Mansão das Almas
1 Mansão das Almas
Notas iniciais
Mansão das Almas
Não é impressionante como tudo, de repente, perde a cor?
Estava tudo tão cinza naquela manha: o céu chuvoso, as pessoas vestindo suas melhores roupas sóbrias, a lápide e o cimento que lacrava para sempre o homem amado.
A mulher segurava firme seu guarda-chuva e suas lágrimas. Tentava de todas as formas convencer sua mente de que tudo aquilo não passava de um terrível pesadelo e de que logo acordaria e o encontraria brincando com as mechas de seu cabelo enquanto a observava dormir.
Mas o tempo passava e, aos poucos, as pessoas deixavam o cemitério e ela não acordava. Por que não acordava? Por que a dama portadora da foice era tão cruel? Tinham uma vida inteira pela frente... Tinham acabado de comprar uma linda casa com um jardim cheio de roseiras... Ela nem conseguira contar que estava grávida...
Hannah ajoelhou-se sobre a grama molhada, soltou o guarda-chuva e, arrancando as flores que faziam parte da triste coroa, chorou copiosamente enquanto amaldiçoava a todos por o terem deixado ir. Ela seria capaz de qualquer coisa para tê-lo de volta... qualquer coisa.
* * *
Ela parecia ter saído de um filme de terror: vidraças quebradas, madeira podre soltando-se de todos os cantos e, a sua volta, árvores mortas prendendo qualquer coisa em seus galhos retorcidos. A estrada, de terra batida, levava até o portal que servia de entrada para a mansão.
A mulher deu alguns passos tentando entender onde estava. Não chovia mais, mas os ruídos amedrontadores a sua volta faziam-na querer, a qualquer preço, entrar naquela casa, encostar-se numa parece e ficar em posição fetal até que seu coração se sentisse livre do perigo.
Ao cruzar a soleira da porta, Hannah encontrou um grande pátio cheio de pó, uma escada que levava até o andar de cima e mais nada, absolutamente nada. Sem móveis ou qualquer outro indício de que a mansão fora habitada.
Cautelosamente, olhou para todos os lugares que seus olhos enxergavam com perfeição. Viu uma mulher, jovem, encostada numa parede sob a escada, abraçada aos joelhos, murmurando palavras desconexas. Aproximou-se sentindo medo e pena da desconhecida.
- Elas querem me pegar... – sussurrava – Elas querem me pegar...
- Quem quer te pegar? – perguntou Hannah ajoelhando-se na frente da outra.
A estranha deu um grito enregelante e engatinhando, afastou-se até se encostar na parede adjacente e recomeçar seus muxoxos.
- Onde estou? Quem é você? – tentou novamente.
- Saia daqui... saia daqui...
- Que lugar é esse?
- Saia daqui... saia daqui...
Vendo que não conseguiria nada, a mulher apoiou-se na parede onde a outra estivera e se pôs a pensar. Como poderia saber onde estava se nem ao menos se lembrava de como chegara ali?
A última coisa de que sua mente tinha certeza era do cemitério, pois a dor estava enraizada em cada célula de seu corpo, depois, disso ela também se lembrava, era de ter chorado agarrada à coroa de flores e então... sim... lá estava ela. Uma mulher vestida de preto, com um xale cobrindo-lhe os cabelos. Ela lhe fez uma proposta. Algo como trocar sua alma pela a dos que se foram... sim... a Mansão das Almas.
Hannah levantou-se e seguiu até a janela ao lado da entrada. Chovia agora e, então, suas lágrimas recomeçaram a cair, mas pararam rapidamente quando um riso infantil explodiu em seus ouvidos. Ao constatar que o som viera de uma garotinha, que até então não estivera ali, posicionada entre ela e a janela, seu coração falhou uma batida e ela se afastou com a mão sobre a boca para abafar um grito.
A menina continuava a rir. Ela usava algo parecido com um quimono sujo e andava com a cabeça baixa, fazendo com que sua franja lhe escondesse os olhos. Seus dentes, anormalmente brancos, davam um ar mais sobrenatural aquele riso demoníaco.
Absorta, Hannah não percebeu a aproximação de outra mulher até que seu ombro foi segurado com tanta força que o menor movimento poderia quebrá-lo. E depois outra e outra surgiram colocando-se em posições que impediam sua fuga, não adiantava se debater, gritar ou chorar de pavor.
Escuridão.
Medo.
Dor.
Hannah abriu os olhos ao sentir uma dor dilacerante em suas pernas. Lá estavam elas, as várias mulheres e a criança, todas vestindo o imundo quimono e segurando um grande martelo. Aterrorizada, a mulher tentou se levantar, mas constatou que estava fortemente amarrada.
- Trocará sua alma pela a dos que já se foram. – disse a voz infantil carregada de maldade.
Não fora uma pergunta, mas, mesmo assim, Hannah respondeu:
- S-sim.
Todas sorriram mostrando os dentes brancos. Então, como se algo as controlasse, levantaram os martelos, preparando-se para continuar aquele ritual macabro...
* * *
Hannah levantou-se ofegante. Um sonho? Não, sentia dores demais e marcado em seu peito, o símbolo do pecado. Sua alma fora trocada pela dele. Ele estava vivo e voltaria para ela.
Mas... ele estava preso daquela cova! Precisava tirá-lo de lá!
Enlouquecidamente, Hannah tirou todas as flores e, com a mão, remexeu a terra até encontrar as placas de concreto que a separavam do caixão. Agradecendo pelo cimento ainda não estar seco, começou uma verdadeira guerra para abrir espaço.
Quando tudo terminou, o caixão foi aberto, revelando o corpo inanimado. Hannah o sacudiu com tanto desespero que os cabelos do homem, antes cuidadosamente penteados ficaram desalinhados.
- Por que não deu certo? – chorava – Por quê?
Demorou muito tempo até a mulher entendesse que nada pode vencer a morte, nem mesmo a alma de uma pessoa apaixonada e disposta ao maior dos sacrifícios é capaz de reverter a ordem natural das coisas.
Mas mesmo depois de compreender, Hannah ainda ficou lá, chorando...
FIM
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