Sorvendo uma fração do líquido quente que residia por entre suas mãos, o rapaz abaixou os olhos rasgados enquanto sentia o calor da leve fumaça esvoaçante aquecer-lhe o rosto naquele dia frio. Estavam em uma época do ano em que o clima começava a esfriar em Busan, e, particularmente, era uma pessoa que possuía naturalmente uma baixa temperatura corporal por conta de seu metabolismo lento, o que facilitava seu desconforto em dias frios. Isso, além do fato de não poder usar roupas escuras para se aquecer por conta de sua profissão. Não que não gostasse do branco rotineiro, mas usar preto naquela época do ano era demasiadamente atrativo.

Suspirou em alívio aparente na medida em que sentia o líquido quente e escuro descer pela garganta, aquecendo-o por dentro. Até mesmo afastou levemente a pequena xícara que praticamente desaparecia em suas mãos, desta forma erguendo o olhar cansado para que pudesse contemplar a paisagem à sua frente.

— Você parece estranhamente tranquilo hoje.

Foi tirado de seus próprios devaneios por uma voz conhecida de um homem que estava sentado imediatamente à sua frente. Os olhos rasgados miraram a figura de cabelos pretos perfeitamente alinhados que caíam por suas orelhas, em seguida os olhos igualmente rasgados em tom castanho que realçava sua cútis, além do brinco preto que usava nas orelhas que, apesar de incomum em um homem, dava-lhe um charme a mais e, ao mesmo tempo, eram discretos o suficiente para não causar tamanha estranheza aos que estavam em volta. Em seguida os olhos caíram sobre o uniforme preto perfeitamente alinhado, uma camisa de mangas curtas adornada com o brasão da polícia de Busan em uma das mangas, enquanto a outra era estampada com a bandeira nacional da Coréia do Sul. À frente, na altura do peito e imediatamente acima dos bolsos de botão, seu sobrenome estava gravado em uma pequena placa retangular de metal, com os caracteres “JEON” estampados ali. O cinto da calça de seu uniforme subia em ambos os lados de sua cintura e interpretava aquilo como uma maneira de equilibrar as forças do corpo durante suas missões ou rondas rotineiras caso perseguisse alguém, o que provavelmente acabava acontecendo.

— Na verdade eu estou um pouco, como se diz... Apático. – Respondeu simplista, voltando ao seu ritual para bebericar do líquido quente. – Nem mesmo o café está me ajudando neste momento.

— Acredito que sei o motivo por você estar assim. Eu me senti da mesma forma após o julgamento. – Respondeu, recostando-se sobre o banco enquanto os olhos castanhos miravam o local em que estavam. Outras pessoas ali aproveitavam o momento para aquecer o corpo com uma generosa dose de café, aproveitando o ambiente confortável e rústico daquela maravilhosa cafeteria. – Na verdade eu mesmo ainda estou com um gosto amargo na boca, não consigo deixar de me sentir culpado.

— Acho que entendo como se sente, Jungkook. Eu ainda estou com um sentimento estranho com relação a isso. – Suspirou, finalmente repousando a pequena xícara sobre o pires na mesa de madeira entre eles. – Eu nunca pensei que nos reencontraríamos desta forma.

— Podia ser sob outras circunstâncias, mas... Bom, não iremos julgar o destino. Talvez tenha sido melhor assim. – O policial respondeu, passando a mão pelos cabelos pretos e os jogando levemente para trás antes de, finalmente, voltar os olhos rasgados para os olhos do amigo. – Jin... Como estão às coisas para você desde receberam Namjoon lá?

Suspirou pesadamente, encostando-se sobre a cadeira enquanto voltava os olhos rasgados para o lado de fora, pensativo. Estavam sentados de frente a uma grande janela que permitia que tivessem uma visão privilegiada do tráfego urbano de Busan e, na media em que as pessoas cruzavam o seu campo de visão, Jin se recordava aos poucos dos últimos dias, estes que precederam todo o escândalo social que abalou a sociedade sul coreana. E, principalmente, fez com que perdesse noites valiosas de sono.

Busan, 11 de setembro

“Após a identificação do famoso ‘estripador de Busan’ ser confirmada, aguardaremos o julgamento do caso para o veredicto. Finalmente os cidadãos sul coreanos poderão sair às ruas tranquilamente mais uma vez.”

“A identidade do ‘estripador de Busan’ chocou toda a indústria musical ao apontar Kim Namjoon, o rapper mais bem sucedido dentro e fora da Coréia do Sul, como o responsável por dezenas de assassinatos em série onde os corpos, até o presente momento, não foram encontrados.”

“Centenas de famílias se reúnem no dia de hoje para homenagear as vítimas de Kim Namjoon, o icônico ‘estripador de Busan’, que deverá ser julgado nos próximos dias.”

“O laudo médico de Kim Namjoon comprova psicopatia em estágio avançado. O julgamento deverá indicar se o ‘estripador de Busan’ será encaminhado para um presídio ou um hospital psiquiátrico.”

“A BigHit Entertainment se pronunciou no dia de hoje para dar total apoio aos familiares das vítimas de Kim Namjoon e afirmou que está tomando todas as providências necessárias para colaborar com a polícia.”

“O policial responsável pelo caso do ‘estripador de Busan’, Jeon Jungkook, falará conosco exclusivamente para nos contar mais detalhes dos próximos passos que a justiça irá tomar contra Kim Namjoon.”

“O Hospital Psiquiátrico Nacional de Busan foi citado pela justiça como o suposto destino de Kim Namjoon após o julgamento, gerando indignação em cidadãos que possuem familiares internados no hospital para tratamento.”

Incredulidade era o que o definia desde o momento em que a identidade do “estripador de Busan” fora revelada ao público e, mesmo com todos os noticiários relatando exatamente a mesma coisa, a verdade apenas veio a toda para si no momento em que se viu sentado em uma das cadeiras do tribunal no dia de seu julgamento, representando, juntamente com seu superior, o Hospital Psiquiátrico Nacional de Busan. Não conseguiu desviar o olhar de Namjoon quando o viu entrar na sala do tribunal com os pulsos algemados para trás, trajando o tão conhecido uniforme azul escuro dos detentos da Coréia do Sul. Era escoltado por Jeon Jungkook, responsável por toda a investigação por trás do caso. No entanto, o que mais chamava a sua atenção era o fato de Namjoon estar sorrindo durante todo o julgamento, principalmente no momento em que fora condenado a vinte e cinco anos de reclusão no Hospital Psiquiátrico Nacional de Busan.

Além disso, nada parecia superar o arrepio que subiu-lhe a espinha quando Namjoon, finalmente, percebera sua presença no tribunal. Os olhos do ex-rapper eram fixos e frios como o gelo, fitando-o como um animal feroz fitava sua presa no momento do abate. Geralmente não se abalava tão facilmente, principalmente pelo fato de lidar com pessoas com estados mentais tão cavados quanto o dele todos os dias, por isso estranhou em demasia o fato de se afetar tanto apenas com um olhar daquele homem. Talvez fosse pelo fato de terem sido amigos íntimos em um passado distante, enquanto ainda estavam nos anos de secundário. Era difícil para si aceitar o fato que alguém tão próximo poderia se transformar em uma pessoa como aquela. Todavia, por mais que não quisesse admitir, conseguia encontrar no olhar do “estripador de Busan” o antigo Kim Namjoon que conhecia, e pedia com todas as suas forças para que seu diretor não o deixasse responsável por ele, afinal, era completamente antiético. No entanto, sabia que o fato de ser um dos melhores psiquiatras da Coréia do Sul pesaria na balança no momento da escolha, principalmente por também ter formação em psicologia, desta forma sendo obrigado a pensar em excelentes argumentos para fazer o homem de idade ao seu lado compreender que não poderia abraçar Namjoon como fazia com seus outros pacientes.

O som do martelo do juiz ao anunciar a sentença o expulsou de seus devaneios, obrigando-o a regressar à realidade com um balde de água fria sendo lançado contra o seu rosto. Não conseguia entender o motivo de o seu corpo estar reagindo daquela forma, estava confuso ao ponto de sequer perceber o momento em que levantou e que foi puxado por seu superior para o lado de fora. Estava em uma espécie de transe na medida em que Namjoon ganhava a atenção de seus olhos, este que era mais uma vez escoltado por Jungkook para fora daquele tribunal.

— Seokjin. – Ouviu a voz grave o chamar, e apenas nesse momento que, desde que adentrara o recinto, voltou os olhos rasgados para o homem. Seu superior era mais velho, parte de seu couro cabeludo era visível aos olhos do médico pela falta de cabelo, seu corpo era levemente voluptuoso em comparação com a aparência dos demais presentes e, assim como Jin, trajava somente roupas brancas. O homem, ao atrair sua atenção, continuou. – Creio que deva imaginar o que estou prestes a te propor.

— Sim, diretor. – Respondeu simplista, ambos caminhando lado a lado na medida em que conversavam. O médico encavara o longo corredor de paredes azuladas que levariam os dois para o lado de fora, até mesmo conseguia enxergar a porta de saída, onde dezenas de repórteres estariam esperando o mínimo movimento para abordarem o primeiro que saísse, enchendo-os de perguntas. – Devo alertar que Namjoon e eu éramos grandes amigos no passado, e o fato de conhecê-lo tão bem talvez afete no meu tratamento. Por isso não seria ético aceitar a proposta.

— Eu entendo o que você quer dizer com relação à ética profissional. Mas entenda que se estou pedindo isso à você, é porque não encontrei outras opções. – O homem explicou, parando no meio do corretor e fitando Jin nos olhos, que fez o mesmo. – Você é o melhor profissional do hospital e é deveras conceituado no país. O fato de Namjoon ter sido encaminhado para nossa instituição pode fazer com que muitas famílias não se sintam seguras e retirem seus pacientes de nossos cuidados. Então, com certeza se elas soubessem que o “estripador de Busan” está sob os cuidados médicos de Kim Seokjin, ficariam mais tranquilas com relação a isso. – O homem suspirou, fechando os olhos por breves segundos. – Além disso, os seus colegas de trabalho se recusaram em acolher Namjoon como paciente, e obviamente não encontrarei algum profissional de fora que esteja interessado em trata-lo para contratá-lo. Então estou de mãos atadas.

Jin suspirou pesadamente, deixando seus ombros caírem em aparente derrota. Todos os argumentos que poderia vir a usar para seu benefício acabaram por cair por terra com aquela informação que recebera do diretor. Definitivamente não sabia o que fazer no momento, precisava seguir com a sua ética profissional, mas, ao mesmo tempo, agora que tinha o conhecimento da real situação de Namjoon, temia que o diretor acabasse o deixando sob o cuidado forçado de um de seus colegas e este não fizesse o tratamento adequado para com o mesmo. Apesar de tudo, era um ser humano extremamente preocupado com o bem estar de seus pacientes para fechar os olhos a essa possibilidade que era tão provável de vir a acontecer.

— Diretor, eu... Tentarei dar o meu melhor. Nunca tive um desafio tão grande como esse. – Jin respondeu derrotado, porém sentindo-se um pouco mais confortável pelo sorriso aliviado que o homem mais velho à sua frente lhe lançou. – Será definitivamente um grande desafio que irá contra muitos dos meus valores profissionais, mas eu tentarei dar o meu melhor para ajuda-lo.

— Muito obrigado, Seokjin. – O homem sorriu aliviado, até mesmo soltando o ar que sequer percebera que estava prendendo.

Com isso feito, ambos voltaram a caminhar dirigindo-se para o lado de fora, onde uma legião de repórteres os esperavam.

Atualmente, na cafeteria

Suspirou pesadamente mais uma vez, segurando a xícara por entre as duas mãos novamente enquanto sorvia mais um pouco do líquido amargo. Lembrar-se daqueles dias fazia seu estômago se revirar, principalmente pelo fato de estar convivendo com Namjoon praticamente todos os dias, após o julgamento.

— Digamos que nossa convivência esteja... Tranquila. – Respondeu finalmente à Jungkook, que ainda o fitava atenciosamente. O policial ainda estava com os ombros tensos e apenas relaxou quando ouviu a resposta do amigo médico. – Infelizmente não posso entrar em tantos detalhes quanto gostaria por conta do sigilo médico, mesmo que você tenha que continuar acompanhando o caso e o progresso dele.

— Eu sei e entendo. – O policial respondeu, mexendo levemente no cassetete que estava pendurado em sua cintura, só então desviando o olhar para um ponto em específico da mesa de madeira escura. – Mas... Jin. – Ergueu novamente os castanhos para o amigo. – Não deixe de me dizer caso lhe ele cause problemas. Eu preciso que me diga caso ele tenha ou tome ações suspeitas ou extremamente violentas mais uma vez. Essas informações são cruciais para a duração da pena dele, que pode aumentar ou diminuir dependendo do desempenho dele.

— Sim, pode ficar tranquilo com relação a isso, Jungkook. – Seokjin aspirou fundo, sentindo o amado odor de café de sua xícara. – Eu tentarei ajuda-lo por meio de tudo o que eu sei. Eu não quero que ele simplesmente cumpra sua pena, quero trata-lo o suficiente para que ele possa ser reinserido na sociedade como uma pessoa comum e normal, capaz de conviver entre as outras pessoas sem apresentar perigo a elas ou a ele próprio.

Não percebeu o amigo sorrir com aquela colocação, mas Jungkook inclinou a cabeça levemente para o lado, encarando o amigo médico com um misto de orgulho e admiração. O policial simplesmente não sabia o que dizer sempre que Jin se expressava daquela forma, sentia como se o coração se aquecesse em ver que o amigo tinha um propósito de vida tão nobre.

— O mundo seria um lugar maravilhoso se existissem mais pessoas como você. – Comentou e Seokjin acabou rindo um pouco alto, balançando a cabeça levemente. Obviamente acabou enrubescendo, sendo obrigado a desviar o olhar para o lado.

— Não seja bobo, sua profissão é ainda mais nobre que a minha. Você é policial, afinal, salva tantas vidas todos os dias e... Por mais que eu ainda não tenha processado direito o que tenha acontecido com Namjoon, o fato de você ter conseguido solucionar o caso salvou outras dezenas de pessoas, e fez justiça a todas as vítimas que ele fez. – Jin disse sorrindo, agora vendo Jungkook enrubescer pela enxurrada de elogios que recebia.

— Não vamos medir profissões, o importante é que nós dois estamos fazendo o que é certo à nossa maneira. – O policial devolveu, recebendo um acenar positivo do médico que acabou concordando com a conotação posta por ele. Naquele momento o telefone de Jungkook começou a tocar e o rapaz o tirou do bolso, olhando sério para o visor.

— Trabalho? – Jin comentou, virando-se apenas o suficiente para chamar o garçom que os havia servido para pedir a conta de ambos.

— Sim e não... – Jungkook suspirou pesadamente, respondendo à mensagem que havia recebido antes de guardar o telefone mais uma vez. – De qualquer forma, o dever me chama.

— Vá, adiante-se. Você me paga a próxima. – Jin sorriu e piscou com um dos olhos, fazendo o amigo policial rir.

Jungkook ergueu-se da mesa, ajeitando o uniforme antes de sair um tanto apressado para o lado de fora, onde sua viatura estava estacionada. Seokjin observou todo o movimento do amigo, visto que tinha uma visão privilegiada do mesmo uma vez que estava na janela observando todo o movimento externo. Observou a forma como o amigo policial abria a porta da viatura e se acomodava em seu interior antes de sair em disparada até o seu destino, enquanto deixava para trás um Jin pensativo que estava a se preparar para voltar ao hospital e encarar o amigo Kim Namjoon mais uma vez.