Manhãs de Outono
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Era uma manhã fria e cinzenta de outono e, enquanto chuviscava do lado de fora da janela, Wilson se espreguiçava de forma preguiçosa contra as cobertas sobre a cama.
O quarto era levemente iluminado pela claridade cinzenta que vinha de fora da janela, os pingos insistentes contra o vidro fazendo sombra no piso do quarto.
Wilson se sentia extremamente sonolento e quase deu graças a Deus por ser domingo e não ter plantão no hospital.
Rolou até o outro lado da cama, fazendo com que a coberta embola-se contra seu corpo, e foi então que notou que ela estava vazia. Buscou o relógio com os olhos pesados e se perguntou o que House estava fazendo fora da cama as 08h15min de um domingo chuvoso. Durante a semana, quando tinha que estar no trabalho as 07h00 ele apenas chegava as 09h00, e agora que podia dormir até mais tarde ele estava de pé?
Wilson bocejou enquanto se encolhia em um arrepio, não importava. A perna de House costumava doer mais durante o frio e como já era quase inverno parecia claro que era aquele o motivo do sumiço do mais velho.
Se concentrou em tentar voltar a dormir sob as cobertas pesadas que o cobriam, quando notara o som que vinha da TV. Lembrou-se de House dizer que comprara um DVD de algum filme do Clint Eastwood, mas Wilson estava sonolento demais pra se lembrar do título do filme.
Virou-se para o outro lado, sentindo o tecido quente do sono que estava tendo há poucos minutos, e tentou ignorar o som abafado que vinha da sala. De certa forma era bom estar sozinho na cama. Com todo aquele espaço à mercê de seus caprichos. House podia ser bem espaçoso quando queria.
Concentrou-se no calor do colchão e cobertas contra seu corpo, na pouca iluminação confortável no quarto e no barulho gostoso da chuva. Não demorou para que caísse num estado de dormência delicioso e merecido.
Seu sono era tanto que preferiu ignorar os passos incertos em direção da cama. Sabia, mas ignorou o barulho da porta, o silêncio repentino na sala, os passos e o corpo que se esgueirava entre as cobertas pesadas e quentes.
O peso de House contra o colchão fez a cama balançar levemente, mas foi apenas quando ele veio se encaixar no corpo de Wilson que o moreno esboçou alguma reação.
Sentiu a pele arrepiar quando House se acomodou contra si. O peito úmido do banho recém tomado roçando em suas costas e a barba por fazer que o grisalho fez questão de raspar contra o pescoço sensível de Wilson. O menor gemeu com o fundo da garganta quando sentiu os braços compridos de House abraçarem sua cintura de maneira apertada.
–Bom dia – a voz rouca soou no seu ouvido.
–Bom dia, House – Wilson respondeu com a voz arrastada. – O que você estava fazendo acordado a essa hora?
–Os Imperdoáveis – disse apenas.
Claro, era esse o nome do filme.
–Bom – Wilson conseguiu dizer.
–Não só bom – rebateu contrariado. – É um clássico.
House brincou com o nariz em sua nuca, roçando o rosto pela pele quente de Wilson e por entre os fios castanhos bagunçados. Wilson escutou o som molhado da boca de House se abrindo e se arrepiou por completo quando ele mordiscou ali.
–Eu estou dormindo, House – Wilson estava com tanto sono que tinha preguiça de formar as palavras nos lábios.
–Não preciso que esteja acordado – ronronou. – Só preciso que esteja de costas.
Wilson abriu os olhos ao som daquelas palavras. Era impossível.
–Cale a boca.
Wilson forçou o corpo, virando em direção ao rosto de House apenas pra encontrá-lo com um sorriso inocente nos lábios muito finos.
–Você é um saco, sabia? – Wilson alfinetou.
–E você é um menino certinho demais, Jimmy.
O sarcasmo na voz rouca fez os pelos de Wilson se eriçarem, mas ele ainda tinha o sono se arrastando pelas suas pálpebras.
House aproveitou que o menor havia se virado pra esgueirar as suas mãos frias pelas costas largas do moreno, o puxando pra mais perto de si. House estava fresco pelo banho enquanto Wilson ainda estava tão quente por conta do sono, o contato frio fez com ele se retraísse, mas House o manteve colado ao seu corpo.
O grisalho aproveitou da proximidade entre os corpos e juntou os lábios ao queixo liso do moreno, o beijando brevemente. Wilson fechou os olhos enquanto sentia a aspereza da barba de House em sua pele e a maciez de seus lábios beijando-lhe o rosto.
Wilson aventurou suas mãos até o peito úmido de House, acariciando seus mamilos com a ponta dos dedos, enquanto as mãos do grisalho desciam e dançavam entre o tecido mole da calça de dormir até as suas nádegas.
Wilson foi preso pelo aperto firme das mãos de House em sua pele, enquanto era intimado por um beijo lento e profundo. Sentiu o gosto da língua de House na sua e não pode evitar o gemido dentro da garganta.
Era sempre tão bom ter o grisalho perto de si. Sempre parecia a primeira vez. Haviam perdido tanto tempo se negando àquilo que quando se tocavam, ou se beijavam, era como se todo o restante deixasse de existir. Era um clichê, mas o que mais esperar de si mesmo? House gostava de dizer o quanto ele era dramático e clichê. Como ele era o lado feminino da relação. Bem, era a verdade no final das contas.
Tudo deixava de ser importante, e para Wilson, que era um Messias que queria salvar o mundo todo, aquilo era quase um absurdo. Um absurdo e um alivio inimaginável. Quando estava com House era como se estivesse no seu próprio mundo, como se tudo que estivesse do lado de fora não pudesse o atingir. Queria que House sentisse o mesmo. Queria, desesperadamente, que todo o sofrimento que sempre rondara House sumisse quando estava com ele. Que o grisalho pudesse se sentir seguro ao seu lado.
Era um clichê.
–Como está a perna? – Wilson perguntou quando os beijos cessaram e as caricias se tornaram suaves.
–Parece que arrancaram um pedaço do meu músculo – foi sarcástico. – Ah, não, realmente arrancaram um pedaço!
–Ainda bem que foi só uma perna – retrucou. – Acho que não iria aguentar o dobro da sua personalidade problemática.
House sorriu com o canto da boca e fitou os olhos de Wilson com aquele azul perfurante. Wilson sabia que House adorava quando ele revidava.
–Está doendo como nunca – foi sincero. –, mas eu ainda não pretendo ter uma recaída.
Wilson se aconchegou mais nos braços quentes de House, pegando daquele cheiro e da maciez daquela pele.
–O calor costuma ajudar, certo?
–Sempre – o grisalho soou malicioso.
É verdade que Wilson gostava de ter a cama só pra si, mas ter House ao seu lado era ainda melhor, ainda mais naquelas manhãs tão frias.
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