Notas iniciais
Se você for pesquisar fotos de quartos de manicômios por aí, vai ver que existem uns muito terríveis. Pesquise. Você vai ter uma ideia melhor de onde ela acordou. E esse capítulo é um pequeno "prólogo". Não revela muita coisa sobre a história, é só uma preparação. Então... Aproveitem! Musica: http://www.youtube.com/watch?v=hGzvkySJKbM (apertem play quando ela começar a ouvir)

"Eu falo de como percebo a dessarrumação da enorme quantidade de pessoas esquecidas. Sem amor. Que perambulam pela noite a procura de um carinho. Um abrigo. Como vertigem de um espectro longo e sanguinário eu falo do que eu preciso ouvir. Uma imensa horda de cantigas e cactus. Imprensadas pelo cantinho das suas cantilenas rôtas. Eu falo porque eu não quero me esquecer de ti, tão fúnebre desgraça. Uma poça de uma luz que assa um troço de uma asa banguela; umbral de católicos escarros e putas. Eu falo. Por que eu sei que eu vou morrer. Rosto colado ao teu... Como flanelógrafo de ruinas amanhecidas de tanto se afogar." — Manicômio, Desconhecido


Capítulo I

Eu não sabia bem quando acordei, só sei que não havia luz por lá. O lugar era fúnebre e grunge. Tão escrotamente horroroso, que fazia parecer com que as paredes de lá tivessem toneladas e toneladas de coisas ruins. Coisas que, se eu permitisse à ousadia, diria que piores que gente morta ou espíritos perambulantes. Estava deitada em uma coisa estupidamente nojenta, que não me permitiria chamar de cama. Era um quarto com medidas certas, quatro paredes, uma cama bem ao meio, uma porta enferrujada e pesada e nada mais. As paredes concentravam coisas parecidas com ferrugem. O chão tinha todo o tipo de sujeira possível, e o quarto era apenas sustentado pela pequena faixa de luz solar que saia da minúscula janela em uma das paredes. Era parecido com janelas de banheiro, mas toda suja e enferrujada. Quando eu abri os olhos e olhei para aquele teto horroroso, ainda sem saber o que estava acontecendo, me levantei. Estava deitada em algo parecido com um ofício, a cama toda enferrujada e com algo que mais parecia um mínimo cobertor dobrado em dois como colchão. Nada me tinha sido tão desconfortável na vida. Olhei em volta, e vi aquele ambiente horroroso, sustentado por um cheiro horrível.

Não se ouvia nem que fosse um mínimo ruído vindo do lado de fora. O silencio era tão alto que praticamente gritava em mim. Era ensurdecedor. Parecia que quanto mais quieto mais eu queria que minha mente sumisse. Era como se meus pensamentos estivessem se autodestruindo. Um por um. Transformando meu celebro em pó a cada movimento.

Era frio.

Eu nunca havia sentido tanto frio em toda a minha vida.

Era tudo absolutamente fechado. A fresta de luz que jorrava da pequena janela de beco caía perto do pé da cama. A luz contaminava o ambiente, e mesmo sendo apenas uma fresta parecia que minha cabeça explodiria se continuasse olhando para ela.

Sentia dor. Era como se estivessem me enfiando agulhas por todos os lugares. Tudo doía. Tudo machucava. Meus olhos queimavam. Meu corpo queimava.

Apesar do frio, por dentro eu sentia como se tudo estivesse derretendo. Eu não tinha mais nenhuma base. Estava em um macacão de paciente, encolhida em cima da cama que mais me parecia um ofício, em um quarto horrendo, e a luz que saia daquela janela parecia se proliferar dentro de mim.

Sai de cima da cama. Fui para o canto do quarto, lá me agachei, me encolhi, abracei meus joelhos e fiquei encarando a minha frente. Uma porta. Uma porta enferrujada com um retângulo na parte de cima. Era um vidro. Mas estava tão sujo que não podia se ver o que havia lá fora.

Por um momento eu pensei realmente estar sozinha naquele lugar. Eu tinha a sensação de que mesmo que eu gritasse com toda a força que existia dentro de mim ninguém me ouviria. Era assustador.

Eu não conseguia me lembrar de nada. Minha cabeça girava e girava, não conseguia achar um ponto de partida. Era como se alguém tivesse usado o meu cérebro como cartas de um jogo e as embaralhado logo em seguida. Sentia-me rasgada.

Era angustiante. Meu peito doía, minha cabeça latejava, tudo se mexia e meu olhar não conseguia se focar em um só plano. Comecei a achar que tudo aquilo era um sonho. Eu estava encolhida tremendo no canto do quarto sujo e grotesco.

E então a música começou.

Eu senti como se minha cabeça fosse explodir. Era como se meus neurônios estivessem em combustão. Aquela musica. Não aquela musica.

Eu não podia mais ouvir aquela musica.

Poucos segundos antes estava encolhida abraçada em meus próprios joelhos, mas então quando eu ouvi a musica comecei a me mexer. Não conseguia. Eu não podia mais ouvir aquela musica.

E então tudo voltou. Era como flashbacks de memória. Eu me contorcia no chão, suava, e abafava o grito. Comecei a queimar. Minha cabeça. Tudo queimava. Minha família. Minha vida. Tudo o que eu tinha. Tudo o que eu era.

Era como se eu estivesse á ponto de cair em pedaços. Meu corpo não aguentava mais. Eu estava absolutamente tensa, meus músculos estavam duros, eu continuava a me contorcer e a colocar as mãos no meu ouvido. Aquela musica não... Não pode ser... Eu...

E então eu gritei. E gritei como se fosse a ultima coisa que eu fosse fazer enquanto eu respirasse. Porque parecia mesmo que eu iria morrer se não fizesse aquilo. Minha vida dependia disso. Então eu gritava, me contorcia, e doía tanto, queimava tanto, que eu cheguei á nem sentir mais. Era como levar um bote de facadas no estomago. Eu não conseguia mais ficar ali. Eu precisava sair.

Eu continuava gritando, e gritando, e então me levantei do chão e fui correndo para a porta, que estava trancada. Eu me debatia contra ela, fazia barulho, e meu corpo doía a cada vez que eu me jogava contra a parede. Comecei a socar a superfície enferrujada. Tinha de ter alguém ali! Eu não estava morta. Eu estava viva. Eu sentia dor. Eu precisava sair dali antes que não me restasse mais ar.

Eu soquei tanto, mas tanto a porta, que quando olhei para as minhas mãos elas estavam ensanguentadas. Por toda a parte do pulso, dos dedos, por tudo. E por um segundo eu senti que iria desmaiar. Eu gritei. Gritei. Não me importei com a dor nas mãos e continuei batendo. Meu corpo ia ceder. Eu ia cair. Eu ia morrer.

— NÃO!!!!!! — Eu gritei. Senti que minha garganta iria pegar fogo. Eu não tinha mais voz. A música continuava. E a cada batimento doce dela eu sentia que eu ia parar de respirar.

E em um segundo quando achei que fosse desabar no chão repleto de sujeira, alguém abriu a porta em algo quase como um soco, me jogando para a beira do pé da cama. Caí, e mais uns 5 homens e umas 2 mulheres com roupas de paramédicos entraram no local.

Eles entraram correndo, e enquanto estava no chão pude avistar uma maca do lado de fora. Dois deles tentaram me pegar. Eu não queria que eles me pegassem.

Eu queria correr.

Eu precisava correr.

Porque se eu não corresse, eu nunca mais sairia daquele lugar de novo.

E então desesperadamente chutei os dois, e quando o terceiro veio tentar me pegar mordi seu braço. Mais dois vieram, e eu comecei a me contorcer no colo deles. Em segundos os 5 estavam em cima de mim, e quando eu ia me preparar para dar outro bote eu senti algo nas minhas costas.

Gritei.

Doía. Eu olhei para trás e lá estava a enfermeira, com a injeção na mão. A agulha era grande, e eu comecei a ceder.

Eu... Não... Podia...

Eles iam me matar, eu não podia desmaiar agora. Mas foi como se minha força tivesse sido extraída naquele potinho de remédio que acompanhava a agulha. A dor tinha ido embora. Minhas pernas ficaram bambas, e ao mesmo tempo em que eu sentia alívio sentia angustia. Era como se eu não tivesse mais controle do meu corpo. Olhei novamente para o rosto da enfermeira loira, e então a partir daquela roupa branca tudo clareou.

Tudo o que eu vi depois disso foi um apagão.

***

Eu abri meus olhos, e o clarão me pegou de surpresa. Meus olhos doeram então eu enfiei minha cabeça no travesseiro.

O som saía da pequena caixinha de musica de Maggot. A bailarina dentro dela girava ao ritmo da musica. Deitada de lado, olhei para ela se mexendo ali na minha estante de cabeceira.

“Eu odeio essa musica”, pensei, fechando a caixinha com toda a força.

Eu me sentia confusa. O que tinha acontecido nas ultimas horas? Nos últimos dias? Nas ultimas semanas?

Em que ano nós estávamos? Onde eu estava?

Sentei-me na cama e olhei em volta. Era o meu quarto. As prateleiras, os livros, os cadernos ao lado do notebook. O rosa da parede que minha mãe tinha me obrigado á pintar. A caixinha de musica da minha irmãzinha mais nova que tinha deixado ali na noite passada, em que ela estava com dificuldades para dormir.

Então era isso? Foi a noite passada?

Talvez não.

Parecia que eu havia perdido a noção do tempo. Eu não fazia nem ideia do porque de eu estar ali.

Ouvi vozes vindas da cozinha. Soava como a minha mãe falando, e então ouvi risos de criança. Ainda estava claro demais para mim. Tentei fechar os olhos por um tempo mas não funcionou. A porta do meu quarto se abriu quando uma criança de cabelos loiros nos ombros e olhos azuis entrou no quarto. Ela sorriu quando me viu acordada.

Maggot.

Ela me encarou com seus olhos grandes e azuis. Eu queria falar mas não podia. Era como se meu peso tivesse aumentado em toneladas. Tentei levantar meus braços mas não consegui. Algo como uma câmara invisível de gravidade me empurrava para baixo.

— Venha, Morah. Mamãe está esperando. — Ela disse, em tom angelical.

Mas eu não conseguia responder. As palavras não se formavam na minha boca, somente iam embora. Era uma das sensações mais angustiantes que eu havia provado na minha vida.

— Morah! Venha! — Maggot começou a falar mais alto. Podia ouvir o tintilar da voz deva ecoando na minha cabeça. A dor começou a bater no meu corpo. A música continuava a tocar. O rosto angelical de Maggot me encarava com uma expressão alegre, enquanto ela pulava chamando pelo o meu nome, que já havia se transformado num eco infeliz e turvo. A voz dela estava cada vez mais baixa e era como se alguém estivesse aumentando o volume daquela caixinha de música na cabeceira da cama. O volume só subia. Eu queria socar, tirar aquilo dali, fazer sair, levantar e poder ver o que estava acontecendo. Mas enquanto eu lutava para conseguir mover um músculo o som da caixa foi interrompido por um grito vindo da cozinha.

Eu entrei em desespero. Olhei para o rosto de Maggot e a expressão petrificada tomou conta do pequeno olhar dela. Ela estava com medo, céus ela era uma criança de 4 anos! Eu precisava me levantar, mas por mais que eu me esforçasse eu não conseguia. Meu corpo não deixava. Minha mente não funcionava. Eu só sabia que queria tirar ela dali.

Em segundos, alguma coisa tomou conta do quarto. Um riso escureceu a superfície e as paredes começaram a tremer. O chão não parecia mais chão. Meu corpo não se movia mais, e então algo puxou Maggot por trás e segurou sua boca com a mão de luvas pretas. Uma neblina escura se envolveu em volta dela, e daquela coisa que a segurava. O que eu consegui fazer foi gritar. Assim que o fiz, o grito de Maggot se juntou ao meu, e eu senti as lágrimas escorrendo pelo meu rosto. Fechei meus olhos e gritei mais ainda e quando consegui os abrir, meu quarto não era mais meu quarto. Maggot estava no chão escuro e um líquido vinho saia de seu pequeno pescoço. Tão frágil, tão vulnerável, eles tinham pegado ela e a matado.

Mas eles quem?

Eu não me lembrava. Mas eles queriam tudo o que era meu. Até mesmo minha sanidade.

O quarto havia se transformado num redemoinho escuro e Maggot já não estava mais no chão. Agora a única coisa por lá era eu. A cama havia desaparecido de baixo de mim e eu já conseguia me mover. Eu tentei me levantar mas o vento era forte demais.

E então eu comecei a ouvir uma mistura de sons. Os gritos de Maggot e da minha mãe misturados com o som da caixinha de música. Os gritos de pavor daquele garoto, o garoto de olhos cinzas que tinha me implorado para eu o deixar ir. O som era estridente de alto, eu nem ao menos conseguia respirar. Meus ouvidos doíam tanto que acabou que eu mal sentia a dor. Era um inferno. Era um pesadelo.

Era um pesadelo.

A citação. A citação de Nevil.

Um pesadelo, dois gritos, três quatro cinco razões para querer acordar.

E então minha mente começou a repetir as palavras.

Um pesadelo, dois gritos, três quatro cinco razões para querer acordar. Um pesadelo, dois gritos, três quatro cinco razões para querer acordar. Um pesadelo, dois gritos, três quatro cinco razões para querer acordar. Um pesadelo, dois gritos, três quatro cinco razões para querer acordar. Um pesadelo, dois gritos, três quatro cinco razões para querer acordar. Um pesadelo, dois gritos, três quatro cinco razões para querer acordar. Um pesadelo, dois gritos, três quatro cinco razões para querer acordar. Um pesadelo, dois gritos, três quatro cinco razões para querer acordar. Um pesadelo, dois gritos, três quatro cinco razões para querer acordar...

Meu corpo queimou e em um grito eu caí em um poço escuro aonde eu sabia que eu não voltaria a pisar.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.