Mansio Infernalis
8 † Capítulo 7 †
Notas iniciais
– Desculpe o atraso! – entrei correndo no campo, meus cabelos estavam despenteados, meu coração acelerado.
– Não se preocupe com isso, acabamos de chegar. – Necros disse enquanto ajudava algumas pessoas a colocar suas armaduras douradas. – Preciso negociar uma coisa com você.
Negociar?
– O que seria? – perguntei. Ele se aproximou de mim e disse baixo. -
– Segundo ordens de Lúcifer você precisa ir a até a Terra. — Que? Por que? eu planejava nunca mais voltar lá, aquilo era deprimente. — Esses demônios que estão aqui foram treinados para possuir seres humanos. — ele continuou
Possuir? Lúcifer já está iniciando seu plano pelo jeito. Mas por que justo eu teria que ir a Terra? Sei lá, por que não Lilith? Ou Zero? Kesabel?
– Tudo bem Necros, quando vai me enviar?
– Agora mesmo. Senhores mostrem a armadura prata para Alethia! – disse aumentando o tom de voz em quanto se dirigia a um grupo de homens. – Eu sei que deve ficar um pouco incomodada com o fato de voltar. Mas pense nisso como um teste antes da batalha final. – sorriu. Batalha final? Nunca tinha enfrentado uma batalha antes, as coisas em Éden eram calmas. Meu coração disparou, mas pedi para o meu inconsciente manter a calma.
– O que ao certo é a minha missão? – perguntei enquanto os homens voltavam agora com a tal da armadura prata em mãos.
– Nada que não consiga fazer. Apenas precisa observar os demônios enquanto fazem seus trabalhos. Estará lá como uma “chefe”. – Chefe... que engraçado... pensei com irônia.
Os homens me estenderam a armadura, e me apontaram uma porta para que me trocasse. Suas expressões eram sérias.
Após me trocar me sentia pesada, mas de alguma forma muito bem. Aquela grande armadura brilhante que parecia ter sido desenhada em meu corpo, que seguia todas as minhas curvas. Meus cabelos agora presos em um rabo de cavalo alto que chegava até a minha cintura. Havia um brilho em meu rosto, como se sempre tivesse sido destinada a lutar.
Fui em direção a Necros que segurava a minha espada em suas mãos. Ele me olhava curioso.
– Parece tão decidida, não se encontrava assim anteriormente. Será que apenas um pedaço de ferro em volta de um corpo torna as pessoas tão... – sorriu e fez uma pausa longa, parecia querer achar a palavra certa – Corajosas?
Realmente estava mais decidida. Havia pensado um pouco sobre minhas funções a partir do momento que que fui resgatada por Kesabel. Minha função era agradecer, mesmo sabendo que tudo isso não foi feito por bondade e sim por interesse, e obedecer.
– Certamente. O que um pedaço de ferro e dezesseis anos sofridos não fazem com uma pessoa? – ri enquanto olhava para o horizonte vermelho do campo de treinamento.
– Você sabe que vai acabar encontrando o humano que te sequestrou, não sabe?
– Sei. – disse mudando o tom de voz. Aquele homem...
– Vai mata-lo? – perguntou sério com aqueles olhos laranjas.
Como assim mata-lo? Matar alguém... Nem sei como isso funciona. Minha vontade era de exterminar homens como ele, mas eu conseguiria? Conseguiria viver com o peso de ter arrancado a vida de alguém em minhas costas? Será que é isso que tanto atormenta Kesabel?
– Não sei... Eu realmente não sei. – qual seria minha reação ao vê-lo?
– Faça o que achar certo. Só queria te avisar que ninguém vai te castigar, pelo contrario, ele é que será castigado e muito aqui no inferno. – assenti positivamente com a cabeça.
O céu aos poucos se transformava em um vermelho mais forte, mais profundo. Nunca havia visto algo igual. Aquilo era tão intenso, não podia ser real.
– Sabia que o céu nos avisa quando algo vai acontecer? – perguntou Necros quebrando o silencio.
– Já me disseram uma vez. — Hora de você ir. Tome. – estendeu a espada, a apanhei.
– Sabe o que fazer. – assenti com a cabeça e fui em direção as longas fileiras de homens com armaduras douradas que se misturavam com o vermelho do ar.
Enquanto passava pelas fileiras, nenhum se dirigia o olhar para mim. Pareciam estar hipnotizados olhando para frente, com os olhos parados na mesma posição. Quando passei por todos e fiquei de frente para eles, os examinei. Nenhum portava qualquer arma, não haviam mulheres. Será que deveria dizer alguma coisa?
Apontei a espada ponta da lâmina para o céu.
– Palatium vitae, duc me ad vos! – gritei para o céu. Abri minhas asas, onde em quase sincronia todos abriram junto.
Me ajoelhei para me preparar para a decolagem. Dei impulso com os pés e deixei que o vermelho me levasse.
As minhas botas de salto fino prata pisavam nas nuvens, o vento levava de um lado para o outro o meu cabelo. Encarava a cidade já adormecida ali em baixo com um olhar curioso. Fiz um sinal com a cabeça dizendo para todos os soldados dourados atrás de mim começarem a missão. Se jogaram na imensidão de prédios, onde fiz o mesmo em seguida. Pousei no asfalto delicadamente, fechei minhas assas e pendurei a espada em minha cintura. Não haviam mais pessoas na rua, e as poucas que ali restavam tinham seus corpos invadidos. Elas caiam no chão e seus olhos emitiam uma fraca luz por meros segundos.
Caminhava vendo aquela cena esperando que algumas daquelas malditas pessoas fosse aquele homem. Não queria que eu fosse possuído ou algo do tipo, mas queria vê-lo sofrer com as minhas próprias mãos. Meus olhos percorriam a escuridão a sua procura, enquanto cantava em latim.
– Os iusti meditabitur sapientiam, et lingua eius loquetur indicium... – dizia baixinho com um sorriso no rosto enquanto ainda observava toda aquela cena.
– Beatus vir qui suffert tentationem, quaniqm cum probates fuerit accipient coronam vitae. – uma voz ecoou a minha volta completando a frase anterior. Aquela voz... Eu precisava chama-la para perto de mim. Precisava ouvi-la de perto.
– Amom? – disse quando algo pegou meu cabelo e puxou minha cabeça para o lado e encostou o nariz em meu pescoço. Suspirou sentindo o cheiro de minha pele e rapidamente me largou e se posicionou em minha frente me fuzilando com os olhos azuis. Era meu irmão. Meu coração disparou lembrando de nossa última conversa.
– O que faz aqui? – ele perguntou incomodado.
– Não acho que esteja tão escuro a ponto de não conseguir perceber.
– Esta gozando de mim Alethia?
– Eu não me atreveria. – disse irônica.
– Mas se atreveu quando ridicularizou o nosso nome.
– Amar um irmão é ridicularizar seu nome? Que ideias equivocadas. Não é isso que Seu Pai prega? Amar os outros mais do que si mesmo? – eu disse levantado um sobrancelha.
– Você não me amava apenas como irmão, Alethia. Você queria mais.
– Podia até querer, mas são águas passadas, não se preocupe mais com isso. Mas voltando a sua pergunta... Eu estou aqui apenas para ver se o serviço será bem feito. – desde quando eu falava deste jeito com ele sem me arrepender? Sem sofrer?
– Está perdendo seu tempo, vamos varrer esta sujeita depois.
– Isto é só um aviso, faça o que quiser com ele. – dei de ombros.
– Todas estas pessoas aqui possuídas morrerão! – ele disse gritando.
– Eu sei. – sorri.
Fui pega de surpresa quando sua mão apertou o meu pescoço e me empurrou até uma parede de tijolos. Ele me empurrava cada vez mais me estrangulando, chegava a me levantar do chão. Mesmo assim sabia que ele não me mataria, continuei com o olhar sereno. Sabia o que ele queria.
– Diga! – ele disse.
– Kyrie, fons bonitatis! Kyrie, ignis divine, eleison! – gritei satisfazendo sua vontade de se sentir melhor do que eu.
– O que você quer de mim? – perguntou com um sorriso.
– Eleison... – disse perdendo a voz. Como ele podia se sentir tão superior me fazendo dizer aquelas palavras?
Minha visão começou a apresentar manchas pretas, estava cansada. Fechei os olhos. Não queria lutar com ele, ainda o considerava meu irmão. Senti suas mãos largarem me pescoço. Meu corpo caiu como uma pedra no chão.
– Adeus Alet... – sua voz não conseguiu terminar me nome. Abriu um pouco os olhos com dificuldade. Lá estava Kesabel com a mesma calça jeans e camisa aberta vindo em minha direção. Amom estava no chão. Não! Kesabel bateu nele.
– Amom... – disse com dificuldade tentando me rastejar até seu corpo.
Kesabel chegou ao meu lado e me pegou no colo, olhei para ele e sua expressão era séria e triste.
– Eu... quero... o... meu... irmão... – falei cravando minhas unhas em seu peito.
– Alethia para! Deixe de agir como uma criança! – ele gritou para mim. – Vamos para casa.
– Não... – disse chorando.
– Durma Alethia. – Kesabel disse calmo. Fechei os olhos.
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