Manos Antes das Minas

12 Na Estrada da Vida pt II


Passamos em minha casa e Douglas pegou sua bicicleta, logo indo para a casa de James.

Desde que havíamos parado de conversar, eu fui poucas vezes em sua casa. E nessas vezes, eu apenas ia quando acompanhado de meus pais ou para visitar seus pais e irmãos.

Minutos depois, chegamos á sua casa. Apertei o botão do interfone e disse á faxineira que atendera que era o Diego, assim, ela abriu o portão e subimos.

A casa de James era, e sempre foi, milhões de vezes maior e mais bonita que a minha. O piso de cerâmica branca refletia as luzes que foram acopladas no teto junto do gesso que decorava os cômodos com formas diferentes. Quadros presos ás paredes davam um leve ar sofisticado ao local. Na estante da sala de estar tinha pequenas esculturas de vidro com formas e cores estranhas, porta retratos de madeira com cores simples que carregavam fotos de viagens que eles sempre faziam que, alias, eu estava presente na maioria das fotos.

Haviam três quartos ─ um do casal, outro dos três irmãos e o ultimo para visitas ─ uma sala de estar enorme, que continha uma sacada de frente á um lindo parque, sala de jantar, área de limpeza, cozinha e, obviamente, banheiros. Um separado e mais três que se dividiam nos três quartos.

Ao passar pela porta, dei-me de cara com Adrian, o irmão mais novo de James, que estava sobre o sofá da sala de estar, jogando um jogo de Xbox na enorme tevê de plasma.

─Iaí cara! – o cumprimentei.
─Oi Diego, beleza? – parou o jogo para se levantar e nos cumprimentar.
─Beleza... – apertei sua mão. ─Esse é o Douglas, um amigo meu que mora lá na minha rua. – o apresentei, que logo estendeu sua mão para o visitante tímido.
─Prazer! – disse o mais novo de nós. ─Então, ta procurando o James? – pressupôs.
─Na verdade não. – mudei a expressão. ─Mas tem a haver com ele...
─Ata, entendi. – encarou o chão com um olhar pesaroso. ─Meus pais estão na cozinha com o Paul, vai lá.

É isso mesmo... James, Paul e Adrian. Nomes estranhamente estrangeiros para uma família mineira, não? A dona Neide fora uma grande fã de uma banda inglesa dos anos 80 que levava o nome do filho do meio, James. Paul e Adrian são integrantes da banda, aqueles que a jovem Neide sempre quisera conhecer. Ao ter seu primeiro filho, colocou o nome de seu guitarrista preferido, logo após decidiu fazer uma homenagem á banda, colocando o nome dela em seu segundo filho. Restando apenas Adrian, seu segundo guitarrista preferido, para o terceiro filho que chegara.

─Diego! – exclamou a Sra. Alves ao me ver. ─Que bom que veio, querido.
─Oi... Estavam com saudades? – tentei descontrair, mas não foi o suficiente para retirar o clima pesado sobre eles. ─Como estão? – perguntei após cumprimentar os três, me sentando na cadeira da mesa de jantar, onde estavam reunidos conversando, olhando para cada um de seus olhares fracos e tristonhos.
─Ficou sabendo do James? – indagou Paul que estava ao meu lado.
─Sim. – suspirei com o olhar fixo na mesa. ─Me desculpem por isso, acho que eu tenho uma parcela de culpa.
─Não diga isso, garoto. – Seu Antonio me repreendeu. ─Ele já tem dezoito anos nas costas. Já tem idade o suficiente para fazer suas escolhas e aguentar as suas consequências. O mínimo que possamos fazer é aconselhá-lo e esperar que ele nos esculte.

Aquilo foi como um tiro no peito. Mesmo todos dizendo que eu não tinha culpa, eu sentia um frio na barriga toda hora que pensava que se eu não houvesse me distanciado dele, nada disso havia acontecido.

Um silêncio incômodo tomou conta da mesa. Adrian que estava na sala com Douglas, veio até nós, parando na porta e observando-nos consternado, como se estivéssemos em um enterro.

─Hoje entregaram as notas, não foi? – perguntou Adrian, mudando de assunto.
─Sim... E eu passei. – disse com um sorriso tímido que logo acompanhou o meu rosto corado pelos cumprimentos e elogios.
─Que ótimo! – exclamou Dona Neide. ─Parabéns, sua mãe deve estar bastante orgulhosa.
─É... – sorri meio incômodo, pois sabia que, mesmo que aquele elogio fora sincero, ela estava desapontada por não poder saciar do mesmo orgulho que sua amiga provavelmente comemorava. ─O lado bom é que poderei ir á festa de formatura, já tenho até um par.
─E quem é a sortuda? – questionou Paul, cutucando-me com o cotovelo enquanto remexia as sobrancelhas.
─A Luana. – sorri de lado.
─Sério? – exclamou surpreso. ─Vocês estão...?
─Não... Não. – o contradisse ligeiramente. ─Eu apenas irei com ela.
─Ah. – balançou a cabeça, soltando uma risada irônica no ar. ─Não sei por que o desespero, ela é bonita e vocês formam um casal legal.
─Formamos?
─Sempre pensei que fosse rolar algo entre vocês, mas você sempre foi lentinho. Nunca tentou algo com ela.
─Não... Nem se eu tentasse, até alguns meses atrás ela era apaixonada pelo Julio e iam se casar.
─Eu não acho que ela gostava dele não... Quero dizer, de inicio pelo menos. – comentou.
─ O que você quer dizer com isso?
─Ela gostava de você antes de começar a namorar aquele cara...
─Sim, ela me disse. – o interrompi.
─Então... E você nunca deu bola pra ela, não como garota e sim como amiga. – parou por um instante, virando suas pernas e seu corpo para meu lado. ─Pra mim ela cansou e resolveu procurar outro e acabou achando aquilo. Se bobear ela gosta de você até hoje.
─Eu nunca... Nunca pensei nisso. – fixei meus olhos novamente para a mesa, agora viajando em minhas memórias, procurando achar semelhanças com as coisas que Paul havia dito.

Fui embora poucos minutos depois. Disse que precisava ir para resolver algo, mas a verdade é que eu ainda não queria me encontrar com James.

Naquele dia, mais tarde, fiquei pensando no que Paul havia me dito. Se aquilo fosse verdade, e a Luana realmente ainda mantivesse um sentimento por mim, isso explicaria o beijo que ela havia me dado. Eu tenho que admitir que ela me pegou de surpresa, mas senti algo no momento em que seus lábios tocaram nos meus. Não pude evitar aquela sensação novamente.

Eu estava deitado sobre a minha cama e observava meu teto como sempre. Jogado sobre a cama, eu alisava o chão com a ponta dos dedos enquanto fitava o teto escuro com os olhos fixos. Tateio algo fino e sedoso por debaixo da minha cama e me curvo para ver o que era. Estava escuro, mas pude ver pela fraca luz que se projetava por debaixo da porta de meu quarto, que era um dos lenços de cabelo de Luana. Aqueles que ela sempre esquecia em minha casa. O fisguei de imediato e o coloquei sobre o rosto, sentindo o delicado e encantador cheiro de seus cabelos ruivos.

─O que você está fazendo, Diego?! – questionei a mim mesmo em voz alta, enrolando o lenço imediatamente e o lançando em uma bola de pano contra um mural de fotos pregados na parede, derrubando intencionalmente algumas fotos. ─Droga. – praguejei, saltando sobre a cama e indo até o chão para catar as fotos espalhadas.

Juntei-as sobre minhas mãos e parei para observar uma que chamou minha atenção. Uma foto de cinco ou quatro anos atrás. Nela estava Luana, James e eu em um passeio que havíamos feito em Ouro Preto com a escola. No meio estava eu, com Luana assentada sobre meus ombros e James ao meu lado, com minha mão por trás de sua cabeça, fazendo "chifrinho" com os dedos.

Aquela foto trouxe um sentimento tão forte, uma nostalgia tão boa que fizeram meus olhos lacrimejaram no mesmo instante. Deixando uma gota saliente cair sobre a foto.

***

O final de Dezembro chegou que nem um raio, rápido e inesperado. Assim, já havia chegado o dia da festa de formatura que aconteceria uma semana antes do Natal.

Fui até a casa de Luana, sua mãe nos daria uma carona e como pagamento, eu teria que envelhecer a sua espera enquanto se arrumava.


─Vamos, minha filha. Você ta indo pra festa de formatura, não pro aniversario do Papa. – gritei da escada que dava para o segundo andar. ─Será que ela ficou entalada no banheiro? – indaguei ironicamente para a dona Clara, mãe de Luana, que ri de meu estresse. ─Você ri por que não é você que está suando que nem um porco dentro desse terno que fui obrigado a usar.

Ela continuou rindo, o que acaba por soltar um sorriso desintencional de minha face.

─Estou parecendo uma velhinha ranzinza, não é? – sorri.
─Ai, ai, Diego. – foi até mim, arrumando o nó de minha gravata. ─É tão bom saber que a Luana está indo com você. Sabe, desde que ela separou daquele cara, eu fiquei com medo do que a dor que ela estava sentindo fosse fazer com ela. Minha irmã passou por algo quase parecido e não teve um final feliz. – parou por um instante, repreendendo uma lagrima que escorreu pelo seu rosto. ─Mas graças a Deus e também a você, ela conseguiu enfrentar o mundo lá fora de cabeça erguida. Tenho muita coisa para lhe agradecer, Diego, mas eu sei que você fez tudo isso por que quer o bem dela.
─É tudo o que eu quero, Dona Clara. – a respondi prontamente, erguendo a cabeça para olhá-la nos olhos.
─Eu sei disso, meu filho. – arrumou agora o penteado de meu cabelo. ─E eu sei que ela também quer o seu bem tanto quanto você quer o dela.

Eu pude entender o que ela estava querendo dizer. Tipo, a própria mãe de minha amiga "shippava" nós dois. Estranho, não?

─Posso te fazer uma pergunta?
─Claro, querido. – consentiu serenamente.
─Você acha que... Ela ainda... Ahn...
─Gosta de você?
─É, é, isso. – fiquei vermelho igual a um pimentão de tanta timidez.
─Então, Dih, eu não posso dizer com tanta certeza, pois você deve perguntar isso á ela. Mas o que eu acho é que ela nunca deixou de gostar de você. Sempre que eu via vocês dois juntos, até quando ela namorava com o outro, ela ficava radiante, seus olhos brilhavam sempre que você falava com ela, seu humor mudava de uma forma tão boa, que a sua presença incomodava o ex noivo dela.
─É sério isso? O Julio tinha ciúmes de mim?
─E como. Sempre que ele vinha aqui eles discutiam por sua causa. Era só a Lu mencionar seu nome que o extressadinho cuspia fogo pelas ventas.
─Então é por isso que ele sempre ficava incomodado quando a Lu saia comigo. – soltei um sorriso bastante alegre. ─Eu sei que é estranho eu dizer isso, mas estou bastante contente por saber disso.

Ela apenas sorriu. Sua face se clareou, seus ombros se relaxaram e eu tive a ligeira impressão de que ela iria me dizer mais alguma coisa, mas no mesmo instante, Luana desceu das escadas e entrou na sala.

─E então... Como estou?

Ao me virar, entrei em uma espécie de transe profundo. Meus olhos se arregalaram em uma proporção absurda. Minha boca se abriu levemente, quase me fazendo engolir algumas moscas. Meu coração acelerou tanto quanto ─ ou até mais ─ a vez que recebi a primeira mensagem de Lucy. Então lá estava eu, parado de frente a Luana que esperava uma resposta minha há um minuto.

─Diego, você está bem? – perguntou ela meio sem jeito.
─E-estou. – engoli em seco, desviando o olhar dela e voltando a mim. ─Você está... – encarei-a novamente. Admirando seu vestido azul claro, com a barra rodada pouco sobre o joelho e um decote não muito chamativo. Uma maquiagem leve, como de costume e um belo e bem montado penteado, que pegava suas mechas da franja e se ligavam na parte de trás da cabeça, presos por uma linda tiara de brilhantes que cintilavam com a luz da sala. Tudo nela estava... ─...Perfeita! – completei.
─Obrigada. – corou levemente o rosto, curvando o mesmo com um sorriso bobo.

Então foi isso, ficamos em um silencio constrangedor por alguns poucos segundos. Acho que era obvio a minha surpresa e espanto diante dela, tanto que ela mesma não aguentava olhar para mim, pois estava tão vermelha quanto eu.

─Então vocês vão ou não vão á festa? – Dona Clara quebrou o silencio com um comentário entre os risos.
─Ah, claro... A festa. – voltei a mim novamente, estendendo a mão para Luana e me curvando levemente. ─Você me daria à honra?
─Ai que lindinho! – exclamou Dona Clara em um gemido amoroso acompanhado de um longo suspiro.
─
Mãe! – a repreendeu com o olhar, logo, segurando minha mão e sorrindo encantadamente. ─Com todo prazer.
─Ok... Então vamos por que sobrou pra eu levar vocês, né? – nos apressou com um tom irônico.

Entramos no carro da Dona Clara. Lu e eu nos assentamos nos bancos de trás. Ela estava feliz, podia-se notar isso claramente. Assim que entramos, ela se assentou ao meu lado e abraçou o meu braço direito, deitando sua cabeça sobre meu ombro.

Quando chegamos ao local, Dona Clara teve que parar de frente á portaria, aonde um enorme guarda com um terno preto estava petrificado com os braços cruzados.

─Uai e esse trem aí?! – indagou ela.
─O carro só pode entrar até aqui, mãe. – esclareceu Lu, abrindo a porta do carro e saindo. ─Obrigada.
─Valeu, Dona Clara. – agradeci enquanto ia em direção á entrada com Luana.


Demos nossos nomes ao segurança e passamos pela entrada. Assim que entramos no local pudemos sentir uma leve brisa refrescante. Havia um enorme lago com direito a pedalhinhos de cisne para percorrer a água que era iluminada pelo estonteante brilho da lua cheia que aquela noite nos proporcionava. O ar daquele lugar era calmo, simples e relaxante. Você pisava sobre a grama e podia sentir o seu pé afundar sobre o verde mar e tocar o solo úmido.

Nas árvores, corujas davam seus sinais de vida, cantando em sintonia para seus visitantes barulhentos. A música alta entrava pelos meus ouvidos e vibravam meu corpo no decorrer em que eu me aproximava. Ao centro havia um enorme estádio ao céu aberto. Vigas de madeira sustentavam um enorme globo de festa e vários outros refletores que davam um contraste diferente em nossas roupas. Entorno do estádio, próximo ao lago, havia vários coretos de madeira rosa decorada com flores das mais belas que refletiam sobre as águas tranquilas que circulavam alguns casais sobre seus cisnes brancos.

Após nos despedir da mãe de Luana, fomos para a pista de dança, e lá, encontramos Lucy acompanhada de Douglas, Julie e Oliver.

─Oi galera! – os cumprimentei.
─Ei Dih! – respondeu Lucy olhando-me de baixo pra cima.
─Tá gato hein, mano! – exclamou Douglas após abraçar Lu e cumprimentá-la com um beijo no rosto. Logo erguendo o copo em minha direção. ─Pega aí.

Dei uma tragada na bebida e devolvi o copo para ele com uma careta ao rosto.

─Forte. – comentei ainda sentindo minha garganta queimar. ─Eles estão distribuindo bebidas?
─Não. – respondeu Oliver dando uma golada rápida na bebida. ─Mas isso não quer dizer que não podemos trazer.
─Ta. – dei de ombros com um sorriso bobo e alegre ao rosto.
─Você está bem, Dih? – indagou Lucy que me fitava desde que eu havia chegado.
─Sim. – respondi quase de imediato, enquanto contemplava o local com os olhos atentos.

Um “silêncio” invadiu o local, mesmo com o som alto da música que tocava sobre nossos ouvidos.

─Posso falar com você? – ela perguntou, dando uma leve olhada para Luana ─ como se estivesse pedindo á ela para me levar ─, que consente com a cabeça.
─Ah... Claro. – respondi, mesmo parecendo que naquela hora quem decidia isso por mim era Luana.

Saímos do meio da multidão e fomos em direção a um dos coretos rosa com flores enroscadas nas madeiras de sustentação. Entrei primeiro e me encostei de leve no cercadinho do coreto e a encarei, esperando-a dizer algo.

─Eu sei de tudo. – lançou do nada.
─Oi?
─Sei que você, sabe... Gosta de mim. – ela disse, aproximando de mim e segurando minha mão.
─Ah. – fiquei surpreso com aquilo, tanto que não sabia o que dizer, então permaneci lá, parado com os olhos esbugalhados.
─Eu acho que já sabia desde o início e, após o que o James fez para não te magoar, ficou mais que nítido.
─Lucy...
─É muito difícil pra eu dizer isso... – parou para soltar um suspiro bruto, como se estivesse prendendo a respiração há horas. ─Você é um cara legal, bonito e tem um gosto musical fantástico, aliás, é igual ao meu. – sorriu. ─Temos bastantes coisas em comum e eu adoraria me apaixonar por você, mas infelizmente eu já sou por outra pessoa.
─Lucy...
─Você é incrível, e aposto que encontrará uma garota que goste de você de verdade. – colocou a mão sobre meu ombro, preparando-se para dizer mais alguma coisa, mas eu a interrompi com um grito.
─LUCY! – esse grito. ─Eu já encontrei.
─Já?
─Sim. –sorri de leve. ─Eu sei que você gosta do James, demorou muito tempo pra mim, mas agora eu já posso dizer isso em voz alta sem que algo no meu peito aperte meu coração como se eu fosse ter um infarto.
─Então... Eu não preciso passar por essa situação constrangedora?
─Bom... Acho que já estamos em uma. –a fiz rir.
─Nossa, é verdade... Você deve estar pensando que eu sou uma idiota. – colocou a mão sobre a boca enquanto ria de si mesma. ─Eu falando toda cuidadosa, achando que estava partindo seu coração, e você rindo da minha cara mentalmente.
─Não, que isso. – coloquei a mão sobre seu ombro. ─Vou deixar para rirmos disso no futuro. Quando não for mais tão constrangedor.

Ela sorriu junto ao meu ultimo comentário e permaneceu me olhando nos olhos.

─Você é demais, sabia?
─Todos me dizem isso. – fiz um biquinho convencido. ─Você também é... – estendi a mão para ela. ─Amigos?

Ela olhou para minha mão e depois no fundo dos meus olhos, completando o cumprimento.

─Amigos.

Demos um abraço e direcionamos nossa atenção para a festa. Ficamos em silêncio por um tempo, até que ela disse algo, com a visão ainda centrada na festa.

─Você parece estar feliz... Você está feliz! – exclamou em um sorriso. ─Seja ela quem for, está te fazendo bem.
─Pois é. – concordei. ─Eu pensei que estava apaixonado por você. Mas, o que eu sinto por ela agora, é algo que eu nunca senti por nenhuma garota antes.
─Então não perca tempo. – comentou, colocando sua mão sobre meu ombro. ─Vá até ela e diga tudo o que você sente.

Pensei por um instante no que ela havia dito e consenti com a cabeça. Carregando um sorriso entre os dentes e nos olhos.

─Eu vou.

Direcionei-me á pista de dança que estava lotada. Todos com seus pares fazendo seus rituais de acasalamento em forma de dança. Passava diversos tipos de músicas. De funk, funk, eletrônica, funk, sertanejo e uma pop... Ah, e funk. A mais aclamada e que deixava os alunos mais alvoroçados quando começava a tocar. Outrora eu manteria distância da festa, multidões me obrigam a entrar em uma casca de tartaruga imaginária, me isolando do mundo exterior e botando o interior para ser livre. Mas naquele dia eu havia um motivo para enfrentar o mundo... Não só enfrentá-lo, mas também bater de frente com a realidade e gritar para todos ouvirem... “EU EXISTO”. Eu existo, eu amo, eu sinto, eu erro e eu também acerto. E só naquele dia eu havia percebido isso... Sim, eu acerto.

Eu estava tão radiante, podia sentir todas aquelas emoções boas fervendo dentro de mim, borbulhando em meu estomago e arrepiando a minha espinha a cada passo que eu dava. Eu estava nervoso, pois, finalmente, eu havia encontrado a pessoa que todos me diziam que um dia eu iria encontrar. E você sabe quando isso aconteceu? Quando eu desisti de procurar. Irônico, não?

Eu havia desistido, jogado tudo pro ar, deixei meu coração nas mãos de Deus e me contive, e só aí eu pude ver que o meu amor estava ao meu lado todo esse tempo, e eu não havia visto por que estava correndo atrás de alguém que já tinha seu coração domado. Sim, eu estou falando dela. A jovem garota de vestido azul, cabelos ruivos naturais, grandes olhos verde esmeralda sentada em uma cadeira em meio a um mar de pessoas que, entre passos e outros da música, escondiam-na e me impediam de admirá-la com tanto apreço, carinho... Desejo.

O funk que tocava foi interrompido, desabando um "Ahh..." entre os alunos.Vi Douglas cochichar algo no ouvido do DJ, que consente com a cabeça e recoloca seu fone sobre um dos ouvidos. Ele, ainda sobre o palco, me procura dentre a multidão com os olhos, e quando me alcançou, fez um sinal para mim, me chamando até ele. Continuei indo em direção à multidão enquanto o DJ parecia procurar algo dentre seus aparelhos de mixagem.

De repente, uma música lenta começou a tocar, “A Thousand Years”, se não me engano. Todos se juntam aos seus respectivos pares, acompanhando a música lenta em movimentos delicados á dois. E lá estava eu novamente, sozinho no meio de vários casais. Sério, vida, você não acha que eu já passei por constrangimentos o suficiente? Manera aí.

Em meio aos meus lamentos e resmungos, vejo Douglas aproximar-se de mim com alguém que ele puxava pelo braço, passando pelos casais e evitando ter seu pé pisado por alguém desajeitado.

─Aqui estão. Aproveitem a noite. – não pude ver de primeira quem era, mas para ser sincero, meu coração já sabia quem estava ali.

─Luana? – forcei minha vista para reconhecê-la.
─Me desculpe pelo Douglas. – respondeu o meu chamado, já dando um passo para trás, como se já esperava uma rejeição.
─Não, espere. – agarrei seu braço, fazendo seus olhos me encararem em um sobressalto, aflitos e surpresos. ─Quer dançar?

Um sorriso lindo se formou em sua face. Seu rosto corou e pude sentir, pelo seu braço que eu segurava, que ela se arrepiou.

─Sim.

Dei um leve sorriso bobo. Coloquei minhas mãos delicadamente sobre sua cintura, enquanto que ela contornava seus braços entorno do meu pescoço, como se estivesse me abraçando.

Nossos corpos estavam próximos, e mais uma vez, pude sentir seu coração bater tão acelerado quanto o meu. Sua cabeça repousou sobre meu ombro direito. Sua respiração foi acalmando no decorrer da música, e a cada passo da dança que dávamos, podia sentir o quanto aquilo me fazia bem. Não estou dizendo de dançar, e sim de estar com ela tão próximo. Nós poderíamos estar cercados de pessoas a ponto de mal pudermos nos movimentar, mas, naquele momento, se eu fechasse meus olhos, era como se só estivéssemos nos dois ali, debaixo daquela enorme lua, acompanhada de estrelas das mais lindas que uma noite podia nos mostrar.

Minha mãe sempre me dizia que quando conheceu meu pai, ela soube de imediato que ele era o cara, pois nele ela encontrou sua paz. E naquele momento, eu pude ver que a Luana era o meu porto seguro, a fonte de toda a minha paz.

Continua na parte III...