Mantendo O Equilíbrio (Temp 1 + Temp 2)
26 Capítulo 26
Notas iniciais
Enjoy.
Foi difícil, mas todo aquele povo foi embora, entre pragas e xingamentos. Foi uma trilha interessante – para não dizer o contrário. A chuva ainda não tinha começado a cair e, graças a Deus, nada de raios riscavam o céu ou trovões se propagavam. A lua não se via mais por tantas nuvens que atravessavam lá em cima. Só o vento ficava cada vez mais forte, tanto que as plantas da varanda quase voavam arrastadas e algumas janelas da casa batiam. Eu me ofereci pra acompanhar todos que iriam embora à porta pra que Vinícius pudesse fechá-las, já que logo a chuva iria cair.
O problema... é que eu tava de vestido nessa ventania.
Tenho que parar de andar de vestido na temporada de chuva. Só que fica difícil quando se adora ficar de vestido. O pompom de cabelo me ajudou a não comer cabelo, mas tinha que alternar entre segurar a barra do vestido que insistia em subir e aquele tanto de marmanjo saindo. A bolsa transversal até que aparava um pouco, mas nem tanto.
As mulheres foram as primeiras e os caras que ficaram pra trás eram os mais alterados pelo blackout logo no fim do jogo. Enquanto uns marcavam o novo lugar onde poderiam ficar, uns davam uns assovios e outros passavam umas cantadas. Vontade não me faltou de dizer que pedreiro tinha mais criatividade, mas como dizer uma coisa dessas pra quem já tá meio exaltado? Não valeria a pena.
Pra entrar na casa me guiei com o celular. Ainda assim, o breu era muito dominante para uma simples luz de celular. Foi a razão que encontrei para explicar a topada que dei na poltrona logo que fechei a porta da sala. O lado bom é que ninguém estava por perto pra ver ou ouvir.
- Milena?
- Tô aqui.
Balanço a luz mínima em mim para que Vinícius se situasse. Ele se aproxima espalmando a parede da sala, o que é uma boa ideia pra evitar bater em qualquer coisa. Quando se aproxima de mim, ilumino o chão do seu caminho e ele paralisa diante da sujeira que o povo deixou. Tinha umas garrafas em pé, umas duas deitadas, guardanapos amassados e outras embalagens jogadas.
- Acho melhor a gente dar um jeito nessa zona...
- É, antes que você tope de novo e dessa vez caia.
- Você ouviu a batida?
- Yeah.
Pelo menos ele não viu!
Vinícius se abaixa e começa a catar as coisas à luz do meu celular. Nessa hora me lembro de uma coisa e ilumino a minha bolsa em caça. Vinícius me chama novamente e peço que espere uns segundos. Aí acho a preciosidade. Quando pensei que nunca iria precisar, uma minilanterna de chaveiro parece ser uma boa. Ligo a luz e aceno pro Vinícius, que faz aquela expressão de “por que alguém andaria com uma lanterna na bolsa?”.
- Eu nem sei o que dizer...
- Eu sei que você deve tá se perguntando por que eu ando com uma lanterna aqui... É um chaveiro que ganhei de brinde na última manutenção que fiz do meu notebook. Achei que nunca ia precisar, só guardei, mas olha aí, é mais forte que meu celular.
- Você tem cada uma que... acho que nem devo mais ficar surpreso.
- Então anda, faz a limpeza que eu seguro a luz pra você.
- Ok, dona folgada. Só porque você é visita...
Não deu outra senão ajudá-lo. Tava uma zona por toda a sala. Quando finalmente terminamos, sentei no sofá e ele me acompanhou. Fiquei sentada com as pernas cruzadas, como aquele modelo de meditação, e ele ficou apenas jogado, com a cabeça apoiada na parte de cima do sofá, voltado para minha direção. Pra descontrair, com a minilanterna ilumino meu rosto e solto aquela risada maléfica de filme:
- MUAHAHAHA.
- Você não tem medo do escuro?
Encosto no espaldar do sofá atrás de mim e apoio meu braço nele também, deixo a lanterna no espaço entre a gente para nos iluminar e... aqueles fios tão perto da minha mão parecem que estavam me chamando. Fios de cabelo macios.
Suspiro antes de responder.
- Não. Compenso em outras coisas.
- No quê, por exemplo?
- Não vou dizer do que tenho medo. É vergonhoso.
- Ah, diz.
- Não, isso você não vai conseguir tirar de mim. Sabe que olhos pidões não funcionam comigo, sou vacinada.
Impossível. Como ser vacinada contra olhinhos-do-gato-de-botas-do-filme-Shrek e não contra simples fios de cabelo? Impelida com eles tão próximos ao toque, eu não consigo resistir e roço a mão em seus fios. Vinícius praticamente nem se mexe. O silêncio perdura apenas com nossas respirações tranquilas. Logo a chuva começa a cair forte, de uma forma que não afeta nosso silêncio. Era agradável, muito agradável. Relaxante.
Ele resolve puxar papo:
- Esse blackout veio numa boa hora.
- Pra expulsar aquele povo todo, né?
- Também. Assim posso ter um tempo com você sem ter quem interrompa.
Fios. Tinha os fios de cabelo dele na minha mão esquerda, mas os que senti se levantando no meu braço num pleno arrepio foi dose. Se eu pudesse bater nele cada vez que ele me dissesse essas coisas...
- No que está pensando? Tem horas que você parece estar no mundo da lua.
- Ah, às vezes fico-o me-es-esmo. Eu nem percebo mais.
- Fica mais... engraçada assim.
Mas é palhaço mesmo. Minha sorte é que a lanterna não realça meu rubor, que sinto esquentar pelas bochechas. Sei porque mal o vejo, mal vejo suas expressões. Melhor guiar a conversa para outros lados, pois se o deixar continuar fico numa situação mais embaraçosa ainda.
O cafuné que lhe fazia, no entanto, que estava fora de questão praticamente, porque no momento que peguei nos fios eu estava me arriscando a ficar embaraçada e não me importava com isso. Agora com a minha teoria comprovada com o caso da lanterna e do rubor, eu poderia até ficar desconcertada, mas ele não veria, então acho que vale a pena ter-me mexendo em seus fios.
- Você não está preocupado?
- Com o quê?
- Sua mãe. Não está ouvindo a chuva? Tá bem forte e ela não deu notícias.
- Ela deve saber se virar, sei lá.
- Mas você não está preocupado? Nem um pouquinho? Quer dizer, pelo menos saber se ela está num local seguro... devia ligar pra ela pra saber.
- Deixei o celular no quarto.
- Sem problemas, tenho o meu aqui.
- Tudo bem, eu ligo... Se você me disser por que tava rindo na varanda quando eu cheguei.
- Huum. Não vale, eu não ganho nada.
- Ganha mais do que pensa. Você que ainda não percebeu.
- Ok, eu digo. Eu...
Por que ele tinha que estar tão próximo?
- Bom, já que não tinha nada pra fazer, fui ver meu e-mail pelo celular. Só que entrou automaticamente no chat, aí meu avô começou a conversar comigo. Era estranho pensar de estar falando com ele ali, que não entendia nada do assunto até um tempo atrás. Disse que tudo anda bem lá na cidade onde está, com meus pais e minha avó. E que ele estava esperando minhas férias para eu poder ir pra lá tomar leite quente enquanto vemos o amanhecer, que é um costume nosso desde que eu era criança. Mas o que me fez rir mesmo é que... ele disse que tinha descoberto o esconderijo de biscoitos da minha avó, que teríamos biscoitos a acompanhar nosso leite e “adocicar” nosso amanhecer. Palavras dele. Tem como não sorrir disso? Quando minha avó descobrir...
É, Vinícius também concorda, começando a rir. Ele conseguiu que eu partilhasse e me sinto boba por isso. Mas é tão tão tão bom quanto ele mencionou, como tiraria isso dele? Seria crime. E Vinícius não faz diferente, ele é criminoso quando fala umas coisas e cria esperanças que não posso permitir que cresçam.
É quase como se ele me forçasse a ser criminosa também, mas cada um com sua consciência. Não posso puni-lo, seria como jogá-lo na solitária... o que provavelmente me corroeria também. Poxa, como só ele pode ser criminoso? Não sei até quando a minha arte do disfarce está apta a camuflar tudo.
- Agora ligue.
- Por que ligar mesmo?
- Porque... porque é importante ter laços. Pequenas coisas que fazem a diferença. Se nós nos doarmos um pouquinho, a exigência do outro lado vai se contentando. Ela não tem lhe dado espaço? Você não tem se contentado?
- Hum... quando você diz soa tão simples. A chuva tá forte mesmo, melhor ela não estar dirigindo. No meu acidente, o motorista estava sóbrio e tinha a pista limpa, nem isso o ajudou a evitar a colisão. Imagina as pessoas que insistem em dirigir num temporal à noite...
Dizia tudo mirando o celular antes de apertar no botão verde para ligar. Ah, quando Djane perceber isso... Queria ver a cara dela! Deve ficar a emoção em pessoa. Por mais que ele negasse, ele estava um pouquinho que seja preocupado com ela, eu sei. Sinto.
- Alô? Oi mãe... é, esse é o celular da Milena... não, não aconteceu nada. Quer dizer, teve um blackout só... é, a Milena tá aqui. Temos lanterna. Hum... uhum, eu digo... E m-mãe?... Onde a senhora está? Não está no trânsito com essa chuva, está? Hum. Bom saber. Era só isso. Tudo bem, eu digo, não iria deixar mesmo... Tchau.
- Então?
- Ela foi numa conferência com uns professores colegas dela e por lá deve ficar se a chuva não baixar. Tem uma Silvane... Silvana...
- Professora Silvana.
- Isso, ela tem uma casa bem perto. Se a chuva não baixar, ela passa a noite lá. Disse que você poderia fazer o mesmo, tem quarto de hóspedes por aqui pra você passar a noite.
- Passsssssar a noite?
- É, você não quer ir embora nessa chuva, quer? Pois mesmo que quisesse, eu digo logo que não deixo. Eu e minha mãe não deixamos.
- Já que vocês insistem, vou apenas mandar uma mensagem pro meu irmão, sabe como ele fica todo preocupadinho...
Putz! Estou literalmente presa e ainda por cima no breu com ele sozinha! Tem como ficar pior? Tento controlar o tremor que ficou nos meus dedos enquanto digitava a mensagem pro meu irmão, dizendo onde estava. Só não escrevo que estou sozinha com ele no escuro. Isso evitaria uma possível guerra mundial de vergonha. Pigarreio pra tomar controle da situação e não deixar que isso caminhe para outros lados.
- Então, ela falou algo da conferência?
- Não, por quê?
- Era pra eu estar lá também... Só não fui porque tinha meu trabalho pra terminar. Aquele que eu tinha comentado ontem... e que é dessa professora Silvana. Naquela hora que você me ligou eu tinha “acabado de acabar”. Na verdade faltam alguns detalhes, mas aí a preguiça bateu e alguém intimou minha presença...
- Viu, já pensou se não tivesse vindo aqui?
SÓ DESDE QUE EU VIREI A SUA RUA E PISEI NA CASA. SÓ O TEMPO TODO... E ainda assim não me parece uma boa ideia.
- É, o Murilo não estava em casa também...
- Mais uma razão.
- Hum. Como foi o café da manhã? Você comentou que conversou com a professora...
- Yeah. Foi... estranho. Eu levantei pensando que era mais tarde... O relógio da parede do meu quarto tá errado. Tomei banho e tal... aí fui pra cozinha, onde encontrei dona Ana. Ela levou maior susto de me ver de pé ali, plena 7h da manhã. Fiquei muito frustrado... aí minha mãe apareceu pro café da manhã. Então fui comer também, ficamos na mesa. Ela perguntou o porquê da minha aparição num horário daqueles e falei do relógio errado... quando dei por mim, comentava sobre a “reuniãozinha” e ela nem reclamou. Comentei que estava ainda arrumando minhas coisas pra retomar a faculdade e o serviço. Perdi o período e ainda tenho que conversar com meu tio sobre o trabalho... porque foi ele que tinha me indicado e tal, então agora tenho que dar a prova que estou “vivo”. Ela riu quando eu falei isso.
Eu? Eu gargalhei. Em pensar que ela riu do Bruno também... o que meio que foi culpa minha nesse caso. Mas é ótimo saber que o universo tem trabalhado sobre isso, tomando seu curso de volta.
- O que? Você também?
- É que... que... hoje na faculdade ela também riu de um amigo meu. Esse foi mais engraçado porque, bom, eu meio que aprontei com ele.
Roo uma unha da mão livre pra segurar meu contentamento pela travessura. Ter em mente a minha do Bruno zangado, admirado, surpreso e envergonhado depois do que contei pra ele era... impagável.
- E essa cara traquina, hein? Que você fez?
- Ah, nada demais. Só o fiz acreditar que o diretor tava furioso, que tinha coisas desencaminhando no evento, que era melhor manter distância. Ele me fez acreditar ontem que ele tava assim e nada, o cara tava tranquilão. Descobri no fim da noite que o diretor tinha feito uma “ceninha”... Fingiu soltar fogo no telefone pra tirar um cara do pé dele e Bruno viu. E fugiu antes de saber. Agora já sabe, ele foi falar isso e a professora riu da cara dele. Mas tinha como não rir? A expressão dele foi... sem palavras.
- Você nem tem pena.
- Eu? Tenho não... se a pessoa merecer.
- Tá, eu preciso ter medo?
- Precisa.
----------------------------------------------------------------------------
A chuva parecia incidir mais forte a cada minuto que passava. Mal dava uma baixa e logo vinha mais forte. O vento não passava da mesma força pela casa por estar tudo fechado, só atravessava alguns pontos e brechas deixando aquele clima friozinho.
Dado um tempo a fome me bateu e arrastei Vinícius para a cozinha – nada inconveniente –, ver o que tinha pra jantar. À luz de lanterna e não de velas jantamos na mesa da sala. Nem procuramos por velas. Mantê-lo conversando era o que eu poderia fazer para conhecê-lo melhor e colher algo para minha investigação pessoal.
- Por que chamar pessoas que você não tinha contato para vir aqui? Por que não seus amigos mesmo?
- Eles precisavam de um lugar pra assistir o jogo. Eu... não queria ficar em casa sozinho, quis dar uma de social e nem isso eu consegui. Os que eu realmente quis chamar não poderiam vir. Eu... meio que os perdi.
Engoli em seco.
- Eles... morreram?
- Naaaaam. Tipo, um cara que era meu amigão, Wellington, trabalha no exército. Então fica bastante tempo no quartel. A família dele mora aqui na rua, sempre fomos amigos. Fui lá hoje de manhã e a mãe dele disse que ele viajou para ajudar uns sobreviventes de uma última enchente que teve aí. E tem essa coisa com ele, o cara é daqueles que deve ter passagem direta para o céu... Se faz besteira, é com as melhores intenções. A nossa melhor época, ironicamente, foi quando meu pai morreu. Tinha também o Fael, só que ele ganhou uma bolsa de estudos na faculdade que ele queria e se mudou... isso foi um pouco antes do meu acidente. Foi ele que me apresentou a Rebecca. Tem o Anderson, só que esse eu ainda não consegui encontrar. Outros são meros conhecidos, nunca fui de muitas amizades.
- Uma coisa não faz sentido... você disse mais cedo que não bebia. Por que bebeu tanto no dia do acidente?
- Ah, eu tava estressado demais. Minha mãe estava no meu pé, meu tio andava meio estranho, falando umas coisas... e quando eu questionava minha mãe, ela desviava do assunto e me perturbava com outras mais. Naquele dia fui à faculdade para confrontá-la de uma vez por todas. Ou ela me dizia ou eu esquecia de vez, por isso foi uma briga feia. Ainda apanhei de um segurança... ele praticamente me jogou na entrada. Então pensei, se ela quisesse assim, assim seria... Me vi na necessidade de alguma coisa, e foi na bebida que fui atrás. Não gostava e nunca gostei, mas depois de um tempo veio o entorpecimento. Aí que os caras lá do trabalho apareceram e eu bebi mais e mais. Não sei como me conseguiram colocar no carro deles, isso eu só tenho borrões de lembrança. Um tempo depois eu ouvi uma zoada bem alta e senti um puxão... acho que foi da colisão dos carros, ou da hora que eles giraram, sei lá. Quando me senti mais estável, quando as coisas pararam de rodar, ainda me levantei minimamente, tudo estava escuro, só tinha meia iluminação dos postes da avenida. Mas a dor... a dor foi mais forte. Apaguei.
- Não acordou nenhuma vez nesse meio tempo? Ouviu alguma coisa, sentiu...?
- Não. Quando eu acordei, lá estava você. Pra mim não tinha se passado horas do acidente. Pior, tava muito ressentido com aquela coisa toda com minha mãe... Aí quando ela apareceu e expulsou você, me deu um ódio maior dela. Como praticamente me manteve preso, ou era ela, ou ninguém. Eu já tinha decidido naquela noite, eu não iria questionar mais, não iria mais ficar perto dela. Ela... só me fazia mal. E no meio disso tudo, estava você.
Preciso dizer que foi preciso tomar suco pra fazer a comida descer direito? Porque foi. Ele sabe que tem alguma coisa, só não sabe o quê. E, meu Deus, eu sei. Bem aqui na sua frente eu tenho toda a verdade e não posso dar um pio sobre. Inquieta, ignorante e indiferente. Infiel. De repente brincar com o gafo na torta de frango deliciosa da dona Ana era o melhor que eu conseguia.
- Por que que toda vez que eu menciono você, você se retrai? Primeiro você se esquivava, e eu acho que era como Rebecca tinha me falado, que você estava chateada comigo... mas você agora se retrai. O que foi, fiz besteira de novo?
Frente a frente não dava pra vermos um a expressão do outro, o que era bom e ruim ao mesmo tempo. Com essa falha da visão, parece que ele queria compensar no tato, porque sua mão livre atravessa a mesa para encontrar a minha. Se tivesse que se desculpar, teria que se esforçar mais que isso, eu poderia lhe dizer. Porém não digo, tampouco afasto minha mão.
- Hã... não se trata de besteira. Quer dizer, eu... eu acho que lido assim quando as pessoas falam de mim. Eu não acrescento, nem respondo porque... er... acho que seria egocêntrica se o fizesse. E isso não combina muito comigo, sabe.
- Quer dizer que eu te deixo... “sem palavras”?
- Tá, isso foi egocêntrico.
- Eu sei, foi proposital.
- Então, voltando ao assunto... você disse que seu tio andava estranho antes do acidente. Por que achou que tinha algo a ver com sua mãe?
- Porque ele disse. Uns dias antes do ocorrido, cheguei ao apartamento e eu o ouvi numa ligação falando com minha mãe... não me interessei até ele falar meu nome. Ele não me viu, ouvi atrás da porta. Ele disse que “estava por um triz de me falar tudo” e “que ela não o impediria”, “nem deveria insistir”. Ele esperava um momento mais “estável”. Logo depois, às vezes quando conversávamos, ele dizia que um dia eu ia entender tudo e que eu não precisaria me preocupar. Quando eu perguntava, ele desviava do assunto, repetia o mesmo e deixava aquele ar de “profecia”... Uma hora me irritei e disse que ia descobrir, e deu no que deu. Eu sei que existe algo e eu não ligo a mínima mais. Se tiver que aparecer, aparecerá...
- Parece uma boa filosofia. Ele não tem agido diferente mais?
- Ah, meu tio... meu tio é estranho em vários ângulos. Vivi com ele bastante tempo no apartamento, então acabei vendo muita coisa dele. Ele sempre foi ligado aos seus negócios e viaja bastante... O cara sempre foi o amigo que me faltava, não me exigia nada e sempre me apoiava. Apesar de algumas loucuras dele, sinto segurança e confiança dele, diferente da minha mãe. Ele não tem falado coisa com coisa esses tempos se é isso que você quer saber, não mais que o “normal” dele, como ele fez da vez passada.
- Ele não pôde vir hoje para sua “reuniãozinha”?
- Ele veio mais cedo, deixou um novo aparelho celular – aquele que te liguei – e teve que ir. Ele tem compromissos a qualquer hora, não importa o dia ou hora. Verdade que eu queria que ele estivesse aqui, mas foi melhor que não veio, provavelmente iria fazer a social com aquela galera e... acho que eu não estava no ânimo pra isso. Pelo jeito você não está também. Deve ser o vigésimo bocejo que deu só agora que estamos jantando.
- Ah, é que... você também não acordou cedo hoje?
- Tirei um cochilo ainda pela manhã, não tinha muito o que fazer.
- Sorte a sua.
Debilmente percebo que sua mão ainda está em cima da minha na mesa. Devagar a retomo para meu colo pra manter a distância. Eu simplesmente não posso ficar perto ou muito perto dele. O breu me ajuda nessa parte pelo menos, pois a lanterna não iluminava bem nossas expressões. Me levanto para tirar meu prato e copo, levá-los para a pia da cozinha e ele me segue trazendo a lanterna, que ilumina o caminho. É verdade que o sono tinha me conquistado já, ainda mais com a chuva fazendo aquela perfeita trilha.
Enquanto andamos, ele retruca, soa pensativo.
- Acho que apagar por três meses e achar que foram três horas pode ser classificado como sorte.
- Então não reclame se ela tem te acompanhado.
Deixo as coisas na pia e dou espaço para ele fazer o mesmo. O importante era fazer disso como se não fosse um esquivo e sim uma coisa natural, conveniente. Como parecer natural se afastando eu não sabia se era possível, arriscava uma tentativa. O sono então parecia uma boa.
- Aí que está, não sei até quando ela vai me acompanhar. Enquanto isso eu tento aproveitar.
- Tá, ou é o meu sono me afetando ou é você que já não fala coisa com coisa. Onde eu posso dormir?
- Prefiro a opção de falar coisa com coisa se isso te mantiver acordada. Tá cedo, agora que vai dar 22h. Se não fosse o blackout, agora seria uma boa hora para aquele filme de terror.
Só que por mais que eu me afastava, mais ele dava um jeito de se aproximar. Tudo parece perfeito, a chuva, o escuro, a lanterna, o frio... e o calor que me envolve quando ele passa seu braço por meus ombros guiando-me de volta à sala. Por ser perfeito, tornava tudo imperfeito. Por isso retenho-me no corredor antes mesmo de ir em frente.
- Eu tô de pé faz quase 16h e dormi quem sabe 6h. Não seria uma boa companhia nem pra gritar, dormiria no primeiro assassinato ou aparição sobrenatural. Talvez nos primeiros minutos. Essa chuva também me deixa mais molenga. Melhor eu ir deitar... Pode ficar com a lanterna, eu tenho o celular.
Ele não discutiu.
----------------------------------------------------------------------------
Uma noite de bom sono é pedir demais? Ok, consegui 6h e quero mais que isso.
Quando começava a ficar bom, a cama macia, o lençol esquentando, o vento friozinho passando pelas brechas da janela fechada que dava para a varanda e a chuva... A chuva foi maneirando até que começaram os trovões. Primeiro quietos e raios quase sem luz, que foram crescendo para aqueles que cortam o céu numa luminosidade forte de iluminar o quarto e ferir meu sistema nervoso ao propagar-se com aquele som inquietante.
O celular marca 4h09 da manhã. Vejo uma mensagem de resposta do meu irmão, dizendo que foi bom eu ter ficado na casa de Djane, pois ele teve que ficar na casa do amigo do trabalho, não estava num bom tempo para pegar o carro. Pelo menos estava num lugar seguro. Eu sabia que ele estava mais pra lá do que pra cá só pelo modo que escrevia. Me pergunto como ele não havia me avisado sobre os trovões. Murilo devia ter me deixado alguma nota.
Talvez não soubesse novamente? Talvez.
A luz não havia voltado. Testei o abajur da cômoda ao lado da cama e nada. Estava dormindo tranquilamente quando tudo começou, nem sei dizer se sonhava ou sobre o que era o sonho quando os estrondos se fizeram ouvir. Com o coração agitado sentei na cama e o lençol não poderia me proteger disso, por mais que eu tentasse me esconder nele.
Se estivesse em casa, quem sabe poderia me refugiar na cama do meu irmão. Ele sabe do meu terror e estaria perto de mim para me acalmar. Na verdade estaria sozinha, já que ele tá fora de casa também. Agora nem isso, não tem pra onde fugir. Não, sair do quarto não é opcional. Não, Milena, não pense nisso, nem por um segundo, não considere ir até “lá” como uma chance. Seria mais que vergonhoso, seria humilhante demais. Eu não preciso dele, não preciso.
Mais um trovão chicoteia do céu e impossível foi segurar o grito. Enterrada entre os lençóis, a respiração entre arfadas prenunciava meu choro baixo e a provável vergonha de ter que ir mesmo até o quarto de Vinícius para me sentir segura. Definitivamente odeio trovões, ainda mais por me colocarem em situações constrangedoras.
Engulo isso e saio da cama abraçada num travesseiro que abafaria qualquer grito esganiçado que eu poderia soltar pelo caminho. Iluminando o corredor com a luz do celular fui caminhando depressa até chegar à porta do quarto dele. Olho pra trás como se fosse achar outra opção, que não fosse essa. Praticamente sou obrigada quando mais um trovão não tão violento perpassa fazendo que eu abra o quarto sem cerimônias ou uma mínima batida e entre.
No fundo do quarto estava a cama, grande e silenciosa. Me aproximo com passos lentos iluminados ainda pela energia do celular, vendo a tranquilidade que eu mais buscava nessa hora emanando do corpo dele numa respiração bem compassada de entrada e saída de ar, vista através de uma camisa clara, ressonando baixo. Como ele consegue isso nessa madrugada violenta eu não sei...
Meu maior desejo está tão próximo que ainda me dá vontade de fugir para que não veja meu estado deplorável. Chorava baixo sem mesmo perceber, sentia meus lábios trêmulos e a raiva de mim mesma por ter que me apresentar nesse estado. Foi ruim o bastante no outro dia com o Diogo, por que aqui também?
Não tendo jeito, sento na ponta da cama de costas para ele e minimamente agradeço por ele não estar simplesmente jogado ou atravessado na cama king-size, o que me dá um pouco de espaço para deitar. Não acredito que vou fazer isso, não acredito que estou fazendo isso, não acredito que fiz isso. Coloquei o travesseiro debaixo de minha cabeça e permaneci na espera do conforto aparecer segurando os soluços que quebravam de minha respiração. Um trovão mais forte e quase vingativo foi chutado dos céus quebrando a terra e gemi baixo enterrando o rosto no travesseiro. Foi a minha entrega.
- Milena?
Sua voz grogue e hesitante chegou aos meus tímpanos mostrando-me minha digna derrota de parecer forte. A vontade de chorar era maior que eu, tão fraca ante um fenômeno da natureza. Virada, ainda de costas pra ele, sinto quando se mexe na cama como se estivesse levantando. Sinto o movimento do colchão e do lençol que me tocava o corpo quando ele chega próximo de mim e mexe no meu cabelo. Imóvel eu controlo minha voz ao máximo para não sair arrastada. Ela sai gelada, sussurrada:
- Se afasta.
- O que? Por quê? O que foi? Qual o problema?
- Só se afasta.
- Mas por quê? Por que está chorando?
- Porque e-eu não que-e-ero me veja a-a-asssssim.
- Milena, tá escuro.
- Agora virou brincadeira? Não quero que me “sinta” asssssim, satisfeito?
- Não, assim como? Você tá me deixando preocupado.
- Não precisa, estou bem. Só me deixa aqui, quieta, é tudo que peço. Fica aí, longe.
- Eu quero te ajudar, me deixa te ajudar, Milena. Não me peça pra ficar longe... Como eu poderia fazer isso?
- Fazendo. Se afastando. Se quiser me ajudar, se afaste. Eu vou encontrar meu ponto de equilíbrio e vamos esquecer esse episódio. Só isso.
- Você está tremendo, poxa, me diz o que foi.
- Quer saber o que foi? Quer tornar tudo isso mais vergonhoso possível? Tá pedindo pra rir e tá pedindo pra eu te xingar por rir de mim.
- Não iria rir, nunca. Se é sério pra você, é sério pra mim.
- Trof....
- O que? Eu não ouvi.
- TROVÕES, SATISFEITO? Eu tenho PAVOR de trovões. Odeio isso e me odeio por sentir isso. Odeio ter que vir aqui, odeio ter que aparecer assim... Odei... AAH.
Outro trovão daqueles me faz gritar no travesseiro.
Eu só queria que parassem.
- Shhh... Tudo bem, tudo bem, estou aqui. Eles vão passar.
- Quando-o eles vão passssar?
- Logo. Fique quietinha, aqui. Se cobre. Se vira e me abraça. Agora presta atenção, o truque é se distrair, arranjar outro foco. Acha que consegue isso?
- Nã-ão.
Ou era o trovão ou era ele. Não dava pra fugir dos dois? Não. A sorte o acompanha enquanto o azar parece que vive puxando meu tapete. Quantas vezes no dia eu mais que o afastei, dei passos de distância, eu perdi a conta. Antes fosse só minha derrota, meu medo e insegurança, aí chega ele me dizendo pra abraçá-lo. Putz. Fica cada vez mais difícil de lutar contra isso... Melhor abraçar essa má sorte e me jogar fundo nesse buraco? Terei meu conforto? Existe conforto em culpa também?
Não adianta me questionar quando já me tenho sob seus braços e calor, mãos presas na sua camisa. Seu beijo na testa que deveria acalmar meus nervos me deixa mais nervosa. Acho que não saberia dizer se meu coração acelerado batia por ele ou pela eminência de um novo trovão.
Sentindo seu corpo tenso a me proteger os soluços amainaram um pouco, mas nem assim consegui abrir os olhos novamente. Ainda me sentia trêmula, talvez por isso mantinha os olhos bem fechados, com a força que conseguia esperando meu ponto de equilíbrio.
- Então... deixa eu pensar... Ah, qual a capital da Argentina?
- Você... tem que estar... brincando...
- Qual a capital da Argentina?
- Eu não vou responder... isso.
- Vou perguntar até você responder. Qual a capital da Argentina?
- Buenos... Aires.
- A capital da Holanda?
- Ams...terdã.
- Capital da... Polônia?
- E eu sei lá!
- O que você conhece da Polônia?
- Hã... Europa? Acho que... conheço uma cantora de lá.
- Qual o nome dela?
- Mínima lembrança... Só sei que é um nome complicado. Poxa, é a Polônia! O que você sabe da Polônia?
- A maioria dos empreendimentos imobiliários de Varsóvia consta em áreas próximas de prados, florestas e jardins.
- Quem é Varsóvia? A empresa de... imóveis?
- Não, é a capital da Polônia.
- A-ah.
Notas finais
Eu acho que funciona...
Fale com o autor