Manhunters
40 O passado depois do passado
Notas iniciais
Ela não conseguiu ficar horrorizada, nem atônita, boquiaberta, nada. Ergueu ligeiramente as sobrancelhas. Não acreditara no que acabara de ouvir.
Ele se mantinha fixo nela, esperando uma reação incomum, anormal, mas se decepcionou.
Após alguns segundos, quase lentamente, Sara levantou o indicador direito para perto de seu rosto, apontando diretamente para Grissom:
— Eu não acredito em você. — disse com uma voz rígida — Não acredito em uma palavra que você falou. — Então abaixou o dedo.
— Foi o que aconteceu. — Assentiu — Por que acha que eu não queria você por perto? — Deu de ombros como se estivesse falando sobre algo banal.
Ela aumentou um pouco a voz ao responder:
— Por N motivos!
— Tá bom. — Assentiu, na tentativa de finalizar a discussão — Agora você foi promovida a sargento por duas semanas! — Grissom estendeu uma chave para ela, que se recusou a pegar. Impaciente ele deixou em cima da cadeira — Aqui está o catálogo com as armas brancas. O número do Tony, um colega especialista em armas brancas está dentro de um deles. — Apontou para a pequena pilha, depois se voltou a ela — Tudo que está dentro dessa sala pertence a você, agora. — Ele vestiu o sobretudo, guardou a bengala na caixa levando-a consigo. Pegou suas muletas e seguiu em direção à porta. Antes disso, virou seu rosto para a detetive — Se cuida.
Ela não se virou para encará-lo. Talvez porque estivesse bastante atônita ou com muita raiva. Apenas riu e balançou a cabeça.
Ele saiu da sala. Sem trocar palavras com as pessoas ao seu redor, o sargento deixou a delegacia.
—--------------------------------------------------------------------------------------
Tudo virou de cabeça para baixo para o sargento.
No momento de seu retorno para casa, chegou a rir sozinho ao se dar conta da situação em que se encontrava. Voltou no tempo. Desde o dia em que Sara Sidle chegou em sua sala. Admitiu a si mesmo que foi um idiota ao tratá-la daquela forma. Mas de uma coisa ele não podia se arrepender: criticar a sua presença. Já não queria um parceiro (ou parceira) antes, e ao descobrir suas memórias sobre a detetive ficou mais receoso ainda.
O sorriso deu lugar à seriedade. Sua parceira estava sozinha, e foi tudo por culpa dele. A circunstância se repetia novamente.
Verdade. Grissom não superou a morte de Holly Gribbs que aconteceu há seis anos. Era uma ferida que não cicatrizava, por mais que tentasse. Seu rosto surgia em sua mente enquanto acordado, e em seus sonhos. Ele mesmo criou uma frase (quase mantra) que o rodeava, fazendo-o se lembrar daqueles momentos todas as vezes.
"Eu a matei. Eu a matei." Repetia para si. "Ela está morta e a culpa é toda minha."
Fazia isso para nunca se esquecer de que ele foi o responsável pela morte de uma mulher que tinha o sonho de avançar na carreira e ser um orgulho para si mesma e para seus familiares. Talvez aquela dor nunca saísse de seu corpo. Pensou até, que um dia conseguiria deixá-la; porém, ela chegou e desembaralhou todo seu raciocínio. Sidle.
O pior de tudo foi que Sara não era apenas a sua parceira. Era sua amiga, ou que se podia chamar de amiga. E o pior, também, é que ela diferente. Se acontecesse algo com ela, ele tinha certeza e toda a certeza que não aguentaria o peso.
— Hank, cheguei, amigão. — falou, ao entrar em seu apartamento.
O cachorro, que esperava deitado no sofá, veio correndo para "cumprimentar" o amigo. Todavia, nem o gesto carinhoso do animal levantou o ânimo de Grissom. Estava péssimo. Foi o pior dia de muitos.
Deu tudo errado.
Raiva e tristeza; era o que sentia, quase sempre sentia as mesmas emoções. Sua mente não estava confusa, pelo contrário, trabalhava muito bem, bombardeando-o com as mesmas informações e lembranças passadas.
Grissom deixou as muletas no chão e a caixa no sofá. Levou as mãos ao rosto e ficou ali por alguns segundos. Permaneceu com a mão esquerda elevada à testa e fechou seus olhos, quando a mão deslizou até eles.
Resolveu tomar um banho. Vestiu uma calça cinza larga, uma camisa preta de manga longa e um casaco branco. Estava com frio, e não sabia se era febre ou se o tempo esfriou mesmo. Voltou para o sofá trazendo consigo um cobertor e o maço de cigarros que relutava tanto em jogar fora; sem contar com a caixinha de fósforos. Arrumou uma cama confortável para Hank na cozinha, já que estava prestes a acender um cigarro e não queria que o cachorro respirasse a fumaça.
Grissom sabia que não devia estar fumando devido a questões físicas e psicológicas. Mas ele estava fora de si, precisava se controlar de alguma forma. Sozinho, não tinha ninguém que pudesse entender o seu estado para tentar ajudá-lo.
Não ligou a TV, preferiu ouvir o som do silêncio. Acendeu um cigarro, sentou-se no sofá, recostou-se nele e fechou seus olhos.
Tudo poderia ser mais fácil, tudo poderia ter sido mais fácil.
—----------------------------------------------------------------------------------
De volta no tempo. Seis anos atrás.
Gilbert Arthur Grissom se tornara um legítimo especialista em resolver crimes hediondos. Levou à prisão muitos assassinos de sangue frio, serial killers e possíveis candidatos a ganhar o título. Na maior parte das vezes trabalhou sozinho e sempre que tinha um parceiro era por pouco tempo, mais precisamente para resolver alguns casos específicos. Ele também ganhou o apelido de "caçador de homens", nome do qual não se sentia bem em ser chamado. Conquistou uma forte reputação ao longo dos anos devido a estrema dedicação e trabalho duro, o que lhe custou um afastamento dos círculos sociais, o que também não era muita coisa para ele. Outro resultado de seu esforço foi conquistar a patente de sargento, maior prestígio, e é claro, um salário maior.
Dentre vários casos resolvidos nas manhãs, tardes e até noites no ensolarado e quente mês de julho, foi chamado para um caso simples; assassinato de um homem num bar na Strip. Algo comum, até, sem problemas para ser resolvido. Tinha um auto prazo em resolver o caso dentro de uma semana, no máximo. Só que desta vez, o caçador teria a ajuda de alguém. Uma novata, que recentemente ganhou a patente de detetive.
Grissom não era do tipo rabugento, mas afirmava que trabalhava melhor sozinho. Ao menos o fato, curiosamente, o fez retornar à lembrança de três anos atrás, numa Conferência em São Francisco, no qual conheceu uma jovem detetive de olhos cativantes. Não era do tipo em trabalhar em dupla, mas se pudesse escolher com quem fosse trabalhar, com certeza seria ao lado dela.
Seu nome era Holly Gribbs, filha de Jane Gribbs, uma tenente que atuava na área de trânsito. Sua família era bastante conhecida no meio policial; ela, por sua vez, não queria fazer feio e sonhava em construir uma boa carreira. Entrou na unidade de homicídios por causa da forte influência que a mãe tinha entre os oficiais. Começou com o pé direito.
— Por que escolheram a mim? — perguntou confuso ao capitão Brass. O sargento foi até a sala dele para ouvir a notícia que tinha a receber — Ou melhor; por que a escolheram para trabalhar comigo?
— Você sabe, ela é novata. Achei melhor colocá-la ao seu lado já que você é bem experiente no trabalho. — respondeu Brass, enquanto analisava alguns papéis em sua mão. Estava sentado em sua cadeira, virando de um lado para o outro como se o trabalho nunca tivesse fim.
— Eu não tenho nada contra ela, mas procuro sempre trabalhar sozinho. Catherine poderia ajudá-la nisso. — Apontou com o polegar para trás.
— Ah, Gil! Eu também não a queria na unidade, mas você sabe que a mãe dela tem influência por aqui. Resolva esse e outros casos com ela. — Ele estendeu a mão para a frente — Logo a Gribbs vai pegar experiência e eu coloco ela sozinha ou com outros detetives. — O capitão deu de ombros.
O sargento Grissom percebeu que não tinha outra opção, a não ser aceitar "ganhar" uma nova parceira.
— Tá bom. — disse, entre um suspiro. Deu meia volta e retornou à sua sala.
Ainda estava se acostumando com um espaço só seu. A sala era pequena, mas já era o bastante. Para quem ficava num espaço compartilhado com dezenas de oficiais, ter uma sala própria era um privilégio. Enquanto olhava para todos os cantos, Grissom tentou ajeitar sua gravata, e foi quando percebeu que não a estava usando. Então olhou para suas roupas: um terno preto e camisa branca, e sapatos sociais da cor preta. Se não fosse pelo distintivo em seu paletó, o homem dava a entender que estava prestes a participar de uma festa. Ele deslizou a mão esquerda sobre o rosto; barba feita, ainda bem. O cabelo foi cortado recentemente. Reparando nisso, viu que estava esteticamente apresentável.
Bateram à porta. Logo ele pôde ver quem era já que as persianas estavam levantadas. Era a mulher da foto que recebera na ficha. Holly Gribbs.
Grissom fez um gesto para que ela entrasse e assim o fez. Quando ela entrou, na mesma hora, o sargento se levantou e cumprimentou-a com um aperto de mão.
— Olá, bom dia, sargento Grissom, não é? — Ela sorriu meio timidamente.
— Sim, e você deve ser a detetive Gribbs, não é? — Ele brincou.
Grissom reparou em suas vestes rapidamente. Um conjunto social azul escuro e uma camisa abotoada azul bebê e sapatilhas pretas. Seus cabelos curtos, loiro escuro, estava solto.
— Correto. É... um grande prazer trabalhar com o senhor, sargento. — falou animada.
— Não me chame de senhor. Grissom está bom.
— Certo. — Assentiu.
— Estava te esperando. Temos um assassinato num bar da Strip. Vamos lá.
Foi um caso simples, como o próprio sargento esperava. Foi descoberto que o homem de trinta anos foi morto numa briga com outro homem naquele mesmo bar. Ambos bêbados, partiram um pra cima do outro numa noite. A vítima, viciada em bebida alcóolica, estava de volta no mesmo dia naquele bar, e assim, o homem que perdeu a briga para ele, também. O derrotado sacou um revólver e atirou três vezes contra o outro, que morreu na hora.
No primeiro caso dos dois, Grissom tentou passar para ela tudo o que sabia, na tentativa de deixá-la com os mais diversos conhecimentos para que Gribbs adquirisse experiência o mais rápido possível. Mas ele sabia que não adiantava saber de algo apenas, era necessário por em prática tudo o que se aprendia. Sabia, também, que ficaria mais tempo ao lado dela por mais tempo que imaginou.
Próximo caso, morte de uma prostituta num beco próximo ao MGM. Um caso pouco mais complicado que o primeiro, mas que fora possível resolver sem grandes problemas. Depois, um estudante foi encontrado morto na UNLV; assassinato de um homem que voltava para casa... por aí em diante.
Os dias passaram, semanas, meses. Três meses, na verdade, foi o tempo em que os dois trabalhavam juntos. Grissom teve que admitir que um cérebro a mais era melhor para se resolver um caso. Poderia até chamá-la de amiga, devido ao bom relacionamento que desenvolveram. Ele mesmo viu que Gribbs tinha altas chances de chegar a lugares altos no futuro. Uma promissora detetive. Tão quanto uma jovem morena de olhos cativantes da qual ele não lembrava mais o sobrenome.
— Você está indo bem, Gribbs, tenho que admitir. — Falou ele, após se encontrar com ela em sua sala. Era final do turno e o sargento se preparava para escrever seu relatório.
— Parece que a dupla Gribbs-Grissom está arrasando. — Ela brincou, ao apontar para ele. Estava em pé, próxima à porta.
— Gribbs-Grissom? — O sargento franziu o cenho, ao erguer a cabeça e encará-la.
— Ah, desculpe, eu me empolguei. — Holly soltou uma risada.
Grissom também deixou escapar um riso. Ele balançou a cabeça e voltou para seu relatório.
— Até amanhã, Gribbs. Bom trabalho.
— Obrigada, Grissom.
— Pelo quê?
— Por me ajudar nisso.
Novamente ele se voltou à detetive.
— Eu não fiz nada. Foi você quem fez. — Assentiu.
— Mas... se você não tivesse me falado e mostrado tudo aquilo, eu não saberia de tanta coisa!
— Ainda que eu tivesse feito tudo aquilo. Se você não estivesse disposta em aprender, não adiantaria em nada.
A mulher o encarou por alguns segundos. Sorriu abertamente. Nunca pensou que seu mentor pudesse acolhê-la tão bem.
— Até amanhã. — Acenou, e em seguida, deixou a sala.
Ele a observou fechar a porta. Olhou para baixo e soltou um longo suspiro. Estava tudo bem, mas ao mesmo tempo, não estava. Não sabia o porquê, e se irritava com isso.
O próximo caso era sobre o assassinato de um viciado em cocaína. A unidade de Narcóticos, inicialmente, ficaria com o caso; mas como se tratava de um crime hediondo, a Homicídios pediu prioridade. A "conquista" foi considerada uma vitória para os oficiais da unidade. Os encarregados de resolver o caso eram justamente a dupla Gribbs-Grissom.
A investigação os levou até um conjunto de apartamentos de classe baixa no bairro de Michael Way. O possível suspeito, segundo uma informação que adquiriram morava em um dos apartamentos, só não sabiam qual.
O prédio tinha quatro andares. Como Grissom e Gribbs não tinham ideia de qual andar e porta corretos, tiveram que investigar um a um. O primeiro andar estava limpo, nenhum rosto batia com do suspeito. Foram para o segundo andar. Nada, também.
Grissom já estava ficando irritado. Quatro dias se passaram e nenhuma pista decente. E a do momento mostrava não dar em nada. Ninguém do prédio afirmou ter visto aquele rosto, muito menos o porteiro. A dupla estava prestes a chegar num possível fracasso.
Chegaram ao terceiro andar de escadas, já que o elevador estava quebrado.
— Tá bom, Gribbs, vamos fazer assim: Eu fico com o lado esquerdo e você o direito. Já sabe: seja direta, clara e concisa. Se achar que a pessoa está enrolando, tente pressioná-la ou me chame pelo rádio, certo? — falou um pouco impaciente, mas não por culpa dela.
— Certo. — Ela concordou. Não tinha muito o que fazer, também concordou com a ideia, mesmo que se sentisse um pouco insegura.
Os dois se separaram, cada um bateu em uma porta. Grissom começou mal. Ninguém morava no primeiro que pegou. Tentou o segundo. Finalmente. Já Gribbs teve mais "sorte" se é que se poderia dizer. Bateu à porta e foi atendida por um casal idoso, porém, não conseguiu nada.
Prosseguiram nesse ritmo. Grissom, o mais desafortunado, não chegou a uma pista sequer sobre o paradeiro do suspeito. Já desconfiava de falha na informação obtida.
Droga!
— Gribbs, está na escuta? — perguntou ele no rádio.
— Sim. — Ela respondeu.
— Estou indo para o quarto andar. Avise-me se achar algo, está bem?
— Ok.
Ele encerrou a chamada e subiu as escadas para o último andar. Nunca pensou que pudesse se arrepender daquela escolha.
O sargento chegou no quarto andar. Bateu à primeira porta à direita como se não quisesse estar mais ali. Uma mulher o atendeu. Entrou no lugar, conversou com ela, analisou todos os cômodos e deixou o apartamento decepcionado. Foi para o segundo. E tudo mudou de uma hora para outra.
Antes mesmo que pudesse bater à porta, ouviu um tiro. E então mais dois tiros seguidos.
Arregalou os olhos, sacou sua arma no momento em que os ouviu.
— Droga!
Pensou rápido. Aqueles tiros não vieram daquele andar, estavam abafados.
Não, não pode ser...
Gribbs.
— Gribbs!
Ele pegou o rádio num pulo e chamou por ela.
— Ei, Gribbs, está na escuta?! — Falou, enquanto corria ao descer as escadas.
Sem resposta.
— Merda!
Chegou ao terceiro andar. Qual a porta, droga?!
Ele olhou para todos os cantos, desesperado, não sabia para onde ir.
Alguns dos moradores saíram de seus apartamentos, pois se assustaram com o som dos tiros. Quase todos saíram.
Pensa, Grissom, pensa!
Com arma em punho, ele correu para próximo dos últimos apartamentos. O 39-A chamou a atenção do sargento já que a porta estava entreaberta. Sem pestanejar, Grissom abriu-a num súbito movimento. Pronto.
Ela estava lá, próxima ao sofá, caída no chão.
— GRIBBS! — Disse ao encontrá-la, de repente. Ele correu ao seu auxílio e se ajoelhou ao lado dela — Céus, Holly! — Ele arregalou as sobrancelhas, tentando perguntar o que aconteceu.
A mulher, que pressionava a mão esquerda sobre o ferimento em seu peito tentava dirigir seu olhar ao sargento. Com muita dificuldade ela apontou para cima de si.
— Ja... ja... nela...
— O q- — Ele olhou para a cozinha. Pensou rápido. Deduziu que o suspeito que atirou nela fugiu pela escada de incêndio.
Mas aquilo não era importante. Gribbs era. Ele fez um gesto para que visse o ferimento que ela tentava conter. Pegou então seu rádio. Falou o código e chamou por ajuda:
— Policial ferida, repito, policial ferida! Eu preciso de uma ambulância, rápido!
— Ah...! — Gribbs tentou se segurar para não gemer, mas era impossível, a dor era insuportável.
Droga, não vai dar tempo!
Ficou desesperado ao ver que Holly perdia muito sangue. Superficialmente dava para ver que ela foi alvejada duas vezes, um tiro no peito e outro na barriga. Precisava agir logo. Então tirou o seu paletó cinza e a cobriu. Em seguida, pegou-a em seus braços e saiu do apartamento num pulo.
Alguns dos moradores ainda se encontravam próximos para saber o que aconteceu. Logo viram o homem sair correndo dali. Ficaram assustados ao vê-lo carregando uma mulher ensanguentada.
— Saiam do caminho, policial ferida! — Ele gritou, e na mesma hora os espectadores se afastaram do corredor.
Merda de escadas!
Ele sabia que seria um caminho doloroso para ela até chegarem ao carro por causa do movimento de descida.
— Aguenta firme, Gribbs, a gente vai chegar lá. — falou, tentando acalmá-la e a si mesmo.
Grissom tinha de ser rápido, mas sabia que a detetive iria sofrer. Não tinha escolha; se demorasse muito seria tarde demais.
Do terceiro ao segundo andar foi uma tortura para ela, que gemia baixo e se contorcia algumas vezes.
Ah, não, Holly.
— A gente tá quase lá, Holly, aguente firme! — Falou, sem parar de correr.
Entre um momento e outro, o sargento a viu fechar seus olhos firmemente, como se tentasse dizer que estava dando o máximo de si para resistir.
Isso aí, fique firme!
Eles chegaram ao térreo. O porteiro, que estava sentado em sua cadeira e lendo o jornal, assustou-se com a cena. Grissom chegou como um raio.
— Ei, eu preciso da sua ajuda! — disse em voz alta.
— S-sim! — o senhor de idade respondeu, se levantando da cadeira e indo ao seu encontro.
O porteiro, como solicitado, abriu a porta do prédio e ajudou Grissom a abrir a porta do carona do carro. Assim que o sargento a colocou no banco, viu-a se retorcer e tocar em seu ferimento, pressionando o paletó dele na tentativa de parar a hemorragia. Não perdeu tempo, fechou a porta e correu para o carona. Nem se importou em colocar o cinto de segurança. Num momento como aquele, nada mais importava, apenas a vida de Gribbs.
Ela gemeu mais uma vez.
— Calma, Holly, vai ficar tudo bem, tá bom? A gente tá chegando. — Falou, ao olhar para ela rapidamente.
Grissom estava prestes a passar por um cruzamento, quando viu que o sinal fecharia em poucos segundos. Não dava para esperar, o tempo era o maior inimigo deles. Então ligou o alerta em seu carro e acelerou. Buzinava a todo o momento para que os outros carros dessem passagem.
Uns cinco minutos depois, Grissom chegou à emergência. Parou o Chevrolet Cruze hatch prata bem próximo da entrada. Saiu do veículo e fechou a porta com força. Correu para o carona. Abriu a porta e a pegou em seus braços. Notou que o paletó já estava quase todo manchado de vermelho.
— Vem. — Ele disse, ao estender os braços e pegá-la com cuidado.
Entrou no hospital e olhou para todos os lados. Ainda que fosse comum a entrada e saída de feridos, muitos dos que estavam próximos ficaram atônitos ao vê-los.
— EI, ALGUÉM! EU PRECISO DE AJUDA! — gritou, no meio de tanta gente. Estava desorientado, não conseguia ver ninguém que pudesse ajudá-lo.
Os socorristas de plantão ouviram o grito do sargento e logo correram ao seu encontro com uma maca.
— Ela foi baleada e está perdendo muito sangue! — Disse para eles, desesperado.
Um dos enfermeiros pegou a detetive em seus braços e a repousou na maca. Grissom não queria sair de perto dela.
Eles puseram uma máscara de oxigênio em Gribbs e se preparavam para levá-la à sala de emergência.
— Por favor, vocês têm que ajudá-la! — Ele se dirigiu à médica de plantão, enquanto tentava segui-los.
— Senhor, não pode vir conosco, tem que esperar aqui. — Uma enfermeira se aproximou de Grissom e o parou com a mão direita, barrando-o de prosseguir.
— M-mas... — O sargento sabia que não podia, mas no momento mal conseguia raciocinar direito.
— Quando tivermos alguma informação vamos passá-la ao senhor, agora espere aqui. — Ela falou, e depois correu para alcançar os outros.
— Deus... — Grissom suspirou. Ainda estava ofegante; suava muito. Tentou levar a mão ao rosto, mas parou quando viu o sangue.
Olhou para as duas mãos. Ficou horrorizado ao ver os membros ensanguentados que não paravam de tremer. Então olhou para sua camisa cinza; quase toda manchada de vermelha. Ficou estático, sem reação.
Um dos funcionários o recomendou lavar suas mãos e trocar de roupas. Ofereceu um café para que ele tentasse se acalmar.
No começo, o sargento se assustou com a vinda do homem que se aproximara dele. Segundos depois ele apenas assentiu e acatou ao pedido. Foi ao banheiro.
Céus, o que aconteceu...
Gribbs foi baleada.
— CÉUS, ISSO NÃO... — lamentou em voz alta enquanto deixava a água correr pela pia — pode estar acontecendo...
Ele molhou as mãos e escorreu a água pelo rosto.
Quando parou para pensar em tudo aquilo, adquiriu uma breve, mas esclarecedora resposta: ele era o culpado. Ele, somente ele. Se Holly estava numa cama de hospital pronta para ser operada, o culpado por aquilo ter acontecido era Grissom. Foi ele quem mandou que se separassem para encontrar o suspeito. Ele a deixou indefesa a correr os riscos. Estava impaciente, irritado, chateado demais com o caso e a quase inviabilidade em resolvê-lo por causa da falta de provas.
Grissom fechou a torneira e levou a mão direita ao rosto. Não conseguia ficar mais calmo, pior. Esqueceu-se de tudo, principalmente do caso em que trabalhavam. Então voltou para o saguão e encontrou o capitão Brass e um perito.
— Gil, o que houve?!
O sargento balançou a cabeça por várias e várias vezes;
— Foi culpa minha, Brass. — respondeu, ao se aproximar deles. O semblante era de alguém angustiado.
— O quê? Como assim, explica direito isso! — O capitão retrucou irritado.
O sargento contou tudo, todos os detalhes para Brass e o perito. Foram para fora. Teve alguns momentos que Grissom parou de falar, de repente, já que ainda estava em choque. Precisou retirar a camisa para que os peritos a analisassem e comprovar se havia transferência de resíduos ou não. Deram uma camisa azul de manga com o logo da polícia, e ele a vestiu. Após o breve depoimento, Brass precisou mandar outro detetive junto do perito para terminar o caso, e acabou liberando o sargento do trabalho; decisão da qual Grissom não gostou e chegou a relutar sobre. Queria muito encontrar a pessoa que fez isso com Gribbs como uma forma de redenção. Só que Brass o conhecia muito bem e sabia que Grissom estava alterado demais para continuar. Tudo que ele podia fazer, então, era voltar para dentro do hospital e rezar para que ela ficasse bem.
Uma hora e meia se passou. Grissom acabou pegando no sono e cochilou um pouco enquanto se encontrava recostado no sofá de espera. Inconsciente, imaginava acordar para a realidade e descobrir que tudo não passava de um sonho ou de um susto. Foi acordado pelo médico que participou da cirurgia de Gribbs. Levou um susto.
— Hã... oi doutor, como ela está?
O médico olhou para baixo por alguns instantes. Na mesma hora o sargento ergueu as sobrancelhas.
— Sinto te informar, sargento Grissom, mas a detetive Gribbs-
— Não... — Ele balançou a cabeça, vindo se levantar — Não, não me diga isso, por favor.
— Fizemos de tudo para salvá-la. A senhorita Gribbs teve uma grave hemorragia e seus órgãos internos foram obstruídos pelos projéteis. Ela passou por duas paradas cardíacas, porém não resistiu.
— Não. Deus... não, não, eu...! — Grissom mal conseguia formar frases complexas. De uma hora para outra foi estilhaçado.
— Senhor Grissom-
— Eu tenho que vê-la! — Se levantou bruscamente, mas parou da mesma forma. Não adiantaria.
O sargento desviou seu olhar em direção à emergência. Lembrou-se daqueles últimos instantes que passou com ela. "Vai ficar tudo bem", ele disse. Será que ela acreditou em suas palavras, ou sabia que Grissom apenas dizia aquilo de praxe?
Agora ela estava morta. E foi tudo por culpa dele.
Grissom levou as duas mãos ao rosto e ergueu sua cabeça para o alto. Estava desolado. Carregava em suas mãos o sangue de uma mulher inocente e o peso da culpa em seus ombros. Peso que carregaria por muito, muito tempo.
Todos receberam a notícia com total espanto e angústia em seus olhares. Foi um choque saber de uma tragédia como aquela, ainda mais com uma jovem policial que começara a decolar há pouco tempo. Sua mãe foi quem se entristeceu mais, desabou em tristeza. Grissom, mesmo que não demonstrasse, sofreu uma terrível dor interna, e que ninguém podia compreender. Silêncio.
No velório, no qual o sargento relutou em ir, as lágrimas não caíram. E por outro lado, seu interior gritava em prantos. Mal conseguia encarar a mãe de Holly nos olhos.
A partir daquele dia, ele nunca mais foi o mesmo. Desejou nunca mais trabalhar com alguém. E pagou caro por isso.
—--------------------------------------------------------------------------------
Foi o segundo cigarro dele. Grissom passava por aqueles momentos em que ficava sozinho e em silêncio a lamentar. No momento, só conseguia pensar no paralelo do passado e presente. Sara, mesmo contra sua vontade, era sua parceira. E agora, estava sozinha.
Não... não, não...
Se estava sozinha foi por culpa dele, que não conseguiu manter um equilíbrio emocional e psicológico e quase perdeu a vida. Foi afastado por isso, deixando a detetive continuar por conta própria.
Culpado. Era só isso que conseguia imaginar de si próprio.
Fale com o autor