Manhunters
69 Sobre retornos 2
Notas iniciais
Cinco e quarenta da tarde.
— E então? Conseguiram algo relevante para compartilhar? — O xerife perguntou meio enfezado, como quase sempre o fazia — Vai fazer três dias que vocês estão aqui então acho que posso perguntar sem problemas.
Somente os policiais se encontravam presentes no contêiner. O evento chegou ao fim, muitos já tinham ido embora e algumas pessoas começaram a desmontar algumas estruturas. Aquele dia iria escurecer mais cedo, mais um motivo para o fim da "festa".
— Conseguimos uma listagem de possíveis suspeitos. — respondeu Sara ao olhar o papel em suas mãos.
— Possíveis? — reclamou ele — Ah, vamos! O cara era jornalista, deveria ter uma penca de nomes certos que odiavam ele. — Ergueu os braços.
— Não é tão simples quanto parece, xerife. — Sara olhou brevemente para Grissom, que anotava algumas coisas numa folha de papel. Estava de costas para Horton e parecia não prestar atenção nele. — O objetivo de hoje foi identificar os possíveis suspeitos no evento seguindo uma linha de investigação.
— Vocês estão perdendo tempo. Daqui a pouco vai aparecer uma penca de repórteres cobrando explicações aqui. — Ele apontou com o polegar para trás — Em breve o país todo vai saber que essa cidade existe.
O sargento apertou caneta em sua mão. Fechou os olhos e voltou a escrever em seguida.
— Como vamos saber exatamente quem matou Park se mal temos acesso ao material que ele possuía, hein? O que ele trouxe não era quase nada! — Foi a vez de ela começar a se estressar com o policial — Ainda temos que analisar o trabalho dele e nem pense que é algo fácil achar um candidato a assassino do jornalista. O trabalho tá só começando, se o senhor estiver com pressa para saber.
Irving não disfarçou a irritação. Bufou por alguns instantes e virou-se de lado.
— Espero que vocês consigam resolver esse problema que disseram estar preparados para resolver. — Ironizou.
Se essa cidade fosse um pouco melhor patrulhada não estaríamos nessa droga de situação, não é xerife? Grissom guardou as palavras para si. Continuou escrevendo.
Alguém bateu à porta atraindo a atenção de quase todos. O jovem oficial que entrou foi falar direto com o xerife. Não demorou muito, segundos depois Horton o liberou e voltou a falar com os dois policiais de Vegas. Sua cara não estava satisfeita, como de costume.
— Adivinhem quem está lá fora querendo fazer um monte de perguntas? — perguntou sarcástico.
A morena olhou para o parceiro que, finalmente, largou o papel e caneta e se levantou.
— O senhor é o xerife, pode muito bem dar uma resposta burocrática e acabar com isso. — Grissom respondeu despreocupado. Nem mesmo Sara acreditou no que ouviu; na verdade esperava uma resposta agressiva dele.
— Foram vocês quem chegaram aqui querendo mandar em tudo e agora querem jogar a bomba pra mim, não é? — Irving tocou no peito com as duas mãos.
— Nós chegamos aqui para tentar resolver o caso porque já tínhamos conhecimento do que poderia se tratar. Mas ao invés de nos ajudar tudo o que você fez foi reclamar do que estávamos fazendo. — O sargento apontou para ele. Franziu levemente a testa, mas ainda assim não passou da linha — Ainda não temos um suspeito confirmado, isso é verdade, mas nós estamos trabalhando pra resolver essa droga de caso o quanto antes.
Horton esboçou um sorriso irônico e assentiu. Não respondeu.
— Vai lá falar com eles o que eu te disse. Não é o senhor que quer estar no comando da situação? — Grissom ergueu as mãos.
A porta foi aberta novamente e o jovem oficial que entrou antes falou novamente com o xerife. Parecia ansioso; ele pediu para Horton falar com os repórteres que estavam esperando no lado de fora. Resmungando algumas palavras o xerife mal olhou para os dois policiais presentes. Irritado, ele acompanhou o jovem oficial e saiu.
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— Não esperava que fosse responder o xerife daquele jeito. — falou a morena ao entrar no carro.
— Já estava cansado dele. O caso já é difícil de resolver e ainda tem alguém pra atrapalhar a gente. — Grissom fechou a porta e fechou o cinto de segurança — Não basta o Ecklie.
Quando também fechou o cinto de segurança, a morena olhou para ele meio preocupada. Era impossível para o sargento disfarçar que estava revoltado com a ordem de voltar à Vegas. Ele não se conformava nem um pouco. Sara até imaginou comentar algo para levantar o ânimo do parceiro, mas pelo visto ele não estava a fim de ouvir.
— Acha que vamos conseguir participar do enterro do Park? — Após dez minutos de hesitação dos lados Sara tomou a palavra.
Surpreso Grissom a encarou ligeiramente.
— Nem sei se vamos conseguir sair de Vegas. — Brincou, mas seu rosto já acusava a decepção — Caso a gente consiga não temos muita certeza de onde será o enterro. Se for perto da casa dele seria um bom motivo para seguir com a investigação. Mas é um passo de cada vez.
— Eu acho que vamos conseguir, sim. Já demos um passo importante nisso, não tem como nos impedirem.
— Nunca duvide dos poderes lá de cima, Sara. — Ele sorriu ironicamente e virou o rosto para frente.
A detetive tirou o sorriso confiante do rosto. O motivo disto foi o pessimismo do parceiro. Ele, que já trabalhava no lugar há mais tempo tinha respaldo para fazer aquele comentário, mas isso não significou que seu pessimismo deveria ser justificado. Há oito anos Sara não via um Grissom tão negativo; é claro que ele passou por momentos difíceis, mas não imagina que isso pudesse moldar seus pensamentos.
— Isso faz parte do caso. Uma hora ou outra vamos ter que investigar essa ligação entre o Park e o assassino.
Ele fez uma careta meio que concordando com a detetive, mas no fundo ainda não se dava por satisfeito.
A próxima parada era na delegacia novamente. Haviam alguns detalhes a serem resolvidos como a parte burocrática e a obtenção de uma cópia das fotos e gravações feitas no evento, além das cópias dos relatórios feitos pela polícia local sobre o crime. Tudo precisava estar no seu devido lugar para que problemas futuros não ocorressem.
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Rumo à Vegas. Retorno melancólico, inesperado, tudo fora dos planos dos policiais, obrigados a retornar por uma ordem lá de cima. A volta foi a mesma coisa da ida. Um representante da loja de aluguel de carros esperava por eles no heliporto. Outros oficiais das forças armadas os esperavam por eles no helicóptero militar, desta vez. Tirando isso, nada muito diferente.
Grissom não falou muita coisa além do necessário com os dois oficiais. Dava para perceber no semblante que estava chateado com a situação, mas não podia fazer nada, só obedecer. Sara entendia o que sentia no momento e preferiu não puxar conversa com o parceiro.
— Sinto falta do meu cachorro. — Ele comentou do nada.
Dentro do helicóptero já em pleno voo Sara foi surpreendida pelo comentário inesperado dele. Ela deixou de olhar o lado de fora para se concentrar nele, que apoiava seu pescoço no banco.
— Quê?
— Eu sinto falta do Hank. — Grissom respondeu, olhando para o teto do veículo.
Ela fez uma careta para o sargento. Logo em seguida Grissom a encarou e percebeu que não deveria ter falado aquele nome, muito mais naquele contexto.
— Desculpe. — sussurrou frente a ela para que pudesse compreendê-lo. Precisou ser discreto e não falou mais nada devido ao local em que se encontravam. Talvez quando chegassem em sua casa poderia colocar a conversa em dia.
— Sem problema. — respondeu ela.
Silêncio. O que dizer do caso naquele momento se os dois já falaram praticamente tudo o que tinham que falar? A sensação era de que não tinham mais assunto para comentar, mesmo que fossem parceiros há um tempo e principalmente um casal. Falando nisso, esse era um dos motivos pelo qual evitaram uma conversa: o medo de misturarem o relacionamento e caso, mais o receio de falar algo íntimo demais no meio de um comentário perto dos dois estranhos. Problemas do início de um relacionamento entre parceiros profissionais.
— Teremos que deixar tudo o que conseguimos lá na polícia. — O sargento puxou assunto para afastar aquele maldito silêncio.
Ela o encarou e franziu ligeiramente a testa.
— Tudo? — perguntou sem voz para que ninguém além dele entendesse. Sua pergunta foi feita e direcionada àquele bilhete que nem ao menos o xerife tinha ideia que existisse.
O sargento assentiu meio hesitante; não queria deixar o bilhete em qualquer mão e espalhar a história para o resto do departamento. Grissom já estava brincando com fogo e sabia que faltava muito pouco para se queimar.
— O jeito é levar tudo o que puder para análise e tentar pegar alguma coisa.
Grissom não tinha muita esperança que os peritos fossem achar algo. Os peritos de Cold Springs não encontraram nada relevante e mesmo que o laboratório de criminalística de Vegas fosse um dos melhores do país, o sargento não estava confiante como sua parceira. Experiência própria.
— Não quero desanimá-la, mas é bom não colocar muita fé nisso.
Sara dirigiu seu olhar ao parceiro, Grissom já estava olhando para a janela novamente.
A viagem iria durar um tempo, e para ele, quanto menos pensar no trabalho de antemão melhor seria para a mente. O desejo de ambos era falar de algo que não fosse o caso ou assuntos que girassem em torno daquilo. Era tanta coisa que gostariam de falar, principalmente no âmbito pessoal. Uma pena que o trabalho não deixava e o tempo que tinham para fazer isso era curto demais. A noite e o tempo em que ficavam sós num espaço eram seus únicos refúgios, mas pareciam não ser suficientes mesmo que soubessem de todos os problemas que enfrentariam.
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De volta à badalada Vegas, finalmente. O prédio estava pouco movimentado, diferente do que era de costume. Noite de domingo, umas oito e dez. Sem tempo nem para respirar, Grissom e Sara deixaram suas bolsas na sala do sargento e seguiram para a sala do capitão, que os esperava impacientemente.
— Oi, Jim. Aqui estamos nós. — ironizou Grissom ao fechar a porta quando Sara entrou.
— Já era hora. — O capitão ergueu os braços e se recostou na cadeira arrastando-a para trás — Sentem aí, quero saber que droga foi essa que aconteceu lá.
A morena, em silêncio, tomou um assento e olhou para Grissom que parecia inquieto.
— Eu não vou me sentar. — Balançou o indicador direito — Fiquei horas sentado naquele helicóptero. — resmungou, arranjando um motivo para reclamar.
— Que seja. — Brass gesticulou com a mão para que um dos dois começasse a falar.
— Quer saber o que aconteceu? — Por pouco Grissom não explodiu, mas soube se controlar a tempo — Zodíaco achou que conseguiu botar medo em mim, mas ele só conseguiu me provocar. — Grissom pôs a mão por dentro do terno e retirou um saquinho de plástico transparente, parecido com os quais se guardava evidência. Ele o deixou na mesa do capitão que pegou o objeto intrigado.
— Que merda é essa? — Franzindo as sobrancelhas ele ergueu o papel marcado em vermelho.
— O dia que eu fui feito refém. — Grissom foi curto e grosso. Ele cruzou os braços e encarou o capitão.
Brass arqueou as sobrancelhas rapidamente e depois as franziu tão rápido quanto.
— Como é que é? Onde é que vocês acharam isso? — Jim perguntou enquanto analisava o papel embrulhado.
— Na bolsa da vítima. — Sara respondeu.
— O xerife sabe disso?
— Não. — Dessa vez foi Grissom quem falou, mais para evitar que Sara recebesse a carga da “bronca” — Nem os peritos nem ninguém de lá sabe sobre isso, só a gente.
Brass deixou o papel na mesa e voltou seu olhar a Grissom, parecendo mais irritado que antes.
— Você ficou louco?! — O capitão quase esbravejou — Escondeu uma prova dessa em outro território é pedir pra se encrencar com aqueles caras!
— Brass, nós não estamos em posição de revelar certas informações. Você mesmo falou isso antes. Como eu poderia contar a história por trás disso aí?
— Isso não vai acabar bem, eu tô até vendo... — resmungou o capitão levando a mão ao rosto. Ele balançou a cabeça olhou para o objeto e depois se levantou.
Os dois policiais observaram o capitão virar-se de costas e depois voltar à posição de antes. Sara era quem estava mais acuada. Não era a primeira vez que se via numa situação delicada como aquela onde Brass e Grissom também estavam envolvidos.
Alguns segundos se passaram até que Jim se manifestou, apontando diretamente para Grissom:
— Você tá sendo visado. — A voz do capitão soava ameaçadora.
— Eu sei.
— Isso não é brincadeira. — Ele o repreendeu — Um serial killer mandou um recado diretamente pra você num momento como esse e isso não é bom.
— O que eu posso fazer? — Grissom deu de ombros, como se Brass achasse que ele tinha a resposta de tudo.
— Você pode ser a próxima vítima, sabia disso, gênio?! — O capitão insistiu impaciente.
— Temos um mês para descobrir. — Ele retrucou da mesma forma.
— É. — respondeu sarcástico — E o que acontece caso esse maluco avance em você antes, hein? Nós não sabemos o que ele fez com as outras vítimas, sabichão.
Quieta, Sara olhou para o parceiro com aquele olhar de preocupada como fazia algumas vezes. Só aquilo conseguiu quebrar um pouco mais o sargento, antes resistente ao capitão Brass. Entretanto tentou resistir.
— Eu vou ficar bem. — Gesticulou com as mãos, na dura tentativa de encerrar o assunto. Mal sabia o quanto Sara odiava quando ele dizia aquelas palavras — Tenho duas armas, um cachorro muito bem treinado e moro num prédio seguro. Zodíaco não vai me pegar desprevenido.
— Ah é? — Jim sorriu — E quando você sai de casa pro trabalho? Vai depender do teu cachorro e do teu prédio?
Tão irritado quanto ele, Grissom virou o rosto para o lado e fechou os olhos para tentar se acalmar.
— O que está sugerindo, capitão? — Sara tomou a palavra, melhorando os ânimos da sala.
— Até que isso aqui se prove ser apenas uma provocação e não um aviso, sugiro que o Grissom fique sob vigilância.
O sargento arqueou as sobrancelhas e as franziu ligeiramente. Virou-se para ficar de frente para o capitão mais uma vez:
— Isso é totalmente desnecessário. Só vai dar motivos para o cara querer me perturbar ainda mais!
Por um lado, aquilo era verdade. Os outros lados (e motivos) que Grissom não queriam era ter uma "escolta" já que odiava ser tratado como alguém indefeso; o outro era que, sob vigilância, não teria como aproveitar o tempo ao lado de sua namorada sob o risco de serem descobertos.
Ele olhou para Sara imaginando que ela pensasse o mesmo, porém a encontrou sóbria, ainda mantendo aquele olhar preocupado, mais como se concordasse com a ideia do capitão. Grissom não gostou daquilo.
— O desgraçado matou um repórter por uma droga de isca. O que acha que ele pode fazer para pegar o cara responsável pelo caso?!
O sargento suspirou e caminhou para o meio da sala. Era uma decisão muito delicada a se tomar e ele não estava com cabeça para tomá-la ou recusá-la.
— Isso pode levantar suspeitas, Jim. — Grissom tentou relutar — Por algum milagre a imprensa não sabe do Zodíaco. Se souberem que eu tenho de ser vigiado o que acha que eles vão pensar?
— Vai mesmo querer arriscar sua vida, sargento? — Brass enfatizou a última palavra.
Dessa vez Grissom não respondeu de imediato e cheio de confiança como fizera antes. Silêncio na sala. O sargento se virou de lado e olhou para baixo, parecia desnorteado. Sara não sabia o que fazer e odiava a si mesma por não aparecer com um comentário salvador da pátria. Os segundos se passaram; o capitão e o sargento estavam com os ânimos a flor da pele e qualquer fagulha reacenderia a discussão.
— Acabou o trabalho de vocês por hoje. — Brass falou de repente — Voltem amanhã com alguma resposta decente.
Os dois subordinados encararam o capitão que se encontrava sério, até demais. Brass manteve seu olhar reprovador ao sargento. Grissom não teve coragem de revidar, afinal, Jim era seu amigo também e às vezes aquela posição se sobrepunha à patente dele.
Sara não esperou muito tempo, se levantou em seguida e caminhou para perto de Grissom. Já ele se aproximou da mesa do capitão no intuito de pegar o bilhete de volta.
— Isso aqui fica. — Curto e grosso o capitão bateu duas vezes no papel e o tomou para si.
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Os dois estavam de volta à sala do sargento, que foi o primeiro a entrar. Ele esperou por Sara e fechou a porta atrás de si, baixando as persianas para que pudessem ter mais privacidade visual. A detetive não se sentou na cadeira como de costume, desta vez esperou por alguma reação dele.
Grissom permanecia agitado. Ele tocou na testa e deslizou a mão até chegar à boca. Ser bombardeado com várias informações só piorou o estado dele.
— Você concorda com ele, não é? — perguntou de repente e meio sem jeito, alternando entre a sala e seu rosto. Tentou controlar sua voz já que estava falando não apenas com sua parceira, mas com sua namorada.
Ele conseguiu ler suas feições.
A detetive umedeceu os lábios e se preparou para responder à pergunta da melhor ou da forma menos rígida possível.
— Concordo até o ponto em que queremos te manter a salvo.
"Queremos"?
O sargento franziu o cenho por alguns segundos. Balançou a cabeça e levou as mãos à cintura, então cobriu a boca com a mão esquerda.
— Então você concorda.
— Eu não quero arriscar, Gil.
Inconformado, ele fechou a cara; tentava não acreditar no que estava ouvindo.
— A que ponto nós chegamos... — Ele falou baixo, ainda negando com a cabeça — Estávamos atrás de um assassino e agora estão com o receio que ele vá atrás de mim? Como isso foi acontecer?!
Quieta, Sara não respondeu ao questionamento dele. Sabia o quanto ele estava sofrendo com toda essa história.
— Não sabemos como ele pode agir daqui pra frente, Gilbert, por isso que você tem que tomar cuidado.
— Cuidado. — Ele repetiu a última palavra quase ironicamente — E... nós dois? — questionou completamente hesitante.
Sara não tinha ideia da coragem dele em falar daquele assunto no trabalho, mesmo que fosse em sua sala. Chegou a olhar para a porta instintivamente e mesmo que o andar estivesse pouco movimentado nada aquilo a impediu de se preocupar.
— Se isso acontecer... não teremos mais aquele... momento... nosso. — Sua voz diminuía a cada segundo.
Foi a vez dela em desviar o olhar e procurar uma resposta mais convincente. Era doloroso, é claro, ter que ficar longe dele ainda mais num começo de namoro. Mas eles, principalmente ele, nunca deveriam se esquecer que estavam trabalhando no caso de um serial killer que já fez mais de dez vítimas e mandou um bilhete recentemente destinado ao sargento. A vida era mais importante, muito mais.
Ela deu um passo à frente para falar-lhe mais perto e evitar a voz mais alta:
— Às vezes temos que sacrificar o "nós", Gilbert.
O sargento fechou a cara mais ainda. Sara ameaçou tocar em seu rosto, mas preferiu não arriscar.
— Dói falar assim, mas... não podemos e eu não quero arriscar a sua vida por causa... da gente.
Grissom ergueu a mão esquerda e fechou os olhos por um breve momento. Afastou-se dando um passo para trás.
— Vamos pra casa e deixar essa decisão para amanhã. — Comentou em voz baixa.
Grissom estava completamente incomodado com a situação e não era para menos. Era uma decisão difícil da qual ele não tinha coragem de tomar tão rapidamente. Sua cabeça estava exausta demais para responder.
— Está bem. — Até ela achou melhor deixar de o lado aquele assunto pelo menos por enquanto — Tenho que passar na minha casa antes. — Ela se aproximou da bolsa, deixada ao lado direito da porta.
— Eu te levo.
— Não, melhor não arriscar. Eu pego um táxi. — Ela recusou com um gesto do pescoço. Ao se ergueu deu quase de cara com ele.
— Vai pagar duas corridas? — O sargento arqueou as sobrancelhas — Eu posso te buscar.
Se por um lado Sara não estava muito de acordo com aquela ideia, por outro, ficou balançada por aquela sugestão.
— Quer correr o risco de ser visto me esperando na porta de casa num domingo à noite? — Brincou ela.
— Você falou corretamente. Domingo à noite, ninguém vai notar. — Após tanto tempo sério, finalmente o sargento abriu um sorriso; discreto, mas estava lá.
Mesmo sendo cauteloso em relação as regras, Grissom realmente queria tê-la por perto no restante da noite. Dependendo da decisão que tomaria adiante ele não poderia saber qual a próxima vez que teria um tempo a sós com sua companheira. Só de pensar nisso já o deixava um pouco abalado.
— Não gaste seu dinheiro à toa, detetive Sidle. — disse ele em voz alta, muito mais confiante. Grissom fez seu caminho e pegou a bolsa de viagem no chão. Depois disso ficou frente a frente com a namorada.
A morena pegou a bolsa da mão dele. Era óbvio que ninguém poderia vê-lo fazendo aquele favor.
— Vejo você em breve. — afirmou ela a poucos centímetros de seu rosto. Só o ambiente de trabalho que os impediram de unir seus lábios num beijo. Era mais um desafio que tinham de superar.
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