Manos Antes das Minas
2 Demons
Notas iniciais
Eu não consigo lembrar com detalhes como eu me senti naquele exato momento porque meu coração parou de bater por alguns segundos. Imagina só, você ta pensando na pessoa e de repente ela te chama no Whatsapp dizendo que pegou seu numero, pois queria conversar com você. Era caso pra ter um derrame ou uma parada cardíaca, o que quase aconteceu. Meu coração pulsava mais agitado que escolas de samba no Carnaval, minhas mãos transpiravam tanto que poderiam encher toda a reserva da Cantareira (eca!). Bom, acho que entenderam o que eu senti no momento em questão. Agora vamos para a parte importante...
[─Oi... Prazer!] – respondi quase de imediato, após ter saltado da cama para reler a mensagem e verificar se não era algum engano.
[─Conversar cmg? – completei.
[─Sim... Eu entrei hoje na sua sala e como estamos praticamente no meio do ano eu perdi muita matéria, então seu amigo me disse que você poderia me ajudar.]
Sabe o que é decepção? Acho que essa cena descreve fielmente essa palavra. Recomendo colocaram o print dessa conversa ao lado da palavra “iludido” no dicionário. Eu estava no céu e de uma hora pra outra eu cai no fundo do poço da desilusão. Valeu, hein James.
[─Ah sim, claro. Vai querer de tds as matérias?]
[─Sim, se não for incômodo.]
[─Incomoda não.] – tentar sem gentil em horas como essas é coisa pra gente experiente, coisa que eu deveria ser, já que “toco” é meu sobrenome.
[─Obg :) ]
Eu estava tão decepcionado que perdi completamente o interesse em puxar uma conversa naquele momento. Mas também, o que eu estava pensando? A garota estava demonstrando interesse no James, por que ela iria querer algo comigo? O nerd que usa óculos, fã de HQs e que escreve fanfics como passatempo. Nem eu mesmo me namoraria. Nada contra com quem é assim, muito pelo contrario, “é noiz”. Mais tarde, James me chamou. Ele não dizia coisa com coisa. Era claro a sua embriaguez.
[─Tá aonde, seu bebum?]
[─Eu bêbado?] – respondeu após dois minutos escrevendo.
[─Não, eu que estou.]
[─Tô num show aqui, mano. Foda pra caraí. Já peguei mais de cinco.] – mandou fotos junto de algumas garotas.
[─Hun.] – respondi sem muito interesse. [─Você passou meu numero para a novata, né?]
[─Passei cara, fiz errado?]
[─Não, que isso.] – não foi sarcasmo. [─Ela veio me pedir as matérias desse bimestre. Só achei estranho quando vi a mensagem dela.]
[─Uhun, foi eu que falei pra ela pegar com vc. Mas iai, conversou com ela?]
[─Não.] – respondi sem pestanejar.
[─Pois deveria, Dih. Se você quer pegar a garota tem que conversar com ela uai] – imagina quanto tempo ele demorou agora.
[─Nem quero.] – mandei aquele emoji saliente. [─Mas tenho que admitir que fiquei decepcionado quando vi que ela só queria pegar matéria cmg.]
[─Dá nada não... Chega nela amanhã.]
[─Uhun. Agr vai embora que amanhã tem aula. Vou dormir, flw.]
[─Flw, manim.]
Me arrumei e fui me deitar. No dia seguinte fui acordado pelo despertador do meu celular, levantando e tomando um banho para logo me arrumar e ir á cozinha para tomar meu café da manhã onde meus pais já estavam á mesa.
─Bom dia, querido! – cumprimentou-me minha mãe com uma voz serena e acolhedora.
─Bom dia. – abracei-a, pegando uns pãezinhos de queijo (meus preferidos :3 ) sobre a mesa e tomando um copo de suco com voracidade.
─Não vai se sentar para tomar o café? – indagou meu pai, acompanhando meus passos com os olhos.
─Não vai dar. Tenho uma prova hoje e sempre dou uma revisada com o James antes, por que ele nunca estuda e sempre sobra pra mim ajudá-lo. – respondi-o meio com pressa, colocando um pãozinho na boca e me despedindo.
─Tchau. – responderam quase em uníssono.
Desci as escadas e me dei de cara com James que me esperava na porta de minha casa sobre sua bicicleta, preparando para me gritar.
─Demorou, hein. – reclamou, recebendo um olhar de soslaio.
─São seis da manhã de terça-feira, acordei mais cedo que o normal, mal tomei meu café da manhã pra poder ajudar você e ainda vem me apressar? Ou você é mesmo sem noção ou tá pedindo pra morrer. – subi na garupa da bicicleta. ─Tenho que admitir que estou torcendo para que seja a segunda opção. – fiz o rir.
***
Chegamos bem cedo, tinham poucas pessoas na escola e essas se reuniam em grupinhos separados pelo pátio. James e eu avistamos uma mesa vazia de longe e fomos até ela, sentando e preparando os cadernos e livros. Imagine você tentando ensinar um macaco equações de matemática. Esse era eu tentando ensinar James. Ou era falta de interesse ou era uma deficiência provocada por uma possível queda de cabeça no chão quando ainda era um bebê.
─Entendeu? – repeti, agora com o tom de voz mais alta para chamar a atenção do aluno despreocupado.
─Não. – respondeu sinceramente, expressando sua dificuldade.
─Oi garotos! – ah, essa é a Luana. Nossa amiga desde a terceira série. Luana é ruiva, mas não aquele ruivo avermelhado chamativo. É um ruivo natural, de um alaranjado discreto que combina perfeitamente com seus enormes olhos verdes claros e um sorriso bem colocado. Linda é só um elogio fraco e insuficiente para descrever suas feições naturais. ─Tá tentando ajudar o James a fazer a prova?! – riu descaradamente. ─Teria mais chance se você tentasse ensinar equações para um macaco.
─Oi Lu! – cumprimentei-a com um beijo simples no rosto.
─Calada... Vocês estão tranquilos aí por que são inteligentes e sempre tiram notão. – bufou, cruzando os braços e fechando a cara.
─Não, estamos tranquilos porque estudamos e estamos preparados para a prova. – retruquei, dando um toque de mão com Luana que ri junto a mim.
─Idiotas. – revirou os olhos.
─Você não entendeu nada do que eu expliquei? – arqueei a sobrancelha com pesar e dó.
─Entendi algumas coisas.
─Hun... – parei verificando algumas atividades de revisão que o professor havia passado. ─Então faz a questão cinco aí pra mim. – ordenei com um olhar desafiador, o que o incitou a fazer a atividade. Essa era uma das qualidades que eu mais admirava nele. Ele poderia ter um QI escolar inferior á de uma porta, mas se o desafiassem a fazer algo que ele normalmente não é capaz, ele inesperadamente despertava um interesse que pouco expressava em situações cotidianas.
─Pronto. – entregou-me a folha com um sorriso provocador.
─Tá certo! – sorri com o esperado. ─Viu, você tem capacidade. – suspirei mais uma vez notando a sua falta de atenção, cumprimentando um grupinho de garotas que passava a poucos metros.
─Por que não compramos um antolho para tampar a visão lateral dele? Assim ele vai se concentrar só na prova. – Luana o provocou novamente, como sempre. Desde pequenos era sempre assim, os dois nerds zoando o garoto popular. Irônico, não?
─To quase ficando sem outras opções mesmo, Lu. – embarquei na brincadeira. James novamente fecha a cara, logo abrindo um sorriso sacana que é direcionado a mim ao ver a aproximação de Lucy.
─Quem é? – indagou Luana para mim.
─É a Lucy, entrou ontem na nossa sala. – respondi enquanto James deixava a mesa e ia até ela. ─Aliás, por que você não veio ontem?
─Tive que resolver uns assuntos do casamento. – sentou-se no lugar de James, abraçando meu braço e colocando a cabeça sobre meu ombro. ─Nunca pensei que planejar um casamento fosse tão cansativo.
Lu tinha apenas dezessete anos e já estava noiva. Ela namorava um garoto um ano mais velho e após três anos de namoro ele a fez o pedido. Ela estava bastante animada, e assim, estava sempre sorridente e transmitia sua alegria para os demais em sua volta. Ela é daquele tipo de pessoa jubilosa que não liga para o que os outros pensam, e eu admiro muito isso nela, por que nem sempre consigo ser assim.
─Por que eu senti um clima estranho vindo de você quando o James foi falar com a novata? – sussurrou, olhando bem nos meus olhos. Coisa que ela sempre fazia quando queria que eu respondesse sinceramente, já que ela sabe que eu não consigo mentir pra ela quando estou diante daqueles enormes e brilhantes olhos verdes.
─Eu não sei. – evitava contato visual.
─Olha pra mim. – pediu, me cutucando na barriga.
─Não faça isso.
─Vamos, me conte.
─Não é nada demais. É sério. – encarei-a, fazendo-a consentir com a cabeça.
A primeira aula começa e James foi logo tentando pegar a mesa anterior á minha, mesa qual era sempre disputada pelos menos estudiosos em dias de prova.
Durante a aplicação da prova ele não me chamou em momento algum, o que estranhei de inicio. Após terminar primeiro que a maioria da sala. Virei-me despistadamente para James e o vi totalmente concentrado na prova, respondendo as questões uma por uma e parando para pensar antes de responder cada uma delas. Ao me ver, ele apenas sorri e retorna as questões.
***
O recreio começou e notei que James fora se sentar com Lucy e algumas de suas novas amigas. Procurei uma mesa vazia num local bastante excluso e me sentei, contando que passaria o tempo todo ali sozinho. Alcancei meu celular no bolso de minha calça e coloquei meus fones de ouvido, dando play e torcendo para que o aleatório acertasse a minha musica favorita.
When the days are cold
Quando os dias estão frios
And the cards all fold
E os cartões todos dobrados
And the saints we see
E os santos que vemos
Are all made of gold
São todos feitos de ouro
When your dreams all fail
Quando todos os seus sonhos falharem
And the ones we hail
E aqueles que saudamos
Are the worst of all
São os piores de todos
And the blood's run stale
E o sangue fica seco
I want to hide the truth
Eu quero esconder a verdade
I want to shelter you
Eu quero te proteger
But with the beast inside
Mas com a fera dentro
There's nowhere we can hide
Não há nenhum lugar que possamos nos esconder
...
Aquelas palavras sempre descreviam o que eu sentia. Independente da situação, eu sempre me confortava ao ouvi-la. A Lucy e os sentimentos que eu estava construindo por ela eram os meus demônios, aqueles que eu aprisionava no fundo de minha alma e lutava todos os dias para derrotá-los. Eu não queria aquilo pra mim, eu cogitava a todo momento o que poderia acontecer, quais consequências viriam com meus atos. Eu poderia simplesmente dizer ao James que eu estava gostando da garota, mas ai ele deixaria de conversar com ela pelo trato que fizemos. Séria mais fácil? Sim, séria. Mas eu me tornaria o cara que impediu um amigo de ficar com a garota que possivelmente está gostando dele por ter um sentimento que provavelmente não é recíproco.
Enquanto eu acompanhava a letra e comia meu lanche, vejo que Luana passa e me vê, acenando para mim e vindo em minha direção. Ela se senta ao meu lado e percebe o meu estado. Por educação eu decido retirar meus fones para ouvir o que ela tinha para me dizer, mas ela me impede, segurando meus fones e ordenando para que eu os colocasse de volta.
─Sei que é isso que você está precisando agora. – foi o bastante para eu abraçá-la com força, deixando a tristeza e a angústia fluírem.
Continua...
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