Mantendo O Equilíbrio (Temp 1 + Temp 2)
21 Capítulo 21
Dez e meia. O bate-boca ainda continua. Massageio as têmporas e bocejo várias vezes. Mal dormi noite passada, tenho que resistir ao sono. O diretor do hospital até agora não reapareceu. Quem sabe se não ouviu através da porta a briga e fugiu de novo... homens covardes – ou talvez só tenha muito trabalho, afinal é um hospital. Me repreendo por pensar mal dele, só está fazendo seu trabalho, de salvar vidas.
- Olha, faz tempo que estamos nessa conversa e eu ainda não vi meu filho. Podem me xingar o quanto quiserem, mas eu vou vê-lo. Agora.
Levanto da mesa do diretor alarmada, saindo do estado monótono letárgico de vez num pulo, que me dá vertigem. Djane me segura, preocupada, até que eu me estabilize. Ela tentou gritar com Filipe para não ir, mas o que é um grito perto de toda essa confusão? Nada.
Chego à porta onde ele está e digo a primeira coisa que me vem à cabeça:
- Eu vou com você.
- Isso não convém a você, garota. Você não quis saber? Pronto, já sabe a história. Digo, a versão dramática de Djane... não haveria porque me dignar contar a minha verdade, então não vale a pena ficar aqui. Vou vê-lo e não vai ser você que vai me impedir.
- Eu... e-eu não disse que ia impedir. Disse que vou acompanhá-lo. Você não quer outra briga, quer?
Saturado, ele olha de mim pra Djane e aperta a maçaneta da porta. Não tendo outra chance senão me levar junto, faz careta. Como se isso fosse me impedir.
Não espero ter o controle da situação, apenas presenciar... algo que Djane não poderia fazer. Ele abre a porta e me deixa passar. Antes dou uma olhada significativa à professora, como se dissesse que tudo ficaria bem. Ela só não sabia o quanto eu já sentia no meu estômago sobre a dúvida de ficar bem.
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Trilha Indicada: Yui – Please Stay With Me
http://www.youtube.com/watch?v=aLKZVZRhf1U
- Olá?
Não deixo de ficar feliz por finalmente poder vê-lo. Imagino se não está dormindo por causa da hora. Tenho que vir nos horários normais pra poder vê-lo sem restrições ou preocupação de horário. Se bem que... quando ele vai receber a alta? Até agora ninguém comentara. Pudera, né? A tensão daquele escritório ainda passava por mim e me lembrava que eu não poderia comentar com o Vinícius. Sobre nada.
Não era algo que estivesse no meu alcance. Coisas de família. A presença do seu Filipe também não me ajudava. No caminho para o quarto do Vinícius, ele andou lado a lado comigo, com o olhar baixo. Não deixei de perceber sua serenidade, um brilho por poder ver seu... filho. O que é muito estranho de sequer pensar, inevitável de pensar. Claro que fiquei dividida.
- Milena?
Fiz questão de entrar primeiro. Convenci Filipe de que era uma surpresa pro Vini, então eu teria que ir primeiro pra prepará-lo. Não sei como consegui isso, acho que ele estava aceitando qualquer coisa pra não voltar a se alterar comigo. Até porque ele só tinha a perder se insistisse nisso.
Atravesso o quarto, meio escuro, iluminado apenas pela luz da TV pendurada na parede em frente à cama de Vini. Ao ver-me, ele mexe no interruptor ao seu lado e a luz toma o lugar. Amasso um lábio no outro, numa linha dura, quando recebo seu olhar... e me corta ter que olhá-lo e não poder falar nada do que realmente queria. Nem tinha em mente por onde começar...
- Meu Deus, Milena, o que aconteceu com você?
- Que bela recepção, hein? Nem um “oi”.
- Desculpa, mas... onde você arranjou esses arranhões todos?
Olho pra onde ele me aponta e me lembro do dia anterior e da confusão toda. Tanto já se passou que... Caramba, tinha até esquecido disso. Estou tão horrível assim? Não estava tão mal quando me vi no espelho do vestiário. Se bem que Diogo também comentara...
- Ah, Vini, se você soubesse da minha... hã...”odisseia” de cada dia. Hoje certamente foi um dia daqueles e ainda assim estou aqui. Viu o que num é a perseverança?
- Tem que ser muita perseverança. Mas sério, o que você andou fazendo? Desceu um morro de skate sem proteção enquanto fugia da polícia?
- É um modo de ver... Digamos que a faculdade me puxou um pouco esses últimos dias. Além dos trabalhos normais, tenho a monitoria, lembra? Parece que vou ter que ser babá de um palestrante.
- Isso quer dizer que eu não vou te ver mais?
- Sabe que eu não sei? O diretor já marcou sua alta, só não me disse pra quando.
- Até que enfim. Não aguento mais ficar aqui. Nem você quase me visita.
Muito dramático. Pensava que estaria imune a um dengo desses e balanço a cabeça em negação, sabendo que dessa vez eu não estava resistindo, por saudades talvez. Caminho para mais próximo, sentindo algo que não sabia propriamente dizer o quê dentro de mim. Deixo minha bolsa na poltrona – que voltara ao seu habitual lugar depois daquele jogo de Uno – e quase me jogo sobre ele, que estava sentado encostado nos travesseiros.
Todo o meu dia maluco valeu a pena. Tudo por um abraço... – sou muito boba por pensar isso? Com tanto a falar, tanto a guardar, acho que tento passar tudo isso no nosso contato. Se ele soubesse...
Ele também não fica atrás, me abraça com força. E por enquanto, me pareceu o bastante. Sua voz baixa e divertida me traz de volta:
- Que odisseia foi essa, hein?
- Ah, nada demais. Só fugi de um cachorro, atirei uma jaca nele pra proteger uma amiga minha que tem fobia do animal, escorreguei de uma árvore, briguei com algumas pessoas, me arrastaram pra uma festa de pijama, não dormi direito e ainda descobri uns crimes. É, acho que estou fugindo da polícia. Não que eu tenha algo a ver com a situação, claro.
- Hum. Qual a parte que é mentira mesmo?
- Só a da polícia.
Na mesma hora ele me soltou e vi preocupação em seu rosto. Seguro suas mãos no seu colo, em cima de um travesseiro e faço uma cara travessa, a que eu podia, né? Dou de ombros mostrando que não era nada demais e nem isso ameniza sua face.
- Você não para quieta, né? Me conta isso direito.
- Ah, Vini, conto outro dia. Tantas pessoas já me perguntaram que acho que pareço um robô contando pela milésima vez. Até o Bruno, que estava comigo e, bom, ele sim foi atacado pelo animal, disse que abraçaria a pessoa que não lhe perguntasse dos machucados. Os meus são nada, nem ardem mais.
- E quem é esse?
- Um amigo da faculdade. Faz monitoria comigo, do grupo dos alunos de Djane. Tem também a Daniela, ela que tem fobia de cachorros. Mas ninguém sabia disso até ela ter um piripaque, já depois do... incidente. Isso foi ontem, por isso nem apareci aqui, dei uma trabalhada na monitoria e segui pra casa dela. Só Dani mesmo pra ter um treco e fazer uma festinha depois. Já a odisseia de hoje...
Disfarço segurando sua mão e não olhando diretamente pra ele. Foi um dia tão... estranho, que mal posso descrevê-lo. Lembro-me então de Filipe do lado de fora esperando para entrar e fico mais sem-jeito do que estava.
- Devo creditar a essa chuva?
- Certamente. Nem fui pra faculdade, fiquei fazendo um trabalho – que ainda nem cheguei na metade – aí... aproveitei uma carona do meu irmão e vim pra cá. Pegamos esse temporal todo. Pra você ver, esse vestido nem é meu, uma das enfermeiras amiga de Diogo me emprestou enquanto o meu seca num varal... Falando nisso, ainda tenho que buscá-lo e devolver esse à moça...
- Vai agora não. Você acaba de chegar.
- Você já viu que horas são?! Não se preocupe, não vou agora. Na verdade tenho uma coisa pra você. Surpresa.
- O quê?
- Espera.
Solto relutante suas mãos e caminho para a porta. Abro e aceno para Filipe entrar. Ele não hesita um segundo, até abre um sorrisão e avança no quarto. Ele pode ser um grosso, mas é pai e hoje ama seu filho. Quem diria. Ele só não sabe usar isso direito... No entanto, é impossível esquecer o que ele fez. O que tem feito.
Djane que não me condene depois, até porque ainda não estamos resolvidas, que ela não se ressinta comigo por achar que “esse homem” também merece uma chance. Vejo isso no instante que cumprimenta Vini, enérgico:
- Meu garoto!
Queria poder deixá-los a sós, só que não seria justo com Djane. Fico perto da porta, apenas os observando de longe, pra me assegurar do que Filipe faria. Tentar algum ataque seria burrice dele. E já que não há muito pra fazer, fico sossegada no meu canto, só observando... o quão... linda é essa cena. A professora não poderia negar também, se não tivesse cega de medo. Eles devem brigar há tantos anos que ser insegura já faz parte dela e estando ambos num mesmo espaço, ficam na defensiva.
Sem falar na ofensiva.
Na minha mescla de sentimentos, ora feliz, ora impotente, ora sorridente, ora hesitante, acho que consegui atender ao universo. Fiz minha boa ação do dia. Chega por hoje, não?
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Já fui expulsa na vida, sutilmente, de alguns lugares. Quando o shopping começava a fechar e eu ficava de bobeira com alguns amigos pela praça de alimentação, logo vinha o segurança com aquela expressão de “tá na hora”. Reconheço esse olhar no rosto da enfermeira que entra no quarto e me desperto. Acho que já estava começando a dormir em pé, com o zunido baixo da televisão que ainda estava ligada.
- Eu sei que vocês querem ficar mais, mas temos que deixá-lo descansar. O tempo extrapolou antes mesmo de vocês entrarem. A chefe da enfermaria vai reclamar comigo se eu deixar vocês ficarem.
- Desculpa. Nós já vamos, só... uma despedida? 5 minutinhos?
- 5 minutos e nada mais que isso, menina. Estou contando no meu relógio. Vou deixá-los, mas espero lá fora.
Diante do imposto, Vinícius já fazia sua cara de pidão. Só faltava subornar a chefe da enfermaria. Me aproximo da poltrona, pego minha bolsa e me encosto na barra de metal de proteção para me despedir. Filipe age como se eu não estivesse lá e Vini sequer nota. Não faz diferença pra mim de qualquer maneira.
- Hora de ir.
- Mas nem tô com sono.
- Você tem que descansar, garoto. Amanhã é sua alta, tenho que preparar algumas coisas... ainda tenho que passar na secretaria do hospital pra ver os valores.
Finalmente alguém disse uma data. Vinícius se anima pela notícia, e me faz um convite. Filipe parece não gostar muito.
- Amanhã? Hum. Vocês não tinham me dito...
- Você não vem amanhã, então? Ah, não. Tem que vir.
- Não que esse pedido tenha me derretido, você sabe que esses olhos não me conquistam, mas devo vir sim. Você acha que eu ia perder isso? Só preciso saber a hora.
- Não acredito que vou sair daqui. Não acredito que você conseguiu falar com meu tio! Milena, eu... eu nem sei como te agradecer.
Fico sem-graça ao ouvir isso. Filipe já “não fedia, nem cheirava” pra mim, embora praticamente dependesse da resposta dele. Se não me dissesse a hora, bom, eu poderia perguntar a alguém do hospital.
- Na verdade, acho que sei. Lembra o que você me falou naquela tarde? Eu pensei a respeito e... acho que vale a pena, dar uma chance.
Travei. O que eu tinha falado mesmo? Meu Deus, como eu não me lembro disso? Foi há dois dias atrás! Sem resposta, tento vasculhar minha mente, voltando à conversa do dia... E quem me salva? Ora quem.
- O que ela falou?
- Bom, nós tínhamos discutido um pouco sobre o comportamento da minha mãe e a Milena disse para eu pensar a respeito das minhas atitudes para com ela. Que desse uma chance... porque sempre acontece o mesmo. Quanto mais eu tento me afastar dela, mais a mulher fica atrás de mim. E sabe, tio, eu realmente estou cansado desse gato-rato entre a gente. Não seria melhor se, sei lá, tentássemos um outro modo? Fizéssemos uma trégua? Eu ia pra casa dela, fazia uma média e veria no que dava...
Um contentamento me abriu um sorriso singelo. Ele me ouviu! Mal o Murilo, que é meu irmão, me ouve... Não acredito EU que consegui algo assim. Ouvia no fundo do meu cérebro a comemoração, numa tentativa de abafar a vontade de apontar na cara de Filipe, encostado do outro lado da barra de proteção. Há!
Eu sei que esse passo não é tão grande quanto pensei que fosse – e não deixa de ser grande – por ele não ir com a intenção de colocar tudo em pratos limpos. Ah, quando ele souber das histórias... Bem, se ele um dia vir a saber. O importante é que ele está abrindo espaço e isso... isso já significa muita coisa. Djane vai ficar tão feliz! Fico louca pra contar pra ela, embora não queira me despedir. Por que não é legal se despedir?
- Parece que temos uma jovenzinha prestativa... Tem certeza que não quer voltar comigo para o apartamento?
- Eu sei, tio, no que está pensando. Mas... só dessa vez, quero tentar algo diferente.
- Tudo bem. O que você disser então... Milena, devemos sair umas 13h. Consegue vir?
- Claro, tio.
Claro que não resisti a essa “deixa”. Acho que meus olhos, traquinas, brilharam com um sorrisinho “inocente”, no fundo estava gargalhando. Maldade, eu sei, só que... ah, ele que começou implicando comigo, agora que aguente!
Bagunço o cabelo de Vinícius e digo tchau. Algo no meu interior me dizia que as coisas estavam começando a melhorar. Mal espero para dar essa novidade a Djane que devo ter saído saltitando. Tô nem aí pra quem viu.
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Sono. Mais pra lá do que pra cá. Chego ao ponto de bater no meu rosto pra me manter acordada. Só peço uma cama confortável e boa noite de sono.
Entro em casa quase me arrastando e o escuro que a toma me impede de ver por onde ando. Ao ligar a luz, alguma coisa... alguém cai por cima de mim. Murilo que me ataca. Yeah, ele se joga por meus ombros e caímos no sofá, comigo aos gritos. Ou quase gritos, porque até pra falar eu já estava meio lenta. Por um momento, só entrevi um vulto azul, azul da camisa dele.
O dia não pode acabar sem eu ter um momento de tranquilidade, não?
- Pô, Murilo, valeu pelo meu... er... QUINTO ATAQUE DO CORAÇÃO DO DIA? Poxa, acho que até perdi as contas...
- Ah, maninha, só queria fazer uma surpresa “carinhosa” pra você. Faz tempo que te espero... Demorou, hein. Eu ia te ligar, mas acabei ficando ocupado... Ao te ouvir chegar, aproveitei que as luzes estavam daqui da sala estavam desligadas.
- Tá, agora sai de cima de mim.
- Ué, eu já saí.
- Hum. Deve ser o sono. Vou pra cama então.
- Nada disso.
Molenga, tentei me levantar do sofá e me lembrar do caminho do meu quarto. Murilo me segura pela mão e não me deixa ir. Sai me puxando, sem propriamente me orientar pela sala, onde bato o pé e a perna em... em já não sabia onde até que ele chega a um interruptor.
Como chegamos à cozinha nem me pergunto. Num bocejo grande, bato de leve na minha cara pra entender o que ele estava fazendo. Tirou um pote pequeno de sorvete do congelador e pegou duas colheres, dispondo-os sobre a mesa da cozinha.
- Agora me conta tudo. Senta.
Parada na entrada da cozinha o olho pra ver se está falando sério. Está.
Dou meia-volta e tento fugir pra minha cama... tão perto e tão longe.
- Não esperei você de besta, agora me conta. Conversou com a professora?
- Murilo, eu tô com soninho... amanhã eu conto.
- Nam... nada de fugir. Joga água no rosto... Me deixou curioso, agora lide com as consequências.
Me espreguiço um pouco com sono, pisco os olhos e bocejo bastante para que ele note que não vai ser essa noite. Não estava dando uma de atriz dessa vez. Nem mesmo olhei o relógio para ver quão tarde era, sabia disso pelo silêncio da vizinhança. Vi seu brilho curioso, de pé me oferecendo sorvete. Muito fofo. Sonolenta como estou era bem capaz de nem sentir o gosto mais, perdendo os sentidos de tão grogue. De qualquer forma, eu tinha que fechar a noite.
Por isso caminho até ele, arranco a colher de sua mão para jogar na mesa e o abraço. Entre risos abafados, suspiro, não sabendo de verdade se era de sono ou felicidade... ou os dois. É bom estar em casa. Melhor se eu apenas me atirasse na cama.
- Brigada, brigada, brigada.
- Que eu sou o máximo, eu já sabia. Mas então, vocês se resolveram?
Encostada nele, forço minha mente a fazer uma busca seletiva do que posso contar. Ele faz carinho nos meus cabelos e braço enquanto tento me manter inteligível.
- Não exatamente... A gente acabou resolvendo outras coisas, não deu pra parar e conversar com ela sobre nossa briga. Acredito que agora, bom, as coisas mudaram o curso de tudo... É uma história meio longa, te conto amanhã, prometo.
- Como assim não deu pra conversar? E esse tempo todo o que fizeram?
- Se eu te contar do maior babado...
Certo, eu o aticei. Tinha que contar pra alguém, já que não poderia contar ao próprio Vinícius. E estando incoerente como me sinto, poderia dizer que não foi minha culpa se contei a alguém... Ah, que se dane!
- Djane não é... a mãe biológica do Vini. O tio dele, que se diz tio, na verdade... é o pai dele. E o Vinícius não tem a mínima ideia disso. Agora me deixa cair na minha cama.
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