Manhunters

99 Isto (não) é um interrogatório


Notas iniciais
Isto não é um treinamento, uma miragem ou um aviso de que eu vou excluir a fanfic! É isto mesmo, após um hiatus de dois anos, estou de volta com Manhunters. Dá pra acreditar? Vocês acreditam nisso?? Eu não acredito! Nunca foi meu real desejo dar um tempo na história, mas eu precisei de verdade; tanto para respirar novos ares quanto ao que se refere à minha vida em si. É tanta coisa que daria para eu escrever um capítulo inteiro só falando da minha vida, mas não vem ao caso. Mas foi muita coisa mesmo, já tive vontade de excluir a fanfic e parar de postar histórias por aqui. Cheguei bem perto mesmo, mas agora eu tô de volta com o meu maior desafio. Enfim. Acho que nesse tempo todo eu pude amadurecer mais um pouco na minha escrita e eu espero que isso seja refletido no meu texto de aqui em diante. Querendo ou não, essa história é o meu xodó e eu não poderia deixá-la incompleta. Não pensem que eu deixei ela de lado, na verdade vez ou outra pensava no que fazer no rumo dessa história. Não garanto que vou atualizá-la sempre, mas vou fazer o meu melhor para trazer sempre um conteúdo legal. Você que caiu de paraquedas aqui e nunca ouviu falar desse delírio chamado Manhunters: fique à vontade para voltar lá no começo e ler a fic, quem sabe cê gosta e começa a acompanhar comigo aqui? Vai ser um prazer receber gente nova e vai me motivar ainda mais a escrever. E quem acompanhava a fic antes, eu também te convido a reler a história caso tenha se esquecido do enredo e personagens. Não repara na bagunça, tá? Obs: a fic tá DE CAPA NOVA VÉI, olha só! Eu confesso que a segunda capa é a minha favorita, mas essa aqui tem meu apreço porque foi a capa que fiz ao planejar voltar com a história. Obs 2: Se me contassem no começo da fic lá em 2017 que eu viria um revival de CSI eu acho que ia acreditar sim, tá louco?

As imagens do evento e dos homens que entrou em contato vieram à mente e quebrou todo o clima de paz e calmaria. No meio de tantas pessoas, Sara insistia em tentar encontrar algum culpado, algum nome, algum rosto. Desligando-se do mundo ao redor, como se fosse a única pessoa ali presente, concentrou-se apenas em seus afazeres ao vestir uma calça de malha e uma camisa larga da cor vinho. Ficou em silêncio na maior parte do tempo, semblante fechado, diferente de como estava no banho minutos atrás.

O sargento optou por uma camisa de botões velha que costumava usar e por uma calça caqui pela qual também a aposentou para o trabalho. Quando se aproximou de Sara, não pôde deixar de fitar tela do computador e ver aqueles arquivos.

— Sei que está pensando neles. — Grissom comentou.

Ela mostrou um sorrisinho, sentou-se em sua própria cama e se recostou nela, preferindo não responder. Disfarçou como se não houvesse nada de errado.

— O que nós temos sobre os outros? — perguntou ele

— Achei que já tinha visto essas coisas.

— Não tive tempo pra ver tudo. — O sargento lamentou ao se sentar à beira da cama. Ele a observou tentar relaxar em vão os ombros cansados — Está tudo bem?

— Claro. — respondeu sem dar muita importância.

— Tem algo em mente?

— Primeiro nós temos que ouvir os Jenkins. Mas isso não me impede de ter algumas suspeitas, obviamente.

Grissom não era o senhor das emoções humanas, mas percebeu bem que ela se encontrava distante de alguma forma. Distante e tensa.

— Eu sei como é isso. — Ele tomou a palavra novamente. — Só que você precisa manter o foco ou vai acabar paranoica.

Baixando a tela do notebook como quem estivesse incomodada, Sara limitou-se a suspirar e a olhar para baixo.

— Digo por experiência própria. — Grissom gesticulou. — E por isso eu não quero o mesmo para você.

Ainda sem resposta. Segundos após isso ela abriu o notebook e fingiu voltar ao trabalho quando na verdade mal passara da tela de espera.

— Sara.

— Nós temos que... Continuar aqui.

— Não. — Ele protestou mantendo a voz baixa. Ergueu-se da cama e estendeu a mão para que lhe fosse entregue o computador. — Você tem que descansar. Vá para a cama dormir um pouco e deixe que eu cuido disso.

— Se for assim não vai ser o trabalho de uma equipe. — Sara era contra a ideia, mas seu olhar cansado já revelava muita coisa.

— Você já fez sua parte passando horas procurando por isso.

— E não me importo em passar mais algumas horas acordada.

O tom da detetive soou um tanto desafiador. O olhar fixo, escondendo todo seu cansaço por trás, mostrava que Sara não estava disposta a ceder tão cedo e Grissom percebeu isso. Ele passou a mão pelo rosto e admitiu para si mesmo que não podia vencê-la naquele jogo.

— Então eu vou te ajudar.

— Não, não. Vá dormir. O que adianta ter dois policiais num caso se nem um deles tira um tempo de descanso enquanto o outro trabalha?

— Tem alguma coisa incomodando você, não tem? — Ele ergueu a mão em sua direção.

— Gil, eu só quero... — Ela balançou as mãos na tentativa de afastar aquela discussão. — Terminar com isso logo, ok? — A mulher manteve a voz séria, sem dar indícios de estresse, por mais que seu rosto seu estado fosse outro — Tem muita coisa pra gente fazer e... acho que ficar discutindo não vai adiantar.

Grissom conhecia aquele tipo de situação muito bem para saber que não conseguiria mais que aquilo. Era muito mais proveitoso largar aquele cabo de guerra que correr o risco de ferir um dos lados.

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Oito horas da manhã, de volta à estrada. Eles seguiram para Cold Springs com uma expectativa alta, até demais. Grissom não sairia daquela cidadezinha até arranjar todas as respostas que buscava. Talvez o sol brilhando acima sem nuvens para escondê-lo fosse um sinal de que as coisas andariam desta vez.

Percebendo que ela disfarçou um bocejo — e desde cedo aparentava cansaço —, Grissom decidiu se manifestar:

— Não dormiu ontem?

— Hum? Eu... fiquei olhando os arquivos de novo. — Ela pegou o celular e procurou por alguma mensagem nova — É difícil trabalhar quando se tem tão pouco.

— Você fez um bom trabalho encontrando aquilo — disse ele enquanto focava-se na estrada.

— Ainda não é o bastante. — Sara lamentou, seu olhar pela janela era distante. — São... tantos nomes martelando na cabeça... — Ela pressionou dois dedos sobre as têmporas e fechou os olhos.

— Vamos encontrar esse desgraçado, mas não dá pra fazer isso se matando de trabalhar.

— Você me dando dicas assim? — Sara se virou para ele no mesmo instante trajando um sorriso irônico.

— Eu estou preocupado — confessou.

— Bem, obrigada por se preocupar comigo, mas... Não vale a pena. É melhor concentrar nossas preocupações nesse caso. Descanso pode esperar mais um pouco.

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A cidadezinha de Cold Springs pareceu ter sido deixada do mesmo jeito de quando a dupla foi embora: na marcha lenta, sem muito movimento, quase parada no tempo e espaço. Típico de um município do interior de Nevada que mais parecia um território sem nome. As reservas numa hospedagem ficaram para depois, o importante no momento era chegar à delegacia e tentar resolver os problemas de uma vez.

— Vai pedir desculpas ao xerife Horton?

— Ah! — Ele sorriu debochado.

— Você sabe que estamos num momento delicado, não sabe?

— Fazer isso é dar o que ele quer.

— E o que ele quer? — Ela perguntou com medo da resposta.

— Nos humilhar.

— Pode até ser, mas essa não é a hora de fazer mais um inimigo. Você viu como está a nossa situação; qualquer erro e acabou pra gente.

Ele sabia tanto quanto ela — até mais que ela — que tinham tudo a perder com um deslize naquela cidade. Talvez Grissom nunca esteve tão perto do fim quanto naquele momento. Era o tudo ou nada.

— Tá. — O sargento respondeu, segurando-se para não questionar ou inventar alguma desculpa.

— Ótimo. — disse satisfeita. Ao ver que se aproximavam da delegacia, Sara respirou fundo — Preparado?

— Preparado para o tudo ou nada? Imagino que sim.

Basta um pequeno caso, o menor que fosse para a maior parte de Cold Springs ficar sabendo sobre o ocorrido. Uma morte brutal de um jornalista mediano? Era a fofoca da vez. Tinha sempre alguém que vinha com alguma coisa nova, mentirosa, mas nova: fossem eles o motivos para o assassinato ou a identidade do criminoso. Um inferno na vida do xerife Horton.

Assim que chegaram na delegacia, os dois policiais atraíram olhares curiosos de um senhor de idade que aguardava ser atendido. Na recepção eles pediram para falar com o xerife e foram recebidos com um olhar receoso do oficial, que no final o chamou como lhe foi pedido.

— Política de não-agressão. — Ela o recordou ao sussurrar.

— Política de não-agressão. — Ele repetiu em voz baixa, quase se remoendo. Só de pensar em encarar o xerife sem dizer algumas verdades já seria uma luta.

— Podem entrar. — O rapaz falou, apontando para trás de si.

Sara foi na frente por precaução. Ainda que tivesse pedido ao parceiro para evitar uma discussão que parecia iminente, não saberia como o xerife reagiria no decorrer da conversa.

Ela bateu na porta rapidamente antes de entrar. Quando os dois já estavam dentro e o sargento fechou a porta receberam um olhar zangado do homem de idade, que arrumava uma bandeirinha dos EUA em sua mesa.

— Vocês chegaram. — disse o oficial, recostando em sua cadeira e cruzando as mãos — Imagino que vieram tirar meu cargo como xerife agora.

— Nós viemos, xerife, — No começo Grissom falou em voz alta, mas foi abafando — fazer o nosso trabalho.

— Ótimo trabalho, pelo visto — ironizou.

Grissom passou a língua pelos lábios e os pressionou com força para não soltar algo pior. Não-agressão, não-agressão... pensava seguidamente.

— Obrigado. — Ele retrucou no mesmo tom.

— Nós estamos prontos. — Sara tomou a palavra para impedir algo entre eles — Podemos seguir com isso logo?

— Vamos acabar logo com isso antes que os federais cheguem aqui, não é mesmo? — Evitando um desgaste ainda maior o oficial fez um gesto para que os dois se retirassem da sala assim como ele.

Sara foi primeiro, doida para sair dali e terminar com o clima pesado que se instaurou assim que os dois homens trocaram um olhar. Grissom se encaminhou para sair também, porém Horton foi mais rápido e se pôs quase a frente dele.

— Não pense que eu me esqueci do que você fez — rumorejou para que somente o sargento pudesse ouvi-lo.

— Bem esperto em pedir ajuda para o seu amiguinho de farda. — Grissom assentiu — O pior é que eu já esperava isso de você.

Lançando-lhe um olhar mortal, o xerife retornou à sua cadeira para pegar a jaqueta, dando espaço para o sargento ir embora desta vez. Só que Grissom continuou ali.

— Se tiver algo a resolver, resolva comigo, xerife.

— Não sou eu quem tá jogando baixo por aqui. — Horton apontou discretamente para Grissom, que deu um passo à frente, impedindo que Irwin saísse da sala.

— Não me venha dizer quem joga baixo. — Com isso, o sargento se sobrepôs ao homem e saiu primeiro. Sabia muito bem que se continuasse ali as coisas iriam piorar, e ele fez uma promessa à sua companheira que agiria o mais profissional possível.

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E lá estavam eles de volta à cena do crime... ou quase isso. Casa dos Jenkins, dez e seis da manhã. O sol brilhava forte sem nuvens e a brisa da manhã era agradável para um tempo fresco. A calmaria no lago era perfeita para quem tinha o desejo de pescar, só que não havia ninguém por ali.

Ao olhar para as águas, Grissom se perguntava se a última coisa decente que Ryan viu foi a vista de tirar o fôlego ou o punhal banhado com seu sangue. Torcia pela primeira opção.

Mas por que este lugar, perguntava-se, ainda possesso pela dúvida.

— Park escolheu esse local ou foi o assassino? — comentou sem imaginar que Sara estivesse prestando atenção.

— O lugar era conveniente para o assassino, talvez?

— Hã?

Rindo pela distração dele, Sara repetiu o que falou anteriormente.

— Pode ser, mas eu não sei...

— Obrigada pela resposta esclarecedora. — Ela brincou para amenizar o clima um tanto pesado. — Não vimos nenhuma anotação de Park que fala sobre isso aqui.

— Para o assassino ter que escolher esse lugar ele teria de estar habituado. Teria de ser um lugar conhecido, fácil para escapar se precisasse e munido de privacidade. — comentou após desligar o carro — É muita coragem para matar aqui. Devia estar embriagado de coragem.

Haviam poucas árvores em torno do lago, fácil para alguém ver e ouvir um crime quem passasse por perto. A maior desvantagem, todavia, era que aquela cidade era pouco habitada e local do crime ficava relativamente distante da maior concentração de casas.

— Acha que foi Park quem escolheu o lugar?

— Faria sentido. Seria um respaldo para sua segurança. Mas não adiantou em nada no final. — Grissom viu o xerife já próximo da porta da casa, mas não iria sair sem esperar por Sara.

— Eu notei que você levou um tempo a mais antes de sair da sala do xerife. — disse ela, mudando de assunto antes de deixar o carro.

— Notou? — Ele se fez de desentendido.

— É, notei — resmungou, esperando por uma resposta melhor. Nenhum dos dois acabou saindo do carro.

Antes de responder, Grissom suspirou e apoiou as mãos no volante.

— Foi ele quem começou.

— Gil. — A detetive cruzou os braços chateada.

— Estou falando sério. — Ele a encarou para mostrar que dizia a verdade — Veio me “lembrar” do que fiz, aquele filho da mãe. Como se isso fosse me deixar com medo dele. — Grissom desdenhou.

— O que você fez? — A cada pergunta que fazia, Sara ficava mais preocupada com a resposta.

— Só respondi a ele sem soar agressivo. — O sargento deu de ombros — Disse que se tiver alguma coisa para resolver, que resolva comigo.

Ela o encarou com um semblante reprovador.

— Eu terei cuidado — completou, mas pareceu não fazer tanta diferença para ela.

Horton já havia batido na porta e chamado por Mary. Quando os outros dois policiais se aproximaram, entretanto, ainda tiveram que esperar por mais alguns segundos. Foi quando o xerife chamou pela dona da casa novamente. A porta foi aberta e quem apareceu foi um jovem que segurava uma bengala branca ainda dobrada. Vestia uma calça jeans e uma camisa preta por dentro da calça. Apesar do olhar voltado para baixo, era possível notar manchas em forma de névoa em seus olhos. Pela cor da bengala, Douglas era cego.

— Ei, xerife. — disse ele.

— Ei. Estou aqui com os policiais, Douglas. Podemos entrar?

— Claro. — respondeu dando de ombros — Minha mãe já tá vindo.

O garoto se afastou para o lado a fazer com que eles entrassem. O xerife foi primeiro. Em seguida, Grissom que estava meio sem jeito, desviou o olhar de Douglas e entrou em seguida. Sara foi a última esperou que o garoto fechasse a porta.

— Vocês estão aqui por causa do Ryan, não é? — Douglas, percebendo que ela estava por perto ainda, perguntou.

— Sim — respondeu assertiva. — Estamos investigando algumas pistas que vão nos levar ao criminoso.

— Ok. — Ele pareceu não dar muito crédito. — Espero que achem ele.

A casa era bem simples — não muito diferente de como esperavam ao atentarem para a fachada — e aparentemente confortável para uma família de duas pessoas. A sala era relativamente pequena; um único sofá no centro, lareira ao fundo, uma TV de vinte polegadas e uma mesinha com duas cadeiras próximas à janela no canto direito; talvez a maior e única janela observada até agora. O interior era decorado com tons claros, prontos a captar o máximo de luz que vinha de fora. Pouquíssimos porta-retratos, apenas três dos quais Grissom conseguiu contar por uma sondagem rápida.

Os móveis e objetos estavam bem organizados e o chão de taco parecia captar seus reflexos de tão limpo.

— Aí estão vocês. — disse a mulher que veio por um corredor, talvez. Ela vestia uma calça de algodão preta, chinelos e uma jaqueta marinho fechada. Seus cabelos estavam presos num coque não muito preciso.

— Ei, Mary. — O xerife se afastou dos outros e se aproximou da mulher enquanto o garoto preferiu sentar-se à janela.

Os dois trocaram alguns cochichos, impedindo os dois policiais de fora em ouvir. Pelo decorrer da história o xerife que era o conhecido dela teria mais sua confiança que forasteiros.

— Olá, senhora Jenkins. Somos os detetives da polícia de Las Vegas, como já deve saber — Sara caminhou em sua direção para apertar-lhe a mão. Chegou a ser retribuída, mas sem tanto empenho como já esperava. Grissom se limitou a permanecer no mesmo lugar que estava.

— Podemos falar aqui ou na delegacia. Eu não faço questão de onde seja o lugar, senhora. Só peço que nos ajude com essa investigação. — Ao terminar de falar, Grissom visou o xerife por um instante.

— O que acha? Não vai ter problema em dar seu depoimento aqui, onde acha mais confortável — ressaltou Horton.

— Tá. — Assentiu como se não tivesse outra escolha. — Tudo pra acabar com isso.

— Se não se importar, podemos falar aqui na sala. — Sara sugeriu e recebeu uma resposta positiva. — A senhora tem um advogado para acompanhá-la?

— Eu serei o representante legal dela. — disse o xerife alguns momentos depois.

Um silêncio desconfortante tomou conta do local por uns instantes.

— A senhora tem certeza? — Irritado, Grissom perguntou a Mary. — Vai ter respaldo total e todo o auxílio necessário se chamar um ou pedir por um defensor público.

— Eu confio nele. — A dona da casa se manifestou. Ela cruzou os braços e, olhando para filho, parecia meio distante.

— Senhora Jenkins, o xerife não é advogado. — O sargento insistiu.

— Ela está sendo acusada de algum crime ou coisa parecida? — Horton começava a dar as caras de que a qualquer momento seria capaz de acabar com aquilo.

— Só viemos conversar com ela. — Sara pôs-se em tom moderado. — Não há necessidade disso.

Percebendo que ganhara a atenção fixa de Grissom, ela o visou e viu que não se dava por satisfeito.

— Se importa se trocarmos algumas palavras na cozinha, senhora Jenkins? — Grissom perguntou por entredentes.

— Vá em frente. — A mulher apontou a direção do cômodo, sabendo que estava de mãos atadas.

Grissom apertou o passo e foi na frente, sem se importar de que sua mudança de humor era visível ou não.

— O que que é isso? — Ele questionou indignado logo após chegar em um espaço seguro. Afrouxou a gravata que o sufocava e então apoiou as mãos sobre a cintura.

— O que a gente pode fazer? Estamos no campo deles.

— Eu posso acabar com isso agora mesmo se levarmos ela até a delegacia. — Grissom apontou para a porta. Falou baixo, mas rigorosamente.

— A gente não tá em Vegas, Gil, essa aqui não é a nossa jurisdição — alertou Sara, que no momento desaprovava o comportamento do parceiro. — É a gente que pode ir pra cadeia aqui, se esqueceu?

— Até chegarmos na delegacia já encontramos uma brecha pra fazer isso.

— Gil, pelo amor de Deus! — Sara deixou-se desgastar pelo estresse e se alterou um pouco. — Percebe o que você tá dizendo? — advertiu sem medir a rigidez de suas palavras. — A gente não está em posição de dar as cartas, se tentar algo assim acabou! Não entendeu?

No instante em que disse aquilo, ela virou o rosto para o outro lado e passou a mão pela testa. Odiava chegar aos extremos e odiava discutir com um colega numa fase tão delicada das investigações. Pior ainda, era quando seu parceiro também era seu namorado.

— Nós estamos prontos. — Diante da entrada da cozinha, Horton apareceu sem dar alarde. Se ouviu ou não a discussão talvez não faria diferença para os dois.

Grissom e Sara trocaram olhares conflitantes. Seguiram até ali na intenção de entrarem num consenso e sairiam mais enfraquecidos ainda. Ela foi a primeira a deixar a cozinha, uma mensagem clara de que não iria adiantar continuar com aquela perda de tempo.

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Contra sua vontade, Douglas ficou em seu quarto para não ter que ouvir aquele tipo de assunto. Os outros ficaram pela sala mesmo, o espaço mais amplo e adequado da casa. Enquanto o xerife e a mulher sentaram-se no sofá, Grissom e Sara pegaram as cadeiras próximas à janela e a puseram frente a eles.

Um gravador foi deixado na mesinha de centro para registrar os eventos. Foi Grissom o primeiro a se manifestar:

— Dia 24 de novembro...

O silêncio de Grissom deixou sua parceira curiosa. Ela se virou em sua direção como quem quisesse perguntar algo, mas sabia que não seria bom para a gravação.

— Dia 24 de novembro. Casa da senhora Mary Jenkins, 48. Conversa registrada para fins de investigação.

Aquilo não era um interrogatório. Se tivessem que ir ao tribunal usando aquilo como prova seriam execrados por um advogado mediano qualquer.

— Presentes na sala além da senhora Jenkins, estão o xerife Irwin Horton, a detetive Sara Sidle, e eu, sargento Gil Grissom. — Ele visou o relógio em seu pulso. — Dez horas e vinte e dois minutos.

Antes de continuar, o sargento olhou para sua parceira e recebeu um olhar de aprovação.

— Senhora Jenkins, nos diga. Aonde estava na hora em que o crime ocorreu no dia 11?

A mulher respirou fundo e afastou uma mecha solta de cabelo para trás e o arrumou junto ao coque, vindo a olhar para o xerife, que com um gesto discreto, incentivou-a a dar seu depoimento.

— Eu e meu filho estávamos aqui.

— Seu filho, Douglas Jenkins?

O semblante dela se fechou ao receber uma pergunta tão óbvia.

— Sim.

Foram necessárias poucas palavras para colocar em questão boa parte daquele caso. Quebrar afirmações e certezas, minar a credibilidade do xerife e sua palavra.

— Presenciou o momento do crime, senhora Jenkins? — Grissom tomou a palavra novamente. Sara continuou na mesma posição, mas pronta para reagir se fosse necessário. Apesar dos conflitos ela confiava em sua capacidade em conduzir interrogatórios; ou o que quer que fosse aquilo.

— Não. — A mulher respondeu baixo, após hesitar um pouco.

— Então por que você e seu filho saíram de casa? Ou melhor... — Ele ergueu a mão direita — Porque eu e a detetive Sidle fomos informados de que vocês não estavam? — Novamente o sargento lançou o olhar para Irwing, que se mantinha quieto. Desta vez ele reparou que o xerife pressionou as mãos sobre os joelhos brevemente.

— Por que eu disse a ela para fazer isso. — O próprio xerife quem respondeu desta vez.

Tem certeza que é você quem não precisa de um advogado, xerife?

— Senhor Horton. Eu vou pedir que não interfira nessa conversa ou teremos que resolver isto em outro ambiente. — Grissom nem parecia o homem enfezado de minutos atrás. Na verdade, foi como se adquirisse outra personalidade ao início daquela gravação.

— Isto não é um interrogatório — explicou o oficial do município. — Então me sinto no dever de esclarecer quaisquer pontas soltas.

Apesar de não parecer ter perdido o controle de suas emoções, Grissom poderia fuzilá-lo com um único olhar.

— E por que fez isso então, xerife Horton? — Grissom o questionou, sabendo que de uma forma ou de outra teria de entrar em seu jogo.

O homem de idade se levantou, apoiando-se sobre as pernas. Para a surpresa do sargento, que não esperava seu próximo passo, Horton se aproximou do gravador e o pausou. Aquilo fez o sargento mudar de semblante na mesma hora e perder toda a santa calma que milagrosamente havia adquirido.

— O que está fazendo?

— Vocês sabem como é a situação de uma ex detenta e o risco de sofrer um processo por somente falar sobre isso.

— Eu sei muito bem, eu sou um oficial. Mas isso não te dá o direito de pausar essa... — Ele pressionou os lábios com força para evitar um palavrão. — Essa maldita gravação.

As coisas não podiam sair do controle naquela hora, não naquela hora. Mais um estouro e a detetive teria que intervir de alguma forma, nem que isso interrompesse o depoimento de vez.

— Isto não é um interrogatório, bem como disse agora há pouco — manifestou a detetive. — Não tem valor legal, contanto que vocês colaborem.

— Por Deus, você acha que nós queremos ela, ou você? — Grissom voltou a falar e não maneirou o tom. Ele sabia que ia instaurar um clima incômodo, mas já era tarde. O xerife sugara talvez os últimos resquícios de sua paciência.

Horton respirou fundo e observou sua “cliente” encará-lo um pouco apreensiva. O homem passou a mão sobre a nuca e voltou a atentar para os dois policiais.

— Estou evitando maiores desgastes com ela, para não chegarem a vereditos apressados — explicou ele, num tom mais moderado. — Eu assumo a responsabilidade por tê-la tirado da casa para não testemunhar.

— Ponha pra gravar de novo — ordenou Grissom, apontando para o aparelho. Naquele momento não se importava se ele era a maior autoridade local.

Se fosse numa outra ocasião, Horton não pensaria duas vezes em revidar ou até mesmo tomar uma atitude quanto a isso. Mas pensou na mulher ao seu lado e reconsiderou, pois daria a eles o combustível que tanto gostariam de levar o caso para outro lugar. E após isso não teria mais controle sobre a segurança de Jenkins. Então ele retornou a gravação.

— Então diga para nós, xerife. O que ocorreu momentos após o crime? — Seu tom saiu quase em provocação, mas ele soube se conter.

— Eu posso contar isso. — Mary se dispôs a falar pelo homem.

— Não. — Horton ergueu a mão e voltou a se sentar. — Eu conto essa parte. — Ele respirou fundo novamente antes de responder — Assim que Mary soube do crime ela ligou para a delegacia e eu a indiquei que saísse de lá para evitar problemas para ela e o filho.

— E como ela soube do crime? — Sara perguntou, curiosa pelo fato já que a mulher não chegou a descrever isso ainda.

— Meu filho.

A voz dela pareceu ecoar pela sala, cortando parte do raciocínio dos dois policiais de Vegas. Ouvindo aquilo, o primeiro questionamento que chegou à mente do sargento foi se o garoto presenciou o crime ou se havia entendido errado.

— Como assim, senhora Jenkins? — perguntou impaciente, inclinando o corpo um pouco para a frente.

Ela olhou para os lados um tanto apreensiva, mas como alguém que tentava esconder suas emoções. A presença de Grissom a intimidava, mesmo estando a pouco mais de um metro de distância. Ela o visou no olhar e pôde notar um homem sedento por arrancar respostas nem que fosse à força.

— Douglas estava... ele...

A mulher não conseguia completar uma frase e acabou se perdendo em sentenças vazias.

— O que ele estava fazendo, senhora Jenkins? — Grissom insistiu, chamando a atenção de sua parceira que o observou discretamente.

— Ele estava do lado de fora da casa.

— E a senhora não estava por perto? — indagou ele ao dar de ombros.

— Meu filho conhece a área perto da casa e o entorno. Já estou acostumada e isso não me preocupa. — A mulher respondeu por pura pressão.

— O que ele te disse? — perguntou Sara, virando o rosto para atentar à porta.

— Disse que havia algo estranho lá fora.

— E o que fez? — Grissom não recuou, sentindo que estava perto de algo claro naquela história toda.

— Eu falei para ele ficar lá dentro e fui ver o que era. — Mary se recostou no sofá e fixou seu olhar nos policiais. Ela parou de ficar olhando para o xerife ao seu lado.

— Você chegou a encontrar o assassino ou vê-lo escapar?

— Não, não vi nada. Caminhei um pouco e logo depois eu vi o Ryan caído no chão.

— Hum... — O sargento assentiu para a mulher e moveu os lábios para o lado por alguns segundos

— Ele ainda respirava quando o encontrou?

— Eu... — hesitando ao tentar puxar suas memórias, o rosto de Mary pareceu se encher de culpa. — E-eu não lembro ao certo. Eu... só lembro de ver aqueles olhos abertos... uma... uma coisa na testa dele. Acho que Ryan já estava morto. Me desculpe, foi o... nervosismo.

Se ela checou ou não os sinais vitais de Ryan era uma conversa para outra ocasião, então Grissom deixou os julgamentos de lado.

— Por acaso a senhora conhecia a vítima?

— Por que a pergunta? — O xerife se manifestou logo, não gostando muito do questionamento.

— Bem... — Ele fez um gesto com a mão — Parece bem chegada a ele, como se o conhecesse.

— Está especulando. — Horton o repreendeu.

— Isto não é um interrogatório. — Grissom retrucou na mesma hora. Pego de surpresa, o xerife se viu sem munição para contorná-lo. — Perguntei a ela se conhecia a vítima e especulei se ela o conhecia. Geralmente as testemunhas que não conhecem a vítima não a chamam pelo nome. Claro... Isso não se aplica a todos os casos.

Mesmo que não conseguisse sua resposta, a reação de ambos já foi o bastante.

— É, eu conhecia ele. — Jenkins respondeu de repente.

Era o que ele imaginava.

— Ótimo, estamos progredindo por aqui. — O sargento se recostou — Como se conheceram?

— Isto é irrelevante, sargento. — Desta vez o homem mais velho interveio.

— Ok, vou reformular minha pergunta. — Grissom continuou após suspirar. — Qual a relação entre vocês dois e o fato de a vítima cair morta bem em frente à sua casa? Está bom agora? — Grissom fez questão de encarar o xerife.

A pergunta foi dura, mas foi certeira. Sara manteve seu olhar fixo à mulher e ao xerife. Em seu modo, conduziria o “interrogatório” de outra forma, porém acabou concordando com os métodos do parceiro.

— Eu não sei, sargento. — Ela fez um gesto em negativa.

— Como ele foi parar aqui, Mary?

Inquieto, Grissom estava disposto a sair daquela casa com algo concreto; mais concreto que apenas especulações.

— Tudo o que eu sei é que há alguns dias antes de vir aqui ele me ligou dizendo que tinha um trabalho importante.

— E o que mais?

— Ele me disse que iria falar com um conhecido sobre o trabalho que seria realizado aqui e perguntou se eu poderia recebê-lo.

— Na sua casa? — questionou Sara, deixando escapar sua curiosidade. — Você permitiu que ele viesse até aqui e trouxesse um desconhecido?

— Ele era uma pessoa legal... — completou a mulher. — Mas eu não sei o que aconteceu, eu juro. — Mary ergueu os braços em rendição — Só sei que esse trabalho não aconteceu. Sabia que isso ia dar errado no momento em que as coisas desandaram para Ryan.

— O que quer dizer com isso? — A detetive continuou.

— Que ele não devia confiar nessa gente aí... prometendo coisas... Esse tipo. — Ela gesticulou para deixar para lá. — Acho que... era um informante.

Grissom e Sara trocaram olhares tensos.

— Certo... — Após um suspiro, Grissom continuou com o raciocínio — Um possível informante. Por acaso ele queria ter alguma testemunha caso algo desse errado?

Grissom não iria parar de insistir com aquele assunto em particular. Persistiria até as últimas instâncias, até pegá-los de surpresa e deixá-los numa posição que seria impossível retornar.

— Não tente colocar palavras na boca dela, sargento.

Azar do sargento que aquela conversa estava sendo gravada ou seria capaz de rebatê-lo sem o menor receio.

— Ele não me contou muita coisa, mas acho que o informante estaria no evento que teve recentemente.

— E logo a frente da sua casa seria um local ideal para o encontro. — deduziu o sargento.

— Acredite no que quiser. — Mary retrucou, percebendo seu tom debochado.

— Então vamos recapitular por aqui. — Grissom fez um gesto com as duas mãos — Você e seu filho estavam aqui no dia e hora do crime. O motivo pelo qual Ryan estava por perto foi porque te conhecia e por isso achou uma boa ideia marcar o encontro com o informante para... sabe-se lá o que. — O homem deu de ombros — No momento do crime você estava aqui na sala... — Ele olhou para a porta — E Douglas estava do lado de fora, não é mesmo?

— N-não, eu não falei nada disso. Eu expliquei que eu soube do crime pelo meu filho. Ele não sabe de nada mais que isso. — A mulher respondeu na hora, já imaginando as segundas intenções do policial.

— O que ele estava fazendo?

— Sargento. — disse o xerife, num tom mais de alerta.

Mas Grissom não parou, pelo contrário, ergueu a mão direita para que Horton não continuasse e sim a interrogada.

— Ele estava aqui comigo!

— Não entendeu que Douglas descobriu o corpo de Ryan logo após o ocorrido? — Horton replicou por ela.

— O que ele realmente estava fazendo, senhora Jenkins? Não nos disse que estava aqui com o seu filho na hora do crime? Como pode me dizer que ele saiu de casa e depois voltou? Isso foi antes do crime ou depois?

Foi a brecha que Grissom aguardava para atacar. Nem a presença do xerife foi capaz de impedi-la de cair em uma armadilha do sargento.

— Não quer me responder ou nós vamos ter que perguntar a ele?

Ser ou não uma persona non grata naquela cidade não faria tanta diferença para Grissom, contanto que conseguisse o que gostaria. Não faria questão de voltar àquele local tão cedo que não fosse somente pela sua investigação.

— Em que momento foi isso, senhora Jenkins? — persistiu ele, levando a mulher aos poucos a um desgaste psicológico.

— Ele não estava lá o tempo todo! — retrucou, mais perturbada agora. Faltou pouco para que levantasse e caminhasse na direção do sargento para lhe lançar aquelas palavras cara a cara.

Era o que ele queria: pressão até ela cedesse.

— Então me diga o que houve! — Ele também aproveitou para erguer um pouco a voz.

A mulher tomou um tempo para fazer um gesto em negação e respirar fundo. Chegou a olhar por alguns instantes para o xerife, seu “advogado” que até o momento não conseguiu menos que algo.

— Eu não fiquei na sala o tempo todo. Eu fui para meu quarto, m-mas não saí e nem deixei que ele ficasse lá fora até que tudo tivesse acabado. Ryan me pediu para ficar de olho, mas eu não fiz isso. Acabei ficando longe deles para evitar saber demais. — Ela tomou uma pausa para respirar após ter seguido num ritmo acelerado.

— Você foi ameaçada? — perguntou Sara.

— Céus, não! — Mary replicou após engolir em seco, detalhe para qual o sargento atentou.

— Douglas queria caminhar um pouco, mas eu o mandei ficar aqui dentro. Depois que eu deixei a sala, uns minutos depois ele me gritou dizendo que havia algo estranho lá fora e eu fui verificar. Foi quando vi o corpo dele.

— E depois, senhora Jenkins? O que fez depois?

Além de fugir.

— Eu liguei para a delegacia.

— E é aí que o senhor entrou, não é, xerife? — O sargento não perdeu a oportunidade de alfinetar Horton na medida do possível — O que disse a ela?

— Ela tem ficha, conhecia o cara. O que você iria imaginar, sargento? — Ele retrucou.

— Que ela era uma suspeita, como segue toda e qualquer investigação. — Grissom fez um gesto com as mãos — Porém isso não aconteceu. Você a fez “desaparecer” — Ele gesticulou o sinal de aspas.

Horton se limitou a fechar o semblante. Que respaldo teria para confrontar Grissom após aquela resposta? Preferiu então se resguardar.

— E o garoto?

— O que tem ele, senhor Grissom? — A mulher parecia mais preocupada que antes.

— Quero saber o que ele tem a dizer.

— Não é necessário envolvê-lo, já tem o que queria. — O xerife interveio.

— Claro que é necessário, ele pode ser uma testemunha em potencial. — O sargento ergueu as mãos inconformado.

Não era o real desejo Grissom envolver uma criança naquela história toda, mas já foi enganado demais para acreditar com facilidade em qualquer coisa que empurrassem para ele e Sara.

— Douglas faz parte desse caso, queiram vocês ou não. Também merecemos saber o que ele percebeu no dia do crime.

— Não. — Negando veemente a mulher se levantou aos poucos, vindo a encarar o sargento e a detetive de pé — Não, vocês não vão envolver meu filho nessa. Já estou me expondo demais e agora você quer isso?

— Já fomos enganados uma vez. Tudo o que a gente quer, senhora Jenkins, é acabar com isso sabendo que não haverá engano de novo. — Grissom se manteve sentado. — Seu filho vai ser poupado de qualquer ação posterior.

Mary continuou negando com a cabeça, e desta vez deu por fim o interrogatório na força, deixando a sala com pressa em direção à cozinha. Porém, antes de sair da vista dos policiais ela deu meia-volta e os lançou um olhar odioso.

— Se já acabaram por aqui então podem ir embora. Eu não falo mais nada.

O sargento sorriu em sarcasmo, fazendo um gesto negativo e vindo a se virar para Sara. Ele uniu as mãos e suspirou pelo cansaço no cabo-de-guerra. Aquela brincadeira o estava deixando irritado. Ou melhor, já passara disso.

— E agora? — Aquilo saiu quase como uma provocação. Ele se levantou e pausou a gravação em vez de encerrá-la — Não vai convencer sua cliente a cooperar? — perguntou logo após ter pausado.

— Vocês transformaram isso num circo.

— Um circo mesmo, xerife Horton. Nós dois aqui fomos feitos de palhaços por vocês!

— O assassino é de vocês. Eu não tenho culpa se vocês não conseguem segurar isso aí.

— Agora o assassino é nosso. — O sargento riu por sarcasmo. — A cidade aqui é sua, não? Quem é o incompetente?

Ele não daria a mínima se naquele momento perderia total apoio da polícia ou da vizinhança local sobre aquele caso. Se a investigação corria a passos lentos o maior culpado era aquele xerife e Grissom não deixaria barato.

Então o homem mais velho interrompeu a gravação de vez.

— Saiam daqui — intimou-os sem pestanejar.

— Não acredito que vai mesmo fazer isso. — O sargento não se dava por satisfeito.

— Eu ainda carrego o distintivo dessa cidade e posso muito bem prendê-los por coerção. Não acho que seus superiores vão ficar satisfeitos em tirar a bunda de vocês da cadeia.

Afinal, Grissom não era o único a saber usar o poder para conseguir o que desejava.

O xerife se retirou em direção à cozinha, deixando apenas os dois ali. Sara suspirou por decepção e incredulidade. Não conseguia acreditar que chegaram tão perto de alguma coisa e, de repente, tudo desandou de uma vez.

— Vamos embora — sugeriu ela ao tocar em seu ombro. Já de pé, Grissom olhava para o nada completamente desarmado. Compartilhava do mesmo pensamento que Sara, talvez até pior.

— Deus... — Ele pressionou as têmporas com força ao ver tanta coisa escapar por suas mãos.

Os dois se encaminharam para a porta com a sensação de um tempo perdido, trabalho e esforço perdidos.

— Policiais...? — a voz um pouco baixa despertou a curiosidade de Grissom, que se virou para trás logo em seguida.

— Douglas? O que está fazendo aqui? — Sara perguntou preocupada e visou logo a cozinha. — Não devia estar no quarto?

— Eu ouvi vocês falando.

Grissom não conteve uma breve risada. O pior de tudo era que não estava surpreso.

— Minha mãe não quer falar porque tá assustada.

— Assustada? — Sara o questionou.

— Ela tá com medo do... cara que matou o Ryan.

— Era de se esperar. — completou Grissom, sem dar muito crédito ao que Douglas falou — Nós tentamos, garoto, mas ela não quer a nossa ajuda. — A não ser que você saiba de algo que sua mãe não contou, infelizmente não podemos fazer mais nada.

— Eu... — Douglas hesitou — acho que-

— Douglas?!

Ao ver o filho perto daqueles policiais ela correu desesperada para perto dele e o puxou para trás de si.

— Canalhas, o que estão fazendo com ele?!

— Estávamos de saída, senhora Jenkins. — respondeu o sargento, olhando disfarçadamente para seu filho.

O xerife chegou segundos após a mulher e se pôs próximos a eles.

— Deixem o garoto em paz, eu tô avisando — alertou o xerife de modo ameaçador.

O que quer que fosse que Douglas iria dizer já não iria adiantar mais de nada. Fora totalmente blindado pela mãe e pelo xerife. Azar dos forasteiros.

Notas finais
E nos vemos por aqui! Bem. Esse capítulo foi uma reestreia da fanfic, um gostinho para o que está por vir. Eu não garanto que vou postar os caps semanalmente como fazia antes. Infelizmente não posso prometer nem quando vai sair o próximo capítulo kkkkk Mas eu quero que saibam que meu foco agora está voltado apenas para essa fanfic. Eu agradeço a paciência de dois anos que vocês tiveram e quero dar boas-vindas para quem chegou até aqui recentemente. Ai cara é tanta coisa aqui pra falar. Eu tenho certeza que após a postagem desse cap vou ter me lembrado de uma ou outra coisa que pensei dizer e acabei me esquecendo. É osso cara, vou te falar... Obrigada a todos que leram, até o próximo capítulo!
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.