Notas iniciais
Olá! Finalmente estou aqui com o mínimo de tempo para escrever notas decentes. Primeiramente eu quero agradecer à todos que estão lendo e acompanhando até o momento, e também comentando! Isso apenas me motiva a continuar escrevendo cada vez mais. Em segundo lugar eu gostaria de avisar que este projeto não será algo pequeno, acredito eu que este é o menor de todos os capítulos da história. Ao contrário dos meus projetos anteriores, este está muito bem planejado e estruturado, o que me permite escrever mais e com mais riqueza de detalhes, o que consequentemente pode refletir na frequência de atualizações. Mas saibam que a cada nova atualização, vocês irão se deparar com capítulos muito bem pensados ♥ Quero avisar também que esta fanfic possui trailers! Sim, eu criei um canal no YouTube chamado Kpop Cariocando, onde estou fazendo trailers e vídeos de "ligações" do BTS, e em breve espero trazer algum conteúdo de redublagem também. No Spirit eu farei um jornal divulgando os trailers de Manicômio, mas no Nyah irei publicar o link na fanfic assim que possível. Porém, caso estejam curiosos, deem uma pesquisada no YT sobre o meu canal, e espero que vocês gostem ;3 Enfim, creio que as notas já estão grandes o suficiente. Espero que apreciem a leitura!

O psiquiatra estava sentado em um dos bancos de madeira que enfeitavam a entrada principal, pensativo, enquanto corria os olhos rasgados pela bela paisagem esverdeada que circundava todo o hospital. Os dedos batiam de forma sincronizada sobre o braço do banco de madeira onde descansava o cotovelo para apoiar o corpo. Podia-se dizer que estava compenetrado em solucionar algum problema e, por conta disto, precisava desse tempo sozinho divagando, mas a verdade era que estava deveras curioso. Não que não estivesse pensando, realmente, em como contornar a situação com Namjoon para que pudesse, de alguma forma, descobrir mais sobre o “outro lado” do ex-rapper que não conhecia.

Aparentemente não teria problemas em fazê-lo falar, principalmente levando em consideração o fato de que fora ele mesmo a tomar a iniciativa para contar-lhe tal história, esta que o fez perder o sono na noite anterior na medida em que procurava alguma conexão com o que o fizera se tornar um assassino em série. Admitia para si mesmo que estranhou o fato de Namjoon mencionar em sua história que, após o assassinato do estuprador, começar a ter visões ou algo do gênero. Imaginava que aquele detalhe poderia ser alguma pista sobre o real nível de sua psicopatia, ou talvez houvesse dito aquilo para que confundisse sua mente de alguma forma. Gostaria, entretanto, não poderia simplesmente ignorar tal fato, fazendo uma nota mental para que voltasse a tocar no assunto das possíveis visões em algum outro momento.

— Tenho até medo de me intrometer quando você fica assim.

Foi tirado de seus devaneios por uma voz que conhecia muito bem. Os olhos rasgados ergueram-se para a figura que estava à sua frente naquele momento e que, impressionantemente, não havia percebido por conta de suas indagações mentais. O médico piscou algumas vezes, aos poucos voltando para a sua realidade na medida em que sorria e se levantava para cumprimentar.

— Jungkook? Eu não esperava vê-lo tão cedo depois de nossa última conversa. – Disse, ajeitando levemente o jaleco branco que usava enquanto corria o olhar pelo tão conhecido uniforme de seu amigo policial. Fazia frio naquele dia, fazendo com que Jungkook usasse uma roupa grossa com uma camisa de mangas longas. Viu como ele ergueu os ombros, e só então reparou que o mesmo carregava uma pasta em baixo de um dos braços. – O que é isso?

— São algumas informações sobre o Namjoon que encontrei ao longo dos anos e achei relevante compartilhar contigo. – O policial explicou, retirando a pasta do conforto de seu braço para entregar ao médico. – Pensei que pudesse te ajudar em alguma coisa, Jin. Fiquei um pouco preocupado com... Você sabe, o fato de todos sermos amigos.

— Ah, isso com certeza irá ajudar sim. Mas... Com o que está preocupado exatamente? – Perguntou, porém sem tirar os olhos da pasta, segurando-a com ambas as mãos antes de abrir, dando uma checada rápida pelo conteúdo que existia ali dentro. Neste meio tempo Jungkook suspirou cansado, levantou uma das mãos aos cabelos pretos o que, obviamente, chamara a atenção de Jin.

— Primeiramente porque todos éramos amigos e conhecemos um lado do Namjoon que não existe mais. – Começou, vendo o médico erguer uma das sobrancelhas. – E segundamente... – Jeon fez uma longa pausa, parecendo tentar escolher as palavras certas. – Eu estou precisando de ajuda, urgente.

Jin endireitou a postura logo em seguida, fechando a pasta para dar a total atenção que o policial precisava.

— É algo com que eu possa ajudar diretamente? Pode falar comigo, Jungkook. – Seokjin comentou, aproximando-se ainda mais do amigo ao perceber o olhar de extrema preocupação do policial.

— Você tem um tempo livre para jantarmos? Acredito que a conversa será longa. – Perguntou e o psiquiatra parou para pensar por breves momentos. Realmente começava a escurecer e talvez não fosse ter problemas caso saísse por alguns momentos para comer, precisava disso, afinal.

— Podemos ir agora se você quiser, posso aproveitar e deixar a pasta em casa na volta. Até porque acho que não conseguiria tempo de ler todo o seu material aqui no hospital. – Respondeu, recebendo um sorriso aliviado de Jungkook, que mais do que depressa pegou as chaves da viatura policial do bolso da calça, girando levemente nos dedos.

— Eu garanto que você irá gostar do que irei te contar, e mesmo que não puder me ajudar se conseguir me indicar alguém que possa já será maravilhoso. – Disse e logo em seguida girou os calcanhares, indo em direção ao carro e sendo seguido por Jin logo atrás, que apressou os passos até estar ao lado do amigo.

— Estou ficando curioso, eu detesto quando você fica assim, cheio de mistérios! – Jin brincou, arrancando uma risada do policial. Ao chegarem à viatura Jungkook destravou o carro e entrou, sentando-se no banco do motorista, sendo seguido pelo psiquiatra que se acomodou no banco do carona.

— Então Jin, você lembra que eu comentei contigo que estava cuidando de um rapaz? – Comentou, recebendo um acenar positivo como resposta. O policial deu a partida, dirigindo rumo a um restaurante ali perto que costumavam ir sempre. – É sobre ele que eu quero falar.

— Eu me lembro vagamente que você me disse que ele tinha problemas psicológicos, estou certo? – Jin comentou e Jungkook assentiu.

— Transtorno de personalidade borderline, se eu não me engano. – O policial engoliu em seco.

— Eu chamo de transtorno de personalidade limítrofe, mas esse termo também é aceito. – Seokjin pontuou, voltando os olhos pretos para o amigo que estava concentrado no trânsito. – Ele está causando problemas?

— Eu... Estou preocupado. – Jungkook segurou o volante com mais força, mordendo o lábio inferior. – Nos últimos dias os surtos dele têm ficado cada vez mais frequentes, além de estarem ficando piores. – Olhou de canto para Jin, que havia franzido o cenho.

— Você quer que eu marque um dia com ele no meu consultório? Você sabe que para mim isso não é problema. – Imediatamente se prontificou, arrancando um suspiro pesado do policial. – O que?

— Eu tenho receio porque quando eu disser de quem se trata você provavelmente não vai aceitar. – Jungkook apertou os lábios em uma carranca, voltando os olhos para o rosto de Jin ao parar em um sinal vermelho.

— Então diga logo de quem se trata! Mesmo se eu não puder ajudar, posso indicar alguém de minha confiança, até mesmo o Taehyung. – Jin também encarou o policial e permaneceram assim por alguns segundos, em silêncio, fitando um ao outro. Por fim Jungkook suspirou aparentemente desanimado e cansado.

— É o Jimin.

Os dois homens ficaram em completo silêncio após a revelação da identidade do rapaz e Jungkook voltou a dar partida no carro quando o sinal abriu. Enquanto isso o psiquiatra, suspirando profundamente, levou ambas as mãos às têmporas, massageando-as com certa força.

— Park Jimin? – Jin finalmente se pronunciou, em seguida erguendo a cabeça. – Estou ouvindo muito esse nome ultimamente...

— Eu sei que vocês tiveram as suas diferenças no passado... Mas ele é nosso amigo, Jin. – Jungkook voltou a se pronunciar. – Além de ser só um garoto! Ele está sofrendo muito, eu vejo isso todos os dias e eu não sei mais o que fazer para ajuda-lo. Sinto que a qualquer momento ele possa fazer uma besteira e... – Deu uma pausa, sentindo um nó na garganta. – Acabar cometendo suicídio.

— Realmente, a pessoa que é borderline precisa de um acompanhamento médico. – Jin suspirou mais uma vez. – Mas você entende que eu não posso ajuda-lo com isso. Primeiramente porque éramos amigos íntimos e estou encontrando muitas dificuldades para lidar com Namjoon de forma imparcial. E também pelas diferenças que temos um com o outro, não é certo, não é ético.

Jungkook, então, estacionou em frente à um restaurante coreano tradicional, finalmente soltando o aperto que fazia sobre o volante da viatura. Os olhos pretos voltaram-se para Jin, suplicantes.

— Vamos entrar? Eu preciso te contar sobre quando Jimin e eu nos reencontramos.

Três anos antes, Busan

Não gostava muito da ideia de estar sendo acompanhado o tempo inteiro, porém compreendia que era um procedimento básico que deveria ser cumprido. Afinal, era novo na corporação e precisava que os companheiros mais experientes o ensinassem sobre as rotinas e sobre o que era, de fato, ser um policial. Desta forma tinha o total conhecimento de que os primeiros dias seriam entediantes e que seria um mero expectador, além de provavelmente ser excluído de missões ou rondas mais perigosas pelo fato de ser um novato, todavia não imaginou que seria tão entediante quanto estava realmente sendo.

Naquele dia em específico estava em mais uma ronda noturna com seu colega de trabalho. Sentado no banco do carona, estava com uma caixa de donuts recheados e coloridos que seu companheiro fez questão de comprar. Particularmente detestava a associação que as pessoas faziam entre policiais e aquela sobremesa, mas precisava admitir que eram muito gostosas, realmente. Até mesmo estava com uma em mãos, recheada com creme de castanhas e polvilhada com açúcar e chocolate meio amargo na parte externa. Era a sua favorita, e também ajudava a distraí-lo das noites de tédio que se resumiam em dirigir pelas ruas vazias a procura de algum baderneiro, o que provavelmente não acontecia, até voltarem para a corporação e, enfim, voltarem para casa.

Encostou a cabeça levemente no banco, os olhos pretos voltando-se para o céu noturno e estrelado. A noite estava linda, o que o fazia lembrar as vezes em que passava as férias escolares na casa de seus avós em Sokcho. Gostava de sair escondido nas madrugadas para deitar sobre o gramado e encarar o céu noturno durante horas, aquilo de certa forma o acalmava e trazia-lhe uma paz de espírito sem tamanho.

— A ronda de hoje até que está bem tranquila. – Foi tirado de seus devaneios pelo seu companheiro de trabalho, que suspirava pesada e visivelmente entediado. – Tranquila até demais, está sendo um dia perdido.

— Mais um dia perdido. – Suspirou igualmente entediado, voltando os olhos pretos para o companheiro de trabalho, que acabou rindo nasalmente.

— No começo é assim mesmo, Jungkook. Mas as coisas irão ficar mais emocionantes conforme o tempo for passando. – Respondeu sorridente, parando em um sinal vermelho e aproveitando para pegar um dos donuts da caixinha.

— Eu sei, mas você entende o meu lado não é, Youngjae? – Jungkook deu uma mordida generosa em seu próprio donut. – Eu queria trabalhar com homicídios.

— Eu também já fui um novato, meu amigo. – Youngjae respondeu, inflando levemente as narinas. – As coisas irão acontecer no tempo certo, pode confiar.

— Se você diz...

— Olha eu entendo a sua ansiedade. – Deu a partida no carro uma vez que o sinal havia aberto. – Mas para trabalhar com o departamento de homicídios você precisa conhecer muito bem todos os outros departamentos. Não é algo tão simples assim investigar um crime até encontrar o culpado, engloba muita coisa e você precisa conhecer tudo o que está ligado a essa área para que possa te facilitar no futuro. Por isso é importante que você fique entediado comigo nesta noite linda em que poderíamos estar bebendo.

Youngjae voltou os olhos brincalhões para Jungkook que acabou rindo com a brincadeira do parceiro de trabalho, balançando a cabeça negativamente algumas vezes.

— Só você para me fazer rir em uma noite tão entediante como essa. – Respondeu sorrindo.

— Eu sempre estou preparado para deixar as noites mais divertidas, meu querido. – O rapaz piscou divertido para Jungkook, que rolou os olhos novamente.

Naquele momento Youngjae não estava olhando para a rua e Jungkook, rapidamente, voltou os olhos rasgados para a mesma para logo em seguida arregala-los. A poucos metros encontrava-se uma figura masculina parada bem no meio da rua escura, sendo iluminada apenas pelo farol da viatura policial que andava em uma velocidade considerável.

— Youngjae! – Jungkook disse alterado ao perceber que a figura não se movia, indicando que não era sua intenção sair da frente do carro. – Freia essa merda Youngjae!

— Puta que pariu! – O rapaz praguejou consigo mesmo e pisou fundo no freio, rezando mentalmente para que o carro parasse antes de acabar passando por cima daquela pessoa.

Para alívio dos dois policiais, o carro acabou parando a poucos centímetros de distância do homem que estava ali e em pé. Jungkook, respirando profundamente, voltou os olhos rasgados para o corpo imediatamente à frente do carro e que era sombriamente iluminado pelos faróis acesos, e a visão que o policial teve não era nada bonita.

O rapaz estava com a cabeça abaixada, porém olhando com seriedade e frieza para os dois policiais dentro do carro, o que aparentemente parecia ser uma camisa de mangas longas estava agora com as mangas rasgadas, os braços repletos de cortes frescos por onde o sangue escorria traçando vários caminhos vermelhos que iam até os dedos e pingavam de encontro ao chão e também acabavam manchando sua roupa. Seu rosto mantinha o mesmo padrão, porém com cortes aparentemente superficiais, enquanto lágrimas desciam pelo rosto frio.

Jungkook cerrou os olhos perante aquela visão enquanto Youngjae tentava processar o que, de fato, estava contemplando, quando no mesmo instante o corpo do rapaz caiu desfalecido no chão.

— Minha nossa! – Jungkook mais do que depressa se desfez do cinto de segurança e da caixa de donuts, abrindo a porta da viatura para correr em socorro àquele rapaz. Youngjae fez o mesmo, dando a volta pelo outro lado ainda em tempo de ver o amigo Jeon se abaixar ao lado do corpo daquele rapaz, segurando-o em seu colo enquanto virava o rosto do mesmo para si.

Foi apenas naquele momento em que os olhos de Jungkook encontraram os cabelos tingidos em um tom claro de suas memórias juvenis, assim como o rosto delineado outrora sorridente que estava guardado em suas memórias, e que agora estava manchado com o próprio sangue causado por cortes e, talvez, arranhões. Além dos lábios que agora se encontravam com perfurações de mordidas e que também sangravam. Os olhos rasgados de Jungkook estavam, agora, arregalados em verdadeiro espanto.

— Jimin?! – O policial disse surpreso, recebendo como resposta apenas os olhos do rapaz, que foram voltados em sua direção, por onde lágrimas incessantes desciam sem parar. O rapaz continuou com a expressão fria até que, de repente, o belo e macabro rosto acabou se distorcendo em uma carranca dolorida. Jungkook percebeu, de relance, Jimin erguer ambas as mãos sangrentas, levando-as até os cabelos claros, apertando-os e puxando os fios ao mesmo tempo, enquanto um som rouco saía por sua garganta enquanto chorava.

Youngjae estava paralisado em pé ao lado de Jungkook sem saber o que fazer, e o novato, igualmente perdido, apenas puxou o corpo de Jimin mais para perto, envolvendo-o nos próprios braços enquanto o mesmo gritava alto.

— Ele precisa de cuidados médicos agora. – Jungkook comentou, olhando para o parceiro com uma expressão preocupada.

— Tem um hospital aqui perto onde podemos leva-lo. – Youngjae respondeu prontamente. – Você o conhece?

— Acho que sim... – Jungkook em um movimento rápido segurou melhor o corpo de Jimin nos braços, erguendo-o no colo e finalmente se levantando do chão. – Abre a porta de trás para mim, vamos nesse hospital.

— Essa noite estava tranquila demais... – Youngjae comentou sozinho, rapidamente dando a volta para abrir a porta da viatura, onde Jungkook entrou junto com Jimin e ali permaneceu.

O policial mais experiente assumiu o volante mais uma vez e, ligando a sirene, partiu em alta velocidade na direção do hospital. No banco de trás o novato tentava acalmar Jimin, que agora agarrava com força o uniforme preto da corporação que usava, tamanha era a força que Jungkook temia que o mesmo acabasse rasgando seu uniforme. Enquanto isso tentava acalmá-lo, acariciando os cabelos lisos enquanto balbuciava:

— Você está seguro agora, tudo vai se sair bem. – Usava um tom de voz baixo e sereno, obviamente tentando esconder sua preocupação. – Jimin, você pode olhar para mim? – Jungkook levou uma das mãos ao rosto do rapaz, acariciando sua bochecha enquanto o erguia levemente. Jimin voltou os olhos inchados para o policial, fungando de forma profunda, a dor estampada em seus olhos e por breves momentos Jungkook sentiu um nó em sua garganta. – Jimin... Quem fez isso com você? Pode confiar em mim, eu irei te ajudar.

O rapaz continuou olhando para Jungkook por alguns segundos antes de esconder o rosto mais uma vez em seu peito, sendo apertado pelo policial que então voltou os olhos rasgados para Youngjae, que os observava pelo retrovisor na medida em que dirigia.

— Eu preciso voltar... – Foi tirado dos próprios pensamentos pela voz rouca de Jimin, abafada por estar com o rosto enfurnado no peito do policial, porém conseguiu ouvi-lo claramente.

— Você precisa de cuidados médicos Jimin. Está seguro conosco. – Jungkook o apertou mais forte, sentindo-o tremer.

— Eu preciso voltar para ele... Eu tenho que... Eu não terminei, ele não vai gostar...

— Ele quem? Foi ele quem fez isso com você? – Jungkook insistiu, os olhos pretos voltando para o rosto de Jimin, que mordia o lábio inferior mais uma vez, com tanta força que abria novas feridas. – Ei, Jimin, não se machuque assim...

Jungkook moveu a mão na direção dos lábios de Jimin, porém o mesmo em um movimento repentino segurou a mão do policial com certa força, afastando-o, o que obviamente o pegara desprevenido. Pelo espelho retrovisor, Youngjae observava como Jimin se levantava, os olhos inchados arregalados, os dentes trincados e rangendo, olhando para Jungkook com uma face no mínimo assustadora.

— Eu tenho que voltar para ele! – O tom de voz que usava era alto demais, porém não parecia se importar com isso. O policial novato ficou em silêncio, vendo como os olhos de Jimin agora encaravam o vidro da porta da viatura, encarando fixamente o próprio reflexo no espelho, a expressão no rosto se transformando mais uma vez para uma completamente assustada, os olhos se enchendo de lágrimas novamente.

— Jimin, o que foi? – Jungkook finalmente perguntou, apoiando uma das mãos nas costas do rapaz, que tremeu violentamente antes de levar as mãos ao próprio rosto.

— Quando que isso vai parar?! – Jimin praticamente gritava dentro da viatura, cravando as unhas nas bochechas na medida em que as lágrimas voltavam a escorrer pelo rosto ferido. – Faz isso parar, amor, faz isso parar, por favor!

— Amor? – Youngjae voltou os olhos para Jungkook, que acabou dando de ombros sem entender.

Jungkook e Youngjae estavam completamente confusos pela reação repentina do rapaz e ambos os policiais se entreolharam pelo espelho retrovisor. O mesmo pensamento cruzou a mente dos dois rapazes, onde provavelmente Jimin estivesse tendo alucinações por conta do uso de algum tipo de entorpecente.

Praticamente no mesmo instante Youngjae estacionou o carro em frente ao hospital, e mais do que depressa, no momento em que as portas do veículo foram destravadas, Jimin saltou do colo de Jungkook para fora da viatura correndo para a calçada. O policial correu logo atrás dele.

— Youngjae, entra no hospital e peça ajuda! Eu vou tentar contê-lo aqui fora! – Jungkook pediu e o colega de trabalho assentiu.

— Só tome cuidado. – Dito isto, o homem entrou apressadamente, deixando Jeon sozinho com Jimin, que no momento estava andando em círculos e olhando para todos os lados, como se estivesse perdido. Jungkook se aproximou novamente com cautela, chamando por Jimin que depois de alguns segundos finalmente conseguiu focar o olhar no policial novamente, e então ficaram se encarando por longos segundos em silêncio.

— Kookie? – Jimin disse em um sussurro, arrancando um sorriso aliviado do policial por finalmente ter sido reconhecido. – Kookie... É você mesmo?

— Sim, Jimin, sou eu. – Aproximou-se mais uma vez do rapaz, com um sorriso amigável enquanto tentava ignorar o fato de estar sendo encarado de cima a baixo pelos olhos do amigo. – Vai ficar tudo bem, nada vai te acontecer, estou aqui para te ajudar.

Jimin balançou a cabeça positivamente antes de abaixar o olhar, concentrando-se nos braços feridos. Franziu o cenho na medida em que olhava os cortes, o corpo tremendo levemente. Como se adivinhasse o que estava por vir, Jungkook correu em sua direção na medida em que o corpo de Jimin perdeu as próprias forças, caindo nos braços do policial, finalmente desacordado. Naquele mesmo momento ouviu as portas do hospital se abrirem e o amigo Youngjae surgiu dali juntamente com dois enfermeiros e uma maca. Jungkook suspirou aliviado, ajeitando o corpo de Jimin para que pudesse deitá-lo apropriadamente.

— O que houve? – Youngjae perguntou, colocando-se imediatamente ao lado de Jungkook e acompanhando os enfermeiros para dentro do hospital na medida em que levavam Jimin com eles.

— Não faço ideia, ele acabou desmaiando. – O policial passou as mãos pelos cabelos escuros, mordendo o lábio inferior. Seu parceiro de trabalho conseguia ler nitidamente a preocupação que Jungkook trazia em sua face, estava até mesmo com os olhos levemente arregalados e focados no corredor para onde levavam Jimin.

Atualmente, no restaurante em Busan

Seokjin levou um pedaço de tofu à boca para comer, saboreando o sabor que o mesmo adquiriu do kimchi-guk que havia pedido, ao mesmo tempo em que prestava atenção no que o amigo Jungkook dizia e, principalmente, no desfecho de toda aquela história. Jamais imaginara que os amigos iriam se reencontrar daquela forma tão trágica e, apesar de já ter conhecimento prévio dos problemas de Jimin, sequer se passava pela sua cabeça que o rapaz poderia acabar desenvolvendo um problema tão grande como aquele.

Observou com os olhos rasgados Jungkook provar pela primeira vez desde que entraram naquele restaurante o seu bibimbap, que, aliás, era seu prato preferido sempre que iam àquele lugar. A expressão do policial, no entanto, era um tanto triste, por conta das lembranças e da história que acabara de contar.

— E depois? – Jin finalmente se pronunciou, chamando a atenção do amigo mais uma vez.

— Os médicos o atenderam e cuidaram de seus ferimentos. Jimin não estava sob efeito de nenhum entorpecente, mas estava passando por uma espécie de crise. – Disse Jeon, pegando mais um pouco da comida.

— Esses episódios são muito comuns? – Voltou a atenção ao seu kimchi-guk por breves momentos, cruzando as pernas em baixo da mesa.

— Antigamente aconteciam com maior frequência, quando Jimin morava sozinho. – Jungkook deu uma leve pausa para comer, em seguida tossindo para limpar a garganta antes de se pronunciar mais uma vez. – Jimin tinha acabado de perder o emprego na emissora naquela época, estava devendo vários meses de aluguel e corria o risco de ser despejado a qualquer momento, além do fato de estar tendo dificuldades em encontrar um emprego novo. E a situação só piorava quando a mãe dele o comparava com o irmão, você sabe como o Sungchang é bem sucedido.

— Imagino a pressão que ele sentia por conta disso. Eu lembro que o Taehyung ficava muito deprimido quando nossos pais começavam a compará-lo comigo. – Jin comentou, encostando-se levemente sobre o banco enquanto bebia o suco que havia pedido. – É algo que infelizmente acontece com os irmãos mais novos, mas eu tentava de todas as formas manter o Tae-Tae motivado. Mas eu acho que isso não acontecia entre o Sungchang e ele, visto que o Jimin sempre tentou dar o seu melhor nas aulas. Eu lembro que ele nunca ficava satisfeito quando tirava notas um pouco abaixo da nota máxima, Jimin nunca aceitou menos que o máximo.

— Acredito eu que o Jimin nunca entendeu que as pessoas são diferentes, principalmente ao se tratar do Sungchang. – Jungkook também bebeu um pouco do suco. – Afinal eles são meio irmãos, obviamente não teriam tantas coisas em comum. – Viu Jin dar de ombros e voltar a comer. – Você pode não gostar do que vou dizer, e eu também não acredito que estou falando sobre isso, mas temos que concordar que o Namjoon fazia muito bem ao Jimin naquela época.

Seokjin então fechou o rosto em uma carranca, até mesmo afastando a comida da boca enquanto crispava os lábios, voltando os olhos rasgados para o outro lado. Se havia alguma coisa que o médico simplesmente detestava era tocar no assunto do relacionamento entre Namjoon e Jimin na época de escola.

— Eu sei que você não gosta de lembrar dessa época em específico, mas encare isso como um profissional. Namjoon era o único que conseguia controlar os impulsos suicidas de Jimin. Eu acho que foi até por isso que ele ficou ao lado dele, ao invés de ficar com você. E hoje eu me sinto particularmente aliviado pelas coisas terem saído como se saíram. – Jungkook comentou e Jin não teve como discordar do amigo, apesar de suas opiniões pessoais sobre Namjoon. – Mas... Jin. – O amigo voltou a se pronunciar, atraindo os olhos pretos do médico para si. – Você sabe que no fundo o Namjoon sempre amou você, não sabe?

O psiquiatra balançou a cabeça positivamente, logo em seguida desviando o olhar para um ponto completamente aleatório no restaurante. Por mais que fosse um homem estudado e soubesse que intempéries pessoais não deveriam se intrometer em sua vida profissional, simplesmente não conseguia superar aquele fato em específico. Ao se tratar de Namjoon, principalmente na época de escola, Jin não conseguia simplesmente evitar o aperto no peito que sentia, assim como o sentimento de impotência que sempre tomava conta de si. No fundo, por mais que negasse para si mesmo, ainda tinha sentimentos por Kim Namjoon, e esse era um dos principais fatores que complicavam ainda mais o seu trabalho para com o mesmo.

Foi tirado de seus devaneios por um suspiro pesado vindo de Jungkook, que abaixou o olhar para seu prato de comida mais uma vez.

— Eu não sei se isso o conforta um pouco, ou se o deixa ainda mais angustiado. – Riu nasalmente, arrancando um rolar de olhos de Seokjin. O policial ergueu o olhar novamente para o amigo. – Jin. – Levou uma das mãos à mão do amigo médico, segurando com certa força. – Independente do que houve no passado, você pode me ajudar com o Jimin? Eu não sei mais a quem recorrer, e eu não quero que ele acabe... Você sabe.

Jungkook engoliu em seco, olhando ainda suplicante para o amigo médico, que suspirou derrotado, deixando os ombros caírem levemente.

— Eu infelizmente não posso fazer nada para ajuda-lo. Já estou com uma carga muito pesada para lidar com o Namjoon. – Jin respondeu, arrancando um olhar de desesperança do amigo. – Mas eu posso falar com o Taehyung. Ele é um excelente profissional assim como eu, e é especificamente voltado para a psicologia. Eu tenho certeza que o Tae-Tae irá te ajudar, principalmente pelo fato de não ter sido tão próximo do Jimin como eu fui, então ele conseguirá atende-lo melhor.

— Ah... Jin, muito obrigado! – Jungkook respondeu, apertando ainda mais a mão do amigo médico enquanto sorria aliviado. – Eu senti que meu coração parou por alguns momentos quando você disse que não iria me ajudar!

— Você é dramático demais, Jeon Jungkook. Eu jamais recusaria um pedido de socorro, e eu disse que faria o que estivesse ao meu alcance para ajudar. – Seokjin voltou a comer sua sopa, fechando os olhos por breves momentos. – Além disso, é como você disse. Independente das desavenças que existem entre eu e Jimin por conta do Namjoon, nós somos amigos, e eu nunca o deixaria desamparado em um dos momentos em que ele mais precisa de pessoas próximas a ele. E o Tae-Tae é a pessoa mais indicada para lidar com ele nesse momento.

Jungkook sorriu confortável, inclinando a cabeça para Jin.

— Eu sempre achei engraçada a forma como vocês dois se tratam. Eu lembro do Taehyung correndo no corredor da escola sempre que te via, falando “Jin hyung! Jin hyung!” e você com o seu “Tae-Tae”, que pelo visto se mantém até hoje. – O policial brincou, arrancando um belo sorriso do médico.

— Ele é meu irmão mais novo, o que você esperava? – Seokjin respondeu, ainda rindo, e arrancando outro sorriso de Jungkook. – Você iria entender se tivesse um irmão.

— Ah, não. Eu amo ser filho único e ter toda a atenção para mim, então eu dispenso essa, tudo bem?

Os dois amigos se olharam por breves momentos antes de caírem na gargalhada mais uma vez, Jin balançando a cabeça negativamente antes de voltar a atenção para o seu prato de comida, enquanto Jungkook fazia o mesmo.

Notas finais
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