representava. Minhas mãos até suaram. Tratei de mudar de assunto rápido.
Já na hora de ir, revi a sms de Iara. Vinícius colocava minhas malas no seu carro enquanto eu permaneci na calçada, além de mim, encarando a tela do meu celular.
– Er... Vini, você ficaria muito chateado se... eu te pedisse que...
– Imagino o que seja.
– Você nem precisa entrar, pode ficar no estacionamento. E prometo não mais falar do assunto.
Titubeou um pouco consigo mesmo antes de assentir, iria me levar no hospital. Filipe não ficaria muito tempo por lá, provavelmente até segunda, no dia da viagem, como Iara comentou quando entrei no quarto dele. O médico por fim mudara a receita, que foi mais aceita pelo organismo de meu chefe. Dei meu apoio a ela, Filipe dormia, fiquei por um breve tempo apenas.
Seu Júlio enverga um pouco a cabeça, abatido.
– Ele não quer nem ouvir falar do caso.
Soa decepcionado com o neto, respira fundo e sinto por ele por cada segundo que expira por seu desapontamento. Lidar com Vinícius não seria fácil por quanto permanecesse essa muralha de divisa de sentimentos. Poderia lhe dizer que Vini fez apenas uma pergunta sobre o pai, no carro, quando saíamos do estacionamento do hospital, porém, prefiro guardar essa informação a mim. Não queria dar uma esperança a este velho senhor se nem eu sabia se isso poderia ser classificado de tal maneira. Tinha minhas dúvidas sobre o que Vini declarara... e quanto ao seu modo de declarar.
“Ele vai sobreviver?” pode significar muitas coisas.
– E acho melhor nem forçar. Seria uma briga desnecessária.
Seu Júlio parece surpreso:
– Vocês discutiram?
– Hã... no começo sim. Agora concordamos em não conversar sobre.
– Acho que farei o mesmo... mas o motivo pelo qual te chamei aqui, Milena, não foi bem esse. Se trata de outra coisa, na realidade.
Como meu irmão tá adoentado e viramos hóspedes na casa de Djane, o almoço de domingo foi transferido. Foi fácil deixar que Murilo retivesse bastante atenção de todos, assim como minha mãe, de visita. Toda curiosa, conversadeira, se bandeou para o lado de minha sogra e vô-sogro, principalmente para conhecê-lo melhor. Foi após a sobremesa, quando as conversas se dispersaram, que seu Júlio me puxou para a varanda.
– O quê então?
– Bom, eu fiquei preocupado com o que... com o que houve naquela noite na enfermaria, com seu irmão. Vocês realmente suspeitavam que...?
A suposta gravidez de Aline, é isso a que se refere.
– Ah. Sim. Foi muito estranho, na verdade.
– E ela não está.
– Não. O que ela tá é bem fula com Murilo. Coisa que, se tratando dele, entendo bem como se sente. Meu irmão tem esse dom de nos deixar loucas por besteira.
Ao tempo que cheguei do hospital meu irmão já dormia. O efeito dos remédios e do próprio vírus o deixava cansado. Isso foi bom porque nem percebeu a hora em que pisamos em casa, assim não frescou nem comigo nem com Vini. Bom, não por isso. Um pouco antes de irmos dormir, um tempo depois de nossas mães terem se retirado, Murilo meio que flagrou um chamego meu com o namorado na sala. Um resmungo seu denunciou sua presença à luz baixa, que nos afastou.
Pra evitar falar sobre isso, perguntei como ele estava, que parecia meio lerdo.
– O médico avisou que eu poderia ficar meio sonolento por causa da combinação do antibiótico da conjuntivite e o antitérmico. A vitamina me deixa enjoado.
– Você dormiu desde aquela hora que saí?
– Não. A Aline veio aqui, conversamos um pouco. Ela ainda tá zangada. Tipo muito. E ainda bem que a essa hora mamãe tinha ido ao mercado com dona Ana, porque não iria prestar se estivesse aqui.
Vinícius deu tapinhas às costas do meu mano, um consolo.
– Ruim assim, é? Sinto muito, cara.
Mas como meu mano já tinha muito mimo, achei que não era necessário de minha parte. Até porque é de minha preferência não acostumá-lo mal. Apenas busquei a água que me pediu e fui direta em minha pergunta.
– Ainda me acusou?
– Claro. Tu que espalhou.
Ah sacana!
– Hey! Tu que ficou com medinho de falar com ela, nem vem. Devia ter tirado a prova, tu que enrolou demais.
Levou uma mão ao peito, ao coração, tocado. Revirei os olhos. Vini só balançou a cabeça em negação para a cena.
– Tava abalado, dá licença?
– E agora?
– Acho que... num sei, já tava pensando na possibilidade e na responsabilidade. É estranho, acho que me acostumei em pensar que ela estava grávida. Pensei sobre tantas coisas, sonhei diversas vezes... Agora me sinto... vazio.
Murilo concluiu com ares melancólicos. Seu estado jururu meio que me atinge, sinto por ele e pela situação. Já tinha mesmo virado algo de grande importância, apesar de sentir perdido em relação a muita coisa.
– Disse isso a ela?
– Aline não me deu brecha. Como eu disse, ela tá muito zangada. E envergonhada. Gritou e tudo comigo.
– Mas houve explicação sobre o mal-entendido?
Bom, no fim das contas, existe mesmo uma grávida nessa história. Não Aline, mas sua chefa, a diretora do centro meteorológico, aquela que tem suas suspeitas sobre meu irmão desde um incidente do ano passado envolvendo fotos constrangedoras em slides de apresentação de uma reunião. Meu irmão nunca se recuperou dessa imagem apesar de seus progressos na empresa. Acho que algumas burrices marcam mesmo.
Isso tá relacionado também aos desaparecimentos repentinos de Aline – o fato de a chefa estar grávida, não de o Murilo carregar o peso de suas burrices. Parece que a diretora havia começado um projeto novo recentemente e teme perder certa credibilidade por saber que em breve terá que tirar licença maternidade. Coisas lá da política da administração do centro de meteorologia. Por isso as viagens repentinas, os sumiços, as urgências. Elas estavam se preparando para o grande momento, como uma forma de garantir o livre andar do processo.
Aline só lhe contou isso por ser de extrema necessidade ante os últimos acontecimentos, pois é segredo. Mas como nem eu nem Vini trabalhamos ou temos a ver com o departamento, meu irmão não viu problema em nos revelar.
Meu vô-sogro se faz enfático, ainda que aos sussurros.
– Mas gravidez não é uma besteira.
– Pois é, se ele já consegue assim, imagina quando o negócio é sério.
– Como ele está quanto a isso?
– Bom... ele também não tá muito feliz.
– Sua mãe já sabe?
– Dependendo de nós, vai saber só no seu octogésimo natal. E olhe lá.
E foi sobre isso que ela reclamou comigo mais tarde.
Não justamente por isso, ainda bem.
~;~
Minha mãe aprendia e deslizava ao mesmo tempo. Eu não era criança mais.
– Devia te deixar sem desenhos por uma semana.
Fez cara de birra ao sentar na cama, ela não havia dormido ainda. Me deitei ao lado quase revirando os olhos para as cobertas, já que dividíamos a cama do meu namorado. Isso definitivamente colocava minha definição de “criança” longe.
– Mãe!
Porém não me impedia de levar as cobertas dos pés ao alto da cabeça. Mamãe repuxou, não havia terminado o que começara. À luz amarelada do abajur vi sua chateação.
– Quando criança, isso resolvia. Tive que saber por Djane, porque minha filha não confia em mim. Sabe quão é terrível pensar que todos sabem de tudo e você não?
Parecia o Gui discutindo comigo.
– Olha, mãe, pensa no meu lado, como eu poderia lhe dizer todas essas coisas? Me diz se a senhora não diria para me afastar deles, hein? Eu os amo demais para ter que brigar com a senhora por isso.
– Mas filha, essa história sobre esse tal de Filipe e aversão de Vini a respeito... poxa, Milena, custava ter me dito que ele era filho adotado? Que Djane é a tia que o adotou?
– Faria diferença em quê? Isso muda alguma forma de vê-los?
– Não... quero dizer que parece que há tanta informação e fico boiando. É uma longa história, ok, vocês queriam se preservar, ok, mas... entende? A família Garra nos consideram da família também, e para fazer parte, eu tenho que saber.
Termino por suspirar... minha mãe tem razão. Ou soube me convencer.
– Se eu prometer que conto tudo a respeito, a senhora deixa eu me cobrir? Tá frio aqui.
Com seu sorriso, ela mesma me cobriu para depois se aconchegar a mim. Combinei que diria a história por completo, como descobri, como as coisas foram se desenrolando e faria após minha viagem, pois havia pouco tempo até embarcar e ela não queria gastar com “bobagem”.
– Agora a senhora diz bobagem, né?
– Entre ficar com minha filhota e descobrir histórias de novela, prefiro você.
– Mãe!
Brincadeiras à parte, aos poucos fui me deixando levar pelo sono. Acreditava que ela já dormia, até ouvir sua voz calma e baixa perto de mim, e um carinho dela vir:
– Sei que tem que ir, mas não o quero.
– Mãe...
– Vim aqui ver os dois.
– E a senhora me viu. Agora tem que cuidar do outro.
– Só queria poder dizer alto o que pensei o dia todo, mesmo que não mudasse nada. Desde o começo apoiei, não seria agora que daria para trás.
Outro Lins poderia mudar de ideia, penso comigo. Isso se não estivesse remoendo a resposta que lhe dei minutos atrás antes me recolher para o quarto. Após um boa noite que cedi a Vini na sua cama improvisada – o sofá – dei uma passada no quarto de hóspedes onde meu mano se preparava para dormir novamente. Fui para avisá-lo sobre os updates que ele receberia de Aline, já que no meio tempo da viagem, se ocorresse algo, Murilo deveria tomar partido. E se acontecesse algo sério mesmo, que me ligasse.
Só que ele acabou levando para outros lados...
– E você, vai ligar se algo acontecer?
Parei de coçar suas costas com sua escova de cabelo na mesma hora – mamãe e Djane colocaram luvas em suas mãos para evitar que ele se coçasse demais e isso implicasse em ferimentos. Não larga da escova desde então.
– Nada vai acontecer, maninho.
Ele pareceu tenso, mais uma vez preocupado.
– Mas se tiver... Você vai ligar?
– Mu, não começa não.
Para não dar espaço a essa conversa, mudei um pouco, quis soar brincalhona. Cabisbaixo ele permaneceu, enquanto eu, sentada logo atrás dele, voltei a lhe coçar as costas com a escova com delicadeza.
– E vê se não pega hepatite também enquanto eu tiver fora, tu vai te virar.
– Não vai então.
– Já paguei tudo, Murilo.
– Te reembolso.
– Já disse que não vou demorar, para com isso.
– Só... não quero que você vá.
Sei que tenta a todo custo me dissuadir, que não gosta nem aprova o fato de eu fazer essa viagem, que fica muito preocupado e tal, já tivemos diversas discussões e brigas feias por causa disso, já nos resolvemos e ele sempre voltava ao mesmo ponto, não adiantava. Tento a todo custo não me chatear, mas desse jeito, fica muito difícil.
Eu preciso respirar outros ares, e ele precisa entender que não vou viver debaixo de seus quereres. Guardei por muito tempo uma descoberta e, como já estávamos nas últimas dessa conversa, senti que estava na hora de revelar minha ciência no caso.
Suspirei antes de mais nada, a escova pendeu em minha mão.
– Só porque você tem trauma de proteção comigo não quer dizer que eu tenha que me submeter a isso, tá. E quer saber? Ouvi aquela sua conversa com Vini, aquela na madrugada em que...
Mal comecei e meu mano ficou todo rijo e... acho que até parou de respirar por um instante. Mesmo de costas para mim, consegui ver através de seus poucos movimentos. Quer dizer, seu efeito estátua.
– O q...?
– Por que você acha que aquela foi a única vez que te olhei nos olhos durante uma crise? Que olhei diretamente pra você? Estava desorientada, mas desperta. E ouvi do início até onde acredito ter sido o fim...
Murilo não ousou se virar, ficou lá, fitando a parede, sem fala alguma. Sabia que naquela sua cabecinha tudo maquinava, pois cheguei a ver como trincara a mandíbula e como esse leve movimento franzia sua testa, ainda que estivesse às suas costas, pois via um pouco de seu perfil. E assim eu saí do quarto de hóspedes.
– Vai me ligar todos os dias?
– A senhora fala como se eu fosse passar um mês fora.
– É que vocês já passam tanto tempo fora, que até uma horinha pra mim me bate saudades. Não vou desgrudar de você até amanhã, tá me ouvindo? E nada de reclamar, tô no meu direito.
Eu também estava no meu direito de aproveitar esses mimos dela, então me dei por vencida. Me deu um beijo de boa noite na testa, me abraçou apertado, me trouxe mais para si e assim adormecemos.
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