Notas iniciais
OLHA CAPÍTULO NOVO NA ÁREA! bora ver se vem um terceiro nesse combo :D

Preciso repetir o que acabei de dizer vez que o Murilo só fica me encarando.

— Preciso ver a Flávia. Preciso que me leve lá.

— Aconteceu... alguma coisa?

Ele dá sinal em sua expressão cuidadosa, vez que mamãe está logo mais atrás dele no espaço do quarto. Enquanto isso, já vou observando coisas para separar pra ir correr pro meu banho e pra essa saída repentina.

— Mais ou menos. Eu li o e-mail dela e...

Murilo me interrompe, não gostando muito do papo. Ele se aproxima em conflito.

— Pois não devia, Lena. Não agora, não com você tendo...

Mais certa do que tô fazendo e do porquê tô me propondo a fazer, também atravesso o que ele me fala.

— Agora já foi. Preciso ir lá.

Desgostoso disso, meu irmão faz outra proposta. Se não é pra me dissuadir, é pra ir com calma. Só que não tem espaço mais de espera.

— Podemos ir amanhã, pode ser?

Não acredito no que vou dizer, mas digo:

— Murilo, eu vou lá, com ou sem você. Tá me entendendo?

Ele fica sem jeito, claro.

— Mana...

Suspiro, também desgostosa e impaciente disso.

— Cadê o Vini?

— Ele teve que dar uma saída. Algum problema com o carro de Djane, não sei.

De pé, mantenho as mãos na cintura, pensativa sobre minhas possibilidades e sobre quem estaria disposto a seguir nessa comigo.

— Então eu ligo pra Iara. Pro Sávio. Ou pro Brun... Não, pera, o Bruno não sab... Não, agora ele sabe também. E tô nem aí de interromper o dia deles. Porque quando eles virem isso, eles também não vão se importar.

Eu já não sabia mais como me movimentar dentro desse círculo.

De todas as coisas pesadas contidas no e-mail, essa declaração da Flávia resume toda a carga de como ela esteve sozinha também, segurando uma barra sem saber como segurar. O texto volta na minha cabeça, só que não revolvendo as coisas ruins; pelo contrário, revolve o que há de bom em mim para deixar o restante para trás e agir.

Mas tá sendo difícil pro Murilo ver essa ação em mim.

— Lena...

Então eu vou ter que expor isso de maneira mais assertiva. Pego o celular e entrego pra ele exatamente na parte que a Flávia fala sobre o susto e o plano dos caras e como foi descoberto. Como ela teve que lidar com isso.

— Olha isso.

Murilo lê rápido e ainda assim fica incerto, de vistas baixas.

— Eu sei que é difícil, mas temos que cuidar primeiro de você. Aqui. Você não vai resolver nada disso agora e nem lá. Lembra do Natal?

Nesse ponto entendo o que tá está o segurando. A maneira como fiquei após a descoberta, de como me fechei pro mundo, como tive que ficar ausente, reclusa, dilacerada. E no Natal, depois do que foi aquele encontro, tive também uns períodos em baixa. Ele não quer isso. Eu também não.

— Eu sei que tu ficou mal depois do Natal, porque me levou lá e... Mas isso aqui, é tudo aquilo que tu mesmo me falou antes de ir, lembra? De como a Flávia tava num estado... triste. E abatida. Sem vida. De como essa imagem te afetou e por isso tu tentou amenizar. Fazer alguma coisa a respeito. E eu reagi do modo que eu pude, pelo que eu sabia naquele momento. Mas com isso aqui... Eu preciso ir lá.

Dou um passo para me aproximar dele.

— Preciso ir ver minha amiga. Eu não tô perdoando ela e isso a gente vai ter o ano todo pra rever e lidar. Mas isso aqui... Isso é outra coisa. Tem mágoa e tem carinho, lembra? É também como o dia da escada de novo. Eu sei que não vou resolver e nem cabe a mim resolver, que isso nem no meu alcance tá. Mas eu preciso ir. Assim como você precisou ir me ver quando eu fugi. Precisou ir me ver quando descobriu a grande verdade.

Sei que toquei no ponto certo por como ele baixa os olhos de mim, quieto. Não é como se eu estivesse usando ele contra ele mesmo, tô usando o que tenho pra que veja não há como deixar isso pra trás. Que há razões fortes demais me movendo. E só toquei nessa questão, da verdade que ele descobriu sobre a Denise, porque foi algo que acabei revelando pra mamãe minutos atrás. Mas como ele fica silencioso demais, taciturno nível envergonhado, sei que pesei um pouco no argumento, porque expus ele no meio do caminho. Assim, esclareço:

— Mamãe já sabe sobre minha fuga. Uma parte, pelo menos. Eu contei, mano. Pra você ver, eu contei. Você teve sua explosão no outro dia e eu tive a minha... de coisas que precisavam ser vomitadas. Coisas que ficaram entaladas tempo demais. E vocês podem conversar sobre isso em outro momento. Tem coisas também que ainda não dá pra falar e ela tá disposta a esperar. Tem, aliás, tempo pra esperar. Mas isso aqui... Não dá mais pra esperar.

Balanço o celular ao alto chamando mais e mais de sua atenção. Enquanto ele assimila o que digo, injeto mais condições para que me deixe passar nessa.

— Eu te dou todos os passes em branco, todos os passes livres que quiser. Eu sei que a gente combinou de não mais barganhar ou apostar coisas ou... fazer acordos. Isso não é mais um jogo, tá legal? Eu tô te dando a liberdade... e certa autoridade... sobre mim. Autoridade sobre certos limites. Mas não nessa questão aqui.

Aponto para a tela do celular de novo, visto que tenho sua atenção direta.

— Se quiser cronometrar o tempo que eu estiver lá, vá em frente. Me limita se preciso. Depois disso, pode me trancar, pode me vigiar, pode tacar comida goela abaixo. Eu não vou deixar de comer ou de existir e eu tô te prometendo isso. Tô te entregando isso. Pode fazer tudo isso comigo.

Mamãe então intervém, segurando o Murilo pelos ombros, pra me apoiar nessa.

— Acho que ela não vai desistir, filho. É melhor ir junto, como tá sendo proposto. É melhor atender esse pedido.

Meu irmão vira o rosto para corresponder a nossa mãe e ouço o que fala, mesmo que seja baixinho.

— Não sei se isso é o melhor pra ela agora.

Esse é outro ponto crucial, percebo. Quando precisou me resgatar, ele teve que bater nessa tecla. De focar no que era o melhor pra mim. Apesar de seus medos e receios e conflitos, tudo o que tentou estava voltado para isso. Nem sempre Murilo acertou, mas sempre tentou. É a última amarra que tá o segurando.

Suspiro, dando-me mais conta do que estou fazendo. E preciso dizer isso pra ele. É uma exposição e dessa vez uma autoexposição com propósito.

— Esses dias, Mu... Eu fiz uma coisa horrível: eu torci pra você se ferir. Queimar o braço, bater com a cabeça, escorregar... o que fosse. Torci pro Vini se machucar também. Esperei acontecer alguma coisa com alguém, entende? Pra eu poder fugir de mim mesma. Porque eu funcionei assim por muito tempo. E eu sei que isso aqui tá me fazendo agir. Só que, diferente das outras vezes, não é pra que eu possa fugir ou me esconder. Eu acho que isso pode me ajudar. Não sei dizer como propriamente, só sei que tá me dando foco. Eu sei o que fazer e por que devo fazer. Isso tá me impulsionando. Eu não vou fugir de mim. Eu não vou ignorar mais nada. Eu não vou mais hesitar nas coisas que tenho que fazer por mim. Se você me pedir alguma coisa, e mandar até, eu não vou nem questionar. Eu vou lidar da maneira mais compenetrada que puder.

É apenas o acordo mais surreal que já propus a ele. E me sinto muito firme nisso.

Murilo meneia a cabeça, balançado e reflexivo. Quase dá pra ver o maquinário dentro dele se movendo conforme sua expressão vai mudando, assimilando cada coisa. Entre o incerto e o firme, ele me dá uma última oportunidade. Se é pra me testar, que seja.

— Tem certeza? Preciso dessa confirmação. Me diz isso.

— Tenho total ciência do que tô propondo e do que tô falando. Me leva lá.

Ele assente por fim.

— Tá. Então vou usar meu passe livre. Vamos depois do almoço. Você vai comer antes de sair e vai comer bem. Vai ligar pra Flávia só depois de sair da mesa. Eu vou te levar. E não vai falar sobre isso com ninguém, não por enquanto. Depois eu me viro com o Vini. E vai de fone. O grande e o pequeno. E nenhuma dessas condições é discutível.

Determinada, confirmo.

— Tudo bem. Pode mandar mais termos se quiser.

Seu semblante se suaviza nesse ponto.

— Posso pensar em alguns daqui pra lá. Agora só quero um abraço.

Não hesito. Não porque é uma ordem ou um pedido. É uma necessidade e que também preciso suprir por mim. Abraço seu corpo e sinto também mamãe próxima de nós, num abraço coletivo. Em algum tempo assim, Murilo solta:

— Você é incrível, sabia?

Assimilo com mais clareza isso.

— Acho que agora que eu tô sacando isso.

— Percebeu que tua articulação tá bem melhor hoje?

Levanto a cabeça de repente e pisco diante dessa noção. As conexões no meu cérebro se encontram mais rápidas e ágeis e... mais claras.

— Acho que é porque eu consegui dormir... E só pude dormir porque você... Você também foi incrível comigo. E segue sendo incrível comigo. Vocês todos.

— É por isso que a gente quer cuidar do teu sono e da tua alimentação. Ajustar o mínimo do físico pra manter a ordem nessa cabecinha. Precisa estar inteira pra poder fazer outras coisas. Como ser essa pessoa gigante que tu é.

Mamãe endossa, meio empolgada, meio emocionada.

— Isso mesmo, filhota.

Meus olhos enchem junto e, divergente das outras vezes, é de um sentimento muito positivo. Sei que tenho que ir pro banho e aprontar minhas coisas, meu suporte do pé, o celular, a bolsa, os fones, o mp4... mas me dedico nesse minuto às minhas criaturas preferidas do mundo.

— Eu amo vocês e amo como cuidam bem de mim. Obrigada por tudo isso.

Mamãe e Murilo falam uníssonos, para então rirem acanhados depois.

— Disponha.

~;~

Como dito e regulamentado pelo meu irmão, tomei meu banho sem pressa, troquei de roupa, separei meus materiais e ainda espiei o que ele terminava de fazer na cozinha. Estava um cheirinho bem gostoso. Almoçamos juntos os três, mais leves e soltos. O Vinícius até ligou um pouco antes de a gente ir pra mesa, disse que ia almoçar com a mãe.

Ele não falou muita coisa sobre o problema do carro de Djane, mas avisou que voltaria, provavelmente no começo da noite. Na verdade, queria saber mais como eu tava, porque ele viu o rolo de papel higiênico que mamãe colocou naquela hora na bandeja, e isso ficou na mente dele. Até o Murilo o tranquilizou nisso. Tava tudo bem.

Mesmo.

Meu mano inclusive me acompanhou na hora que fiz a ligação importante do dia.

- Alô?

- Oi... Flávia.

- Oi... Lena. Quer dizer, Milena.

- Você... hmmm... Tá em casa?

- Tô sim.

- Já almoçou?

Nesse ponto da comunicação, vi que muito de nossas últimas conversas pontuavam isso como sinal de desejar o bem-estar e mostrar que nem tudo estava perdido. Parecia bobo, mas era uma maneira de me certificar que ela estava se cuidando. Porque precisava de cuidados mesmo.

- Já sssim. E tô comendo em todas as refeições... e não deixando passar nenhum horário.

Murilo me sorriu em sinal positivo por essa relação. Também sinto isso em mim.

No que hesito, não é nem por mim, é para encontrar as palavras que quero para introduzir o assunto. Desde o começo da ligação, a Flávia se mostrou bem vacilante e nervosa e uma coisa que não quero é agitá-la. Mas pelo que vejo, é melhor que eu seja direta.

- Então... Li o seu e-mail.

Do que vem do outro lado da linha é seu suspiro baixo, de susto, e nada mais. Assim preencho a ligação.

- Eu vou aí, tá? Te adianto que não precisa explicar mais nada. Só quero te ver. E você ainda me merece muito. Você ainda vale tudo isso.

Sei que ela prendeu a emoção, porque deu pra ouvir um pouco disso também. Ela tentou ser o mais firme que poderia.

- Tudo bem... Fic... F-fico na sua esp...

Daí lembrei de uma coisa e interrompi ela, olhando pro Murilo nessa parte.

- Tenho um pedido, no entanto. O... Aguinaldo tá aí?

- Não. Você quer que eu...?

- Não. Não chama. Deixa ele de fora agora. O meu papo com ele é pra outro momento. Agora eu só quero te ver e te abraçar, tá bom? Só isso, sem preocupações. Sem outras expectativas. Tá bom?

Até eu achei que me demorei me explicando, mas acho que é assim mesmo. Faz parte.

- T-tá bom. Te espero então.

- Te vejo em alguns minutos.

Termino de tirar o ar do saco que coloquei envolta do meu pé e tornozelo. Como teria que sair com a tornozeleira, e tá caindo um pé d´água na cidade, mamãe inventou um arranjo de saco e plástico filme para proteger o suporte ortopédico. Pra completar, escolhi a sandália rasteirinha menos lisa pra fazer algum tipo de tração e trava pra eu não deslizar e me estabacar de novo.

Quando mamãe chega com o plástico filme para encobrir, chega também com certos receios e inquietudes.

— Posso fazer uma perguntinha?

— Pode.

Puxo o rolo da caixa e me sento melhor à beirada da cama para fazer a camada de proteção extra. Mamãe se senta também para trabalhar melhor no material.

— Quando você falou... que tava acontecendo umas coisas na faculdade... não era de ordem administrativa, era?

Vislumbro a expressão questionadora de mamãe enquanto puxa o plástico e já começa a espalhar por cima da sacola, a começar pelo ponto baixo da perna para o tornozelo. Decido ser franca.

— Não.

— Alguém tentou... se ferir?

Nesse ponto ela pausa, mesmo que com as mãos na minha perna. Lembro do que foi o caso que ela comentou na roda natalina, sobre o que aconteceu na escola em que trabalha e como isso a afetou. Esclareço sobre isso também, na medida do possível.

— Não, completamente não. Mas houve gente machucada de verdade. Do tipo ficar refém de alguém. E teve aluno que foi preso.

Isso faz com que seus olhos corram em pensamentos e teorias.

— Algo tipo corrupção?

— De certa forma, acho? Não posso dizer mais do que isso, desculpa.

Mamãe se volta para meu pé e passa o plástico por meu calcanhar, mais comedida sobre o que lhe apertava o coração. Resignada até.

— Tudo bem. Mas posso perguntar se isso teve a ver com a sua queda na escada?

Em outro momento, essa questão teria sido difícil de responder e eu teria que recorrer a vários meandros. Não mais agora, que posso ser firme, direta e aberta. Explicativa também, embora com poucos detalhes.

— Muito em parte... sim. Acabou sendo uma coincidência que a professora enviou eu e a Flávia para carregar o retroprojetor, pra levar pra secretaria, e aí a gente... Demos de encontro com uma situação. O que fez a máquina tombar e aí caiu por cima de mim, na escada. A Flávia também se machucou.

Ela, no entanto, machucou-se mais em ordem psicológica do que física, embora tenha estado fisicamente em perigo, vez que o Pompeu a segurou pelo pescoço e detinha uma faca às suas costas.

Mamãe outra vez pausa e no que para, segurando meu pé, sonda com calma uma questão crucial:

— Era algo... perigoso... a situação?

Muito certa do que tô fazendo, respondo sem precisar pensar duas vezes.

— Essa eu não posso dizer nem que não, nem que sim.

Dona Helena suspira, retomando o arranjo com cuidado, para que meu pé também não ficasse preso demais aos plásticos, nem prejudicasse a circulação sanguínea. Com a certeza de que o caso não envolveu pessoas machucando a si mesmas, ela se mostra mais leve.

— Tudo bem, já disse bastante coisa.

Finalizada a composição, testo logo na sandalinha e o plástico filme se revela um excelente aderente para a situação. Mamãe assiste o processo e parece mesmo ficar satisfeita com o resultado – de tudo o que este dia lhe apresentou.

Por fim, pego minha bolsa e puxo ela pelas mãos, para que se apresse.

— Vem, mãe!

Só que dona Helena se espanta, desnorteada, ao entender a proposta.

— E eu vou?!

— É claro que vai! E nem digo isso no sentido de ficar de olho no Murilo. A senhora vai porque é uma Lins Albuquerque Camargo Oliveira. E vai pra segurar a minha mão e colocar minha cabeça no lugar se preciso. Tô te dando esse espaço de ação também.

Mais do que satisfeita, ela fica exultante pela oportunidade.

— Então eu vou. E vou pegar as capas de chuva.

— A gente tem capa de chuva?

A senhora minha mãe passa na minha frente a passos ligeiros pelo corredor, não sem antes me responder, bem agradada:

— Comprei naquele dia do passeio com Muline.

— Perfeito então!

Andando na garagem, os três já vestidos com as capas, a chuva parece ficar mais intensa. Esteve desde cedo assim, chiando, aumentando e aliviando a dose, mantendo certa constância às vezes. Sem trovões. Mas só quando avisto o céu fechado e escuro que percebo o que terei de enfrentar. E que estou confiante de enfrentar.

Murilo escolhe esse momento para me dar uma última saída:

— Se quiser ficar, a gente vai entender.

Observo os pingões fortes que batem no terraço e respondo, determinada:

— Valeu, mas eu vou em frente. Eu sei que eu tô pedindo muito e fico realmente agradecida pelo apoio. Dos dois. Confio nos dois.

Entro no banco de trás junto de mamãe e já pego o mp4 da bolsa. Embora esteja com o fone grande ao redor do pescoço (para qualquer emergência), prefiro manter algum som aberto ao carro. Enquanto Murilo dá ré e manobra o carro para sair, ligo o aparelhinho e escolho um dos áudios leves.

Passo alguns minutos, vez que as músicas mais amenas (não tão lentas ou de relaxamento) ficam mais da metade pro final do áudio. Logo uma bem conhecida toma o espaço e eu me sinto mais segura para me soltar no banco, para não me corroer de ansiedade, nem contar todos os minutos do caminho.

Alanis Morrissete — Everything

Arrisco estender um pouco do jogo de músicas:

— Lembra do clipe dessa música, Mu?

Sem deixar de olhar para frente, ele só vira um pouco do rosto, falando por cima do ombro.

— É Alanis, né?

— Sim. Everything. Cantei essa aqui com a Daniela quando ela veio me visitar.

Mamãe, abraçada de lado comigo, segue o papo:

— E não cantaram pra gente.

— Na próxima vez que ela aparecer, já sei qual pedir. Acho que a senhora vai gostar muito do clipe dessa. É simples, mas criativo.

— Acho que vou é querer uma cópia dessas músicas pra mim!

Nem o fato de o chiado da chuva aumentar diminui a leveza que sinto com os dois. Mas como abafa mais, preciso aumentar um pouco o volume do player.

— Quer que eu plugue aqui?

— Acho que não tô com o cabo de conexão.

— E o pen-drive?

Ele realmente pensou nas possibilidades quando me deu esse presente. Lembro do pen-drive na bolsa e entrego pro Murilo, que logo encaixa no painel de som. Seguindo a mesma estratégia, ele passa os primeiros minutos de um áudio que abre e uma nova música se expande ao veículo.

Roxette – It Must Have Been Love (1:25)

— Essa eu dançava com o pai de vocês em tudo que era festa!

— Sabe qual é essa, mana?

— Peraí que o nome ainda tá vindo. Eu acho que toca até em Dawson’s Creek? Ou algo muito parecido.

— Posso dar uma dica? Posso, posso, posso?

Antes que mamãe possa soltar qualquer coisa mais, o título me vem pelo refrão mesmo, que solto no ritmo conforme rola.

It Must Have Been Love! Tinha uma versão em espanhol, não era?

— O pai de vocês gosta mais dessa em espanhol. No se si es amor.

Murilo se surpreende com essa.

— E a senhora sabe espanhol desde quando?

— Desde quando o Otávio se esgoelava pra cantar essa. Ele tinha o CD, não lembra não? Nossa, parece que posso ver o pai de vocês dirigindo e levando a gente pro clube. A Milena já era nascida. Devia ter uns quatro ou cinco anos.

Essa é uma memória que não consigo puxar e tudo bem. Até porque é bem antiga.

— E o papai cantava mesmo?

— Arranhava, mas cantava, o malandro.

Me permito rir um pouco de como ela fala do meu malandro pai. Talvez conte a ele, talvez.

— Vou cobrar dele, ó. Porque eu não tenho memória dele cantando assim.

Em reflexo, Murilo usa o mesmo argumento, me instigando em outra questão.

— E eu vou cobrar de ti a artista, porque ainda não disse qual é. Tá só com 2 pontos.

— Dois pontos de quê?

— Por ter adivinhado o nome da música.

— Mas eu também falei a da Alanis.

— E eu revelei sem querer que era Alanis. Então começo a contar a partir da... da...

— Roxette.

— Quatro pontos!

E assim seguimos, sem expectativas, sem grandes pretensões, nem preocupações a respeito das grandes questões à espreita – ou melhor, em nossa companhia.

~;~

Avisto a Flávia logo que o Murilo dobra a rua dela, de sombrinha vermelha na porta para a calçada. Com meus nove pontos e completamente distante da ansiedade agoniada que foi o Natal, sinto algo bom. Um reencontro mais sadio e seguro.

Vez que corre muita água na rua, meu irmão estaciona por cima da calçada mesmo, para ficar o mais próximo da porta possível. Ainda assim, é preciso que ele me carregue para fora do carro, para não molhar o principal. Mesmo com todo o arranjo plástico me cobrindo o pé e perna, alguma água pode atravessar a barreira. A Flávia também nos acompanha com a sombrinha, apesar de estarmos de capas. Desse modo, quando piso ao chão já estou no terraço da casa dela, que nos assiste entrar num misto temeroso de inquietação e nervosismo, tal qual da última vez.

Assim que removemos as capas de chuva e colocamos num varal próximo, mamãe é a primeira a quebrar o gelo, cumprimentando a tensa anfitriã com um beijo e um abraço mais caloroso. Flávia parece enternecer um tantinho e acho isso bom. Me faz bem vê-la tendo um alívio desses.

— Entrem, entrem.

Mamãe vai na frente, mas o Murilo pausa um segundo para me consultar:

— Entro com vocês?

Pra todo caso, também pergunto:

— É um termo?

— Não.

Mas eu quero demonstrar que ele tem essa passagem.

— Você pode, se quiser.

— Não precisa, acho que vamos ficar por aqui.

Vez que mamãe fica sem saber se entra ou não, a Flávia mesmo reforça o convite.

— Podem ficar na sala, que tá... errrr... bem melhor. Meus pais estão em casa.

— Tudo bem.

Entramos juntos e o pai da Flávia vem nos cumprimentar. Logo mais a mãe dela também aparece, animada, oferecendo-nos uma sobremesa. Dispenso dizendo para depois ela me fazer essa mesma pergunta, o que causa um riso em grupo e assim eu posso escapar com a filha deles. Tomo a mão da Flávia para me apoiar e andar.

Também diferente da outra vez, consigo firmar melhor o pé e dar passadas mais rápidas. Mantenho apenas o local anterior, o quarto de sua irmã, porque prefiro um local neutro para o momento. Mal entramos, eu a abraço, desses abraços que envolve a pessoa pelo pescoço e se gruda nela. Flávia quase esmorece em resposta, demorando-se a me envolver de volta. Entendo que também reúna forças para me corresponder e reagir.

— Não chora.

Sei que é um pedido em vão, mas ela tenta se estabilizar.

— Recebi... sssseu recado... O que enviou pela Iara. E também... Também o que vocês descobriram... sobre a operação. Obrigada. Desculpa se te assustei... desculpa por...

Me vejo no seu lugar esta manhã, em que pedi mil desculpas pra minha mãe sobre o que escondi e tudo o que me alvoraçava. Fiz muita besteira. Muita mesmo. Muita coisa de que não me orgulho e de que me arrependo. Assumir isso foi o real alívio de minha tormenta. Principalmente porque a resposta de mamãe foi de compreensão, aceitação e amparo. Estando do “outro lado da mesa”, faço o mesmo que Dona Helena. Me desvencilho para interromper a Flávia e a encarar, mais ajuizada do que quero com isso.

— Sem mais desculpas, tá? Ou pelo menos não agora.

Isso assusta a Flávia de um jeito inesperado.

— Você tá... m-me perdoan...?

Deixo meus braços caírem pelos seus e alcanço suas mãos geladas nas minhas. Seria honesta mais uma vez neste dia sobre essa situação nossa.

— Não. Não ainda. Isso a gente vai ver durante o ano. Mas ainda sou sua amiga e entendo o que você fez. Que esteve entre a cruz e a espada e teve que ser atriz, que não havia muita escolha.

Eu não sei nem como segurei isso, só sei que segurei. Usei o próprio atentado, incidente, assalto, que seja, para disfarçar de todos. Não havia muito a ser feito – disse ela no texto do e-mail. Eu já tava para além de desorientada pela merda que fiz com você, que eu não sabia como explicar a você.

Quando o Murilo veio com o papo sobre o estado da Flávia e viemos testar o território no Natal, lembro que uma de suas conjecturas era sobre o comportamento dela, de seu silêncio temeroso demais para se abrir.

Ela teve muito medo quando pegou aquele caderninho e entregou pro Vini, pra nos alertar da situação. Eu sei que vocês se entenderam, mas já pensou no real medo que a Flávia sentiu? E no que sentiu agora?

A teoria dele é que o silêncio-mor dela talvez fosse seu indício do quanto precisou de alguém para colocar a cabeça no lugar. Ou para apontar uma direção. Que ela precisava de fato de alguém para estar com ela. E acontece que não houve exatamente esse alguém.

Porque nem com o Aguinaldo ela podia contar, já que ele não sabia e a dona Alba exigiu segredo dela. Então ela também teve sua barreira. E precisou de um adulto mais ponderado ou sensato. Não pra julgar ou pra dar ordens. Era pra acolher.

Assim como ela tentou, acho. Quando sentiu que eu precisava. Alguém para agir.

Achei que eu poderia ser essa pessoa. Mas deu errado. Muito errado.

Lembro ainda do que o Murilo pontuou no outro dia. Não deixo de pensar no tempo que a gente perdeu da gente mesmo por um raio de má comunicação. Assim, ele deixou no ar que a linguagem do medo e dos segredosé uma linguagem silenciosa.

O que converge com meu pensamento desta manhã, de que nem mesmo (ter) força significa achar as palavras certas. No final das contas, as circunstâncias nos levaram a situações extremas mesmo.

— Entendo que você ficou sem ação sobre o que a mãe do Aguinaldo pediu.

Flávia abaixa as vistas de mim, recriminando-se, apreensiva.

— Eu não devia ter falado sobre isso. Não devia ter contado.

Aperto sua mão na minha para lhe chamar atenção.

— Devia sim. Devia ter contado e não só pra mim.

Suspiro por ver que ela segue carregando essa montanha de medo e culpa. Carregando assim como me mantive todo esse tempo. Num misto de medo e vergonha, muita vergonha. Que achei que não teria como acolher em mim, mas segurei bem mais do que devia.

Assistindo isso do “outro lado”, lembro também do que a Dani falou no nosso último encontro, enquanto juntávamos as peças e acontecimentos todos. É difícil olhar para isso e não reagir, mas é ainda mais complicado não saber.

A Flávia mais do que precisa saber do que há em meu coração agora.

Assim continuo:

— Não devia ter carregado tudo isso sozinha, Flá. No outro dia, quando estava com os outros, a gente juntando os pedaços da história, uma coisa ficou muito evidente: todo mundo tentou proteger um ao outro sem o outro saber. A gente sempre se protegeu. Não hesitou. Mas a merda é que a gente não conversava sobre isso. Por medo. Muito medo. Medos pra lá de gigantes. Acabamos ficando mega sobrecarregados com isso. Erramos nesse ponto. Ao mesmo tempo, é completamente compreensível pelo que aconteceu conosco. E olha que foi uma sucessão de coisas que a gente não sabia explicar. Às vezes, sequer nomear. O que dirá entender.

Minhas próprias palavras de hoje ressoam na cabeça, em complemento. Manter essas loucuras todas dentro só de mim... Não tava me fazendo bem. Precisei colocar pra fora. Precisei chegar no meu limite de novo pra colocar pra fora.

Ela também chegou no limite dela para escrever aquele e-mail, isso tenho certeza.

Chorosa, Flávia arrisca me olhar, mesmo piscando desacreditada desse momento e do que lhe digo.

— No final das contas, todo mundo tinha um pedaço dessa grande história. E como o Sávio bem frisou entre nossos amigos, isso tudo não se trata de nós. Fomos engolidos por essa... essa loucura... que tava rolando na nossa faculdade. Isso testou nossos limites. Testou nossas relações. E nem é a gente que vai resolver e tem literalmente gente capacitada para dar conta disso. A nós, cabe apenas nos apoiar. Nos cuidar. Eu vim pra isso. Eu ainda sou sua amiga. Eu ainda te considero. Eu ainda te puxaria do Juliano, do Beltrano, do Cicrano, quantas vezes fosse preciso.

Lágrimas escorrem no rosto avermelhado dela. Colho algumas delas, também afetada por como essa bagunça toda nos colocou pra teste e não teve um que passou nessa matéria. Não sozinho.

Algo que você faria se fosse com qualquer um de nós, não faria?

Eu totalmente faria isso. Eu totalmente faço isso.

— Eu entendi que você me merece, Flá. E eu te mereço. Somos pessoas que se arriscam pela felicidade de quem amamos. E nem sempre acertamos no processo. Mas insistimos em fazer algo, tentando acertar. Eu sei que ainda tenho que trabalhar mil coisas em mim, mas... ainda me importo. Preciso que saiba disso.

— Me d-diz que... que eu n-não tô sssonhando.

Fungo, com um sorriso ameno.

— Você não tá sonhando.

Abraço ela novamente, dessa vez passando os braços por seu dorso e sendo envolvida por toda sua emoção, soluços e tremores.

— Ob-brigada por issssso.

Ela luta para manter alguma firmeza, mas seu abalo e comoção simplesmente não deixam. Não há como não deixar nesse estado, na verdade.

Assim dou um espaço para ela. Dou uma folga de meu aperto, para que possa se recuperar. Aproveito esse momento também para encontrar uma melhor posição para mim. Me sento à ponta da cama atrás de mim e me ajeito, tirando a sandalinha de dedo.

— Tenho que colocar o pé pra cima, só isso.

Quando levo a perna para o colchão que ela nota o arranjo, surpresa. Explico:

— Como tava chovendo muito e eu só tenho uma tornozeleira, mamãe colocou um saco e esse plástico filme por cima. E coloquei essa chinela que não desliza. Mas preciso me segurar nas coisas pra não cair mesmo.

— Fez isso tudo... por m-mim?

Balanço a cabeça em afirmação.

— Sim. Como fiz no dia da escada, mas não quero que fique com a impressão de que alguém precisa estar em perigo para eu aparecer.

Flávia leva uma mão ao rosto, nervosa e eu não sei se eu falei algo errado.

— Eu não quis dizer de um modo grosseiro, tá? Eu quis dizer que...

— Não é isssso... Pelo contrário, você é muito gentil, Mi... E fez muito. E e-eu...

Com as duas mãos ao rosto, em concha, ela soluça, em reforço desse sentimento que a pega. Parece que posso ouvir meu pensamento lendo seu e-mail, na parte que diz nem o Murilo, nem o Sávio, eles não tiveram esse tratamento quando foram além dos limites com você. Agora entendo do que se trata, acho. Reconheço até. Arrisco nomeá-lo:

— Você sente que não é merece, né?

— E ainda sssabe... me l-ler... bem.

Ler não sei dizer, mas sentir isso... eu bem sei também. Ver seu estado é quase uma maneira de me ver em reflexo, como num espelho.

Eu achei que tava fazendo o certo e não tava.

Eu quis preservar tanta coisa...

Eu tava sendo uma tola. Transtornada demais pra ver o que tinha na minha frente.

Aproveitei das brechas conforme apareceram.

Acho que eu não me achava digna dessas coisas. Achava... Falhei até no que achava. Não tava com a cabeça no lugar. Nada tava no lugar.

Me apeguei tanto nisso pra tentar fazer do meu jeito. Do meu jeito torto e perdido.

Mas só ela me enfrentou... pra saber a respeito. E eu ainda menti descaradamente.

E foi uma das coisas mais difíceis deixar ele subir e... reencontrá-lo, com ele sabendo tudo.

Ver como fiquei nas complicações do último ano, o que esperei dos outros, mesmo sem me achar no direito de esperar, e como ela está diante de mim, mal aceitando ou acreditando nisso, eu só quero abraçá-la e cuidá-la, de um jeito que ela não consegue, como eu também não conseguiria e não consegui mesmo nas outras circunstâncias. Isso me dá outro estalo neste dia sobre como é isso de a mensagem voltar para mim, de como posso me ajudar ao amparar outra pessoa.

Quando li o e-mail, não houve dúvidas sobre o que fazer ou como fazer, mas eu ainda tenho dias em que vejo algo pesado em mim e não consigo colocar isso ao chão. Não como faço com outras pessoas, que não hesito até. Hoje, por outro lado, eu consegui a proeza de vomitar e colocar aos pés de mamãe muita desgraceira que me corroía. Não sei se em alguma medida consegui me acolher, só sei que ao menos consegui fazer uma abertura para mamãe. Também tô aprendendo a aceitar as coisas boas das pessoas.

— Sei como é essa sensação... Meio difusa, vaga, quase um aperto. Como se estivesse incomodando alguém, né?

Flávia assente, sentando-se enfim ao pufe, o mesmo da outra vez.

— Você não tá me atrapalhando.

Mas aí me vem aquele trecho de novo: Às vezes, apenas quero sumir. Daí você me liga ou aparece na minha porta e diz para eu tomar vitaminas, sabe? Me cuidar. Fico sem ação. Perdida. E mais triste ainda por ter feito o que fiz. Esse buraco parece não ter fim e não tenho ideia de como faz para parar de afundar.

— Olha, Flávia... Como eu disse ainda pouco, isso não é exatamente... Ainda não é um perdão, mas é um caminho. Acho. Eu tô aceitando suas desculpas. Eu tô aceitando suas razões. E a gente vai conversar sobre isso em algum momento, afinal, temos o daqui pra frente pra isso. Você ainda vai me ver muito, tá?

Isso faz com que ela me olhe, apesar de retraída. Não sei bem se é algum tipo de esperança encontrando uma via, só sei que se é, eu alimento independente de ter essa confirmação.

— Eu tô me cuidando pra poder dar alguns passos... Preciso mesmo me cuidar um tantinho mais, me reaver mais. Também pra aceitar passos de outras pessoas. Vou precisar de mais tempo pra poder voltar nesse ponto outra vez. Mas tô aqui te dizendo... que a gente vai se reencontrar em algum momento. E eu vou esperar por esse dia, porque quero que aconteça.

— De... verdade?

Ela pisca, hesitante e esperançosa, precisando de confirmação. Lembro de como estava assim com a minha mãe também. E que ela me recebeu de tal modo que pude provar uma leveza que há muito não sentia. Quero proporcionar isso à Flávia.

Então “eis o que faço com sua verdade”:

— Sim. Da amiga que colocou plástico filme no pé pra vir te ver. Feliz ano novo.

— Ain, Mi!

Com isso, Flávia se levanta para ser ela a me abraçar dessa vez. Nesse aperto, fico mais satisfeita e até saudosa, pois fazia um tempinho que não ouvia seu “Mi” referente a mim. Até isso me fez falta.

Tudo se encaminhava para ficar ainda melhor.

— Leva o t-tempo... que precisar... viu? Muito obrigada. M-mesmo. Por tudo... tudo isso.

— Se disser que não merece tanto de novo, eu vou tacar essa chinela na tua cabeça.

Talvez eu tenha dito essa pra mim também. Quem sabe nas minhas próximas crises eu não possa me ameaçar assim também? Principalmente se é pra amenizar o clima. Em correspondência, Flávia ri de gargalhar e acabamos caindo juntas ao colchão.

Senti mesmo muita falta de sua presença e de seus risos simples. Senti falta dela.

Aprecio isso por um momento, deitada de barriga pra cima. Puxo o fone grande do pescoço quando ele me aperta.

— Posso perguntar por que você tá com esse fone?

Ainda no modo sincero, digo na lata:

— Medida de proteção contra trovões.

Flávia se levanta num pulo.

— Meu Deus, os trovões! Eu nem...

Quieta ao colchão, observo o teto, meio desacreditada de tudo o que fiz e como fiz e vim parar aqui, e que me orgulho disso. Me orgulho também de estar mais aberta para falar sobre isso.

— Agora eu tô fazendo uns experimentos com o Murilo... Pra aprender a lidar. Um dia te conto isso.

Não apenas digo que poderia contar isso, como um dia contaria isso. Uma afirmação. Uma certeza. Algo pro futuro. Algo para abraçar neste presente.

Que pode ficar ainda mais doce.

— Agora já podemos ir atrás da sobremesa?

O abençoado do pai da Flávia é o primeiro a nos notar chegando na cozinha e fazer a pergunta-chave:

— E aí, fizeram as pazes?

Dona Célia repreende o marido com uma lapada de pano de prato nas costas, o que faz geral – no caso, mamãe, Murilo e a vítima – rir na mesa.

— Antônio! Deixa as meninas!

Mas sou caridosa com seu Antônio, eu levanto as nossas mãos dadas em sinal de vitória. O pai dela levanta os braços aos céus em agradecimento. Apesar de rir disso, acho um bom sinal de ela ter sido sincera sobre estarmos separadas e brigadas. Na época do término dela com o Aguinaldo, não houve explicações, nem nada para sua família.

Dona Célia atende aquele meu pedido anterior, de repetir certa pergunta.

— Aceita mousse de goiaba, Milena?

— Aceito. Amo esse seu mousse. Tá geladinho?

— No ponto!

Libero a Flávia, que segue a mãe para pegar a travessa do mousse no congelador. Enquanto me sento, aproveito que o tio Antônio tá animado com isso. Também faço uma pergunta-chave.

— A Flávia tá comendo direitinho, né, tio?

Ele atesta, de fato.

— Isso ela tá. Disse que foi ordem tua.

Eu não diria que foi uma ordem ordem... mas que bom que ela pôde se cuidar. E que essa linguagem acabou virando um ponto bastante positivo.

Essa eu vou guardar comigo.


Notas finais
"Ainda não é um perdão, mas é um caminho. Acho. Eu tô aceitando suas desculpas. Eu tô aceitando suas razões." "Da amiga que colocou plástico filme no pé pra vir te ver. Feliz ano novo." "Tudo se encaminhava para ficar ainda melhor." AI MEU CORE! ♡ Mas vamos de trechinhoS novos, pra sair logo mais um capítulo do forno! "- Como tá se sentindo? - Meio Britney, acho." e "Coisas assim... são pra ser apreciadas... admiradas... ter um instante de saber que foi algo grande e importante. Julgadas com essa régua. Uma régua bondosa, gentil. Tô falando essas coisas pra ti aqui, mas acho que tô falando mais pra mim. " e "Murilo segura a porta, porém, não segura o riso. - Tá, e como eu posso dizer isso... sem parecer violência doméstica? Alguém pode me denunciar." e "- Nossa, isso explica MUITA COISA sobre as manias do Vinícius. - Siiiiiiiiiiiiiiim, e às vezes eu digo isso na cara do Vini também. Ele fica me olhando, sabe, com as vistas meio cerradas, de quem pensa em me matar. Mas falo mesmo e ainda falo com uma faca na mão." e "Paro com a faca ao ar, nada sugestiva, apenas especulativa. - Por que tô sentindo que tu tá editando a história?" e "- Tu jura, Vini, tu jura que quer que eu me vingue na mesma moeda? - A ameaça funcionou com sucesso, I!" e "(SMS) Aguinaldo: Sei que faria o mesmo Como ela está? - Vocês... estão t-trocando informações?"