Manhunters
27 Rumo ao Sul
Notas iniciais
Pousada Chapman, 11h30min.
A última parada antes de voltarem a Vegas, a Pousada Chapman. Ficariam ali apenas pelo tempo necessário. Ela não queria, mas Grissom conseguiu convencê-la a almoçar antes de pegar a estrada, já que a viagem duraria umas quatro horas. Não podia seguir viagem sem ter comido alguma coisa.
Ao chegarem, ambos foram para seus respectivos quartos. Sara tomou um banho de água quente demorado. Foi bom, restaurador; pôde realocar seus pensamentos e tomar mais fôlego. Era, ainda, difícil de acreditar que tudo aquilo aconteceu em tão pouco tempo.
Eles falaram com os guardas, exceto com Lewis. Seguiram para Baker. Ela quase foi baleada naquele maldito posto. Grissom levou dois tiros e quase morreu.
Ah não...
Parecia que somente ela sentia o peso da quase morte do sargento; peso no qual nem ele ao menos aparentava sentir. Foi como um soco no estômago no qual a dor se recusasse a deixá-la.
A detetive elevou seu rosto para o alto e deixou que a água deslizasse em seu rosto. Quem sabe se, assim poderia se concentrar no futuro ao invés do passado.
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O sargento se encontrava no banheiro da suíte de seu quarto. Passou espuma de barbear no rosto e se preparava para tirar a barba que cresceu ao longo dos dias. Olhou-se no espelho e depois para a lâmina em sua mão direita. Suas muletas estavam próximas da pia e o homem se apoiava nela como suporte para não perder o equilíbrio.
Demorou para que começasse o procedimento. Encarou a si mesmo. De repente lhe vieram pensamentos dos quais sentia melancolia.
Que tipo de homem era aquele? Como pode cometer tal ato de injustiça? Esqueceu-se. Esqueceu-se de um bom passado, boas lembranças, os olhos de uma jovem mulher. Ele não podia acreditar, desculpar-se a si mesmo. Um crime cometido.
Grissom fechou seus olhos por alguns instantes, abriu-os e começou a se barbear. Lentamente deslizou a lâmina sobre sua pele.
Aquelas memórias, da mesma forma agradáveis, surgiram como penitência.
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Tarde do terceiro dia. As palestras foram mais interessantes, diversificadas, com bastante conteúdo. O promissor caçador de homens não se apresentou desta vez, mas teve que admitir que aquele dia foi o melhor. Acompanhou-as diretamente da plateia, mas longe da jovem detetive. Não a encontrou para que pudessem "assistir" às apresentações, juntos. E por isso, de vez em quando se pegava a olhar para os lados numa pífia tentativa de encontrá-la.
Num momento, após vários minutos de busca, ao se virar para a esquerda e para trás, encontrou-a. Ela estava a duas fileiras atrás dele, bem no canto, observando atentamente à mulher que falava no palco. Mas para sua decepção, a jovem detetive não o tinha visto.
Insistente, disfarçava para não chamar atenção, e num intervalo quase padrão de vinte segundos olhava para trás, torcendo para que ela o visse.
Finalmente. Após um tempo ela olhou justamente em sua direção. Só que dessa vez ele estava de costas. Ela ergueu as sobrancelhas. Mesmo que ele não a visse, ela estava contente por sua presença. Sorriu brevemente.
Entretanto, quando estava prestes a voltar sua atenção à palestra, ele se virou. Pronto.
Eles sorriram. O detetive foi quem se animou mais. Rapidamente acenou para ela, que discretamente, retribuiu o gesto. Após a conquista, o promissor caçador de homens voltou à sua posição, e continuou a assistir à apresentação da palestrante. Tinha que admitir que perdera parte da concentração nos minutos seguintes.
Final da palestra, ele e a jovem detetive se encontraram próximos ao portão de entrada do espaço. Um aperto de mão e um abraço de alguns segundos. Seguiram adiante, a pé, para um café a uma quadra dali; escolha dela, que conhecia a região. Conversaram pouco no trajeto.
Três e quinze da tarde. Chegaram ao pequeno estabelecimento. Sentaram-se próximos à janela e fizeram seu pedido.
Ele a observou atentamente; parecia estar um pouco acuada. Cabeça um pouco baixa, olhares dirigidos para a direita e esquerda... Retração de lábios a todo o momento, batucar dos dedos na mesa...
Tinha de quebrar o gelo, mas também se sentia um pouco nervoso. Alguns dos dois precisava falar ou fazer alguma coisa, senão ficariam horas e horas estáticos. Um enorme tempo perdido.
Então ele se manifestou, quebrando o silêncio e trazendo a atenção dela para si:
— Então... me fale sobre você, Sara.
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— Ah!
Descuidado ele. Deixou-se cortar com a lâmina, pois se perdeu em suas memórias. Memórias dolorosas, por mais que tenham sido boas. Tudo porque se esqueceu.
Grissom tirou a lâmina rapidamente assim que sentiu a dor do corte. Em poucos segundos um fio de sangue escorreu.
Ela deve estar com raiva de mim. Pensou. Logo se lembrou do primeiro dia em Las Vegas, quando se encontraram.
"Não me lembro de você."
Aquilo deve ter doído. Receber uma resposta fria como aquela após tudo aquilo que passaram juntos deve tê-la deixado abatida, enfurecida, um pouco dos dois. O sargento culpou a si mesmo já que mal teve o trabalho de se esforçar para lembrar-se daqueles olhos que vira há oito anos; apenas respondeu-a como alguém que não queria ninguém por perto. Ele sabia que se tocasse no assunto seria recebido com uma fria resposta, assim como a que ela recebeu; mas não podia deixar que aquilo se apagasse novamente. Ficou numa encruzilhada.
Mas ela me abraçou. Por quê?
Talvez porque estivesse emocionada demais? Indagava o sargento. E quanto mais tentava entender, mais ficava perdido.
Por que ele se esqueceu? Talvez tivesse a resposta, mais dolorosa que a pergunta.
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Grissom desceu para o restaurante com as mesmas roupas que usava antes, com exceção do sobretudo que vestia no momento para se proteger do frio. Sentou-se na cadeira da mesa vazia mais próxima, não querendo se dar o trabalho de andar uma distância muito longa. O esforço que fazia o deixava cansado rapidamente. Poderia ter ficado no hospital e se recuperado por mais tempo... só que era o Grissom.
Após repousar as muletas, encostadas à uma cadeira próxima, ele apoiou os cotovelos na mesa e cobriu o rosto com as mãos. Ficou por alguns segundos ali, quieto e na mesma posição, até que foi tocado no ombro por alguém.
— Boa tarde, senhor, vai querer alguma coisa? — perguntou o garçom gentilmente.
O sargento retirou as mãos do rosto e se virou de lado para olhar o homem à sua esquerda.
— Estou esperando por alguém. — disse, liberando as palavras como se estivesse respirando.
— Certo. Se quiser algo é só chamar.
— Obrigado.
Respondeu aquilo para o garçom com muita incerteza ou uma certeza indigna. Poderia estar esperando por ela, mas nada garantia que ela estaria lá por ele. Talvez estivesse com raiva dele por tudo que fez nos últimos dias. Merecia aquilo.
Perdeu-se em pensamentos vazios.
— Boa tarde, sargento Grissom.
— Hã? — Levou um breve susto, se virando para trás — É... boa tarde, detetive Sidle.
A morena sentou-se na cadeira frente a que ele estava sentado. Nervoso, Grissom disfarçou o olhar, virando o rosto para o lado.
— Fez a barba, é? — Impressionada, Sara ergueu as sobrancelhas.
— É... já estava grande demais. — Ele respondeu em voz baixa, ainda sem se dirigir a ela.
— Nada mal. — A mulher sorriu, observando atentamente — Pelo visto se cortou, também.
— Acabei me distraindo... — O sargento, instintivamente, tocou no ferimento no lado direito do rosto.
Alguns segundos se passaram. Sara continuava a observar o sargento, ainda meio avoado.
— Que cara é essa? — Ela franziu as sobrancelhas.
— Nada não...
— Tá bem... — disfarçou — Segundos depois, vendo o garçom por perto, levantou o braço direito e chamou — Pediu alguma coisa?
— Não. Estou sem fome.
— O quê? Quase me arrastou pro restaurante! Você vai comer, sim!
Quando o garçom chegou à mesa deles, baixou um pouco a cabeça para ouvir Sara com clareza.
— Vou querer macarrão com molho. E você? — Ela perguntou, dirigindo-se a Grissom.
Ele fez uma careta e balançou a cabeça negativamente.
— O mesmo pra ele. — falou ao garçom, que assentiu.
— Eu- — O sargento não teve tempo de argumentar.
— E para beber?
— Água. — Sara respondeu, não dando chance do sargento reagir.
— Certo. Só aguardarem um instante.
Quando o empregado saiu, Grissom lançou um olhar afiado à detetive, que deu de ombros.
— Falei que não queria nada.
— Então por que está aqui?
Ele ergueu as sobrancelhas. Não era sempre que uma pergunta o deixava sem resposta. Na verdade, ele tinha uma resposta, mas guardou para si.
— É melhor que a gente coma um pouco, se não vamos voltar a Vegas completamente desgastados. — Ela se ajeitou na cadeira — Foi você que me convenceu a isso, agora estou convencendo você.
— "Convencendo." — O homem fez um gesto em aspas com os dedos.
Adeus à Pousada Chapman. Depois de um almoço rápido, sem muitas palavras trocadas, Grissom e Sara finalizaram as suas estadias no estabelecimento. O sargento foi responsável por encerrar a conta no local, enquanto Sara aguardava próxima a ele. Uns cinco minutos depois, ele deixou o balcão e se aproximou de Sara, que se encontrava já na porta.
— Eu não quero nem saber o valor da conta.
— É a polícia que vai pagar, não se preocupe. — Ele deu de ombros, após os dois saírem pela porta.
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De volta à estrada, finalmente. Finalmente, após tantos dias fora, caminho de volta para casa. Casa, em termos. Termos explícitos. Ainda que não fosse sua casa — casa, no sentido de um teto para morar — Sara não via a hora de retornar para um espaço que via como seu; por pouco tempo, mas que não podia ser esnobado. Lar, para ela, já era outra história.
Já Grissom, queria muito encarar nos olhos daqueles homens e perguntar o motivo daquela "mentira". Mentira entre aspas, já que o sargento não tinha uma certeza definida em apontar o culpado do crime. Crime que parecia não deixá-lo em paz. Paz que não o acompanhava mesmo nos interiores de sua casa. Nem sentia vontade de retornar à sua casa. Casa, no sentido de um espaço íntimo, particular, seu mundo quase ideal. Nunca pensou se aquele apartamento fosse um lar, ou até mesmo o sentido de um lar.
— Grissom? Grissom!
O sargento se virou de repente para ela.
— O que foi?
— Você estava distraído! Eu tentei te chamar várias vezes agora.
— Aconteceu alguma coisa? — Ele franziu a testa, irritado com o quase susto.
— Deixa, esquece. — falou um pouco decepcionada, esticando seu braço direito para a ligar a rádio.
Ele suspirou.
— Vai ligar o rádio? — perguntou ele.
— Vou, sim. Estamos na estrada só há meia hora. Vamos acabar mofando aqui sem dizer uma única palavra.
Mesmo não respondendo, Grissom concordou com a ideia de o rádio ser ligado para ver se um pouco de música pudesse servir como distração. Assim que ele foi ligado a música, do gênero heavy metal, próxima de acabar, tocava num alto som.
— Metal, Sara? — Ele a questionou com uma careta, após diminuir um pouco o volume.
— Eu gosto, o que tem com isso?
O sargento virou-se para o lado, balançou a cabeça e sorriu brevemente.
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O que fazer adiante?
Ele tinha a resposta na ponta da língua e uma indagação nos abismos de sua mente.
Falar com os guardas novamente. Pressioná-los, acusá-los, prendê-los, se necessário. Não seria o momento de fraquejar o se levar quaisquer considerações, mesmo que mínimas. O caçador perdeu tempo demais num caminho que achava o certo, onde acabou descobrindo que apenas corria em círculos. Ao contrário do que ele mesmo pensava, o tempo não o deixou mais experiente, melhor de si mesmo, apenas o amoleceu. Agora pagava por isso.
— Ei? — Sara chamou por ele, interrompendo seus pensamentos novamente.
— Hã, o que foi?
— Abre aí o porta-luvas. — Ela apontou para o local específico.
Queria perguntar o porquê, mas estava meio avoado. Esticou-se um pouco e abriu o compartimento. Logo notou algo dentro dele que lhe chamou a atenção e o retirou.
— Uma garrafa de água. — disse ele meio sério.
— Falei que ia comprar, não falei? — A detetive sorriu, enquanto olhava para a estrada.
Grissom observou a garrafa em sua mão esquerda por alguns segundos. Sem se virar, olhou para ela, que se encontrava atenta em dirigir. Voltou-se novamente para a garrafa e a abriu. Tomou um longo gole. Ela não precisava fazer aquilo, não tinha nenhuma obrigação; mas o fez. Lembrou-se dele.
— Obrigado... Sara.
A detetive se virou para ele e sorriu.
O tempo passava na longa estrada e no longo caminho até Vegas. De vez em quando o sargento se pegava olhando de canto de olho para a detetive. Não conseguia pensar em outra coisa e as palavras estavam entaladas em sua garganta. Queria perguntar tanta coisa e a vontade era grande, porém a hesitação era maior. Poderia se arrepender se o fizesse da mesma forma que se não o fizesse.
Sobre o passado. Tentou conversar antes, mas ela se mostrou intransigível. Talvez, por causa de sua ignorância e o modo como a tratou antes a fizeram querer esquecer o Grissom de tempos atrás. Tinha receio que fosse isso.
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LVPD, Las Vegas, Condado de Clark. 16h45min. 29 de outubro de 2XXX
— Viva Las Vegas! — disse a morena, ao observar a grande placa de boas-vindas.
"Viva Las Vegas", eles dizem. A Cidade do Pecado, sempre acordada, não importava o dia ou horário. Veículos e pessoas se deslocavam de cá para lá e vice versa, uma loucura infinita. Shows, cassinos, eventos gigantescos, sexo, casamentos, crimes, morte.
Ela estava diferente, muitas casas, estabelecimentos e até mesmo cassinos decoraram suas fachadas com o tema do Halloween. Dia das Bruxas. O terror e horror tomavam conta das ruas. Já era possível notar pessoas fantasiadas: super-heróis, monstros, personagens ícones da cultura pop, assassinos. Muitos deles.
— Hã, o que... o que foi?
O sargento levou um susto e acordara repentinamente. Mal percebeu quando caiu no sono ao longo do grande caminho pela estrada. Sara, que tentou falar com ele novamente no decorrer do trajeto, notou que ele havia dormido. Não quis incomodar, e quando disse as primeiras palavras ao chegar em Vegas, esqueceu-se daquele detalhe.
— Chegamos, dorminhoco. — respondeu, brincando com ele.
Ele esfregou os olhos com a mão esquerda e se virou para o lado direito. Depois se voltou a ela.
— Por quanto tempo eu dormi?
— Não muito. Uma hora, por aí.
— Certo. — Ele assentiu, e continuou a olhar pela janela.
Mesmo conhecendo aquelas ruas de cor e salteado, o sargento observava-as atentamente, analisando cada detalhe que achava interessante. Viu muita gente fantasiada, principalmente crianças, que andavam e corriam em bandos. Estavam adiantados, mas quem podia conter a euforia de uma criança?
Observava alguns adultos. Não podia deixar de encarar aquelas roupas exageradas, assassinos carregando facas de mentira sujas de sangue falso, serras elétricas, máscaras de hóquei e palhaço. Talvez aquele foi o pior período de Halloween que passava. Tudo aquilo o deixava incomodado, ansioso, não via a hora de chegar à delegacia.
— Espero que não demorem muito a chegar. — comentou o sargento ao se referir aos guardas, ainda olhando para a janela do carona.
— Que bom que você conseguiu arranjar um helicóptero para os nossos homens.
— Foi o Brass, eu só pedi.
— Ainda assim, você conseguiu. — Sara se virou para ele, após parar o carro no sinal vermelho.
Percebendo que estava sendo observado, Grissom voltou sua atenção a ela.
— É bom conseguir o que quer, né? — indagou-o em voz baixa.
— O que você quer dizer com isso?
Sorrindo, Sara se virou-se para a frente, pronta a esperar o sinal ficar verde. Riu brevemente.
— Esquece... eu... falei demais.
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