Manhunters
37 Talvez, quem sabe
Notas iniciais
De volta à sala do Brass. Dois já estavam presentes: o próprio capitão e, claro, a detetive. O sargento e o promotor chegaram, chamando a atenção de Brass. Ela, que estava sentada na cadeira frente à mesa dele, não se virou para vê-los, muito menos falar com eles. Decerto, sua briga não era com o promotor, só que aquele homem estava ao lado dele.
Grissom tomou seu olhar para Sara, percebendo logo que foi ignorado pela mulher quando o capitão citou seu nome e o de Carver. Voltou-se para o capitão.
— Sidle me contou o que houve. — Brass falou ao se levantar da cadeira.
— Eu já esperava por isso. — respondeu Grissom ao se referir à decisão do juiz. Ele expirou — Sei que vai ser complicado daqui em diante, mas acho que se a gente pressionar, vamos pegar o Lewis.
— Sei não... — O capitão balançou a cabeça — Vocês dois conseguem catar alguma coisa contra o desgraçado? — Ele perguntou, olhando para os policiais.
— Talvez... — Grissom deu de ombros — Acho que se deixarmos o Lewis escapar nós vamos perder um peixe grande. Grande demais. — Assentiu — Quero tentar.
— E você Sidle? — Brass apoiou a mão esquerda na mesa — O que acha?
Sara, infelizmente, precisou se virar para trás na tentativa de passar alguma relação de confiança e parceria. Evitou olhar Grissom nos olhos, vindo a encará-lo superficialmente. Estava mais que evidente para o sargento que a detetive estava ressentida.
— Acho que... o sargento Grissom sabe o que está fazendo.
O homem engoliu em seco ao ouvir aquela fria resposta. Fria somente para ele.
— Ótimo. Façam a mágica de vocês. — Ele ergueu a mão direita rapidamente — Falando nele, o desgraçado do Lewis deixou a delegacia com o advogado. Precisei fazer isso, não tinha jeito. Mas o impedi de deixar a cidade, e mandei que me informasse o lugar de onde ficaria até o julgamento.
— Pra quando é o julgamento? — perguntou Grissom.
— Pra depois de amanhã. Enquanto isso, eles estarão detidos no centro de detenção aqui perto, sabe qual é.
— Certo.
O capitão olhou para o relógio em seu pulso.
— São cinco e quinze. Acabou o turno de vocês. Amanhã a gente continua com essa merda toda. — O capitão voltou a se sentar na cadeira — Espero que voltem com alguma ideia genial pra esse caso.
Ao terminar de ouvi-lo, Sara não perdeu tempo e se levantou. Despediu-se em voz baixa dos presentes e deixou a sala sem hesitar. Ela passou ao lado de Grissom e nem se importou em olhá-lo. Já o sargento assentiu para o promotor, — que parecia desconfiar da ligeira não atitude da detetive — e para Brass. Ele deixou a sala, também.
O homem apertou o passo, o máximo que podia. Foi direto para a sua própria sala, já que a ela tinha de passar lá para pegar sua bolsa. Temia que Sara fosse rápido demais para evitá-lo, o que ela mais ansiava fazer, e ele sabia disso.
Chegou à porta, aberta. Encontrou-se com ela prestes a sair de lá.
— Sara, eu-
— Com licença, Grissom? — Ela retrucou impacientemente, tentando passar já que ele ficou no meio do caminho.
Aquela impaciência dela o deixou da mesma forma; impaciente.
— Céus, Sara, você precisa entender-
— Eu já entendi, Grissom! — A mulher o encarou profundamente e lhe lançou o olhar mais gélido que ele já viu — Fica no comando, tá. Você é quem sabe das coisas. — Assentiu e depois sorriu brevemente.
Assim que notou uma brecha para sair dali Sara passou por ele, prestes a tomar seu caminho para longe dele, seu principal objetivo.
Grissom cerrou as mãos apoiadas nas muletas.
Falo alguma coisa?
Ela passou como o vento. Passou como se estivesse em câmera lenta. Parecia uma daquelas histórias de romance de filme, ou livro, em que o homem tinha a última oportunidade em impedir a mulher de ir embora.
Mas aquilo não era um romance.
O tempo passou. Ele deixou-a ir embora.
Tarde demais.
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A mulher chegou em sua humilde residência em Henderson. Chegou lá fisicamente, mas sua mente estava em outro lugar, mais distante e inalcançável.
Foi difícil, muito difícil. Encarar aquele homem de cabeça erguida e seriedade foi doloroso. Só que mais doloroso ainda foi ouvir suas palavras anteriormente. Não somente ouvir as palavras, como receber aquela carga pesada.
Poderia ser egoísmo, birra, o que quer que fosse. Dane-se. Ela se chateou muito com o sargento e não seriam quaisquer pedidos de desculpas de uma hora para outra que a faria melhor. Talvez fosse emocional demais, pensava ela, característica extremamente perigosa para alguém que trabalhava na polícia.
Mas e daí?
Ela sabia como se controlar, manter a calma e agir neutralmente. Tinha suas exceções, é claro, mas isso era pouco comum e logo a detetive retornava aos trilhos. Suas exceções eram casos de abuso familiar, contra mulheres e vítimas indefesas. Sua outra (excepcional) exceção era com um certo sargento de Las Vegas babaca, estressado, impaciente e nervoso que a tirava do sério quase toda hora.
Sara veio a se questionar porque aceitou aquela proposta de modo tão impulsivo. Um sentimento de arrependimento, mesmo que pequeno, começava a tomar conta de sua mente. Se soubesse que ia passar tantos perrengues com aquele homem, pensaria três, quatro, cinco vezes antes de aceitar. É claro, aceitou o trabalho porque tinha em mente que, ao resolver aquele caso com o sargento, ganharia o tão merecido reconhecimento e, possivelmente, a porta de entrada no FBI por conta de suas habilidades. Sem contar que, após anos, coincidentemente teria a oportunidade de trabalhar com o detetive (agora sargento) que conheceu na Conferência em São Francisco e que, infelizmente...
Não, não poderia ter se apaixonado por ele. Aquilo que sentiu na época foi algo puramente inocente. Era jovem ainda, estava solteira e começando a vida como adulta. Só que ela continuou a acompanhar seu trabalho, ao menos às suas palestras, mesmo que nunca mais conseguiu conversar com ele. Nunca entendeu o motivo. E então... de volta ao presente. Agora, já mais velha, deveria esquecer aquele sentimento bobo de anos atrás, certo?
Errado.
Poderia ser verdade. Talvez aquele sentimento que nutria por ele continuasse dentro dela. Talvez. Ela não queria admitir, não tinha coragem suficiente em fazê-lo.
Talvez ainda estivesse apaixonada por ele, quem sabe.
Mas como carregar um sentimento daqueles se a relação entre os dois era uma montanha russa? Correto, eles queriam ser mais tolerantes um com o outro, só que algumas vezes o sargento e a detetive agiam como duas pessoas que nunca dariam certo em todos os aspectos. Após muito esforço e quando pareciam, enfim, estar firmes na relação profissional e pessoal, ela recebeu uma resposta como aquela, e pronto. Estavam a trabalho, é claro, mas aquilo chegou ao lado pessoal. Ficou tão enraivecida que não queria ficar mais nenhum minuto perto dele. Agradeceu pelo turno ter acabado.
Novo conflito. Como amar um homem que agia daquela forma?
E esse era o problema: "amar". Uma palavra forte demais.
A morena tomou um banho quente demorado. Estava triste. Não sabia se era por causa daquela grosseria ou por causa do que sentia por ele. Fechou seus olhos fortemente para conter qualquer lágrima que tentasse escapar de seus olhos. Não valia a pena chorar; evidenciaria apenas uma fraqueza dela, e a detetive não podia ser fraca.
Mas ela era um ser humano. E como todo ser humano ela errava, acertava... tinha sentimentos, e dentre eles estava a tristeza. Tinha o direito de chorar de vez em quando.
Enquanto a água caía sobre sua face, ela ergueu o braço direito e esfregou a mão em seus olhos para conter-se. Retirou-se da corrente d'água e aspirou rapidamente por duas vezes e respirou fundo. Minutos depois tendo finalizado seu banho, vestiu uma calça larga preta e um moletom azul escuro maior que ela. Não tinha planos para o resto do domingo. Poderia reestudar o caso, ou revisar os casos seguintes; quem sabe, poderia conseguir alguma coisa relevante, já que conseguiu com a segunda vítima.
Só que não estava a fim. Não tinha vontade alguma de fazer ou pensar sobre algo relacionado ao trabalho. Não queria fazer nada, queria apenas descansar um pouco. Resolveu, então, fazer uma pipoca. Deixou o pacote no micro-ondas enquanto escolhia o que beber. Não comprou refrigerante e não estava a fim de tomar cerveja. Então pegou no armário uma garrafa de uísque Jack Daniels. Ela sabia que não podia beber algo forte com tanta frequência, porém, naquele momento não estava ligando para muita coisa.
Sara abriu a garrafa e despejou o conteúdo num copo de vidro pequeno. Bebeu meio copo. Até a pipoca ficar pronta já tomara a primeira dose. Seguiu para a sala levando a garrafa, o copo e o pote de pipoca e os deixou na mesinha de centro. Voltou ao quarto e pegou um cobertor, trazendo-o consigo. Ajeitou-se no sofá, cobriu-se e pegou sua pipoca e o copo já cheio de uísque. Ligou a TV, escolheu um canal de filme. Suspirou.
Tentaria esquecer, ao menos por algumas horas, aquele homem.
Lentamente ela tomou um gole da bebida no copo, mas não se contentando, tomou quase todo o conteúdo de uma vez. Se continuasse da mesma forma ficaria bêbada em pouco tempo. Mas ela não estava nem aí, seria até melhor que isso acontecesse. Até se arrependeu em ter comprado apenas uma garrafa de Jack Daniels.
O filme estava interessante. Contava a história de um irmão e uma irmã. Jovens, foram sequestrados pela máfia e tentavam desesperadamente fugir do cativeiro e de seus sequestradores num lugar distante, uma cidade desconhecida e quase deserta. Bem melhor que os filmes de romances melosos. Ela gostava da adrenalina e ação. Também gostava de velocidade, do vento a bater em seu rosto e a emoção que aquilo lhe proporcionava. Gostava de ser livre. Uma borboleta.
Após o filme, ela cochilou um pouco. Acordou de repente. No momento, a capacidade de raciocínio rápido foi reduzida e suas habilidades cognitivas não estavam 100%. Estava bêbada, mas só um pouco. Talvez muito, quem sabe. Ao notar a garrafa à sua frente, pegou-a na esperança que tivesse um restinho sobrando. Tinha muito pouco, estava próxima do fim. Ela esticou o braço, mas desistiu da ideia na última hora.
Ela se sentou e se recostou no sofá. Ergueu a cabeça para o alto e logo fechou seus olhos. Estava meio zonza. Sua vontade era de se teletransportar para o quarto e cair na cama sem ter que se esforçar em levantar e caminhar até lá. Sara ergueu a mão esquerda até a testa. Talvez tenha exagerado um pouquinho, mas sua vontade era de tomar uma cerveja gelada para esfriar seu corpo quente.
Só que aí, para sua infelicidade, o celular tocou.
A detetive fez uma careta. Tudo o que ela não queria no momento era falar com alguém. Torcia para que fosse engano. O celular se encontrava em cima da mesinha, para sua maior decepção. Então precisou sair do seu conforto e se esticar para pegar o aparelho. Brigou consigo mesma por ter colocado o bendito ali.
— Sidle... — Ela alongou o próprio sobrenome.
— Oi, Sara. Sou eu.
A mulher ergueu as sobrancelhas.
Ah não... tinha que ser você?!
Quem ligou era justamente o homem a quem ela mais queria evitar. Sargento Grissom. E ligou justamente no momento em que ela não estava em plenas condições para responder.
Para disfarçar seu estado, ela engoliu em seco e forçou a voz:
— O que... você quer?! — perguntou irritada. Se ele enrolasse demais, a morena seria capaz de encerrar a ligação.
— Queria... pedir desculpas a você, Sara.
Ela olhou de lado para o celular. Droga. Em poucas palavras, deu para se perceber que Grissom não estava nervoso, ou impaciente.
Sara não respondeu. Ficou a pensar na curta frase ouvida segundos atrás.
— Você ainda está aí? — preocupado por não ouvir uma resposta, ele perguntou.
— É, eu tô... — Soltou um suspiro — E não... consigo acreditar que você... teve a coragem de me ligar — Ela forçou a voz para se manter firme — depois de falar aquilo comigo.
— Não consegui falar com você pessoalmente, aqui no trabalho. Acho que pelo celular eu posso me comunicar melhor.
— Ah, fala sério! — Ela retrucou sarcástica — Quer saber? Eu vou desligar. — Sara estava convicta em cortar o assunto ao encerrar a chamada de vez.
— Não, não faça isso, por favor. — Grissom tentou persuadi-la. Sua voz estava baixa, como alguém que não tinha mais forças para continuar uma discussão.
Ela poderia ter encerrado a ligação mesmo assim, já que ainda estava com raiva dele. Muita raiva dele, para falar a verdade. Só que de alguma forma ela não o fez.
— Eu não devia ter descontado em você. Eu estava... chateado, estressado... eu... acabei explodindo com quase todo mundo à minha volta e... descontei logo na pessoa em que não devia.
Ela franziu o cenho, fechou os olhos e tentou se concentrar mais em suas palavras. Chegou a ficar com raiva dele por ter ligado logo naquele momento em que estava bêbada. Não muito, mas estava.
Só que a mulher não conseguiu criar palavras para respondê-lo.
— Sei que está chateada comigo por vários motivos, e principalmente porque não contei o motivo de me esquecer de você. — Ele suspirou — Confesso que fiquei desequilibrado para te contar aquilo. A verdade é que...
Dentro de sua sala o sargento calou a si mesmo. Olhou para o nada à sua frente e cerrou o punho direito com força. Fechou seus olhos e cerrou o punho esquerdo.
Eu perdi uma parceira, Sara. E... tenho medo... um medo terrível de perder você.
A morena estranhou o silêncio. Achou até que ele estava prestes a encerrar a ligação.
— É... Grissom?
— Eu... não estava pronto e... ainda não estou. Me desculpe.
Sara ficou um pouco decepcionada com aquela resposta. Não prestou muita atenção nas primeiras palavras, mas pôde entender aquela declaração. Ao menos ele foi sincero e teve coragem de admitir.
— Mas saiba que isso não tem nada a ver com você. Tem a ver comigo.
Ela abriu a boca para responder. Ainda que não estivesse 100% bem e racional, entendeu a mensagem que o sargento quis passar. Talvez o sargento, a quem achava que não teria mais jeito, finalmente estava se desmontando.
Todavia, Sara ainda sentia o peso daquela resposta e o modo como ela foi dita. Um resquício de raiva se fazia presente. Balançou a cabeça repetidas vezes.
— Olha... eu não gostei do jeito que... você falou comigo, tá? Eu só queria ajudar! Mas você... você...
— Você tem todo o direito de ficar com raiva de mim. — Ele disse, ao perceber uma breve interrupção em sua voz — Só queria que soubesse que eu sinto muito por ter respondido daquela forma. Você não tem culpa de nada. Sou eu quem errou e peço desculpas.
Ela ficou em silêncio.
— Assim que estiver pronto, eu... conto a você o que aconteceu. Vou tentar fazer isso logo, já que... — O sargento acabou hesitando e mudou a frase — Vou tentar ser mais rápido pra te falar isso, está bem?
A mulher não respondeu de cara. Administrou aquelas declarações com toda a imparcialidade possível. Tentou se colocar no lugar do sargento e imaginar o que se passava com ele. Foi difícil, sem dúvidas, ainda mais quando se lembrava da resposta de horas atrás. Mas relevou.
— Tá bom, Grissom... — Sara levou a mão esquerda à testa. Pelo tom de voz aparentou impaciência. Queria logo encerrar o assunto.
— Está bem. — Houve uma pequena pausa — Eu vou... desligar.
A morena suspirou e fechou seus olhos. Pressionou o aparelho levemente sobre a mão e falou:
— Eu perdoo você. — falou de uma vez só.
Silêncio na linha.
— Eu... obrigado, Sara. Estou... contente que... você não tenha desistido-
— Do caso? Não. Sobre a gente... bem, eu quase desisti. — Sara enfatizou a palavra — Quase.
— O-o quê? Bem... isso é... muito bom...?
— É, é muito bom. — A mulher soltou um suspiro — Eu vou desligar, tá?
— Está bem.
— Vai pra casa, Grissom. — Ela sorriu — E vai ter uma vida, garotão.
— Hã?
— Tchau!
"Vai ter uma vida, garotão"?!
A mulher encerrou a ligação rapidamente. E de novo ela falou coisa demais com ele, mesmo que fosse à distância. Precisava melhorar isso e com muita urgência.
Sara olhou para a tela do celular e, segundos depois, começou a rir. Estava nervosa consigo mesma, estava chateada consigo mesma.
Será que devia perdoá-lo? Valia a pena guardar raiva por tudo aquilo? Será que se fosse ela a autora daquela resposta tão dura receberia perdão? Eram perguntas demais para sua mente. O que ela fez, simplesmente, foi desculpá-lo. Não queria de forma alguma que a relação deles "ruísse" novamente. Os dois tiveram um grande trabalho para tentar consertar e não seriam algumas palavras que destruiriam tudo de uma vez. Ela se esforçou, e ficou satisfeita ao entender que ele também se esforçou. No mesmo dia ligou para ela e com toda a sinceridade contou sobre seu arrependimento. Aquilo fez toda a diferença.
Ao se jogar no sofá e se encolher entre o cobertor, de repente, deixou escapar um sorriso. Não era um sorriso qualquer, por causa da situação ou da sua própria situação. Era por causa dele.
Talvez ainda gostasse dele, ou estivesse apaixonada por ele, quem sabe.
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Já era noite. Porta trancada, persianas fechadas. Quase todos que trabalhavam naquele andar já tinham ido embora, inclusive Brass. Ele ficou. Preferiu ficar no seu espaço quase particular e trabalhar um pouco no caso: Analisar o livro de armas brancas que deixou há alguns dias, ouvir o depoimento dos guardas novamente e checar superficialmente os casos seguintes das vítimas de Zodíaco.
Dentre uma pausa, olhou para o aparelho celular por alguns segundos. Será que devia ligar? Era a pergunta que rondava a sua mente. Só que tinha medo de ser rejeitado por ela. Já sofreu um duro golpe horas atrás e a chance de sofrer um pior pelo telefone era grande.
Era tudo ou nada.
Então o fez, ligou para a detetive. Foram poucos minutos, mas suficientes. O sargento guardou o celular no bolso do paletó. Pensou na conversa que teve e como arranjou toda aquela coragem em ligar para Sara. Não tanta coragem; ainda relutou e guardou a verdade para si e precisaria tratar dessa questão com urgência. A cada dia que se passava, essa coragem parecia aumentar ao mesmo tempo que parecia diminuir. Era difícil compartilhar parte do seu passado com alguém. Ele não o fazia com ninguém. Se as pessoas ao redor dele sabiam foi porque estavam cientes dos fatos, não porque ouviram de sua boca. Grissom era um cofre que se recusava a ceder a chave. Talvez Sara fosse a única pessoa na qual ele tinha vontade própria em contar. E a única que ele tinha o maior medo de perder. Medo que quase custou sua vida naquele posto de gasolina.
Enfim, o que ele mais queria no momento foi conquistado: se retratar com ela. O que veio depois disso foi consequência.
Grissom podia, finalmente, admitir a si mesmo que sentia saudade. Por ironia do destino ou bênção divina, aquela mulher estava de volta à sua vida. Assim como em seu sonho, ela surgiu no pior momento de sua nova vida após todo aquele tormento que passou, anos atrás. Aquela mulher do sonho era a mesma da realidade.
Talvez estivesse começando a entender porque aquela jovem detetive de olhos cativantes lhe chamou a atenção naquela palestra. Quem sabe se dentro dele não havia um sentimento a mais por ela... quem sabe.
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