Manhunters
90 Se arrependimento matasse
Notas iniciais
O coração dele gelou e sua voz se perdeu. Se não bastasse a tormenta de uma hora atrás, lidar com aquela resposta foi mais que um soco no estômago, foi como levar um tiro. O pior dos males seria o assassino envolvê-la nesse jogo macabro, o pesadelo de Grissom que se tornou realidade.
— Como... é que é?! — Mal segurou o tom quando a ouviu respondê-lo.
A detetive, enfim, se virou para ele o encarou com um olhar melancólico.
— Zodíaco mandou a mensagem pra mim.
— Como assim, Sara? O que ele quer dizer com isso aqui?! — Ele balançou o papel com a mensagem traduzida rapidamente — Céus, Zodíaco está te ameaçando?!
— Eu não sei! — Incomodada por não conseguir fazer sua pesquisa no computador, ela acabou se levantando — Não sei, tá legal?!
Ela baixou a cabeça e cobriu o rosto, deslizando as mãos um pouco trêmulas até a raiz seus cabelos, não por medo, mas por aflição. O sargento a acompanhou sem se mover, mas um olhar de quem estava louco para tomar uma posição, porém de mãos atadas.
— De onde veio... isso? — O sargento notou como ela estava desgastada por tudo aquilo, mas não podia simplesmente ficar quieto.
Sara dirigiu um olhar quase afiado a ele. A vontade em responder era quase nula; queria mesmo era ficar imersa em sua busca pelo tempo que achasse necessário. Entretanto ela sabia que Grissom ficaria insistindo de uma forma ou de outra. Ela se sentou na cadeira novamente e respirou fundo para responder.
— Houve uma... série de sequestros que ocorreram há alguns anos na minha região. Uma parte deles gente de um orfanato que eu vivi. — completou — Os criminosos tinham a intenção de nos vender para gente de dentro e fora do país.
Sara não terminou de contar a história. Calada, permaneceu com um olhar frio para a tela do computador e permaneceu daquele jeito por um minuto inteiro, até que voltou a ficar . Ela mudou de expressão como se tivesse terminado a conversa e decidiu sair da sala.
— “Nos”? — insistiu assim que caiu a ficha, mas parecia que sua mente vagava por outros cantos — Sara? Espere! — Ele apertou o passo indo atrás dela mesmo não estando 100%.
Desde quando retornou do cemitério Sara se mostrava diferente. Era considerado normal não se sentir ok depois de passar por uma situação como a que ela passou, mas havia algo a mais nisso e que não estava fazendo bem a ela, consequentemente a ele. O que mais queria era trazê-la de volta à sua sala e conversar a respeito, mas pelo visto seria algo impossível.
De uma coisa ele tinha certeza: ela não estava bem. Sabia disso porque sua parceira estava agindo igualzinho a ele.
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— Ele era um pouco alto... mais ou menos um e oitenta. — disse ela um pouco hesitante, na tentativa de trazer à mente os momentos anteriores.
Pedir para o desenhista fazer um retrato do homem que não fosse apenas o rosto foi uma surpresa não convencional.
— Magro... — Sara levou a mão a testa na tentativa de pensar em características mais objetivas ao homem. Suas lembranças estavam turbulentas; podia claramente se lembrar do ambiente, dos sons, mas quando almejava se lembrar daquele homem sua mente criava um borrão. Ela sabia que daria para aproveitar pouca coisa naquela sessão. Nada, talvez.
Grissom chegara há pouco e ficou longe dos dois, mais próximo da porta para não servir como “interferência” ao seu raciocínio. De pé e encostado na parede, assistia aos momentos de pausa e continuidade de sua parceira, lutando para descrever o máximo do que viu. Ele torcia, mas no fundo não esperava que um rosto fosse sair dali e achava que Sara pensava da mesma forma. Era impossível criar um rosto sem ao menos ter visto o homem.
Parecia uma sombra, não suspirou ou provocou um único ruído sequer, por mais que sentisse vontade de tirá-la dali. Grissom não contou quanto tempo se passou desde que entraram naquela sala fechada, talvez mais de meia-hora. Sara voltava atrás quase toda hora, buscando palavras que melhor descrevessem o suspeito. Quando o martírio enfim acabou ela esperou pelos detalhes finais, observou o desenho final e agradeceu ao técnico. Soltou um suspiro cansado, se levantou dali para sair e viu Grissom pela primeira vez. Ela abriu um sorriso torto, meio irônico.
— Tá aí o nosso homem. — Ela falou sarcástica apontou para trás. — Eu sabia que não ia adiantar.
— Sara, ei. — O sargento tocou em seu braço antes que fosse embora.
— Eu vou procurar por ele. — Ao terminar de responder Sara o encarou nos olhos. De novo aquela expressão triste retornou no rosto dela. O semblante do qual ele tem lutado para evitar surgir na mulher que amava.
Ela não esperou por ele e saiu. Grissom olhou para o alto brevemente e foi ver o resultado do desenho do qual Sara nem fez questão de olhar por muito tempo. Não foi um retrato-falado comum; assim como ela descreveu lá estava o homem de lado, em frente a um túmulo pouquíssimo detalhado. Parecia apenas uma ilustração de uma história em quadrinhos qualquer.
— Sinto muito. Tentei ajudar, mas infelizmente ela não deu muitos detalhes sobre sua aparência. — disse o técnico, pronto a deixar a sala também.
— Não precisa se desculpar. — O sargento respondeu enquanto olhava para o desenho.
Gribbs...
Uma sensação desconfortável subiu-lhe à mente e ao peito. Zodíaco (ou algum cúmplice) escolheu aquele túmulo de propósito para acertá-los em cheio, principalmente ele.
Desgraçado.
O desenho estava perfeito nos detalhes, só que o problema reinava aí, nos detalhes. Não havia um rosto, um detalhe particular, nada que pudesse diferenciá-lo de tantos outros homens. Era mais uma figura vista ao longe, como um desenho qualquer. E isso perturbava profundamente a detetive.
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A maior tristeza do predador foi não poder encará-la nos olhos. Seria uma questão de tempo. Havia um “trabalho” a ser pensado com total prioridade, um compromisso no dia 12 de dezembro e nada mais era tão importante quanto isso.
— Estou satisfeito com o que houve até agora. — ****** comentou do banco de trás do carro enquanto seu amigo o dirigia.
— Que bom.
— É, isso é bom. Ótimo, na verdade. — Ele deu um leve tapa no ombro do outro homem, que estava ao volante — Não falhou comigo e espero que continue assim.
— Obrigado, senhor.
****** esboçou um sorriso satisfeito.
— Eu tenho muitos planos para o meu Duane, mas também tenho planos para você. — afirmou, olhando para o espelho retrovisor central.
— Terei o prazer de ajudar com o que for preciso. — disse o homem.
— Eu fico feliz em ouvir isso, principalmente se... algo acontecer comigo. — Ele respirou fundo e tamborilou os dedos na porta do carro.
— Não diga isso.
— Queira ou não é verdade. Sou um homem cauteloso, mas não controlo todas as situações.
— O senhor não... erra.
A resposta foi inesperada para ******, que esboçou um sorriso tímido.
— Está hesitando, meu amigo?
— D-desculpe, senhor.
— Não se preocupe com isso. — Ele deu dois tapas leves em seu ombro — A questão, meu caro, é que nossos camaradas erram, sim, mas eles não desistem. Veja só o sargento, aquele tolo. Prefere se arrastar sem as duas pernas que desistir. — ****** para o lado de fora sem baixar o vidro fumê — Ele não passa de um vaso quebrado e remendado por cola. Sua única ameaça é ele mesmo, meu amigo. Ainda assim, — ponderou com um breve suspiro— é bom tomar cuidado.
— E ela? — questionou.
— Ela... — ****** levou alguns segundos para responder, pensando na resposta ideal — ela é tão voraz quanto ele. Talvez pior.
— E o senhor vai tomar alguma providência quanto a isso?
— Não... Eu vou observar, por enquanto. — O homem sorriu — Existe algo muito interessante naqueles dois.
— E o que seria?
— Eles compartilham muita dor... um passado cruel, vida penosa. Não é à toa que não desgrudam um do outro. Pessoas quebradas costumam se entregar a isso. — Ele parou para observar um cachorro que passava pela calçada quando o veículo parou no sinal vermelho — Pena.
Os dois passaram por mais duas ruas até que ****** voltou a falar:
— Está tudo pronto para a viagem? — perguntou enquanto acessava o celular.
— Sim. Quando quiser, partiremos.
— Ótimo. E o meu compromisso?
— Está caminhando nos conformes.
— O que isso quer dizer? — ****** franziu a testa ligeiramente um pouco desconfiado.
— Logo estará feito. São... detalhes que nos afastam dela.
— Você sabe que erros são inadmissíveis. — A voz de ****** se tornou fria como um iceberg e tão perigosa quanto.
— Eu sei. — Após engolir em seco o amigo respondeu.
— Que bom que sabe. — De uma hora para outra ele voltou com o tom descontraído — Temos sempre que nos manter sob pressão ou acabaremos afrouxando as rédeas. Meu pai costumava me dizer algo parecido.
Houve um período de silêncio entre os dois.
— Por que aquele túmulo, senhor? — O amigo perguntou de repente.
****** arqueou as sobrancelhas ao ser questionado pelo amigo nem esperava mais. Ele se apoiou na porta e depois de quase vinte segundos respondeu em voz baixa:
— Porque... é importante para ele.
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E lá foi o sargento atrás de sua parceira, de volta à sala do capitão. Se visse a expressão que Sara portava ficaria preocupado com o que ela faria em seguida.
— Precisamos conversar. — disse ele antes de ela abrir a porta.
— Não temos tempo. — respondeu secamente.
— Sara. — Grissom insistiu ao tocar em seu ombro. Todavia nem isso deu certo; ela entrou e o deixou para trás.
A detetive deu de cara com Brass sentado e tomando uma dose do uísque que guardava na sala. Quando percebeu a presença dos dois o capitão tomou todo o conteúdo do copo e guardou a garrafa na gaveta da mesa.
— Já voltou? E então?
— E então que... ele sabe do meu passado. — Ela deixou o bilhete traduzido na mesa dele e se afastou, ficou um pouco próxima à porta, pouco atrás do centro da sala. Grissom ficou perto dela.
— Quê? — Confuso, o capitão franziu a testa — O que quer dizer com isso, Sidle?
Após um breve suspiro Sara contou a quase mesma versão resumida do que aconteceu há alguns anos. Isso confirmou ao sargento que sua parceira estava envolvida nos sequestros, ou melhor, foi uma das jovens sequestradas. A cada hora do dia as coisas pareciam piorar.
— É a mesma estratégia que ele usou com o sargento Grissom em mandar um bilhete com uma “data marcante”.
— Zodíaco deve estar de olho na Sara, Brass! — Enfim o sargento se manifestou, atraindo olhar de ambas as figuras — O que mais quer dizer com essa data? — Ele gesticulou.
Sara revirou os olhos e deixou um suspiro cansado.
— O que você quer, Grissom? — Brass o questionou.
— Que tipo de gente manda uma mensagem como essa e fica por isso mesmo?
Sara se lembrou da conversa que tiveram no carro, sobre o comentário dele em “mover o departamento inteiro” apenas para sua segurança. Não conseguia acreditar que ele ainda estaria disposto a isso e torcia ferrenhamente para que essa ideia não se concretizasse. Seria mais hipócrita ainda ao preferir tomar uma atitude em relação à sua segurança que a dele própria.
O sargento e o capitão continuaram a bater boca pelos minutos seguintes. Era Grissom quem estava perdendo a cabeça com mais facilidade. Se continuassem assim ele acabaria falando algo que não deveria.
— Talvez não seja uma ameaça, nem a mim nem ao sargento. — Sara tomou a palavra de repente, na tentativa de acabar com aquilo.
— Como assim, Sidle?! — Brass estava impaciente
— Eu... não sei. Pode ser e não pode ser! — A detetive estava impaciente. A voz dela era de alguém que desabafava após um dia estressante. — Pode ser uma tentativa de nos estabilizar. Em primeiro lugar nós nunca questionamos o motivo do assassino mandar essas mensagens em Braille.
— E também não questionamos o porquê de ele ter mandado a mensagem numa ocasião que não tenha sido na morte de mais uma de suas vítimas. — completou o sargento.
— Ora, o cara teve oportunidade. — Brass comentou dando de ombros.
— Mas como ele sabia que Sara estaria lá? — Grissom estava mais alterado — Não dava para saber, ela não espalhou isso, e eu por exemplo nunca fui no enterro de nenhuma das vítimas. — Ele encarou as duas figuras esperando por algo — Isso está bizarro!
— Se a detetive não contou para mais gente aqui então como isso foi acontecer?
— Palpite? — Sara se colocou no meio da discussão — Vejam, a vítima fez parte do passado do sargento. Seria plausível que Grissom estivesse presente no enterro, de alguma forma passasse no túmulo de Holly para prestar homenagem e visse o bilhete, quem sabe. — Ela ergueu as mãos tentando fazê-los compreender — Talvez o assassino não esperava por esse problema na perna do sargento.
De uma forma ou de outra Grissom iria àquele enterro, mas foi por causa de Sara que insistiu para ele não ir que a situação mudou. Sara tinha certeza que, se fosse o ele a pessoa quem avistasse o bilhete, Grissom teria sido mais radical, ainda que agora pedisse calma à detetive.
Foi a vez dela encarou ambas as figuras, séria e em silêncio. Moveu uma mecha de cabelo para trás e se manifestou:
— Vou continuar com as buscas. — Assentiu, carregando um meio sorriso forçado como sempre o fazia quando tentava disfarçar.
Ela deu meia-volta e caminhou para fora da sala, chegando a olhar para ele por um segundo. Seus olhares se encontraram de relance. Aquele semblante desalegre retornara em seu rosto e foi uma das coisas mais pesadas que Grissom voltou a ver. Sem se despedir dos oficiais ela saiu de novo sem esperar pelo parceiro.
— Isso tá ficando complicado, Gil. — disse o capitão assim que Grissom decidiu sair da sala também..
— Eu sei! — Ele respondeu ao se virar para o capitão — Parece que... toda semana aparece algo novo para piorar nosso entendimento do caso. Não tenho a droga da ideia que esse desgraçado quer da gente e isso me deixa irritado.
— O cerco está fechando e você sabe o que vai acontecer quando ele se fechar.
Grissom preparou uma resposta mais dura e mais ácida, porém se reteve e fechou os olhos por um instante.
— Não precisa colocar mais pressão, Brass. Sabemos disso! Só estamos tentando não... enlouquecer.
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Grissom entrou em sua sala e já não se surpreenderia mais se não a encontrasse ali. Ela se encontrava tão imersa em si mesma que parecia atuar sozinha no caso.
— Espero que você não ia dizer o que eu estava pensando. — Ela disse com os olhos voltados à TV. Estava sentada na cadeira comum.
— E o que eu iria dizer? — O sargento, meio incomodado com o comentário, se aproximou dela e esperou pela resposta de pé.
— Que teriam de acionar todo o departamento para me proteger? — Ela ironizou sua fala de dias atrás.
Ele cobriu os olhos por um instante. Queria ao máximo evitar uma discussão naquele clima já abalado.
— Ia dizer para ficarem de olho nas próximas semanas. Se ele estiver mesmo observando a gente então todos deverão cuidado. Isso é sério demais.
— Já estava sério demais. — Sara o concertou — Se ele estiver mesmo nos vigiando, e provavelmente está, — comentou ela — então já deve saber do nosso... você sabe.
Vendo que não tinha mais como ficar de pé por ali, Grissom pegou uma cadeira para se aproximar dela e se sentou. Esse era um dos pouquíssimos assuntos que gostaria de abordar: Zodíaco saber do relacionamento romântico deles. E isso o apavorava só de imaginar nas possíveis abordagens que o assassino poderia fazer de uso.
O sargento engoliu em seco e respondeu tão seco quanto:
— É.
— É. — Ela o remedou e cruzou os braços — O que ele está esperando para usar isso contra nós?
— Não temos... certeza disso, Sara.
— Gilbert, se ele sabe exatamente o dia em que nós dois fomos feitos reféns, como não vai saber sobre o nosso relacionamento? — Ela foi cética.
O homem tomou uma longa respiração e se poiou sobre as pernas.
— É tão difícil admitir que Zodíaco vem nos perseguindo sem dar um sinal?
Grissom abaixou a cabeça e continuou sem responder enquanto ela ficou o observando. Permaneceu na mesma posição que estava e lamentou tanto quanto ele.
— Se é só uma questão de tempo, então... temos que trabalhar mais rápido. — Finalmente o sargento abriu a boca para falar.
Sara não queria ser pessimista, porém não era simples trabalhar mais rápido como Grissom falou; nem ele tinha fé em suas palavras por completo. Ela preferiu se manter em silêncio.
— Quer falar sobre aquilo? — perguntou baixo.
— O que sobre o bilhete? — indagou ela — Não. Não estou com cabeça pra falar sobre isso. — Após um suspiro Sara acabou levantando — A única coisa que eu quero fazer é me concentrar no caso e tentar não perder o foco nele.
Em vez de caminhar pela sala a detetive acabou ficando de pé, em frente à tela do computador.
— Acho que temos de focar nos bilhetes. Mandá-los em Braille não pode ter sido um capricho dele. — Com o braço apoiado sobre o outro, Sara levou a mão esquerda ao queixo — Se ele quisesse disfarçar sua escrita seria mais fácil imprimir as mensagens com uma jato de tinta ou impressora a laser.
Ele esperou que ela continuasse com o raciocínio.
— Sabe de algo envolvendo Ryan e o braille no passado? — perguntou ela.
— Eu não... consigo me lembrar agora. — Ele respondeu hesitando — Mesmo que houvesse algo a ver, por que mandaria a mensagem para você da mesma forma?
— Oportunidade? — Sara deu de ombros. Depois se abaixou para almejar a caixa de onde ainda estavam alguns arquivos do caso do Park. Os HDs foram levados para a sala de arquivos, guardados em segurança — Vamos ter que saber se houve algo na época do seu sequestro ou depois, se Park trabalhava com algo relacionado a isso.
— Ok. — Grissom concordou em voz baixa. De repente seu rosto que já não aparentava estar satisfeito fechou-se ainda mais após ouvir o plano de Sara. “Voltar no tempo” em relação aos trabalhos de Park era se envolver no passado que se encontrava com aqueles eventos terríveis. Ele não conseguia evitar não pensar no caso de Stone, todas aquelas vítimas e, claro, aquele dia.
— Eu posso fazer isso. — sugeriu, percebendo algo de errado nele.
— Não, eu... vou fazer. — Ele tentou argumentar. Chegou a se virar para frente do computador — Se eu ficar escapando disso eu nunca vou ficar livre.
— Tudo bem? — Sara insistiu.
— Espero que sim. — respondeu sem fitá-la, começando a acessar o computador.
Enquanto realocava a caixa de arquivos em cima da mesa, Sara aproveitava para espiar seu parceiro, sem reparar de fato no computador, mas sim em seu comportamento. Algo em seu olhar a perturbava estranhamente, porém não se atrevia em questioná-lo sobre o motivo.
Ele estava estranho de verdade, não era uma impressão. Grissom se desligou do mundo, de repente, e pareceu não dar sinais de que iria embora dali tão cedo. Ao digitar o nome de Park nas buscas a primeira coisa inevitável que veio à sua mente foi aquela época, a época em que a foto foi tirada após horas de terror inesquecíveis naquele sótão. Lembrava-se da repercussão do caso, das brigas com o jornal, com o próprio Ryan e do estresse, desgaste, exaustão.
O sargento não percebeu que parou as buscas momentos depois em que as começou. Com as mãos em cima da mesa ele cerrou os punhos aos poucos. Ficou alguns minutos assim até que de repente a porta foi aberta rapidamente, quebrando a atenção de ambos aos seus afazeres.
— O que vocês dois estão fazendo aqui ainda?
— Trabalhando. — Grissom foi seco e afiado.
— Não mais. Vão embora daqui, o turno de vocês é só na segunda.
— Nós acabamos de chegar depois de ser pegos de surpresa, Brass! Não podemos-
— Sem discussão desta vez. — O capitão interrompeu Grissom e ergueu a mão direita — Teoricamente vocês estão em casa. Não basta ter que cobrir hora extra de vocês pela semana. — reclamou — Sinto muito, mas não dá, infelizmente não posso deixar vocês aqui. Ponham a cabeça no lugar, principalmente você, Sidle, e voltem com algo na segunda.
— Jim... — Grissom tentou insistir — Essa não é a primeira vez que isso acontece. Que se dane o dinheiro! Isso aqui é importante demais para deixar de lado.
— Não dá, Grissom. — Ele balançou a cabeça — Não dá. Já avisei às patrulhas de plantão e já falei com os representantes das emissoras para me cederem as imagens do funeral. Esse é o máximo que posso fazer.
Grissom fitou o superior com uma fúria da qual não podia manifestar, mas que o capitão sabia muito o que era. Ao dar-se por si viu que não foi muito além do ponto de partida em sua pesquisa. Não fez nada, apenas ficou pensando em todos aqueles minutos.
— Eu sinto muito, mas não dá pra bater boca com gente lá de cima num momento desse.
Jim saiu da sala e a primeira coisa que Sara fez foi atentar ao parceiro, que mantinha um olhar fixo na porta.
— Filhos da mãe. — Ele resmungou entre os dentes. Ameaçou bater com o punho na mesa, mas parou no último instante — Fazem isso porque não são os filhos deles que estão nos caixões. — Com raiva, ele fechou os programas e desligou o computador rapidamente.
Ao menos desta vez Sara podia compreender o motivo de ele estar inconformado, afinal sentia o mesmo. Ser arrancado do trabalho por pura burocracia era mais um das cruéis situações que se podia enfrentar ali, justo num momento tão delicado.
A detetive guardou os objetos de volta à caixa e a deixou embaixo da mesa, lugar de onde estava antes. Ela terminou de fazer algumas anotações e as guardou dentro de sua bolsa pequena. Não estava preparada para este dia onde se deparou com uma surpresa daquela, então fez o que pode; foi pouco, ela sabia disso e não podia ficar satisfeita de forma alguma com uma “expulsão” que nem Brass podia impedir. Seu final de semana havia terminado antes mesmo de começar.
— Eu vou embora. Não precisa me dar carona. — avisou ela, encarando-o de pé.
O sargento ergueu o olhar, algo que parecia um misto de confusão e descontentamento.
— Eu... posso... — Grissom fez um gesto com a mão, na tentativa de fazê-la mudar de ideia. Mas ele ainda parecia estar com a cabeça em outros lugares, sugerindo aquilo apenas por obrigação.
— Não. Melhor você ir para casa e... — Ela buscou as palavras — esquecer disso um pouco.
— Nem você conseguiria fazer isso, Sara. — Ele replicou quase implorando — Olha, vamos juntos para casa, para minha casa. Vamos... tentar chegar a algum caminho-
Grissom parou de falar quando a viu erguer a mão direita.
— Depois de tudo que houve você ainda quer isso? Não é uma boa ideia, acredite em mim. — Olhando para o chão ela fez uma breve pausa — Já vou indo, Gil. Espero mesmo que você consiga. — Ela caminhou até a porta, acenou e o viu pela última vez antes de sair. Não olhou para trás quando fechou a porta para não se arrepender.
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Ela saiu da sala do sargento num clima ruim, ambos tinham isso em mente.
Fora daquelas paredes de concreto batido e vigas de metal, Sara já não se sentia da mesma forma. Uma sensação de insegurança tomou-lhe a mente. Era muita confusão em seus pensamentos, havia ainda o choque, o conflito, a angústia, medo. Paranoia?
Ainda era de tarde. As ruas do centro de Vegas, como sempre, estavam bem movimentadas. Lugar aberto, cheio de gente e veículos passando para lá e para cá; ainda assim sentia-se sozinha. As imagens do cemitério retornavam e assim as teorias surgiam como passe de mágica. As cenas no cemitério retornavam, junto com a ideia de ter sido observava por todo o tempo lá. Ou pior, poderia estar sendo observada desde muito antes. Pior ainda, o tempo todo, desde que pisou seus pés em Vegas.
— Merda... — Já no carro do táxi, ela sussurrou e balançou a cabeça várias vezes. Ficou a olhar para o lado de fora, com um semblante perdido no meio do caos das ruas e de seus próprios pensamentos.
— Tudo bem, senhora? — perguntou o taxista.
Ouvir a voz diferente causou-lhe um pequeno susto.
Ao olhar para ele pelo retrovisor ela notou que o motorista era um homem de aparência latina, bem jovem até; Sara mal tinha reparado nisso e sentiu uma pontada de arrependimento por mal ter olhado para seu rosto quando entrou no carro.
— Distraída. — Ela forçou um sorrisinho — Sua capacidade em disfarçar seu estado para as pessoas ao seu redor não decepcionava — Obrigada.
Esse era o problema, se distrair. Por causa disso não foi capaz de perceber que poderia haver uma pessoa — o próprio assassino, talvez — à espreita, podendo fazer o que quiser dela sem que ao menos fosse percebido. Sara sempre se considerou uma profissional atenta, raramente deixava detalhes escaparem, mas desta vez imaginou ter cometido um erro, uma série de erros, na verdade.
Ela passou a mão sobre a testa e fechou os olhos. Ainda incrédula sobre o que aconteceu, pensava nas atitudes que podia ter tomado enquanto estava lá. Num enterro como aquele ela tinha de fazer seu papel como policial e ficar alerta o tempo todo. Não seria comum, mas possível, a aparição do assassino no meio de tantas pessoas.
Chegou em casa da mesma forma que saiu do Departamento: abatida. Largou as chaves e a bolsa no sofá e se jogou nele sem a mínima vontade de sair dali para trocar de roupas. Ela pegou o celular para ver se havia alguma mensagem ou ligação perdida. Nada. A detetive descansou o pescoço no encosto e cerrou os olhos, esforçando-se para avaliar no que fazer e o que deixar de fazer adiante.
O que Sara mais gostaria era abrir a garrafa de uísque guardada em seu armário. Mesmo depois da promessa ela não ingeriu um gole sequer, mas também não teve coragem de se livrar daquelas garrafas. Só queria alguma coisa que a fizesse relaxar, apagar mesmo que por um curto tempo das horas anteriores. O álcool seria de alguma ajuda, mas sua consciência falava tão alto que chegava a doer, trazendo-lhe uma sensação de culpa sem ao menos ter se levantado para pegar a garrafa.
Estava sendo um dos piores dias em Vegas.
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